Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Bater no fundo

 

 

Esta notícia deixou-me arrepiada.

 

Quando corremos aos lares de idosos a resgatar os nossos pais e avós, não porque os queiramos connosco em casa ou porque de repente criámos condições para voltar a recebê-los, mas porque a magra pensão que recebem nos ajudará a pagar as contas... é porque batemos realmente no fundo.

 

Isto chama-se miséria, não só financeira como moral.

 

 

publicado por Ana Vidal às 23:32
link do post
Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Presente de Natal

Recebi hoje, por mail, esta inacreditável proposta para um presente de Natal. O meu primeiro impulso foi fazer um post a brincar com o assunto. Seria fácil, o tema presta-se a trocadilhos divertidos. Mas um segundo pensamento impediu-me de fazê-lo: a verdade é que não me apetece brincar com esta aberração.

 

Numa época em que tudo é possível, tudo é relativo e tudo é perdoável, o "espírito de Natal" está definitivamente adulterado e prostituído, confundindo-se com estas estranhas investidas comerciais. Reduzi-lo a uma prática puramente mercantilista, neste caso associada a um país onde nem sequer o Natal tem qualquer significado, parece-me de um mau gosto atroz.

 

"Com a XXX o Natal é agora"???  Por favor!!! Até como mensagem publicitária, vou ali e já venho... porque "sem a XXX " o Natal também é agora... ou não? Miséria criativa, ainda por cima.

 

Nem vale a pena pronunciar-me sobre os perigos óbvios que envolve a aventura cirúrgica, estão bem patentes no cuidado com que o assunto é abordado...

 

Proponho que pensemos um bocadinho no tenebroso alcance de tudo isto. 

 

A cirurgia dura aproximadamente 1 hora. Faz-se uma pequena incisão na localização escolhida; introduz-se a prótese através da incisão, que será depois suturada e dá origem a uma cicatriz. Com a XXXXX o natal é AGORA!

Reserve até 31 de Dezembro 2008 e faça a

sua mamoplastia por um preço imbatível.

Este preço inclui:

- Viagem Lisboa/Tunis/Lisboa em voo regular Tunisair

- Alojamento em hotel 4* em regime de meia pensão

- Cirurgia de Mamoplastia de Aumento

- Próteses

- Consultas

- Internamento (2 noites)

 

Com a XXXXX o natal é AGORA!


Existem vários tipos de próteses. A prótese ideal é escolhida com o cirurgião durante a consulta médica.

As próteses usadas pelos cirurgiões parceiros da XXXXXX são de gel de silicone, e são produzidas pela Eurosilicone.

 

CIRURGIA

+

INTERNAMENTO

+

VOOS

+

HOTEL 4*

+

MEIA PENSÃO

+

ACOMPANHAMENTO

=

€ 3.000

 


(Nota: retirei propositadamente o nome da empresa promotora porque me recuso a dar-lhe publicidade gratuita.)

 

publicado por Ana Vidal às 11:30
link do post
Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Black & White

 

Qual deles ganhará? Já falta pouco para sabermos.

 

Por mim, já o disse, gostaria que fosse Obama. Não porque o seu programa de governação seja superior ou, sequer, substancialmente diferente do de McCain, mas pelo  profundo significado do gesto. Pela mudança de atitudes e de mentalidades de que essa escolha seria um sinal revelador. Mas apenas um sinal, nada mais do que isso. A grande e verdadeira mudança não será a eleição de um negro, de uma mulher, ou de qualquer outro candidato "diferente" do que é tradicional. Saberemos, sim, que alguma coisa mudou realmente, quando isso acontecer e não for notícia.

 

Até lá, e para entreter a espera, valha-nos o humor.

 

Adenda (5/10/2008): I'm glad they could.

 

publicado por Ana Vidal às 20:44
link do post
Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Os deuses devem estar loucos

 

O mundo ocidental vive um estranhíssimo momento histórico. Não sei o que pensar disto...

 

Um brilhante homem de marketing, a vender o seu produto com uma imaginação delirante?

Um lunático, à procura de protagonismo mundial através de uma paranóica teoria da conspiração?

Um iluminado que diz a verdade, uma verdade gravíssima e demolidora?

 

Os deuses devem estar loucos, disso não tenho grandes dúvidas. É ao "fim do mundo" que teremos de ir buscar a nossa garrafa de coca cola, qualquer dia...

 

(Nota: o video foi-me enviado por uma amiga que vive no Canadá)

 

publicado por Ana Vidal às 10:41
link do post
Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Tragicomédia


 

A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as mini-estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.

 

Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos - mas não apreendemos - com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha, para nos transformarmos em genuínos Seinfeld's, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a "cómicos" nos concursos televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.

 

Mas o fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei esta semana, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a "piadomania" também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a guiar: "Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão", acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: "O ... era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora... ainda!" E sublinhava o "ainda!" com um sorriso malandreco, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar essa lacuna. E toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.

 

Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação das vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada naquele contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.

 

publicado por Ana Vidal às 01:42
link do post
Sábado, 13 de Setembro de 2008

Pacto

 

 

 

Estabeleci, com o tempo, um pacto de não-agressão com a sociedade em que vivo: eu não a envergonho, ela não me domina. Digo “a sociedade em que vivo” e não “a sociedade a que pertenço” porque, para ser rigorosamente honesta, não tenho a certeza absoluta de pertencer-lhe. Mas tolero-a, desde que ela me tolere também nas suas fileiras. É assim como se me tivesse inscrito numa viagem organizada, que me poupa o trabalho penoso da papelada, bagagens, marcação de hotel e bilhetes de avião, ficando eu com todo o tempo para ver a paisagem porque me livraram dessas preocupações menores. O preço? Trocar uma aventura solitária, muito mais apaixonante, por uma excursão em que tenho de respeitar também as vontades e gostos dos outros. Não sei se compensa, às vezes. Mas, feito o balanço, acho que não me tenho dado mal.

 

Pode até parecer sabedoria, mas não é. Há nesta atitude mais preguiça do que estratégia, mais rendição do que exigência, mais indiferença do que brio. É apenas um truque, um cómodo subterfúgio para que o meu individualismo seja preservado, malgré tout, como se fosse o bem mais precioso do mundo. E não é, eu sei que não é, nem sequer para mim. A minha inescapável lucidez – não necessariamente feita de inteligência, mas sobretudo de intuição - diz-me que há muito pouco altruísmo nesta renúncia à luta pelos ideais em que creio, em que ainda creio.

 

A verdade é que acabei por acertar com a vida uma espécie de live and let live, ou talvez, melhor ainda, leave and let live, já que me retiro voluntária e placidamente do palco colectivo onde se passa tudo o que me incomoda, mas que não tenho já pretensões de modificar. Mas não é, definitivamente, um live and let die. Quando muito, e não me orgulho da ponta de cinismo que a máxima possa conter, será um leave and let lie. Já lutei, de espada em riste, por tudo e por nada. Agora acomodei-me. Que venham novas Joanas d’Arc para estes novos tempos em que as Causas são confusas e esparsas, que eu já fiz a minha parte. Agora, o que quero é sossego. Não sou incómoda, prometo. Mas que ninguém se atreva a pedir-me a minha liberdade interior. Essa não está - e nunca estará - na mesa de negociações.

 

publicado por Ana Vidal às 23:09
link do post
Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Descaramento

 

Eu também ouvi o discurso*. E ia escrever alguma coisa sobre o assunto, ainda sob o efeito da indignação que aquele descaramento todo me causou, mas encontrei este post, e... está tudo dito:

 

"Há uns instantes aparecia o Zédu, Camarada-Presidente, a prometer que perseguiria implacavelmente aqueles que exploram o povo angolano em proveito próprio: vai portanto matar as filhas e suicidar-se em seguida - todos os ingredientes de uma tragédia grega!"

