Ana Vidal
Detenho-me numa frase do livro Jesusalém - belíssima prosa poética de Mia Couto - que fica a tilintar-me nos ouvidos como um eco de sinos tibetanos:
Todo o silêncio é música em estado de gravidez
O livro está cheio de frases felizes, mas acho esta de uma clarividência própria de uma alma em estado de graça. Como o silêncio, afinal.
Ana Vidal
Há bastante tempo que não visitava o meu Statcounter, o que significa que tenho deixado sem resposta as lancinantes dúvidas dos que vêm parar a esta Porta em busca de conhecimentos vários (para todos os gostos, na verdade). Espero hoje redimir-me com estas achegas, atrasadas, é certo, mas com boa vontade. Dividi as dúvidas e perguntas por categorias, para demonstrar o meu interesse e verdadeira preocupação com os esclarecimentos. Espero ter sido útil. Até à próxima, inquietos leitores.
1. As íntimas
lembrança de aniversário de hímen patati patata
Muito me conta: agora os hímens também festejam o aniversário?? Sendo assim, dê os meus parabéns ao seu patati patata, que não só tem nome como tem um nome muito ternurento para quem tem uma vida tão curta. Uma lembrança de aniversário é que não tenho, que me apanhou desprevenida…
xtubefeminino
Ora aí está uma boa sugestão de presente para um hímen! Ou só de um nome para o dito, para os mais forretas.
traques nome químico
Ó meu amigo, parece-lhe bem vir para aqui com essa conversa? Enfim, vou reencaminhar a sua dúvida para o João Paulo Cardoso, que é quem mais percebe desse assunto na Porta do Vento… mas, pelo resultado final, eu diria que tem alguma coisa que ver com ácido sulfídrico.
reclamação eurosilicone
Nisso é que não posso ajudar mesmo. Aqui não aceitamos reclamações de europlastias, temos pena.
2. As emotivas
devolve me o laço meu amor
Mas se eu não te roubei laço nenhum, minha doçura…
belezas masculinas em Lisboa
Quando? Onde?… dá-me uma notícia dessas e depois não deixa morada nem data? Não se faz!
3. As culturais
musica de zé aperta o laço
Olhe que anda desactualizado… agora a música é mais “zé aperta o cinto”.
os misseraves o que vc entendeu do livro
Os misseraves não li, mas se se refere a Os Miseráveis, não vou cansar-me a explicar-lhe… você nem o título entendeu!
o quadro q dorian gay pintou
O Dorian Gay só pintou a manta, que eu saiba…
4. As policiais
mistério do truque teoria da muralha da china
Quem deve saber disso é o David Copperfield. Já experimentou perguntar-lhe?
padre joaquim matta na asseiceira, tomar
Livra! E quem mattou ele, os paroqquianos? Ainda bem que não sou de lá...
Ana Vidal

À FLOR DA PELE Toco, teço e entrelaço
Com dedos de descobrir
Lanço redes num abraço
À flor da pele me desfaço
Na vertigem de sentir
Tudo é matéria, se é tempo
De epidérmicas razões
Danço num sopro de vento
Rasga-me cada tormento
Gelam, queimam, emoções
E todavia, invisível Corre o rio do intangível Imperioso, indefinível
Eterno e primordial
Matriz de tudo, afinal
(Imagem: René Magritte)
Ana Vidal
Amar, amar perdidamente...
Desengane-se quem pensou que o discurso político em Portugal está esgotado. Bem sei que quase tudo já nos foi prometido e depois negado, bem sei que os programas e declarações de intenção não nos arrancam já mais do que um encolher de ombros enfastiado e descrente, bem sei que um irreprimível bocejo é a nossa resposta mais frequente à previsibilidade dos debates eleitorais.
Mas... atenção, muita atenção: a zona onde vivo acordou um dia destes com uma ideia nova, fresca, inesperada, brilhante. Há uma sorridente senhora do PS que promete ensinar-nos a... AMAR! Isso mesmo, leram bem. A nova Florbela não explicou ainda como pretende fazê-lo, é certo. Ficamos sem saber se vai fundar uma nova seita religiosa, abrir um bar de alterne, uma sex shop ou um motel de estrada (já há alguns por aqui, e por sinal o outdoor que apregoa as maravilhas de um deles está a poucos metros de um dos cartazes da criativa candidata do PS) ou se irá ministrar cursos práticos de kamasutra aplicado, mas alguma ideia estará por detrás daquele sorriso confiante. O penteado, a idade, a pose, a roupa, apontam para uma solução respeitável. Mas o sorriso é maroto e há ali um dentinho desalinhado que me deixa inquieta. O que será que vai na cabeça de Leonor Coutinho? Como será que ela nos quer pôr a amar melhor do que até aqui? E porque achará a senhora que em Cascais se ama pouco, ou mal? Tenho pena de já não votar em Cascais. Juro que lhe daria o meu voto, só para ver este enigma resolvido.
(Agora a sério: será possível que ninguém se tenha apercebido de que este slogan perde completamente o efeito de trocadilho quando passa da expressão oral à escrita? Se a ideia era sugerir que o concelho de Cascais, pela mão do PS, vai "saber a mar" por mais cuidados com o ambiente, menor poluição, melhor qualidade de vida, sei lá... a verdade é que, da mensagem, fica só o ridículo de uma promessa que mais parece saída de um pastor da IURD, para não dizer pior. Entretanto, Capucho agradece e dorme mais descansado.)
Também no Delito de Opinião
Ana Vidal

