Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Batalha naval

 

Durante anos a fio ele julgou-se um imponente porta-aviões. Poderoso, exibia a sua força pelos mares em que navegava, e eram muitos. Disparava a eito os seus tiros de canhão, e mil vezes a atirou para um naufrágio triste, de que só ela acreditava poder salvar-se. Ela era tímida, suave, ingénua. Queria tocá-lo, mas, por mais que tentasse, o seu alvo era sempre e só a água. Não lhe arranhava sequer o convés.

 

Um dia, vá lá saber-se porquê, afinou a pontaria. E quando tudo acabou ouviu-se a si própria dizer, com uma frieza que desconhecia ter: Submarino ao fundo.

 

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publicado por Ana Vidal às 00:08
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Domingo, 29 de Junho de 2008

Feira de Velharias (11)


 

A Banda

 

Acordou estremunhada, um caos de sons estridentes a fritar-lhe os neurónios depois de uma noite de absoluta paz e silêncio, como há muito tempo não se lembrava de ter tido. Não percebeu a princípio onde estava, nem porque tinham os seus sonhos de infância sido assim invadidos por clarinetes e tambores em fúria ciclópica, atacando uma música vagamente familiar que nada tinha a ver com os seus tempos de menina.

A música… sim, era a “Grândola, vila morena”, e o dia… claro, o 25 de Abril.
Aos poucos voltou à realidade, à vida, ao presente doloroso. Estava na aldeia, naquela terra onde não pusera os pés durante tantos anos. Voltava agora, mais de 30 anos passados, e só por uma razão “de peso”. Franziu a cara num esgar de dor, enquanto os quase 120 quilos desafiavam a gravidade e tentavam erguer-se, sem consequências dramáticas, da periclitante cama de solteira. Depois de várias tentativas goradas, lá conseguiu e foi à janela, ainda a tempo de ver dobrar a esquina os últimos músicos festivos e domingueiros da banda filarmónica, num espalhafato que lhe pareceu quase grotesco.
Esquecera por completo, depois de tantos anos a viver na fleumática capital, aquele hábito ingénuo e provinciano de festejar tudo com fanfarras. Mas a verdade é que a banda da terra precisava de pretextos para sair à rua e exibir fardas e talentos, ou não valeria a pena o sacrifício das noites de ensaio, depois da dureza do dia de trabalho nos campos. E a efeméride da revolução de Abril era razão mais do que suficiente para festejar.
Ela é que não tinha nada para celebrar: voltara à terra para se isolar (os médicos tinham-lhe chamado descansar, recuperar e outras palavras animadoras, mas ela sabia bem que era para conseguir vencer-se a si própria, longe das testemunhas habituais). Enquanto se olhava no espelho gasto da casa de banho, reviu mentalmente o último ano da sua vida e as razões que a tinham levado até ali: o colapso inevitável do casamento, a profunda depressão em que caíra, o internamento por tentativa de suicídio, a longa e penosa terapia e, finalmente, aquela luz ao fundo do túnel, ainda ténue, ainda difícil de alcançar, mas a única a que podia agarrar-se. “Vamos avançar, Florinda. Acho que agora já está pronta para o próximo passo, a banda gástrica. Verá como 40 quilos a menos farão milagres pela sua auto-estima! Mas tem que colaborar, ter muita força de vontade e fazer desse objectivo uma obrigação sagrada. A banda vai ajudá-la, claro, mas sem a sua determinação, nada feito… Posso contar consigo?” O Dr. Freitas tinha mais fé em si do que ela própria, ou então disfarçava bem. Parecia muito confiante e sorria sempre como se o mundo fosse uma festa interminável, o que chegava a ser irritante. Respondera que sim, claro. Que podia contar com ela. Que faria tudo para voltar a ser a mulher segura que fora um dia, milénios atrás.
E aqui estava agora, também por sugestão dele: “Mude de ares. Aproveite a baixa e vá até um sítio onde se sinta bem. Afaste-se de todas as suas rotinas, concentre-se em si. Uma vez na vida, mulher, pense SÓ em si!” Pensou, durante alguns dias. Mas não tinha dinheiro para viagens e a baixa psiquiátrica retirava-lhe uma fatia substancial do ordenado, já de si diminuto. O médico ganhava muito bem, com certeza, e não percebia que os doentes não eram milionários…
Mas sabia que ele tinha razão. Tinha que sair dali, do cenário da sua tragédia, para poder respirar fundo e reerguer-se. Os colegas de escritório, os vizinhos, até as meninas do supermercado tinham testemunhado cada lágrima perdida, cada quilo ganho. O marido abandonara-a com alarde, trocara-a por uma mulher mais nova e do bairro também, conhecida de todos. E os dois falavam… se falavam! Justificavam o adultério com motivos que ela nem sequer podia negar: o seu desinteresse crescente pela casa, o sexo impossível com um “monstro” que já nem podia mexer-se, a incapacidade de dar-lhe filhos, a fixação obstinada na comida como tábua de salvação. Sim, ela sabia que tinha ajudado a tornar sustentáveis aqueles argumentos.
A única solução que encontrara era esta, o regresso à aldeia. Os pais tinham morrido há muitos anos, não tinha irmãos. Aquela velha casa pertencia-lhe por direito, embora nunca tivesse vindo reclamá-la. A chave tinha estado, desde que ficara vazia, nas mãos de uma vizinha que a vira nascer. O marido detestara sempre a vida da província, nem de férias lá quisera ir nunca. E ela, por inércia e desgosto da falta dos pais, deixara-se também afastar, sem resistência.
Mas tudo isso era passado, agora tinha que concentrar-se em si. O médico prevenira-a contra pensamentos mórbidos e recorrentes, que o seu próprio ego maltratado construiria para impedir a cura e justificar recaídas. Tinha que derrotar a compulsão pela comida, a tentação do precipício. Talvez as recordações alegres da sua infância lhe devolvessem a auto-confiança de que precisava para vencer aquela batalha. Chegara na véspera, à noitinha já, e só a vizinha sabia da sua presença ali porque lhe deixara a chave no vaso de sardinheiras da porta.
A noite tinha sido estranha, sem os sons da cidade a que estava habituada. A casa cheirava a mofo mas estava limpa, e qualquer coisa no ar despertara em si uma comoção e uma alegria que há muito tempo não conhecia.
Passou a mão pelo abdómen, dorido dos cortes e pontos recentes. A banda lá estava, ainda por insuflar, por enquanto só a marcar presença. Haveria de ter o seu papel na nova Florinda, lá mais para a frente, segundo lhe explicara o médico. Para já, e até as suas entranhas se adaptarem ao corpo estranho que se lhes colara, a função da banda era meramente psicológica e só com a sua própria força de vontade podia contar. Mas, caramba – concluiu com estranheza – como podiam os médicos confiar na força de vontade de doentes compulsivos, que se sujeitavam àquela provação exactamente porque a não tinham? Não era pedir de mais? Para que servia então a banda, se, quando se pudesse contar com ela, o principal trabalho já estava feito? Começava a achar tudo aquilo muito falível, mas tinha que colaborar. Prometera ao médico e a si própria. A mudança já anunciava alguma coisa, pelo menos. Sentia-se renovada e quase feliz, com o ar do campo e a distância que interpusera entre si e as suas mágoas. Como dizia a canção, este era o primeiro dia do resto da sua vida. Respirou fundo e resolveu sair á rua.
Por todo o lado ressoava a música da filarmónica, que percorria as ruas e haveria de parar no coreto da praça, com toda a pompa e circunstância. Dirigiu-se para lá, curiosa. Alguns ainda a conheciam, quase toda a população tinha a idade dos seus pais e avós. Percebeu que a olhavam com comiseração, o corpo disforme a suscitar comentários e suposições para mais tarde, quando ela virasse costas. Um bando de crianças passou a correr e empurrou-a com violência, apontando-a entre gargalhadas. Começou a sentir-se mal, a velha insegurança a voltar aos seus domínios de sempre. Sentou-se num dos bancos da praça, cada vez mais enervada.
O dia era de festa. Em volta do coreto tinham acampado os feirantes, num estardalhaço de sapatos, roupas, cestos, galinhas, alfaias agrícolas e cassetes piratas. Um frenesim de gente, que comprava e vendia tudo. Os altifalantes anunciavam, aos berros, um circo com feras verdadeiras e artistas de todo o mundo, “como nunca se viu por cá”. Começou a ficar tonta com a poeirada e o barulho crescente da banda que se aproximava, ameaçadora. Todo aquele espectáculo a atordoava e repelia, mais do que lhe devolvia recordações de infância. Tinham sido muitos meses de total fragilidade, sabendo-se vigiada e protegida por médicos e terapeutas, e agora estava entregue àquela voragem medieval. Sozinha e longe do seu ambiente. O abismo estava em todo o lado, afinal, porque estava dentro de si.

Já em desespero, olhou em volta, à procura de um porto de abrigo. Encontrou-o, finalmente, na barraca das farturas e do pão quente com chouriço. Ao terceiro naco já sorria, totalmente descontraída, com a mão sobre o estômago onde repousava a banda oculta. E assim ficou, feliz de novo, a ver a banda passar.

 

(Publicada pela primeira vez em 11/05/2007)

publicado por Ana Vidal às 23:02
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Imaginação

 

 

Invento-te, sim. Quero-te ainda interrogação, ainda mistério, ainda e sempre desafio. Dispo-te as peles que usas, uma a uma, para vestir-te aquela que teci para ti. O meu olhar atravessa os muros que ergueste à tua volta, inúteis esconderijos a espicaçar-me a aventura da descoberta. Vejo-te à luminosa transparência da imaginação. Dou-te asas leves: voa! Dou-te olhos atentos: vê! Dou-te uma rota segura: a que te trará de volta um dia, ágil condor que atravessou montanhas e desertos para se encontrar e me encontrou, afinal.

 

(Imagem: René Magritte)

publicado por Ana Vidal às 19:03
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Nas tuas mãos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reinventa-me tu. Dou-te pincéis e tintas de todas as cores, uma tela em branco e, mais do que tudo isso, a imensa liberdade de me recriares à tua medida. Redesenha-me: dá-me olhos menos inquietos, mãos menos aventureiras, braços que embalem tudo menos sonhos. Dá-me pernas imóveis, que não acabem em pés andarilhos. Pinta-me o corpo de um tom de mármore belo e pálido como o das estátuas antigas, em que todo o ardor se transformou já em História. Não te detenhas nos cabelos, deixa-os inacabados. Podem ganhar vida própria e enlear-te como algas, e tu sabes como é perigosa a maresia. Evita a curva do pescoço, e foge dos pormenores no peito e no ventre. Passa a correr pela boca, aí todo o cuidado é pouco. Um último aviso: não me pintes um coração nem um cérebro. Porque, se o fizeres, eu volto a construir-me como era.