 

(no Jansenista)

 

* O rei de Espanha ensinou-nos uma nova frase para estas ocasiões: "Porque no te callas?"

 

publicado por Ana Vidal às 02:25
link do post
Sábado, 9 de Agosto de 2008

Despertar

 

 

"Quando a China despertar, o mundo tremerá". Quem o disse foi Napoleão Bonaparte, em 1816. E ninguém poderá negar-lhe o direito ao epíteto de visionário, por muitos defeitos que tivesse.

 

Lembro-me bem de um livro que o meu avô nos recomendava ler, há muitos anos: Quando a China Despertar, de Alain Peyreffite (*), que nos dava conta dessa mesma... realidade. Ia escrever "ameaça", mas detive-me a tempo. "Só será ameaça se o Ocidente ignorar essa força emergente e não se preparar para ela", dizia o meu avô. E tinha razão no vaticínio, porque me parece que foi exactamente o que aconteceu. A velha Europa, sobretudo - arrogante e narcisista por natureza - deu-se ao luxo de subestimar o gigante que se espreguiçava lentamente, abandonando o sono de séculos a que fora obrigado. A China sofreu e aprendeu, sofreu mais e aprendeu mais. E despertou, afinal.

 

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos não foi mais do que uma (belíssima) demonstração dessa pujança, dessa força imbatível que alia orgulho na tradição, disciplina férrea e total ausência de individualismo.  Todas estas características nos abandonaram há muito, a nós que adoramos o protagonismo e que reagimos mal ao sacrifício em prol do colectivo. A nós, ocidentais, que nos deixámos dormir no pedestal em que nós próprios nos colocámos, julgando o lugar eternamente garantido. E agora, de repente, queixamo-nos de uma invasão em massa e de uma batalha perdida antes mesmo de ter começado.

 

A China despertou, mas o problema não foi esse. O problema, o grande problema, foi termos nós adormecido, entretanto.

 

(*) O mesmo autor escreveu há poucos anos, antes de morrer, "A China despertou"

publicado por Ana Vidal às 18:45
link do post
Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Blind dates?

 

 

Discutia-se há dias, no blogue da Cristina Ribeiro, as vantagens e desvantagens da net como veículo de conhecimento e aproximação das pessoas. Houve quem defendesse que o contacto virtual nunca poderá comparar-se ao real (e muito menos substituí-lo) porque no primeiro falta a expressão do olhar, o toque, o cheiro, etc. Tudo isso me parece inegável, e penso que todos estaremos de acordo quanto a essas lacunas. Há também as perversões e embustes de toda a ordem, que podem facilmente fazer vítimas entre os mais crédulos e indefesos utilizadores da rede. Todos os dias somos confrontados com notícias alarmantes, que nos dão conta da utilização abusiva deste meio para os mais tenebrosos fins.

 

Mas há também, como em quase tudo na vida, o outro lado da moeda: a net pode preencher solidões inapeláveis; aproximar gente com afinidades óbvias que nunca se conheceria de outro modo (até por razões geográficas); criar sólidas amizades e até fazer nascer amores, tão duráveis como quaisquer outros. Lembro-me de ter sugerido, nessa mesma discussão, que uma das vantagens deste modo de nos comunicarmos é precisamente a de anular as barreiras do físico. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, isto pode ser bom, porque não inferioriza ninguém e dá, a todos, iguais oportunidades. Disse-o de forma intuitiva, sem pensar muito no assunto. Mas ontem tive a prova cabal de que essa ausência de visualização nos contactos via net dá, aos mais desfavorecidos fisicamente, enormes benefícios. Enquanto esperava a minha vez numa fila interminável para um guichet, ouvi esta curiosa conversa à minha frente:

 

- Então… mas você casou-se??? (o espanto não disfarçado vinha de uma vamp oxigenada, “vestida para matar” às nove e meia da manhã. Os homens presentes olhavam-na de alto a baixo, agradecidos por aquela boa surpresa num sítio de tédio inescapável).

 

- Pois casei… e nunca pensei ser tão feliz! (respondeu-lhe uma gorda anormalmente baixa, quase anã, feiota e desengonçada. O contraste entre as duas era flagrante, e eu apostaria a cabeça em que nenhum homem ali tinha, sequer, dado pela presença dela).

 

- Mas onde é que conheceu o seu marido? (a tradução literal para a pergunta era óbvia: “mas como é que alguém te pegou?”).

 

- Olhe… foi na net! Namorámos durante muito tempo só por mail e no msn, depois pelo telefone. E eu nunca lhe mandei uma fotografia, tinha medo de que ele nunca mais me ligasse. Mas ele tanto insistiu que eu lá ganhei coragem e, finalmente, ao fim de três meses combinámos um encontro. E foi um sonho… ele disse que eu era a mulher da vida dele! Mas assim, quando ele me viu já sabia como eu era por dentro e já estava apaixonado por aquilo que eu sou, por isso já não ligou às aparências… veja lá que ele até acha que eu sou bonita!!

 

- E ele, é bonito? (a pergunta não tinha nada de inocente. Nos olhos da outra lia-se um misto de inveja e sarcasmo, como se tudo o que quisesse fosse confirmar que “ao menos não se estragaram duas casas”).

 

- Ele? É lindo!!! Bem… você se calhar não achava, mas… para mim, é!

 

publicado por Ana Vidal às 13:10
link do post
Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Ainda sobre o "dia de" hoje...

 

 

Tudo se inventa, hoje em dia. Qualquer teoria é defensável desde que não tenha de ser provada. E no que toca a teorias de auto-ajuda, a oferta é quase infinita. Há até um maduro que defende qualquer coisa de tão extraordinário como o "parto orgásmico". Isso mesmo, leram bem. Um orgasmo durante o parto... querem coisa mais aliciante, tão "a calhar" naquele momento? Uma amiga grávida* mandou-me a notícia por mail e eu não queria acreditar no que lia...

 

Vale a pena ouvir o que diz o iluminado Ricardo Herbert Jones (deixo aqui estes dois excertos para quem não tiver paciência para ler todo o artigo, o que eu, aliás, entendo perfeitamente):

 

"O orgasmo durante o nascimento só pode ocorrer quando todas as variáveis de segurança, afeto, tranqüilidade e equilíbrio emocional estiverem garantidas. Desta forma, o orgasmo será a conseqüência deste ambiente de positividade, e não sua busca objectiva."  

 

"Parto orgásmico é um mergulho profundo no ser feminino. É a descoberta do prazer de parir; o segredo mais bem guardado, no dizer da parteira americana Ina May Gaskin. É uma possibilidade para qualquer mulher desde que possa despir-se das capas de medo criadas pela cultura patriarcal que tenta dominar a força criativa da mulher, culpabilizando-lhe o prazer e domesticando o feminino."

 

O blá blá blá continua aqui, para quem ainda não estiver devidamente esclarecido.

 

Tenho só a dizer-lhe, caro Ricardo Herbert Jones, que só um homem se lembraria de uma destas. Porquê? Porque só um homem pode dizer todas as asneiras que lhe vierem à cabeça sobre um assunto que desconhece em absoluto, sabendo que jamais terá de vivenciá-lo para provar a sua teoria... 

 

Tenha primeiro um filho, meu amigo - e de parto natural! - e depois venha falar-me de orgasmos durante essa experiência light...

 

(*querida Sofia, lamento desenganar-te... a maternidade é a experiência mais extraordinária do mundo, mas não tem nem um pingo de erotismo!)

 

publicado por Ana Vidal às 22:24
link do post
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Mundos

 

Pelo número de vezes que entrei em capelas mortuárias, só neste último ano, dou-me conta de que há um mundo conhecido que está a desaparecer a uma velocidade impressionante. Mas a Vida renova-se, e outros mundos vão nascendo. Chegarei a conhecê-los bem? Não sei.

 

publicado por Ana Vidal às 14:46
link do post
Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Bater no fundo

 

Uma típica middle class teenager americana: bonitinha, loira, filha única, mimada, indolente, insolente, a caminho da obesidade a passos largos.

