Domingo, 28 de Setembro de 2008

Pour la beauté du geste

(As-tu-déjà aimé? - Les chansons d'amour)

 

 

publicado por Ana Vidal às 19:14
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Domingo, 31 de Agosto de 2008

Feira de Velharias (10)


 
 
É-nos possível viver sós,
desde que seja à espera de alguém

(Gilbert Cesbron)
 
 
CAFÉ AVENIDA
 
Paulo César estava finalmente reformado. Anos e anos a suspirar por dias como aquele, sem obrigações nem horários. Noites a fio a contar os meses, depois os dias e, por fim, as horas que o separavam da liberdade.

Tinha sido uma difícil vida de luta. Pouco dinheiro, muito trabalho. Mesmo assim, não podia queixar-se muito: havia colegas seus, bem mais novos do que ele, que tinham negociado o despedimento da empresa por uma indemnização e agora estavam em pior situação. O dinheiro acabara-se e não arranjavam novo emprego. Mentalmente, deu graças a Deus por ter conseguido aguentar a pressão daqueles últimos anos de loucura e esperar pela reforma natural. Era uma reforma parca, claro, mas ia dando para viver. Toda a vida tinha sido um homem frugal, habituara-se a contar os tostões desde muito novo. E depois – infelizmente! – o que ganhava era só para si… a mulher tinha-lhe morrido muito cedo e os filhos estavam emigrados na África do Sul, não os via há muitos anos já. Sabia que tinha dois netos de um deles, mas não os conhecia a não ser por fotografia.

Ainda tinha pensado, por duas vezes, arranjar mulher de novo, mas o destino não tinha querido assim. Uma delas, a primeira, era sua colega na fábrica. Uma solteirona ainda fresca e bonita, mas sacudida, de modos bruscos. Tinha engraçado com ela por lhe parecer um desafio a sua forma de responder aos piropos dos homens, com grande desenvoltura e mantendo-os à distância. Era uma mulher séria, portanto. Um bom prenúncio. Ninguém nunca ousara dizer nada dela. Ele tinha enviuvado há pouco tempo e sentia ainda muito a falta de uma mulher em casa. Aquela pareceu-lhe um bom aconchego para si e para os filhos, até porque não tinha outros que fossem dela e já não estava em idade de se aventurar em maternidades perigosas. Instigado pelos colegas começou a fazer-lhe rapa-pés, a sentar-se ao pé dela na cantina para o almoço, e até lhe ofereceu uma vez uma caixa de chocolates que trouxe de propósito de Badajoz, de uma excursão organizada pela Junta de Freguesia. A princípio, o seu interesse por ela era mera conveniência de situação mas, aos poucos, a dificuldade da conquista foi alimentando o desejo e uma intensa vontade de conhecê-la melhor. Tomou-se de amores por ela, escrevia-lhe papelinhos nas horas de trabalho, com convites para passeios de domingo que ela declinava sempre, sem excepção. Um dia decidiu-se mesmo, já desesperado. Parecera-lhe, naquele dia – ou tinha sido um dos companheiros que lhe dissera, já não se lembrava – que ela estava finalmente receptiva. Perdeu a cabeça, arriscou tudo – aproveitou a hora do café para agarrá-la pela cintura e dar-lhe um beijo testemunhado por todo o refeitório e que foi, aliás, muito aplaudido. Foi a morte do artista. Ela não percebeu nada e achou que ele estava a gozar com ela, ou que queria só farra. Desastrada e furiosa, envergonhou-o em frente dos companheiros de labuta com um sermão altivo e meia dúzia de epítetos fatais, tais como “velho baboso”. E ele que nem era velho, nessa altura. Ferido de morte, arrastou a sua desolação por alguns meses, encerrado numa tristeza vexada e sofrida à vista de todos. A ela, nunca mais dirigiu palavra. Pouco tempo depois, para seu grande alívio, ela mudara de emprego.

Mas o tempo encarregara-se de diluir o desgosto e a chacota dos amigos, e a rotina voltara a instalar-se na sua vida. É claro que várias mulheres animaram muitas das suas noites de viúvo, quase sempre mulheres da vida ou, mais raramente, encontros de solidões partilhadas, que não duravam muito nem se solidificavam a ponto de deixar adivinhar uma hipótese de futuro.

Mas, poucos anos depois daquele primeiro desaire, Paulo César voltara a apaixonar-se. Violentamente, como não pensava já ser possível. Os filhos iam-se criando com a ajuda das vizinhas, todas gostavam deles. Eram dois rapazinhos dóceis e franzinos que não davam grandes trabalhos, tinham notas razoáveis na escola e não se metiam em alhadas. Eram filhos de muitas mães, mas ele sabia que havia neles uma tristeza inconfessada por não terem uma a que chamassem legitimamente sua.

Talvez por essa consciência, ou talvez apenas pelo seu próprio desamparo, começou a interessar-se por uma dessas vizinhas, viúva como ele. Era uma mulher ainda bonita, de formas voluptuosas e cabelos negros, um pecado ambulante que perturbava todos os homens do bairro e deixava as mulheres de pé atrás. Mas ela era recatada, cumprindo a custo – adivinhava-se pelos suspiros constantes – a abstinência exigida pela sua condição de viúva séria. Tinha três filhos da idade dos seus, companheiros de escola e de brincadeiras. Estava até, na escala social do bairro, uns degraus acima das outras – a viuvez precoce atirara-a para ali, onde as rendas das casas eram mais baixas. Tudo parecia perfeito, portanto. A comunidade abençoaria esta união de viúvos. Discretamente, Paulo César começara a fazer-lhe a corte, com respeito e seguindo as regras. Ela encorajara-o logo, agradecida, e em pouco tempo já rebolavam na cama de ferro dele, a coberto da noite e longe das crianças de ambos, estrategicamente reunidas em casa dela. Foram tempos felizes, de uma fartura sensual que parecia não ter fim. Ela revelara-se surpreendente: nas noites de folia era mestra nas artes do kamasutra (confidenciou-lhe um dia, corando, que o major seu marido tinha sido o seu professor, depois de uma comissão de serviço na Índia portuguesa); e de dia era uma modista incansável e admirada – fazia vaporosos tutus de bailarina para a Companhia Nacional de Bailado, aumentando assim um pouco mais a pensão de viúva. As suas mãos de ouro faziam maravilhas, tanto de dia como de noite. Mas havia um óbice ao idílio: ela não queria casar, exactamente por causa dessa pensão, que perderia imediatamente se o fizesse. E também não aceitava tornar pública aquela relação irregular, porque isso arruinaria a sua reputação impecável. Ao contrário do que seria de esperar, foi ele quem começou a cansar-se da situação. Aquela exaltação oriental já não lhe bastava: queria uma mulher com quem pudesse passear abertamente, viver e criar os filhos, e os argumentos dela pareciam-lhe uma humilhação porque salientavam a sua inferioridade financeira. A versão alfacinha das mil e uma noites durou pouco mais de um ano e depois ele foi-se afastando. Para seu maior desgosto e vexame ela acabou mesmo por casar-se, algum tempo depois, com um antigo companheiro de armas do marido, recentemente promovido a capitão. Com esta promoção social voltou a sair do bairro e foi viver para um sítio mais condigno com a sua nova condição. Estava reposta a justiça. Ele sofreu durante uns tempos, mas acabou por conformar-se e nunca mais pensou em casamento.

Foi-se transformando, aos poucos, num homem solitário. Os filhos fizeram-se homens e acabaram por aceitar, ambos, o convite de uns parentes da mãe para trabalhar na África do Sul. Por lá havia muitas obras e falta de bons pedreiros, disseram-lhe.
- É uma vida melhor, filhos, não sou eu que vou prender-vos aqui.
A princípio ainda planeou ir vê-los, escrevia-lhes frequentemente e contava os dias até ao Natal, mas essa viagem nunca se concretizou. Por lá casaram e tiveram filhos mas, apesar das cartas em que manifestavam sempre a intenção contrária, nunca mais voltaram.

