I. Renitente
Passa severo, ereto, renitente.
Resiste há uma vida ao que o exorta.
Traz às costas sinais do que não sente,
um couro enrijecido, pele morta.
Procura ter desprezo a toda gente.
Não que os desgoste. Não. Tudo o que importa
é evitar que um descontrole o tente.
Todo imprevisto ele prevê e corta.
Se é o uso que faz a boca torta,
risos, sussurros, sopros são tormento
para a alma, a espinha e a aorta.
No entanto, distrai-se por um momento.
Parece que vê abrir-se uma porta.
Por sorte, passa ali somente vento.
II. Chuva criadeira
Entrei e, mal fechei a janelinha,
assomou da soleira a tempestade.
Invadiu-me a sala, o pouco que tinha,
uns poemas (do Pessoa, o “Liberdade”)
Voou tudo. Foi papel, foi Martinha,
foi memória, foi giz, foi Tito Madi.
Danado, o vira-o-tempo, e eu na linha,
que vendaval é esse que me invade?
Choveu, fazer o quê? Buscar abrigo,
se é nele e n’água que agora me sento?
Posar de seco e fingir que nem ligo?
Ora, é melhor manter o olhar atento
e ao ouvido chamar o verso amigo.
Em vão te esperei durante anos. Bastou abrir a porta que sempre me seguiu para onde quer que fosse e vi-te, ora ciclone, ora luminosa brisa. Nasceste vento: por ti lhe abri as portas e me fiz ao mundo. Deste-me a vida, e fechaste a porta. Quem não abre a porta do vento morre na calma podre da tua ausência.
Texto enviado por: Luís Serpa
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Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos, com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.
Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.
Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.
O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.
No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha…
Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.
Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.
Texto enviado por: Carlos Barbosa de Oliveira
sem destino
sem promessas
sem data de regresso
de portas abertas deixo-me seguir
o vento espalha o fumo
que denuncia a minha passagem
vou de viagem
voltarei?
Texto enviado por: Sofia B.
de uma porta por onde um vento anda
lembras-te
quando me abrias a porta
quando ia o vendaval
não eram ventos
era o vento que por mim ia
de te querer inteira
vestal
Texto enviado por: Pedro Faria Lopes
No fado das palavras
Tenho andado a pensar por que falamos tanto do tempo e por que carga de água alguns fazem a previsão do tempo atmosférico enquanto outros fazem a provisão para o tempo das necessidades. A marosca deva estar relacionada com a alma lusitana e com o fado das memórias. Dos antepassados navegadores ficou a previsão do tempo, fundamental tanto para a navegação no alto mar, como no céu dos mares. Para além disso, a previsão do tempo determina viagens e tem um aspecto preventivo e estratégico, já a provisão para o tempo condiciona as pessoas é aborrecido e lembra um fado arrependido. Gosto mais do primeiro fado. Ele é preventivo, não seremos apanhados desprevenidos se chover, se o aeroporto fechar, se nos perguntarem pelo tempo, para recomendarmos um guarda chuva, para aconselharmos um agasalho e para despachar as inquisições do senhor que convive connosco e nos pergunta de rompante e sem vergonha numa sexta feira à noite “olha lá, onde é que estiveste até agora?”. A resposta do tempo, do trânsito e do vento que abalou estradas e caminhos está sempre bem. Qualquer cabeça de vento se lembra desta resposta para desculpa caseira. Serve igualmente, para às segundas feiras de manhã justificar ao excelentíssimo, que por um dia decidiu chegar antes de nós, que o trânsito estava um caos, e ainda por cima tivemos de atender o fornecedor de paraventos na porta da entrada, que por sinal já devia há muito ter um guarda vento.
Este é um fado estratégico que não nos deixa ficar mal quando nada mais tivermos para dizer, e só para não ficarmos mudos e especados perante outros iguais, introduzirmos a situação meteorológica e o tema dos cumolonimbos, dos nimbos e cirros, sabendo nós que é só para aborrecer a cabeça de quem nos ouve, já que não interessam para nada, quem quiser vê na net e a maior parte de nós não tem queda para estas coisas do tempo. Por outro lado, é tema que não interessa a quem tem a porta fechada e a cabeça num lugar onde o mar é mais azul e as praias têm areia de cor dourada. E como já me desviei do ponto, estacionei no tempo da canção e da Ericeira.
E quando me lembro destas coisas, vem-me ao espírito, que é como quem diz ao fado da memória, o zumbido do Vimeiro. E de quem adorava aquele sítio porque lhe fazia lembrar as praias do Norte, todas elas com uma coisa menos o que queremos ter numa praia, ou seja, pouco ou nenhum vento e águas quentes. E também não posso deixar de me lembrar da mania das correntes de ar, mas parece que isso é segundo um brasileiro meu conhecido, invenção dos portugueses.
Sendo certo que a provisão para o tempo das necessidades é mais ao género do contar moedas e a previsão de ter provisão é assunto demasiado chato com maior probabilidade de me fecharam a porta atribuindo o descuido ao vento, e sendo as correntes de ar uma invenção da nossa alma lusitana, vou perguntar ao vento se posso sair de mansinho por esta porta que me convidou a entrar no fado das palavras.