Em suma - uma criaturinha insuportável.

 

Um típico middle class teenager americano, namorado da dita: ar razoavelmente saudável mas apatetado, convencido, feiote, indolente, insolente, magro e borbulhento.

Em suma - uma criaturinha insignificante.

 

Uma típica middle class housewife americana: diligente, puritana, dependente, preconceituosa, opinativa, ignorante, resignada, lamechas, numa batalha perdida com a obesidade.

Em suma - uma criatura frustrada.

 

Um típico middle class male americano: alarve, machão, preconceituoso, ignorante mas convencido da sua superioridade, obeso assumido, todo-poderoso, cruel, ditador.

Em suma - uma criatura perigosa. 

 

***

 

Os pais não gostam do namorado da filha, acham que ela merece muito melhor. O namorado não gosta dos pais dela, e acha que ela tem muita sorte em tê-lo fisgado. A filha defende o namorado (sem grande convicção, diga-se) mas acha que não perde nada em dar o benefício da dúvida a mais alguns candidatos a um lugar no seu coração.

 

E começa o espectáculo: os pais entrevistam vários jovens, à vez - as perguntas de selecção são simplesmente inenarráveis - e cada um deles escolhe o que lhe parece o melhor para a filha. O pai escolhe um troglodita parecido consigo, mas numa versão teen e musculada, porque acredita que ele  "tomará conta da filha" e que não deixará que lhe falte nada, no futuro. A mãe escolhe um invertebrado meloso e supostamente romântico, porque acredita que assim a filha terá sempre ramos de rosas e joelhos em terra, coisa que ela própria jamais soube o que seria.

 

A filha presta-se ao papel de passar algumas horas com cada um dos dois eleitos, que tentará seduzi-la e conquistá-la com as armas que tiver e com as preciosas dicas que os pais lhe facultaram. Os pais ficam no sofá da sala, com o namorado entre eles, assistindo na televisão (e comentando a três...) a evolução desses encontros, filmados em directo. Ouvem-se frases tão extraordinárias como "O filho da puta está apalpá-la toda!" (uma indignação manifestada pelo namorado e logo secundada pelo pai, pela primeira vez concordantes e irmanados no ciúme mais primário), ou "Vêm como ele é romântico? Até a deixou repetir o gelado!", uma frase da mãe, embevecida, que lhe vale dois olhares de absoluto desprezo.

 

Por fim, a princesa tem que escolher o seu príncipe. O namorado, um duque de paus que acredita firmemente no seu trunfo - um conhecimento mais aprofundado -  volta ao baralho, em igualdade de circunstâncias com os dois ases finalistas: o Rei dos Músculos e o Rei das Frases Feitas. A menina, melíflua, aponta os defeitos e qualidades de cada um, reflectindo interiormente na contabilidade mais satisfatória. Por fim, baixa o polegar a dois deles, sem contemplações, e ergue-o ao terceiro, sorridente. Qual deles escolhe? Pasmem: não o namorado, que dizia amar e defendia da injustiça dos pais, não a inflamada lêndea que lhe ofereceu rosas e gelados batendo as pestanas, mas... o egótico brutamontes que era a aposta do pai e que virá a dar-lhe, seguramente, um tratamento parecido com aquele que a mãe recebe desde sempre. Dá que pensar...

 

Esta aberração chama-se "Parental Control" e é um programa de televisão nos EUA. Mais um produto do voyeurismo televisivo, de infindável capacidade imaginativa. Quando eu penso que o modelo está esgotado e que já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes que me surpreende. É por estas e por outras que praticamente já não vejo televisão. Tenho plena consciência de que a maior perversão destes reality shows é o facto de serem tão hipnóticos que, sob os mais diversos pretextos, ficamos invariavelmente a vê-los até ao fim.

 

publicado por Ana Vidal às 17:13
link do post
Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Códigos

 "Saltou da cama e entrou no quarto de banho, para se arranjar. O esposo já estava pronto, na cozinha, à espera dela. Tomou um duche rápido, penteou-se, passou um batom vermelho nos lábios. Depois vestiu uma calça justa, sapatos e mala a condizer e desceu finalmente. Usava a pulseira que ele lhe tinha oferecido como prenda de aniversário, linda e nada pirosa. Os meninos vieram despedir-se da mamã e do papá, que sairam então para trabalhar, no automóvel novo que estava estacionado à porta da vivenda. Ainda disseram tchau à moça que vivia em frente."

 

 

Todos os grupos sociais têm os seus códigos de reconhecimento, de demarcação de território, exactamente como o jacto de urina deixado pelo leão nas árvores que circundam aquele que determina como seu. São códigos lineares, por razões de sobrevivência e de identificação de "espécie", tanto mais rígidos quanto maior é a fragilidade desta e a sua ameaça de extinção. 

 

Em Portugal, a velha aristocracia e a alta burguesia (refiro-me à que está enraizada no eixo Lisboa-Cascais, já que em outras regiões os códigos podem ser diferentes) regem-se por um conjunto de palavras - chamemos-lhe uma Cartilha - que define esse grupo específico, geralmente considerado como o dos eleitos entre os eleitos. Não falo daquilo a que as revistas cor-de-rosa chamam o jet set, isso é outra coisa. Aliás, uma "coisa" a que este grupo se orgulha de NÃO pertencer, com quem NÃO se dá e com quem NÃO quer misturas. O dito jet set é, praticamente, a sua antítese. Porque este grupo não se distingue pela conta bancária ou pelos sinais exteriores de riqueza, muito pelo contrário: tanto pode ter (e tem, frequentemente) uma situação financeira extremamente precária, como uma fortuna sólida, mas sempre discreta e gozada longe dos olhares públicos. E a exibição do estatuto é tão condenatória como o uso das palavras que determinam a exclusão social dos incautos.

 

Mas é só sobre esta ditadura de palavras que reflicto hoje. As autorizadas e as impronunciáveis, as que podem conferir aos forasteiros um passaporte para "o meio" (ainda que sempre sob reserva) e as que podem levar à liminar expulsão, sem apelo nem agravo. As palavras proibidas são como nódoas de vinho tinto numa toalha de linho alvíssima, mesmo que já rasgada e sem rendas à vista. Uma espécie de acordo ortográfico privado - embora se aplique praticamente só à expressão oral - de um Olimpo urbano e sofisticado que sempre reclamou para si um léxico especial. Um léxico sine qua non...

 

A Cartilha ainda vigora (hoje menos do que ontem, amanhã seguramente menos do que hoje) num território restrito, uma coutada onde se move uma espécie rara. Há quem dedique uma vida inteira a aprender a pisar esse campo minado, e chegue até a atravessá-lo com a destreza suficiente para pensar que, escapando às minas, enganou as sentinelas. Pura ilusão. Mesmo que nenhuma palavra o traia, há sempre um qualquer pormenor que revela o esforço, a falta de naturalidade, o medo de ser apanhado. Teve-se berço na coutada ou fora dela, é simples. O poder da Cartilha é o do irrefutável polegar de um imperador de Roma.

 

Vivo rodeada destes códigos há demasiado tempo para poder dar-me ao luxo de ignorá-los. Mais: por mimetismo ou bom ouvido, vou-os cumprindo, de forma automática, alinhando paulatinamente nesse exército que sei vigilante e sempre atento ao que dizem os seus soldados. Atento à menor tentativa de deserção de um deles, e, mais ainda, atento às tentativas de infiltração de estranhos. Não combato militantemente os códigos, é certo, mas acho ridícula a ditadura que eles impõem. A sua importância diz respeito a uma área geográfica de tal maneira limitada, que chega a ser risível: meia centena de quilómetros para além do perímetro, e perdem a validade. Dois passos fora do país e da língua portuguesa, e já não classificam ou desclassificam ninguém. Mas a verdade é que foram demasiados os anos em que estivemos fechados em nós próprios, olhando só o nosso precioso umbigo e desconhecendo a vastidão dos mundos que há para além dele. 

