Segunda-feira, 9 de Março de 2009

Espelhos

Este é um ano de bons filmes. Entre ontem e hoje, vi dois deles: Dúvida e O leitor.  Duas histórias servidas por actores de eleição, premiados por razões evidentes. O primeiro é uma lição de representação, ou não fosse uma adaptação de uma peça de teatro. O segundo, não menos bem representado, é também adaptado de boa literatura (o livro de Bernhard Schlink já me tinha deixado rendida). Mas deixemos a forma, e vamos ao conteúdo. Em ambos, um mesmo tema, premente e eterno: o julgamento humano, a intolerância, a incapacidade de sentirmos compaixão por quem erra e a pressa de condenarmos impiedosamente quem nos lembra as nossas próprias fragilidades, não vão elas tomar conta de nós...

 

 

Em Dúvida, esse julgamento é provocado por uma mistura - perigosa como poucas - de preconceito, frustração e despeito, três ingredientes letais que se potenciam entre si e se transformam, juntos, numa arrasadora arma de destruição. O moralismo apoia-se sempre em certezas inabaláveis, que escondem invariavelmente o medo da cedência, da concessão à barreira ténue que nos separa dos nossos nebulosos limites. Espelhos que nos devolvem imagens pouco edificantes das nossas piores facetas.

 

 

Em O leitor o medo vai mais fundo, muito mais fundo. Quando há razões palpáveis e universais que nos autorizam a odiar sem remorso e nos absolvem de toda a culpa, o perigo da intolerância é ainda maior. É sempre mais fácil condenar, como se esse  acto nos garantisse um lugar seguro do lado certo da barricada. Como se ele aplacasse a besta que há em nós, em todos nós, e a mantivesse adormecida, mansa. Como se suspeitássemos de que essa fera se pode tornar incontrolável a qualquer momento,  bastando, para isso, sentir-se acossada. Por medo, preferimos não pensar. Não tem de haver compaixão por quem não teve compaixão, a equação é simples. E tão perigosa! A história de O leitor explora os insondáveis abismos e mistérios da natureza humana. Obriga-nos a olhar para um espelho feito de incongruências, nos olhos de uma mulher capaz de suportar todos os julgamentos menos o da única pessoa que amou, que prefere a condenação implacável à vergonha e humilhação de ser descoberta numa falha de que não tem culpa. Ou nos de um homem que se vê encurralado entre o amor e a repulsa, entre a compaixão e a rejeição.

 

Espelhos, uma vez mais.

 

Foram dois dias de emoções fortes e perturbadoras, de abanões de consciência que fazem bem porque nos põem a pensar: "e se fosse comigo?". É este um dos grandes sortilégios do cinema.

 

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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Fitas de fim-de-semana

 

Tenho andado em maré de cinema, sempre que consigo arranjar um bocadinho livre. Este fim-de-semana vi dois filmes:

 

1. Reviver o passado em Brideshead, um tira-teimas cujo balanço me faz subscrever, na íntegra, esta crítica certeira. Mesmo assim, acho que valeu a pena ver o filme. Pela estética irrepreensível, em primeiro lugar. E pelo alívio que senti em relação ao meu maior medo: surpreendentemente, não foi do maravilhoso Jeremy Irons que senti falta durante todo o filme, como temia. Matthew Goode é um bom Charles Ryder e constroi uma personagem diferente da que eu tinha na memória, mas igualmente interessante. Absolutamente fatal é Sebastien, uma "bicha" sem qualquer sofisticação ou credibilidade. Que saudades de Anthony Andrews!

 

2. O corpo da mentira, um filme insuportavelmente actual. Espionagem, guerra do Iraque e terrorismo islâmico, é a ficção do que vemos diariamente nos jornais televisivos, esses em versão real. E o facto de as confundirmos já com tanta facilidade mostra bem o grau de insensibilidade que a banalização da violência nos trouxe. É desconcertante, e por isso incomoda. Está bem vista a esquizofrenia tranquilamente integrada de um homem (o big boss da CIA) que passeia, brinca e adormece os filhos pequenos, ao mesmo tempo que comanda, com uma frieza e uma brutalidade assustadoras, operações sangrentas no outro lado do mundo. De resto, o filme provou-me uma vez mais que Leonardo di Caprio é mais do que um palmo-de-cara-bonitinha-de-mais, e que a minha velha embirração com Russel Crowe não se desvanece nem com interpretações convincentes.