E agora estava mesmo só, com o resto da vida pela frente e sem ocupação. Valia-lhe a leitura – um prazer que descobrira com a viúva do major e que alimentava diariamente devorando, um a um, os livros desirmanados (quase todos destinados a leitores infantis ou adolescentes) oferecidos à biblioteca da Junta, agrupados sem qualquer critério por uma funcionária ainda mais ignorante do que ele. Há três meses que a sua rotina era esta: de manhã cedo dava um passeio pelo jardim do bairro, ia ao pão e voltava para casa, cozinhava qualquer coisa, almoçava e dormia uma curta sesta. As tardes eram mais problemáticas: nunca tivera outros hobbies com que pudesse entreter-se agora e não lhe apetecera ainda alinhar com os outros reformados do bairro, que lhe pareciam muito mais velhos e perdidos do que ele e lhe lembravam a sua futura condição. Jogavam a bisca e a lerpa no jardim, fumavam e deixavam correr os dias numa espera resignada. Parecia-lhe deprimente. De vez em quando saía dali e ia até à Baixa lanchar e ver as montras. E, muito mais raramente, alinhava com alguns dos vizinhos numa excursão da Junta a Badajoz, a Évora ou ao mosteiro da Batalha. Mas evitava estes convívios porque eram sempre dominados pelas beatas e ele não tinha paciência para fervores religiosos. Aos poucos, começava a dar-se conta de que a situação de reformado não era assim tão aliciante como pensara. Para passar as horas até ao jantar, ia para o Café Avenida – um nome pomposo para uma modesta localização, num beco que fazia esquina com uma rua estreita – e entretinha-se com o movimento, enquanto lia o jornal ou um livro trazido da biblioteca. Estava a ficar um filósofo, pensava ele, de tanto observar os outros. Já conhecia quase toda a gente que parava por ali, mesmo os que não eram clientes diários.

Naquela tarde, havia uma nova presa para a sua curiosidade: olhou com interesse redobrado um homem que ocupava, sozinho, uma mesa afastada da sua e que falava em voz baixa para um telefone portátil. Nunca o tinha visto por ali. Numa avaliação sumária pareceu-lhe uma figura triste, com o aspecto desabrigado e patético de uma personagem de Dickens. Chamara-lhe a atenção a voz monocórdica e estranhamente ritmada, como que recitando uma ladainha. Não conseguia ouvir o que dizia, mas parecia lamentar-se intimamente, como se, do outro lado da linha, não estivesse ninguém. Assim, a falar, era um tipo curioso: embora a expressão fosse de desalento, parecia saborear as palavras com a volúpia de um gourmet, mastigava-as lentamente, sílaba a sílaba, como se fossem ovinhos de codorniz. Não fora esse tique de diseur e nada nele, numa observação desatenta, despertaria o menor interesse: em tudo o resto era irremediavelmente vulgar. Andaria pelos cinquenta e poucos, diziam-no as rugas na testa e o cabelo, ainda farto mas já mais branco do que escuro. Os olhos eram fundos e esquivos, sem cor definida. As mãos – juraria que estavam húmidas – mostravam-se irrequietas, nervosas, como as de quem tivesse abandonado o vício do tabaco e não soubesse já o que fazer com elas. Sobre o corpo franzino trazia uma camisola de lã puída, de um tom azul acinzentado, e umas calças escuras de fazenda. Tudo muito limpo, muito vincado, a denunciar mão de mulher ciosa da dignidade da sua pobreza. Esposa? Mãe? A avaliar pelo ar desajustado e pela ausência de aliança na mão esquerda, mãe, definitivamente.

Parecia desconfortável na cadeira, como se quisesse sair dali o mais depressa possível. Olhava em volta de vez em quando, tentando abranger com movimentos rápidos do pescoço todo o espaço da sala e sobretudo a porta do Café. Estaria talvez à espera de alguém, ou simplesmente temia ser ouvido. Porque as frases dirigidas ao bucal do telemóvel eram pronunciadas em voz velada, propositadamente contida. Pelo menos, assim parecia. De tempos a tempos deitava um olho rápido ao relógio antigo de madeira e vidro gravado, na parede mesmo à sua frente. Sobre a mesa quadrada, uma xícara de café vazia e um jornal aberto na página das palavras cruzadas, criteriosamente disposto de forma a acompanhar sem desvios a esquadria do tampo. Sobre o jornal, rigorosamente ao centro, uma esferográfica e um par de óculos de lentes grossas. Um metódico, portanto. No mínimo. Talvez um maníaco, um obcecado pela ordem. Um desses perfis que rondam perigosamente o descaminho sem remédio, às vezes provocado pela mínima alteração à rotina.

Para acompanhar este imperdível pitéu que os deuses do ócio lhe traziam de presente em mais uma tarde de horas longas, nada como outro cafezinho. Distraiu-se da sua presa, por momentos, para chamar o criado. Quando voltou a reparar no homem, alguma coisa tinha mudado. Olhou-o de novo, agora com acrescida curiosidade: na expressão que, há pouco, revelava apenas timidez e desconfiança, lia-se agora o pânico. O homem estava claramente perturbado, como que arrependido de um passo irreflectido, cujas consequências lhe fugissem ao controle. O telefonema acabara e agora estava imóvel, de olhar fixo e semblante carregado. Olhou uma vez mais o relógio de parede, disfarçadamente. Há pelo menos meia hora que ali estava sentado, em crescente ansiedade. Suava ostensivamente, como se um sol de Agosto tivesse invadido, de repente, aquele fresco dia de Outono. Pobre criatura, pensou. O que lhe teria acontecido agora?

Sem dar por isso, Paulo César começou a olhar também, ansiosamente, para a porta do Café. O homem deitara-lhe um olhar rápido e cúmplice, ou era imaginação sua? Estaria a pedir ajuda? O que poderia fazer por ele? Outro olhar, agora mais explícito. Ele PRECISAVA mesmo de ajuda mas, por qualquer razão, não podia ou não queria pedi-la directamente. Concentrou-se, procurando raciocinar. Não sabia no que estava a meter-se, mas tinha que agir de qualquer forma. Não era pessoa para deixar um ser humano naquela situação, sem fazer alguma coisa. Pensou em levantar-se e dirigir-se à casa de banho, sabendo que esse percurso o obrigaria a passar pela mesa do outro. Assim, estaria suficientemente perto se ele quisesse dizer-lhe alguma coisa em voz baixa, ou até passar-lhe um papel. Sorriu intimamente. Andava a ler demasiados romances policiais! O homem tinha um ar aflito, de facto, mas nada fazia prever que estivesse a ser perseguido ou impossibilitado de comunicar com as outras pessoas… bem, alguma coisa ele queria com aqueles olhares disfarçados, como que a pedir socorro.

Olhou uma vez mais na direcção do homem, encorajador, e levantou-se devagar. Caminhou lentamente, de propósito, passando como que em câmara lenta pela mesa do outro. Nada. Dirigiu-lhe mais um olhar antes de entrar na casa de banho, fazendo-lhe um sinal quase imperceptível com os olhos. O outro corou violentamente e virou a cara. Caramba, que expressão era aquela? Medo? Repulsa? E, de repente, percebeu. Ohhhh, diabo! O filho da mãe pensa que eu sou paneleiro! Ficou tão atrapalhado que se precipitou para a casa de banho, esbarrando com um rapazinho que vinha a sair. Encostou-se à parede, a suar. E agora? Desfazia o equívoco com uma explicação que podia complicar ainda mais a situação, ou fingia que não tinha acontecido nada e voltava para o seu jornal? Não sabia o que havia de fazer. A mania de te meteres onde não és chamado! Praguejou baixo e saiu com um andar estudadamente masculino. Pelo menos, pareceu-lhe. O outro continuava na mesma posição e baixou os olhos quando passou por ele. Paulo César esgueirou-se para a sua mesa e sentou-se de costas para o homem, impossibilitando-se assim de olhar para ele, a partir daí.

Algum tempo depois, entrou no Café uma mulher magra e já um pouco curvada, de cabeleira armada e loira mas onde eram bem evidentes as raízes brancas. Estava maquilhada em excesso para aquela hora, tinha um batom encarnado e sombra azul nos olhos. A roupa era berrante e justa, completamente desadequada à sua idade, e um perfume intenso e enjoativo espalhara-se pelo Café, com a sua entrada. Apesar de todo aquele espalhafato, por baixo da pintura as feições eram ainda interessantes e o corpo conservava alguma elegância. Paulo César olhou com curiosidade aquela velha gaiteira, pensando de repente, com um sorriso íntimo, que ela deveria ter mais ou menos a sua idade, pelo que estava a chamar velho a si próprio. Olá!! Dois novos numa tarde só, que sorte! Aquela também não era dali do bairro!