 

Por mim, prefiro outras formas de avaliação menos fúteis e, sobretudo, mais fiáveis. Aquelas que agregam pessoas pela partilha de valores e princípios, de interesses e de gostos, enfim, por qualquer outro critério que não o da mera pirotecnia da expressão oral. E vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno, de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.

 

(Nota: O texto a azul claro, em cima, foi escrito propositadamente com as tais palavras proibidas. Para quem estiver interessado e ainda ache que vale a pena o esforço, apesar de tudo o que eu disse, aqui ficam as palavras aprovadas, que devem substituir as que estão a itálico (pela mesma ordem): casa de banho; marido; encarnado; boca/beiços; calças; carteira; presente; anos; possidónia; os miúdos/as crianças; mãe; pai; carro; casa; adeus; rapariga.)

 

publicado por Ana Vidal às 00:03
link do post
Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Alecrim e Manjerona

 

Esta notícia do DN dá-nos conta de uma guerra de Alecrim e Manjerona travada nos corredores do MNE, que daria uma boa opereta, com libretto escrito pelo Eça. Ficamos a saber que há movimentações subterrâneas e revoltas surdas entre os punhos de renda e as luvas de pelica,  entre as casacas e os sapatos de verniz, entre os papillons e os botões dourados.

 

Não posso deixar de sorrir com o que leio: perante as imensas e graves dificuldades que o país atravessa, estas insólitas batalhas no Olimpo passam totalmente ao lado de uma população que tenta sobreviver às crises económicas sucessivas que lhe põem à frente. De uma população que, se inquirida, diria sem hesitar que esta opera buffa não serve, sequer, para divertir o pagode, e que os actores estão todos a mais no palco do quadro de miséria em que vivemos.

 

Não subscrevo esta opinião, mas entendo-a. Sei que a diplomacia faz falta e que tem um papel importante na imagem de qualquer país civilizado. Sei que não poderíamos abrir mão de representações que nos dignificam perante o mundo, e que os veleiros palacianos são, muitas vezes, a única opção para chegar a portos difíceis. Mas não posso deixar de reflectir sobre a profunda clivagem que se agrava todos os dias entre governantes e governados, que faz parecer supérfluo, e até irreal, tudo o que não se trate do simples pão para a boca.

 

(Texto escrito para o Corta-Fitas e publicado hoje porque não o tinha ainda posto aqui, no Porta do Vento, e só agora dei por isso...)

 

 

publicado por Ana Vidal às 18:52
link do post
Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Para quem achou...

... que eu estava a brincar...

 

sexta, 13 junho

CASE-SE NO MAXIME!

 

  

«No dia de Sto António – o casamenteiro – todos os que falharam a célebre cerimónia diurna do casório na Sé, ainda podem dar o nó! Basta para isso dirigirem-se à Pr. Da Alegria e contrair matrimónio ali mesmo, em pleno Maxime! Toda a gente se pode inscrever para este casamento nocturno sem igual. Tragam os amigos e a família, e brilhem no evento mais mediático do século, ao som dos flashs e disparos das cameras fotográficas! 

 

Não pensem que é só de brincadeira! Uns são a sério com registo e tudo aquilo a que se tem direito, outros faz de conta! Tudo bem animado, pois no que toca à brinacadeira, será o Padre Vieira (não o António, mas sim o Manuel João), que celebrará as sagradas uniões! A festa é abrilhantada pelo conjunto musical “Os Irmãos Catita” e ainda por Mitsuhirato, o DJ mais casamenteiro desde Frei Tuck!x

 

Inscrições para todo o tipo de casamentos. E casar à noite tem outro charme! Para além do mais, esta “igreja” tem bar, palco, sala de convívio, instalação sonora, toiletes e muito mais! Se quer um Sto. António sublime, case-se-no Maxime. Oferta de bolo de noivos, certificados de casamento Maxime e fotografias para mais tarde recordar!!! Noivos que ainda pretendem inscrever-se e que tragam pelo menos 10 convidados, não pagam os bilhetes de entrada. Compareça e enubeça!»


Pela minha parte, aqui fica uma sugestão para a decoração do bolo:

 

 

publicado por Ana Vidal às 20:31
link do post
Terça-feira, 3 de Junho de 2008

De mão estendida

 

Se o estado da economia de um país se pode aferir pela quantidade de pedintes nas ruas da sua capital, então a nossa está, literalmente, de rastos. As ruas de Lisboa estão pejadas de gente que pede esmola em cada esquina, em cada vão de escada, em cada entrada do metropolitano. O espectáculo é tão aflitivo como inevitável, e embora com as mais diversas origens e razões, todas estas misérias têm um denominador comum:  mais do que uma mão estendida, há um dedo apontado a nós, passantes apressados e tantas vezes indiferentes, por termos criado uma sociedade que não olha pelos seus desvalidos como devia.

 

A necessidade e o desespero podem ser os mesmos, mas os pedintes não são todos iguais. A atitude e a abordagem variam bastante. Há os que exibem as suas desgraças (ou as de outros, geralmente crianças), arregaçando mangas e pernas de calças para mostrar os cotos tristes num desamparo mudo e sem pudor, feito de pura rendição. Há os que nos recitam uma ladainha decorada e já inexpressiva, raramente ouvida mesmo por aqueles que lhes deixam cair uma moeda nas mãos. Há os ciganos, que destaco apenas porque conservam uma natural arrogância no olhar, que apesar de tudo os redime, mesmo quando se desdobram em lamúrias ininteligíveis (é como se nos dissessem: "mesmo que não dês nada, eu não deixo de ser quem sou!"). Há uma infinidade de estrangeiros de todas as proveniências que, não sabendo ainda comunicar em português, nos fazem ler um papel plastificado com uma história de vida arrepiante. Há os que nos impingem um serviço que não pedimos, para justificar a esmola, como um vidro lavado à velocidade da luz enquanto o sinal não muda de vermelho a verde, ou a indicação de um lugar de estacionamento que já tínhamos visto. E há os que mais me enternecem: aqueles que nos oferecem, não alguma coisa de útil ou tangível em troca da moedinha, mas o seu pingo de sonho ou de eternidade, cantado ou tocado num instrumento qualquer, quase sempre mal.

 

Finalmente, há os criativos. Por duas vezes me aconteceu já cruzar-me com esta estirpe especial. A primeira foi no CCB, há uns anos, quando eu tentava estacionar o carro, já em contra-relógio, para ir assistir a um espectáculo (não tenho a certeza, mas acho que era a Flauta Mágica). Um dos "arrumadores" que andam sempre por ali percebeu a minha pressa, correu a cravar-me a moeda da praxe e disse-me, com ar cúmplice, esta frase que nunca mais esqueci:  "Vai gostar. Eu vi em Paris e adorei".

 

Hoje voltei a encontrar um criativo perto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde estou a fazer um cursinho de História da Arte e Coleccionismo: um tanto afastado da porta principal para não ser apanhado pelos seguranças do museu, um maltrapilho de porte imperial e sorriso rasgado estendia a mão, pedindo "uma moeda para a cultura" (!!), ao mesmo tempo que entregava um folheto do museu a quem lha dava. Muito gostava de saber como entrou ele lá dentro, para roubar a pilha de folhetos que lhe saía do bolso...

 

publicado por Ana Vidal às 23:05
link do post
Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Topo de Gama


Na mesa de café ao lado da minha, duas adolescentes típicas: muitos risinhos abafados, muitos olhares de esguelha, muitos sinais em código. E uma conversa cifrada, em tom velado, entrecortada por suspiros e gargalhadinhas nervosas.