(Imagem - René Magritte, "Tentando o Impossível")



 

 
publicado por Ana Vidal às 14:51
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Tratamento psi


A nova empregada de uma amiga minha era uma ucraniana robusta e de ar simpático, dessas que vieram parar ao nosso país em busca de uma vida mais parecida com a de um Ocidente romantizado pelo velho "mundo vermelho". Psicóloga. Pelo menos era o que ela dizia ser, que a minha amiga não tinha maneira de confirmar-lhe o curriculum nem estava muito interessada nisso: aparentemente, gostava dos miúdos e parecia entender-se bem com eles (são quatro, dos 4 aos 12 anos) e isso era tudo o que lhe parecia importante saber. Mas um dia, ao chegar a casa mais cedo do que o habitual, encontrou o Miguel (7 anos) a chorar copiosamente. Não era costume. Sem conseguir arrancar-lhe uma explicação para aquele pranto, perguntou aos outros o que se tinha passado. A resposta da Maria (4 anos) foi a única imediata: "Foi a Lluba que lhe deu um estaladão, mãe. E o Miguel agora está com um traumatismo ucraniano".

publicado por Ana Vidal às 23:50
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Espera

Ela esperava-o por detrás da janela, espreitando, de vez em quando, através da cortina translúcida que coava a luz da tarde. Ela esperava-o por detrás do pc, espreitando, de vez em quando, a caixa de entrada do outlook no écran luminoso.
Nada. Ele tardava.
Não ouvira ainda o som dos passos no caminho de saibro, a fricção das botas produzindo um estranho ruído de cascavel. Não ouvira ainda o som do notificador de mensagens, um silvo agudo que lembrava o de uma cascavel.
Nada ainda. Ele tardava.
Olhou o relógio de parede, ao canto da sala. Pegou no livro aberto e leu mais um capítulo, para entreter a espera. Olhou o relógio digital, no canto inferior do plasma. Escreveu mais um post, para entreter a espera.
Era tarde. Ele já não viria.
Fechou todas as janelas e por fim a porta da rua, e foi deitar-se. Deixou-lhe um bilhete na porta, para o caso de ele ainda chegar nessa noite. Fechou todas as janelas no desktop e por fim clicou no exit, e foi deitar-se. Enviou-lhe um email, para o caso de ele ainda abrir o pc nessa noite.
Falamos depois. Vemo-nos amanhã? Amo-te. Beijos. Call u asap. Say when. Luv u. Kss.
(Imagem - A. Modigliani)

publicado por Ana Vidal às 03:18
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

A banda


Acordou estremunhada, um caos de sons estridentes a fritar-lhe os neurónios depois de uma noite de absoluta paz e silêncio, como há muito tempo não se lembrava de ter tido. Não percebeu a princípio onde estava, nem porque tinham os seus sonhos de infância sido assim invadidos por clarinetes e tambores em fúria ciclópica, atacando uma música vagamente familiar que nada tinha a ver com os seus tempos de menina. A música… sim, era a “Grândola, vila morena”, e o dia… claro, o 25 de Abril.
Aos poucos voltou à realidade, à vida, ao presente doloroso. Estava na aldeia, naquela terra onde não pusera os pés durante tantos anos. Voltava agora, mais de 30 anos passados, e só por uma razão “de peso”. Franziu a cara num esgar de dor, enquanto os quase 120 quilos desafiavam a gravidade e tentavam erguer-se, sem consequências dramáticas, da periclitante cama de solteira. Depois de várias tentativas goradas, lá conseguiu e foi à janela, ainda a tempo de ver dobrar a esquina os últimos músicos festivos e domingueiros da banda filarmónica, num espalhafato que lhe pareceu quase grotesco.
Esquecera por completo, depois de tantos anos a viver na fleumática capital, aquele hábito ingénuo e provinciano de festejar tudo com fanfarras. Mas a verdade é que a banda da terra precisava de pretextos para sair à rua e exibir fardas e talentos, ou não valeria a pena o sacrifício das noites de ensaio, depois da dureza do dia de trabalho nos campos. E a efeméride da revolução de Abril era razão mais do que suficiente para festejar.

Ela é que não tinha nada para celebrar: voltara à terra para se isolar (os médicos tinham-lhe chamado descansar, recuperar e outras palavras animadoras, mas ela sabia bem que era para se conseguir vencer a si própria, longe das testemunhas habituais). Enquanto se olhava no espelho gasto da casa de banho, reviu mentalmente o último ano da sua vida e as razões que a tinham levado até ali: o colapso inevitável do casamento, a profunda depressão em que caíra, o internamento por tentativa de suicídio, a longa e penosa terapia e, finalmente, aquela luz ao fundo do túnel, ainda ténue, ainda difícil de alcançar, mas a única a que podia agarrar-se. “Vamos avançar, Florinda. Acho que agora já está pronta para o próximo passo, a banda gástrica. Verá como 50 quilos a menos farão milagres pela sua auto-estima! Mas tem que colaborar, ter muita força de vontade e fazer desse objectivo uma obrigação sagrada. A banda vai ajudá-la, claro, mas sem a sua determinação, nada feito… Posso contar consigo?” O Dr. Freitas tinha mais fé em si do que ela própria, ou então disfarçava bem. Parecia muito confiante e sorria sempre como se o mundo fosse uma festa interminável, o que chegava a ser irritante. Respondera que sim, claro. Que podia contar com ela. Que faria tudo para voltar a ser a mulher segura que fora um dia, milénios atrás.
E ali estava agora, também por sugestão dele: “Mude de ares. Aproveite a baixa e vá até um sítio onde se sinta bem. Afaste-se de todas as suas rotinas, concentre-se em si. Uma vez na vida, mulher, pense SÓ em si!” Pensou, durante alguns dias. Mas não tinha dinheiro para viagens e a baixa psiquiátrica retirava-lhe uma fatia substancial do ordenado, já de si diminuto. O médico ganhava muito bem, com certeza, e não percebia que os doentes não eram milionários…
Mas sabia que ele tinha razão. Tinha que sair do cenário da sua tragédia, para poder respirar fundo e reerguer-se. Os colegas de escritório, os vizinhos, até as meninas do supermercado tinham testemunhado cada lágrima perdida, cada quilo ganho. O marido abandonara-a com alarde, trocara-a por uma mulher mais nova e do bairro também, conhecida de todos. E os dois falavam… se falavam! Justificavam o adultério com motivos que ela nem sequer podia negar: o desinteresse crescente pela casa, o sexo impossível com um “monstro” que já nem podia mexer-se, a incapacidade de dar-lhe filhos, a fixação na comida como tábua de salvação. Sim, ela sabia que tinha ajudado a tornar sustentáveis aqueles argumentos.
A única solução que encontrara era esta, o regresso à aldeia. Os pais tinham morrido há muitos anos, não tinha irmãos. Aquela velha casa pertencia-lhe por direito, embora nunca tivesse vindo reclamá-la. A chave tinha estado, desde que ficara vazia, nas mãos de uma vizinha que a vira nascer. O marido detestara sempre a vida da província, nem de férias lá quisera ir, nunca. E ela, por inércia e desgosto pela falta dos pais, deixara-se também afastar, sem resistência.
Mas tudo isso era passado, agora tinha que concentrar-se em si. O médico prevenira-a contra pensamentos mórbidos e recorrentes, que o seu próprio ego maltratado construiria para impedir a cura e justificar recaídas. Tinha que derrotar a compulsão pela comida, a tentação do precipício. Talvez as recordações alegres da sua infância lhe devolvessem a auto-confiança de que precisava para vencer aquela batalha. Chegara na véspera, à noitinha já, e só a vizinha sabia da sua presença ali porque lhe deixara a chave no vaso de sardinheiras da porta. A noite tinha sido estranha, sem os sons da cidade a que estava habituada. A casa cheirava a mofo mas estava limpa, e qualquer coisa no ar despertara em si uma comoção e uma alegria que há muito tempo não conhecia.
Passou a mão pelo abdómen, dorido dos cortes e pontos recentes. A banda lá estava, ainda por insuflar, por enquanto só a marcar presença. Haveria de ter o seu papel na nova Florinda, lá mais para a frente, segundo lhe explicara o médico. Para já, e até as suas entranhas se adaptarem ao corpo estranho que se lhes colara, a função da banda era meramente psicológica e só com a sua própria força de vontade podia contar. Mas, caramba – concluiu com estranheza – como podiam os médicos confiar na força de vontade de doentes compulsivos, que se sujeitavam àquela provação exactamente porque a não tinham? Não era pedir de mais? Para que servia então a banda, se, quando se pudesse contar com ela, o principal trabalho já estava feito? Começava a achar tudo aquilo muito falível, mas tinha que colaborar. Prometera ao médico e a si própria. A mudança já prometia alguma coisa, pelo menos. Sentia-se renovada e quase feliz, com o ar do campo e a distância que interpusera entre si e as suas mágoas. Como dizia a canção, este era o primeiro dia do resto da sua vida. Respirou fundo e resolveu sair á rua.
Por todo o lado ressoava a música da filarmónica, que percorria as ruas e haveria de parar no coreto da praça, com toda a pompa e circunstância. Dirigiu-se para lá, curiosa. Muitos ainda a conheciam, quase toda a população tinha a idade dos seus pais e avós. Percebeu que a olhavam com comiseração, o corpo disforme a suscitar comentários e suposições para mais tarde. Um bando de crianças passou a correr e empurrou-a com violência, apontando para ela entre gargalhadas. Começou a sentir-se mal, a velha insegurança a voltar aos seus domínios de sempre. Sentou-se num dos bancos da praça, cada vez mais enervada.
O dia era de festa. Em volta do coreto tinham acampado os feirantes, num estardalhaço de sapatos, roupas, cestos, galinhas, alfaias agrícolas e cassetes piratas. Um frenesim de gente comprava e vendia tudo. Os altifalantes anunciavam, aos berros, um circo com feras verdadeiras e artistas de todo o mundo, “como nunca se viu por cá”. Começou a ficar tonta com a poeirada e o barulho crescente da banda que se aproximava, ameaçadora. Todo aquele espectáculo a atordoava e repelia, mais do que lhe devolvia recordações de infância. Tinham sido muitos meses de total fragilidade, sabendo-se vigiada e protegida por médicos e terapeutas, e agora estava entregue àquela voragem medieval. Sozinha e longe do seu ambiente. O abismo estava em todo o lado, afinal, porque estava dentro de si.
Já em desespero, olhou em volta, à procura de um porto de abrigo. Encontrou-o, finalmente, na barraca das farturas e do pão quente com chouriço. Ao terceiro naco já sorria, totalmente descontraída, com a mão sobre o estômago onde repousava a banda oculta. E assim ficou, feliz de novo, a ver a banda passar.
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Nota: Porque tenho muito pouco tempo para escrever agora e também porque só de há pouco tempo para cá este blog tem algum quorum, resolvi repetir alguns textos que aqui postei há meses, quando o iniciei. Este é o primeiro deles. As minhas desculpas a quem já os leu (se é que ainda se lembra disso, o que é pouco provável).
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publicado por Ana Vidal às 17:18
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Domingo, 19 de Agosto de 2007