GEOMETRIA DESCRITIVA
(Espiral: subs. fem. - linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas sucessivas em torno de um pólo e do qual se vai afastando progressivamente)
Há no sábio desenho dos teus braços
promessas de equiláteros abraços
triangulando em sugestão discreta
Catetos de perfeita geometria
a pedir-me que os una, na harmonia
daquela hipotenusa que os completa
Pouso o olhar exausto de alvoroço
na linha que define o teu pescoço
em caprichos de luz que me seduzem
e sigo-a até perder-se, sem defeito
na secreta penumbra do teu peito
onde todas as linhas me conduzem
E já rendida à estranha convergência
dispo a espiral que fui na tua ausência
e todo o meu cansaço se desfaz
No ângulo feliz do teu abraço
corro a acolher-me, enfim, fechando o espaço
À nossa volta, um círculo de paz.
(Imagem: O Abraço, de Klimt)
Aviso: Por lapso de programação, esta semana
o Pocket Classic sairá amanhã, 4a feira.
Ana Vidal

Deixa-te de porquês. O quando, o onde
e o como?… Não mais que literatura!
Despe de vez o medo que se esconde
entre as frias cambraias da lisura.
Ou então não fales de paixão.
Chama-lhe, se quiseres, melancolia.
Que jamais o tropel de um coração
bate ao compasso da diplomacia.
Que sabes tu das ávidas razões
que a razão desconhece? Da contenda
que nem sempre se trava nos salões
e quase nunca tem punhos de renda?
Não aprendeste nada sobre gente?
E Shakespeare, e Mozart, e Fellini?
Alguém te sonha chocolate quente,
enquanto deitas gelo no martini!
(Imagem: René Magritte)
Ana Vidal

Cinzas
Foram-se os dias mais iluminados
as breves bebedeiras, os rastilhos
os projectos de livros e de filhos
ou de altos pinheiros nunca plantados
Esgotou-se o tempo no olhar mortiço
antes bravio, livre, amotinado
e do frémito ardente do passado
ficaram só as cinzas. Foi-se o viço
do antigo sorriso. E a palavra
solta e rebelde, hoje é tão comum
como o suspiro que entre rugas lavra
E por fim, cruel como nenhum
o último vigor que a alentava:
foram-se os ódios todos, um a um.
Ana Vidal
Nibelle et Baudouin (não sei se o nome é verdadeiro, mas esse pormenor não interessa muito para o caso) é uma antiquária francesa que fez um blogue na Blogspot, tal como milhões de outros utilizadores. Chamou-lhe Femme, Femme, Femme, povoou-o de obras de arte e de boa música clássica - tudo de um bom gosto absolutamente inatacável - e definiu-o (aproveitando para definir-se também) com estas palavras:
"Consultant en antiquités et passionné d'arts. J'ai en particulier choisi de mettre en lumière les peintres connus et moins connus ainsi que d'autres artistes dans un registre inhabituel qui est la femme. Qu'on ne s'y trompe pas! Ce blog, qui s'adresse aux amateurs d'arts, a pour usage de servir de guide simple pour vous orienter vers d'autres liens afin d'enrichir votre connaissance sur les oeuvres des artistes cités."
Acontece que houve alguém que - por puro moralismo saloio ou por uma qualquer vingança pessoal - "denunciou" o blogue como tendo conteúdos menos próprios, certamente os quadros de nu integral. Esta ferramenta da Blogspot permite a qualquer pessoa classificar um blogue e fazer com que ele fique codificado, com um bem visível Aviso sobre conteúdos que diz, entre outras coisas: Alguns dos leitores deste blogue contactaram o Google porque acham que o conteúdo do mesmo é reprovável. Depois de ler o aviso, somos convidados a escolher um de dois caminhos sugeridos: Compreendo e pretendo continuar ou Não pretendo continuar. Imagino que muitos eventuais leitores não seguirão em frente, desinteressados ou temendo o choque.
Nibelle et Baudouin reclamou para a Blogspot, indignada. Com toda a razão. Mas não teve sorte nenhuma: depois de várias tentativas, todas frustradas, viu-se obrigada a emigrar para outra plataforma (a Wordpress, no caso) e levou consigo o seu excelente blogue. Está agora neste endereço, onde continua a deliciar os seus leitores com obras de arte e boa música.
Tudo isto para dar-vos conta de um caso de claro abuso de um poder perverso, ao alcance de todos: o de interferir na vida de desconhecidos, incomodando e criando problemas, por pura maldade ou estreiteza de horizontes. A blogosfera é um mundo virtual, mas feito de e por gente real. E a gente real comporta-se aqui como em qualquer outro lado: com os seus defeitos e qualidades, com a sua grandeza e a sua mesquinhez. Sem que isso lhe traga grandes consequências, alguém mal intencionado pode meter-se em casa alheia e alterar as regras do jogo. É fácil, é barato e dá (presumo) milhões de pérfido prazer.
Ana Vidal