Fico curiosa e sigo-lhes as olhadelas disfarçadas, para ver a causa de tanta agitação: lá está ele, um patético don juan de quinze anos, de calças a escorregar pelo rabo inexistente, borbulhas indisfarçáveis e uma melena oleosa. Sozinho, ao balcão, parece "da casa" pelo à vontade da pose. Olha de vez em quando as miúdas, ostensivamente, com um ar distante e castigador (o mais aproximado que consegue do martini boy da fantasia delas) e a coisa parece estar a correr-lhe bem. O crescendo de excitação que provoca é evidente para qualquer um. Às tantas, uma delas não se contem e comenta, de modo a que ele a oiça:
- Ó pá, Tânia, o gajo é mesmo topo de gama!
Volto a olhar o Casanova de pacotilha em versão imberbe - deliciado, é claro, com o efeito dramático do seu infinito charme - depois as miúdas, e pergunto-me muito seriamente se também eu terei já feito, um dia, estas figuras. Claro que fiz. Talvez não tão explícitas, que os tempos eram outros, mas nesta idade as hormonas mandam em nós como gente grande. Saio a sorrir e a pensar com os meus botões:
Topo de gama??? Topo de Gama era o Vasco!


publicado por Ana Vidal às 23:07
link do post
Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Horror



Já comecei - e abandonei - vários posts sobre a notícia de Elizabeth Fritzl e a sua horripilante história de vida. Este assunto tem-me arrepiado de tal maneira que ainda não consegui escrever nada sobre ele. Preciso de digerir primeiro todo o horror, toda a repulsa, toda a alienação que envolve esta monstruosidade, para depois ser capaz de reflectir sobre ela. Até lá, faço minhas as palavras da Cristina Ferreira de Almeida, nesta análise que espelha tão bem a fragilidade destas situações limite e a sua dependência daquilo a que chamamos "sorte". Ou "azar", dependendo do prisma. Em qualquer dos casos, haverá uma insondável moral a tirar desta aparente ironia?

publicado por Ana Vidal às 23:22
link do post
Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Até que enfim

Miguel Vieira (um conceituado estilista português, para quem não conhece o nome) afirmou há tempos, numa entrevista, que "na moda portuguesa não existe anorexia". Eu já tinha ouvido dizer o mesmo a Fátima Lopes (a estilista, não a apresentadora). E a afirmação que ambos sustentam, obviamente falsa, é ainda mais grave porque vem de pessoas que são co-responsáveis por uma realidade dramática que só elas parecem não ver.
Revolta-me a indiferença, ou, o que é pior, a lúcida cumplicidade no crime. Os distúrbios alimentares são um dos grandes flagelos com que se debatem as sociedades ocidentais, hoje em dia. A nossa também, como é evidente. Talvez menos do que outras, comparativamente, mas não é por isso menos preocupante. Não existe anorexia??? Por favor! E, mesmo que não existisse "no interior" do mundo da moda (o que é falso), o que dizer do mundo "cá fora", a quem a moda se destina? Ou será que a influência daquelas figurinhas cadavéricas (que dão pelo nome de manequins) nos adolescentes, também é inexistente? É só ter a coragem de ir até ao Hospital de Santa Maria, por exemplo, e ver... com olhos de quem quer ver. Mais: não é apenas um problema feminino. Cada vez mais está a afectar os rapazes também.

Se pensarmos que é exactamente do mundo da moda que pode vir a solução para resolver uma boa parte deste terrível problema, não me parece exagerado falar em atitude criminosa. A Organização Mundial de Saúde anda, há anos, a apelar repetidamente aos grandes costureiros e opinion leaders da moda internacional - que ditam como devemos ser por fora - que promovam uma imagem feminina mais saudável, o que passa naturalmente por um peso equilibrado. Só Espanha, inteligentemente, lhe deu ouvidos (A Moda Madrid, com a exigência de um peso mínimo para as manequins, conseguiu a atenção do mundo inteiro e muita publicidade de borla para os desfiles, além da simpatia geral). É incompreensível que todos os países não lhe tenham seguido o exemplo. Seria tão fácil! Os gurus da moda têm um poder tal, que bastaria a sugestão de uma mulher mais "cheia" como ideal de beleza, para que todas as mulheres do ocidente quisessem parecer-se com ela.
Isto para não falar de outra aberração: a de utilizar esquálidas rapariguinhas de 13 e 14 anos (autênticas Lolitas autorizadas), produzidas como se fossem adultas, desfilando roupas que se destinam a gente muito mais madura, que é a que tem poder de compra. Esse é outro escândalo, que deveria também ser visto com atenção. Até porque ambos estão intimamente ligados: numa idade em que os corpos não estão ainda completamente formados, as carências alimentares - e também as drogas e o álcool que elas usam para iludir a fome - impedem o normal desenvolvimento e causam outras doenças graves. É irónico, sobretudo se pensarmos na ilusória duração destas carreiras, mesmo as (poucas) bem sucedidas.

É por isso que é inadmissível que se continue a tapar o sol com a peneira, fingindo que está tudo bem. Em Portugal ou em qualquer lado, ainda por cima em nome de inutilidades. E é por isso também que me alegrou agora esta boa notícia. Finalmente, parece que algum bom senso iluminou os grandes do mundo da Moda. França, a capital desse mundo, a dar o exemplo, depois de Espanha ter aberto o caminho. O meu aplauso. Até que enfim.
publicado por Ana Vidal às 11:40
link do post
Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Good news!



Eu já simpatizava com a candidatura de Barak Obama, mas agora fico mesmo a torcer para que ele ganhe, ao saber desta notícia!
Depois da tragicomédia que têm sido os discursos de Bush durante os seus mandatos, acho que ninguém mais se habituará a palavras cinzentas na Casa Branca. E já agora, para variar, que passem a ter a qualidade inquestionável dos Monty Python...
publicado por Ana Vidal às 17:43
link do post
Segunda-feira, 31 de Março de 2008

O pior de nós

Recebi este texto de um amigo, por e-mail, com o pedido de divulgá-lo pelos meus contactos. Melhor do que isso é pô-lo aqui, o que faço com muito gosto. Fiz alguma pesquisa para confirmar a veracidade desta história inacreditável, e parece que é mesmo verdadeira. Por incrível que pareça, um espírito doente lembrou-se de chamar Arte a esta cruel aberração. E, pior do que isso, alguém (com responsabilidades neste sector) lhe deu cobertura. Pela segunda vez, ainda por cima.
«Como muitos devem saber e até ter protestado, em 2007, Guillermo Vargas Habacuc, um suposto artista, acolheu um cão abandonado de rua, atou-o a uma corda curtíssima na parede de uma galeria de arte e ali o deixou, a morrer lentamente de fome e sede. Durante vários dias, tanto o autor de semelhante crueldade, como os visitantes da galeria de arte, presenciaram impassíveis a agonia do pobre animal. Até que ele finalmente morreu, seguramente depois de ter passado por um doloroso, absurdo e incompreensível calvário.

Parece-lhe forte? Pois ainda não é tudo: a prestigiada Bienal Centroamericana de Arte decidiu, incompreensivelmente, que a selvageria que acabava de ser cometida por tal sujeito era Arte, e deste modo tão absurdo Guillermo Vargas Habacuc foi convidado a repetir a sua cruel acção na dita Bienal em 2008. Facto que podemos tentar impedir, colaborando com a assinatura nesta petição:
http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html
(não tem que pagar nem registar-se para assinar a petição) para que este homem não seja felicitado nem chamado de 'artista' por tão cruel acto, por semelhante insensibilidade e desfrute com a dor alheia.»