 

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Sábado, 29 de Novembro de 2008

Premonição

 

Do excelente documentário de Patrick Jeudy que acabei de ver na RTP 2 sobre a vida e morte de Marilyn Monroe, retive um pormenor que me impressionou, por resumir e condensar em si toda a dimensão de uma tragédia: quando a explosão de popularidade começou a ameaçar seriamente a sua privacidade, para se proteger e preservá-la Marilyn dava sempre um número de telefone falso. Esse número era o da morgue de Los Angeles.

 

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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Par gourmandise

(Gourmandise - Charles Aznavour)

 

 

Gourmandise

 

Je t'aime aussi par gourmandise

Toi mon joli péché mignon

Tu as le goût des friandises

Que je volais petit garçon

Tendre objet de ma convoitise

Tu es comme un fruit défendu

Et je cueille par gourmandise

Mille baisers sur ton corps nu

 

Je t'aime aussi par gourmandise

Et je te dévore des yeux

Quelque parole que tu dises

Coule comme un vin merveilleux

Que je déguste et qui me grise

Et me trouble d'âme et de corps

Et je te prends par gourmandise

Et puis j'en redemande encore

 

Je t'aime aussi par gourmandise

Tu es mon restaurant chinois

Tu es mon canard aux cerises

Mon petit pain au chocolat

Par toi mon appétit s'aiguise

Je te dérobe et te savoure

Viens, viens contre moi que je te dise

Je t'aime aussi par gourmandise

Mon amour

 

"GOURMANDISE" Je t aime aussi par gourmandise Toi mon joli péché mignon Tu as le goût des friandises Que je volais petit garçon Tendre objet de ma convoitise Tu es ... all »

all

 

(Nota: Foi um comentário do Mike que me lembrou este petisco que eu tinha guardado, embora não me pareça que seja muito do agrado dele... Paciência. Fica para as minhas queridas comentadoras, que merecem tudo.)

 

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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Luzes da ribalta

 

Dois dias seguidos, dois belíssimos filmes que finalmente consegui ver: Caramel e Irina Palm.

 

Do primeiro (um filme libanês) direi que poderia ser um Almodôvar, apenas um pouco mais exótico. Apaixonada como sou pelo espanhol-maravilha, não posso fazer-lhe maior elogio. É um filme de mulheres e para mulheres, devo no entanto avisar. Não digo que não haja homens que o saibam apreciar, mas não é para todos.

 

O segundo (uma co-produção de 6 países) tem, além de um argumento originalíssimo, uma surpresa adicional: a cantora Marianne Faithfull como protagonista, numa  interpretação inesquecível.

 

Ambos são de 2007.

Ambos são de uma sensibilidade notável.

Ambos foram premiados e louvados internacionalmente.

Ambos nos deixam a "olhar para dentro", um dos efeitos de que mais gosto num filme.

Ambos falam de valores que andam muito esquecidos hoje em dia: generosidade extrema, entrega, despojamento, solidariedade.

 

Assim, vale a pena ver cinema.

 

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Domingo, 15 de Junho de 2008

Bom Domingo!

Para hoje, uma sugestão diferente: a fantástica banda sonora Mararia (premiadíssima), do meu querido Pedro Guerra, para o filme do mesmo nome que ainda não consegui apanhar no clube de vídeo. A música, essa, conheço-a há muito tempo e adoro. Ouçam-na com o som bem alto, como se deve ouvir boa música. Bom Domingo! 

 

(Mararia - Pedro Guerra)

 

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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

50º Aniversário

Mais um ainda, neste dia realmente especial: o do cinquentenário da morte de Vasco Santana.

 

 

(e tinha logo de morrer no dia de Santo António?)

