Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

B-A BA russo

 

 

A Rosa, já o disse por aí, está há tantos anos connosco que faz parte da família. Veio um dia para casa das "tias" - já lá vão mais de setenta anos - para brincar com o meu pai, e nunca mais se foi embora. Pelo caminho, criou-nos a todos (a mim e aos meus irmãos) e depois aos nossos filhos. Com um bocadinho de sorte, e todos nós gostaríamos que isso acontecesse, ainda há-de conhecer os nossos netos. A Rosa é do tempo em que havia "criadas" e não "empregadas", palavra que significa, literalmente, alguém que era criado numa casa, juntamente com as crianças dessa casa. Não era um emprego, era uma vida.

 

Quando as minhas tias a levaram para casa, a Rosa era uma de sete irmãos muito brancos, muito loiros e muito, muito pobres. Tinham ascendência alemã, o que, numa terra ribatejana de peles tisnadas, bigodes e patilhas tão negros como os toiros da lezíria, era uma absoluta extravagância. Por isso eram conhecidos como "os russos", um bando de aves raras entregue a si próprio, porque os pais se matavam a trabalhar para criá-los com o mínimo dos mínimos e não sobrava nem um segundo para olhar por eles.  É claro que a Rosa, tal como os irmãos, fugia da escola porque tinha coisas muito mais interessantes para fazer, como apanhar fruta das árvores ou correr atrás dos gatos da vizinhança. Eu teria feito o mesmo, se pudesse.

 

Nunca quis aprender a ler, nunca se interessou pelo assunto. Três gerações consecutivas o tentaram aplicadamente, mas o máximo que conseguimos foi que ela aprendesse a escrever o próprio nome e a juntar algumas letras de imprensa, garrafais, em palavras simples. Só há pouco tempo, e por via da culinária, se convenceu a treinar um pouco mais a leitura. Muito a custo, e só porque é uma cozinheira de mão cheia e gosta de experimentar receitas novas, nem sempre tendo à mão quem lhas leia nos livros de cozinha. É engraçado ouvi-la ler as receitas, soletrando cada sílaba até fazer sentido no conjunto, numa operação que pode demorar vários minutos por palavra. Apanha, às vezes, um daqueles panfletos publicitários que aparecem na caixa do correio e põe-se a ler alto, sí-la-ba a sí-la-ba, até ficar cansada ou um de nós desatar a rir.

 

Além de cozinhar e passar a ferro como ninguém, a Rosa faz rendas. Das suas mãos já saíram quilómetros de verdadeiras filigranas de linha Âncora número 60 (finíssima!), com os desenhos mais imaginativos e intrincados. Um destes dias perguntei-lhe que renda estava a fazer agora. Foi buscar o saco, para me mostrar. No meio das linhas e agulhas vi um livro, e fiquei curiosa: nunca tinha visto tal coisa nas mãos dela. Escondeu-o no bolso do avental e disse-me, corada, que andava a treinar a leitura às escondidas e que aquele livro era fininho, por isso não a assustava. Tinha-o apanhado lá por casa, ninguém estava a lê-lo e ela não queria que se soubesse. E já tinha lido uma parte: em três pinceladas cómicas contou-me uma história, mais ou menos confusa, até ao ponto a que chegara. Não tinha passado ainda das primeiras páginas mas estava entusiasmada.

 

Fiquei impressionada. Fiz-lhe ver a importância daquilo, enquanto ela se ria da minha solenidade: “Rosa, é o teu primeiro livro, isto tem de ser comemorado!” E obriguei-a a mostrar-me o livrinho, o que demorou algum tempo. Quando finalmente o tive nas mãos, abri a boca de espanto: a Rosa, sem ninguém saber (nem ela própria…), fez jus à alcunha de infância e estreou-se... com um conto de Tchékov!

 

(Nota: Também no Pastéis de Nada)

 

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publicado por Ana Vidal às 23:56
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Domingo, 27 de Julho de 2008

Feira de Velharias (10)

Nos últimos dias tenho-me lembrado muito da minha Mãe, mais ainda do que é habitual. Por isso me apeteceu republicar este texto que escrevi no dia em que fiquei sem ela.
 
 
 
Mãe
 
É sabido que, quando morremos, todos nos transformamos em boas pessoas. Há um certo estatuto de superioridade no mistério da morte, que lança um véu dourado de temor e respeito nos que ficam e os faz mais benevolentes para com quem ascendeu a um plano desconhecido. Os defeitos são atenuados, as qualidades tendem a sobressair, quase tudo é perdoado.

Por outro lado, suponho que não será quase nunca difícil, para um filho, tecer comentários lisonjeiros acerca da sua Mãe. A emoção domina-nos o vocabulário e incita-nos à exaltação de alguém que nos faz falta desde o preciso instante em que perdemos a sua presença protectora.

No caso da minha Mãe – posso afirmá-lo sem qualquer dúvida ou hesitação – sei que não preciso de recorrer à parcialidade do amor filial nem à complacência que dá a morte para dizer, dela, que era um ser humano extraordinário. Quem a conheceu, ainda que tenha sido só superficialmente, poderá testemunhar a veracidade desta afirmação.