Nota minha: Por outras fotografias que encontrei na net pode ver-se a indiferença com que os visitantes da galeria reagiram a esta "experiência". Ninguém se lembrou, ao que parece, de tirar dali o cão, de levar-lhe comida ou, pelo menos, de perguntar qual seria o seu destino. Por cima do animal, na parede, há frases escritas... com ração! A natureza humana não pára nunca de me surpreender.
Eu já assinei a petição, claro.
publicado por Ana Vidal às 23:21
link do post
Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Uma reflexão para a Páscoa

Germany: The Melander family of Bargteheide
Food expenditure for one week: 375.39 Euros or $500.07
United States: The Revis family of North Carolina
Food expenditure for one week $341.98
Italy: The Manzo family of Sicily
Food expenditure for one week: 214.36 Euros or $260.11

Mexico: The Casales family of Cuernavaca
Food expenditure for one week: 1,862.78 Mexican Pesos or $189.09
Poland: The Sobczynscy family of Konstancin-Jeziorna
Food expenditure for one week: 582.48 Zlotys or $151.27
Egypt: The Ahmed family of Cairo
Food expenditure for one week: 387.85 Egyptian Pounds or $68.53
Ecuador: The Ayme family of Tingo
Food expenditure for one week: $31.55

Bhutan: The Namgay family of ShingkheyVillage
Food expenditure for one week: 224.93 ngultrum or $5.03
Chad: The Aboubakar family of Breidjing Camp
Food expenditure for one week: 685 CFA Francs or $1.23

(Nota: recebido por mail)
publicado por Ana Vidal às 22:40
link do post
Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Cuba

Na melhor nódoa cai o pano.
publicado por Ana Vidal às 20:57
link do post
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Violência paga

"O Hospital de Braga cobra 152 euros às vítimas de violência doméstica, apesar de a Lei isentar estes utentes do pagamento de consultas e taxas moderadoras. De acordo com o jornal «Público», o decreto-lei é de Maio de 2007, mas ainda não está regulamentado. Por isso, cada hospital aplica o preceito de maneira diferente.
No São João no Porto, as vítimas entram e não pagam. Já em São Marcos, em Braga, recebem a factura da taxa moderadora e uma nota de débito da consulta num total de 152 euros. Isto acontece porque o hospital considera que a vítima de violência doméstica só o é se houver uma sentença judicial.
A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género defende que, para estar isento, o utente só tem de apresentar queixa e que a nota de débito deve ser enviada ao agressor."
A notícia escapou-me, só dei por ela na blogosfera (aqui). E não queria acreditar no que lia: as vítimas de violência doméstica têm que pagar os tratamentos em alguns hospitais do país, ainda por cima num valor que não é indiferente à maioria das bolsas portuguesas. Pelos vistos, a cobrança ou não deste atendimento fica ao critério de cada unidade hospitalar. E a vítima, para estar isenta, "só" tem que provar em tribunal que o seu caso é de inequívoca violência e ainda identificar o agressor para que seja enviada a factura a este e não a si! Como se o facto de ter-se dirigido a um hospital, exibindo maus tratos óbvios (que os médicos identificam imediatamente) e tendo que admiti-lo perante estranhos, não fosse já um passo de gigante para muitas vítimas, quantas vezes dado só quando o desespero chega ao extremo. Como se tudo isto fosse fácil, líquido e sem consequências para quem vive sob um regime de terror!!!!
Será que a vítima, já agora, também vai ter de levar de casa uma declaraçãozinha de culpa do agressor, para facilitar a vida aos serviços hospitalares e ter direito à borla? "Olha, desculpa lá: se não te importas, assina aí este papel que diz que és uma besta e que me ias matando, para eu não ter que pagar o tratamento"...
A hipocrisia que envolve toda esta aberração é uma vergonha para todos nós: os legisladores, que fizeram uma lei que permite interpretações deste teor; os deputados, que a aprovaram; os médicos, que põem a contabilidade à frente do juramento que fizeram; e, finalmente, toda a sociedade civil, que se demite e fecha os olhos a todos os assuntos que a constrangem. E assim, uma lei estúpida e irresponsável, aplicada ao acaso e não denunciada com a indignação que nos devia merecer, contribuirá para fazer engrossar outra vez uma estatística que tem diminuído a muito custo e a passo de caracol.
É revoltante, tão revoltante como a própria violência doméstica.
(Imagem: Fotografia de Chema Madoz)

publicado por Ana Vidal às 19:56
link do post
Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

Paz podre

Não é de agora a minha decepção com os critérios que, nos últimos anos, têm presidido à atribuição do Nobel da Paz. Do inicialmente alto grau de exigência que reconhecia feitos de personalidades extraordinárias (no sentido de "invulgares") ao serviço de causas inequivocamente dedicadas ao bem da Humanidade, de uma forma altruísta, passou-se a uma moeda de troca política, conveniente e adaptada às circunstâncias.
Eu sei que figuras como Madre Teresa de Calcutá, Nelson Mandela, Gandhi (que nunca o recebeu, apesar das sucessivas nomeações...), Martin Luther King ou Muhammad Yunus, para citar alguns nomes, não aparecem todos os dias. Mas era preferível que o prémio não fosse atribuído sempre que não houvesse, para recebê-lo, alguém deste nível. Juntar no mesmo saco, a estes nomes, os de políticos que se limitam a fazer o trabalho para que são (bem) pagos, movidos quase sempre por uma legítima (mas não premiável) ambição pessoal, é, quanto a mim, desvirtuar o próprio espírito do Nobel e fazê-lo descer ao nível da mediania reinante. Por isso o Nobel da Paz deixou de merecer o meu respeito, de há uns tempos para cá.
Os políticos que continuem a medalhar-se alegremente uns aos outros, e que tirem disso os dividendos esperados. Para mim, não valem por isso nem mais um cêntimo. Muito pelo contrário.

publicado por Ana Vidal às 14:45
link do post
Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Espera

Ela esperava-o por detrás da janela, espreitando, de vez em quando, através da cortina translúcida que coava a luz da tarde. Ela esperava-o por detrás do pc, espreitando, de vez em quando, a caixa de entrada do outlook no écran luminoso.
Nada. Ele tardava.
Não ouvira ainda o som dos passos no caminho de saibro, a fricção das botas produzindo um estranho ruído de cascavel. Não ouvira ainda o som do notificador de mensagens, um silvo agudo que lembrava o de uma cascavel.
Nada ainda. Ele tardava.
Olhou o relógio de parede, ao canto da sala. Pegou no livro aberto e leu mais um capítulo, para entreter a espera. Olhou o relógio digital, no canto inferior do plasma. Escreveu mais um post, para entreter a espera.
Era tarde. Ele já não viria.
Fechou todas as janelas e por fim a porta da rua, e foi deitar-se. Deixou-lhe um bilhete na porta, para o caso de ele ainda chegar nessa noite. Fechou todas as janelas no desktop e por fim clicou no exit, e foi deitar-se. Enviou-lhe um email, para o caso de ele ainda abrir o pc nessa noite.
Falamos depois. Vemo-nos amanhã? Amo-te. Beijos. Call u asap. Say when. Luv u. Kss.
(Imagem - A. Modigliani)

publicado por Ana Vidal às 03:18
link do post
Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Só para dizer

Na minha geração o verbo amar não se conjuga em voz alta, porque as pessoas da minha geração não sabem dizer o amor. Sabem senti-lo, sabem fazê-lo e sabem sentir-lhe a falta. Sabem dá-lo e recebê-lo sem reservas, sabem viver com ele e até morrer por ele. Mas não sabem dizê-lo.

Não falo, evidentemente, dos poetas, prosadores e letristas. Esses tratam as palavras por tu, afagam-nas e brincam com elas como se fossem brinquedos. Refiro-me aos cidadãos comuns, reféns de um estranho atavismo geracional que aboliu, sem apelo nem agravo, a confissão expressa do mais belo sentimento que existe.

Quando começámos a ter idade para os primeiros namoros, o léxico de que dispúnhamos era limitadíssimo: era francamente "piroso" ir além do tímido gosto de ti. Gosto muito de ti ainda era admissível, mas ficava reservado para os momentos mais empolgados. E tudo tinha que ficar dito assim, de uma forma acanhada e pobre, entregue à imaginação e interpretação de quem recebia a mensagem. Depois, saltava-se do gosto de ti para a enorme desproporção do adoro-te. Pelo meio, irremediavelmente proscrito, ficava o tal amo-te que era absolutamente impensável, caso mesmo para a total desclassificação social.

