Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Blind dates?

 

 

Discutia-se há dias, no blogue da Cristina Ribeiro, as vantagens e desvantagens da net como veículo de conhecimento e aproximação das pessoas. Houve quem defendesse que o contacto virtual nunca poderá comparar-se ao real (e muito menos substituí-lo) porque no primeiro falta a expressão do olhar, o toque, o cheiro, etc. Tudo isso me parece inegável, e penso que todos estaremos de acordo quanto a essas lacunas. Há também as perversões e embustes de toda a ordem, que podem facilmente fazer vítimas entre os mais crédulos e indefesos utilizadores da rede. Todos os dias somos confrontados com notícias alarmantes, que nos dão conta da utilização abusiva deste meio para os mais tenebrosos fins.

 

Mas há também, como em quase tudo na vida, o outro lado da moeda: a net pode preencher solidões inapeláveis; aproximar gente com afinidades óbvias que nunca se conheceria de outro modo (até por razões geográficas); criar sólidas amizades e até fazer nascer amores, tão duráveis como quaisquer outros. Lembro-me de ter sugerido, nessa mesma discussão, que uma das vantagens deste modo de nos comunicarmos é precisamente a de anular as barreiras do físico. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, isto pode ser bom, porque não inferioriza ninguém e dá, a todos, iguais oportunidades. Disse-o de forma intuitiva, sem pensar muito no assunto. Mas ontem tive a prova cabal de que essa ausência de visualização nos contactos via net dá, aos mais desfavorecidos fisicamente, enormes benefícios. Enquanto esperava a minha vez numa fila interminável para um guichet, ouvi esta curiosa conversa à minha frente:

 

- Então… mas você casou-se??? (o espanto não disfarçado vinha de uma vamp oxigenada, “vestida para matar” às nove e meia da manhã. Os homens presentes olhavam-na de alto a baixo, agradecidos por aquela boa surpresa num sítio de tédio inescapável).

 

- Pois casei… e nunca pensei ser tão feliz! (respondeu-lhe uma gorda anormalmente baixa, quase anã, feiota e desengonçada. O contraste entre as duas era flagrante, e eu apostaria a cabeça em que nenhum homem ali tinha, sequer, dado pela presença dela).

 

- Mas onde é que conheceu o seu marido? (a tradução literal para a pergunta era óbvia: “mas como é que alguém te pegou?”).

 

- Olhe… foi na net! Namorámos durante muito tempo só por mail e no msn, depois pelo telefone. E eu nunca lhe mandei uma fotografia, tinha medo de que ele nunca mais me ligasse. Mas ele tanto insistiu que eu lá ganhei coragem e, finalmente, ao fim de três meses combinámos um encontro. E foi um sonho… ele disse que eu era a mulher da vida dele! Mas assim, quando ele me viu já sabia como eu era por dentro e já estava apaixonado por aquilo que eu sou, por isso já não ligou às aparências… veja lá que ele até acha que eu sou bonita!!

 

- E ele, é bonito? (a pergunta não tinha nada de inocente. Nos olhos da outra lia-se um misto de inveja e sarcasmo, como se tudo o que quisesse fosse confirmar que “ao menos não se estragaram duas casas”).

 

- Ele? É lindo!!! Bem… você se calhar não achava, mas… para mim, é!

 

publicado por Ana Vidal às 13:10
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