A mulher olhou à sua volta, hesitante, como que avaliando os presentes. Depois, avançou decidida para a mesa de Paulo César e pediu-lhe, com um sorriso:
- Posso sentar-me?
Ele estranhou a pergunta, intrigado com a atitude dela. Afinal, a maioria das mesas estava vazia! Não querendo ser indelicado, gaguejou, ao mesmo tempo que a convidava com um gesto da mão e se levantava para puxar-lhe a cadeira:
- C-claro. Faça favor.
Ela voltou a sorrir e sentou-se, enquanto lhe piscava um olho, coquete:
- Obrigada. Que cavalheiro… o senhor é mesmo um cavaleiro andante! Oferece-me um refresco? – e, praticamente sem transição - Olhe, sabe uma coisa? Confesso que estou aliviada.
- Desculpe?? – Paulo César estava abismado e começava a ficar incomodado com tudo aquilo.
- Sou a Rosa Solitária… sou EU! Está decepcionado? Bem, o senhor também é mais velho do que me disse, seu maroto!
- Perdão, a senhora deve estar a fazer confus…
Ela interrompeu-o, impaciente:
- Ora, não seja tímido. Está a fingir que não sabe quem eu sou?
De facto, há já uns momentos que Paulo César tentava lembrar-se de onde a conhecia. A cara era-lhe vagamente familiar. Talvez de uma das excursões…
- Mas eu conheço-a, minha senhora? Peço desculpa mas não me lembro de onde.
Ela riu-se, divertida. Depois disse, com uma inflexão sugestiva:
- Bem, conhecer, conhecer… só pelo telefone, não é? – e, muito devagar - Cavaleiro Andante, Rosa Solitária… então? Ainda há pouco…
Ele franziu as sobrancelhas, interrompendo-a por sua vez:
- Pelo telefone?? Mas… – Estava cada vez mais confuso. A mulher impacientou-se:
- O senhor respondeu ao anúncio… e combinou encontrar-se comigo aqui! Se não, como é que eu ia saber da existência deste Café? Não sou daqui!! Mas, se está arrependido…
Agora fazia uma espécie de beicinho. Patético, nesta idade!, pensou ele. Começava a achar a situação muito desagradável. Empertigou-se e disse-lhe, muito sério:
- Ouça, minha senhora. Eu não combinei nada consigo… de facto, a sua cara não me é estranha, mas juro-lhe que não combinei nada… - e, subitamente, fez-se luz na sua cabeça. O outro!! O encontro era com ele! Respirou fundo, aliviado:
- Espere aí, já sei! Está a fazer confusão com aquele senhor, ali ao fundo. Foi ele que lhe telefonou, com certeza! – e virou-se para trás, para indicar-lhe a mesa… vazia! O outro tinha-se esgueirado sem dar nas vistas, escapando-se ao encontro talvez mesmo antes de conhecer a sua Rosa Solitária! A timidez extrema tinha-o feito arrepender-se, e o seu pretenso assédio tinha contribuído para acabar de afugentá-lo.
Ela ficou furiosa:
- Está a brincar comigo? Qual senhor?
De facto, a única mesa ocupada, além da sua, tinha um casal de namorados completamente alheio ao resto do mundo. Começou a sentir-se mal.
- Deve ter-se ido embora… - engasgou-se. Ela ofendeu-se, começando a perder a compostura:
- Olhe lá, seu Cavaleiro Andante de meia tigela, se está arrependido diga, de uma vez por todas! Não invente desculpas… E você também não é nada de especial, o que é que julga? Se calhar acha-se algum galã, não?
- Juro que estava ali um senhor à espera de alguém… ele é que deve ser o seu Cavaleiro Andante. E não é nada do que está a pensar… eu não quis ofendê-la, acredite.
Então ela acalmou-se, caindo em si:
- Está bem, pronto, acredito. Mas a verdade é que eu não vejo ninguém aqui, além de si. Só se esse senhor não ficou satisfeito com o que viu e foi-se embora… – agora a voz era de uma tristeza confrangedora – e, se calhar, teve toda a razão. Já não tenho idade para isto… não sei o que me deu para pôr o anúncio! Não sou nada assim, é raro pintar-me e nunca me vesti desta maneira. Sabe, é a solidão que nos empurra para estas coisas… nunca casei, não tenho filhos, a única companhia que tive na vida foram os inquilinos de um quarto que alugo… acredite, foi a primeira vez que fiz isto… ah, mas juro que nunca mais caio noutra, ou não me chame Josefina Saraiva!! Estou tão envergonhada…
- Josefina Saraiva??!! – Pela segunda vez naquela tarde, fez-se luz na cabeça de Paulo César: à sua frente, quase quarenta anos depois, choramingava, acabrunhada, a mulher que o tinha ridicularizado no refeitório da fábrica, perante todos os colegas!

Mas tudo se tinha esfumado com os anos: a raiva, a humilhação, até o desconforto. Restava, apenas, um vago enternecimento por aquela figura frágil e carente, que já tivera um dia toda a arrogância da juventude. Ao mesmo tempo que chegava a esta conclusão, descobriu também como era reconfortante reencontrar alguém do seu passado, alguém com quem partilhar todas as memórias que estavam aprisionadas dentro do seu coração. Olhou-a, comovido, reflectindo em como eram ambos vítimas da mesma sorte, afinal: uma enorme e irremediável solidão. Irremediável? Paulo César deu consigo, numa fracção de segundo, a tomar a decisão mais importante da sua vida. Endireitando-se na cadeira aclarou a voz, tomou balanço e disparou, antes que se arrependesse:
- Josefina, peço-te perdão. Menti-te ainda agora, não havia aqui mais ninguém à tua espera. Mas não te menti pelas razões em que estás a pensar: é que fiquei com medo de que me escorraçasses, pela segunda vez! Não me reconheces? Assim que te vi entrar, percebi que o destino nos tinha pregado uma partida: eu sou o Paulo César, lembras-te? E, se tu quiseres, gostava muito de ser o teu Cavaleiro Andante.

Ela não disse nada, sufocada, mas uma grossa lágrima abriu caminho através da camada de base que lhe cobria a cara, arrastando consigo o rímel preto e a sombra azul dos olhos. Paulo César levantou-se, limpou delicadamente com o lenço o triste borrão colorido, ofereceu-lhe o braço com um gesto galante e disse:
- Vamos, minha Rosa Solitária? Ainda temos um resto de tarde para passear, e tu não conheces o jardim do nosso bairro. É muito bonito, sabes?
 

 

(Ana Vidal, in Gente do Sul)

 

publicado por Ana Vidal às 11:31
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

O avesso do avesso

 

O Sr. Trindade, mecânico bonacheirão e atencioso que a minha Mãe tratou, há muitos anos, de uma pneumonia grave, já descobriu quem eu sou. Desde que vivo em Sintra, acontece-me muitas vezes ser interpelada na rua por gente que a conheceu bem e a adorava.

 

Vê-me passar (de phones nos ouvidos e de ténis, apressada na minha caminhada matinal) e chama-me da porta do Café Ideal: "A menina não se lembra de mim, era muito pequenina... mas eu gostava muito da sua mãezinha. Foi ela que me salvou a vida. Olhe, gostava de lhe apresentar a minha esposa. Anda cá, Carmo."

 

Recebo dois beijos repenicados da cara mais simpática que tenho visto nos últimos tempos, dou-lhes dois dedos de conversa e despeço-me, recusando, com dificuldade, o bolinho tentador que me querem oferecer à viva força. Afasto-me sorrindo, e de repente dou-me conta do nonsense: acabei de conhecer o "negativo" da velha referência: A Carmo e O Trindade.

 

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publicado por Ana Vidal às 01:12
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Domingo, 6 de Julho de 2008

At last

(At Last - Lou Rawls and Dianne Reeves)

 

(At Last - Etta James)

publicado por Ana Vidal às 23:07
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Domingo, 29 de Junho de 2008

Feira de Velharias (11)


 

A Banda

 

Acordou estremunhada, um caos de sons estridentes a fritar-lhe os neurónios depois de uma noite de absoluta paz e silêncio, como há muito tempo não se lembrava de ter tido. Não percebeu a princípio onde estava, nem porque tinham os seus sonhos de infância sido assim invadidos por clarinetes e tambores em fúria ciclópica, atacando uma música vagamente familiar que nada tinha a ver com os seus tempos de menina.

