Domingo, 20 de Julho de 2008

In other words

 

Encerro aqui a série de posts voadores, com a melhor de todas as formas de voar: a que não precisa de veículos.

 

In other words...

 

(Imagem: Marc Chagall - The Promenade) 

 

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publicado por Ana Vidal às 14:29
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

100º Aniversário

Além do 120º aniversário de Pessoa, hoje é também o 100º aniversário da pintora Vieira da Silva. Dia Grande, hoje.

 

 

 

 

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publicado por Ana Vidal às 14:04
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Amigos de talento - III

 

O talento do meu amigo Luís Leal não se explica nem se descreve: mostra-se. É o que tento fazer aqui, com alguns exemplos (tão poucos, para o que eu gostaria!) do seu fantástico trabalho. O Luís é pintor, ilustrador e caricaturista, e ainda domina com mestria a tecnologia de ponta das artes gráficas. Já fizemos dois livros juntos e foi um prazer trabalhar com ele.

 


  

 

Como artista plástico está a ganhar relevo a um ritmo imparável, o que não pode deixar-me mais feliz, já que sempre o incentivei a mostrar ao mundo a sua arte. O traço é fluido, cheio de força e personalidade, e nunca monótono. Como experimentalista que é, tem obras que vão das grandes telas pintadas a acrílico até às miniaturas em tinta da china sobre papel. Todos eles - mas todos, mesmo - de qualidade superior.

 

 


Tenho dois quadros dele em casa e não me canso de olhá-los, porque lhes descubro sempre alguma coisa de novo. Uma visita ao atelier do Luís é uma garantida viagem ao prazer dos sentidos e à descoberta de novas emoções. E ele recebe toda a gente com simpatia e afabilidade, além do genuíno prazer de conduzir-nos através dos labirintos da sua fecunda imaginação. Já expôs em galerias nacionais e estrangeiras, e esteve este ano representado na prestigiada ARCO, em Madrid. Se se deixarem apaixonar por um dos seus desenhos ou telas, tratem de adquiri-lo já. Daqui a pouco tempo, tenho a certeza, já não será para todas as bolsas...

 

 

 

(Clicar nas imagens para aumentá-las. Na última estão os contactos para uma visita ao atelier do Luís Leal, em Lisboa.  Verão que vale bem a pena. )

 

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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Duplicidade

 

SABERÁS que não te amo e que te amo

posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Quem mais para dizê-lo assim tão bem, se não o grande Neruda?

(Pablo Neruda, in Cem Sonetos de Amor.
Tradução de Carlos Nejar
Imagem - Daphne, de Teresa Cálem)
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Primavera Poética

Deixei passar em branco o Dia da Poesia (deste até gosto, apesar de achar que todos o são igualmente) e o dia da chegada da Primavera. Tudo é recuperável, sobretudo as comemorações, seja lá do que for. Aqui se recordam ambos, hoje, porque tudo é quando um homem quiser. Ou uma mulher, neste caso.


FLORES

Era preciso agradecer às flores
terem guardado em si,
límpida e pura,
aquela promessa antiga
duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner

(Nota: Um dos meus pintores preferidos e uma poeta que adoro, escolhas de sempre. A repetição de Sophia em dois posts seguidos diz bem da minha preferência).

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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

DEUS

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

(Fernando Pessoa)


(Imagem - Salvador Dali)



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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

A eterna inocência


Quem ama nunca sabe o que ama,
nem sabe porque ama,
nem o que é amar.
Amar é a eterna inocência,
e a única inocência é não pensar.
Alberto Caeiro
(Imagem: "Os Amantes" de René Magritte)
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Under my skin


(M.C. Escher)



(I've got you under my skin - Michael Bublé)
Don't you know, you fool,
you never can win?
Use your mentality,
wake up to reality.
B
ut each time I do,
just a thought of you
makes me stop, before I begin.
'Cause I've got you under my skin...

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

90 anos de cor



Mestre Júlio Resende faz hoje 90 anos. A comemorar a data, uma exposição antológica da sua obra, na cidade onde nasceu e aprendeu primeiro o seu métier: o Porto. No antigo edifício da Alfândega do Porto, um bonito espaço recuperado e muito bem aproveitado hoje em dia, 200 obras representativas da arte do pintor poderão ser visitadas e apreciadas por todos.
Nota: Aqui, um dos painéis de azulejos da estação de Metropolitano do Jardim Zoológico e um pastel de Júlio Resende.
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

Um mundo perfeito


Acabei agora mesmo de chegar do Algarve, depois de dois dias no paraíso: um sol magnífico de despedida de Verão, uma casa de sonho, amigos maravilhosos e, last but not least, a inauguração de uma exposição de aguarelas de uma originalidade espantosa, num espaço superior que também é obrigatório conhecer - a Galeria São Lourenço. É um programa que recomendo a todos, uma visita a esta exposição da pintora Teresa Calem, artista de alto nível (e também uma anfitriã incomparável).