The woman in red

Um quadro e suas versões ao passado
Quando Teófilo abriu o estabelecimento, lá estava, por baixo da porta, uma gravura. Quem a botara ali? Recuou-se ele, desde a infância, àquelas professorinhas a quem os meninos de então, ele também, chamavam "fessora". Não. Não era.
— Apenas uma foto de currículo, senhor. O vento. Quem sabe, algum retrato que vazou do cesto — disse a auxiliar das pastas.
O vento. Isto mesmo! O que fazem as empresas com os currículos que lhes chegam aos montes? Afinal, não se sabe de alguém que tenha tomado currículo de volta. As cartas, as fotos, sim. Mas não era uma foto. Nem carta. Um quadro, com aparência de coisa fina: oil on canvas — e, no verso, ilegíveis os nomes, do quadro e do autor.
— Não é fotografia! — disse Teófilo.
A secretária deu o dito pelo não dito. Bem que o assunto poderia ter morrido ali mesmo. Contam que Teófilo pegou a gravura e, cuidadosamente guardou-a. Contam que ele, todos os dias, colocava-a sobre uma mesa imensa, de tampo de vidro, e botava-lhe lupa. Examinava-a repetidamente. Quando entendia que o tamanho estava bom, retocava-a em vermelhos, tudo a partir de um lápis de cor, desses de marcar CD's, que ele antes utilizava para avivar os rótulos do estabelecimento. Pior, mal chegava um freguês, lá estava ele a indagar se conhecia aquela jovem. Muitos, de tão repetidos os interrogatórios, antecipavam-se e, antes mesmo de regatear preços, esclareciam que não.
— Bem que o amigo poderia tê-la visto na quermesse... não?!
Na quermesse! Como se as jovens de hoje fossem à quermesse. Não; ninguém sabia. Não fora encontrada. Outros garantem que o retrato nada teria de misterioso e muito menos a ver com um suposto vendaval, mesmo porque o vento, ali, as janelas fechadas, seria nenhum.
Teria sido assim, de uma outra versão: Teófilo, um dia restaurou um sonho e rascunhou-o no ar. Aliás, “riscou-o” em cima da perna, mal acordara. Correu com toda pressa para o estabelecimento, botou o sonho em papel e remeteu-o, mediante gorda retribuição, a uma sociedade de pintores. Até abriu concurso. Deu instruções, assim e assado. Quando chegou o quadro, um amigo objetou que não havia, naquela pintura, nenhuma referência sobre a parte de baixo. Realmente, olhando-o, não dá para garantir que a jovem tenha algo abaixo cintura. «Claro que deve ter!», dizia ele ao amigo. Realmente, não existe pessoa só do peito para cima. E o resto? Como haveria de ser o resto?
Contam que Teófilo, do alto de suas muitas exigências, não teria reclamado da equipe de pintores, mesmo porque as indicações do sonho a nada mais abrangiam que as partes superiores, tal como está. Dizem que Teófilo padecia do medo pânico de exigir algo a mais, digamos, um novo quadro, de corpo inteiro, pois lhe assaltava o terror de jamais “encontrá-la” se acaso aparecesse nesse novo formato, dos pés à cabeça. Afinal, no sonho, era-lhe somente aquela parte, a de cima. Mostrava-se ela também de lado, mas nem tanto. Sim, a outra manga da blusa, onde estaria a outra manga? Não dá para ver — os cabelos são-lhe longos e espessos. Muito estranho, não?!
Até que um belo dia, um caixeiro viajante deu notícia de um pintor, um certo Allan R. Banks, norte-americano, nascido em 1948. O quadro? Justo aquele da gravura: Hanna. Nada a ver, portanto, com o sonho, aliás, com o pesadelo de Teófilo. O problema é que ninguém acreditou.
Leitor, por obséquio, não me pergunte sobre desfecho. Isto pertence ao passado, algo totalmente inacessível até mesmo aos senhores historiadores. De fato, se dois historiadores se encontram, igual aos críticos de Literatura, desentendem-se imediatamente. O que, pois, dizer dos muitos boateiros que balanceavam dia e noite a vida de Teófilo e seu quadro misterioso?! Sobre o futuro, não! Isto é assunto calmo, o futuro. Todos nós sabemo-lo. Experimente colocar qualquer pergunta no modo “acontecerá”, e a resposta será imediata. Por isto mesmo é que os feiticeiros e adivinhos estão todos desempregados. Inclusive Teófilo.

(Soares Feitosa, in Jornal de Poesia)
Nota: Porque alguém disse que esta woman in red se parece comigo, mas sobretudo porque este conto do meu amigo Feitosa é muito bom, aqui fica a homenagem ao incansável mentor do Jornal de Poesia)
publicado por Ana Vidal às 17:17
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Azares


Hoje de manhã fazia muito vento aqui e a chuva ameaçava despencar do céu a qualquer momento. Preparei-me para sair de casa com a sensação de estar a meio do Outono ou nos primeiros dias de uma Primavera fresca, ainda incipiente. Onde está o Verão? Onde estão os dias de sol farto, a pedir banhos de mar? Ainda bem que estou a trabalhar e não de férias, pensei. Pobres dos portugueses que alugaram casas de praia ou espaços em parques de campismo, e têm que inventar actividades para se entreterem debaixo de tecto, para não acabar tudo numa enorme discussão familiar.

No Bangladesh e na Coreia do Norte, as inundações estão a fazer centenas de milhares de desalojados. As chuvas de Verão dos últimos dias destruíram pelo menos 800 edifícios públicos, 540 pontes, linhas de caminho-de-ferro e milhares de hectares de campos de cultivo. A fome e as epidemias alastram.

Mal cheguei à garagem, lembrei-me de que tinha deixado as chaves do carro no 4º andar. Bolas, porque é que sou tão distraída? É raro o dia em que não tenho de voltar para trás, por uma razão qualquer: as chaves, o telefone, um papel importante, qualquer coisa que me atrase e me faça sentir estúpida logo de manhã. Voltei ao elevador, em sentido contrário. A rogar pragas a mim mesma.
O sismo no Peru é o maior dos últimos 50 anos: já provocou mais de 500 mortos e espalhou o caos em cidades como Pisco, uma das mais atingidas, onde as ruas estão pejadas de cadáveres.
A caminho do escritório, já na estrada, o trânsito estava pior do que o costume: um acidente numa das rotundas. Só chapa, nada de importante, ninguém se magoou. Mas entre os mirones ociosos e divertidos, os dois condutores discutiam aos gritos e quase chegaram a vias de facto. Depois lá chegou a polícia, acalmaram os ânimos. Finalmente, o trânsito recomeçou a circular. Uff, que stress!
Os quatro atentados de terça-feira no Iraque são já os mais violentos e sangrentos da história do país, desde a invasão norte-americana, em 2003. Segundo os últimos balanços oficiais, feitos ontem à tarde, foram já extraídos dos escombros, pelo menos, 250 mortos e 350 feridos.

Como uma desgraça nunca vem só, a reunião que eu tinha hoje à tarde foi adiada sine die, o que significa, muito provavelmente, que o negócio não se fará. A desculpa é Agosto, mau mês para decisões importantes, mas palpita-me que houve um recuo. Más notícias, era uma aposta que eu achava já estar no papo. E o trabalhão que já tive com isto?! Bom, avancemos, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Mas não consegui fazer muito mais: os telefones estiveram avariados uma boa parte da tarde, assim como o ar condicionado. Há dias em que mais vale não sair de casa.

Após uma canícula com uma duração sem precedentes, que matou nove pessoas no país, a Grécia enfrenta uma vaga de incêndios, que já fizeram dois mortos no centro do país e chegaram ontem à noite às portas de Atenas.