Texto enviado por: Grande Jóia
I
Textos e imagens enviados por: Si
Sétima arte
No dia em que fez quarenta anos, encomendou uma dúzia de rosas vermelhas. Reservou a melhor mesa no Café Central. A que ficava ao lado da porta envidraçada. Vestiu-se de rosa malva e comprou uma aliança de ouro branco, que colocou na mão direita. Às oito em ponto, pediu ao pianista que tocasse o tema de “E Tudo o Vento Levou”. No final da música, entregaram-lhe as rosas, que ela agradeceu com os olhos rasos de lágrimas, enquanto acariciava a aliança no dedo. Aos que estavam sentados na mesa ao lado pareceu-lhes que ela sussurrava um nome. Sérgio, talvez. O dono do café trouxe o bolo que ela encomendara. Ela partiu-o delicadamente. No lábios o mesmo sorriso comovido. Ninguém sabia o nome dela. Limitaram-se a felicitá-la pelo aniversário enquanto ela pousava os pratos com bolo nas pequenas mesas de café. Ela agradecia e acrescentava: É receita da minha mãe...
Texto enviado por: Cristina Nobre Soares
Texto enviado por: O Jansenista
entre rios
nasceu
doce, manso
de ornato verbo
pressagiava-redimia
encantava-prometia
a porta que abriu
deixou em chamas
da sua passagem
restou o vento
Texto enviado por: Margarida Pereira
E a tempestade que não amainava.
A chuva caía que Deus a dava, que bem a ouvia cantar nas velhas telhas.De quando em quando um clarão entrava pela janela e iluminava o quarto que há muito ficara às escuras, quando um trovão mais forte desligara a electricidade. Ainda bem que, aos primeiros sinais de borrasca, trouxera fósforos e velas...
O vento a assobiar, lembrando-lhe os uivos dos lobos, por entre as negras árvores fazia-a estremecer, e puxar os cobertores até aos olhos - sentia-se mais segura...
Quando tudo parecia que ia ficar mais calmo, ouviu um estrondo que quase a fez saltar da cama; com medo, mas decidida, acendeu uma vela, lançou um xaile pelos ombros e foi ver...
Desceu as escadas e logo deparou com a porta escancarada. Esquecera-se de deitar a tranca, e uma rajada mais forte metera-a dentro. Mas, pelo menos, os uivos tinham parado. Colocada a tranca, voltou a deitar-se - agora sim, agora iria dormir...
Texto enviado por: Cristina Ribeiro
Sentado no banco de madeira olha sem ver o velho oleado pregado na mesa com pregos enferrujados. Os pensamentos perdidos não se conseguem ordenar. Não entende.
Pousa a mão esquerda na direita e sente a pele velha e áspera enquanto o indicador direito brinca com um prego enferrujado que, teimosamente, segura o velho oleado desmaiado e roto.
Passa assim o tempo, dia após dia, semana após semana, ano após ano.
Todos os dias entra na velha sala uma senhora forte, com um grande sorriso, sorriso triste de quem guarda memórias doces. Vê as mãos que brincam com o prego e o oleado e recorda momentos em que essas mãos, menos velhas e mais macias, seguravam a sua mão pequena enquanto passeavam pelo terreiro.
São agora as mãos dela que lhe dão de comer, que lhe afagam os poucos cabelos brancos, que lhe limpam o nariz e lhe dão banho.
Ele ali sentado sorri-lhe. Não sabe quem ela é mas sorri-lhe. Ouve, como está paizinho?, e não responde porque não entende.
Fica o sorriso quente e meigo daquela mulher estranha que vem vê-lo todos os dias. E ele sorri àquela estranha que entra todos os dias como se cada dia fosse o primeiro.
Na memória, nada, como se uma porta se tivesse aberto com uma forte rajada de vento que lhe levou as recordações.
Texto enviado por: Melões Melodia
Textos enviados por: Azia
A Porta
Vai e abre a porta.
Talvez lá fora haja
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.
Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a vasculhar.
Talvez vejas uma cara,
ou um olho,
ou a imagem
de uma imagem.
Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
dissipar-se-á.
Vai e abre a porta.
Mesmo que nada mais haja
que o tiquetaque da escuridão,
mesmo que nada mais haja
que o vento surdo,
mesmo que nada haja,
vai e abre a porta.
Pelo menos haverá uma corrente de ar.
Poema de Miroslav Holub, enviado por: Azia
Em boa ou má hora, consoante as perspectivas dos leitores que sejam “obrigados” a ler-me por aqui, a amiga Ana Vidal convidou este vosso escriba para aqui deixar umas breves palavras. E a verdade, é que depois de ter visto os poemas que outros ilustres convidados aqui deixaram, fiquei angustiado. Angustiado porque não sou poeta, até porque qualquer potencial para tal foi devidamente renegado e, como tal, fiquei sem saber o que escrever que pudesse incluir as palavras Porta e Vento. O que é facto é que já as incluí neste texto, agorinha mesmo, pelo que poderia dar por concluída a minha tarefa. Mas não, prefiro ainda maçar um pouco mais aqueles que por esta altura ainda me estejam a ler, para dizer que é uma honra entrar por esta porta e soprar um leve vento de agradecimento à Ana pela oportunidade de imerecidamente fazer brevemente parte deste seu cantinho e, mais ainda, por poder volta e meia com a Ana trocar ideias e debatê-las de forma saudável, coisa em que os portugueses são muito pouco prendados. E agora sim despeço-me para que os leitores desta Porta do Vento possam antes ler os seus textos bem mais interessantes que os meus devaneios.
Texto enviado por: Samuel de Paiva Pires
- És de Braga??? Gritou o velho em tom repreensivo para a criança que acabava de sair da sala sem fechar a porta. O tempo era de frio, daquele frio acumulado de semanas, que já penetrou tudo e que o vento se encarrega de fazer chegar aos lugares mais protegidos.