Foi um exemplo admirável para nós, filhos, e também para todos os que conviveram com ela. A total entrega aos outros foi sempre o seu projecto de vida, e essa escolha aproximou-a muito daquilo a que nós, cristãos, chamamos santidade. Mesmo tendo sido uma Mãe atenta, nunca foi verdadeiramente “nossa”. O seu mundo era incomparavelmente maior do que a família, e filhos eram todos os que precisassem dela, conhecidos ou não.

Era de um despojamento invulgar: não se interessava por coisas, nem elas lhe mereceram nunca grande atenção. Mas gostava de livros, sobretudo dos que descreviam expedições e viagens singulares. Também gostava de discos, principalmente de música clássica. Bach, Beethoven e Mozart foram os grandes companheiros dos seus últimos tempos. Fora isso, contentava-se com muito pouco e era tão naturalmente generosa que dava tudo o que tinha, com um encolher de ombros e uma expressão divertida que acabaram por tornar-se a sua imagem de marca. Interessava-se, isso sim, por pessoas (por todas menos uma – ela própria). Não as diferenciava, a não ser por critérios de carácter e de qualidade humana. Para os frívolos e mesquinhos não tinha a menor paciência, e mostrava-o sem disfarçar. Tinha amigos de todas as idades e de todos os estratos sociais, porque a sua alegria, sentido de humor e simplicidade, eram contagiantes e faziam com que se sentisse bem em qualquer ambiente. Será muito difícil encontrar alguém que não tenha dela uma lembrança carinhosa.

Nunca foi uma típica dona de casa, como a maioria das mulheres da sua geração: independente por natureza, sustentou-se desde muito nova e realizou-se por inteiro numa vocação que parecia feita à sua medida – a medicina. Era uma mulher inteligente e culta, embora nunca caísse na tentação de exibir esses dotes para impressionar ou medir forças com alguém. De raízes urbanas e horizontes abertos, teve afinal que adaptar-se à rígida pequenez da província, numa época em que a sua profissão era vista com desconfiança e preconceito, quando desempenhada por uma mulher. Mas soube, sem guerras nem provocações, dar a volta a tudo e a todos, acabando por transformar em defensores fiéis os seus maiores críticos.
 
Sendo um espírito pragmático, científico, tinha também uma fé inabalável. Conciliava pacificamente evidências e mistérios incorpóreos, matéria e espírito, como se soubesse que cada um desses dois mundos ficaria incompleto sem o outro. Praticava, muito mais do que pregava, os preceitos de um Deus em quem acreditava profundamente.

 

Festejou 60 anos de curso com os amigos de sempre, e 84 de vida com a família próxima. Viveu uma vida plena e feliz mas teve, infelizmente, um fim duro. E até na doença e na morte foi um exemplo: aceitou o sofrimento extremo que lhe coube sem sombra de revolta e com a filosofia dos eleitos, captando o seu significado mais profundo. Talvez essa transcendência nos possa servir de consolo, perante uma tão flagrante injustiça.

Ficaria aqui, ad eternum, a contar episódios da vida da minha Mãe. Há mil histórias, cómicas ou comoventes, que se tornaram célebres entre nós e que ficarão na nossa memória para sempre. Guardo-as com ternura e talvez arrisque contá-las um dia, mesmo sabendo que ficarei sempre aquém da verdade.

 

Hoje, dia em que partiu, fica por aqui esta homenagem. Desapareceu uma Grande Mulher, mas apenas da nossa vista. Continuará tão presente como sempre, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-la.
 
Até sempre, minha Mãe.
 
(Publicado em 20 de Maio de 2007)
publicado por Ana Vidal às 22:36
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Domingo, 25 de Maio de 2008

Feira de Velharias (10)

 
Equador

Para mal ou bem dos meus pecados, sou descendente de uma família de roceiros em São Tomé: os donos da “Boa Entrada”. Por sinal, felizmente!, os mais poupados no livro Equador, do Miguel Sousa Tavares. A roça fica na parte baixa da ilha, bem perto da capital. Nunca lá fui, mas diz quem a conheceu que era de uma beleza arrasadora. Como, aliás, toda a ilha.
A tal senhora (não identificada no livro) com quem casou Henrique Mendonça, era filha do fundador dessa e de outras roças, entretanto dispersas por outros donos - para nós, a quase lendária “tia Carolina” - e irmã do meu bisavô.
Fiquei feliz, como humanista que gosto de me considerar, por ter confirmado no Equador o que sempre ouvi lá em casa: que os trabalhadores da Boa Entrada tinham condições de vida e de trabalho bastante acima dos das outras roças, e que a roça era considerada modelar, nesse e noutros sentidos. A sombra negra da escravatura não me deixa, assim, muito envergonhada. Até porque, infelizmente (ou talvez não…) não nos chegou às mãos nem um tostão da fabulosa fortuna dessa época, que afinal acabou por ir parar à outra parte dos descendentes, acho que por uma zanga familiar. Tudo é o que tem de ser. A (apesar de tudo) ainda considerável fortuna do meu bisavô, foi gasta integralmente por ele – e com muita imaginação, segundo sabemos – e aos filhos só chegou, valha-nos isso, uma educação primorosa que lhes permitiu ganhar a vida daí para a frente. Voilá!
 