São caras (muitas delas de grandes dimensões), que nos olham directamente nos olhos, inquiridoras e inquietantes, numa espécie de despedida muda. O tema desta exposição é a figura da mitologia grega Daphne* - embora, a mim, estas figuras frágeis e etéreas sugiram muito mais o imaginário e o universo da mitologia celta - e a sua transformação de ser humano em árvore, no momento exacto em que tem consciência dessa metamorfose. É como um desfile de seres, ao mesmo tempo comuns e míticos, que nos anunciam um tempo futuro: um mundo povoado por uma humanidade muito mais perfeita e em comunhão com a natureza, como o foi já, nos primórdios. É uma despedida, mas também a promessa de uma nova era.

A pureza luminosa, a perfeição das formas e a excelência da técnica de Teresa Calem valem bem, garanto-vos, uma viagem ao Algarve. Estas aguarelas vão ficar expostas até ao final de Novembro, e o único risco de decepção é o de chegar lá e já estarem todas vendidas (grande parte delas foi vendida no dia da inauguração).
Por tanta beleza e tanto carinho num só fim de semana, obrigada, Teresa!
*Nota - Na mitologia grega, Daphne (do grego Δάφνη, que significa "loureiro") era uma ninfa, filha do rei Peneu. Apolo foi induzido a apaixonar-se por ela, por uma flecha de Eros. Mas este acertou em Daphne com uma flecha de chumbo, o que fez a ninfa rejeitar o amor de Apolo, que começou a persegui-la. Cansada de fugir, pediu ao pai que a livrasse daquela difícil situação. Ele, então, transformou-a em loureiro. Apolo, inconsolável, disse: "Se não podes ser a minha mulher, serás a minha árvore sagrada". A partir de então, o deus passou a trazer sempre consigo um ramo de louros.
publicado por Ana Vidal às 20:30
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

As feridas de Frida


As feridas de Frida Khalo foram muitas, e quase todas tiveram nome de mulher.

Diego Rivera, o homem a quem ela chamava carinhosamente de "panzón" por causa do volume da sua barriga, tinha, além disso, idade para ser seu pai e era "feo como un cerdo", nas palavras de uma amiga de Frida.
Pelo seu lado, Frida era uma mulher-menina, fisicamente frágil (quanto a força interior, a conversa é outra) e doente, um vidrinho colorido e exótico que Diego gostava de exibir.

Porém, nada disso impediu que se tivessem amado loucamente e que esse amor, aparentemente tão desequilibrado, se tenha já tornado lendário. É claro que, visto à distância e a frio, tudo parece mais romântico. A verdade é que Frida sofreu muito, também, por causa desse amor. E, se acabou por transformar-se numa excêntrica para a sociedade mexicana ao liberalizar, também ela, as suas relações amorosas, foi porque nunca conseguiu que Diego correspondesse ao modelo que ela queria para a sua vida afectiva. Foi ele o seu mentor no mundo da arte, mas foi também ele que moldou nela a provocação e a révanche, que a perverteu e obrigou a reagir assim, como uma fera ferida que mostra as garras para se defender e acaba atacando também.
Diego Rivera era um homem torturado e conflituoso, dado a excessos e, sobretudo, muitíssimo mulherengo. Como artista plástico era um ícone já na sua época, aclamado e respeitado internacionalmente, o que acrescentava uma aura de mito ao charme rude que o caracterizava. Essa combinação produzia um efeito mágico no universo feminino e anulava totalmente o seu desastrado aspecto exterior. Dizia-se dele, não com certeza sem um certo exagero, que era magnético. O rol de mulheres que lhe caíu aos pés - antes, durante e depois do casamento com Frida - foi quase infindável, e essa fama era um rastilho poderoso que incendiava as novas candidatas.
Para além das insuportáveis dores físicas que a fatalidade lhe causou* (provocando-lhe ainda a impossibilidade de ser mãe, como dano colateral), Ferida sofreu incontáveis humilhações com as infidelidades de Diego, as quais, aliás, culminaram na mais dolorosa de todas: um caso com a sua própria irmã, dentro de portas. Esse drama quase a levou ao suicídio, e fez com que cortasse o cabelo (uma das suas imagens de marca, em penteados elaborados), se desfizesse de todos os enfeites e até que se vestisse de homem, matando impiedosamente toda a sua feminilidade e exuberância transbordantes.
Mas Frida era também uma artista: exorcizou todas as dores na pintura, deixando para a posteridade, nos seus quadros, um retrato arrepiante do seu sofrimento. E também da sua coragem.
Aqui fica a minha homenagem a essa grande mulher, que morreu mais ou menos com a idade que eu tenho agora. Admiro, nela, a obra e a vida, ambas de uma originalidade espantosa. Aqui, também, alguns dos seus quadros, testemunhos bem mais elucidativos do que quaisquer palavras.
Acrescento, à minha, outra homenagem: a de Pedro Guerra (cantautor pouco conhecido aqui no burgo), que escreveu em honra de Frida Khalo a canção "El Elefante y la Paloma" - letra e música de sua autoria - cuja letra, baseada num texto da própria Frida, aqui transcrevo:
EL ELEFANTE Y LA PALOMA

