Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Bater no fundo

 

Uma típica middle class teenager americana: bonitinha, loira, filha única, mimada, indolente, insolente, a caminho da obesidade a passos largos.

Em suma - uma criaturinha insuportável.

 

Um típico middle class teenager americano, namorado da dita: ar razoavelmente saudável mas apatetado, convencido, feiote, indolente, insolente, magro e borbulhento.

Em suma - uma criaturinha insignificante.

 

Uma típica middle class housewife americana: diligente, puritana, dependente, preconceituosa, opinativa, ignorante, resignada, lamechas, numa batalha perdida com a obesidade.

Em suma - uma criatura frustrada.

 

Um típico middle class male americano: alarve, machão, preconceituoso, ignorante mas convencido da sua superioridade, obeso assumido, todo-poderoso, cruel, ditador.

Em suma - uma criatura perigosa. 

 

***

 

Os pais não gostam do namorado da filha, acham que ela merece muito melhor. O namorado não gosta dos pais dela, e acha que ela tem muita sorte em tê-lo fisgado. A filha defende o namorado (sem grande convicção, diga-se) mas acha que não perde nada em dar o benefício da dúvida a mais alguns candidatos a um lugar no seu coração.

 

E começa o espectáculo: os pais entrevistam vários jovens, à vez - as perguntas de selecção são simplesmente inenarráveis - e cada um deles escolhe o que lhe parece o melhor para a filha. O pai escolhe um troglodita parecido consigo, mas numa versão teen e musculada, porque acredita que ele  "tomará conta da filha" e que não deixará que lhe falte nada, no futuro. A mãe escolhe um invertebrado meloso e supostamente romântico, porque acredita que assim a filha terá sempre ramos de rosas e joelhos em terra, coisa que ela própria jamais soube o que seria.

 

A filha presta-se ao papel de passar algumas horas com cada um dos dois eleitos, que tentará seduzi-la e conquistá-la com as armas que tiver e com as preciosas dicas que os pais lhe facultaram. Os pais ficam no sofá da sala, com o namorado entre eles, assistindo na televisão (e comentando a três...) a evolução desses encontros, filmados em directo. Ouvem-se frases tão extraordinárias como "O filho da puta está apalpá-la toda!" (uma indignação manifestada pelo namorado e logo secundada pelo pai, pela primeira vez concordantes e irmanados no ciúme mais primário), ou "Vêm como ele é romântico? Até a deixou repetir o gelado!", uma frase da mãe, embevecida, que lhe vale dois olhares de absoluto desprezo.

 

Por fim, a princesa tem que escolher o seu príncipe. O namorado, um duque de paus que acredita firmemente no seu trunfo - um conhecimento mais aprofundado -  volta ao baralho, em igualdade de circunstâncias com os dois ases finalistas: o Rei dos Músculos e o Rei das Frases Feitas. A menina, melíflua, aponta os defeitos e qualidades de cada um, reflectindo interiormente na contabilidade mais satisfatória. Por fim, baixa o polegar a dois deles, sem contemplações, e ergue-o ao terceiro, sorridente. Qual deles escolhe? Pasmem: não o namorado, que dizia amar e defendia da injustiça dos pais, não a inflamada lêndea que lhe ofereceu rosas e gelados batendo as pestanas, mas... o egótico brutamontes que era a aposta do pai e que virá a dar-lhe, seguramente, um tratamento parecido com aquele que a mãe recebe desde sempre. Dá que pensar...

 

Esta aberração chama-se "Parental Control" e é um programa de televisão nos EUA. Mais um produto do voyeurismo televisivo, de infindável capacidade imaginativa. Quando eu penso que o modelo está esgotado e que já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes que me surpreende. É por estas e por outras que praticamente já não vejo televisão. Tenho plena consciência de que a maior perversão destes reality shows é o facto de serem tão hipnóticos que, sob os mais diversos pretextos, ficamos invariavelmente a vê-los até ao fim.

 

publicado por Ana Vidal às 17:13
link
Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Que las hay, las hay...