 


(Obrigada a Blogotinha, que me avisou de mais esta efeméride de hoje)

 

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Adeus, Mr. Pollack

Ando preguiçosa para escrever. E quando encontro quem diga, melhor do que eu, o que eu tinha para dizer... aproveito a boleia e instalo-me.

 

É o caso desta homenagem a Sydney Pollack, feita pela Teresa . Está lá tudo, está tudo dito. E depois... acaba com aquela cena do Out of Africa que é um autêntico KO para mim. Fico a olhar e a ouvir aquilo com lágrimas nos olhos, sem fala. É difícil fazer melhor em cinema. Trago-a para aqui para vê-la mais vezes, sempre que me apetecer: 

 

 



PS: Acrescento só à lista da Teresa um dos meus filmes de culto, produzidos por Pollack: O talentoso Mr. Ripley).

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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Homenagem


Acabam de desaparecer dois homens difíceis de ignorar, ligados ao mágico mundo do cinema:
Arthur C. Clarke, o visionário escritor de ficção científica e criador do eterno 2001 - Odisseia no Espaço, aos 90 anos;
e Anthony Minghella, o realizador de filmes tão importantes como, por exemplo, O Paciente Inglês e O Talentoso Mr. Ripley (gosto mais ainda do segundo, que considero um dos grandes filmes que já vi), aos 54 anos apenas.
De Clarke, ficou-nos uma herança promissora: 3001, The Final Odissey. I just can't wait...
Dizer que o cinema ficará mais pobre sem eles, é puro eufemismo.
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

A kiss is just a kiss?

(Casablanca)

Aqui discute-se se um beijo é apenas um beijo, ou não. Não resisti a trazer para aqui o assunto, porque sobre isto não tenho a menor dúvida: um beijo, consentido e com sentido, nunca é "só" um beijo. É um vocábulo explícito, de uma linguagem planetária e inequívoca. Encerra sempre, num molde indestrutível, o desejo que o forjou. Traz em si memórias de beijos sonhados e expectativas de beijos futuros. E mesmo que não tenha passado nem futuro, cada beijo é, por si só, um universo.

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Na mouche

Assim eu acertasse no euromilhões...
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

O poder das circunstâncias


Fui ver o filme "Expiação", uma história que confirma uma vez mais como a vida se faz mais de circunstâncias do que de vontades.
Que bom seria se fosse ao contrário!
Fez-me lembrar uma frase lapidar que o meu avô dizia muitas vezes: "Não interessa nada o que as pessoas são lá no fundo... O que convive com os outros é sempre a superfície".
(Imagem: Júlio Resende)

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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Óscares 2008

O meu vencedor já está escolhido.
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Filmes da minha paixão

Pedem-me, o Ricardo e a Júlia, que indique os meus 5 filmes preferidos. Tarefa difícil, escolher só 5, mas vou fazer uma batota: já que o convite vem em duplicado, aproveito para alargar o rol. Aqui mesmo ao lado (à esquerda, no blog), estão alguns dos meus filmes de culto, nos "Louros do Vento". Há bem pouco tempo comentei aqui outro dos meus eternos, "A filha de Ryan". Por isso, os 5 que escolho agora são "além destes". De propósito, vou variar o género:
1. Comédia - "As faces de Harry"- o genial humor cáustico de Woody Allen, no seu melhor. Destaque para uma das histórias - o homem desfocado - embora todas sejam de uma imaginação fantástica. Hilariante.
2. Drama - "Mar Adentro" - falar de um tema ultra delicado como a eutanásia, sem os rodriguinhos habituais, não é para todos. É para Alejandro Almenábar, que o faz com elegância e poesia. A interpretação de Javier Bardem também não é alheia a esse sortilégio.
3. Aventura/Epopeia - "Fitzcarraldo" - o sonho de um melómano aventureiro (levar Caruso e toda a companhia à Ópera de Manaus) e o breve mas delirante eldorado da borracha, na Amazónia. Klaus Kinski, um louco inesquecível. Cláudia Cardinalle, linda. Um filme de Werner Herzog de que poucos se lembrarão, mas que eu adoro.
4. Suspense - "Seven" - um filme arrepiante que me obriguei a ver por ser tão bom. E não me arrependo (achei-o magnífico), mas não o vejo outra vez. De David Fincher, com um actor maior - Morgan Freeman. E o bálsamo da beleza de Brad Pitt, a suavizar o arrepio.
5 -
Ficção Científica - "Dune" - David Lynch bem ao seu estilo, num filme surpreendente e de uma estética imbatível. Não passa de moda, ao contrário de outros filmes deste género.
Muitos filmes se seguiriam nesta lista, mas acho que já abusei. Passo a pasta, como se impõe, aos blogueiros Leonor Barros, TCL, Adelaide Amorim, Von e Miguel.
(Como é que eu fui deixar de fora Fellini e Visconti??? Esta coisa de serem só 5...)