Mas herdámos desse bisavô outras coisas, muito mais valiosas: o gosto pela aventura, a curiosidade irresistível pelas coisas distantes e diferentes, a paixão das viagens.
Como memória de um passado que poderia ter-nos deixado milionários, tenho guardado religiosamente, há muitos anos, um documento precioso sobre o que era a ilha de São Tomé nesses tempos áureos: uma monografia consagrada à Sociedade de Geografia de Lisboa, organizada e prefaciada pelo próprio Henrique José Monteiro de Mendonça, na qual se dá conta de todos os acontecimentos ocorridos na roça da Boa Entrada, e em São Tomé em geral, exactamente na época em que decorre a história do Equador. Ou seja, mais ou menos entre os anos 1900 e 1905. O livrinho é delicioso e tem uma infinidade de informações precisas sobre o funcionamento de uma roça de cacau: fotografias das instalações, das diferentes fases do ciclo do cacau, dos trabalhadores, estatísticas pormenorizadas de safras, doenças, despesas, contratos e repatriamentos, etc. E mais: as opiniões e relatórios dos inúmeros técnicos estrangeiros convidados a visitar a roça, de viajantes ilustres que por lá passaram, de médicos que lá trabalharam no estudo da malária e da desinteria (a principal causa de morte entre os negros).
Há em todo o opúsculo – é nítida – a preocupação de contradizer, com dados estatísticos e testemunhos abalizados, a opinião veiculada pela imprensa estrangeira, sobretudo inglesa, sobre a existência de mão de obra escrava nas roças. E há episódios ali relatados que dariam, por si só, matéria para vários livros. Confesso, aliás, que o guardei com a intenção de escrever um dia uma história baseada nestes factos. Ficcionada, claro. Acabou por fazê-lo o Miguel Sousa Tavares, e bem melhor do que eu, com toda a certeza.
 
(Publicado pela primeira vez em 9/8/2007)
publicado por Ana Vidal às 13:16
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Horror



Já comecei - e abandonei - vários posts sobre a notícia de Elizabeth Fritzl e a sua horripilante história de vida. Este assunto tem-me arrepiado de tal maneira que ainda não consegui escrever nada sobre ele. Preciso de digerir primeiro todo o horror, toda a repulsa, toda a alienação que envolve esta monstruosidade, para depois ser capaz de reflectir sobre ela. Até lá, faço minhas as palavras da Cristina Ferreira de Almeida, nesta análise que espelha tão bem a fragilidade destas situações limite e a sua dependência daquilo a que chamamos "sorte". Ou "azar", dependendo do prisma. Em qualquer dos casos, haverá uma insondável moral a tirar desta aparente ironia?

publicado por Ana Vidal às 23:22
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Sábado, 3 de Maio de 2008

Rui Pedro, o parente pobre

Sempre que o "caso Maddie" me invade a casa, numa esquizofrenia mediática que roça a loucura colectiva, tenho vontade de relembrar este outro caso, o do Rui Pedro. Passado igualmente por cá, debaixo do nosso nariz português, mas com gente que, infelizmente, não tem o mesmo poder de captar a atenção do mundo nem as verbas milionárias que são precisas para se manter na ribalta das notícias.

Não há um casal fotogénico nem uns bonecos gémeos loirinhos, para a fotografia. Não há aberturas de telejornais. Não há audiência com o Papa, ou nas Nações Unidas. Não há tablóides ingleses a obrigar a nossa Judiciária a puxar pelos galões. Não há uma Fundação. Não há um encarte no último Harry Potter, de tiragens que se multiplicam até ao infinito. Não há missas, nem nannies, nem advogados a porem-se em bicos de pés para ficar com o caso. Não há nada, praticamente. Pelo menos, que se veja.

Há só uma mãe desesperada, que não desiste. E a consciência dessa desigualdade obriga-me a este acto de mera justiça e solidariedade - colaborar nesta campanha.
 
 
Tenho assistido, como todos os que quiserem reparar nisso, à incessante batalha desta mãe, impotente mas nunca vencida. Sem recursos, sem divulgação mediática internacional (mesmo a nacional tem sido quase inexistente), sem apoios de nenhuma espécie, a mãe do Rui Pedro não permite - sempre que lho permitem a ela - que nos esqueçamos do seu filho desaparecido. Uma mulher bonita que envelheceu à nossa vista, corajosamente exposta e inconformada.

Sei que este não é o único caso de crianças portuguesas desaparecidas, longe disso. Mas a imagem desta mãe, devastada pelo desgosto e pela expectativa interminável, atira-me à cara a sorte que tive em ter acompanhado o crescimento dos meus filhos e tê-los tido sempre por perto. A mãe do Rui Pedro apenas pode imaginar, auxiliada por um retrato robot feito por um computador, como será (ou seria?) o seu filho agora. E esse simples pensamento já é insuportável.