A música… sim, era a “Grândola, vila morena”, e o dia… claro, o 25 de Abril.
Aos poucos voltou à realidade, à vida, ao presente doloroso. Estava na aldeia, naquela terra onde não pusera os pés durante tantos anos. Voltava agora, mais de 30 anos passados, e só por uma razão “de peso”. Franziu a cara num esgar de dor, enquanto os quase 120 quilos desafiavam a gravidade e tentavam erguer-se, sem consequências dramáticas, da periclitante cama de solteira. Depois de várias tentativas goradas, lá conseguiu e foi à janela, ainda a tempo de ver dobrar a esquina os últimos músicos festivos e domingueiros da banda filarmónica, num espalhafato que lhe pareceu quase grotesco.
Esquecera por completo, depois de tantos anos a viver na fleumática capital, aquele hábito ingénuo e provinciano de festejar tudo com fanfarras. Mas a verdade é que a banda da terra precisava de pretextos para sair à rua e exibir fardas e talentos, ou não valeria a pena o sacrifício das noites de ensaio, depois da dureza do dia de trabalho nos campos. E a efeméride da revolução de Abril era razão mais do que suficiente para festejar.
Ela é que não tinha nada para celebrar: voltara à terra para se isolar (os médicos tinham-lhe chamado descansar, recuperar e outras palavras animadoras, mas ela sabia bem que era para conseguir vencer-se a si própria, longe das testemunhas habituais). Enquanto se olhava no espelho gasto da casa de banho, reviu mentalmente o último ano da sua vida e as razões que a tinham levado até ali: o colapso inevitável do casamento, a profunda depressão em que caíra, o internamento por tentativa de suicídio, a longa e penosa terapia e, finalmente, aquela luz ao fundo do túnel, ainda ténue, ainda difícil de alcançar, mas a única a que podia agarrar-se. “Vamos avançar, Florinda. Acho que agora já está pronta para o próximo passo, a banda gástrica. Verá como 40 quilos a menos farão milagres pela sua auto-estima! Mas tem que colaborar, ter muita força de vontade e fazer desse objectivo uma obrigação sagrada. A banda vai ajudá-la, claro, mas sem a sua determinação, nada feito… Posso contar consigo?” O Dr. Freitas tinha mais fé em si do que ela própria, ou então disfarçava bem. Parecia muito confiante e sorria sempre como se o mundo fosse uma festa interminável, o que chegava a ser irritante. Respondera que sim, claro. Que podia contar com ela. Que faria tudo para voltar a ser a mulher segura que fora um dia, milénios atrás.
E aqui estava agora, também por sugestão dele: “Mude de ares. Aproveite a baixa e vá até um sítio onde se sinta bem. Afaste-se de todas as suas rotinas, concentre-se em si. Uma vez na vida, mulher, pense SÓ em si!” Pensou, durante alguns dias. Mas não tinha dinheiro para viagens e a baixa psiquiátrica retirava-lhe uma fatia substancial do ordenado, já de si diminuto. O médico ganhava muito bem, com certeza, e não percebia que os doentes não eram milionários…
Mas sabia que ele tinha razão. Tinha que sair dali, do cenário da sua tragédia, para poder respirar fundo e reerguer-se. Os colegas de escritório, os vizinhos, até as meninas do supermercado tinham testemunhado cada lágrima perdida, cada quilo ganho. O marido abandonara-a com alarde, trocara-a por uma mulher mais nova e do bairro também, conhecida de todos. E os dois falavam… se falavam! Justificavam o adultério com motivos que ela nem sequer podia negar: o seu desinteresse crescente pela casa, o sexo impossível com um “monstro” que já nem podia mexer-se, a incapacidade de dar-lhe filhos, a fixação obstinada na comida como tábua de salvação. Sim, ela sabia que tinha ajudado a tornar sustentáveis aqueles argumentos.
A única solução que encontrara era esta, o regresso à aldeia. Os pais tinham morrido há muitos anos, não tinha irmãos. Aquela velha casa pertencia-lhe por direito, embora nunca tivesse vindo reclamá-la. A chave tinha estado, desde que ficara vazia, nas mãos de uma vizinha que a vira nascer. O marido detestara sempre a vida da província, nem de férias lá quisera ir nunca. E ela, por inércia e desgosto da falta dos pais, deixara-se também afastar, sem resistência.
Mas tudo isso era passado, agora tinha que concentrar-se em si. O médico prevenira-a contra pensamentos mórbidos e recorrentes, que o seu próprio ego maltratado construiria para impedir a cura e justificar recaídas. Tinha que derrotar a compulsão pela comida, a tentação do precipício. Talvez as recordações alegres da sua infância lhe devolvessem a auto-confiança de que precisava para vencer aquela batalha. Chegara na véspera, à noitinha já, e só a vizinha sabia da sua presença ali porque lhe deixara a chave no vaso de sardinheiras da porta.
A noite tinha sido estranha, sem os sons da cidade a que estava habituada. A casa cheirava a mofo mas estava limpa, e qualquer coisa no ar despertara em si uma comoção e uma alegria que há muito tempo não conhecia.
Passou a mão pelo abdómen, dorido dos cortes e pontos recentes. A banda lá estava, ainda por insuflar, por enquanto só a marcar presença. Haveria de ter o seu papel na nova Florinda, lá mais para a frente, segundo lhe explicara o médico. Para já, e até as suas entranhas se adaptarem ao corpo estranho que se lhes colara, a função da banda era meramente psicológica e só com a sua própria força de vontade podia contar. Mas, caramba – concluiu com estranheza – como podiam os médicos confiar na força de vontade de doentes compulsivos, que se sujeitavam àquela provação exactamente porque a não tinham? Não era pedir de mais? Para que servia então a banda, se, quando se pudesse contar com ela, o principal trabalho já estava feito? Começava a achar tudo aquilo muito falível, mas tinha que colaborar. Prometera ao médico e a si própria. A mudança já anunciava alguma coisa, pelo menos. Sentia-se renovada e quase feliz, com o ar do campo e a distância que interpusera entre si e as suas mágoas. Como dizia a canção, este era o primeiro dia do resto da sua vida. Respirou fundo e resolveu sair á rua.
Por todo o lado ressoava a música da filarmónica, que percorria as ruas e haveria de parar no coreto da praça, com toda a pompa e circunstância. Dirigiu-se para lá, curiosa. Alguns ainda a conheciam, quase toda a população tinha a idade dos seus pais e avós. Percebeu que a olhavam com comiseração, o corpo disforme a suscitar comentários e suposições para mais tarde, quando ela virasse costas. Um bando de crianças passou a correr e empurrou-a com violência, apontando-a entre gargalhadas. Começou a sentir-se mal, a velha insegurança a voltar aos seus domínios de sempre. Sentou-se num dos bancos da praça, cada vez mais enervada.
O dia era de festa. Em volta do coreto tinham acampado os feirantes, num estardalhaço de sapatos, roupas, cestos, galinhas, alfaias agrícolas e cassetes piratas. Um frenesim de gente, que comprava e vendia tudo. Os altifalantes anunciavam, aos berros, um circo com feras verdadeiras e artistas de todo o mundo, “como nunca se viu por cá”. Começou a ficar tonta com a poeirada e o barulho crescente da banda que se aproximava, ameaçadora. Todo aquele espectáculo a atordoava e repelia, mais do que lhe devolvia recordações de infância. Tinham sido muitos meses de total fragilidade, sabendo-se vigiada e protegida por médicos e terapeutas, e agora estava entregue àquela voragem medieval. Sozinha e longe do seu ambiente. O abismo estava em todo o lado, afinal, porque estava dentro de si.

Já em desespero, olhou em volta, à procura de um porto de abrigo. Encontrou-o, finalmente, na barraca das farturas e do pão quente com chouriço. Ao terceiro naco já sorria, totalmente descontraída, com a mão sobre o estômago onde repousava a banda oculta. E assim ficou, feliz de novo, a ver a banda passar.

 

(Publicada pela primeira vez em 11/05/2007)

publicado por Ana Vidal às 23:02
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Domingo, 15 de Junho de 2008

Bom Domingo!

Para hoje, uma sugestão diferente: a fantástica banda sonora Mararia (premiadíssima), do meu querido Pedro Guerra, para o filme do mesmo nome que ainda não consegui apanhar no clube de vídeo. A música, essa, conheço-a há muito tempo e adoro. Ouçam-na com o som bem alto, como se deve ouvir boa música. Bom Domingo! 

 

(Mararia - Pedro Guerra)

 

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publicado por Ana Vidal às 11:44
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Domingo, 1 de Junho de 2008

Dia da Criança?

Hoje, em vez de dizermos em posts como as crianças são bonitinhas e engraçadas, em vez de lamentarmos as que sofrem e passam fome, as que não têm acesso ao mais básico conforto, as que vivem em cenários de guerra ou são vítimas de todo o género de abusos, façamos alguma coisa de concreto. Se não podemos acudir a todas elas, tratemos de ajudar UMA.

 

Hoje, parece-me um bom dia para divulgar esta notável campanha da Diocese de São Tomé e Príncipe: dando a uma criança uma oportunidade de desenvolver-se mais harmoniosamente, estaremos a melhorar também todas as vidas que ela vier a tocar, no futuro, com os instrumentos que lhe demos.

 

Faça de conta que tem (mais) um filho - distante, é certo, mas presente pelas notícias que lhe irá mandando, dos seus sucessos escolares e pessoais. O contributo que nos é pedido é mínimo, quase ridículo no nosso orçamento (mesmo que apertado, como infelizmente está o de quase todos nós) - não mais do que uma jantarada fora, uma peça de roupa de marca ou uma ida ao futebol.  Aliás, o que se nos pede é uma participação à medida das nossas possibilidades, não mais do que isso. Por isso esqueça o preconceito, esqueça as conotações religiosas desta iniciativa, mesmo que não se identifique com elas: quem a toma é quem está no terreno, logo, quem pode intervir com mais eficácia e conhecimento de causa. E o que está em jogo é infinitamente superior a esses pormenores.

 

Eu já decidi: vou ter um afilhado em São Tomé.