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Domingo, 11 de Novembro de 2007

De A a Z


Se eu tivesse que aprender todas as lições de vida numa hora e meia, assim como numa espécie de curso intensivo e desesperado, escolheria provavelmente o filme "Ryan's daughter", de David Lean. Está lá tudo: o Bem, o Mal e tudo o que há in between, mostrados de uma maneira sublime.
Acabei agora mesmo de revê-lo pela enésima vez, e emocionei-me como da primeira. Ou mais ainda, porque é daquelas histórias que nos ensinam sempre mais qualquer coisa, que têm uma reserva inesgotável de surpresas por revelar. Ou talvez sejamos nós que vamos mudando com o tempo e vendo, com o nosso novo olhar de cada momento, uma realidade diferente. O que sei é que David Lean - embora muito pouco modesto - teve toda a razão quando disse:
"My distinguishing talent is the ability to put people under the microscope, perhaps to go one or two layers farther down than some other directors. I've just begun to dare to think I perhaps am a bit of an artist."

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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Cinema no Estoril


O realizador Pedro Almodôvar foi muito justamente homenageado no novíssimo festival de cinema do Estoril.
Sei que estou a repetir-me, mas acho que quem inventa e dá vida a uma história como Hable con ella merece todas as honrarias. Não estou a esquecer os seus outros filmes: foram muitos e bons, num conjunto invulgar de qualidade e densidade dramática. Mas este, em particular, é uma obra prima. Não só de Almodôvar, não só do cinema espanhol, mas da História do Cinema.
Digo eu, e tenho a certeza de que não sou a única.
Nota: A beijoca na bochecha do Pedrito é minha. Pus baton encarnado de propósito para o efeito...
Adenda: Cito aqui uma notícia do Nuno Lopes, da Lusa, relativa a este tema. Diz ele:
"Lisboa, 09 Nov (Lusa) - Pedro Almodóvar afirmou hoje, no Estoril, que se alguma vez filmar fora de Espanha, será em Portugal, pois sente-se fascinado pela língua e cultura portuguesas. O realizador falava num encontro com público no Teatro-Auditório do Casino Estoril no âmbito do European Film Festival, inaugurado quinta-feira. O cineasta afirmou que se sente "estimulado" a criar em Madrid, até porque nos seus arredores estão os seus amigos artistas, mas confessou que tem vontade de rodar em Portugal.
"Gosto da música portuguesa, da sonoridade da língua, da cultura e da vossa maneira de estar", declarou. "Sinto que somos próximos, mas não irmãos gémeos", acrescentou. O realizador usou de sentido de humor para quebrar a timidez da audiência que hoje, ao final da tarde, se reuniu no Estoril para o questionar sobre a sua filmografia. Estudantes de cinema, público que se tornou fã incondicional dos seus filmes e alguns curiosos encheram o auditório do Casino Estoril para perguntar qual o filme de que mais gostava, a personagem favorita ou onde encontrava inspiração. Quanto à inspiração "é tudo", respondeu o realizador sem hesitar, e prosseguiu: "ela não surge como uma revelação, estou a tomar café e as notícias do 'Telediario' despertam-me histórias, assim aconteceu com o filme 'Saltos altos'".
Quanto aos filmes favoritos afirmou sentir-se "mais próximo" dos que rodou de 2000 até hoje. "A postura é a mesma, escrevo e faço-o com paixão, desfruto e sofro muito, mas a paleta de cores muda", disse. "Mas identifico-me com todos, os primeiros em que era mais jovem e os mais recentes, em que estou na meia-idade", disse Almodôvar suscitando um gargalhada na sala. Quanto a personagens, referiu o enfermeiro Benigno de "Fale com ela", que vive num mundo paralelo ao mundo real. Outra questão colocada pela sala foi a importância da música nos seus filmes. O cineasta afirmou que ela "é orgânica, pois faz parte do guião. Um elemento essencial, não truculento na medida em que não