Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Ventos Amigos (41)

 

I. Renitente

 

Passa severo, ereto, renitente.

Resiste há uma vida ao que o exorta.

Traz às costas sinais do que não sente,

um couro enrijecido, pele morta.

 

Procura ter desprezo a toda gente.

Não que os desgoste. Não. Tudo o que importa

é evitar que um descontrole o tente.

Todo imprevisto ele prevê e corta.

 

Se é o uso que faz a boca torta,

risos, sussurros, sopros são tormento

para a alma, a espinha e a aorta.

 

No entanto, distrai-se por um momento.

Parece que vê abrir-se uma porta.

Por sorte, passa ali somente vento.

 

 

 II. Chuva criadeira

 

Entrei e, mal fechei a janelinha,

assomou da soleira a tempestade.

Invadiu-me a sala, o pouco que tinha,

uns poemas (do Pessoa, o “Liberdade”)

 

Voou tudo. Foi papel, foi Martinha,

foi memória, foi giz, foi Tito Madi.

Danado, o vira-o-tempo, e eu na linha,

que vendaval é esse que me invade?

 

Choveu, fazer o quê? Buscar abrigo,

se é nele e n’água que agora me sento?

Posar de seco e fingir que nem ligo?

 

Ora, é melhor manter o olhar atento

e ao ouvido chamar o verso amigo.

Pela porta virão o sol e o vento.
Textos enviados por: Jayme Serva
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Ventos Amigos (40)

 

Em vão te esperei durante anos. Bastou abrir a porta que sempre me seguiu para onde quer que fosse e vi-te, ora ciclone, ora luminosa brisa. Nasceste vento: por ti lhe abri as portas e me fiz ao mundo. Deste-me a vida, e fechaste a porta. Quem não abre a porta do vento morre na calma podre da tua ausência.

 

Texto enviado por: Luís Serpa
.

 

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Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Ventos Amigos (39)

 

 

Não sei as condições em que vive, porque cada vez que lhe bato à porta, apenas uma frincha se entreabre. Sei que vive há 15 anos, com os três filhos, numa exígua casa de porteira com duas assoalhadas. Ao marido, trabalhador da construção civil, expulsou-o de casa há mais de cinco, numa madrugada em que chegou a casa bêbado e lhe deu (mais) uma tareia.

Sei que pelo seu corpo ainda jovem, evidenciando as marcas de maus tratos do homem e da vida que lhe foi madrasta, corre sangue fervente e na ponta da língua tem sempre resposta a um piropo atrevido. Tem um fraco por trabalhadores da construção civil. Daqueles que passam os dias empoleirados em andaimes, fixos ou móveis, balouçando ao sabor do vento. Depois de expulsar o marido de casa, apaixonou-se por um que, ao fim de um mês, desapertou o cinto para lhe cravar as marcas na pele. Disse-me, um dia :“este foi  como uma rabanada de vento. Bateu forte, mas pôs-se logo a andar”.

Há dois meses começaram obras lá no prédio. Poucos dias depois, tornou-se perceptível que ela andava de namorico com um dos artistas do andaime. Consta que um fim de tarde ouviram o arfar de ambos na cave, junto aos contentores do lixo. A administração do prédio avisou-a que não toleraria a repetição da cena. Para lá da porta de sua casa, poderia fazer o que entendesse, mas nas partes comuns do prédio, se voltasse a ser apanhada, seria despedida.

O sangue fervia-lhe no corpo, pronto a explodir numa lava de desejo contido mas, com três filhos em casa, ela não arriscava franquear-lhe a porta.

No último sábado, surgiu a oportunidade. O pai dos filhos fazia anos e ela iria ficar sozinha em casa. Comunicou-lhe o facto e traçaram o plano. Ela cozinharia o seu prato preferido, ele apareceria por volta do almoço e, depois, entregar-se-iam um ao outro ao longo da tarde. Havia, porém, um pormenor. Ela não queria que ele tocasse à campainha. Quando chegasse perto do prédio, devia telefonar-lhe e ela deixaria a porta entreaberta para ele entrar. Se a porta estivesse fechada, não tocaria à campainha…

Na manhã de sábado ela aperaltou-se e cozinhou com esmero a feijoada, carregando no piri-piri, comprado pela manhã na mercearia do bairro, para ter a certeza que gozava de todas as suas propriedades.

Faltavam 15 minutos para a uma quando o telefone tocou. Nervosa, atendeu. Pôs mais duas gotas de perfume. Abriu a porta. Ele lembrou-se que se esquecera de lhe levar uma flor. Sem lhe dizer nada correu para a florista da esquina e comprou atabalhoadamente uma rosa encarnada. Voltou ao prédio. Quando chegou, a porta estava fechada. Uma rabanada de vento boicotara o encontro.

 

Texto enviado por: Carlos Barbosa de Oliveira

 

 

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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Ventos Amigos (38)

 

sem destino

sem promessas

sem data de regresso

 

de portas abertas deixo-me seguir

o vento espalha o fumo

que denuncia a minha passagem

 

vou de viagem  

voltarei?

 

Texto enviado por: Sofia B.

 

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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Ventos Amigos (37)


 

 

de uma porta por onde um vento anda

 

 

lembras-te

 

quando me abrias a porta

 

quando ia o vendaval

 

 

não eram ventos

 

era o vento que por mim ia

 

de te querer inteira

 

vestal

 

 

Texto enviado por: Pedro Faria Lopes

 

 

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Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Ventos Amigos (36)

 

No fado das palavras

 

Tenho andado a pensar por que falamos tanto do tempo e por que carga de água alguns fazem a previsão do tempo atmosférico enquanto outros fazem a provisão para o tempo das necessidades. A  marosca deva estar relacionada com a alma lusitana e com o fado das memórias. Dos antepassados navegadores ficou a previsão do tempo, fundamental tanto para a navegação no alto mar, como no céu dos mares. Para além disso, a previsão do tempo determina viagens e tem um aspecto preventivo e estratégico, já a provisão para o tempo condiciona  as pessoas  é aborrecido e lembra  um fado arrependido. Gosto mais do primeiro fado. Ele é preventivo, não seremos apanhados desprevenidos se chover, se o aeroporto fechar, se nos perguntarem pelo tempo, para  recomendarmos um guarda chuva, para  aconselharmos um agasalho e  para despachar as inquisições do senhor que convive connosco e nos pergunta de rompante e sem vergonha numa sexta feira à noite “olha lá, onde é que estiveste até agora?”. A resposta do tempo, do trânsito e do vento que  abalou estradas e  caminhos está sempre bem. Qualquer cabeça de vento se lembra desta resposta para desculpa caseira. Serve igualmente, para às segundas feiras de manhã justificar ao excelentíssimo, que por um dia decidiu chegar antes de nós, que o trânsito  estava um caos, e ainda por cima tivemos de atender o fornecedor de paraventos na porta da entrada, que por sinal já devia há muito ter um guarda vento.