A Frida le duelen los huesos
y mirándose al espejo
pinta todo su dolor
A Frida le duele la vida
y apriendendo de su herida
llena todo de color

Diego mi Diego, Diego mi amor
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...

Frida miró al Elefante
y empezó a desdibujarse
pero nada le importó
Diego miró a la Paloma
y la amó entre tantas cosas
entre el lienzo y la pasión


Diego mi niño, Diego pintor
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...


Frida descansa en el lecho
y se pinta hasta en el pecho
con tal de sobrevivir

Diego mi amigo, Diego = Yo
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...

*Vítima de poliomielite infantil, aos 6 anos, ficou com a perna direita defeituosa, mais delgada e curta que a perna esquerda; aliás, essa perna acabaria por ser amputada. Aos 18 anos, foi vítima de um acidente brutal: o autocarro onde viajava foi abalroado por um eléctrico. Frida foi trespassada por um varão metálico, sofrendo danos irreversíveis na coluna vertebral. Em inúmeros dos seus quadros se podem ver os rígidos aparelhos ortopédicos que usou para sustentar a coluna partida, que eram autênticos instrumentos de tortura.

Adendas:
1. Uma bela sugestão da Ana L. Costa, este video de Chavela Vargas, cantando Llorona, com imagens do filme Frida (com Salma Hayek):

2. E também uma entrevista com Lila Downs (cuja semelhança física com Frida é impressionante), que canta várias canções populares no filme. Entre elas, o picante tango que ajudou a torná-lo famoso.

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Paula Rego em Madrid


Notícia de hoje, aqui.
Começo por dizer que não queria um quadro da Paula Rego em minha casa. Aquele imaginário de infância maldita perturba-me, inquieta-me, enfim, faz-me mal. Se tivesse um original de Paula Rego (e quem me dera tê-lo...) vendia-o logo e comprava alguma outra coisa que tivesse mais a ver comigo. Um dos belos tigres do Pomar, por exemplo. Ou um pequeno (pequeníssimo, por causa do preço) quadrito do Amadeo.
Mas isso é o meu gosto, pessoal e discutível. Paula Rego é uma pintora de cotação internacional, sagrada na Tate e exposta em muitos outros museus e galerias de arte, por todo o mundo. Tem uma técnica que ninguém se atreve a questionar, passou o crivo dos críticos mais exigentes e o seu estilo é absolutamente original.
Por isso lastimo que a exposição retrospectiva de toda a sua obra aconteça em Madrid, não por escolha da pintora, mas por falta de um local com dimensão apropriada, em Portugal, para acolhê-la. E porquê? Não teremos um sítio condigno, em Lisboa, com perfil e logística para uma exposição desta envergadura? Temos, sim: o Centro Cultural de Belém. Mas acontece que o espaço foi monopolizado integralmente e em permanência pela Colecção Berardo, nos próximos 10 anos. Assim, lá vai Paula Rego ficar "por baixo do Picasso, em todos os sentidos menos um", como ela explicou com alguma graça e justificada vaidade. Pois é...
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publicado por Ana Vidal às 12:53
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Van Gogh




Con tus orejas en las manos
voy enseñandole a Van Gogh
como mejora el resultado
quando lo hacen dos.
Siempre los cariñitos
me han parecido una mariconez
e ahora hablo contigo en diminutivo
con nombres de pastel...
(Mecano - Quedate en Madrid)
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publicado por Ana Vidal às 03:43
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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Última ceia

O que tem de tão mágico esta pintura de Leonardo, para fazer correr rios de tinta e inspirar tantas interpretações ? Aceitam-se sugestões para o mistério.