Não vou comentar a história em si, já que tem tido nos media cobertura mais do que suficiente e até excessiva, quanto a mim. É um caso triste de espalhafato mediático sobre um homicídio doméstico, alegadamente cometido por uma figura do jet set nacional (se é que isso existe por cá...), como lhe têm chamado as "revistas do coração". Erradamente, ainda por cima, porque esta pessoa era absolutamente desconhecida nesses meios não fosse o envolvimento, mais ou menos escandaloso, com outra figura dos mentideros portugueses: o inenarrável José Castelo Branco.
Apenas chamo a atenção para uma espantosa coincidência (ou será gralha do jornal?) que encontrei ao ler a notícia do Sol: o advogado de acusação - Paulo Cruz - tem exactamente o mesmo nome que a vítima, marido da acusada!! A ser verdade, é um caso invulgar daquilo a que costumamos chamar "ironia do destino"...
Adenda: Parece que era mesmo gralha, afinal.
publicado por Ana Vidal às 14:34
link
Sábado, 5 de Abril de 2008

Avec...quoi?


Demoiselles... dêem largas á imaginação... abram portas e janelas de par em par... ás zero... em ponto... Maldoror depositará uma flor... em vossos corações... eleitas entre biliões...
"J'ai fait un pacte avec la prosttution afin de semer le désordre dans les familles"

Chat Noir avec

À minha caixa postal têm vindo parar, ultimamente, mensagens surreais de um tal Chat Noir Avec (???), escritas num francês macarrónico ou num português arrevezado, que se supõem misteriosas mas não passam de cómicas. Imediatamente antes da assinatura, a invariável frase ameaçadora: J'ai fait un pacte avec la prosttution afin de semer le désordre dans les familles.

Ora bem, o que eu quero dizer a este gato preto é que as únicas coisas que tem semeado por aqui são... erros ortográficos de bradar aos céus. A não ser que o Avec esteja ainda por aparecer com novas pragas, mais sedutoras do que uma flor depositada no coração das eleitas escolhidas entre biliões (não conheço as outras demoiselles contempladas mas estou habituada a ser a única eleita, pelo que o plural ainda me parece excessivo), até agora esse pacto de desunir famílias ainda não fez qualquer efeito.

Não perca tempo comigo, bichano. Há-de haver quem se deslumbre com o seu francês de Alcabideche e o seu Maldoror Valentino, semeando flores em noites de lua cheia. A mim, ingrata como sou, só me dá para rir. Já tentou as Mães de Bragança?

Adenda - Não resisto a partilhar a última mensagem que recebi, hoje mesmo, do Chat Noir Avec, que agora se tomou de fervores monárquicos e poéticos e acrescentou mais um idioma à sua vasta cultura linguística: o castelhano. Ora vejam:

..."todas ibamos a ser reinas"...se Leticia...lo iba...porque no tu...noche de sueño...

...esta noche... petite demoiselle ...te daré el...cielo...deste amor...que és de Pedro...por...Inês...

Estou quase a ceder. Quem é que resiste a isto, digam lá??

(07/04/2008)


Etiquetas: , ,
publicado por Ana Vidal às 12:04
link
Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Nada de novo a oeste


Onde anda a formosura dos gordos? E a sua mítica, e apreciada, bonomia? Sumiram para parte incerta, junto com os próprios gordos. O que há agora são obesos, um eufemismo que, em vez de atenuar, curiosamente acentua a ofensa. Os obesos são uma espécie doente, repugnante e indigna do convívio social. Pelo modo como são tratados, parecem, também, idiotas.


É bom afastarmo-nos algum tempo dos can-cans caseiros, para mudar de cenário e arejar as ideias. Mas, quando chegamos de viagem, temos a sensação de ter estado noutro planeta e de já nada saber do que se passa por cá.
Li hoje a longa crónica do Alberto Gonçalves, no DN, um óptimo resumo dos últimos acontecimentos que têm agitado o burgo. E fiquei mais ou menos esclarecida. Afinal, não há nada de dramaticamente diferente por cá (dramático é quase tudo o que toca à nossa economia, mas não é novidade). Tudo previsível: um primeiro ministro que continua a rir-se na nossa cara, à descarada; o costumeiro inchaço de certos egos nacionais; a pirotecnia inconsequente dos políticos, a disfarçar misérias; algumas intrigas e escândalos sociais em versão miniatural, a apimentar conversas de cabeleireiro.
Enfim, nada de novo a oeste. O meu país do costume, a ver a banda passar.

publicado por Ana Vidal às 15:46
link
Sábado, 21 de Julho de 2007

A Salgada Família

Que novas surpresas nos reservará ainda este can-can tripeiro? O país está em pulgas para saber qual o próximo elemento desta Salgada Família a sair da gruta: O burro? A vaca? A própria manjedoura?