Naquele gélido e enorme casarão só uma sala resistia estoicamente ao assalto do frio. Lareira acesa, aquecedor ligado, janelas calafetadas e, acima de tudo, as portas sempre fechadas, eram a receita para a criação de um ambiente aceitável para se estar. Mas esta, claro, era a perspectiva de um velho, de alguém que há muito deixou de gerar o seu calor próprio e que depende exclusivamente de condições externas para se manter aquecido. Para uma criança o frio incomoda menos porque é confrontado pelo calor que o movimento constante produz. Uma criança não tem, para além disso, preocupações espontâneas com o bem-estar dos outros. Um objectivo e uma vontade bem identificados fazem com que parta decidido sem pensar por um segundo se a porta deve ou não ser fechada e se o ancião vai, em consequência disso, sentir algum incómodo.
Só o medo de um castigo implícito no tom de voz do velho o faz parar. Isso e a curiosidade de saber o significado da pergunta.
- Se sou daonde?
Texto enviado por: João da Câmara
Portas Entre Abertas
Passou a velha cancela cansada de décadas de abandono, onde eram visíveis restos de tinta dos anos em que a vida habitara aquele lugar.
Jarros e malmequeres conviviam no pequeno quintal com maciços de silvas que lhe traziam à memória amoras e amores de infância.
Esquecera-se de como o seu pequeno país era feito de pequenos detalhes. Esquecera-se do calor da cal nas paredes, dos canteiros negligentes, das latas de craveiros encarnados, dos degraus das portas de onde, sentados, se via o mundo.
A verde e plana imensidão do norte europeu, as arrebatadoras fachadas das catedrais, os civilizados louros, arrumos e aprumos cegaram-lhe as reminiscências do que também nunca fora o seu perfeito pretérito.
Olhou para a decadente fachada que já deixara velha há muitos anos. Procurou, em vão, ao redor da casa, as sóbrias latadas que sombreavam a alma e o corpo durante os prolongados estios. Procurou cheiros de verão, frescos das escuras adegas, piar das aves de capoeira, zoadas sonolentas de abelhas e a humidade dos musgos nos espessos muros que ladeavam os caminhos.
Olhou para a decadente fachada e para a porta entreaberta que temia cruzar. Hesitante, empurrou-a, com receio de um escuro capaz de longínquas visões.
O miado e fuga de um gato enregelaram-no, precipitando-o de novo para o exterior.
Na soleira, enquanto acendia um cigarro, atentava nos altos viadutos de uma qualquer auto-estrada que cercavam a terra que o vira nascer e partir, na desconcertante arquitectura de feios condomínios entremeados com velhos campos e stands de automóveis. Deteve-se nas provas irrefutáveis da apregoada modernidade de um povo que tinha dificuldade em reconhecer e que duvidada se reconhecesse a si mesmo.
A nicotina de que tentava fugir inebriou-o, empurrando-o de novo para o interior.
Achou-se no meio da sala, de onde se despedira há quase quarenta anos. Pareceu-lhe infinitamente menor do que na longínqua madrugada em que a deixara, desculpando-se com uma qualquer querela política em tempos de outros regimes. Achou-se ele também vergonhosamente menor ao perceber que as dimensões fantasiadas durante séculos eram humanas e não físicas. Achou-se perdidamente perdido num espaço que lhe diminuía a alma e engrandecia os medos. Não se achava, enfim.
A porta da rua entreaberta permitira a devassa e o saque. Resistira-lhe o velho retrato amarelado de uns não conhecidos antepassados, levados precocemente pela gripe espanhola. Nem bom vento, nem bom casamento.
O longo corredor aliciava-o a percorrer cómodos outrora mais íntimos e incómodos.
Não se achou capaz de achar o passado.
Bátegas de água caiam de um céu cinzento ainda assim mais azul do que o outro europeu. Entre abertas, abandonou a casa.
Partiu, detendo-se, por momentos, na branca magnólia que as rajadas despiram naquela breve hora. O mesmo vento que violento bateu encerrando-lhe a porta e uma vida.
Texto enviado por: Luís Castilho
Uma história sem nenhum sentido mas com duas morais
Era uma vez uma cidade perfeita. As suas casas eram perfeitamente cúbicas e simétricas, feitas num papel grosso, em que se inscreviam as rimas perfeitas da sabedoria dos fundadores da terra, preservada pelas sucessivas gerações. As suas ruas eram perfeitamente paralelas e perpendiculares, traçadas com um rigor de régua e esquadro, e não tinham nome, porque a orientação era fácil e todos se conheciam. E a sua vida era perfeitamente simples, regular, ordenada, geométrica, e tão isenta de conflitos que dispensava leis e valores. Esta cidade perfeita vivia cercada por um mundo estranho de povos bárbaros, imperfeitos, pelo que, para guardar as distâncias, se fizera rodear de uma muralha de pedra, desproporcionadamente alta, mas em quadrado perfeito, e com uma porta rectangular, que os jovens tomavam por um capricho decorativo dos anciãos, já que nunca tinham visto - e desconheciam - que pudesse abrir-se e fechar-se.
A cidade perfeita não dava sinais de desgaste do tempo. Mas cá fora, o vento, que não transpunha a muralha, ia soprando todos os dias, e havia guerras, havia crises económicas, havia fomes, havia muitos erros e havia quem aprendesse e quem não aprendesse com eles. Germinavam, também, ideias novas, umas boas, outras más, e havia uma grande sede de conhecimento. Alguns bárbaros tinham chegado a abeirar-se da porta da cidade perfeita para trocar impressões, mas a porta nunca se abria – talvez porque ninguém a soubesse abrir.