E assim crescemos e amámos, impedidos de exprimir com inteira liberdade o que sentíamos, privados de um verbo essencial. Aprendemos a socorrer-nos de truques - a tradução para outras línguas - je t'aime ou I love you eram não só expressões permitidas como muito apreciadas. As canções românticas falavam por nós, livres do preconceito linguístico. Eram a nossa vingança. Também os cantores brasileiros eram, muitas vezes, os nossos preciosos Cyranos, acrescentando o mel da pronúncia ao proibidíssimo eu te amo.

Hoje em dia tudo isso mudou radicalmente, a ponto de termos caído no extremo oposto. Antes assim, apesar de tudo. Mas, quando vejo os concorrentes de um qualquer reality show, de lágrima ao canto do olho, esbanjarem pungentes "amo-te muito" com total displicência, atirando-os através do ecrã aos avós, pais, namoradas e animais de estimação (praticamente em igualdade de circunstâncias), lembro-me da falta que me fizeram esses mimos quando queria pronunciá-los e não podia. Porque não me ficava bem dizê-los. Porque arranhavam o ouvido e se enrolavam na língua, não tanto por culpa de uma fonética arrevesada como de um preconceito idiota.

(Clã - Problema de expressão)

publicado por Ana Vidal às 23:54
link do post
Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Humor negro

Como querem que eu respeite a política em Portugal, quando a primeira figura (triste, por sinal...) do maior partido da oposição aproveita a notícia de um crime qualquer para exigir ao primeiro ministro um pedido de desculpas ao povo pela falta de segurança no país???

Será que Menezes acha que faltam motivos SÉRIOS para apontar o dedo ao governo? Será que a demagogia mais básica se aliou de vez ao ridículo? Será que a imaginação e sentido de oportunidade de LFM não chegam a mais do que a esta miséria?

Preocupa-me a prepotência imparável deste governo, mas assusta-me ainda mais a falta de alternativas válidas.

O Bordalo é que os topava bem.
publicado por Ana Vidal às 01:01
link do post
Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Cimeira?

Não percebo porque é que chamam Cimeira a uma tal exibição de ditadores implacáveis e desumanos, tratados pela Europa com todas as honrarias, como se fossem gente de carácter e digna de admiração. É triste e dá que pensar. Por que valores, afinal, se rege o mundo ocidental (dito "civilizado"), se se verga assim aos diamantes e ao petróleo com tanta facilidade, esquecendo o sangue que escorre de ambos? E não me venham com tretas de "oportunidade única de discutir os direitos humanos". A mim, cheira-me a rendição e a hipocrisia. Eu chamar-lhe-ia, antes, uma Baixeira. (Nota: Este post é dedicado ao Pedro Correia, do Corta-Fitas, que tem feito nas últimas semanas um útil e exaustivo levantamento das biografias destes meninos de coro. Leiam-nas, vale a pena.)

publicado por Ana Vidal às 19:59
link do post
Sábado, 10 de Novembro de 2007

Aperta o papo

Pelas notícias da televisão, acabo de saber que Portugal já tem as suas máfias nocturnas, infelizmente bem organizadas e ameaçadoras. Pena que a tão apregoada segurança portuguesa, que fazia deste país uma espécie de paraíso na Europa, comece a desvanecer-se e a dar lugar a uma criminalidade cada vez mais frequente, de consequências cada vez mais graves. Pena. Era muito boa a sensação de poder sair sem medo (mesmo sozinha) a qualquer hora, de qualquer lugar da noite lisboeta. Isso, dizem-me, está a começar a tornar-se impossível.
Mas o que mais me chamou a atenção na notícia (desculpem, tenho um fraquinho pelo ridículo...) foi o nome do mais perigoso gang da noite alfacinha: "Aperta o papo"!!! Mesmo a despropósito, não consegui evitar uma gargalhada. Lembrei-me daquela velha cantiga, que dizia qualquer coisa como "Ó Zé aperta o laço, que o laço bem apertado, ai, ó José, fica-te bem" e imaginei logo uma cena do gang em acção, os mafiosos de lacinho ao pescoço e farpela domingueira, como se tivessem saído de um filme do António Silva ou de uma revista do Bordalo. Ou talvez, melhor ainda, assim como uns sucedâneos do Dâmaso Salcede do Eça, emproados e oleosos, com gestos falsamente elegntes e pose saloia.
Não sei porque carga de água um gang que pretende intimidar e dar-se ao respeito, vai escolher um nome destes. É ridículo. Dá, às vítimas, vontade de rir!
Tenham lá paciência, tudo menos "aperta o papo"! Só mesmo os portugueses, que não têm jeito para a violência (a não ser a caseira, bem regada a bagaço). Assim não metem medo a ninguém...

publicado por Ana Vidal às 18:37
link do post
Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Lobos com pele de cordeiro


O presidente Sarcozy já condenou as actividades de uma ONG francesa denominada Arca de Zoé, pela tentativa de rapto de 103 crianças africanas.
Originárias da fronteira entre o Chade e o Sudão, estas crianças são, supostamente, órfãs de guerra. Como se essa terrível circunstância não lhes bastasse já, estes lobos disfarçados de cordeiros pretendiam traficá-las para adopção na Europa, violando todas as regras internacionais de adopção. Já tinham, até, sacado milhares de euros a centenas de famílias europeias, com a promessa de entregar-lhes os novos "filhos" tão ansiados. Parece que as autoridades do Chade descobriram a tempo a tramoia e prenderam todos os responsáveis da Arca de Zoé. A Unicef também já condenou a pretensa ONG.
Tristes tempos estes em que vivemos, em que até o bom nome das organizações de solariedade social é posto em causa. Tristes tempos, em que há quem some, sem um remorso, a extrema desgraça do desenraizamento à da orfandade, para satisfação dos bolsos de uns e à custa das frustrações de outros. Tristíssimos tempos, em que os países desfavorecidos se transformam em supermercados de crianças.