Este é um fado estratégico que não nos deixa ficar mal quando nada mais tivermos para dizer, e só para não ficarmos mudos e especados perante outros iguais, introduzirmos a situação meteorológica e o tema dos cumolonimbos, dos nimbos e cirros, sabendo nós  que é só para  aborrecer a cabeça de quem nos ouve, já que não interessam para nada, quem quiser vê na net e a maior parte de nós não tem queda para estas coisas do tempo. Por outro lado, é tema que não interessa a quem  tem a porta fechada e a cabeça num lugar onde o mar é mais azul e as praias têm areia de cor dourada. E como já me desviei do ponto,  estacionei no tempo da canção e da Ericeira.

E quando me lembro  destas coisas, vem-me ao espírito, que é como quem diz ao fado da memória, o zumbido do Vimeiro. E de quem adorava aquele sítio porque lhe fazia lembrar as praias do Norte, todas elas com uma coisa menos o que queremos ter numa praia, ou seja, pouco ou nenhum vento e águas quentes. E também não posso deixar de me lembrar da mania das correntes de ar, mas parece que isso é segundo um brasileiro meu conhecido, invenção dos portugueses.

Sendo certo que a provisão para o tempo das necessidades é mais ao género do contar moedas e a previsão de ter provisão é assunto demasiado chato com maior probabilidade de me fecharam a porta atribuindo o descuido ao vento, e  sendo as correntes de ar uma invenção da nossa alma lusitana, vou perguntar ao vento se posso sair de mansinho por esta porta que me convidou a entrar no fado das palavras. 

 

Texto enviado por: Grande Jóia

 

 

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Domingo, 8 de Março de 2009

Ventos Amigos (35)


 

I

Antes de o Tempo ser Tempo
 
Na Terra do Fogo, antes do Tempo ser Tempo, assim que o sol se punha, a luz adormecia. Agasalhados pelo véu escuro da noite, Hipnos, Morfeu e Phantasos, desciam as escadas dos cúmulo-nimbos, com os passos abafados pelos estratos, e com as mãos cheias de feixes de cirros e de ventos indomados, recolhidos em Neptuno, onde as temperaturas são tão baixas, que congelam o pensamento dos Deuses. Pé ante pé, invadiam com eles as mentes mortais, abandonadas nos seus braços, sem resistência, povoando o sono, o sonho e a fantasia de seres adormecidos, com as imagens divinas, flutuantes à deriva na superfície dos sentidos, irreverentes e inquietas umas, serenas e indolentes outras.
Numa das noites, fluiu-lhes das mãos, um pensamento de Artémis, que logo foi pousar no inconsciente da mais bela das donzelas em repouso.
Soprado com suavidade por Morfeu, espalhou-se, primeiro sem definição, depois com nitidez e, à medida que se ia clareando, tornou-se no sonho que mudaria toda a vida de Eléia.
 
Viu-se no meio da floresta. No meio de árvores altas e frondosas, que espreguiçavam os ramos para o sol. Folhas de hera, à mão de semear, para delas fazer uma coroa que segurasse com jeito o longo cabelo. Um regato, salpicado pelas pedras e pelas ondas circulares dos peixes que assomavam à superfície, cheio de uma frescura que apetecia beber. Ao longe, cânticos de aves-liras, que cortavam o ar e manchavam o céu das cores do arco-íris. Mais um sopro ligeiro e Eléia até conseguiu sentir o cheiro do visco e do orvalho da manhã, naquele bosque paradisíaco.
Impulsionado por Phantasos, o vento abriu, então, uma clareira na parede de musgo e deixou entrever uma porta que atraiu Eléia para o seu interior, fechando-se de seguida, a moldar-lhe o corpo e empurrando-a para a frente até um jardim, onde, escondido, brincava Hermes, experimentando a sua destreza no domínio das sandálias aladas.
Sem se surpreender pela presença, Hermes tomou nos braços Eléia, disparando nos céus do bosque, atravessando as nuvens, competindo com os falcões, voando em círculos, a pique e a planar, sem lhe dar tempo a respirar, a protestar, a reagir. Arrebatada naquele abraço, Eléia mais não fez que enlaçar aquele corpo e deixou-se ir, de olhos fechados, contraída de susto e de emoção.
Amanheceu. E Eléia acordou, ainda agarrada ao leito, de dedos crispados e o coração acelerado.
Ainda não sabia que, em breve, seria mãe de uma menina com asas, linda, mágica e perfeita para cuidar dos bosques mágicos que os Deuses do Olimpo usam para brincar.
 
II
 
Olha lá, ó Vento!
Que tens tu contra mim?
Porque m' atiras teu lamento,
uivo gemido em frenesim?
Achas-te muito poderoso,
é, um colossal irascível,
só porque, mesmo furioso,
o teu rosto é invisível?
A isso chamo eu traição,
o não ver claramente,
quem nos ergue a mão,
num açoite permanente.
Levantas o chão em fúria,
tão rabugento e rugidor
pra logo vir com a lamúria
de que sopras por amor?
Não, não pode ser!
Apaixonado, meu amigo?
Eu vou lá poder crer,
que precisamente contigo
isso possa acontecer!!
Mas que paixão funesta
te dará a motivação
de vergar mato e floresta,
em tom de furacão?
Que portas e telhados
te impedem de amar
se não são eles os culpados
nem te podem ajudar?
Ora diz-me lá, a ventar,
de quem tu gostas realmente,
mas diz-me devagar,
pra perceber exactamente…
Quem? Tu endoidaste?
Esse nome qu'inda agora
tu me segredaste,
saiu-te pela boca fora,
ou comigo brincaste?
Enamorado pela Lua,
que tão longe foi morar,
e tu, que loucura tua,
achas que lhe vais chegar?
Abranda, amigo Vento,
escusas de te esforçar,
volta a soprar lento,
que não a podes conquistar.
O Sol já a levou, cortês,
num cruzar de raios tal,
que uma filha logo lhe fez
chamada Aurora, a Boreal.
Se queres, então, desabafar
o desgosto de amor imenso
em vez de raiva soprar
eu apelo ao teu bom senso:
chora apenas chuva,
nesse teu lamentar,
e clareia a nuvem turva,
que tão bem te faz chorar!
 
 

 

Textos e imagens enviados por: Si

 

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Sábado, 7 de Março de 2009

Ventos Amigos (34)


 

Sétima arte

 

No dia em que fez quarenta anos, encomendou uma dúzia de rosas vermelhas. Reservou a melhor mesa no Café Central. A que ficava ao lado da porta envidraçada. Vestiu-se de rosa malva e comprou uma aliança de ouro branco, que colocou na mão direita. Às oito em ponto, pediu ao pianista que tocasse o tema de “E Tudo o Vento Levou”. No final da música, entregaram-lhe as rosas, que ela agradeceu com os olhos rasos de lágrimas, enquanto acariciava a aliança no dedo. Aos que estavam sentados na mesa ao lado pareceu-lhes que ela sussurrava um nome. Sérgio, talvez. O dono do café trouxe o bolo que ela encomendara. Ela partiu-o delicadamente. No lábios o mesmo sorriso comovido. Ninguém sabia o nome dela. Limitaram-se a felicitá-la pelo aniversário enquanto ela pousava os pratos com bolo nas pequenas mesas de café. Ela agradecia e acrescentava: É receita da minha mãe...