Aqui fica, por isso, o meu humilde contributo.


publicado por Ana Vidal às 11:25
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Amigos de talento - II


Sempre inventei histórias para os meus filhos, quando eram pequenos. Deixava correr a imaginação e as personagens iam mudando, ao sabor das perguntas que eles me faziam e dos seus desejos. Muitas vezes eram eles mesmos quem sugeria aventuras e peripécias, consoante o interesse do momento ou alguma coisa que tinham visto ou ouvido. Com uma infância vivida no campo, o imaginário infantil dilata-se substancialmente e ganha cores, cheiros e formas impensáveis para uma criança da cidade. Talvez por isso eles respondessem tão bem ao estímulo da participação na composição da história, acrescentando sempre pormenores mais ricos e dando vida a personagens engraçadíssimas. Frequentemente, eram eles que construiam toda a trama, sem se aperceberem disso.
Tenho as melhores recordações dessa época de partilha de sonhos e de loucuras imaginativas, em que me sentia muito próxima daquele universo mágico e me deixava conduzir, sem resistência, por entre seres fantásticos e mundos delirantes. Era com estes pensamentos que os meus filhos adormeciam, e muitas vezes também eu. Além das histórias, cantava-lhes canções de embalar com letras inventadas por mim, muitas vezes na hora, sobre músicas conhecidas. A única que sobreviveu ao tempo e às sucessivas mudanças de casa, escrita num papel amarrotado, foi uma letra que fiz para o meu filho mais velho. Lembro-me muito bem dessa noite de Verão em que a cantei pela primeira vez, de uma lua cheia e magnífica que entrava pelo quarto e abria as portas a todos os sonhos. Aos meus e aos dele...
Curiosamente, encontrei esse papelinho há uns anos. Sem fazer a menor ideia de qual era a música em que a encaixei nessa época (mais de vinte anos antes), gostei ainda do que tinha escrito e apeteceu-me que alguém a musicasse. Falei nisso à minha amiga Rita Vasconcellos, sabendo que ela se entusiasmaria com o projecto. A Rita é arquitecta de profissão, mas é também uma inspirada compositora, para além de outros múltiplos talentos. É, sobretudo, um espírito curioso e sensível, muito próximo ainda da inocência das crianças, como acho que todos gostaríamos de ser. Como eu calculava, achou graça ao desafio. Pedi-lhe que fizesse uma coisa simples, já que era uma "Cantiguinha de embalar", título que dei, logo ali, à canção que surgiria da nossa parceria. Sentou-se ao piano e começou a alinhavar uma melodia suave e delicada, como aquelas das caixinhas de música. Era exactamente isso que eu tinha imaginado para aquela letra. Deixei-a, nessa noite, enredada na sua criação, sabendo de antemão que iria gostar do resultado. Poucos dias depois, ligou-me. "Está pronta, vem ouvir." Lá fui, comovida e curiosa. E amei desde logo o casamento entre as minhas palavras simples e a música da Rita, que tão bem as tinha apreendido.
Por sugestão de amigos, concorremos com esta canção ao Festival da Canção da RTP (há 3 anos). Para isso, demos-lhe o título de Branca Lua e gravou-se uma maqueta em estúdio, com a própria Rita ao piano e a bela voz da Mafalda Sachetti "emprestada" para o efeito. Não ganhou, claro, nem nós esperávamos que isso acontecesse. É uma música/letra que está muito longe do perfil das canções que habitualmente ganham festivais. Mas todo este processo nos deu um enorme gozo e nos aproximou como amigas. Depois disso, decidimos fazer outras parcerias musicais. Estão em fase de acabamento várias canções, e algumas delas farão parte de um interessante projecto musical em que a Rita está agora a trabalhar (não posso adiantar mais sobre o assunto porque ainda está no segredo dos deuses, mas acredito que vai ser um êxito).
Aqui fica a Branca Lua, em maqueta, porque ainda não encontrou uma voz que lhe desse vida definitivamente. Gostaríamos muito que isso acontecesse, um dia.
BRANCA LUA

Branca lua traz um sonho
risonho
ao meu filho adormecido
Deixa-o partir num veleiro
ligeiro
pelo azul desconhecido
Deixa-o tocar as estrelas
prendê-las
entre os dedos pequeninos
como se fossem brinquedos
segredos
que só sabem os meninos

Dá-lhe asas ao pensamento
fermento
duma vida por escrever
que enquanto tudo se espera
quimera
tudo pode acontecer
Ó Lua, quando ele partir
a sorrir
no seu corcel de magia
pede ao sol que se detenha
e não venha
trazer cedo a luz do dia


(Como tenho estado com problemas no Imeem, aqui fica o link se não conseguirem ouvir: http://anavidal.imeem.com/music/MKNuQSuG/mafalda_sachetti_branca_lua/)

