Enquanto apaixonado pelo desporto-rei, sempre me recordo de assistir a episódios de tensão a nível político, devido à necessária aproximação de dois países por um simples desafio de futebol. Recordo um "Estados Unidos-Irão" no Mundial de 98, nos inúmeros "Irão-Iraque" e encontros entre as Coreias para fases de qualificação, assim como um mais recente "Cuba-Estados Unidos" em Havana. Em praticamente todos eles, primou o desportivismo, o fair-play e a emoção natural de quem defendia as suas cores. Apesar de uma tensão bem latente antes, durante e após o jogo, sempre foram jogos capazes de a qualquer instante e por qualquer motivo, despoletar uma explosão de consequências devastadoras, apenas pelo barril de pólvora em que os intervenientes se encontravam. No fim de contas, o futebol sempre foi e será isto mesmo: paixão! Por ele se unem, nele se guerrilham e diante dele ninguém permanece indiferente.
Afinal, este pequeno filme é o epílogo perfeito para esta mesma constatação.
Talvez nem houvesse saída, mas o pretexto futebolístico que se levantou, ajudou a que naqueles momentos de incerteza tudo parasse e fosse quase deixado ao acaso. O resto, foi a crueldade de um rastilho que tantas vezes este desporto também se lembra de fazer acender. Basta uma faísca...
NM
De Rita Ferro a 3 de Junho de 2009 às 10:39
É um facto, Nuno. Bem podemos - nós, mulheres - tentar depreciar o futebol que não adianta. É um fenómeno. Chego a pensar que o impulso de correr atrás de uma bola é tão primário, no homem, como o de beber o peito materno :-))
Sabe Rita, o futebol é tantas vezes depreciado por não ser bem entendido, ainda que tenha de concordar que muitas das críticas que hoje lhe façam, sejam justas. Mais do que ver 22 "caramelos" a correr atrás de uma bola, está muito mais em jogo do que apenas isso. Fui jogador federado e muito do que sou hoje, devo-o ao futebol. Aprendi a noção de equipa de respeito, de conquista, de competição, de derrota, de mágoa, de tristeza, de alegria, de sofrimento e de outros valores igualmente importantes. Eventualmente, ter-me-à afastado de outros caminhos mais sinuosos e ainda o fará a tantos miúdos que hoje o praticam... Ao futebol, devo muito! Talvez porque dentro desse meu jogo, o futebol fosse mais puro para cada um de nós, por não existir dinheiro, interesses de segunda ordem, mas tão somente uma convivência de miúdos apaixonados e esperançados em um dia serem com o Figo ou o Rui Costa. No entanto, nenhum de nós lá chegou, a desilusão nunca se apoderou de nós e ainda hoje jogamos entre amigos com a mesma paixão de sempre. Claro que o gigante mundo dos milhões que hoje engole este fenónemo, lhe tira um pouco de credibilidade mas para mim e grande parte de nós, assim que a bola começa a rolar em qualquer relvado, tudo se esquece e depressa nos concentramos intensamente naqueles 90 minutos. Sim, confesso que o impulso chegue a ser primário e quase instintivo, mas quer se goste ou não de futebol, quer se ame ou odeie o Cristiano Ronaldo, quer se deseje este ou aquele presidente, se diga mal deste ou daquele treinador, se pense nos milhões envolvidos, na corrupção, nas arbitragens e nas discussões de fim-de-semana, o que é certo é que mesmo depreciado, as pessoas param naqueles momentos. Quem não o fez no nosso Euro 2004? Quantos vestiram uma camisola, um cachecol ou exibiram uma bandeira para puxarem pelos nossos, sem no entanto saberem o nome de um único jogador ou pelo menos, lhe conhecerem a fisionomia?
É como a Rita disse e muito bem, um fenómeno. Muito obrigado pela sua resposta ao meu comentário. Um abraço.
NM
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:54
Concordo, Nuno, e penso que no fundo ninguém confunde: uma coisa é um júbilo universal, que aproxima os homens e aplaca as diferenças, outro é o negócio sujo e a usura a aproveitarem-se de um filão inesgotável :-))
De JdB a 3 de Junho de 2009 às 09:56
Durante a 1ª Grande Guerra, as partes beligerantes entenderam fazer umas tréguas "momentâneas", em nome do Natal e da ideia de paz na terra aos homens de boa vontade. Passados 90 anos, é o desporto-rei, um Brasil - Itália. Já não é o Menino Jesus, mas o Ronaldinho; já não é o presépio, mas um estádio de futebol; já não é a pobreza, mas o salário milionário; já não são os reis magos, mas os presidentes dos clubes; já não é o amor, mas a adrenalina. Sinal dos tempos.