 

Texto enviado por: Cristina Nobre Soares

 

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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Ventos Amigos (33)

 
 

On ne s'est jamais trouvé, et pourtant

 

Je crois bien qu'en nous trouvant,

 

Je me dirais, en nous quittant,

 

Pas "Autant en Emporte le Vent",

 

Mais plutôt: "C'est bien, la Porte du Vent,
 

C'est chic, c'est bon enfant!"
 
 

Texto enviado por: O Jansenista

 

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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Ventos Amigos (32)


 

entre rios

nasceu

 

doce, manso

de ornato verbo

 

pressagiava-redimia

encantava-prometia

 

a porta que abriu

deixou em chamas

 

da sua passagem

restou o vento

 

Texto enviado por: Margarida Pereira

 

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Ventos Amigos (31)


 

E a tempestade que não amainava.


A chuva caía que Deus a dava, que bem a ouvia cantar nas velhas telhas.De quando em quando um clarão entrava pela janela e iluminava o quarto que há muito ficara às escuras, quando um trovão mais forte desligara a electricidade. Ainda bem que, aos primeiros sinais de borrasca, trouxera fósforos e velas...


O vento a assobiar, lembrando-lhe os uivos dos lobos, por entre as negras árvores fazia-a estremecer, e puxar os cobertores até aos olhos - sentia-se mais segura...

Quando tudo parecia que ia ficar mais calmo, ouviu um estrondo que quase a fez saltar da cama; com medo, mas decidida, acendeu uma vela, lançou um xaile pelos ombros e foi ver...


Desceu as escadas e logo deparou com a porta escancarada. Esquecera-se de deitar a tranca, e uma rajada mais forte metera-a dentro. Mas, pelo menos, os uivos tinham parado. Colocada a tranca, voltou a deitar-se - agora sim, agora iria dormir...

 

Texto enviado por: Cristina Ribeiro

 

 

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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Ventos Amigos (30)

 
 
Monumento
 
Não batem nem levemente,
Nem precisam de bater.
A porta está sempre aberta
Para passar quem quiser.
 
- Se não foi chuva, foi vento?
P'ra que serve ela aberta?
- Serve de monumento
À abolição de fronteiras.
 
Se alguém fez coisa certa
Entre tantas asneiras
Foi libertar os dois lados.
 
No meio, a porta aberta
Celebra aquele momento
Que uniu os separados.
 
Texto enviado por: João Carvalho
 
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Domingo, 1 de Março de 2009

Ventos Amigos (29)

 

Sentado no banco de madeira olha sem ver o velho oleado pregado na mesa com pregos enferrujados. Os pensamentos perdidos não se conseguem ordenar. Não entende.

Pousa a mão esquerda na direita e sente a pele velha e áspera enquanto o indicador direito brinca com um prego enferrujado que, teimosamente, segura o velho oleado desmaiado e roto.

Passa assim o tempo, dia após dia, semana após semana, ano após ano.

Todos os dias entra na velha sala uma senhora forte, com um grande sorriso, sorriso triste de quem guarda memórias doces. Vê as mãos que brincam com o prego e o oleado e recorda momentos em que essas mãos, menos velhas e mais macias, seguravam a sua mão pequena enquanto passeavam pelo terreiro.

São agora as mãos dela que lhe dão de comer, que lhe afagam os poucos cabelos brancos, que lhe limpam o nariz e lhe dão banho.

Ele ali sentado sorri-lhe. Não sabe quem ela é mas sorri-lhe. Ouve, como está paizinho?, e não responde porque não entende.

Fica o sorriso quente e meigo daquela mulher estranha que vem vê-lo todos os dias. E ele sorri àquela estranha que entra todos os dias como se cada dia fosse o primeiro.

Na memória, nada, como se uma porta se tivesse aberto com uma forte rajada de vento que lhe levou as recordações.

 

Texto enviado por: Melões Melodia

 

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Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (28)

 
 
pôr do sol (micro-conto)
 
fechou a porta, decidida; desceu as escadas, de alto a baixo; na rua, o frescor meigo do fim de tarde lambia-lhe o rosto. soltaria os cabelos ao vento, não fora estar praticamente careca.
 
 
o aniversário (micro-fábula)
 
era uma vez um namorado que não se lembrou; saiu do trabalho e encontrou o amigo no bar que cortava a esquina. a namorada fazia anos. era uma vez um namorado que não se lembrou; saiu do trabalho, entrou no carro, driblou o trânsito, ajeitou o cabelo, subiu as escadas, bateu. mas ela não abriu. moral da história: cabeças de vento, portas na cara.
 
 
provérbio aziático
 
casa assaltada, portas ao vento.
 
 
diálogos de latão
 
- ... queres um conselho? aborta do bento.
- é do joão, rita!
- maldita gripe. o blogue da ana!

 

Textos enviados por: Azia

 


 

A Porta

Vai e abre a porta.

Talvez lá fora haja
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.


Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a vasculhar.
Talvez vejas uma cara,
ou um olho,

ou a imagem

de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
dissipar-se-á.


Vai e abre a porta.

Mesmo que nada mais haja

que o tiquetaque da escuridão,

mesmo que nada mais haja

que o vento surdo,

mesmo que
nada haja,
vai e abre a porta.

Pelo menos haverá uma corrente de ar.

 

Poema de Miroslav Holub, enviado por: Azia

 

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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (27)


 

Em boa ou má hora, consoante as perspectivas dos leitores que sejam “obrigados” a ler-me por aqui, a amiga Ana Vidal convidou este vosso escriba para aqui deixar umas breves palavras.  E a verdade, é que depois de ter visto os poemas que outros ilustres convidados aqui deixaram, fiquei angustiado. Angustiado porque não sou poeta, até porque qualquer potencial para tal foi devidamente renegado e, como tal, fiquei sem saber o que escrever que pudesse incluir as palavras Porta e Vento. O que é facto é que já as incluí neste texto, agorinha mesmo, pelo que poderia dar por concluída a minha tarefa. Mas não, prefiro ainda maçar um pouco mais aqueles que por esta altura ainda me estejam a ler, para dizer que é uma honra entrar por esta porta e soprar um leve vento de agradecimento à Ana pela oportunidade de imerecidamente fazer brevemente parte deste seu cantinho e, mais ainda, por poder volta e meia com a Ana trocar ideias e debatê-las de forma saudável, coisa em que os portugueses são muito pouco prendados. E agora sim despeço-me para que os leitores desta Porta do Vento possam antes ler os seus textos bem mais interessantes que os meus devaneios.

 

Texto enviado por: Samuel de Paiva Pires

 

 

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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (26)


 
 
Tenho de encontrar a Porta do Vento.
Porque não me chega uma simples corrente de ar.
 
 

 
Texto e imagem enviados por: Carlota
 
 
(Ilustração: Colin Thompson)
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (25)

 

- És de Braga??? Gritou o velho em tom repreensivo para a criança que acabava de sair da sala sem fechar a porta. O tempo era de frio, daquele frio acumulado de semanas, que já penetrou tudo e que o vento se encarrega de fazer chegar aos lugares mais protegidos.