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publicado por Ana Vidal às 17:00
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

publicado por Ana Vidal às 23:33
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Pelo sonho


mais um recém-nascido neste imenso e (ainda) novo mundo da blogosfera: ainda não se aguenta bem em pé, ainda tropeça e cai, mas promete.
Ou não abrisse as portas com o belíssimo poema de Sebastião da Gama, anunciando que é pelo sonho que vai. E vai bem, que o sonho é o único caminho que nos leva a algum lugar. Tenho muita honra em ser uma das madrinhas do neófito.
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publicado por Ana Vidal às 23:28
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Justiça cega


(...) que raio de afectividade é esta que está na cabeça destes juízes em que é suposto um pai não ter medo de perder o filho? Que raio de paternidade maquinal é esta? Quem, amando o seu filho, prepara tudo para o perder? Pois eu acho que seria um estranho sinal que o fizessem.

Esta é parte de um texto do Daniel Oliveira, no Arrastão, sobre o chamado caso Esmeralda. Nem sempre concordo com o Daniel, mas desta vez subscrevo integralmente o que ele diz. E não o diria melhor, por isso aconselho o resto da leitura na sua origem.
publicado por Ana Vidal às 20:22
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Memória


Um único objecto


São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

(José Carlos Barros)

Imagem - Exploding Raphaelesque Head, de Salvador Dali - in O Século Prodigioso
publicado por Ana Vidal às 09:52
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Sábado, 21 de Julho de 2007

A Salgada Família

Que novas surpresas nos reservará ainda este can-can tripeiro? O país está em pulgas para saber qual o próximo elemento desta Salgada Família a sair da gruta: O burro? A vaca? A própria manjedoura?



Primeiro foi a loira Carolina, a "Eu". Depois de um estrondoso abandono, seguido de um make-over apressado, passou de Ágata a Virna Lisi, e, de novo virgem, publicou confissões entre escaldantes e sopeirais, na primeira pessoa, virou do avesso o todo-poderoso ex-amante, desafiou os feudos e os tabus da futebolândia, armou um pé de vento no país inteiro e ressuscitou, até, processos judiciais moribundos. Todos tememos nesses dias pela vida dela, coitadinha. Tão corajosa, tão desamparada, tão ultrajada e tão sinceramente arrependida dos pecados idos, a menina.
Depois, tudo acalmou. A ebulição passou a fervura lenta, controlada, com os livros a venderem-se como pãezinhos quentes e uma novela em preparação, para memória futura e futuro pé-de-meia da loira e pura Carolina.
Mas afinal havia outra, como diria a Mónica Sintra. O país esfregou os olhos, incrédulo e baralhado com a versão morena da heroína tripeira. Entrou em cena Ana Maria, a "Outra", e não quis ser menos do que a mana gémea: desmentiu e denunciou a irmã famosa e egoísta que lhe abortou negócios promissores, embrulhou a editora Dom Quixote e o presidente do Benfica em tramóias escusas e patrocínios duvidosos, defendeu o todo-poderoso ex-amante da mana, falou de milhões e revelou ainda mais segredos escabrosos.
Complicou-se o enredo da novela, que já tinha guião avançado, e tudo voltou à estaca zero. Para muitos de nós, atentos mas confusos espectadores, a morena parecia mesmo um novo coelho (ou melhor, uma nova bunny) saído da cartola do todo-poderoso ex-amante da loira. Seria? Talvez, que o tripeiro não costuma dar-se por vencido com tanta facilidade, e muito menos por uma alternadeira que passou do cabaret ao convento enquanto o diabo esfrega um olho.
Mas o guião da novela ainda não era definitivo: Com uma invulgar aptidão para a ribalta, eis que a família lança mais um actor no palco - o progenitor das meninas. Contrito, confessa ao jornalista que está muito incomodado com tudo o que está a acontecer. É natural, pensamos todos, nenhum pai gosta de ver as filhas assim expostas ao ridículo e à devassa das suas vidas privadas, por muito pouco recomendáveis que elas sejam. Isto custa-me muito, diz Joaquim Salgado, o "Pai". Baixamos os olhos, numa envergonhada mea culpa pelo nosso pecaminoso voyeurismo. Mas, de repente, o homem esquece-se da pose ensaiada: com um sorriso sardónico que revela um íntimo prazer, põe-se a dizer mal da filha morena. Que já teve direito a internamento psiquiátrico, que enganou a irmã loira-coitadinha, que passou a referir-se, de repente, ao todo-poderoso ex-amante da irmã loira-coitadinha como "o sr. Jorge", quando lhe chamava sempre, até há bem pouco tempo, "o boi" ou "o velho", e que isso traz óbvia água no bico. Hein, não acha estranho?, e pisca o olho ao jornalista, num trejeito revelador. Logo a seguir confunde tudo, e acaba por desvendar o verdadeiro motivo de tanta aversão à filha morena, subitamente amiga do todo-poderoso ex-amante da loira-coitadinha: Se eu falasse... os primeiros 13 minutos daquele jogo Boavista-Porto, uma vergonha... eu é que não queria ser árbitro daquilo... sim, o Boavista é o meu clube... não puxe por mim, não posso dizer mais nada.
Acaba embargado pela comoção da injustiça contra o seu clube de futebol, já completamente esquecido das filhas. E nós todos, acabamos boquiabertos com tanta sensibilidade. Angustiados, perguntamo-nos: E agora, quem virá a seguir?
Aguardam-se, pois, novos capítulos desta novela, cujo guião permanecerá em aberto enquanto houver membros da família que não tenham tido ainda os seus quinze minutos de glória.
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publicado por Ana Vidal às 21:39
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Ajuda de berço