 

 

******************************************

 

Diocese de São Tomé 

 

Apadrinhamento à distância

 

 

A sua ajuda poderá ter um grande impacto na vida de uma destas crianÇas

 

 

 

 

A sua participação ou pedido de informações deve ser

dirigida ao Bispo D. Manuel Santos, CMF

 

Via email para: manuelsantoscmf@hotmail.com

 

D. Manuel Santos CMF
Diocese de São Tomé
São Tomé e Principe
Tel +23 992 9505

 

 

Uma escolha de paz para o desenvolvimento

 

- No mundo, e em particular em São Tomé e Príncipe, muitas crianças são vítimas diariamente da marginalização, da fome, das doenças, da violência e da pobreza.

 

- Neste país falta o acesso à alimentação, à água potável, à assistência médica, à educação de base, faltam os direitos fundamentais do homem.

 

- A Diocese de São Tomé e Príncipe, com esta campanha de apadrinhamento à distância, tem-se empenhado em representar os mais necessitados do mundo.

 

- O apadrinhamento à distância é um grande esforço de solidariedade humana e de participação no desenvolvimento dos povos.

 

- O apadrinhamento à distância aproxima-o de uma criança, da sua família e da sua comunidade, torna-o um elemento activo e participante no desenvolvimento e no crescimento das comunidades em vias de desenvolvimento e permite-lhe colaborar para a sensibilização de muitas outras pessoas como você.

 

A sua participação é essencial

 

- Receberá um postal informativo e descritivo dos programas que implementamos, bem como uma fotografia da criança que adoptará à distância.

 

- Durante o ano receberá também duas mensagens da criança, por ocasião das épocas do Natal e da Páscoa, e um relatório anual sobre o trabalho desenvolvido no terreno.

 

Apadrinhamento à distância significa desenvolvimento

 

- Não pretendemos unicamente distribuir fundos destinados à aplicação em situações de emergência. Visamos o planeamento de um projecto que construa, no decorrer do tempo, um instrumento moral e humano sólido e uma estrutura para o desenvolvimento no interior da comunidade local, da criança à família.

 

- Uma vez individualizada uma área de intervenção seleccionada pelos nossos contactos locais, laicos ou missionários, planificamos em conjunto com as famílias, operadores e autoridades locais, as intervenções de emergência que se impõem, que fazem parte de um programa para combater a longo prazo as causas que estão na base da pobreza.

 

- Através do contacto com a criança sustentada à distância, o seu apadrinhamento contribuirá para proporcionar à criança a escolha de um futuro, apoiará a sua família e contribuirá para o desenvolvimento e para o bem-estar da comunidade em que se insere.

 

- Por estes motivos, os nosso programas não se limitam a fornecer bens materiais e estruturais, mas alargam-se à participação e envolvimento das comunidades locais no fomento do desenvolvimento, por forma a torná-las autónomo para agirem como interlocutores directos dos seus direitos combatendo as causas da pobreza.

 

Uma longa amizade à distância

 

- Porque combatemos a pobreza juntos, o seu papel será tão importante como o nosso,


- Ajudando uma criança e a sua comunidade, num dos países mais pobres do mundo

 

- Dando vida a projectos a longo prazo que garantam melhores condições de vida e o respeito pelos Direitos do Homem;

 

- Aproximando-se de uma realidade distante através da fotografia de 1 criança, das suas mensagens e de informações sobre o seu percurso escolar.

 

 

Adenda (às 16.00h): Com uma prontidão impressionante, o Bispo de São Tomé e Príncipe já respondeu ao meu pedido de informações. Aqui fica o texto da resposta que recebi por mail, que poderá ajudar quem queira entrar nesta aventura:

 

"Agradeço a comunicação. Acho que é de facto uma iniciativa cheia de sentido, sobretudo no Dia da Criança. Para melhor organizarmos estes apadrinhamentos, decidimos que a CARITAS de Setúbal assumisse esta organização. Assim, agardecia que contactassem com essa Instituição que eles darão andamento à vossa vontade de apadrinhar uma criança em São Tomé. É um país cheio de crianças, mas com muita pobreza. Oxalá esta iniciativa nos permita colaborarmos para darmos um pouco mais de perspectivas de futuro a algumas delas.
O e-mail da CARITAS de Setúbal é:

caritas.setubal@mail.telepac.pt


Se houver alguma dificuldade, contactem-me de novo. Aqui estarei.
 
Que Deus vos abençoe!
 
+ Manuel António Santos CMF"

 

 

publicado por Ana Vidal às 12:29
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Domingo, 18 de Maio de 2008

Feira de Velharias (9)

A minha Ericeira 

 

A tua Ericeira , Leonor, teve o condão de lembrar-me a minha (não muito diferente): a casa encostada ao Parque de Sta Marta, onde assisti embasbacada ao primeiro passo do Homem na Lua; o Café do Xico, onde se cozinhavam os namoros de cada Verão; o ringue de patinagem do Parque, onde exibíamos equilíbrios e piruetas para impressionar os possíveis candidatos, ao som do Calhambeque de Roberto Carlos; o Cinema do meu primeiro filme, "Sete noivas para sete irmãos" (!); os bolinhos de coco da Pinta, comidos quentes e em quantidades tais que enjoei o coco até hoje; o Ouriço, onde dei o meu primeiro beijo, de dentes ferozmente cerrados; a travessia a nado da praia grande para a praia do sul, que o meu pai fazia e nos arrepiava (os banheiros deixavam-no fazer a proeza, só a ele, porque o sabiam um nadador prodigioso); o Jogo da Bola depois da praia, onde combinávamos programas tão inocentes como nós; os passeios com os amigos até às Furnas, antes de jantar, com um frio de quase Inverno e um cheirinho a maresia incomparável... e tantas, tantas outras coisas mais, todas elas lembranças de tempos felizes.

 

Obrigada por me teres trazido à memória essa Ericeira perdida, onde só voltei há 2 ou 3 anos por insondáveis razões. Apesar de tudo, a essência da "nossa" Ericeira ainda lá está. Betão à parte, ainda encontrei a sua magia quase intacta.

 

Nota 1: Resposta à pergunta de Leonor Barros (Geração Rasca, 21 de Junho) - "E a tua Ericeira, como é?"

 

Nota 2:  A "minha praia" de sempre não é a Ericeira, mas o Baleal. Já falei nele aqui também. Acontece que, por circunstâncias que agora não interessa referir, passei na Ericeira alguns Verões fulcrais da minha adolescência, como se pode perceber pelas recordações que tenho dessa praia maravilhosa. E no meu coração cabem muitos lugares, como cabem muitas pessoas.

 

(Publicado pela primeira vez em 25/06/2007)

 

publicado por Ana Vidal às 01:44
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Domingo, 20 de Abril de 2008

Feira de Velharias (6)

A propósito da abertura da temporada taurina do Campo Pequeno, e correndo o sério risco de afugentar uma boa parte dos visitantes e comentadores que ao longo de um ano o Porta do Vento foi juntando (facto de que muito me orgulho, devo dizer), republico hoje este texto que reconheço ser polémico e nada "politicamente correcto". Espero que isso não aconteça. Confio na argumentação que apresento em minha "defesa", e não tenho nada a esconder, na verdade. Sei que entenderão isso, mesmo estando em absoluto desacordo.





Um
Olé! nos genes


Eu já suspeitava. Não queria dar muita confiança a esse pensamento recorrente, mas a verdade é que já suspeitava: há um Olé! no meio dos meus genes, colado aos outros que nem uma lapa, e não posso fazer nada para pô-lo a andar.

Comprovei-o sem enganos possíveis, no domingo passado, e ainda estou em choque. Foram precisos vários dias (hoje já é 5a feira) para digerir a descoberta e ser capaz de verbalizar esta confissão. Como aconteceu? Eu conto. No domingo passado fui "aos toiros". E gostei. Muito. E também fiquei a conhecer-me melhor.

Pronto, está dito e assumido. Vá lá, blogueiros civilizados e sofisticados, politicamente correctos, defensores dos animais, intelectuais, zen, vegetarianos e macrobióticos, gays e outros mais que agora não me lembro, aproveitem bem esta borla que vos dou: crucifiquem-me, que eu já confessei tudo. Se quiserem açoitar-me e lançar-me à fogueira, estejam à vontade. Mas não sem primeiro me darem o direito a meia dúzia de últimas palavras.

Há muitos anos que não punha os pés numa corrida de toiros e fui acumulando, com o tempo, um misto de saudade, desinteresse e expectativa, sem saber que sensações me esperariam de novo, se um dia voltasse a assistir a uma. Será que ainda vibraria com aquilo? Ou será que a minha condição de cabeça pensante, razoavelmente esclarecida e já urbana, me teria afastado irremediavelmente da barbárie?