Naquele gélido e enorme casarão só uma sala resistia estoicamente ao assalto do frio. Lareira acesa, aquecedor ligado, janelas calafetadas e, acima de tudo, as portas sempre fechadas, eram a receita para a criação de um ambiente aceitável para se estar. Mas esta, claro, era a perspectiva de um velho, de alguém que há muito deixou de gerar o seu calor próprio e que depende exclusivamente de condições externas para se manter aquecido. Para uma criança o frio incomoda menos porque é confrontado pelo calor que o movimento constante produz. Uma criança não tem, para além disso, preocupações espontâneas com o bem-estar dos outros. Um objectivo e uma vontade bem identificados fazem com que parta decidido sem pensar por um segundo se a porta deve ou não ser fechada e se o ancião vai, em consequência disso, sentir algum incómodo.

Só o medo de um castigo implícito no tom de voz do velho o faz parar. Isso e a curiosidade de saber o significado da pergunta.

- Se sou daonde?    

 

Texto enviado por: João da Câmara

 

 

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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (24)

 

Portas Entre Abertas

 

Passou a velha cancela cansada de décadas de abandono, onde eram visíveis restos de tinta dos anos em que a vida habitara aquele lugar.

Jarros e malmequeres conviviam no pequeno quintal com maciços de silvas que lhe traziam à memória amoras e amores de infância.

Esquecera-se de como o seu pequeno país era feito de pequenos detalhes. Esquecera-se do calor da cal nas paredes, dos canteiros negligentes, das latas de craveiros encarnados, dos degraus das portas de onde, sentados, se via o mundo.

A verde e plana imensidão do norte europeu, as arrebatadoras fachadas das catedrais, os civilizados louros, arrumos e aprumos cegaram-lhe as reminiscências do que também nunca fora o seu perfeito pretérito.

Olhou para a decadente fachada que já deixara velha há muitos anos. Procurou, em vão, ao redor da casa, as sóbrias latadas que sombreavam a alma e o corpo durante os prolongados estios. Procurou cheiros de verão, frescos das escuras adegas, piar das aves de capoeira, zoadas sonolentas de abelhas e a humidade dos musgos nos espessos muros que ladeavam os caminhos.

Olhou para a decadente fachada e para a porta entreaberta que temia cruzar. Hesitante, empurrou-a, com receio de um escuro capaz de longínquas visões.

O miado e fuga de um gato enregelaram-no, precipitando-o de novo para o exterior.

Na soleira, enquanto acendia um cigarro, atentava nos altos viadutos de uma qualquer auto-estrada que cercavam a terra que o vira nascer e partir, na desconcertante arquitectura de feios condomínios entremeados com velhos campos e stands de automóveis. Deteve-se nas provas irrefutáveis da apregoada modernidade de um povo que tinha dificuldade em reconhecer e que duvidada se reconhecesse a si mesmo.

A nicotina de que tentava fugir inebriou-o, empurrando-o de novo para o interior.

Achou-se no meio da sala, de onde se despedira há quase quarenta anos. Pareceu-lhe infinitamente menor do que na longínqua madrugada em que a deixara, desculpando-se com uma qualquer querela política em tempos de outros regimes. Achou-se ele também vergonhosamente menor ao perceber que as dimensões fantasiadas durante séculos eram humanas e não físicas. Achou-se perdidamente perdido num espaço que lhe diminuía a alma e engrandecia os medos. Não se achava, enfim.

A porta da rua entreaberta permitira a devassa e o saque. Resistira-lhe o velho retrato amarelado de uns não conhecidos antepassados, levados precocemente pela gripe espanhola. Nem bom vento, nem bom casamento.

O longo corredor aliciava-o a percorrer cómodos outrora mais íntimos e incómodos.

Não se achou capaz de achar o passado.

Bátegas de água caiam de um céu cinzento ainda assim mais azul do que o outro europeu. Entre abertas, abandonou a casa.

Partiu, detendo-se, por momentos, na branca magnólia que as rajadas despiram naquela breve hora. O mesmo vento que violento bateu encerrando-lhe a porta e uma vida.

 

Texto enviado por: Luís Castilho

 

 

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (23)

 

Uma história sem nenhum sentido mas com duas morais

 

Era uma vez uma cidade perfeita. As suas casas eram perfeitamente cúbicas e simétricas, feitas num papel grosso, em que se inscreviam as rimas perfeitas da sabedoria dos fundadores da terra, preservada pelas sucessivas gerações. As suas ruas eram perfeitamente paralelas e perpendiculares, traçadas com um rigor de régua e esquadro, e não tinham nome, porque a orientação era fácil e todos se conheciam. E a sua vida era perfeitamente simples, regular, ordenada, geométrica, e tão isenta de conflitos que dispensava leis e valores. Esta cidade perfeita vivia cercada por um mundo estranho de povos bárbaros, imperfeitos, pelo que, para guardar as distâncias, se fizera rodear de uma muralha de pedra, desproporcionadamente alta, mas em quadrado perfeito, e com uma porta rectangular, que os jovens tomavam por um capricho decorativo dos anciãos, já que nunca tinham visto - e desconheciam - que pudesse abrir-se e fechar-se.

A cidade perfeita não dava sinais de desgaste do tempo. Mas cá fora, o vento, que não transpunha a muralha, ia soprando todos os dias, e havia guerras, havia crises económicas, havia fomes, havia muitos erros e havia quem aprendesse e quem não aprendesse com eles. Germinavam, também, ideias novas, umas boas, outras más, e havia uma grande sede de conhecimento. Alguns bárbaros tinham chegado a abeirar-se da porta da cidade perfeita para trocar impressões, mas a porta nunca se abria – talvez porque ninguém a soubesse abrir.

Uma manhã, o céu aclarou pouco amistoso e levantou-se um vento forte e rasteirinho; um vento que, ao contrário dos outros ventos, que não transpunham a muralha, se insinuou por todas as fendas, respiradouros, luras e frinchas e entrou nela traiçoeiramente, ao rés do chão. Foi o princípio do fim. As casas viram-se arrancadas aos seus alicerces, varridas e arrastadas em turbilhão pelos quatro cantos da cidade; e o papel, de que eram feitas, rasgado e amachucado, com perda de muitas rimas e muita sabedoria. Depois, uma rajada de tufão arrombou a porta e concluiu a razia. Os habitantes da cidade perfeita, vergastados pelo vento e pelas tiras de papel, confusos e espavoridos, lançaram-se em fuga. E precipitando-se pela porta aberta, foram cair nos braços dos seus vizinhos bárbaros, que, mais preparados para enfrentar temporais, já tinham declarado o alerta vermelho e os acolheram em casas quadradas de betão e tendas triangulares de plástico. Os habitantes da cidade perfeita rosnaram ao betão e ao plástico. Mas não se pense que não se adaptaram perfeitamente, porque o nosso imperfeito planeta é perfeitamente capaz de, com o incentivo dos quadrados e triângulos ou sob a ameaça de tufões, compatibilizar a disciplina geométrica com qualquer assimetria.

 

Primeira moral da história : convém ter bem calafetados todos os orifícios, fendas e frinchas, porque por eles – mais do que pela fronteira espanhola - nunca se infiltra nada de bom, nem bons ventos, nem bons «casamentos».