Cheguei a casa irritada e tensa, morta por relaxar um bocadinho antes do jantar. A propósito, havia que fazê-lo, entretanto. Se ao menos tivesse uma empregada interna, ou uma varinha mágica que fizesse tudo por mim! Mas não tenho nada disso. Fui para a cozinha com um suspiro, preparei tudo e finalmente voltei à sala, ao meu sofá preferido. Recostei-me, estiquei as pernas, liguei a televisão. Com tudo isto, estava na hora do telejornal. E ouvi as notícias de hoje...
publicado por Ana Vidal às 23:28
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Sábado, 14 de Julho de 2007

Passeio matinal


A amizade é o amor sem asas.
Lord Byron

Pedes-me uma crítica aos teus quadros e isso deixa-me simultaneamente lisonjeada e nervosa, porque o sinto como uma responsabilidade. Vá lá, deixa-me ser presunçosa e acreditar que tenho alguma influência em ti… em ti e na tua obra, o que é ainda maior presunção. É quase como se me sentisse uma musa (coisa que nunca fui para ninguém), sabes, e gosto de pensar que poderia ser a tua… Já o sou, dizes tu? Deixas-me sem palavras, meu amigo. E não faças beicinho. Não, não estou a estragar tudo por te chamar meu amigo. O erotismo não é para aqui chamado, pois não? Sabes que gostei de ti desde o primeiro momento em que nos conhecemos. És, de todos os amigos do meu marido, aquele que tem mais a ver comigo, de longe. Os outros não me dizem muito, confesso, e parece-me que a simpatia é recíproca. Ainda estão todos entrincheirados do lado da ex… não é isso? Mas eu não tive culpa nenhuma, conheci o Daniel já depois do divórcio dele! Não o roubei a ninguém, porque é que eles me hostilizam? Ah, que ideia, deixa-te de galanteios. Não têm inveja nenhuma do Daniel. Têm os seus casamentos, maus ou bons, não quero meter-me nisso. Mas nenhum deles é como tu, abriste-me os braços desde que eu apareci. Não, não estou a tentar seduzir-te… muito menos agora, que acabei de casar com o teu melhor amigo!! Ris-te? Ah, bom, fico mais aliviada, esse teu sentido de humor é o que te salva sempre. Ou melhor, é o que nos salva, a ti e a mim. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, o Daniel tem muito pouco sentido de humor. E a Luísa também, não é? Como é que fomos arranjar duas pessoas tão diferentes de nós? Sim, claro, deve ter sido por isso mesmo, tens razão. Os extremos atraem-se, sempre foi assim…

Mas ainda bem que combinámos esta escapadela a quatro. Ainda por cima ao Porto, que é uma cidade de que eu gosto imenso. Não me digas que não conheces o Porto?! Ah, tens que dar uma volta comigo, talvez amanhã de manhã. Há certos sítios que são obrigatórios: Nevogilde, por exemplo, um bairro delicioso que parece um bocadinho do Minho incrustado em plena cidade. E os jardins de Serralves (mas isso deves conhecer, não?), a Baixa e a Ribeira. A Ribeira é uma beleza, e agora que foi toda recuperada está um brinquinho. Antes estava em ruínas, era um bocado deprimente e nem se percebia como é tão bonita! Mas conheces a Foz, claro. Faz-me sempre lembrar Cannes ou Nice, com as palmeiras e o passeio empedrado com varandim ao longo do mar, à moda da Côte. Podemos ir lá jantar hoje, que tal? Um primo do Daniel tem um restaurante na praia do Homem do Leme, onde se comem uns petiscos de comer e chorar por mais! Deves conhecê-lo, não? É um baixinho, casado com a Madalena, irmã da Teresa e do Luís Gonçalo. Mas, espera aí, ela é que é prima do Daniel. Ah, dela lembras-te? Pois, solteiríssima, nos tempos áureos em que ainda vivia naquele palacete da Lapa, que agora é um hotel. Belos tempos, dizes bem! Pois vamos hoje jantar com eles, está decidido.

É, o Porto é uma cidade especial - grave e séria - como canta o Rui Veloso. Gosto muito de vir cá, embora não gostasse de cá viver. Quem se habitua à mágica luz de Lisboa nunca mais consegue trocá-la por outra, sobretudo pela do Porto, que é bem mais sombria. Tu, então, que és pintor… mas vir até cá, de vez em quando, é um prazer. Calhou mesmo bem a inauguração desta tua exposição tão longe de casa, com uma razão destas o Daniel não teve coragem de dizer que não. E um fim-de-semana destes de vez em quando é essencial para o meu equilíbrio, dou-me mal com as rotinas. Outro cenário, outros cheiros, outras cores… percebes o que quero dizer? Percebes, claro. O pior é arrancar o Daniel de casa, ele é a antítese disto. Mas enfim, até não me posso queixar. A avaliar pelo que todos me dizem dele, parece que tenho conseguido verdadeiros milagres… e o mais engraçado é que ele acaba sempre por gostar, depois de conseguir vencer a inércia inicial. Às vezes não o entendo mesmo. Olha, são as vantagens de um casamento relâmpago, sem fase de incubação: ainda estamos a descobrir-nos! Já passaste essa fase há muito tempo? Pois, calculo que sim. Estás casado há quantos anos? Vinte e três?! Olha, eu, então, nem somados… deixa-me ver: foram nove com o Pedro Jorge (conheceste-o, não é verdade? Nessa época era diplomata de carreira, depois foi ministro), mais quatro – quase cinco – com o Carlos, e desta vez ainda não fiz um ano! Como vês… ah, mas agora é para sempre! Não te rias assim, olha que me vou ofender contigo. Eu bem sei que pensei o mesmo das outras vezes, mas agora estou mais madura. E mais cansada, também, para recomeçar tudo outra vez. Não, desta vez é para a vida. És engraçado, tu. Cultivas esse ar excêntrico mas afinal tens um casamento duradouro e sólido há uma data de anos. Qual é o segredo? Juro-te, gostava muito de saber. Pois, eu sei que não há receitas. Mas é bom saber que alguém, de vez em quando, encontra a sua própria fórmula. Porque tu encontraste, disso não tenho dúvidas. O teu casamento não é uma dessas prisões por obrigação ou preguiça de mudança. Não. Eu bem vejo que a Luísa te faz feliz. Vives satisfeito como um gato, confessa! A vossa relação é bonita de se ver. És talvez o caso mais flagrante de contraste que eu conheço: um artista – e dos bons! – com todas as inquietações e angústias que fazem nascer qualquer tipo de arte, e ao mesmo tempo um marido equilibrado e fiel, num casamento que se pode considerar burguês! Não me decepciones com essas graçolas, eu quero acreditar que és fiel à tua mulher… e também sei que não és rico, mas vives bem, caramba! A Luísa herdou uma bela quantia e soube aplicá-la bem, não precisa de trabalhar, e quanto a ti… os teus quadros vendem-se como pãezinhos quentes. Há muitos casais burgueses que vivem com metade dos vossos rendimentos…

Que sorte tivemos com o tempo! No meio deste Inverno chuvoso e triste, um fim-de-semana de sol magnífico! Quem havia de dizer? Até trouxe um livro, pensando que iríamos ficar enfiados no hotel. “Filhos da Sombra”, já leste? Do Joaquim Torres, disseram-me que é muito bom. Mas ainda nem o abri, o que me apetecia mesmo era deitar-me na relva a apanhar sol. Os nossos preguiçosos nem sabem o que estão a perder por ter ficado na cama esta manhã! Coitado, o Daniel anda cansadíssimo, foi bom ter aproveitado para dormir. Aquele hospital dá cabo dele. Chega a casa morto de cansaço, mal abre a boca. E a Luísa dorme sempre de manhã, não é? Faz bem, deve ser por isso que tem aquela pele óptima… que inveja! É tão bonita, a tua mulher. Não admira que continues a amá-la, tu que és mais sensível à estética do que a maioria das pessoas. Deixa-te de histórias, eu sei que a amas. E também sei que não é só pela beleza dela… há qualquer coisa naquela mulher que te pacifica, que te mantém ligado à terra. Se não fosse ela… acho que voavas, que te sumias no ar como as tuas meninas.

Está bem, pronto, falemos então delas. Se queres mesmo saber, a tua pintura causou-me uma impressão forte, gostei francamente. Reconheço que não é para qualquer ambiente. As decorações clássicas, mais pesadas, sufocariam as tuas meninas etéreas, tão delicadas, a gritar por espaços claros, panos esvoaçantes e janelas abertas a deixar entrar a luz…

Deviam fazer-se ambientes para quadros, e não o contrário. A propósito, é pena que elas estejam enclausuradas na cave da galeria. Precisam de sol, são como eu. Mas, voltando ao que me sugeriu a tua pintura, é engraçado (mas afinal acontece com todas as formas de expressão) como ela tem várias leituras possíveis, a vários níveis, e se calhar nenhuma dessas leituras é a que te inspirou. A expressão plástica tem destas coisas, depende dos olhos que a vêm, não é? O que estou a fazer é a dar-te a minha interpretação, o que me veio à cabeça quando vi os teus quadros. Mas não a leias como a de um crítico de arte, é puramente emocional e sem quaisquer fundamentos técnicos, obviamente.

Primeiro que tudo ressaltou a tua extrema sensibilidade, eu diria que quase feminina. Achei tocante a delicadeza, a leveza, a pureza que os teus quadros respiram. E não tem nada a ver com infantilidade, pelo contrário. A paz é um longo caminho de maturidade. És um homem maduro, quer queiras quer não! Em todos os sentidos… desculpa, estava a brincar outra vez e tu pediste-me uma reflexão séria. Pronto. Apaga a última frase. Agora a sério, faço-te o maior elogio que poderia fazer-te: as tuas meninas lembram-me as do Botticelli. Juro, e olha que eu sou louca pelo Botticelli. É o meu pintor favorito. Mas é verdade: são leves e puras como as dele. Não te babes. Eu sei que ele é um mestre, e depois? Não posso achar que tu também és? Claro, eu sei que há também séculos de distância entre elas, mas, de alguma maneira que não te sei explicar, vejo as tuas como reencarnações das outras. Não, não como cópias. É como se todas elas tivessem nascido de conchas, como a Vénus. Ao mesmo tempo são completamente diferentes. Como segunda leitura, vejo esse teu lado esotérico, toda essa simbologia que há nos arcos e portais de onde elas saem, das luas para que olham, das estradas que percorrem sem pôr os pés no chão. Para os não iniciados, são meros elementos decorativos e cumprem muito bem essa função. Mas para quem tem umas luzes… ah, elas são sereias, cantam para nos encantar e as seguirmos! Até onde?, pergunto-me. É inquietante pensar nisso… O Daniel achou-as muito bonitas, só isso. E inveja-te por causa dos modelos que lhes deram origem… não estou a cometer nenhuma inconfidência, foi ele mesmo que to disse! Ele também trabalha com corpos, é verdade, mas raramente são perfeitos e, pior do que isso, estão doentes. É muito diferente, não compares. Mas aquilo de que ele não se apercebeu é que as meninas dos teus quadros vivem noutra dimensão. Não faz segundas leituras. É um pragmático, o Daniel. Deformação profissional, conta só com o que é palpável… e a Luísa, o que acha delas? Nunca te perguntou porque pintas meninas diáfanas há tanto tempo, porque é esse o teu único tema? Não te faz perguntas, nunca? Vês, é o que eu te digo, ela é que é uma mulher inteligente… eu, com as minhas inseguranças, já te teria infernizado a vida por causa disso… haveria de comparar-me com elas constantemente e chegar sempre à conclusão de que eram mais novas, ou mais bonitas… sou idiota, eu sei, não precisas de mo dizer na cara! Não, não sou bonita nem nova, estás a ser caridoso. Ah, agora fazes-me corar, o Daniel nunca me disse uma frase tão bonita! És um poeta… podias ensinar ao teu amigo algumas dessas tiradas de charme! Mas, agora a sério: a Luísa nunca teve ciúmes das tuas meninas? Não? Vês, é uma mulher superior! Tiro-lhe o chapéu!