Já aqui postei, e hei-de repetir um dia destes, a campanha de apoio ao Rui Pedro, uma criança portuguesa desaparecida há anos cuja mãe não teve a sorte de conseguir os recursos que tem tido o casal MacCan para tentar encontrar a filha.

Agora é a vez de divulgar a campanha da Ajuda de Berço - Um colo para cada criança - uma instituição também destinada a crianças, que nos pede apenas um clique no seu site. Com esse simples gesto (que não demora mais do que uns segundos) estaremos todos a ajudar a manutenção do site e, consequentemente, a angariação de receitas para a obra. A Ajuda de Berço acolhe crianças desprotegidas, dos 0 aos 3 anos. O site vive exclusivamente da publicidade que faz e são as empresas que o patrocinam que ajudam esta instituição. Só temos que mostrar que o visitámos, clicando no botão "UM COLO PARA CADA CRIANÇA": http://www.arcidadania.org/.
Não custa nada, pois não?
publicado por Ana Vidal às 17:54
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

Sinais de alarme

Recebi este texto de um amigo e não resisto a reproduzi-lo aqui na íntegra, tal é a importância da mensagem que encerra: será que, nesta feira de vaidades em que se tornou o mundo em que vivemos, só a embalagem nos agrada? Ou será que nos tornámos insensíveis ao ponto de sermos incapazes de reconhecer a beleza pela beleza, quando nos surge de forma inesperada?
Pensem nisto, e não deixem de ver o filme que acompanha a fantástica e oportuna iniciativa do Washington Post - é só clicar aqui.
Numa experiência inédita, Joshua Bell, um dos mais famosos violinistas do Mundo, tocou incógnito durante 45 minutos, numa estação de metro de Washington, de manhã, em hora de ponta, despertando pouca ou nenhuma atenção. A provocatória iniciativa foi da responsabilidade do jornal "Washington Post", que pretendeu lançar um debate sobre arte, beleza e contextos. Ninguém reparou também que o violinista tocava com um Stradivarius de 1713 - que vale 3,5 milhões de dólares. Três dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam 100 dólares, mas na estação de metro foi ostensivamente ignorado pela maioria. A excepção foram as crianças, que, inevitavelmente, e perante a oposição do pai ou da mãe, queriam parar para escutar Bell, algo que, diz o jornal, indicará que todos nascemos com poesia e esta é depois, lentamente, sufocada dentro de todos nós.
Bell, uma espécie de 'sex symbol' da clássica, actuou vestido de jeans, t-shirt e boné de basebol, e interpretou "Chaconne", de Bach, na sua opinião "uma das maiores peças musicais de sempre, mas também um dos grandes sucessos da história". Executou ainda "Ave Maria", de Schubert, e "Estrellita", de Manuel Ponce - mas a indiferença foi quase total. Esse facto, aparentemente, não impressionou os utentes do metro."Foi uma sensação muito estranha ver que as pessoas me ignoravam", disse Bell, habituado ao aplauso. "Num concerto, fico irritado se alguém tosse ou se um telemóvel toca. Mas no metro as minhas expectativas diminuíram. Fiquei agradecido pelo mínimo reconhecimento, mesmo um simples olhar", acrescentou. O sucedido motiva o debate: foi este um caso de "pérolas a porcos"? É a beleza um facto objectivo que se pode medir, ou tão-só uma opinião? Mark Leitahuse, director da Galeria Nacional de Arte, não se surpreende: "A arte tem de estar no seu contexto". E dá um exemplo: "Se tirarmos uma pintura famosa de um museu e a colocarmos num restaurante, ninguém a notará". Para outros, como o escritor John Lane, a experiência indica a "perda da capacidade de se apreciar a beleza". O escritor disse ao "Washington Post" que isto não significa que "as pessoas não tenham a capacidade de compreender a beleza, mas sim que ela deixou de ser relevante".
publicado por Ana Vidal às 11:27
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Dona Maria

Para completar esta homenagem à minha Mãe, transcrevo aqui parte de um poema do meu querido amigo e poeta maior Thiago de Mello, que, com a sua ternura, me ajudou (mais do que julga) a passar por este momento difícil. O poema chama-se "Dona Maria" - o nome da sua Mãe - e foi escrito no dia em que ela morreu.
(Juntei-lhe uma fotografia que encontrei por aí e que achei admirável. Não sei quem é o autor nem o modelo, mas pareceu-me uma Mãe - talvez a de todos nós - sábia e resignada, esperando o cumprimento inevitável de um ciclo).