 

Segunda moral da história : acarinhemos os ventos que entram aberta e livremente pela «porta do vento», que nos refrescam, nos trazem os cheiros e os sabores da vida de outras latitudes e longitudes e não estão aí para enganar ninguém.

Texto enviado por: Luísa

 

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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (22)

 

De portas e ventos

 

O vento é a alma invisível do mar. O amor é o mar; nós somos o vento.

Não duvide nunca que você ama. O amor como o mar nos abarca, imenso, e perde-se para além de nossa vista. Ambíguo e imprevisível, o mar como o amor, ora nos encanta com sua calma, ora nos assusta com sua fúria. Ora é ciúmes, ora é compaixão; ora é medo de perder, ora é quase indiferença. Mas é amor sempre - sem que lhe saibam o fim, sem que lhe conheçam origem.

Deduzimos do ritmo de suas ondas, que o mar como o amor, se contrai e dilata, e intuímos que seja incessante espelho do universo. E então por um instante me convenço que a lei do mundo é o amor: está escrito no mar, está escrito no vento.

Amemos, pois nada nos resta senão amar. Amar o melhor possível com toda a força de nosso vento.

Porque o vento é alma invisível do mar e somos nós o vento, o vento que torna incerto o mar.

Deixo minha porta aberta e que venha você o vento me matar a saudade do mar.

 

Texto enviado por: Antônio Caetano

 

 

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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (21)

 

O nome escolhido pela Autora faz disparar a auto-estima

de todos aqueles a quem permite auto-considerar-se como bons ventos,

os que são distinguidos com a generosa franquia

da Porta desse Paraíso.

 

Texto enviado por: Paulo Cunha Porto

 

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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (20)


 

Fechei a Porta do tempo, não fosse por ela entrar a noite, e a escuridão não me deixasse mais ver os teus olhos, que sempre me habituei a ver a passear por dentro dos meus Ventos interiores.

 

É que só porque te olho, vejo espaços a abrirem-se, vejo tempos por que passei, e são meus, porque atrás de mim fui sempre fechando Portas onde iam ficando guardados os Ventos das minhas inquietações e dos meus desassossegos.

 

E tive medo, um medo absurdo, irracional, eu sei, de te perder, por não saber que Porta abrir no meu sonho, e de te ver partir a rodopiar nos Ventos da minha imaginação, para lugares onde não saberia procurar-te, no labirinto que eu próprio inventei, e que por mais Portas que abra, sei que acabo sempre por me perder no Dédalo de mim mesmo, e me deixar levar pelos Ventos das minhas ansiedades, como Ícaro quis fazer, e ir então à tua procura, oh! desventura, como se estivesses sempre para lá de uma Porta, que só se conseguiria abrir se um golpe de Vento lhe batesse, levemente, amorosamente, como o Vento desse teu sorriso, que me abre sempre as Portas do meu sentir-te.

 

E depois dizer, como disse Miguel Torga, "Grito agora o teu nome aos quatro ventos/juro-te enquanto posso, lealdade/por toda a vida e em todos os momentos." e assim te fazer a promessa, de que por mais que me aconteça, nunca te fecharei a Porta aos Ventos deste meu sonho, que te sonha. 

 

E não quero que confundas a beleza da Porta com a essência do Vento, pois a beleza apenas está esculpida na Porta que atravesso na desordenada busca da essência que esse Vento perfumado de ti, me poderá trazer.

 

Texto enviado por: José Manuel Arrobas

 

 

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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (19)

 

O vento inquieta-me

 

Raramente reparava nas portas, limitava-me a empurra-las ou simplesmente a passar à sua ombreira.
Quando era pequeno, diziam-me que tinha rabo de macaco. Simplesmente perpassava as portas incauto, atrás duma qualquer brincadeira ou mesmo de nada. Até que alguém aborrecido vociferava contra a corrente d’ar.
Só muito mais tarde percebi o que significado de “corrente d’ar”. Só mais tarde me inquietou o vento. Agora fecho-lhe a porta: não tenho rabo de macaco.

 

Texto enviado por: João Távora

 

 

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (18)

O exotismo da madeira não oferecia margem para dúvidas. A porta era, decididamente, da máxima qualidade. Uma estrutura sólida, ainda que leve de manusear, de cor sublime e tom discreto, com uns veios elegantes ao corrido do artigo. Naquela marcenaria não havia quem não apreciasse aquela obra de arte fruto da mestria, saber e paciência de quem a construíra. A pergunta fatal dirigia-se ao Amílcar Valente, um rapaz novo da Azambuja, estranhamente interessado em coisas da literatura, da estética, da sensibilidade, que pegara desde cedo num bloco de madeira e o transformara naquela peça.

- Oh Amílcar! Diz lá tu por mim… Que porta é esta?

E o artesão punha os olhos em alvo, afagava a madeira e respondia:

- É a porta do vento.

Os minutos seguintes tinham uma valência de meditação: os colegas garantiam um silêncio cauteloso, atentando naquela expressão poética, questionando-se sobre o alcance da afirmação, envergonhados por não conseguirem dominar toda a vastidão da frase inspirada.

A rotina do dia-a-dia passava, forçosamente, por aquela peça de rara beleza. À entrada os funcionários dirigiam-se, em primeiro, lugar ao sítio onde ela estava encostada, como se fosse um relógio de ponto em versão arte; ao sair, cumpriam o mesmo preceito. Todos, de uma forma mais ou menos disfarçada, passavam por lá durante o dia, inventando uma desculpa. Na realidade, ninguém queria reconhecer que ia buscar inspiração a um item de stock com um nome tão profundo, inalcançável, propiciador dos devaneios mais escondidos e reprimidos: porta do vento

E o Amílcar lixava, polia, encerava, dava brilho, compunha, ajeitava. E os colegas suspensos daquela actividade, não sabendo se, num passe de mágica, surgiria uma brisa redentora que os levaria a qualquer lado, embora nenhum soubesse exactamente para onde gostaria de ir.

Um dia, passava das quatro da tarde – talvez quatro e um quarto – quando tocaram à porta do estabelecimento. O João da Tribo (assim se chamava o funcionário) foi abrir e encontrou um cavalheiro baixo e magro, de sobretudo e chapéu, com uns olhos pequeninos por trás de umas lentes grossas.

- Boa tarde, senhor. Deseja alguma coisa?

O cavalheiro espirrou com sonoridade e assoou-se a um lenço branco, amarrotado. Aclarou a voz e disse:

- Boa tarde, jovem. O meu nome é Vento, Antunes Vento, e venho buscar a minha porta

Texto enviado por: JdB

 

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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (17)


 

Crise 

 

Um vento triste aporta.

 

Vem desconheço de quando.

Martírio e dor transporta.

Bate à porta chorando.

 

Extingue toda ventura.

Por vil capricho do acaso.

Mata quem se aventura.

Castiga caso por caso.

 

E entre chagas feridas.

No bolso batalhador.

As dúvidas aferidas.

Suplantam qualquer valor.  