Uma manhã, o céu aclarou pouco amistoso e levantou-se um vento forte e rasteirinho; um vento que, ao contrário dos outros ventos, que não transpunham a muralha, se insinuou por todas as fendas, respiradouros, luras e frinchas e entrou nela traiçoeiramente, ao rés do chão. Foi o princípio do fim. As casas viram-se arrancadas aos seus alicerces, varridas e arrastadas em turbilhão pelos quatro cantos da cidade; e o papel, de que eram feitas, rasgado e amachucado, com perda de muitas rimas e muita sabedoria. Depois, uma rajada de tufão arrombou a porta e concluiu a razia. Os habitantes da cidade perfeita, vergastados pelo vento e pelas tiras de papel, confusos e espavoridos, lançaram-se em fuga. E precipitando-se pela porta aberta, foram cair nos braços dos seus vizinhos bárbaros, que, mais preparados para enfrentar temporais, já tinham declarado o alerta vermelho e os acolheram em casas quadradas de betão e tendas triangulares de plástico. Os habitantes da cidade perfeita rosnaram ao betão e ao plástico. Mas não se pense que não se adaptaram perfeitamente, porque o nosso imperfeito planeta é perfeitamente capaz de, com o incentivo dos quadrados e triângulos ou sob a ameaça de tufões, compatibilizar a disciplina geométrica com qualquer assimetria.
Primeira moral da história : convém ter bem calafetados todos os orifícios, fendas e frinchas, porque por eles – mais do que pela fronteira espanhola - nunca se infiltra nada de bom, nem bons ventos, nem bons «casamentos».
Segunda moral da história : acarinhemos os ventos que entram aberta e livremente pela «porta do vento», que nos refrescam, nos trazem os cheiros e os sabores da vida de outras latitudes e longitudes e não estão aí para enganar ninguém.
Texto enviado por: Luísa
De portas e ventos
O vento é a alma invisível do mar. O amor é o mar; nós somos o vento.
Não duvide nunca que você ama. O amor como o mar nos abarca, imenso, e perde-se para além de nossa vista. Ambíguo e imprevisível, o mar como o amor, ora nos encanta com sua calma, ora nos assusta com sua fúria. Ora é ciúmes, ora é compaixão; ora é medo de perder, ora é quase indiferença. Mas é amor sempre - sem que lhe saibam o fim, sem que lhe conheçam origem.
Deduzimos do ritmo de suas ondas, que o mar como o amor, se contrai e dilata, e intuímos que seja incessante espelho do universo. E então por um instante me convenço que a lei do mundo é o amor: está escrito no mar, está escrito no vento.
Amemos, pois nada nos resta senão amar. Amar o melhor possível com toda a força de nosso vento.
Porque o vento é alma invisível do mar e somos nós o vento, o vento que torna incerto o mar.
Deixo minha porta aberta e que venha você o vento me matar a saudade do mar.
Texto enviado por: Antônio Caetano
O nome escolhido pela Autora faz disparar a auto-estima
de todos aqueles a quem permite auto-considerar-se como bons ventos,
os que são distinguidos com a generosa franquia
da Porta desse Paraíso.
Texto enviado por: Paulo Cunha Porto
Fechei a Porta do tempo, não fosse por ela entrar a noite, e a escuridão não me deixasse mais ver os teus olhos, que sempre me habituei a ver a passear por dentro dos meus Ventos interiores.
É que só porque te olho, vejo espaços a abrirem-se, vejo tempos por que passei, e são meus, porque atrás de mim fui sempre fechando Portas onde iam ficando guardados os Ventos das minhas inquietações e dos meus desassossegos.
E tive medo, um medo absurdo, irracional, eu sei, de te perder, por não saber que Porta abrir no meu sonho, e de te ver partir a rodopiar nos Ventos da minha imaginação, para lugares onde não saberia procurar-te, no labirinto que eu próprio inventei, e que por mais Portas que abra, sei que acabo sempre por me perder no Dédalo de mim mesmo, e me deixar levar pelos Ventos das minhas ansiedades, como Ícaro quis fazer, e ir então à tua procura, oh! desventura, como se estivesses sempre para lá de uma Porta, que só se conseguiria abrir se um golpe de Vento lhe batesse, levemente, amorosamente, como o Vento desse teu sorriso, que me abre sempre as Portas do meu sentir-te.
E depois dizer, como disse Miguel Torga, "Grito agora o teu nome aos quatro ventos/juro-te enquanto posso, lealdade/por toda a vida e em todos os momentos." e assim te fazer a promessa, de que por mais que me aconteça, nunca te fecharei a Porta aos Ventos deste meu sonho, que te sonha.
E não quero que confundas a beleza da Porta com a essência do Vento, pois a beleza apenas está esculpida na Porta que atravesso na desordenada busca da essência que esse Vento perfumado de ti, me poderá trazer.
Texto enviado por: José Manuel Arrobas
O vento inquieta-me
Raramente reparava nas portas, limitava-me a empurra-las ou simplesmente a passar à sua ombreira.
Quando era pequeno, diziam-me que tinha rabo de macaco. Simplesmente perpassava as portas incauto, atrás duma qualquer brincadeira ou mesmo de nada. Até que alguém aborrecido vociferava contra a corrente d’ar.
Só muito mais tarde percebi o que significado de “corrente d’ar”. Só mais tarde me inquietou o vento. Agora fecho-lhe a porta: não tenho rabo de macaco.
Texto enviado por: João Távora
O exotismo da madeira não oferecia margem para dúvidas. A porta era, decididamente, da máxima qualidade. Uma estrutura sólida, ainda que leve de manusear, de cor sublime e tom discreto, com uns veios elegantes ao corrido do artigo. Naquela marcenaria não havia quem não apreciasse aquela obra de arte fruto da mestria, saber e paciência de quem a construíra. A pergunta fatal dirigia-se ao Amílcar Valente, um rapaz novo da Azambuja, estranhamente interessado em coisas da literatura, da estética, da sensibilidade, que pegara desde cedo num bloco de madeira e o transformara naquela peça.
