O espantoso desta era é sabermos que diariamente, algures no Mundo,
surge um carola capaz de nos surpreender. É o caso.
O vídeo que trago hoje é de Marco Brambilla e é projectado DENTRO DOS ELEVADORES de uma cadeia de hotéis norte-americana, com uma intenção simbólica: mostra a quem sobe uma ascensão aos céus, e, a quem desce, uma descida aos infernos.
É uma visão perturbadora – embora kitsch, para meu gosto - não apenas pela escolha de Stravinsky para o fundo musical como pelo épico de imagens apocalípticas que nos cruzam os olhos e a mente como um pesadelo,
um aviso divino ou a versão futurista de uma parábola de Bosch.
Lástima que não seja possível vê-lo em HD e 3D,
pois a experiência seria ainda mais inquietante.
Com atenção, talvez reconheça algumas das imagens que vai ver, certamente extraídas de filmes, pelo que a negociação dos direitos autorais não terá sido fácil.
Ignora-se se a projecção se suspende quando o elevador chega ao destino, ou se, lá em baixo, os empregados da Recepção já se permitem brincar com os hóspedes recém-chegados, no momento de lhes estender a chave: «Your room number is the 2016, at the 15th floor, right next to the purgatory. Have a nice journey, sir!»
Ah, fundamental: clique sobre o ecrã
para apreciá-lo em tamanho grande (full screen mode)
O que dizer deste elevador logo pela matina? Primeiro, que talvez sejam necessários vários 3'22'' para nos apercebermos de tudo o que se passa nos vários andares, e termos a noção do que para o realizador é a aproximação ao Céu. Confesso que, ainda que imaginativo, achei tudo mais tenebroso do que celestial. Talvez fosse o efeito da música, não sei. Lembro-me que, numa dad altura, umas senhoras esbeltas dançavam com sensualidade. Em que andar estaríamos? Talvez fosse bom o elevador parar dois patamares antes do topo celeste com uma frase demolidora e esfriamentosa: "Heaven can wait".
Não sei quem é você, refrescante Anónimo, mas fez-me rir com o seu comentário e, sobretudo, com a palavra «esfriamentosa», que me diverte e já não «ouvia» há anos! Parabéns pelo bom humor celestial!
Ah, João, tinhas que ser tu! Mais uma vez foste o primeiro a comentar e, só por isso, tens direito a uma Bimby última geração!
(Além de bom cristão és, de facto, um heterossexual assumido: com tanta informação a deslizar pululante e vais-me fixar os olhos apenas nas odaliscas? Bom, dás cem-zero ao Marco Brambilla, que se detém descaradamente nos bíceps oleados dos escravos das galeras! LOL)
Só acho graça porque, até agora, nenhum comentador apreciou ainda este trabalho. Lá fora consideram-no um golpe d' asa, não se fala noutra coisa! O defeito será nosso?
Minha querida isto pode ser considerado um golpe de asa lá fora. Mas, para mim, que só subi e não desci, trata-se do fruto duma mente próxima do apocalipse. E Stravinsky deve sentir-se, lá na tumba, enfurecido. Logo este seu tema que já serviu de base a uma cena de amor / sexo fabulosa em cinema. Ele há loucos cá fora que fariam algo semelhante. Mas não têm nome firmado, nem a protecção intelectual. Sou muito básica nestas coisas. Gosto de Bosch, como gosto de Dali. Ambos têm alucinações. Mas são muito bons naquilo que fazem. E não "montam" bocados de outros. São originais.
Ora isto aí está o handicap, Helena: a colagem. Penso que todos os artistas o fazem - em literatura dão-lhe um nome pomposo que agora não recordo, mas é bem achado e já direi se lembrar - mas não desta forma tão evidente. De qualquer forma, a ideia de inserir um cena destas num elevador não deixa de ter graça, sejamos justos. O artista tem é uma visão esquizofrénica do Céu e do Inferno, com coisas idílicas e tenebrosas em ambos, mas cada um tem o seu onírico, não é verdade? O deste é que nem no Céu nem no Inferno terá paz, e ele lá saberá porquê.
Pessoalmente, toda a coreografia futurista é de filme de ficção científica - até os ovni lá estão - coisa que me repele à partida.
Mas sim, tens toda razão: há alucinações belas. Não é o caso :-))
Como trabalho criativo, é fabuloso. Mas era preciso ver isto umas vinte vezes, e bem devagar, para poder comentar com um mínimo de autoridade. Assim, à pressa, retive que o "wonder world " é infantilóide e chato (até há uma figura estranha que abre a boca... num bocejo?) por comparação com as tentações demoníacas cá de baixo, onde tudo parece bem mais divertido. Além disso, sé é aquele cromagnon musculado e bronco que o céu me promete, então eu agradeço a atenção, mas passo ! Só tu, para descobrires estas coisas... Beijo infernal. :-)
Esqueci-me de acrescentar um pormenor em que reparei: é de uma ingenuidade comovente encontrar o Michael Jackson já devidamente alojado no paraíso, numa dança de felicidade eterna... :-)
A figura estranha abre e fecha a boca, se reparares, para uma criaturinha misteriosa vir cá fora apanhar ar de vez em quando. Penso que sou eu, se queres saber :-)) E há, nessa dimensão, uma pretensão da fábula, talvez, com uma vaga inspiração Lewis Carroll. Quanto ao bronco musculado, concordo contigo: converto-me já ao paganismo. Ahahah!