DONA MARIA


Dona Maria está partindo.

Parece que está dormindo.

Mas já está chegando ao finzinho

do vale que leva à eternidade.



Quero só ver o que a eternidade

vai fazer com Dona Maria.

Ela sempre garantiu, desde mocinha,

que ia morar lá no céu.

E muito ouvi dela que Jesus,

de quem era serva fiel,

a esperava, contente.

Conversava com ele

como pessoa da sua maior intimidade.

Falava do céu como do jardim

cheio de roseiras e begónias

da casa dela na rua José Paranaguá.



Isso, ela. Eu, que não tenho lá essas certezas,

convencido de que a verdade da vida eterna

não chega a me dizer respeito,

acho que tenho o direito de esperar

que a Eternidade, com maiúscula,

dê a Dona Maria, pelo menos,

uma das tantas flores de bondade

que o seu coração repartiu

com o seu companheiro de vida,

os filhos (contando os de criação),

os irmãos, os parentes, as pessoas amigas,

e especialmente as desconhecidas,

pois a todos considerava filhos de Deus.



Sinto imensa precisão

de que ela me atenda mais uma vez.

Então lhe peço, como desde menino:

"A bênção, minha Mãe, Dona Maria!"

Mas desta vez ela não me responde,

como sempre fez, com sua fé prodigiosa:

"Deus te abençoe, meu filho,

Deus te faça feliz!"

Não me abençoará nunca mais.

Porque minha Mãe Dona Maria

acaba de partir para a eternidade.



A Poesia pode ser uma mão redentora. Neste caso, cumpriu esse papel com o zelo de um amigo próximo. Obrigada, Thiago. Espero poder um dia retribuir-te, de alguma forma.
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publicado por Ana Vidal às 00:00
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Domingo, 20 de Maio de 2007

Mãe

É sabido que, quando morremos, todos nos transformamos em boas pessoas. Há um certo estatuto de superioridade no mistério da morte, que lança um véu dourado de temor e respeito nos que ficam e os faz mais benevolentes para com quem ascendeu a um plano desconhecido. Os defeitos são atenuados, as qualidades tendem a sobressair, quase tudo é perdoado.

Por outro lado, suponho que não será quase nunca difícil, para um filho, tecer comentários lisonjeiros acerca da sua mãe. A emoção domina-nos o vocabulário e incita-nos à exaltação de alguém que nos faz falta desde o preciso instante em que perdemos a sua presença protectora.

No caso da minha mãe – posso afirmá-lo sem qualquer dúvida ou hesitação – sei que não preciso de recorrer à parcialidade do amor filial nem à complacência que dá a morte para dizer, dela, que era um ser humano extraordinário. Quem a conheceu, ainda que tenha sido só superficialmente, poderá testemunhar a veracidade desta afirmação.

Foi, de facto, um exemplo admirável para nós, filhos, e também para todos os que conviveram com ela. A total entrega aos outros foi sempre o seu projecto de vida, e essa escolha aproximou-a muito daquilo a que nós, cristãos, chamamos santidade. Mesmo tendo sido uma mãe muito atenta, nunca foi verdadeiramente “nossa”. O seu mundo era incomparavelmente maior do que a família, e filhos eram todos os que precisassem dela, conhecidos ou não.

Era de um despojamento invulgar: não se interessava por coisas, nem elas lhe mereceram nunca grande atenção. Mas gostava de livros, sobretudo dos que descreviam expedições e viagens singulares. Também gostava de discos, principalmente de música clássica. Bach, Beethoven e Mozart foram os grandes companheiros dos seus últimos tempos. Fora isso, contentava-se com muito pouco e era tão naturalmente generosa que dava tudo o que tinha, com um encolher de ombros e uma expressão divertida que acabaram por tornar-se a sua imagem de marca.

Interessava-se, isso sim, por pessoas (por todas menos uma – ela própria). Não as diferenciava, a não ser por critérios de carácter e de qualidades humanas. Para os frívolos e mesquinhos não tinha a menor paciência, e mostrava-o sem disfarçar. Tinha amigos de todas as idades e de todos os estratos sociais, porque a sua alegria, sentido de humor e simplicidade eram contagiantes e faziam com que se sentisse bem em qualquer ambiente. Será muito difícil encontrar alguém que não tenha dela uma lembrança carinhosa.

Nunca foi uma típica dona de casa, como a maioria das mulheres da sua geração: independente por natureza, sustentou-se desde muito nova e realizou-se por inteiro numa vocação que parecia feita à sua medida – a medicina. Era uma mulher inteligente e culta, embora nunca caísse na tentação de exibir esses dotes para impressionar ou medir forças com alguém. De raízes urbanas e horizontes abertos, teve afinal que adaptar-se à rígida pequenez da província, numa época em que a sua profissão era vista com desconfiança e preconceito, quando desempenhada por uma mulher. Mas soube, sem guerras nem provocações, dar a volta a tudo e a todos, acabando por transformar em defensores fiéis os seus maiores críticos.
Sendo um espírito pragmático, científico, tinha também uma fé inabalável. Conciliava pacificamente evidências e mistérios incorpóreos, matéria e espírito, como se soubesse que cada um desses dois mundos ficaria incompleto sem o outro. Praticava, muito mais do que pregava, os preceitos de um Deus em quem acreditava profundamente.