Primeiro foi a loira Carolina, a "Eu". Depois de um estrondoso abandono, seguido de um make-over apressado, passou de Ágata a Virna Lisi, e, de novo virgem, publicou confissões entre escaldantes e sopeirais, na primeira pessoa, virou do avesso o todo-poderoso ex-amante, desafiou os feudos e os tabus da futebolândia, armou um pé de vento no país inteiro e ressuscitou, até, processos judiciais moribundos. Todos tememos nesses dias pela vida dela, coitadinha. Tão corajosa, tão desamparada, tão ultrajada e tão sinceramente arrependida dos pecados idos, a menina.
Depois, tudo acalmou. A ebulição passou a fervura lenta, controlada, com os livros a venderem-se como pãezinhos quentes e uma novela em preparação, para memória futura e futuro pé-de-meia da loira e pura Carolina.
Mas afinal havia outra, como diria a Mónica Sintra. O país esfregou os olhos, incrédulo e baralhado com a versão morena da heroína tripeira. Entrou em cena Ana Maria, a "Outra", e não quis ser menos do que a mana gémea: desmentiu e denunciou a irmã famosa e egoísta que lhe abortou negócios promissores, embrulhou a editora Dom Quixote e o presidente do Benfica em tramóias escusas e patrocínios duvidosos, defendeu o todo-poderoso ex-amante da mana, falou de milhões e revelou ainda mais segredos escabrosos.
Complicou-se o enredo da novela, que já tinha guião avançado, e tudo voltou à estaca zero. Para muitos de nós, atentos mas confusos espectadores, a morena parecia mesmo um novo coelho (ou melhor, uma nova bunny) saído da cartola do todo-poderoso ex-amante da loira. Seria? Talvez, que o tripeiro não costuma dar-se por vencido com tanta facilidade, e muito menos por uma alternadeira que passou do cabaret ao convento enquanto o diabo esfrega um olho.
Mas o guião da novela ainda não era definitivo: Com uma invulgar aptidão para a ribalta, eis que a família lança mais um actor no palco - o progenitor das meninas. Contrito, confessa ao jornalista que está muito incomodado com tudo o que está a acontecer. É natural, pensamos todos, nenhum pai gosta de ver as filhas assim expostas ao ridículo e à devassa das suas vidas privadas, por muito pouco recomendáveis que elas sejam. Isto custa-me muito, diz Joaquim Salgado, o "Pai". Baixamos os olhos, numa envergonhada mea culpa pelo nosso pecaminoso voyeurismo. Mas, de repente, o homem esquece-se da pose ensaiada: com um sorriso sardónico que revela um íntimo prazer, põe-se a dizer mal da filha morena. Que já teve direito a internamento psiquiátrico, que enganou a irmã loira-coitadinha, que passou a referir-se, de repente, ao todo-poderoso ex-amante da irmã loira-coitadinha como "o sr. Jorge", quando lhe chamava sempre, até há bem pouco tempo, "o boi" ou "o velho", e que isso traz óbvia água no bico. Hein, não acha estranho?, e pisca o olho ao jornalista, num trejeito revelador. Logo a seguir confunde tudo, e acaba por desvendar o verdadeiro motivo de tanta aversão à filha morena, subitamente amiga do todo-poderoso ex-amante da loira-coitadinha: Se eu falasse... os primeiros 13 minutos daquele jogo Boavista-Porto, uma vergonha... eu é que não queria ser árbitro daquilo... sim, o Boavista é o meu clube... não puxe por mim, não posso dizer mais nada.
Acaba embargado pela comoção da injustiça contra o seu clube de futebol, já completamente esquecido das filhas. E nós todos, acabamos boquiabertos com tanta sensibilidade. Angustiados, perguntamo-nos: E agora, quem virá a seguir?
Aguardam-se, pois, novos capítulos desta novela, cujo guião permanecerá em aberto enquanto houver membros da família que não tenham tido ainda os seus quinze minutos de glória.
Etiquetas: ,
publicado por Ana Vidal às 21:39
link

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Bater no fundo

Que las hay, las hay...

Avec...quoi?

Nada de novo a oeste

A Salgada Família

favoritos

Fado literário

O triunfo dos porcos

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Subscrever feeds