(Clique nas imagens para ampliá-las)
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publicado por Ana Vidal às 22:46
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Memória


Foi há 6 anos. O mundo mudou nesse dia, e nunca mais o Ocidente se julgou a salvo. É bom que não esqueçamos. É bom que não pensemos nunca mais que estas coisas só acontecem aos outros, lá onde estes cenários nos pareciam tão naturais como se assistíssemos a um filme.
Pinturas de Helga-Krakolinig, sob o título "Nine Eleven"
publicado por Ana Vidal às 22:48
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Sábado, 8 de Setembro de 2007

E.un.genio Salvador Dali

Dali se desdibuja

tirita su burbuja al descontar latidos

Dali se decolora

porque esta lavadora no distingue tejidos

el se da cuenta y asustado se lamenta

los genios no deben morir

son mas de ochenta los que curvan tu osamenta

"Eungenio" Salvador Dali.

Bigote rocococo

de donde acaba el genio a donde empieza el loco

mirada deslumbrada

de donde acaba el loco a donde empieza el nada

en tu cabeza se comprime la belleza

como si fuese una olla expres

y es el vapor que va saliendo por la testa

magica luz en Cadaqués.

Si te reencarnas en cosa

hazlo en lapiz o en pincel

y Gala de piel sedosa

que lo haga en lienzo o en papel

si te reencarnas en carne

vuelve a reencarnarte en ti

que andamos justos de genios

"Eungenio" Salvador Dali.

Realista y surrealista

con luz de impresionista y trazo impresionante

delirio colorista

colirio y oculista de ojos delirantes

en tu paleta mezclas misticos ascetas

con baionetas y con tetas

y en tu cerebro Gala Dios y las pesetas

buen catalan anacoreta.

Si te reencarnas en cosa

hazlo en lapiz o en pincel

Y Gala de piel sedosa

que lo haga en lienzo o en papel

si te reencarnas en carne

vuelve a reencarnarte en ti

que andamos justos de genios

queremos que estes aqui

"Eungenio" Salvador Dali.

Nota: Esta canção - E.un.genio Salvador Dali - do grupo espanhol Mecano, é uma bonita homenagem a um pintor que é uma das minhas paixões. Reparem na letra, um poema belo e certeiro. Os Mecano têm outras músicas dedicadas a pintores célebres, que hei-de trazer também a este espaço.

publicado por Ana Vidal às 16:28
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Domingo, 19 de Agosto de 2007