- Oh Amílcar! Diz lá tu por mim… Que porta é esta?
E o artesão punha os olhos em alvo, afagava a madeira e respondia:
- É a porta do vento.
Os minutos seguintes tinham uma valência de meditação: os colegas garantiam um silêncio cauteloso, atentando naquela expressão poética, questionando-se sobre o alcance da afirmação, envergonhados por não conseguirem dominar toda a vastidão da frase inspirada.
A rotina do dia-a-dia passava, forçosamente, por aquela peça de rara beleza. À entrada os funcionários dirigiam-se, em primeiro, lugar ao sítio onde ela estava encostada, como se fosse um relógio de ponto em versão arte; ao sair, cumpriam o mesmo preceito. Todos, de uma forma mais ou menos disfarçada, passavam por lá durante o dia, inventando uma desculpa. Na realidade, ninguém queria reconhecer que ia buscar inspiração a um item de stock com um nome tão profundo, inalcançável, propiciador dos devaneios mais escondidos e reprimidos: porta do vento…
E o Amílcar lixava, polia, encerava, dava brilho, compunha, ajeitava. E os colegas suspensos daquela actividade, não sabendo se, num passe de mágica, surgiria uma brisa redentora que os levaria a qualquer lado, embora nenhum soubesse exactamente para onde gostaria de ir.
Um dia, passava das quatro da tarde – talvez quatro e um quarto – quando tocaram à porta do estabelecimento. O João da Tribo (assim se chamava o funcionário) foi abrir e encontrou um cavalheiro baixo e magro, de sobretudo e chapéu, com uns olhos pequeninos por trás de umas lentes grossas.
- Boa tarde, senhor. Deseja alguma coisa?
O cavalheiro espirrou com sonoridade e assoou-se a um lenço branco, amarrotado. Aclarou a voz e disse:
- Boa tarde, jovem. O meu nome é Vento, Antunes Vento, e venho buscar a minha porta.
Texto enviado por: JdB
Crise
Um vento triste aporta.
Vem desconheço de quando.
Martírio e dor transporta.
Bate à porta chorando.
Extingue toda ventura.
Por vil capricho do acaso.
Mata quem se aventura.
Castiga caso por caso.
E entre chagas feridas.
No bolso batalhador.
As dúvidas aferidas.
Suplantam qualquer valor.
Texto enviado por: Ricardo Ramos Filho
Visto o casaco. Alguém espera por mim para jantar. Penso em tudo. Na carteira, nos óculos, no lenço, na gravata, no cabelo, no enigma do encontro, no charme obligé, nas conversas, no tabaco, no jogo duplo, na conta. Será uma noite para recordar ou para esquecer. Mais uma vez, o espelho. Mais uma vez, a revisão pela carteira, cartões, caneta, isqueiro, bloco de notas, moedas para a gorjeta. Tudo bem e que seja o que Deus quiser. Abro a porta e, quando saio, um vento ciclónico leva-me os planos...
Texto enviado por: João Severino
Blind Date
Ao transpor a entrada daquele bar, sentiu-se despida. “Já não tenho idade para isto, já não tenho idade para isto”, repetia, metodicamente, obedecendo aos seus naturais impulsos autodestrutivos, tendência que conservava desde a adolescência e não tinha esperança de corrigir. Nada de contacto visual significativo com os poucos homens que não tinham companhia. “Mau sinal”, pensou ela já com vontade de se ir embora. “Espero cinco minutos”.
Em fundo ouviam-se os Sétima Legião: “Hoje, num vento do norte, fogo de outra sorte, sigo para o sul, sete mares…” Deixou-se embalar pelas recordações felizes que aquela canção lhe invocava enquanto se sentava a uma das mesas, procurando descontrair. Mas antes que tivesse tempo de pousar a mala uma voz interpelou-a:
- Boa noite… Gabriela?
Reconheceu-lhe imediatamente a voz. Era muito sensível a vozes e esta tinha-a impressionando o bastante para desejar aquele encontro, apesar dos avisos da Marta: “Mais fácil passar um camelo por um buraco de uma agulha…”
Virou-se.
Ah, se ela fosse mosca! Parecia que a estava a ouvir: “… ou é cromo ou coiro ou putanheiro”.
- Olá, Sérgio, muito prazer.
Se ela fosse mosca já se estaria neste momento a rebolar de tanto rir, a parva! - pensou.
- Estava sentado ali atrás daquele pilar, por isso é que não me viste quando entraste. Quando cheguei era a única mesa disponível…
- Pois é, apesar de ser 4º feira o bar encheu.
- Como?
- O bar encheu.
- O bar cresceu?
No blog e nos comentários que lhe deixava e depois nos emails e sms, por fim ao telefone parecia-lhe tão interessante…
Sentada à sua frente, a sua alma gémea blogosférica tentava quebrar o gelo, mas ela só pensava: “Baixo, gordo, careca, desajeitado e ainda por cima surdo que nem uma porta! A sacana da Marta vai-se fartar de gozar à minha custa!”
Texto enviado por: Teresa Ribeiro
Aporta em mim 'vez em quando
Vontade de me fazer ao mar
Que me leve p'ra outras gentes
Outras paragens mais quentes
Pr'á pevide laurear.
Mas com jeito vou vivendo
Com paciência - há qu'ir tendo.
Saudades de ventoínhas
Desejos de caipirinhas
Nelas me quero afogar.
Já calçava umas chinelas
brancas, que o barco é novo
Vou mas é subir as velas
Despedir-me do meu povo
E adeus, que vou navegar.