provoca sentimentos, mas explica as personagens. É um elemento activo no guião", disse. Quanto à música confessou-se um admirador de Rodrigo Leão e, em tom humorístico, afirmou que se os portugueses contratassem um comando para matar o seu director musical, Alberto Iglesias, escolheria o músico português. O realizador afirmou-se "fascinado" pela música portuguesa, realçando não só Rodrigo Leão como Bernardo Sassetti e "a descoberta" que foi Camané. Estes músicos integraram quinta-feira à noite o programa da gala de abertura do European Film Festival, a decorrer até 17 de Novembro no Estoril, e no âmbito do qual se realizou este encontro com o público. Camané foi a "descoberta do fado no masculino", disse o realizador, um fã confesso de Amália Rodrigues. "O fado muda cantado por um homem", sublinhou.
A sala questionou ainda o cineasta sobre o seu universo feminino e projectos futuros. A explicação para a forma como aborda o universo feminino foi buscá-la à sua infância "rodeado de mulheres". Ouvia-lhes as histórias, os comentários, estava rodeado delas: mãe, tias, primas, irmãs e vizinhas. "Quem nunca ficou à guarda de uma vizinha? - questionou o cineasta - na minha terra os homens iam trabalhar e nós ficávamos com as mulheres". Um universo de "mulheres fortes, do pós-guerra e a quem muito devemos", rematou.
Quanto a projectos futuros há "La piel que habito" que deverá começar a rodar dentro de um ano e um outro de que não quis revelar o título. Almodóvar explicou que "hoje em dia, num mundo complicado de direitos de autor, não vou adiantar o nome". O realizador explicou esta sua posição "pois assim que revelámos o título de 'Volver' [o seu mais recente filme] alguém se registou na Internet e ainda hoje se anda em demandas". A conversa foi pautada por gargalhadas, muitos elogios da assistência ao realizador e pedidos de desculpa por "falar em portuñol". Um dos elogios foi do ex-primeiro-ministro e ex-ministro dos Negócios Estarngeiros da França, Dominique de Villepin, que participa também neste primeiro Festival, no âmbito do qual profere no domingo uma conferência sobre "A política, a Cultura e os Artistas".
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Alain Delon

Pronto, aqui está. O prometido é devido. A primeira, com a pala no olho, é no Gattopardo, um filme eterno. Não cheguei aos dias de hoje porque achei um bocadinho deprimente...


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Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

Amor e cozinha


O filme No Reservations é uma "aguinha com açucar", perfeito exemplar do género a que as comédias românticas americanas já nos habituaram. Todos os clichés caros aos americanos estão lá: a criança órfã que dá lições aos adultos, o casal aparentemente inconciliável que se apaixona perdidamente, a crítica aos sofisticados hábitos dos "ricos" novaiorquinos e a elegia da felicidade simples da middle class, a indispensabilidade dos shrinks, a vitória da família nuclear. Tudo é muito previsível, a puxar à lágrima fácil (truque perverso a que cedemos sempre, aproveitando para chorar coisinhas nossas que estavam em atraso...) e com o happy end moralista da praxe.
Era de esperar mais uma xaropada. Mas, tendo por cenário uma cozinha de restaurante de luxo e por protagonistas dois grandes chefs, para mim já se salvaria a noite, mesmo que tudo o resto fosse uma lástima. E não é. Salva-se igualmente - para além de dois ou três truques culinários que aprende quem está atento e se interessa pelo tema* - a banda sonora, que é óptima. Apoiada em clássicos (também eles previsíveis, mas que não deixam por isso de ser bons) e introduzindo alguns nomes menos conhecidos do grande público. Como este, que escolhi para mostrar aqui - o italianíssimo Paolo Conte - numa canção fantástica e divertida, chamada Vieni via con me (It's wonderful). Ora ouçam:

Nota: Dedico esta música a um casalinho apaixonado que conheço, que, como eu, também gosta muito de cozinhar. Não preciso de dizer nomes, eles sabem.

* Há um erro crasso na tradução portuguesa: quail é codorniz e não perdiz, como se lê nas legendas durante todo o filme.
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Never say never again



Uma pequena provocação aos meus doutos comentadores... porque o James Bond também é cultura. O Sean Connery, pelo menos, é uma obra de arte!

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Palavras com dedos


De cada vez que revejo Il Postino ("O Carteiro de Pablo Neruda", na tradução portuguesa) descubro-lhe um pormenor que me tinha escapado antes.
Desta vez foi uma verdadeira pérola da sempre imbatível sabedoria popular, saída da boca da tia de Beatrice num tom de quem sabe muito bem o que diz:
“Quando um homem começa por tocar-nos com palavras, chega longe com as mãos.”
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Sábado, 8 de Setembro de 2007

Bette Davis, the one and only


“Os homens preocupam-se incessantemente e ficam ressentidos por causa da liberdade recentemente adquirida pelas mulheres nas suas carreiras profissionais. O que não sabem é que a Grande Ansiedade é desnecessária. As mulheres nunca foram, não são e nunca serão independentes dos homens que amam. Todas as mulheres sabem disso. Só os homens se mantêm cegos à realidade. Mas não os culpo, afinal essa atitude que não significa submissão é uma decisão da mulher. Não fiquem pois amuados. Dominem se quiserem , as mulheres adorarão.”
(Bette Davis)


Nota: Esta provocação faz parte de um post delicioso e cheio de conteúdo - como sempre - da Meg no seu Sub Rosa, sobre uma das grandes divas do cinema: Bette Davis. Aqui fica a sugestão, como leitura de fim-de-semana. E uma música a condizer. Espero que gostem.

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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

Hable con ella

Caetano Veloso, num dos mais mágicos momentos do filme Hable con Ella, de Pedro Almodôvar. Para mim, que sou fã do maestro espanhol, é a sua obra prima. Depurado de toda a habitual parafrenália kitch e dos excessos caricaturais da tradicional visão do mundo de Almodôvar, este filme, subtil e de uma delicadeza invulgar, trata afinal um tema pesadíssimo e consegue o inimaginável: transformar num autêntico poema um dos mais hediondos crimes que podemos conceber - a violação - ainda por cima a de uma mulher completamente indefesa.
O que nos diz Hable con Ella é que até na maior sordidez pode existir inocência, e até mesmo uma nobreza desesperada que não deixa por isso de ser nobreza e que, vista desse ângulo, redime aos nossos olhos toda a Humanidade.
Se alguém ainda não viu o filme, vá a correr buscá-lo ao clube de video mais próximo.


(Como rebuçados extra, o filme dá-nos ainda as fantásticas coreografias de Pina Bausch e uma banda sonora de 5 estrelas, de Alberto Iglesias)

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Cinecittà em chamas


Há qualquer coisa de muito tenebroso que paira sobre o cinema, neste verão de 2007. Primeiro, a morte de dois dos mais aclamados realizadores de sempre - Bergman e Antonioni - em menos de 24 horas; e agora, simbolicamente, a morte pelo fogo de material precioso para a memória da 7ª Arte.
Um grande incêndio assolou a Cinecittà na noite passada, evocando inevitavelmente um outro incêndio em Roma - o de Nero, o imperador louco. A notícia diz-nos que não houve vítimas, desta vez. Mas houve, sim. Talvez não humanas, e ainda bem, mas de um género que não podemos ignorar: alguns cenários e material histórico (entre outros, precisamente os da série "Roma", que estava ainda em gravações), guardados nos armazéns que arderam, desapareceram para sempre. O espírito de Nero, reencarnado em cabos eléctricos? Dá que pensar.