The woman in red

Um quadro e suas versões ao passado
Quando Teófilo abriu o estabelecimento, lá estava, por baixo da porta, uma gravura. Quem a botara ali? Recuou-se ele, desde a infância, àquelas professorinhas a quem os meninos de então, ele também, chamavam "fessora". Não. Não era.
— Apenas uma foto de currículo, senhor. O vento. Quem sabe, algum retrato que vazou do cesto — disse a auxiliar das pastas.
O vento. Isto mesmo! O que fazem as empresas com os currículos que lhes chegam aos montes? Afinal, não se sabe de alguém que tenha tomado currículo de volta. As cartas, as fotos, sim. Mas não era uma foto. Nem carta. Um quadro, com aparência de coisa fina: oil on canvas — e, no verso, ilegíveis os nomes, do quadro e do autor.
— Não é fotografia! — disse Teófilo.
A secretária deu o dito pelo não dito. Bem que o assunto poderia ter morrido ali mesmo. Contam que Teófilo pegou a gravura e, cuidadosamente guardou-a. Contam que ele, todos os dias, colocava-a sobre uma mesa imensa, de tampo de vidro, e botava-lhe lupa. Examinava-a repetidamente. Quando entendia que o tamanho estava bom, retocava-a em vermelhos, tudo a partir de um lápis de cor, desses de marcar CD's, que ele antes utilizava para avivar os rótulos do estabelecimento. Pior, mal chegava um freguês, lá estava ele a indagar se conhecia aquela jovem. Muitos, de tão repetidos os interrogatórios, antecipavam-se e, antes mesmo de regatear preços, esclareciam que não.
— Bem que o amigo poderia tê-la visto na quermesse... não?!
Na quermesse! Como se as jovens de hoje fossem à quermesse. Não; ninguém sabia. Não fora encontrada. Outros garantem que o retrato nada teria de misterioso e muito menos a ver com um suposto vendaval, mesmo porque o vento, ali, as janelas fechadas, seria nenhum.
Teria sido assim, de uma outra versão: Teófilo, um dia restaurou um sonho e rascunhou-o no ar. Aliás, “riscou-o” em cima da perna, mal acordara. Correu com toda pressa para o estabelecimento, botou o sonho em papel e remeteu-o, mediante gorda retribuição, a uma sociedade de pintores. Até abriu concurso. Deu instruções, assim e assado. Quando chegou o quadro, um amigo objetou que não havia, naquela pintura, nenhuma referência sobre a parte de baixo. Realmente, olhando-o, não dá para garantir que a jovem tenha algo abaixo cintura. «Claro que deve ter!», dizia ele ao amigo. Realmente, não existe pessoa só do peito para cima. E o resto? Como haveria de ser o resto?
Contam que Teófilo, do alto de suas muitas exigências, não teria reclamado da equipe de pintores, mesmo porque as indicações do sonho a nada mais abrangiam que as partes superiores, tal como está. Dizem que Teófilo padecia do medo pânico de exigir algo a mais, digamos, um novo quadro, de corpo inteiro, pois lhe assaltava o terror de jamais “encontrá-la” se acaso aparecesse nesse novo formato, dos pés à cabeça. Afinal, no sonho, era-lhe somente aquela parte, a de cima. Mostrava-se ela também de lado, mas nem tanto. Sim, a outra manga da blusa, onde estaria a outra manga? Não dá para ver — os cabelos são-lhe longos e espessos. Muito estranho, não?!
Até que um belo dia, um caixeiro viajante deu notícia de um pintor, um certo Allan R. Banks, norte-americano, nascido em 1948. O quadro? Justo aquele da gravura: Hanna. Nada a ver, portanto, com o sonho, aliás, com o pesadelo de Teófilo. O problema é que ninguém acreditou.
Leitor, por obséquio, não me pergunte sobre desfecho. Isto pertence ao passado, algo totalmente inacessível até mesmo aos senhores historiadores. De fato, se dois historiadores se encontram, igual aos críticos de Literatura, desentendem-se imediatamente. O que, pois, dizer dos muitos boateiros que balanceavam dia e noite a vida de Teófilo e seu quadro misterioso?! Sobre o futuro, não! Isto é assunto calmo, o futuro. Todos nós sabemo-lo. Experimente colocar qualquer pergunta no modo “acontecerá”, e a resposta será imediata. Por isto mesmo é que os feiticeiros e adivinhos estão todos desempregados. Inclusive Teófilo.

(Soares Feitosa, in Jornal de Poesia)
Nota: Porque alguém disse que esta woman in red se parece comigo, mas sobretudo porque este conto do meu amigo Feitosa é muito bom, aqui fica a homenagem ao incansável mentor do Jornal de Poesia)
publicado por Ana Vidal às 17:17
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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Vincent Meireles


ENCOMENDA


Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles
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Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Aula de desenho

AULA DE DESENHO

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face
a régua e compasso: É falsa.
Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato.
Evoco o abstrato.
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: Na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz,
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.

Maria Esther Maciel
Nota: Desenho de M.C.Escher - Drawing hands (1948)
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publicado por Ana Vidal às 09:07
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Sábado, 2 de Junho de 2007

Espelhos


Chega de política.
O assunto é desinteressante, embora haja quem consiga transformá-lo quase em música.
Mas não eu.
Para afugentar a nossa triste realidade, deixo-vos mais um poema.
Desta vez, ainda fresquinho: acabado de sair no novíssimo livro Ante-sala, de uma grande poeta brasileira, uma amiga que muito prezo e admiro:
Astrid Cabral, aqui muito bem acompanhada por mais um dos meus pintores favoritos: René Magritte.

CONHECER-SE

A gente se despe
em frente a espelhos
e ousa enfrentar-se.

Porém, não há mesmo como ver-se,

blindada a alma
e as costas inalcançáveis.

Somos opacos.
Translúcidos, apenas a radiografias.
Contudo, resta a ânsia
de bem nítido nos vermos,
na dimensão do real.
Mas, por mais que nos olhemos,
o eclipse é sempre total.

Astrid Cabral, in Ante-sala

Nota:
Finalmente descobri como revelar as fontes das imagens publicadas neste blog. E pronto: o seu a seu dono.
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publicado por Ana Vidal às 18:28
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brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

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100º Aniversário

Amigos de talento - III

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DEUS

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