Foi nesse estado de espírito, inquieto e curioso, que resolvi aceitar o simpático convite de uns amigos. O desafio era total, porque nos acompanhavam duas ferozes opositoras daquele espectáculo: uma já veterana, com experiência no assunto e opinião bem calcificada, e a outra em absoluta estreia, mas firmemente decidida a odiar tudo aquilo.Mas, dizia eu, o que mais me atraiu lá foi saber o que se passaria comigo. Pois bem, agora já sei. Mal pus um pé na praça - não na arena, que ainda não enlouqueci de todo - deu-se uma estranha transfiguração em mim: o coração começou a bater mais depressa, um rubor de antecipado prazer devolveu-me as cores saudáveis da infância e uma espécie de beatífica reverência deixou-me em estado de graça, tomando-me de assalto todas as emoções. Ali estava eu, cinco sentidos alerta e prontos a vibrar ao mínimo estímulo. Neurónios? Nem um só de sentinela. Todos de férias, a banhos. Código moral? O que é isso, nome de sobremesa? Logo ao primeiro impacto me deixei embriagar pelas cores, pelos cheiros, pelo sons. Foi como se uma maléfica Mrs. Hyde, acordada de repente, tivesse dobrado em quatro e guardado no bolso, com um sorriso de triunfo, a respeitável Dra. Jekyll que costuma estar de serviço em mim. Ali, Mrs. Hyde estava em casa. E eu em transe.

Para dizer a verdade, a corrida nem sequer foi nada de especial. Foi "à portuguesa", ou seja, sem toureio a pé. Houve tareia séria nos forcados, os toiros foram vaiados porque eram mansos e completamente indiferentes aos pobres cavaleiros, que faziam tudo o que podiam para não sairem dali vergonhosamente derrotados. Reparei que nada mudou muito desde a longínqua última vez que tinha assistido a uma corrida de toiros. Talvez só o público tenha refinado um pouco: que não se pense que é só constituido por marialvas acéfalos. Nada disso. Lá estavam, felizes e entusiasmados como qualquer outro aficionado, respeitáveis políticos de esquerda e de direita, alguns intelectuais bem conhecidos da nossa praça, artistas e até homens da ciência, para além, claro, dos omnipresentes colunáveis da praxe.

Nada disso me interessou muito: eu estava concentrada no meu próprio sótão interior, descobrindo velhas chaves de gavetas secretas que julgava perdidas para sempre. Mas não, ali estavam elas. Enferrujadas, poeirentas, mas ainda a funcionar. Experimentava-me, punha-me à prova no meu mais íntimo laboratório, testando fórmulas antigas em pipetas fumegantes e aguardando ansiosamente os resultados. Nesse estado letárgico de semi-lucidez dei comigo a corrigir, com uma certa arrogância snobe, os comentários leigos dos urbanos que me acompanhavam: não se diz "tourada", diz-se "corrida de toiros". E aquilo não é uma capa, é um capote. Aqueles que entraram agora não são toiros, são cabrestos. Não, nenhum toiro vai para dentro sem ser pegado pelos forcados. Se a pega não puder ser de caras, será de cernelha. Se ganham muito? Não, nem um tostão. São amadores, arriscam a vida por um jantar e uma boa dose de adrenalina. O forcado não está a fazer ski, está a rabejar! Raspar no chão e berrar não são sinais de bravura num toiro, mas sim de mansidão. E entredentes, resmungava: Ignorantes!...

Não vou defender - não caio nessa! - o espectáculo a que assisti com um prazer confesso. Não é possível justificá-lo racionalmente, porque é indefensável. É uma coisa de paixão, de emoção pura. Que apela ao que há de mais primitivo e pantanoso em nós, as entranhas onde escondemos todos os nossos instintos inconfessados. Os que caem na armadilha de justificar o fenómeno, com teses mais ou menos elaboradas, acabam desarmados e enredados na sua própria teia de argumentos condenados à nascença. Ouço-os dizer que é uma tradição e que as tradições constituem a identidade de um povo, e pergunto-me porque cuidamos tão mal de outros patrimónios bem mais edificantes, como o arquitectónico e o artístico, por exemplo. Ouço-os dizer que os toiros atraem turistas e os turistas aumentam as receitas do país, e pergunto-me se será para afugentá-los depois com o caos urbanístico das nossas costas. Ouço-os dizer, com um certo orgulho, que o toiro bravo seria já uma espécie extinta se não fosse a tauromaquia (porque só serve para esse efeito) e pergunto-me se vale a pena prolongar a vida de uma espécie apenas para esse fim perverso. Ouço-os dizer, genuinamente convictos, que a dignidade do toiro é respeitada ao ser-lhe dada a oportunidade de bater-se numa arena com o toureiro, e pergunto-me quem terá ensinado ao animal o conceito humano de dignidade, com a certeza de que este trocaria, de bom grado, o presente envenenado da dignidade por um punhado de erva fresca e uma manada de vacas para se entreter. Ouço-os dizer, ainda, que os toiros bravos não sentem a dor por causa da descarga de adrenalina, e pergunto-me muito seriamente que raio de desculpa é essa, e como se pode afirmar que um ferro aguçado a entrar num corpo vivo não causa dor. Ouço-os dizer, finalmente, que os espanhóis é que são cruéis porque matam o toiro na arena e nós não, e pergunto-me em que é que isso nos iliba da crueldade e que diferença fará ao bicho o sítio da matança, se é morto na mesma.

Diz-me o cérebro (sempre que está a funcionar), que de nada nos serviu a evolução da espécie humana se ainda nos deleitamos com espectáculos que evocam e recriam os mais bárbaros rituais dos nossos antepassados. Que uma coisa é matar para sobreviver - todos os animais o fazem, afinal - e outra, bem diferente, é torturar e matar por puro gáudio. Nesse capítulo, é sabido, somos mais irracionais do que todos os outros irracionais juntos. E o que nos diz esse facto incontestável? Uma coisa muito simples, que não nos agrada nada constatar: apesar de milénios de formatação civilizacional, existe em nós um primitivismo atávico e inultrapassável, ainda que amordaçado e obrigado a hibernar à força. E que convém não ignorá-lo, porque é perigoso e está apenas latente, não morto. Mal de quem não entende isso, e não está atento aos sinais. Os desprevenidos e os que recusam aceitar a sua condição de perigo potencial, acabam muitas vezes por transformar-se num perigo real, numa bomba relógio que explode sem pré-aviso. São aqueles casos que nos entram todos os dias pela casa dentro, nos jornais televisivos, e nos deixam a colher da sopa suspensa, a meio caminho da boca: estudantes enraivecidos que abatem os colegas estupefactos a rajadas de metralhadora, só porque a namorada os traíu; mangas-de-alpaca exemplares que viram assassinos de colegas de escritório, porque não foram promovidos; mães extremosas que atiram filhos pela janela, fartas da prisão que eles significam; inofensivos velhinhos de asilo que pegam fogo ao estaminé e assistem à cena a rir à socapa, deixando cair as dentaduras; caçadores de domingo que abatem um parceiro ao fim do dia, porque não chegaram a acordo na contagem das rolas. Karl Marx insurgiu-se contra a religião, por esta ser o ópio do povo. Mas sabia bem que o povo precisa de um qualquer ópio para manter-se estável e razoavelmente dócil, suportando as rotinas e as muitas humilhações que lhe cabem sem mostrar os dentes da besta que tem lá dentro. O futebol cumpre essa mesma função cada vez mais, um pouco por todo o lado. Ali se descarregam muitos ódios e frustrações, que de outro modo poderiam ser fatalmente disparados em imprevisíveis direções. É só ver, nas multidões de adeptos, pacatos chefes de família prontos a matar pelo seu clube, em qualquer discussão sem sentido.

Somos todos voyeurs (ninguém está imune), e nada nos satisfaz tanto como a desgraça ou o ridículo dos outros. Por alguma razão nos rimos, instintivamente, quando alguém cai e se magoa. Já pensaram nisso? E nas corridas de automóveis e motas, não estamos sempre à espera de um acidentezinho para "apimentar" a coisa? Que graça teriam os campeonatos de desportos aquáticos sem meia dúzia de quedas aparatosas? Como ignorar, honestamente, essa faceta sádica e perversa que há em todos nós? É assim que somos, queiramos ou não. Exterior sofisticado, interior mais do que duvidoso. E enquanto houver emoções em nós, enquanto houver zonas de penumbra, enquanto não formos todos robots, assim continuará a ser.

Em tudo isto pensei nestes dias, tentando encontrar uma explicação para o insustentável. Porque fui a uma corrida de toiros e fiquei a conhecer-me melhor, rendo-me à evidência: tenho um Olé! nos genes que vai morrer comigo. Preciso é de tomar conta dele, para que não se reproduza.

Nota: Numa patética e ingénua tentativa de não chocar mais ainda os espíritos impressionáveis, escolhi arte para ilustrar este post (um desenho de Pablo Picasso), em vez das tradicionais fotografias dos cartazes das corridas de toiros. Não foi de propósito, mas parece que foi escolhido a dedo: Picasso era um pintor talentoso e sensível, mas também um ser humano execrável, que torturava as mulheres e os amigos e ignorava os filhos. Apreciador de toiros, sim. Era, ele próprio, um bom exemplo dessa dualidade de que somos feitos, afinal.