(A construção dos cenários para o filme Cleópatra - o antigo Egipto na Cinecittà)

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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

O eclipse de Antonioni


Por alguma estranha razão, este abrasador final de Julho está a levar-nos os realizadores de cinema da chamada "velha guarda", aqueles monstros sagrados que nos deram tantas e tão boas horas de prazer.
Primeiro foi Ingmar Bergman, agora Michelangelo Antonioni. Morreu tranquilamente em Roma, aos 94 anos - bonita idade, apesar de tudo, que lhe permitiu uma longa vida a fazer aquilo que tão bem sabia fazer e de que tanto gostava. Apesar de ser formado em economia pela Universidade de Bolonha, acabou por apaixonar-se pelo cinema quando se mudou para Roma e estudá-lo a fundo, na Cinecittà, dedicando toda a sua vida a essa paixão, depois disso.
De entre os seus filmes mais conhecidos não posso deixar de destacar Blow Up (1966 - o seu primeiro filme de língua inglesa), um clássico do cinema que nos revela uma surpreendente Jane Birkin ainda muito no início de carreira, contracenando com duas grandes actrizes: Vanessa Redgrave e Sarah Miles. Blow Up deu ao realizador um dos muitos prémios com que foi agraciado - a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1967.
Ao contrário de Bergman, Antonioni viu o conjunto da sua carreira premiado com um Óscar da Academia, em 1995.
Eclipsou-se assim, sem ruído nem surpresa, depois de muitos anos de uma doença que o impediu, nas últimas décadas, de realizar e de realizar-se.


Principais filmes:

Escândalo de Amor (1950)
O Grito (1957)
A Aventura (1960)
A Noite (1961)
O Eclipse (1962)
O Deserto Vermelho (1964)
Blow-up (1966)
Identificação de uma Mulher (1982)

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Sonho de uma Noite de Verão


Aos 89 anos morreu, esta madrugada, Ingmar Bergman, o realizador que mais e melhor notabilizou o cinema nórdico.
Deixa-nos uma herança composta de muitos e belíssimos filmes, numa visão pessoalíssima dos dramas humanos, em todos os seus cambiantes. Mas não só. Bergman revelou sempre um carinho e interesse muito especiais pelo universo feminino, pela sua complexidade e infinitas nuances. Por contraste com as personagens masculinas dos seus filmes, muito mais tipificadas, as mulheres de Bergman são sempre ricas de contrastes, movem-se e evoluem na trama com surpresa e desenvoltura. A sua maior musa foi Liv Ullmann, a quem ofereceu, ainda há pouco tempo, talvez o papel mais importante da sua vida de actriz: o de Marianne, em Saraband (uma espécie de continuação, muitos anos depois, do filme Cenas da Vida Conjugal, embora com diferenças essenciais que impedem a sua classificação como "sequela" deste).
Mas Bergman não se esgotou no cinema: foi também escritor, director artístico e encenador de teatro, tendo levado à cena inúmeras e importantes peças de teatro e óperas.
A sua vasta obra somou prémios internacionais de prestígio e foi aclamada por todo o mundo, embora a Academia de Hollywood lhe tenha negado sempre o Óscar (para o qual foi nomeado, por várias vezes).

Partiu numa noite de Verão, talvez sonhando ainda. Ficam os seus filmes, vencendo por ele o Tempo, para lembrá-lo e nos deliciar.
Legendas:
1. Em cima - Bergman, durante a rodagem de Morangos Silvestres (1957).
2. Em baixo - Os estúdios Rasunda, nos arredores de Estocolmo, berço de grande parte da sua filmografia.
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brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Espelhos

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Premonição

Par gourmandise

Luzes da ribalta

Bom Domingo!

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Na mouche

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