Domingo, 20 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Há muito que «atravessou a raia equatorial». O cabelo encaneceu e a bochecha roliça descaiu, mas, fazendo fé no que diz, não descaiu mais nada. É, aliás, um jovem de espírito, activo e vigoroso na crítica, ainda que não impressione pela penetração ou pela objectividade com que avalia o que vai pelo mundo, confundindo, frequentemente, o trigo com o joio, nutrindo afeições caprichosas por umas figurinhas que só não se estranham no poder, onde o exercício do poder tem contornos circenses, e revelando pontos de vista eivados de um marialvismo - que é, confessamos, onde as nossas divergências se radicalizam. Mas já tudo se lhe perdoa, e não só pelo respeito devido aos da sua geração. É sabido como se bateu e sacrificou em defesa das suas convicções, amargando um «exílio» parisiense nos idos de sessenta. E como, regressando depois ao país «libertado», ainda terçou armas contra certas forças inimigas do progresso; o que fez para soltar do jugo comunista esta nossa humilde quintinha; e o que arengou para soltar do jugo colonialista as quintinhas ultramarinas, para regozijo de quantos viram, na reviravolta, a oportunidade de, com uma mão à frente e outra atrás, retornar ao solo pátrio. É, enfim, um homem culto e de boas famílias, que escreve livros e gere fundações. É o político paradigmático, capaz de, com imperturbável serenidade facial, afirmar hoje o que negava ontem. E é, pela autoridade que lhe confere uma vida de intervenção aos mais altos níveis, o «intocável» – ou, pelo menos, o mais vistoso «senador» - do regime. Aqui, na Porta do Vento, estamos nervosíssimas na expectativa de o receber.

 

Subsistem incertezas quanto ao «menu». O convidado parece ser um bom e popular garfo, amigo do cozido, da açorda, do rancho e da caldeirada. Mas o seu estatuto faz-nos pensar noutros requintes ou «cosmopolitismos» gastronómicos: numa canjinha de perdiz com cebola e hortelã, nuns salmonetes no forno com tomate e alecrim, num bifinho do pojadouro com manteiga de coentros, num pudim de castanhas com creme de amoras, num Barca Velha tinto ou num precioso Colares… Nada, contudo, que possa classificar-se sob a etiqueta minimalista de «nouvelle cuisine» ou de «cozinha de autor». O nosso convidado quer uma refeição; não uma prova. E nós queremos tê-lo de boca cheia desde o princípio até ao fim do serão. É que, nesta altura do campeonato, julgamos dever defendê-lo da tentação de nos vender as suas soluções ideológicas, que cada dia se nos afiguram mais utópicas, mais equivocadas e mais distantes da realidade de uma esquerda nacional e europeia – senão planetária! - vincadamente conservadora. E defender-nos a nós de lhe dar a luta verbal que merece, de receber em troca, embrulhada no sorriso mole e condescendente que lhe conhecemos, uma alusão amesquinhante à nossa condição de donas-de-casa e de ter de lha fazer «engolir» imediatamente, com as espinhas dos salmonetes ou os nervos do bife. 


publicado por Ana Vidal às 10:00
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26 comentários:
De rita ferro a 21 de Setembro de 2009 às 10:52
Pois é, Mike. E com que alívio! LOL
De ritz_on_the_rocks a 21 de Setembro de 2009 às 13:28
ah ah ah
contem comigo ....
De mike a 21 de Setembro de 2009 às 13:30
tou cum sódades do Walter... cadê? :(
De Luísa a 21 de Setembro de 2009 às 15:30
Rita, contamos consigo… sempre! E, como adianta o Mike, também gostaríamos de poder contar com o Walter. ;-D

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