publicado por Ana Vidal às 08:57
link do post
Sábado, 27 de Outubro de 2007

Maternidade


¿Malas madres?
Cuando a Doris Lessing le dieron el Nobel de Literatura hace unas semanas, leí en más de un sitio que recogía su biografía, que cuando eran joven había abandonado a sus hijos para marcharse a vivir a Londres."Había abandonado a sus hijos". Pensé: ¡Qué fea y qué peyorativa frase! Parece puesta adrede para que de antemano la idea que nos hagamos de ella es que por eso no es una buena mujer. Y seguí: ¡qué puñetas de abandono! No los abandonó, los dejó con su padre, que también los podía cuidar igual que ella. Pero en aquellos años que lo hiciera una madre era un escándalo. Y eran muy pocas, como he leído recientemente en otra publicación, las que anteponían su propia felicidad a la maternidad y cargaban de por vida con el calificativo de malas madres. Y en su interior con el remordimiento de no haber atendido a los hijos. En aquellos tiempos y en estos, aunque hoy hay más mujeres que dejan todo - marido e hijos - para irse con un nuevo amor. Pero siguen enfrentándose a la crítica de la sociedad. Se considera normal y no se condena a las madres que no viven con sus hijos por motivos profesionales, pero como la causa sea sentimental, otro hombre, se han caído con todo el equipo. Nunca he pensado que el ser mala madre esté en eso. Creo que se puede ser buena madre en la distancia.
(Um post, desabrido e feminista, de Chapi Escarlata, una "periodista cuarentañera, para nada amargada", como ela própria se intitula.)
Desta vez roubei ao JG um assunto sério, para variar. Costumo trazer do seu ZOO posts de excelente e requintado humor, de uma originalidade que me impressiona sempre (nem imagino onde o JG vai buscar tantas e tão boas graças), mas este óptimo blog também aborda - e com o mesmo rigoroso critério de escolha - assuntos que não são para rir, nem sequer para sorrir. Este é um deles, e por isso o trouxe para aqui.
Era de prever que um tema destes levantasse grande polémica. Claro: uma mãe que "abandona" os filhos por um amor, ou por uma profissão, não merece viver... a periodista cuarentañera abriu uma caixa de Pandora e o linchamento começou de imediato. É sempre tão fácil condenar!
Para começar, tenho que dizer que também não acredito que se possa ser uma boa mãe à distância. Acho isso uma utopia. Pelo menos, uma mãe tão boa como se estivesse presente. Mas as mães não são perfeitas, não podem nem têm que sê-lo sempre. São seres humanos, sujeitos a uma pressão brutal de todos os lados - da famíla, dos filhos, da sociedade, e até de si próprias - como muito poucos homens alguma vez experimentarão. É-lhes exigida a perfeição, nada menos. Vivem no arame mas não podem cair nunca, porque uma plateia implacável (curiosamente, composta menos de homens do que de outras mulheres) espera apenas esse momento para vaiá-las e apontar-lhes o dedo da condenação. Acontece que é, muitas vezes, esse grau desmesurado de exigência que as "empurra" para um fuga qualquer, por não conseguirem corresponder-lhe (quem consegue, sendo SÓ humano?) ou por se sentirem encurraladas na escolha que fizeram: a escolha natural, a que delas se esperava, mas feita muito antes de saberem o que ela iria significar de exclusividade. Porque a maternidade é uma escolha irreversível. Ou nem sequer é uma escolha, em muitíssimos casos.
Nem todas as situações são iguais, como é evidente. Há de tudo. E também há (não o ignoro) mães que são, realmente, de um egoísmo irresponsável. Mas o que quero aqui salientar é que nem todas as que se afastam dos filhos o são. E outra coisa: também há mães cuja irrepreensível presença é muito prejudicial aos filhos. E há as que lhes cobram, a vida inteira, a opção que as fez desistir de uma outra vida qualquer, com que sonharam um dia. E há as que os asfixiam e não os deixam voar. E há as que... Há de tudo, repito.
Não estou a cerrar fileiras com as feministas, e confesso que não me interessa muito se alguém classificará assim os meus argumentos. Acho, só, que temos que ver as coisas de todos os ângulos e não cair na tentação do mais fácil, que é crucificar quem falha. Ou quem parece ter falhado, aos olhos da maioria.

publicado por Ana Vidal às 23:35
link do post
Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Uma stôra especial


Ao fim de três dias de uma gripe que me deixou completamente afónica, e sem conseguir melhorar nada, rendi-me: trouxe o trabalho mais importante que tinha em mãos e fiquei em casa, "no choco". E, já que o fiz, reclamei tudo aquilo a que se tem direito nestas situações: torradas e chá com mel, um colar de algodão embebido em álcool para manter a garganta quente, xarope de cenoura (tudo isto são mezinhas da minha mãe, que por acaso até era médica...) e, last but not the least, a deprimente visão dos famigerados programas de televisão para donas de casa e reformados. Aguentei, afundada numa apatia de febre e ben-u-rons, quase duas horas de indescritíveis conversas e cantorias várias. Mas, quando já estava quase a cortar os pulsos, uma professora de português do ciclo preparatório salvou-me a vida. E o dia.
Tive a sorte e o privilégio de ter tido excelentes professores no ciclo (na altura chamava-se liceu). Vêm-me logo à memória alguns nomes, assim que penso nisso: Mariana Ginestal Machado, José Pita Soares, Manuela Geada, Luís Mourão, e tantos outros de quem retive melhor a figura do que o nome. Um desses casos foi, exactamente, uma fantástica professora de português, magra e esquálida, que de imediato foi baptizada de "Maria Ninguém" por associação com a personagem do Frei Luís de Sousa, que fazia parte do programa. Não me lembro do seu nome verdadeiro por essa razão, mas nunca mais esquecerei as suas aulas, transformadas em palcos empolgantes que ela improvisava, apaixonadamente, sempre que os textos se prestavam à representação. A essa professora devo, em grande parte, o meu gosto pelo teatro e pelos livros.
A professora que ouvi hoje na televisão - a propósito das conclusões sobre a implementação do Plano Nacional de Leitura - lembrou-me muito essa "Maria Ninguém", mas tem ainda muito mais valor, porque manifesta a mesma paixão por uma profissão que exerce em circunstâncias incomparavelmente mais adversas. Foi comovente o seu testemunho, a entrega total, o entusiasmo inquebrantável perante todas as dificuldades que encontra diariamente. E são muitas. Todos sabemos as dramáticas condições em que os professores ensinam hoje em dia, logísticas e psicológicas. É quase um milagre que consigam manter a sanidade mental, quanto mais o prazer de ensinar. Este caso - o de alguém que ensina a "língua mater dolorosa" há mais de 30 anos, e com a mesma paixão, é especialmente raro. De tal maneira ela foi eloquente que recebeu como prémio, de surpresa, o telefonema de um antigo aluno (hoje psicólogo), também ele comovido e declarando-se agradecido para sempre à sua antiga professora.
Mas talvez o que mais me impressionou nesta entrevista tenha sido o total desassombro desta mulher: ainda no activo, deu a cara e chamou "os bois pelos nomes", pondo o dedo numa eterna ferida, ao acusar de mediocridade e saloice os autores de programas pedagógicos completamente desadequados, que levam os alunos a afastar-se do prazer da leitura e os impedem de apreciar devidamente, mais tarde, as obras que são obrigados a estudar quando ainda não têm maturidade nem capacidade para entendê-las. Corajosamente, citou Pessoa ao classificar de "baba pedagógica" a infantilidade de alguns conteúdos, outro erro de que sofrem os programas. E acabou com uma frase com a qual concordo em absoluto: não há "disciplinas papões", o gosto ou o desinteresse dos alunos pelas matérias dependem sobretudo da forma como o professor as transmite, e da sua afectividade por essas matérias. Grande stôra!

publicado por Ana Vidal às 21:37
link do post
Sábado, 13 de Outubro de 2007

Menos pão, mais circo


Os parabéns vêm, normalmente, acompanhados de um presente. É da praxe. E o nosso irrepreensível primeiro-ministro segue-a à regra, pelos vistos.
Depois do "parabéns a vocês", em que ficámos todos muito felizes por ter contribuido com a nossa miséria para fazer descer uns milésimos na percentegem do défice, aí vem, como se esperava, o presente: a subida dos produtos alimentares de primeira necessidade, a partir de agora e até Janeiro de 2008. Só o pão, vai subir 30%!!
Venha de lá mais circo, senhor primeiro ministro, que bem vamos precisar dele para esquecer a dieta forçada...
publicado por Ana Vidal às 12:05
link do post
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Salma, a suprema ironia

Salma, a "Barbie muçulmana" feita a pensar nas meninas islamitas da Indonésia, é já um enorme sucesso. Das adaptações implementadas fazem parte a cabeça coberta por um lenço e "roupas largas e decentes". Porque o hábito faz mesmo o monge, por lá. E uma coisa é conquistar o mercado, outra é provocar os consumidores. Não se brinca em serviço. Vejam o video, vale a pena.


publicado por Ana Vidal às 17:50
link do post
Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Descubra as diferenças

Nascer e morrer no século XXI:
uma arrepiante semelhança de cenários.

Sala de partos

Sala de execuções

publicado por Ana Vidal às 15:59
link do post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Bater no fundo

Presente de Natal

Black & White

Os deuses devem estar lou...

Tragicomédia

Pacto

Descaramento

Despertar

Blind dates?

Ainda sobre o "dia de" ho...

Mundos

Bater no fundo

Códigos

Alecrim e Manjerona

Para quem achou...

favoritos

Fado literário

O triunfo dos porcos

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Subscrever feeds