Sabes o que o Daniel me disse no outro dia? Que gostava que tu me pintasses, um dia. Imagina! Mas tu não fazes retratos, pois não? Fazes? Ah, não sabia… então talvez queiras pensar nisso, que tal? Seria uma menina com mais rugas e mais quilos, mas é o que se pode arranjar. E a Luísa, achas que não se importaria? Tudo menos arranjar-te problemas domésticos… E não sei se quero, pensando bem. Tu és perigoso, eras bem capaz de roubar-me a alma para a pôr no quadro. Assim uma espécie de Dorian Gray, estás a ver? E eu quero envelhecer como os outros mortais, não quero uma tela a envelhecer por mim. Ah, ainda bem que te faço rir, estavas tão sério quando saímos do hotel....

Olha, em resumo, adorei as tuas meninas e quero uma delas no meu quarto. Será um ménage a trois a propor ao Daniel. Um piscar de olho à transgressão, para aquela cabeça conservadora! Pronto. Com isto acho que te digo tudo. Estás preocupado connosco? Porquê? Não há motivos para isso. Não sei explicar-te por que razão, mas a verdade é que adoro o teu amigo, mesmo sabendo que ele é completamente diferente de mim. E eu sou um camaleão, adapto-me com facilidade. Desde que tenha os meus escapes, de vez em quando… é por isso que me fazem tão bem estes fins-de-semana fora de casa. Percebes isso, não é? Mas, voltando ao assunto, acontece que a tua menina no nosso quarto há-de ser um elemento de provocação, exactamente o que eu quero. E ele gosta de ser provocado, garanto-te. Como a Luísa? Vês, é o que eu te digo: eles são parecidos, nós também. Os extremos atraem-se, o que é próximo não nos parece tão apelativo. Está decidido, a tua menina vem morar connosco! Mas, espera aí, não estou a pedir-te presentes. Eu sei que vives disso, e felizmente posso pagar-te. Só te peço que me deixes ser a primeira a escolher, está bem? Estou a pensar exactamente numa delas, a que se funde com a lua, sabes? É aquela com que mais me identifico. Pode ser para mim, essa? Pode? Obrigada, és um amor.

Bem, agora confesso que já estou um bocadinho cansada. Gosto muito de andar, mas há mais de uma hora que não paramos! Que tal sentarmo-nos aqui nesta esplanada? Tomamos café e esperamos pelos nossos dorminhocos, que devem estar ainda no segundo sono… Que horas são? Só?? Meu Deus, fomos mesmo madrugadores! Temos muito tempo ainda pela frente antes que eles apareçam. E ainda bem, porque temos tanto para conversar…


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publicado por Ana Vidal às 13:00
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Terça-feira, 10 de Julho de 2007

Café Avenida


É-nos possível viver sós,
desde que seja à espera de alguém

Gilbert Cesbron


Paulo César estava finalmente reformado. Anos e anos a suspirar por dias como aquele, sem obrigações nem horários. Noites a fio a contar os meses, depois os dias e, por fim, as horas que o separavam da liberdade.

Tinha sido uma difícil vida de luta. Pouco dinheiro, muito trabalho. Mesmo assim, não podia queixar-se muito: havia colegas seus, bem mais novos do que ele, que tinham negociado o despedimento da empresa por uma indemnização e agora estavam em pior situação. O dinheiro acabara-se e não arranjavam novo emprego. Mentalmente, deu graças a Deus por ter conseguido aguentar a pressão daqueles últimos anos de loucura e esperar pela reforma natural. Era uma reforma parca, claro, mas ia dando para viver. Toda a vida tinha sido um homem frugal, habituara-se a contar os tostões desde muito novo. E depois – infelizmente! – o que ganhava era só para si… a mulher tinha-lhe morrido muito cedo e os filhos estavam emigrados na África do Sul, não os via há muitos anos já. Sabia que tinha dois netos de um deles, mas não os conhecia a não ser por fotografia.

Ainda tinha pensado, por duas vezes, arranjar mulher de novo, mas o destino não tinha querido assim. Uma delas, a primeira, era sua colega na fábrica. Uma solteirona ainda fresca e bonita, mas sacudida, de modos bruscos. Tinha engraçado com ela por lhe parecer um desafio a sua forma de responder aos piropos dos homens, com grande desenvoltura e mantendo-os à distância. Era uma mulher séria, portanto. Um bom prenúncio. Ninguém nunca ousara dizer nada dela. Ele tinha enviuvado há pouco tempo e sentia ainda muito a falta de uma mulher em casa. Aquela pareceu-lhe um bom aconchego para si e para os filhos, até porque não tinha outros que fossem dela e já não estava em idade de se aventurar em maternidades perigosas. Instigado pelos colegas começou a fazer-lhe rapa-pés, a sentar-se ao pé dela na cantina para o almoço, e até lhe ofereceu uma vez uma caixa de chocolates que trouxe de propósito de Badajoz, de uma excursão organizada pela Junta de Freguesia. A princípio, o seu interesse por ela era mera conveniência de situação mas, aos poucos, a dificuldade da conquista foi alimentando o desejo e uma intensa vontade de conhecê-la melhor. Tomou-se de amores por ela, escrevia-lhe papelinhos nas horas de trabalho, com convites para passeios de domingo que ela declinava sempre, sem excepção. Um dia decidiu-se mesmo, já desesperado. Parecera-lhe, naquele dia – ou tinha sido um dos companheiros que lhe dissera, já não se lembrava – que ela estava finalmente receptiva. Perdeu a cabeça, arriscou tudo – aproveitou a hora do café para agarrá-la pela cintura e dar-lhe um beijo testemunhado por todo o refeitório e que foi, aliás, muito aplaudido. Foi a morte do artista. Ela não percebeu nada e achou que ele estava a gozar com ela, ou que queria só farra. Desastrada e furiosa, envergonhou-o em frente dos companheiros de labuta com um sermão altivo e meia dúzia de epítetos fatais, tais como “velho baboso”. E ele que nem era velho, nessa altura. Ferido de morte, arrastou a sua desolação por alguns meses, encerrado numa tristeza vexada e sofrida à vista de todos. A ela, nunca mais dirigiu palavra. Pouco tempo depois, para seu grande alívio, ela mudara de emprego.

Mas o tempo encarregara-se de diluir o desgosto e a chacota dos amigos, e a rotina voltara a instalar-se na sua vida. É claro que várias mulheres animaram muitas das suas noites de viúvo, quase sempre mulheres da vida ou, mais raramente, encontros de solidões partilhadas, que não duravam muito nem se solidificavam a ponto de deixar adivinhar uma hipótese de futuro.

Mas, poucos anos depois daquele primeiro desaire, Paulo César voltara a apaixonar-se. Violentamente, como não pensava já ser possível. Os filhos iam-se criando com a ajuda das vizinhas, todas gostavam deles. Eram dois rapazinhos dóceis e franzinos que não davam grandes trabalhos, tinham notas razoáveis na escola e não se metiam em alhadas. Eram filhos de muitas mães, mas ele sabia que havia neles uma tristeza inconfessada por não terem uma a que chamassem legitimamente sua.

Talvez por essa consciência, ou talvez apenas pelo seu próprio desamparo, começou a interessar-se por uma dessas vizinhas, viúva como ele. Era uma mulher ainda bonita, de formas voluptuosas e cabelos negros, um pecado ambulante que perturbava todos os homens do bairro e deixava as mulheres de pé atrás. Mas ela era recatada, cumprindo a custo – adivinhava-se pelos suspiros constantes – a abstinência exigida pela sua condição de viúva séria. Tinha três filhos da idade dos seus, companheiros de escola e de brincadeiras. Estava até, na escala social do bairro, uns degraus acima das outras – a viuvez precoce atirara-a para ali, onde as rendas das casas eram mais baixas. Tudo parecia perfeito, portanto. A comunidade abençoaria esta união de viúvos. Discretamente, Paulo César começara a fazer-lhe a corte, com respeito e seguindo as regras. Ela encorajara-o logo, agradecida, e em pouco tempo já rebolavam na cama de ferro dele, a coberto da noite e longe das crianças de ambos, estrategicamente reunidas em casa dela. Foram tempos felizes, de uma fartura sensual que parecia não ter fim. Ela revelara-se surpreendente: nas noites de folia era mestra nas artes do kamasutra (confidenciou-lhe um dia, corando, que o major seu marido tinha sido o seu professor, depois de uma comissão de serviço na Índia portuguesa); e de dia era uma modista incansável e admirada – fazia vaporosos tutus de bailarina para a Companhia Nacional de Bailado, aumentando assim um pouco mais a pensão de viúva. As suas mãos de ouro faziam maravilhas, tanto de dia como de noite. Mas havia um óbice ao idílio: ela não queria casar, exactamente por causa dessa pensão, que perderia imediatamente se o fizesse. E também não aceitava tornar pública aquela relação irregular, porque isso arruinaria a sua reputação impecável. Ao contrário do que seria de esperar, foi ele quem começou a cansar-se da situação. Aquela exaltação oriental já não lhe bastava: queria uma mulher com quem pudesse passear abertamente, viver e criar os filhos, e os argumentos dela pareciam-lhe uma humilhação porque salientavam a sua inferioridade financeira. A versão alfacinha das mil e uma noites durou pouco mais de um ano e depois ele foi-se afastando. Para seu maior desgosto e vexame ela acabou mesmo por casar-se, algum tempo depois, com um antigo companheiro de armas do marido, recentemente promovido a capitão. Com esta promoção social voltou a sair do bairro e foi viver para um sítio mais condigno com a sua nova condição. Estava reposta a justiça. Ele sofreu durante uns tempos, mas acabou por conformar-se e nunca mais pensou em casamento.

Foi-se transformando, aos poucos, num homem solitário. Os filhos fizeram-se homens e acabaram por aceitar, ambos, o convite de uns parentes da mãe para trabalhar na África do Sul. Por lá havia muitas obras e falta de bons pedreiros, disseram-lhe.
- É uma vida melhor, filhos, não sou eu que vou prender-vos aqui.
A princípio ainda planeou ir vê-los, escrevia-lhes frequentemente e contava os dias até ao Natal, mas essa viagem nunca se concretizou. Por lá casaram e tiveram filhos mas, apesar das cartas em que manifestavam sempre a intenção contrária, nunca mais voltaram.