Civilização
Hoje acordámos algures entre o Tigre e o Eufrates, e do mais alto zigurate contemplámos o mundo. Deixámo-nos cobrir de ouro e pedrarias e, com as asas de Enlil, voámos sobre Ur como pássaros deslumbrados. Eu dei-te o sagrado nome de Dumuzi e tu chamaste-me Inanna, tua rainha. E descobrimos em nós o mar primordial, os ancestrais tesouros que tínhamos guardados, sem o sabermos, na montanha cósmica da nossa memória. Hoje fomos inspirados Hammurabis, bordando palavras novas em pedra, para que nunca mais as esqueçamos e os vindouros saibam, um dia, que as proferimos. Hoje selámos promessas com licores e tâmaras tão doces como as nossas bocas recém-despertas. E depois esculpimo-nos em pedra negra com mãos aventureiras e livres, nessa pedra tão misteriosa como a origem do Tempo, sombreando a nácar e a lápiz-lazuli o brilho fascinado dos nossos olhos. Por fim, coroámo-nos imperadores do Sonho, porque os astros nos disseram que só ele persiste e permanece, mesmo quando tudo o mais se desfaz em ruínas.
Hoje inventámos uma civilização. A nossa.
(Imagem: René Magritte - L'art de la conversation)
Ana Vidal
Matriz
Nascem predestinadas, portadoras de um gene que as domina toda a vida: o do embalo. Por isso têm macia e lisa a pele dos braços e do colo, quente aconchego que cedo aprendem a oferecer. Embalam bonecas e bichos, mães extremosas de palmo e meio, que afinam gestos futuros e marcam territórios de conforto e protecção. Embalam irmãos, primos e companheiros de brincadeiras, quando lhes secam, com beijos e sorrisos, as lágrimas de uma injustiça ou de um desaire. Embalam sonhos românticos, adolescendo na certeza de que haverá um mundo perfeito à sua espera, feito de perfeitas metades que se unirão por artes de magia. E quando o mundo se lhes revela sem máscaras, embalam a desilusão e seguem em frente. Embalam os seus homens, uma vida inteira - frágeis botes enfrentando intempéries - e fazem-se portos seguros, acolhendo exauridos náufragos ou heróis vitoriosos, esquecidas das suas próprias viagens. Embalam os filhos, ai, como embalam os filhos, para sempre! Embalam amigas, patrões, colegas e vizinhos, a menina da caixa do supermercado, a manicura ou o merceeiro viúvo que mal conhecem, só porque estão com ar de quem precisa de desabafar. Embalam netos e, neles, de novo os filhos, retomando um ciclo nunca quebrado, nunca traído. Embalam, finalmente, todos os amores vividos, as promessas antigas, os planos adiados, juntam-lhes memórias de tempos felizes e de tudo fazem uma manta quente, com que agasalham os dias de solidão. Embalam saudades. Embalam a vida. Embalam o mundo.
Todas as mulheres são mães. Mesmo as que nunca o foram. Mesmo as que nunca o serão.
(para a minha mãe, que há exactamente dois anos se cansou de embalar o mundo inteiro)