Bartolomeu, querido barco
O Jack que te despache
Um bloco, qu'o espaço é parco
Um lápis da Caran d'Ache
E ala!, vou viajar.
Água, comida e uma parka
Uns bikinis numa arca
E uns livritos, claro está
Uma ligação à net
E mais pr'aquê? A andar!
O medo é algo óbvio
Com que temos de lidar
O Diogo não é pacóvio
Tirou carta de alto mar
E eu lá aprendi a nadar...
Respeitinho - é bonito
E devemo-lo ao mar
Por maior que seja o grito
Por mais que se fique aflito
Ele não é p'ra brincar.
Quem vive no mar s'aperta
Nem sempre nele se dorme
As estrelas dão a coberta
A casa nem é tão grande
Mas a piscina é enorme!
Ó vento, leva-me embora
P'ra onde bem desejares
Já me tarda a tua hora
Já me custa este esperar
Preciso de novos ares!
Por mais que tenha vontade
De no Bartolomeu zarpar
Até posso ir pr'ó Inferno
Mas pr'ó Brasil nem pensar!
Mas é que nem a brincar!
Texto enviado por: Madalena Vidal
Linhas ao sabor do vento que assobia o ano todo nas margens do Estreito de Magalhães. Janelas que servem de porta para outras memórias. Para uma estrada deserta, a vastidão de uma terra sem fronteiras, fortunas feitas e perdidas no tempo. Para histórias que viajam nas grandes ventanias do Sul. Voltarei, um dia.
Texto e imagem enviados por: Mónica Bello
Fado Porta do Vento
Porta do Vento, qu’importa
Que o vento já ‘qui passou
Trazendo uma hora morta
Na dor que não suporta
Do amor que me findou
Porta do Vento, lamento
Duma saudade esquecida
Suspiros de sofrimento
Anseios de esquecimento
Daquilo que já foi vida
Porta do Vento, portada
Por onde entra a claridade
Brisa suave e desejada
De uma alma inundada
Por um amor sem idade
Texto enviado por: Jorge Antunes
Abri a porta na embriaguez dos sentidos
Num corpo evaporado na profundez dos teus olhos
Danço com este vento no Inverno
Gosto de ti, aos pedaços e aos molhos.
E um grito brota da alma
Abrindo a porta ao coração
Rodopio e danço, estranha calma…
Pela Ana solta-se o vento da paixão.
Não, não eu,
Escudeiro deste tempo,
Todos nós, teus amigos
Amantes da porta do vento.
Canção de embalar (o amor)
Vem ver onde nasce o deserto.
Vem ver onde é a foz do luar
(Onde) dunas e estrelas são o tecto
(Onde) anjos cintilam no seu lugar.
Vem ver onde fica o oceano.
Vem ver o canto do nosso mar.
(Onde) és um amor sem engano.
(Onde) és a minha canção de embalar.
Porque antes de ti era nada
Porque depois de ti o vento foi
Porque a vida é porta entreaberta.
Porque o amor é o tempo do dois.
Não, não quero que me falem em portas,
nenhuma porta, porta de espécie alguma.
Nem portas de entrada,
magníficas porque maciças,
portas de aldrabas férreas, portas essas imperiais.
Vão-se as portas de fole
harmónios de consultórios,
dedilhados por ágeis mãos,
portas tais tão funcionais.
Não quero portas blindadas,
que façam da minha casa um cofre de que eu conheça o segredo
porque sempre há um esquecimento e com ele eis-me o lar em jazigo,
a vida em sarcófago.
Recuso a porta do fundo,
furtiva,
a porta da saída rápida e conveniente,
quando ele surge, o perigo, pela outra porta
a da frente,
na hora tão inconveniente.
Rejeito esta e todas as portas,
qualquer porta que me traga a saída ou me franqueie a entrada,
sim, porque eu abomino o direito de admissão
e por igual o acesso público,
pois tudo supõe porta.
Não, não quero, eu não quero o lugar onde outros possam entrar
nem aquele de onde seja eu a ter de sair num a porta da rua é ali.
Além disso, há na ideia de porta contida,
como num murmúrio breve de vento,
a noção de fechadura
e com ela a de ferrolho,
e a de trinco
ah! e a de lingueta
e mais ainda a de chave.
E tudo isso supõe clausura
tudo exige acesso
há em tudo tudo a horrível noção
de permissão e consentimento,
o dá-me licença, o ao que vem, o são isto horas de chegar.
Não, não quero porta qualquer que seja,
espécie alguma de porta
porque todo eu feito gazua, recuso,
eu em pé de cabra, rejeito.
E depois, meu amor, hoje, precisamente por ter havido ontem,
não me falem, no que me dói.
Franqueava eu uma porta, sim,
foi precisamente aí.
Como é irónica a vida
Abri-te, tão feliz, a porta da rua, para que entrasses sem bater.
Foi há tanto tempo, um tempo em que o mundo eram só janelas e horizontes
e céus e serranias e o desejo de viajar.
Texto enviado por: José António Barreiros
O vento é uma entidade volátil, que se auto-fatia em pedaços bem definidos, revelando-se num desígnio muito próprio.
As fatias de vento espessas e arrebatadoras, disparam pela porta dos furacões, tornados e ciclones, arrasando mares, montanhas e vidas.
As fatias de vento traiçoeiras e prolongadas, rompem pela porta das tempestades, ceifando gente num segundo, agitam humores marítimos de Adamastores e transformam homens simples da água salgada, em heróis.
As fatias de vento bruscas, repentinas e incisivas, atravessam pela porta das ventanias, invertendo estendais de roupa e guarda-chuvas, desmancham perucas recém-penteadas e resolvem cabeças confusas e amores trocados.