E agora estava mesmo só, com o resto da vida pela frente e sem ocupação. Valia-lhe a leitura – um prazer que descobrira com a viúva do major e que alimentava diariamente devorando, um a um, os livros desirmanados (quase todos destinados a leitores infantis ou adolescentes) oferecidos à biblioteca da Junta, agrupados sem qualquer critério por uma funcionária ainda mais ignorante do que ele. Há três meses que a sua rotina era esta: de manhã cedo dava um passeio pelo jardim do bairro, ia ao pão e voltava para casa, cozinhava qualquer coisa, almoçava e dormia uma curta sesta. As tardes eram mais problemáticas: nunca tivera outros hobbies com que pudesse entreter-se agora e não lhe apetecera ainda alinhar com os outros reformados do bairro, que lhe pareciam muito mais velhos e perdidos do que ele e lhe lembravam a sua futura condição. Jogavam a bisca e a lerpa no jardim, fumavam e deixavam correr os dias numa espera resignada. Parecia-lhe deprimente. De vez em quando saia dali e ia até à Baixa lanchar e ver as montras. E, muito mais raramente, alinhava com alguns dos vizinhos numa excursão da Junta a Badajoz, a Évora ou ao mosteiro da Batalha. Mas evitava estes convívios porque eram sempre dominados pelas beatas e ele não tinha paciência para fervores religiosos. Aos poucos, começava a dar-se conta de que a situação de reformado não era assim tão aliciante como pensara. Para passar as horas até ao jantar, ia para o Café Avenida – um nome pomposo para uma modesta localização, num beco que fazia esquina com uma rua estreita – e entretinha-se com o movimento, enquanto lia o jornal ou um livro trazido da biblioteca. Estava a ficar um filósofo, pensava ele, de tanto observar os outros. Já conhecia quase toda a gente que parava por ali, mesmo os que não eram clientes diários.

Naquela tarde, havia uma nova presa para a sua curiosidade: olhou com interesse redobrado um homem que ocupava, sozinho, uma mesa afastada da sua e que falava em voz baixa para um telefone portátil. Nunca o tinha visto por ali. Numa avaliação sumária pareceu-lhe uma figura triste, com o aspecto desabrigado e patético de uma personagem de Dickens. Chamara-lhe a atenção a voz monocórdica e estranhamente ritmada, como que recitando uma ladainha. Não conseguia ouvir o que dizia, mas parecia lamentar-se intimamente, como se, do outro lado da linha, não estivesse ninguém. Assim, a falar, era um tipo curioso: embora a expressão fosse de desalento, parecia saborear as palavras com a volúpia de um gourmet, mastigava-as lentamente, sílaba a sílaba, como se fossem ovinhos de codorniz. Não fora esse tique de diseur e nada nele, numa observação desatenta, despertaria o menor interesse: em tudo o resto era irremediavelmente vulgar. Andaria pelos cinquenta e poucos, diziam-no as rugas na testa e o cabelo, ainda farto mas já mais branco do que escuro. Os olhos eram fundos e esquivos, sem cor definida. As mãos – juraria que estavam húmidas – mostravam-se irrequietas, nervosas, como as de quem tivesse abandonado o vício do tabaco e não soubesse já o que fazer com elas. Sobre o corpo franzino trazia uma camisola de lã puída, de um tom azul acinzentado, e umas calças escuras de fazenda. Tudo muito limpo, muito vincado, a denunciar mão de mulher ciosa da dignidade da sua pobreza. Esposa? Mãe? A avaliar pelo ar desajustado e pela ausência de aliança na mão esquerda, mãe, definitivamente.

Parecia desconfortável na cadeira, como se quisesse sair dali o mais depressa possível. Olhava em volta de vez em quando, tentando abranger com movimentos rápidos do pescoço todo o espaço da sala e sobretudo a porta do Café. Estaria talvez à espera de alguém, ou simplesmente temia ser ouvido. Porque as frases dirigidas ao bucal do telemóvel eram pronunciadas em voz velada, propositadamente contida. Pelo menos, assim parecia. De tempos a tempos deitava um olho rápido ao relógio antigo de madeira e vidro gravado, na parede mesmo à sua frente. Sobre a mesa quadrada, uma xícara de café vazia e um jornal aberto na página das palavras cruzadas, criteriosamente disposto de forma a acompanhar sem desvios a esquadria do tampo. Sobre o jornal, rigorosamente ao centro, uma esferográfica e um par de óculos de lentes grossas. Um metódico, portanto. No mínimo. Talvez um maníaco, um obcecado pela ordem. Um desses perfis que rondam perigosamente o descaminho sem remédio, às vezes provocado pela mínima alteração à rotina.

Para acompanhar este imperdível pitéu que os deuses do ócio lhe traziam de presente em mais uma tarde de horas longas, nada como outro cafezinho. Distraiu-se da sua presa, por momentos, para chamar o criado. Quando voltou a reparar no homem, alguma coisa tinha mudado. Olhou-o de novo, agora com acrescida curiosidade: na expressão que, há pouco, revelava apenas timidez e desconfiança, lia-se agora o pânico. O homem estava claramente perturbado, como que arrependido de um passo irreflectido, cujas consequências lhe fugissem ao controle. O telefonema acabara e agora estava imóvel, de olhar fixo e semblante carregado. Olhou uma vez mais o relógio de parede, disfarçadamente. Há pelo menos meia hora que ali estava sentado, em crescente ansiedade. Suava ostensivamente, como se um sol de Agosto tivesse invadido, de repente, aquele fresco dia de Outono. Pobre criatura, pensou. O que lhe teria acontecido agora?

Sem dar por isso, Paulo César começou a olhar também, ansiosamente, para a porta do Café. O homem deitara-lhe um olhar rápido e cúmplice, ou era imaginação sua? Estaria a pedir ajuda? O que poderia fazer por ele? Outro olhar, agora mais explícito. Ele PRECISAVA mesmo de ajuda mas, por qualquer razão, não podia ou não queria pedi-la directamente. Concentrou-se, procurando raciocinar. Não sabia no que estava a meter-se, mas tinha que agir de qualquer forma. Não era pessoa para deixar um ser humano naquela situação, sem fazer alguma coisa. Pensou em levantar-se e dirigir-se à casa de banho, sabendo que esse percurso o obrigaria a passar pela mesa do outro. Assim, estaria suficientemente perto se ele quisesse dizer-lhe alguma coisa em voz baixa, ou até passar-lhe um papel. Sorriu intimamente. Andava a ler demasiados romances policiais! O homem tinha um ar aflito, de facto, mas nada fazia prever que estivesse a ser perseguido ou impossibilitado de comunicar com as outras pessoas… bem, alguma coisa ele queria com aqueles olhares disfarçados, como que a pedir socorro.

Olhou uma vez mais na direcção do homem, encorajador, e levantou-se devagar. Caminhou lentamente, de propósito, passando como que em câmara lenta pela mesa do outro. Nada. Dirigiu-lhe mais um olhar antes de entrar na casa de banho, fazendo-lhe um sinal quase imperceptível com os olhos. O outro corou violentamente e virou a cara. Caramba, que expressão era aquela? Medo? Repulsa? E, de repente, percebeu. Ohhhh, diabo! O filho da mãe pensa que eu sou paneleiro! Ficou tão atrapalhado que se precipitou para a casa de banho, esbarrando com um rapazinho que vinha a sair. Encostou-se à parede, a suar. E agora? Desfazia o equívoco com uma explicação que podia complicar ainda mais a situação, ou fingia que não tinha acontecido nada e voltava para o seu jornal? Não sabia o que havia de fazer. A mania de te meteres onde não és chamado! Praguejou baixo e saiu com um andar estudadamente masculino. Pelo menos, pareceu-lhe. O outro continuava na mesma posição e baixou os olhos quando passou por ele. Paulo César esgueirou-se para a sua mesa e sentou-se de costas para o homem, impossibilitando-se assim de olhar para ele, a partir daí.

Algum tempo depois, entrou no Café uma mulher magra e já um pouco curvada, de cabeleira armada e loira mas onde eram bem evidentes as raízes brancas. Estava maquilhada em excesso para aquela hora, tinha um batom encarnado e sombra azul nos olhos. A roupa era berrante e justa, completamente desadequada à sua idade, e um perfume intenso e enjoativo espalhara-se pelo Café, com a sua entrada. Apesar de todo aquele espalhafato, por baixo da pintura as feições eram ainda interessantes e o corpo conservava alguma elegância. Paulo César olhou com curiosidade aquela velha gaiteira, pensando de repente, com um sorriso íntimo, que ela deveria ter mais ou menos a sua idade, pelo que estava a chamar velho a si próprio. Olá!! Dois novos numa tarde só, que sorte! Aquela também não era dali do bairro!