 

Texto enviado por: Ricardo Ramos Filho

 

 

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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (16)

 

Visto o casaco. Alguém espera por mim para jantar. Penso em tudo. Na carteira, nos óculos, no lenço, na gravata, no cabelo, no enigma do encontro, no charme obligé, nas conversas, no tabaco, no jogo duplo, na conta. Será uma noite para recordar ou para esquecer. Mais uma vez, o espelho. Mais uma vez, a revisão pela carteira, cartões, caneta, isqueiro, bloco de notas, moedas para a gorjeta. Tudo bem e que seja o que Deus quiser. Abro a porta e, quando saio, um vento ciclónico leva-me os planos...

 

Texto enviado por:  João Severino

 

 

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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (15)


 

 

Blind Date 

 

Ao transpor a entrada daquele bar, sentiu-se despida. “Já não tenho idade para isto, já não tenho idade para isto”, repetia, metodicamente, obedecendo aos seus naturais impulsos autodestrutivos, tendência que conservava desde a adolescência e não tinha esperança de corrigir. Nada de contacto visual significativo com os poucos homens que não tinham companhia. “Mau sinal”, pensou ela já com vontade de se ir embora. “Espero cinco minutos”.

Em fundo ouviam-se os Sétima Legião: “Hoje, num vento do norte, fogo de outra sorte, sigo para o sul, sete mares…” Deixou-se embalar pelas recordações felizes que aquela canção lhe invocava enquanto se sentava a uma das mesas, procurando descontrair. Mas antes que tivesse tempo de pousar a mala uma voz interpelou-a:

- Boa noite… Gabriela?

Reconheceu-lhe imediatamente a voz. Era muito sensível a vozes e esta tinha-a impressionando o bastante para desejar aquele encontro, apesar dos avisos da Marta: “Mais fácil passar um camelo por um buraco de uma agulha…”

Virou-se.

Ah, se ela fosse mosca! Parecia que a estava a ouvir: “… ou é cromo ou coiro ou putanheiro”.

- Olá, Sérgio, muito prazer.

Se ela fosse mosca já se estaria neste momento a rebolar de tanto rir, a parva! - pensou.

- Estava sentado ali atrás daquele pilar, por isso é que não me viste quando entraste. Quando cheguei era a única mesa disponível…

- Pois é, apesar de ser 4º feira o bar encheu.

- Como?

- O bar encheu.

- O bar cresceu?

No blog e nos comentários que lhe deixava e depois nos emails e sms, por fim ao telefone parecia-lhe tão interessante…

Sentada à sua frente, a sua alma gémea blogosférica tentava quebrar o gelo, mas ela só pensava: “Baixo, gordo, careca, desajeitado e ainda por cima surdo que nem uma porta! A sacana da Marta vai-se fartar de gozar à minha custa!”

 

 

Texto enviado por: Teresa Ribeiro

 

 

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Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (14)

 

 Aporta em mim 'vez em quando
Vontade de me fazer ao mar
Que me leve p'ra outras gentes
Outras paragens mais quentes
Pr'á pevide laurear.

Mas com jeito vou vivendo
Com paciência - há qu'ir tendo.
Saudades de ventoínhas
Desejos de caipirinhas
Nelas me quero afogar.

Já calçava umas chinelas
brancas, que o barco é novo
Vou mas é subir as velas
Despedir-me do meu povo
E adeus, que vou navegar.
 
Bartolomeu, querido barco
O Jack que te despache
Um bloco, qu'o espaço é parco
Um lápis da Caran d'Ache
E ala!, vou viajar.
 
Água, comida e uma parka
Uns bikinis numa arca
E uns livritos, claro está
Uma ligação à net
E mais pr'aquê? A andar!
 
O medo é algo óbvio
Com que temos de lidar
O Diogo não é pacóvio
Tirou carta de alto mar
E eu lá aprendi a nadar...
 
Respeitinho - é bonito
E devemo-lo ao mar
Por maior que seja o grito
Por mais que se fique aflito
Ele não é p'ra brincar.
 
Quem vive no mar s'aperta
Nem sempre nele se dorme
As estrelas dão a coberta
A casa nem é tão grande
Mas a piscina é enorme!
 
Ó vento, leva-me embora
P'ra onde bem desejares
Já me tarda a tua hora
Já me custa este esperar
Preciso de novos ares!

Por mais que tenha vontade
De no Bartolomeu zarpar
Até posso ir pr'ó Inferno
Mas pr'ó Brasil nem pensar!
Mas é que nem a brincar!


 

Texto enviado por: Madalena Vidal


 

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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (13)

 

Linhas ao sabor do vento que assobia o ano todo nas margens do Estreito de Magalhães. Janelas que servem de porta para outras memórias. Para uma estrada deserta, a vastidão de uma terra sem fronteiras, fortunas feitas e perdidas no tempo. Para histórias que viajam nas grandes ventanias do Sul. Voltarei, um dia.

 

 

Texto e imagem enviados por: Mónica Bello

 

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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (12)


 

 

Fado Porta do Vento

 

Porta do Vento, qu’importa

Que o vento já ‘qui passou

Trazendo uma hora morta

Na dor que não suporta

Do amor que me findou

 

Porta do Vento, lamento

Duma saudade esquecida

Suspiros de sofrimento

Anseios de esquecimento

Daquilo que já foi vida

 

Porta do Vento, portada

Por onde entra a claridade

Brisa suave e desejada

De uma alma inundada

Por um amor sem idade

 

Texto enviado por: Jorge Antunes

 

 

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (11)

 

 

Abri a porta na embriaguez dos sentidos

Num corpo evaporado na profundez dos teus olhos

Danço com este vento no Inverno

Gosto de ti, aos pedaços e aos molhos.

 

E um grito brota da alma

Abrindo a porta ao coração

Rodopio e danço, estranha calma…

Pela Ana solta-se o vento da paixão.

 

Não, não eu,

Escudeiro deste tempo,

Todos nós, teus amigos

Amantes da porta do vento.

 

 

Texto enviado por: J Pedro Viegas

 

 

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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (10)

 

Canção de embalar (o amor)

 

Vem ver onde nasce o deserto.

Vem ver onde é a foz do luar

(Onde) dunas e estrelas são o tecto

(Onde) anjos cintilam no seu lugar.

  

Vem ver onde fica o oceano.

Vem ver o canto do nosso mar.

(Onde) és um amor sem engano.

(Onde) és a minha canção de embalar.   

 

Porque antes de ti era nada

Porque depois de ti o vento foi

Porque a vida é porta entreaberta.

Porque o amor é o tempo do dois.

 

Texto enviado por: Tiago Salazar

 

 

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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (9)

 

 

 

Não, não quero que me falem em portas,
nenhuma porta, porta de espécie alguma.

Nem portas de entrada,
magníficas porque maciças,
portas de aldrabas férreas, portas essas imperiais.

Vão-se as portas de fole
harmónios de consultórios,
dedilhados por ágeis mãos,
portas tais tão funcionais.

Não quero portas blindadas,
que façam da minha casa um cofre de que eu conheça o segredo
porque sempre há um esquecimento e com ele eis-me o lar em jazigo,
a vida em sarcófago.