Festejou 60 anos de curso com os amigos de sempre, e 84 de vida com a família próxima. Viveu uma vida plena e feliz mas teve, infelizmente, um fim duro. E até na doença e na morte foi um exemplo: aceitou o sofrimento extremo que lhe coube sem sombra de revolta e com a filosofia dos eleitos, captando o seu significado mais profundo. Talvez essa transcendência nos possa servir de consolo, perante uma tão flagrante injustiça.

Ficaria aqui, ad eternum, a contar episódios da vida da minha mãe. Há mil histórias, cómicas ou comoventes, que se tornaram célebres e que ficarão na nossa memória para sempre. Guardo-as com ternura e talvez arrisque contá-las um dia, mesmo sabendo que ficarei sempre aquém da verdade.

Hoje, dia em que partiu, fica por aqui esta homenagem.

Desapareceu uma Grande Mulher, mas apenas da nossa vista. Continuará tão presente como sempre, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-la.
Até sempre, minha Mãe.
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publicado por Ana Vidal às 03:05
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2007

Uma história de pais


Nestes tempos que atravessamos, em que palavras como racismo, xenofobia, pedofilia, se tornaram banais a ponto de parecerem quase ter-se tornado a regra, uma história como a que aqui conto hoje reveste-se de especiais contornos. É uma hstória verídica, que a imaginação de nenhum autor ficcionou, aumentou ou deturpou. Relato-a com total fidelidade.
Exactamente por ser verídica, tem, como nenhuma ficção, o dom de devolver-nos a fé, já quase perdida, na Humanidade. Porque nos redime aos nossos próprios olhos, demonstrando-nos que ainda podemos salvar-nos da galopante insensibilidade geral. Porque nos obriga a procurar, num espelho, as raízes mais puras e ainda vivas da nossa condição humana.
Tive apenas o cuidado de substituir os nomes dos intervenientes, por respeito à sua privacidade. É uma história curta e simples, como o são todas as grandes histórias que a vida nos oferece como exemplo. Conta-se em duas penadas, mas ficará na vossa memória, espero, por muito tempo.

É a história do jovem Diogo e do cigano Sancho. Ambos pais, ambos condenados ao infortúnio, mas por diferentes razões.

Sancho é um dos muitos vendedores clandestinos do submundo das falsificações e dos produtos roubados, e o seu “escritório” é, habitualmente, toda a praça do Marquês de Pombal. Diogo, 24 anos, é o filho privilegiado de um empresário próspero e bastante rico, que também tem escritório no Marquês (esse com tecto, embora com uma área mais reduzida...).

Nada parece ser-lhes comum. Nada que os aproxime, nada que explique uma amizade. Os seus dois mundos são irremediavelmente insolúveis. No entanto, desafiando toda a lógica, Sancho marca presença, sentidamente, num acontecimento inesperado: o funeral de Diogo, brutal e prematuramente morto num acidente de moto. Muito jovem ainda, mas já pai de uma criança. Uma tragédia.

A família repara naquela presença estranha, mas está ainda em choque, não dá demasiada importância. Mas na missa do 7º dia lá está de novo o cigano, comovido. E desta vez a pergunta impõe-se: Porquê? Que obscuras razões por detrás desta atitude? Que assustador passado ignorado de todos? Preocupado, o pai de Diogo não resiste e aborda a figura dissonante naquela assembleia. E é então que a explicação, colada a um sorriso triste, surge clara, redentora, único bálsamo naquela hora insuportável:

Não, não eram propriamente amigos. Mas eram, talvez, muito mais do que isso. Unia-os um indelével laço de solidariedade e confiança. E tudo porque, tempos atrás, Diogo o encontrara, a chorar, à porta do prédio do escritório do pai. Contra todas as expectativas, perguntara ao cigano desconhecido o que tinha, interessara-se. E Sancho contara-lhe, entre lágrimas: era um dia muito triste para si, fazia um ano que o seu filho fora morto pelo sogro numa rixa passional, e tinha muitas saudades. A velha honra cigana – “filha minha pode ser viúva, mas nunca divorciada!”. Por isso estava naquele desconsolo.

Diogo levava ao colo o seu próprio filho, um bebé de 6 meses. Comovera-o aquele desespero de pai. E não hesitara. Instintivamente confiante, como se o gesto fosse absolutamente natural, deixara o bebé à guarda de Sancho enquanto subia para ir ter, também ele, com o seu pai. Quando voltara a buscá-lo, passado um bom bocado, o cigano ainda brincava com o bebé e ambos riam, satisfeitos.
publicado por Ana Vidal às 09:07
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