A mulher olhou à sua volta, hesitante, como que avaliando os presentes. Depois, avançou decidida para a mesa de Paulo César e pediu-lhe, com um sorriso:
- Posso sentar-me?
Ele estranhou a pergunta, intrigado com a atitude dela. Afinal, a maioria das mesas estava vazia! Não querendo ser indelicado, gaguejou, ao mesmo tempo que a convidava com um gesto da mão e se levantava para puxar-lhe a cadeira:
- C-claro. Faça favor.
Ela voltou a sorrir e sentou-se, enquanto lhe piscava um olho, coquete:
- Obrigada. Que cavalheiro… o senhor é mesmo um cavaleiro andante! Oferece-me um refresco? – e, praticamente sem transição - Olhe, sabe uma coisa? Confesso que estou aliviada.
- Desculpe?? – Paulo César estava abismado e começava a ficar incomodado com tudo aquilo.
- Sou a Rosa Solitária… sou EU! Está decepcionado? Bem, o senhor também é mais velho do que me disse, seu maroto!
- Perdão, a senhora deve estar a fazer confus…
Ela interrompeu-o, impaciente:
- Ora, não seja tímido. Está a fingir que não sabe quem eu sou?
De facto, há já uns momentos que Paulo César tentava lembrar-se de onde a conhecia. A cara era-lhe vagamente familiar. Talvez de uma das excursões…
- Mas eu conheço-a, minha senhora? Peço desculpa mas não me lembro de onde.
Ela riu-se, divertida. Depois disse, com uma inflexão sugestiva:
- Bem, conhecer, conhecer… só pelo telefone, não é? – e, muito devagar - Cavaleiro Andante, Rosa Solitária… então? Ainda há pouco…
Ele franziu as sobrancelhas, interrompendo-a por sua vez:
- Pelo telefone?? Mas… – Estava cada vez mais confuso. A mulher impacientou-se:
- O senhor respondeu ao anúncio… e combinou encontrar-se comigo aqui! Se não, como é que eu ia saber da existência deste Café? Não sou daqui!! Mas, se está arrependido…
Agora fazia uma espécie de beicinho. Patético, nesta idade!, pensou ele. Começava a achar a situação muito desagradável. Empertigou-se e disse-lhe, muito sério:
- Ouça, minha senhora. Eu não combinei nada consigo… de facto, a sua cara não me é estranha, mas juro-lhe que não combinei nada… - e, subitamente, fez-se luz na sua cabeça. O outro!! O encontro era com ele! Respirou fundo, aliviado:
- Espere aí, já sei! Está a fazer confusão com aquele senhor, ali ao fundo. Foi ele que lhe telefonou, com certeza! – e virou-se para trás, para indicar-lhe a mesa… vazia! O outro tinha-se esgueirado sem dar nas vistas, escapando-se ao encontro talvez mesmo antes de conhecer a sua Rosa Solitária! A timidez extrema tinha-o feito arrepender-se, e o seu pretenso assédio tinha contribuído para acabar de afugentá-lo.
Ela ficou furiosa:
- Está a brincar comigo? Qual senhor?
De facto, a única mesa ocupada, além da sua, tinha um casal de namorados completamente alheio ao resto do mundo. Começou a sentir-se mal.
- Deve ter-se ido embora… - engasgou-se. Ela ofendeu-se, começando a perder a compostura:
- Olhe lá, seu Cavaleiro Andante de meia tigela, se está arrependido diga, de uma vez por todas! Não invente desculpas… E você também não é nada de especial, o que é que julga? Se calhar acha-se algum galã, não?
- Juro que estava ali um senhor à espera de alguém… ele é que deve ser o seu Cavaleiro Andante. E não é nada do que está a pensar… eu não quis ofendê-la, acredite.
Então ela acalmou-se, caindo em si:
- Está bem, pronto, acredito. Mas a verdade é que eu não vejo ninguém aqui, além de si. Só se esse senhor não ficou satisfeito com o que viu e foi-se embora… – agora a voz era de uma tristeza confrangedora – e, se calhar, teve toda a razão. Já não tenho idade para isto… não sei o que me deu para pôr o anúncio! Não sou nada assim, é raro pintar-me e nunca me vesti desta maneira. Sabe, é a solidão que nos empurra para estas coisas… nunca casei, não tenho filhos, a única companhia que tive na vida foram os inquilinos de um quarto que alugo… acredite, foi a primeira vez que fiz isto… ah, mas juro que nunca mais caio noutra, ou não me chame Josefina Saraiva!! Estou tão envergonhada…
- Josefina Saraiva??!! – Pela segunda vez naquela tarde, fez-se luz na cabeça de Paulo César: à sua frente, quase quarenta anos depois, choramingava, acabrunhada, a mulher que o tinha ridicularizado no refeitório da fábrica, perante todos os colegas!

Mas tudo se tinha esfumado com os anos: a raiva, a humilhação, até o desconforto. Restava, apenas, um vago enternecimento por aquela figura frágil e carente, que já tivera um dia toda a arrogância da juventude. Ao mesmo tempo que chegava a esta conclusão, descobriu também como era reconfortante reencontrar alguém do seu passado, alguém com quem partilhar todas as memórias que estavam aprisionadas dentro do seu coração. Olhou-a, comovido, reflectindo em como eram ambos vítimas da mesma sorte, afinal: uma enorme e irremediável solidão. Irremediável? Paulo César deu consigo, numa fracção de segundo, a tomar a decisão mais importante da sua vida. Endireitando-se na cadeira aclarou a voz, tomou balanço e disparou, antes que se arrependesse:
- Josefina, peço-te perdão. Menti-te ainda agora, não havia aqui mais ninguém à tua espera. Mas não te menti pelas razões em que estás a pensar: é que fiquei com medo de que me escorraçasses, pela segunda vez! Não me reconheces? Assim que te vi entrar, percebi que o destino nos tinha pregado uma partida: eu sou o Paulo César, lembras-te? E, se tu quiseres, gostava muito de ser o teu Cavaleiro Andante.

Ela não disse nada, sufocada, mas uma grossa lágrima abriu caminho através da camada de base que lhe cobria a cara, arrastando consigo o rímel preto e a sombra azul dos olhos. Paulo César levantou-se, limpou delicadamente com o lenço o triste borrão colorido, ofereceu-lhe o braço com um gesto galante e disse:
- Vamos, minha Rosa Solitária? Ainda temos um resto de tarde para passear, e tu não conheces o jardim do nosso bairro. É muito bonito, sabes?


(AV, Gente do Sul)
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publicado por Ana Vidal às 02:24
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Terça-feira, 3 de Julho de 2007

A Generala


Saber o que se sabe,
não saber o que não se sabe:
isso é que é saber.

Confúcio


A minha tia-avó Carlota tinha a alcunha de “Generala” entre a família e os amigos, por razões óbvias. Para começar, tinha voz de trovão. Fazia-se ouvir muito antes de chegar ao nosso campo de visão, naquela saudação que lhe era peculiar e que todos imitávamos em crianças, para a fazer rir: “Ó da casa, cá estou eu!!”.

Era a típica tia solteirona, de idade indefinida entre os cinquenta e os sessenta e cinco, de formas generosas e gestos bruscos. Feiota, coitadinha. Talvez por isso, ou por ter herdado o proverbial mau génio das mulheres da família, nunca arranjou marido. Mas, se essa circunstância a tinha angustiado no passado, há muito tempo já que ultrapassara o desgosto ou a falta. Dizia a minha avó que ela fora uma Maria-rapaz até muito tarde, e a verdade é que, mesmo depois de adulta, conservou resquícios desse perfil – gostava de usar roupas e acessórios masculinos, que lhe davam um aspecto bizarro. Era expedita e independente, gostava de fazer a sua vida sem dar contas a ninguém. Todos nós, seus sobrinhos, ocupámos o lugar dos filhos que ela nunca teve, com a vantagem de não sermos uma responsabilidade mas apenas um prazer.

Vivia na velha casa amarela da Quinta Grande, não muito longe de Lisboa, que nunca vira reformas na decoração desde que ela a herdara. Tanto assim que, quando a herdámos nós, o orçamento para as obras foi de tal maneira astronómico que tivemos que vendê-la, porque não tínhamos dinheiro para elas. Mas nessa época, criados em apartamentos de cidade, todos adorávamos passar férias ali. Espero, sinceramente, que quem a comprou seja lá tão feliz como nós o fomos.

Com a casa, herdara também uma dama-de-companhia mais ou menos da sua idade, que os meus avós tinham contratado para a bisavó Júlia, nos últimos anos da sua vida. Quando ela morreu, conta a minha mãe, houve reunião familiar para decidir o destino da dócil Rosinha. Mas toda a gente se lhe afeiçoara entretanto, e ela acabou por se eternizar lá em casa e ser considerada como família. A pobre Rosinha acompanhou sucessivamente - eu diria que aturou, como uma santa – os despropósitos da bisavó Júlia, os caprichos dos meus avós e, finalmente, a tia Carlota, que gostava dela mas que a tratava com a pura tirania de um superior hierárquico em tempo de guerra. Andavam sempre juntas, Rosinha a reboque da tia Carlota, e faziam um par cómico que nós caricaturávamos sem piedade: "Lá vêm a Generala e o Soldado Raso!"

Nenhuma das duas levava a mal o chiste mas, por vezes, notava-se que Rosinha desejaria que a tia Carlota não fosse tão autoritária consigo. As más línguas diziam que havia mais do que simples amizade entre as duas, embora, na altura, as nossas mentes infantis não atingissem bem o alcance desses comentários. De qualquer modo, eram boatos que ninguém provara alguma vez: a intimidade da tia Carlota era uma fortaleza inexpugnável. Fosse como fosse, os amigos já não concebiam uma sem a outra e dirigiam-lhes, naturalmente, convites de casal.

São infindáveis as histórias da Generala, e ainda hoje assunto de muitos dos nossos serões em família. Como todos os excêntricos, era fonte de eternos falatórios, a que não dava a mais pequena importância nem deixava que condicionassem a sua vida. Acho, até, que aquela aura de loucura lhe dava um íntimo e secreto prazer, provocadora como era.

Infatigável coleccionadora, em qualquer recanto da casa amontoava latas, caixas de todos os tamanhos e feitios, garrafas, isqueiros, pedras, búzios e conchas, e uma infinidade de outros objectos absolutamente inúteis que as empregadas odiavam, por tornarem quase impossível a tarefa da limpeza. Nem as casas de banho escapavam: inúmeros sabonetes de hotel e frascos de perfume vazios ali reinavam, atravancando o espaço e transformando uma ida apressada numa difícil travessia. Lembro-me de que nos pedia sempre, de volta, as embalagens vazias dos chocolates que nos dava de presente, com mil recomendações para que as abríssemos com cuidado para não as rasgar.

A fixação tinha começado com a colecção de leques da bisavó Júlia, mas esses tinham sido criteriosamente escolhidos por uma personalidade metódica e estavam divididos por cores, antiguidade, tamanho e motivos. Havia-os de todas as proveniências no grande armário de vidrinhos da salinha, como pano de fundo aos pequenos objectos de exposição. Alguns eram já verdadeiras preciosidades, e essa primitiva colecção fora, até, causa de alguma fricção na altura das partilhas. Fora decidido fazer lotes numerados para os objectos soltos e tirá-los à sorte, enrolados como rifas e reunidos no chapéu de coco do avô Fernando. Para seu desgosto, a Generala não tirou do chapéu o papelinho cujo número correspondia ao lote dos leques. Talvez por causa dessa contrariedade, nesse mesmo dia nasceu nela um incontrolável ímpeto de coleccionadora.