Recuso a porta do fundo,
furtiva,
a porta da saída rápida e conveniente,
quando ele surge, o perigo, pela outra porta
a da frente,
na hora tão inconveniente.

Rejeito esta e todas as portas,
qualquer porta que me traga a saída ou me franqueie a entrada,
sim, porque eu abomino o direito de admissão
e por igual o acesso público,
pois tudo supõe porta.

Não, não quero, eu não quero o lugar onde outros possam entrar
nem aquele de onde seja eu a ter de sair num a porta da rua é ali.

Além disso, há na ideia de porta contida,
como num murmúrio breve de vento,
a noção de fechadura
e com ela a de ferrolho,
e a de trinco
ah! e a de lingueta
e mais ainda a de chave.

E tudo isso supõe clausura
tudo exige acesso
há em tudo tudo a horrível noção
de permissão e consentimento,
o dá-me licença, o ao que vem, o são isto horas de chegar.

Não, não quero porta qualquer que seja,
espécie alguma de porta
porque todo eu feito gazua, recuso,
eu em pé de cabra, rejeito.

E depois, meu amor, hoje, precisamente por ter havido ontem,
não me falem, no que me dói.

Franqueava eu uma porta, sim,
foi precisamente aí.
Como é irónica a vida
Abri-te, tão feliz, a porta da rua, para que entrasses sem bater.
Foi há tanto tempo, um tempo em que o mundo eram só janelas e horizontes
e céus e serranias e o desejo de viajar.

 

Texto enviado por: José António Barreiros

 

 

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (8)

 

O vento é uma entidade volátil, que se auto-fatia em pedaços bem definidos, revelando-se num desígnio muito próprio.

 

As fatias de vento espessas e arrebatadoras, disparam pela porta dos furacões, tornados e ciclones, arrasando mares, montanhas e vidas.

 

As fatias de vento traiçoeiras e prolongadas, rompem pela porta das tempestades, ceifando gente num segundo, agitam humores marítimos de Adamastores e transformam homens simples da água salgada, em heróis.

 

As fatias de vento bruscas, repentinas e incisivas, atravessam pela porta das ventanias, invertendo estendais de roupa e guarda-chuvas, desmancham perucas recém-penteadas e resolvem cabeças confusas e amores trocados.

 

As fatias de vento breves, suaves e consoladoras, deslizam pela porta das brisas, enlaçam namorados em arrepios súbitos, baixam sob esplanadas em finais de tardes de verão, refrescam pensamentos e arejam almas inseguras.

 

As fatias de vento efémeras, ínfimas e escassas, dissipam-se pela porta do sopro, murmuram segredos ao ouvido, diluem perfumes frescos e insinuam rasgos de inspiração.

 

 

Texto e imagem enviados por: Patti

 

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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (7)


 

Uma porta que se vai abrindo. O vento? Às vezes ajuda, outras vezes não.

 

Avaliar um ser humano nunca é, foi ou será, uma tarefa fácil, mesmo para os que nascem dotados de uma intuição e inteligência emocional fora do vulgar, ou acima da média. O valor de uma pessoa, ou a avaliação, mesmo sendo objectiva e pragmática, que fazemos desse valor e dessa pessoa, remete-nos para uma latitude que por vezes parece não ter fim. A experiência de vida ajuda e é valiosa mas nem sempre é determinante. Avaliar uma pessoa é como uma porta que se vai abrindo devagar, muito devagar, deixando que a fresta nos vá revelando o que existe do lado de lá. O valor de uma pessoa mede-se pela distância entre o que ela desejava ser e o que, na realidade, ela é. Por outras palavras, por aquilo que a fresta da porta que vagarosamente se vai abrindo, nos vai dando a conhecer. De uma forma ainda simples, pela distância entre o que essa pessoa diz ou alvitra e o que ela faz ou empreende. E nesse abrir lento da porta há, a espaços, ventos que a ajudam a abrir-se e outros que obrigam a recuos, ou exigem mais esforço e paciência ao atravessá-la. Avaliar um ser humano é isso mesmo. É como abrir uma porta tendo consciência que ela não se abre sozinha, apesar de às vezes estar entreaberta. Mesmo sabendo que há um vento, por vezes reconfortante, que vem em nosso auxílio e nos facilita essa árdua tarefa, outras vezes abrupto e inesperado, que nos faz redobrar a atenção e os sentidos.    

 

 

Texto e imagem enviados por: Mike 

 

 

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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (6)

 

A porta de mim é tua,

A tua de quem será ?

O vento que aponta à lua,

Aponta, não chega lá.

 

Tudo o que tenho te dou

Quando a noite se insinua

Dou-te tudo quanto sou

E a porta de mim, é tua 

 

 E tu, naquele universo 

Que um dia Deus te dará.

A minh’alma é do meu verso

A tua, de quem será? 

 

És brisa de primavera 

Que chega e não continua

És um compasso de espera

És vento que aponta à lua. 

 

Corre pois até ao dia 

Que a visão te faltará

E se falta a pontaria

Apontas, não chegas lá 

  

P.S.  (estraga a glosa, mas acaba em bem como eu gosto)

 

Corre de noite e de dia

Que a sorte te ajudará

Vai treinando a pontaria

E aponta, que chegas lá.

 

 

 

Texto enviado por: Manuel Bobone

 

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Ventos Amigos (5)


 

Ana, a participação crítica à sua adivinha teria sido ainda maior se eu, que corri atrás da minha banda para libertar o silêncio e poder assim recuperar as palavras, ao chegar-me a ela não me tivesse deparado com um Mozart felicíssimo, travestido de majorette, que enquanto apontava a batuta na mão esquerda para o negro do saxofone dando-lhe ordem de entrar, esticava o indicador da mão direita perpendicularmente sobre os lábios recomendando-me silêncio. Lembrei-me então que a Ana “gosta e precisa” do silêncio. E lembrei-me depois de como eu gosto das irregularidades das suas postagens. De como eu gosto de sentir a ansiedade da dúvida de haver novidade, durante os breves momentos que passam entre o clique no ‘Porta do Vento’ e o encher do ecrã com aquela cor que a natureza não distribuiu por todos, recortada pelas suas palavras que, ainda que sejam já de vésperas, me sabem sempre deliciosamente. Gosto de mandar umas bocas pela janela dos comentários e deixar-me acoitado, qual Cyrano de Bergerac, à espera das réplicas sempre simpáticas e bem-humoradas com que nos brinda, a mim e tantos outros e outras que nos deixamos apaixonar pela sua escrita. Assim permanecerei, mandando as minhas bocas, enquanto a Ana não correr comigo. E mesmo sabendo que às quintas e sábados recebe visitas e poderá não ter tempo para nós, ainda assim aqui virei… nunca se sabe.

 

 

Texto de:  Pedro Barbosa Pinto

 

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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (4)

 

 

Porta aberta, escancarada

A uma esperança sem melancolias

A um desejo de fome saciada todos os dias

A um pedido de futuro sem guerras

A uma ânsia generalizada por letras

A ouvidos atentos à nobre melodia

Ao vento que sopre sabedoria.