(Publicado pela primeira vez em 6/6/2007. Alguns comentários da primeira publicação deste post ficaram na caixa de comentários, o que pode fazer alguma confusão. Mas não consegui apagá-los, como costumava fazer no Blogger. Há coisas que ainda não domino no Sapo....)
 
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publicado por Ana Vidal às 11:55
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Domingo, 13 de Abril de 2008

Feira de Velharias (5)


Cada vez tenho menos paciência para a política e para os políticos. Agradeço-lhes a vocação ou a ambição, porque cada uma delas (ou ambas) os levaram a lutar por lugares que eu detestaria ter que ocupar. E alguém tem que fazer o trabalho deles, isso é inegável. A anarquia pura é uma utopia, bonita mas impensável na prática.
O que me parece é que, mesmo os mais idealistas e bem intencionados, acabam por ter que dançar conforme a música que encontram já a tocar. Os que não se adaptam e se recusam a fazer concessões, tornam-se demasiado incómodos e são convidados a sair do salão, a bem ou a mal.
Mas há os que, realmente, parecem ter nascido para essa vida. Entram a matar e cortam a direito, fazem o que acham ser preciso, a qualquer preço, e têm um (natural?) grau de distanciamento e de insensibilidade aos problemas do comum dos mortais que lhes permite nunca olhar para trás e até, quem sabe, dormir tranquilos.
É o caso do nosso primeiro ministro José Sócrates (um nome de uma enorme responsabilidade, caramba!). Tem a frieza de um cubo de gelo e a arrogância de um César. Chegou a afirmar sobre si próprio, mostrando como se tem em grande conta: «Sou um animal feroz» (Expresso, 24/07/2004). Não sei se é um animal feroz, mas é, pelo menos, ferozmente indiferente.
Eu, que não sei falar politiquês e prefiro a linguagem da poesia, dedico-lhe este magnífico poema de Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José?"* , com a romântica ilusão de que o leia algum dia e que ele o faça pensar um pouco no quick step que nos tem obrigado a dançar, quando nem para a valsa temos sapatos...
 
E AGORA, JOSÉ?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
 
 
Nota: Descobri, entretanto, que Sócrates nasceu em Vilar de Maçada. Começo a compreender os seus traumas e até entendo que tenha fugido de lá, mas, bolas!, tinha que se vingar em nós??
(* Clique aqui para ouvir o poema, dito pelo próprio CDA)
(Publicado pela primeira vez em 1/6/2007)
 
publicado por Ana Vidal às 11:29
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Feira de Velharias (4)


أسامة بن محمد بن عود بن لادن

É assim o nome de Ossama Bin Laden em Árabe, na minha opinião a mais bonita escrita do mundo. O que prova a sabedoria de um velho ditado popular: "Nem tudo o que luz é ouro".
(Nota: Publicado pela primeira vez em 19-07-2007)
 
publicado por Ana Vidal às 16:37
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Domingo, 30 de Março de 2008

Feira de Velharias (3)

Já ouviu falar?

- Já ouviu falar na Cidadela de Cascais, nos chalets do Monte Estoril, no Jardim dos Passarinhos, na Praia dos Pescadores, na pastelaria Garrett, no Casino Estoril?

-Não, não faço ideia. O que são todas essas coisas com nomes curiosos?

- São enfeites simpáticos e bonitinhos, que puseram à volta do Estoril Sol Residence para lhe dar um charme especial e um certo arzinho retro que satisfaz o gosto sofisticado dos futuros moradores.
- Ah, sim, o Estoril Sol Residence conheço, evidentemente!! Do resto é que nunca tinha ouvido falar...
(Nota: Publicado pela primeira vez em 15/07/2007. Clique para ver o video)
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publicado por Ana Vidal às 11:51
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Domingo, 23 de Março de 2008

Saudade

«A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

- Mas o que é a saudade? - perguntou a Menina do Mar.

- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.»
(A Menina do Mar - Sophia de Mello Breyner Andresen)
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publicado por Ana Vidal às 23:43
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Domingo, 9 de Março de 2008

Pour la beauté du geste

(As tu déjá aimé - Alex Beaupain)

As-tu déjà aimé pour la beauté du geste?

As-tu déjà croqué la pomme à pleine dent?

Pour la saveur du fruit sa douceur et son zeste

T'es tu perdu souvent?

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publicado por Ana Vidal às 18:47
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Sunday, bloody Sunday

À chuva, não tenho a destreza deste senhor.
Sou mais parecida com este.

Mas tenho ainda mais azar do que ele. Em vez da lama, que sempre é macia, o que me esperava ontem era um chão de pedra. Resultado: um serão nas Urgências da Cuf, à espera de uma radiografia que confirmasse o que eu já sabia - uma fractura do nariz. Mas não é tudo: na sala de espera, para entreter os pacientes (acidentados, quase todos), havia um plasma que passava videos de... quedas!!! Com gargalhadas de fundo e tudo. Os hospitais portugueses têm um estranho sentido de humor.
Enfim. Pior serão de Domingo, só a ver os programas da TVI.
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publicado por Ana Vidal às 12:08
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Domingo


Por muito blue que me ponham os domingos, o surpreendente StatCounter salva-me sempre da neura. Hoje, diz-me que houve gente que veio aqui à procura de respostas para dúvidas existenciais profundas, eu diria mesmo lancinantes. Como não gosto de deixar ninguém angustiado, vou tentar ajudar. Mas não prometo grandes revelações. Ora bem:
Para quem procura "mulheres loiras na praia", lamento informar que não é a minha especialidade. Não aconselho a Suécia, por duas razões: fica um bocadinho longe e as praias são frias. Enfim, ligeiramente. Mas acho que, sem ter que procurar muito e se não for muito exigente na qualidade das tintas, há-de encontrar muitas loiras nas praias portuguesas.
A quem está desesperado por "chapéus femininos matinais para casamento", seja para um casamento mesmo ou só por fétiche, lembro a sempre airosa e tão útil touca de banho, que de manhã fica sempre bem.
Finalmente, vá-se lá saber porquê, há quem espere de mim "ideias de como fazer um arrastão no São João". Por muito boa vontade que eu tenha, meu caro, isso é que eu não sei mesmo. O São João, para mim, é mais sardinhas e manjericos. Mas não corte já os pulsos. Posso falar-lhe da experiência de Carcavelos, que parece ter corrido muito bem: junte muitos amigos (de preferência dos que morem nas Marianas, Cova da Moura, Chelas e outros bairros chiques como estes), organize com eles um passeio à praia, em hora de enchente, marque o dia 24 de Junho para o evento, e... divirtam-se! Com sorte, até vai encontrar o amigo que anda à procura de loiras na praia e, quem sabe, ficam amigos para sempre e fazem juntos muitos outros arrastões...
E é tudo por hoje. Espero ter sido útil, não quero que vos falte nada.
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publicado por Ana Vidal às 18:16
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

publicado por Ana Vidal às 23:33
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Grande Rita

(Mania de você - Rita Lee e Milton Nascimento)

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publicado por Ana Vidal às 23:58
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Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Kids are a girl's best friends

That's why some of us have to get great boobies and nice legs... no matter how!

publicado por Ana Vidal às 11:56
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Nada de novo a oeste


Onde anda a formosura dos gordos? E a sua mítica, e apreciada, bonomia? Sumiram para parte incerta, junto com os próprios gordos. O que há agora são obesos, um eufemismo que, em vez de atenuar, curiosamente acentua a ofensa. Os obesos são uma espécie doente, repugnante e indigna do convívio social. Pelo modo como são tratados, parecem, também, idiotas.


É bom afastarmo-nos algum tempo dos can-cans caseiros, para mudar de cenário e arejar as ideias. Mas, quando chegamos de viagem, temos a sensação de ter estado noutro planeta e de já nada saber do que se passa por cá.
Li hoje a longa crónica do Alberto Gonçalves, no DN, um óptimo resumo dos últimos acontecimentos que têm agitado o burgo. E fiquei mais ou menos esclarecida. Afinal, não há nada de dramaticamente diferente por cá (dramático é quase tudo o que toca à nossa economia, mas não é novidade). Tudo previsível: um primeiro ministro que continua a rir-se na nossa cara, à descarada; o costumeiro inchaço de certos egos nacionais; a pirotecnia inconsequente dos políticos, a disfarçar misérias; algumas intrigas e escândalos sociais em versão miniatural, a apimentar conversas de cabeleireiro.
Enfim, nada de novo a oeste. O meu país do costume, a ver a banda passar.

publicado por Ana Vidal às 15:46
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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Something in the way they sing

Curiosidade de Domingo (já quase segunda-feira...): o videoclip de SOMETHING, uma das músicas dos Beatles de que eu mais gosto. Encontrado nesta fã incondicional dos 4 magníficos.
Boa semana!

publicado por Ana Vidal às 23:45
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In the wind

(Katie Melua - Blowin' in the wind)

How many roads must a man walk down, before you call him a man?