As fatias de vento breves, suaves e consoladoras, deslizam pela porta das brisas, enlaçam namorados em arrepios súbitos, baixam sob esplanadas em finais de tardes de verão, refrescam pensamentos e arejam almas inseguras.
As fatias de vento efémeras, ínfimas e escassas, dissipam-se pela porta do sopro, murmuram segredos ao ouvido, diluem perfumes frescos e insinuam rasgos de inspiração.
Texto e imagem enviados por: Patti
Uma porta que se vai abrindo. O vento? Às vezes ajuda, outras vezes não.
Avaliar um ser humano nunca é, foi ou será, uma tarefa fácil, mesmo para os que nascem dotados de uma intuição e inteligência emocional fora do vulgar, ou acima da média. O valor de uma pessoa, ou a avaliação, mesmo sendo objectiva e pragmática, que fazemos desse valor e dessa pessoa, remete-nos para uma latitude que por vezes parece não ter fim. A experiência de vida ajuda e é valiosa mas nem sempre é determinante. Avaliar uma pessoa é como uma porta que se vai abrindo devagar, muito devagar, deixando que a fresta nos vá revelando o que existe do lado de lá. O valor de uma pessoa mede-se pela distância entre o que ela desejava ser e o que, na realidade, ela é. Por outras palavras, por aquilo que a fresta da porta que vagarosamente se vai abrindo, nos vai dando a conhecer. De uma forma ainda simples, pela distância entre o que essa pessoa diz ou alvitra e o que ela faz ou empreende. E nesse abrir lento da porta há, a espaços, ventos que a ajudam a abrir-se e outros que obrigam a recuos, ou exigem mais esforço e paciência ao atravessá-la. Avaliar um ser humano é isso mesmo. É como abrir uma porta tendo consciência que ela não se abre sozinha, apesar de às vezes estar entreaberta. Mesmo sabendo que há um vento, por vezes reconfortante, que vem em nosso auxílio e nos facilita essa árdua tarefa, outras vezes abrupto e inesperado, que nos faz redobrar a atenção e os sentidos.
Texto e imagem enviados por: Mike
A porta de mim é tua,
A tua de quem será ?
O vento que aponta à lua,
Aponta, não chega lá.
Tudo o que tenho te dou
Quando a noite se insinua
Dou-te tudo quanto sou
E a porta de mim, é tua
E tu, naquele universo Que um dia Deus te dará.
A minh’alma é do meu verso
A tua, de quem será?
És brisa de primavera
Que chega e não continua
És um compasso de espera
És vento que aponta à lua.
Corre pois até ao dia
Que a visão te faltará
E se falta a pontaria
Apontas, não chegas lá
P.S. (estraga a glosa, mas acaba em bem como eu gosto)
Corre de noite e de dia
Que a sorte te ajudará
Vai treinando a pontaria
E aponta, que chegas lá.
Texto enviado por: Manuel Bobone
Ana, a participação crítica à sua adivinha teria sido ainda maior se eu, que corri atrás da minha banda para libertar o silêncio e poder assim recuperar as palavras, ao chegar-me a ela não me tivesse deparado com um Mozart felicíssimo, travestido de majorette, que enquanto apontava a batuta na mão esquerda para o negro do saxofone dando-lhe ordem de entrar, esticava o indicador da mão direita perpendicularmente sobre os lábios recomendando-me silêncio. Lembrei-me então que a Ana “gosta e precisa” do silêncio. E lembrei-me depois de como eu gosto das irregularidades das suas postagens. De como eu gosto de sentir a ansiedade da dúvida de haver novidade, durante os breves momentos que passam entre o clique no ‘Porta do Vento’ e o encher do ecrã com aquela cor que a natureza não distribuiu por todos, recortada pelas suas palavras que, ainda que sejam já de vésperas, me sabem sempre deliciosamente. Gosto de mandar umas bocas pela janela dos comentários e deixar-me acoitado, qual Cyrano de Bergerac, à espera das réplicas sempre simpáticas e bem-humoradas com que nos brinda, a mim e tantos outros e outras que nos deixamos apaixonar pela sua escrita. Assim permanecerei, mandando as minhas bocas, enquanto a Ana não correr comigo. E mesmo sabendo que às quintas e sábados recebe visitas e poderá não ter tempo para nós, ainda assim aqui virei… nunca se sabe.
Texto de: Pedro Barbosa Pinto
Porta aberta, escancarada
A uma esperança sem melancolias
A um desejo de fome saciada todos os dias
A um pedido de futuro sem guerras
A uma ânsia generalizada por letras
A ouvidos atentos à nobre melodia
Ao vento que sopre sabedoria.
Texto enviado por:
"São as regras e são claras: terá que haver "porta" e "vento".
E por muito que me repita: são palavras, são só palavras, não me consigo alhear das correntes de ar, o resultado de portas abertas ao vento.
E do medo de males certos transportados, invisíveis, nas sentidas correntes de ar.
Feche-se a porta, não se abra a janela, vista-se o casaquinho de malha, sempre assim em diminutivo, suponho que mais por respeito pelas inúmeras qualidades terapêuticas do que por carinho pelas mãos que o tricotaram.
As correntes de ar eram deste modo desviadas para a rua, para os ramos das árvores, para os papéis em reboliço nos passeios, para os cabelos dos passantes, brincavam com os chapéus dos incautos, levantavam as saias das senhoras e defraldavam as cores das bandeiras.
Nada disso, corrigem-me. Que disparate, acrescentam.
Isso é o vento. O vento brincalhão.
As correntes de ar são pérfidas, traiçoeiras, atacam assim pela calada, insidiosamente, espalhando constipações e pontadas, arrepios e resfriados.
Reflito.
O vento é brincalhão?