 

Texto enviado por: Dulce

 

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Ventos amigos (3)

 

"São as regras e são claras: terá que haver "porta" e "vento".

E por muito que me repita: são palavras, são só palavras, não me consigo alhear das correntes de ar, o resultado de portas abertas ao vento.

E do medo de males certos transportados, invisíveis, nas sentidas correntes de ar.

Feche-se a porta, não se abra a janela, vista-se o casaquinho de malha, sempre assim em diminutivo, suponho que mais por respeito pelas inúmeras qualidades terapêuticas do que por carinho pelas mãos que o tricotaram.

As correntes de ar eram deste modo desviadas para a rua, para os ramos das árvores, para os papéis em reboliço nos passeios, para os cabelos dos passantes, brincavam com os chapéus dos incautos, levantavam as saias das senhoras e defraldavam as cores das bandeiras.

Nada disso, corrigem-me. Que disparate, acrescentam.

Isso é o vento. O vento brincalhão.

As correntes de ar são pérfidas, traiçoeiras, atacam assim pela calada, insidiosamente, espalhando constipações e pontadas, arrepios e resfriados.

Reflito.

O vento é brincalhão?

E as brisas? Suaves, claro.

Páro.

Concentro-me.

Isto deve ser sobre portas e ventos, tal como mandam as regras.

E sobre tal escreverei.

Deixem-me só fechar a porta e vestir um casaquinho de malha porque sinto uma pequena corrente de ar."

 

Texto enviado por: Pitucha

 

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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Ventos amigos (2)


 

 

O caminho para casa

 

Ele aproximou-se dela motivado por um sentimento protector que jamais experimentara antes. Nunca as mulheres o tinham verdadeiramente interessado, exceptuando a mãe com quem sempre vivera. Levava uma vida pacata, de dias iguais como grãos de areia, as novidades no jornal da manhã com o café tomado no sítio de sempre, o autocarro para a repartição, o almoço na cantina, o regresso para o jantar maternal e o sofá onde cabeceava frente ao televisor, antes de recolher ao aconchego dos lençóis. Uma vez por mês atendia às necessidades que a sua masculinidade lhe impunha com uma rapariga que parava pelo Conde Redondo.

 

Os dias corriam assim sem sobressaltos nem outras precisões até que ela se sentou na secretária do fundo, defronte da máquina de escrever já gasta, num ângulo que colidia com o seu olhar sempre que o levantava dos papeis em que preenchia longas colunas de números.

 

Ela era pequena e leve e tão branca que se podia ver o sangue a percorrer as veias que levantavam a pele translúcida que o invariável preto dos vestidos realçava.  Aos seus olhos ela não andava como toda a gente, mas deslizava suavemente a curta distância do chão como que movida pela simples aragem do virar das páginas dos livros de contabilidade. Diria ele que ela se quebraria ao menor toque e ficaria reduzida a um monte de cacos de fino vidro no chão de linóleo, que ele depois teria de varrer por entre lágrimas do remorso de não a ter segurado a tempo.

 

Assim se chegou a ela, primeiro seguindo-a à distância certa de uma passada e um braço, depois pondo-se ao lado dela e acompanhando-a onde quer que fosse. Ela aceitou aquela presença com a naturalidade de quem, como ela, passava pela vida sem deixar marcas.

 

E assim se passaram anos, sem que entre os dois se tivesse trocado uma palavra, um toque ou um olhar, ela cada vez mais leve e transparente, ele segurando-a pelo vestido para que não voasse pois reparara que os seus pés, que dantes mal tocavam o chão, agora deslizavam a uns bons 15 cm de altura.  

 

Num dia em que o vento soprava mais forte e ele a acompanhava a casa, uma rajada súbita e a ponta do vestido que ele segurava delicadamente soltou-se-lhe da mão, deixando-o sozinho no passeio enquanto ela evitava as copas das árvores e começava já a ultrapassar os telhados dos prédios.

 

Nesse momento em que a viu subindo, de vestido preto ondulando suavemente, percebeu que, se não a seguisse, ficaria como ela, cada vez mais leve e vazio até desaparecer de vez. Esqueceu todas as leis da física, que de qualquer modo nunca tinha aprendido como deve ser, e levantou voo a tempo de a ver passar atrás da torre 3 das Amoreiras em direcção a Sul.

 

Voaram assim, ela à frente e ele seguindo-a, deixando a cidade para trás, primeiro ao longo do rio, depois por cima de campos verdes e amarelos. Quando já não havia casas, nem animais nem pessoas, ela começou a subir mais em direcção ao céu. Ao longe, bem no alto, ele viu uma porta entreaberta. Sentiu-se em paz. Chegava finalmente a casa.

 

 

 

Texto e desenho enviados por: TCL

 

 

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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Ventos Amigos (1)

 

 

I. Meninos e Ventos


A coisa mais linda do mundo

É quem acredita em vida

Dá asas a sonhos

Como uma lufada de vento.

 

Quando penso em meninos lembro logo dos contos de aventura, de ilhas, tesouros e heróis. Meninos são assim. Crescem e trocam os cavalinhos de pau por conversíveis (imaginários ou reais) ou motos possantes, mas no fundo ainda guardam um tantinho dos meninos que foram (?) e das aventuras de cavaleiros andantes, onde tomam o lugar do herói e saem por aí a tentar mudar o mundo e as injustiças da terra. 

 

Menino que teve infância saudável, com muita corrida nas ruas, pés descalços nas férias em casa de avós, vira homem e não abandona a capacidade de se indignar com o que acha errado, contra as dores do mundo e o triunfo dos porcos. Emociona-se com fotos antigas, com imagens de filhotes, gosta de mandar flores em forma de palavras. Corre contra o tempo chega com o vento, ou é o próprio vento... 

 

Mas o que sei eu sobre meninos, lobos e ventos? Sinto mais que sei, mas os ventos são assim mais pra senti-los que pra sabê-los, ou não? Abri  as janelas da alma e a porta do castelo. 

 

Um vento passou aqui e me levou.

Já consigo deixar minhas asas soltas de novo...


 

 

II. Meloclimática

 

 

AdalorÁfricoAlísioAragemAuraAustroBrisaCicloneEspiroEuroFuracão 

Garbino

LariçoLestadaLevanteMareiroMistralMinuanoMonçãoNortadaOressa

Pampeiro

RafadaRajadaRedemoinhoSirocoSobreventoSuestadaTerralTornado

Tramontana

TravessãoTufãoVendavalViraçãoXamalZoeira

Tudo isso é vento

É desassossego em mim

 

 

 

Textos enviados por: Ana Paula Motta

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publicado por Ana Vidal às 23:56
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Ventos Amigos

 

Já começaram a chegar os textos do desafio que fiz a todos os meus leitores, bloggers ou não. De seguida será publicado o primeiro (que chegou do Brasil), inaugurando uma rubrica a que decidi chamar Ventos Amigos. A ordem e o ritmo de publicação poderão variar, mas todos serão publicados, a seu tempo.

 

Vá lá... participem! E não se esqueçam: o texto tem de conter as palavras "porta" e "vento", mas o conteúdo e a forma são inteiramente livres.

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publicado por Ana Vidal às 23:44
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