How many seas must a white dove sail, before she sleeps in the sand?

How many times must the cannon balls fly, before they're forever banned?

How many times must a man look up, before he can see the sky?

How many ears must one man have, before he can hear people cry?

How many deaths will it take till he knows that too many people have died?

How many years can a mountain exist, before it's washed to the sea?

How many years can some people exist, before they're allowed to be free?

How many times can a man turn his head, pretending he just doesn't see?

The answer, my friend, is blowin' in the wind.

(Bob Dylan)

publicado por Ana Vidal às 02:38
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Domingo, 11 de Novembro de 2007

Puerta di Wind

Hoje é domingo, dia de ócio por excelência. E também de fazer coisas fúteis para encher o tempo. Talvez por isso, lembrei-me de um exercício que me diverte pelo absurdo: usar o tradutor Google que instalei neste blogue, para saber o que lê aqui quem não fala português. Porque "que los hay, los hay". Já tenho recebido mails de estrangeiros comentando o que lêm, dando sugestões, criticando, etc. E é aí, exactamente, que está o problema: no que eles lêm, auxiliados por esta ferramenta perversa e delirante, que distorce tudo e pensa por mim, alterando o sentido daquilo que escrevo.
Vou mostrar-vos. Pego num parágrafo qualquer (por exemplo, o primeiro do post anterior) e traduzo-o para 4 línguas: francês, espanhol, italiano e inglês. Vejam o resultado. Depois disto, nem me atrevo a adivinhar o que acontece com línguas mais distantes da nossa, como o chinês, o sueco ou o árabe.
Nota: Tomei a liberdade (como dizia o Ambrósio à Mme Ferrero Rocher) de salientar as partes mais cómicas das traduções. Reparem, para começar, na tradução sempre criativa de um título simples - De A a Z)
1. Francês (frenchman, como chama o tradutor à língua de Molière) - De à Z

Si j'avais qu'il apprendra toutes les leçons de vie dans une heure et demie, ainsi que dans une espèce de cours intensif et désespéré, choisirait probablement le film « Ryan's daughter », de David Lean. Il est là tout : le Bien, le Mal et tout ce qui a in between, montrés d'une manière il sublime.

(Apesar do título e dos erros de construção, pas mal. É bastante legível.)

 

2. Espanhol (spaniard, para o Google) - De un Z

 

Si tuviera eso para aprender todos los lições de la vida sobre una hora y media, tan bien como en una especie del curso intensivo y desesperado, elegiría probablemente la película elRyan a la hija”, de la inclinación de David. Es todo allí: el bueno, el mal y todo qué tiene entre, demostrado en una manera de la sublimación.
(A melhor, aqui, é a "inclinación de David". Para que lado se inclinará o David, na terra de nuestros hermanos?)
3. Italiano - Di una Z
Se avessi quello per imparare tutti i lições di vita in un'ora e calza, come pure in una specie di corso intenso e disperato, sceglierei probabilmente la pellicola “il Ryan alla figlia„, della magra di David. È tutto là: il buon, malvagità e tutto che cosa ha fra, indicato in un senso di sublimazione.
(Além da pérola "della magra di David", um verdadeiro mistério de identidade, a deliciosa "un'ora e calza". Como a fotografia que acompanha o texto é de umas botas, talvez o Google se tenha inspirado nela)
4. Inglês (a jóia da coroa, já que é a língua-mãe do Google) - Of a Z
If I had that to learn all the lições of life in one hour and stocking, as well as in a species of intensive and desperate course, I would choose probably the film “Ryan's to daughter”, of David Lean. It is everything there: the Good, the Evil and everything what it has in between, shown in a sublime way.
(Neste caso, acrescento à brincadeira a citação de David Lean, para verem como este tradutor endiabrado não reconhece a sua própria língua e consegue dar-lhe a volta):
"My distinguishing talent is the ability you put people to under the microscope, perhaps you go one or two layers to farther down than adds to other directors. I've just begun you dare you think I perhaps am the bit of an artist. “

(Outra vez as meias. "One hour and stocking" será um espaço de tempo razoável para aprender lições of life? E vejam como é espantoso como o próprio inglês se auto-destrói, no título do filme.)
Por último, só uma gracinha. Pode estar cheia de erros, mas é uma escrita linda:
لكلّ إيمبرر تثتّي إي ليس دي فيتا في أون'ورا و كلزا, يأكل هو صافية داخل يتلاقى سبس دي كرس شديدة وديسبرتو, أنا إرادة سغليري بروببيلمنت هناك بلّيكلا "إيل فيغرن ألّا„, دلّا دي هزيلة دايفيد. تثتّو ل: إيليخيط بوون, ملفجت و تثتّو ش ها فرا, إينديكتو داخل منظّمة الأمم المتّحدة إحساس دي سوبليمزيون

E é assim este mundo misterioso das traduções do Google. Mas não é tudo mau: no fim de cada página traduzida existe, muito humildemente, um mea culpa que lhe fica bem. Diz isto:

 

"This is a computer translation of the original webpage. It is provided for general information only and should not be regarded as complete nor accurate."

Vá lá... Tirando o fétiche das meias, o tradutor até tem a noção das suas limitações.
 
 
publicado por Ana Vidal às 11:06
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Domingo, 4 de Novembro de 2007

Domingo

Domingo
escorre o dia, pingo a pingo.

publicado por Ana Vidal às 21:03
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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Dia do Senhor, dia dos senhores

Domingo, dia do Senhor. E também dia deste senhor - Serge Reggiani, que cantava assim. E que escolhia, como ninguém, as canções que interpretava. Aqui em Sarah, de Georges Moustaki. Outro senhor.

E mais outro: Joaquin Sabina, un señor irreverente e "maldito", que escreve, compõe e canta como muito poucos. (Este, dedico-o à minha homónima Ana L. da Costa, que eu sei que também gosta dele. Aqui está, Ana, com um beijinho especial.)

A pedido, aqui ficam também as letras das duas canções. Ambas são belíssimos poemas.

Sarah (Georges Moustaki)

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Les yeux cernés par les années, par les amours, au jour le jour.

La bouche usée par les baisers, trop souvent mais trop mal donnés.

Le teint blafard, malgré le fard, plus pâle qu'une tache de lune.

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Les seins trop lourds, de trop d'amours, ne portent pas le nom d'appâts.

Le corps lassé, trop caressé, trop souvent mais trop mal aimé.

Le dos voûté, semble porter les souvenirs qu'elle a dû fuir.

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Ne riez pas. N'y touchez pas. Gardez vos larmes et vos sarcasmes.

Lorsque la nuit nous réunit, son corps, ses mains, s'offrent aux miens.

Et c'est son cœur, couvert de pleurs et de blessures, qui me rassure.

Y sin embargo (Joaquin Sabina)

De sobra sabes que eres la primera,

que no miento si juro que daría, por ti, la vida entera.

Y, sin embargo, un rato cada día, ya ves,

te engañaría con cualquiera, te cambiaría por cualquiera.

Ni tan arrependido ni encantado de haberme conocido, lo confieso.

Tú que tanto has besado, tú que me has enseñado,

sabes mejor que yo que, hasta los huesos,

sólo calan los besos que no has dado, los labios del pecado.

Porque una caza sin ti es una emboscada, el pasillo de un tren de madrugada,

un laberinto sin luz ni vino tinto, un velo de alquitrán en la mirada.

Y me envenenan los besos que voy dando,

y, sin embargo, cuando duermo sin ti, contigo sueño.

Y con todas, si duermes a mi lado,

y si te vas, me voy por los tejados como un gato sin dueño,

perdido en el pañuelo de amargura, que empaña, sin mancharla, tu hermosura.

No debería contarlo y, sin embargo, cuando pido la llave de un hotel,

y a media noche encargo un buen champán francés y cena con velitas para dos,

siempre es con otra, amor, nunca contigo, bien sabes lo que digo.

Porque una casa sin ti es una oficina, un teléfono ardiendo en la cabina,

una palmera en el museo de cera, un éxodo de oscuras golondrinas.

Y cuando vuelves, hay fiesta en la cocina

y bailes sin orquesta y ramos de rosas con espinas,

pero dos no es igual que uno más uno,

y el lunes, al café del desayuno, vuelve la guerra fría

y al cielo de tu boca el purgatorio, y al dormitorio el pan de cada día.

E já agora, acabadinha de receber de um amigo que está longe, via mail, esta magnífica versão do Somewere, over the rainbow, de um outro senhor - Eric Clapton .

E assim, este domingo fala várias línguas.

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publicado por Ana Vidal às 11:30
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Domingo, 21 de Outubro de 2007

Caramels, bonbons et chocolats

A propósito de chocolates, vejam esta pérola que eu encontrei. Quem se lembra disto?

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publicado por Ana Vidal às 11:09
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brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


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aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

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