E as brisas? Suaves, claro.
Páro.
Concentro-me.
Isto deve ser sobre portas e ventos, tal como mandam as regras.
E sobre tal escreverei.
Deixem-me só fechar a porta e vestir um casaquinho de malha porque sinto uma pequena corrente de ar."
Texto enviado por: Pitucha
O caminho para casa
Ele aproximou-se dela motivado por um sentimento protector que jamais experimentara antes. Nunca as mulheres o tinham verdadeiramente interessado, exceptuando a mãe com quem sempre vivera. Levava uma vida pacata, de dias iguais como grãos de areia, as novidades no jornal da manhã com o café tomado no sítio de sempre, o autocarro para a repartição, o almoço na cantina, o regresso para o jantar maternal e o sofá onde cabeceava frente ao televisor, antes de recolher ao aconchego dos lençóis. Uma vez por mês atendia às necessidades que a sua masculinidade lhe impunha com uma rapariga que parava pelo Conde Redondo.
Os dias corriam assim sem sobressaltos nem outras precisões até que ela se sentou na secretária do fundo, defronte da máquina de escrever já gasta, num ângulo que colidia com o seu olhar sempre que o levantava dos papeis em que preenchia longas colunas de números.
Ela era pequena e leve e tão branca que se podia ver o sangue a percorrer as veias que levantavam a pele translúcida que o invariável preto dos vestidos realçava. Aos seus olhos ela não andava como toda a gente, mas deslizava suavemente a curta distância do chão como que movida pela simples aragem do virar das páginas dos livros de contabilidade. Diria ele que ela se quebraria ao menor toque e ficaria reduzida a um monte de cacos de fino vidro no chão de linóleo, que ele depois teria de varrer por entre lágrimas do remorso de não a ter segurado a tempo.
Assim se chegou a ela, primeiro seguindo-a à distância certa de uma passada e um braço, depois pondo-se ao lado dela e acompanhando-a onde quer que fosse. Ela aceitou aquela presença com a naturalidade de quem, como ela, passava pela vida sem deixar marcas.
E assim se passaram anos, sem que entre os dois se tivesse trocado uma palavra, um toque ou um olhar, ela cada vez mais leve e transparente, ele segurando-a pelo vestido para que não voasse pois reparara que os seus pés, que dantes mal tocavam o chão, agora deslizavam a uns bons
Num dia em que o vento soprava mais forte e ele a acompanhava a casa, uma rajada súbita e a ponta do vestido que ele segurava delicadamente soltou-se-lhe da mão, deixando-o sozinho no passeio enquanto ela evitava as copas das árvores e começava já a ultrapassar os telhados dos prédios.
Nesse momento em que a viu subindo, de vestido preto ondulando suavemente, percebeu que, se não a seguisse, ficaria como ela, cada vez mais leve e vazio até desaparecer de vez. Esqueceu todas as leis da física, que de qualquer modo nunca tinha aprendido como deve ser, e levantou voo a tempo de a ver passar atrás da torre 3 das Amoreiras em direcção a Sul.
Voaram assim, ela à frente e ele seguindo-a, deixando a cidade para trás, primeiro ao longo do rio, depois por cima de campos verdes e amarelos. Quando já não havia casas, nem animais nem pessoas, ela começou a subir mais em direcção ao céu. Ao longe, bem no alto, ele viu uma porta entreaberta. Sentiu-se em paz. Chegava finalmente a casa.
Texto e desenho enviados por: TCL
I. Meninos e Ventos
A coisa mais linda do mundo
É quem acredita em vida
Dá asas a sonhos
Como uma lufada de vento.
Quando penso em meninos lembro logo dos contos de aventura, de ilhas, tesouros e heróis. Meninos são assim. Crescem e trocam os cavalinhos de pau por conversíveis (imaginários ou reais) ou motos possantes, mas no fundo ainda guardam um tantinho dos meninos que foram (?) e das aventuras de cavaleiros andantes, onde tomam o lugar do herói e saem por aí a tentar mudar o mundo e as injustiças da terra.
Menino que teve infância saudável, com muita corrida nas ruas, pés descalços nas férias em casa de avós, vira homem e não abandona a capacidade de se indignar com o que acha errado, contra as dores do mundo e o triunfo dos porcos. Emociona-se com fotos antigas, com imagens de filhotes, gosta de mandar flores em forma de palavras. Corre contra o tempo chega com o vento, ou é o próprio vento...
Mas o que sei eu sobre meninos, lobos e ventos? Sinto mais que sei, mas os ventos são assim mais pra senti-los que pra sabê-los, ou não? Abri as janelas da alma e a porta do castelo.
Um vento passou aqui e me levou.
Já consigo deixar minhas asas soltas de novo...
II. Meloclimática
AdalorÁfricoAlísioAragemAuraAustroBrisaCicloneEspiroEuroFuracão
Garbino
LariçoLestadaLevanteMareiroMistralMinuanoMonçãoNortadaOressa
Pampeiro
RafadaRajadaRedemoinhoSirocoSobreventoSuestadaTerralTornado
Tramontana
TravessãoTufãoVendavalViraçãoXamalZoeira
Tudo isso é vento
É desassossego em mim
Textos enviados por:
Já começaram a chegar os textos do desafio que fiz a todos os meus leitores, bloggers ou não. De seguida será publicado o primeiro (que chegou do Brasil), inaugurando uma rubrica a que decidi chamar Ventos Amigos. A ordem e o ritmo de publicação poderão variar, mas todos serão publicados, a seu tempo.
Vá lá... participem! E não se esqueçam: o texto tem de conter as palavras "porta" e "vento", mas o conteúdo e a forma são inteiramente livres.