Ah, que pena, não vi o MJ! Mas vou ver outra vez depois do almoço! Distingui o Hitler, já mais amaciado, tornando os gestos duros e bruscos em piruetas amaneiradas, mas isso é porque já deve estar, por esta altura, no purgatório. Depois do almoço vou ver se descubro o MJ. Engraçado, o filme pode transformar-se, para quem não tem nada que fazer - como nós? - numa espécie de «onde está o Wally?» Até já, Aninhas, vou almoçar com a IP. Beijos para ti!
Sim, de Lewis Carroll, mas sem a originalidade nem o arrojo de uma Alice que descobre um mundo novo. Ou talvez também uma colagem ao Feiticeiro de Oz, mas sem o mesmo ingrediente mágico da originalidade. Enfim, uma construção bem feita, tecnicamente, mas preguiçosa de ideias.
Francamente não gostei. Se se fala muito desta obra (de arte?) é porque se confirma que a humanidade está a perder a veia. Restamos poucos (LOL ?) Há muito que, infelizmente, os americanos perderam o poder da parábola e da palavra. Steinbeck teve-o, no cinema, Georg Cuckor e Ernst Lubitsch tiveram esse dom (bem, estes eram europeus...), mas o que é um facto é que o cinema americano usava também o poder da palavra, que desapareceu. Quem se lembra da famosa fala de uma amiga para outra, esta fidelíssima ao marido, no filme One Hour With You, de Lubitsch: Too beautiful a lingerie for only husband to see "? Need I say more? Bjs , Raúl.
Peço desculpa por me meter na conversa, mas não entendi a ligação entre a lingerie do Lubitsh e o filme do Brambilla. Será que podia fazer o desenho? :-) Many thanks
Loira, não tem nada que pedir desculpa, ora essa, por quem é! A relação entre os dois é a mesma que existe entre uma loira e uma morena. Percebeu? Com os meus melhores cumprimentos, Raúl Mesquita. P.S. Talvez tenha lido o meu Post apressadamente, coisa que compreendo muito bem nestes dias de montagens hollywoodescas...
Raúuuuulllll , está aqui uma senhora com uma pergunta para ti!!
(Eu cá, se quer que lhe diga, também não posso jurar se percebi: limitei-me a achar a frase deliciosamente maliciosa num guião dos anos 30. Mas acho que o Raúl se terá mostrado nostálgico de uma outra força da palavra, quando os filmes não tinham nem este excesso de verborreia que têm hoje, sempre «inteligentíssima», nem a profusão de técnica e efeitos e velocidade das fitas americanas, comprometendo um outro elemento crucial que alguns europeus ainda conservam: a verosimilhança. Mas isto sou eu a pensar :-))
Lastimo, também sou loira: presume-se, pois, que ambas as inteligências têm.... madeixas?
(Mas ó Raúl, agora uma pergunta: porque te crispaste tanto com estoutra loira? Foi directa, delicada e limitou-se a acrescentar uma pitadinha de humor, com aquela de «fazer um desenho». Nada de ofensivo, ou foi? Não acharias graça se ouvisses a mesma frase num filme desses, antigo? Ou será que se conhecem e se estão apenas a picar, estando eu a mais nesse caso?)
Tem toda a razão, Raul, em invocar os mestres Lubitsch e Cukor. Passaram 30 anos e a América maravilha-se com este produto! Estou inteiramente consigo. O diálogo que reproduz diz bem mais do que este esquício de fake!
Pois é verdade, sou obrigada a reconhecer: são três minutos que lembram os cem anos de solidão! Bora para o Plaza, Fugi? Fica na 5ª Avenida e aposto que ainda se sobe e desce ao som do Sinatra!
Sad news. O Plaza já não é um hotel, mas um ensemble de luxury flats. No entanto, deve ter muitos elevadores ainda; lá para onde vão é que não sei... Um desafio: bora então mas é para o Pierre! Bjs.
Ohhhhhhhhhhhhhhhh.... Que desgosto me deste agora! Quando estive lá da última vez fui de propósito à casa de banho das senhoras para ver de novo aquela coisa linda! Pierre? O último que conheci foi o Curie.... Mas aceito a sugestão, Raúl, és um homem refinado!
Rita, sou sincero: gostei muito! Não vou entrar em explicações técnicas e racionais ou de âmbito criativo. Nestas coisas ou se gosta ou não. E eu gostei. :)
Rita, a sensação que tive é que estava a ver uma obra prima. Gostei muito e ao contrário de outras opiniões, penso que a peça musical escolhida é que nos dá essa nota de excelência visual.