Para nós, crianças, uma casa como aquela representava infindáveis cenários de aventura. Tinha tudo o que podíamos sonhar: soalhos que rangiam, alçapões, quartos fechados e escadas que acabavam em portas secretas. Os vasos de plantas do jardim de Inverno eram as florestas tropicais onde caçávamos perigosos animais selvagens com as bengalas da entrada – outra das suas colecções – e, em cada uma das divisões da casa, descobríamos a semente de uma nova aventura. Para já não falar no pátio e no terreno em volta, aonde nem sequer faltava um pequeno ribeiro que servia de panorama às nossas epopeias marítimas. Ela sabia-o, e deixava-nos explorar sem restrições aquele mundo irresistível.

Era engraçado como a Generala era benévola e paciente com as crianças, mas absolutamente implacável com os adultos. Talvez porque ela própria não tivesse amadurecido para além da adolescência – dizia-se que tinha sido vítima de um traumatismo de parto, que a deixara ligeiramente afectada – a verdade é que era a nossa tia preferida e, muitas vezes, alinhava connosco em brincadeiras e partidas.

Nunca quisera tirar a carta de condução nem comprar um carro, e defendia que os transportes públicos eram a solução dos países civilizados. É claro que raramente os utilizava, porque os amigos e os irmãos iam buscá-la e pô-la a casa; mas sempre contra os seus protestos e para alívio de Rosinha, que temia as confusões e escândalos que ela armava em comboios e eléctricos. Dava grandes descomposturas aos homens que não se levantavam para lhes dar o lugar, e aproveitava a impossibilidade de uma fuga estratégica para lhes explicar como deve comportar-se um cavalheiro que se preze.

A sua história mais célebre passou-se exactamente no Metropolitano, numa dessas visitas que nos fazia às vezes, sem avisar. Nesse dia, Rosinha estava doente e ficara em casa. Voluntariosa, a tia Carlota meteu-se mesmo assim no comboio para Lisboa e depois apanhou o Metro para nossa casa. Estava satisfeita com a sua independência e excitada com a experiência rara de viajar sozinha. Mas não se lembrara, por falta de hábito, de que tinha escolhido exactamente a hora de maior enchente no Metro e viu-se, de repente, entalada entre gente desconhecida, de pé no centro do corredor. Irritada com tantos encontrões, levantou o braço para agarrar a pega do tecto e aproveitar para conseguir, assim, mais algum espaço.

E foi então que deu por falta do relógio de pulso que usava sempre. Olhou à sua volta, desesperada. Uma fúria incontida subiu-lhe pela espinha ao dar com os olhos nele, mesmo ao seu lado, no braço de um matulão mal-encarado que parecia divertir-se com a sua aflição. Espalmada contra o homem, ponderou seriamente a hipótese de denunciá-lo com um grito de alarme e um pedido de ajuda aos circundantes. Mas, depois de olhar as caras apáticas que a rodeavam, a que o cansaço e a saturação da rotina davam uma expressão de total indiferença, concluiu que ninguém se importaria com aquilo. Para eles devia ser apenas um roubo, mais um entre os milhares que haveria diariamente naquele buraco sufocante. Tinha que agir sozinha, e depressa, antes que as portas se abrissem na próxima paragem e o gatuno desaparecesse na multidão. Reunindo toda a coragem e suportada pela indignação, olhou o ladrão bem nos olhos e disse-lhe, numa voz velada e fria que não permitia réplica, mostrando-lhe a sua malinha aberta: "O relógio, aqui! Já, imediatamente! E não dê nas vistas, ou será pior para si…"

Para seu próprio espanto e alívio, a estratégia resultou. O homem tirou o relógio do braço e deixou-o cair para dentro da malinha sem uma palavra, com uma expressão embaraçada. Ninguém parecera dar por isso. Tanto melhor, o problema estava resolvido e só lhe restava sair dali o mais depressa possível. Furou a multidão comprimida e chegou à porta, mesmo a tempo de saltar da carruagem e antes que o comboio entrasse de novo em movimento. O ladrão seguira viagem, talvez na mira de um assalto mais proveitoso. Sem sequer olhar para trás subiu, a correr, as escadas que a levaram de novo à segurança da rua movimentada. Só aí parou e, então, sentou-se num banco de jardim, com as pernas a tremer. Ao afivelar o relógio no pulso estava orgulhosa de si própria, embora tivesse apanhado um enorme susto.

Quando, por fim, chegou a nossa casa, ainda ofegante da aventura, presenteou-nos com um relato colorido de tudo o que tinha vivido. Lembro-me de que a ouvimos todos de boca aberta, espantados com a audácia da Generala. Ela exibia o relógio recuperado como um troféu de caça, e o assunto foi largamente comentado durante todo o jantar.
O meu pai ralhou-lhe, prudente: "Não devia ter feito isso, tia Carlota. Esses malandros às vezes andam armados, a valentia podia ter-lhe saído cara…". Ela riu-se, sem dar-lhe grande crédito. Era a heroína da noite, nada podia estragar o efeito da sua façanha. Sentia-se invencível.

A meio do jantar, tocou o telefone. Albertina, a nossa empregada, foi atender e, quando voltou, a confusão e o riso contido misturavam-se na sua expressão. Não era costume Albertina dar assim nas vistas, sobretudo em frente do meu pai. Mas, dessa vez, tinha uma boa razão para isso.
Embaraçada e sem saber como dar aquela notícia, acabou finalmente por falar: "Era a dona Rosinha… manda dizer à senhora dona Carlota para não ficar preocupada com o relógio, que ficou em cima da cómoda do quarto…"

Ainda hoje tenho presente na memória a expressão atónita da tia Carlota, segurando na mão o relógio que tinha acabado de roubar: "Meu Deus, é igualzinho ao meu! …"

De todas as histórias da Generala, esta é, sem dúvida, a nossa preferida. Teve até honras de epitáfio privado, uma graça que corre na família desde que ela morreu, há já uns anos, na véspera de fazer oitenta e sete:

«Aqui jaz Carlota, a Generala
Assaltante de relógios no Metro de Lisboa»


(AV, Gente do Sul)
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publicado por Ana Vidal às 02:03
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Maríntimo II


Nunca, até então, tinha sentido uma tão intensa sintonia com objecto inspirador de quase toda a sua obra. Desejara desde sempre ter com ele uma relação de cumplicidade, de segredos partilhados, de intimidade absoluta. Mas sempre se interpusera entre eles a insondável distância que separa a estrela do mísero planeta que dela se alimenta. Eles eram o mestre e o fascinado aprendiz, a serpente e o pássaro subjugado.

Escrevia febrilmente no ar, molhando os dedos no grande tinteiro azul, pernas cruzadas sobre conchas e areia. Finalmente, o sonho que se cumpria.

A hora era branca, a luz total.

Nunca soube quanto tempo durara a magia. A avaliar pela luz tinham sido várias horas, pois lembrava-se de ter chegado ali quando o sol ainda se anunciava no horizonte. Levantou-se, por fim, sentindo um formigueiro no corpo, devido mais à excitação do que à anterior imobilidade.

Quis levar debaixo do braço o registo daquela comunhão perfeita e percebeu, assombrado, que nada tinha entre as mãos.

Olhou o mar, sentido, e cada onda era uma gargalhada.
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

Uma história de pais


Nestes tempos que atravessamos, em que palavras como racismo, xenofobia, pedofilia, se tornaram banais a ponto de parecerem quase ter-se tornado a regra, uma história como a que aqui conto hoje reveste-se de especiais contornos. É uma hstória verídica, que a imaginação de nenhum autor ficcionou, aumentou ou deturpou. Relato-a com total fidelidade.
Exactamente por ser verídica, tem, como nenhuma ficção, o dom de devolver-nos a fé, já quase perdida, na Humanidade. Porque nos redime aos nossos próprios olhos, demonstrando-nos que ainda podemos salvar-nos da galopante insensibilidade geral. Porque nos obriga a procurar, num espelho, as raízes mais puras e ainda vivas da nossa condição humana.
Tive apenas o cuidado de substituir os nomes dos intervenientes, por respeito à sua privacidade. É uma história curta e simples, como o são todas as grandes histórias que a vida nos oferece como exemplo. Conta-se em duas penadas, mas ficará na vossa memória, espero, por muito tempo.

É a história do jovem Diogo e do cigano Sancho. Ambos pais, ambos condenados ao infortúnio, mas por diferentes razões.

Sancho é um dos muitos vendedores clandestinos do submundo das falsificações e dos produtos roubados, e o seu “escritório” é, habitualmente, toda a praça do Marquês de Pombal. Diogo, 24 anos, é o filho privilegiado de um empresário próspero e bastante rico, que também tem escritório no Marquês (esse com tecto, embora com uma área mais reduzida...).

Nada parece ser-lhes comum. Nada que os aproxime, nada que explique uma amizade. Os seus dois mundos são irremediavelmente insolúveis. No entanto, desafiando toda a lógica, Sancho marca presença, sentidamente, num acontecimento inesperado: o funeral de Diogo, brutal e prematuramente morto num acidente de moto. Muito jovem ainda, mas já pai de uma criança. Uma tragédia.

A família repara naquela presença estranha, mas está ainda em choque, não dá demasiada importância. Mas na missa do 7º dia lá está de novo o cigano, comovido. E desta vez a pergunta impõe-se: Porquê? Que obscuras razões por detrás desta atitude? Que assustador passado ignorado de todos? Preocupado, o pai de Diogo não resiste e aborda a figura dissonante naquela assembleia. E é então que a explicação, colada a um sorriso triste, surge clara, redentora, único bálsamo naquela hora insuportável:

Não, não eram propriamente amigos. Mas eram, talvez, muito mais do que isso. Unia-os um indelével laço de solidariedade e confiança. E tudo porque, tempos atrás, Diogo o encontrara, a chorar, à porta do prédio do escritório do pai. Contra todas as expectativas, perguntara ao cigano desconhecido o que tinha, interessara-se. E Sancho contara-lhe, entre lágrimas: era um dia muito triste para si, fazia um ano que o seu filho fora morto pelo sogro numa rixa passional, e tinha muitas saudades. A velha honra cigana – “filha minha pode ser viúva, mas nunca divorciada!”. Por isso estava naquele desconsolo.

Diogo levava ao colo o seu próprio filho, um bebé de 6 meses. Comovera-o aquele desespero de pai. E não hesitara. Instintivamente confiante, como se o gesto fosse absolutamente natural, deixara o bebé à guarda de Sancho enquanto subia para ir ter, também ele, com o seu pai. Quando voltara a buscá-lo, passado um bom bocado, o cigano ainda brincava com o bebé e ambos riam, satisfeitos.
publicado por Ana Vidal às 09:07
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