Tento fugir ao lugar-comum, que este espaço não o merece, mas, de facto, só me ocorre uma frase batida: o futebol é capaz do melhor e do pior. Há dedos marotos e dedos sujeitos à comoção de um ataque brasileiro. Talvez se possa recomendar que os relatos sejam ouvidos, nos teatros de guerra, com as mãos nos bolsos.
Parabéns pelo post e pela recuperação da palavra transístor.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 10:53
E vendo a coisa pelo lado optimista, JdB?
Não triunfaria aqui o impulso de brincar, acamaradar, esquecer os antagonismos, retornar à infância para viver, ainda que por momentos, a utopia da paz?
Subraindo-lhe os aspectos mercantis, o futebol não representará isso também? Uma metáfora de pluralidade, ecumenismo, irmanação, universalidade, armistício?
De JdB a 3 de Junho de 2009 às 14:16
Terei de me deixar convencer pela métáfora. De facto, o futetbol (tal como a música em certo sentido) move multidões - no melhor sentido da expressão - e é capz de pacificar gente em contenda. Mas que raio tem aquele jogo (que o Ramalho, parece-me, classificava como "jogo de canelão e encontrão propício à tuberculose") que faz tanto pelo armistício?
Como não sabemos quais os apetites "clubísticos" daqueles dois pares de israelitas e palestinianos ficamos na dúvida do que seria se houvesse esse antagonismo a somar a todos os outros.
E que tal uma selecção de futebol entre deputados do parlamento? Seria, talvez, a utopia da elevação...
Sejamos optimistas.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 16:01
Ah-Ah, JdB!
O Eça não podia imaginar como estão hoje estes meninos, alimentados a pão-de-ló, a milhas de se tornar tuberculosos!
E se as patrulhas fossem de equipas adversárias a metragem seria ainda mais curta :-))
E quanto ao jogo entre deputados... ocorre-me uma frase atribuída a um distraído comentador desportivo: «O árbitro foi atingido por um objecto estranho, provavelmente atirado por um telespectador..." :-))
De Cláudia Ferreira a 3 de Junho de 2009 às 10:38
Bom dia, Rita,
Gostei do filme e fiquei suspensa, até ao fim, do que se iria passar. Não me interessa o futebol mas acho graça divagar sobre as reacções das pessoas, os seus comportamentos. E dei por mim a pensar no que seguraria aqueles gatilhos das metralhadoras, o que impediria de serem disparadas: o medo? o respeito pela vida do inimigo? a convicção de uma guerra estúpida? a noção própria de bem e de mal? Ou seria, apenas, a vontade de saber o resultado da bola?
Obrigada,
Cláudia
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 11:08
Viva, Cláudia! (Será vc será aquela menina novinha que um dia conheci numa feira do livro do Porto?)
Pois é, Amiga, assim o li: os gatilhos são suspensos não apenas porque a posição é de xeque-mate para ambas as patrulhas, mas sobretudo porque o relato arrebata cada uma, do mesmo modo.
Pessoalmente, estou convencida de que, estando ambas na mesma posição de fragilidade e vantagem, acabariam por se afastar sem sangue, por uma questão de cálculo. Mas com o relato do jogo a decorrer, caso não tivesse havido o acidente, haveria uma possibilidade, ainda que remota, de que aqueles quatro rapazes, educados para se odiarem, pudessem ganhar uma cumplicidade fraterna a partir daquele dia. E sim, absolutamente, graças ao futebol :-))
De Cláudia Ferreira a 4 de Junho de 2009 às 00:54
Rita,
Gostava muito mas não sou eu. Vivo na zona centro, nunca tive o prazer de a conhecer.
Obrigada,
Cláudia
De Rita F a 4 de Junho de 2009 às 01:01
Bem-vinda na mesma! Portugal é minúsculo, cruzamo-nos um dia :-))
De bloyeur a 3 de Junho de 2009 às 10:42
por o futebol unir multidões, pensei que a cena ia acabar com eles aos abraços e beijinhos.........triste fim
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 11:09
Esteve por pouco, Bloyeur...
(não fora o dedo trémulo do judeu :-))
De ulisses a 3 de Junho de 2009 às 10:47
O filme fez-me recordar uma entrevista ao António Lobo Antunes, na qual lhe fazem perguntas sobre a guerra colonial e ele conta que quando jogava o Benfica os militares viravam os altifalantes para a mata e a guerra parava.
Este filme acrescenta a isto o absurdo que é, em termos individuais, as pessoas andarem a disparar umas contra as outras. No espaço ocupado por aquelas 4 pessoas não se vislumbram os motivos pelas quais estão para ali aos tiros. Nada daquilo faz sentido.
Excelente filme. Belo post.
De rocha a 3 de Junho de 2009 às 11:52
Genial Rita .....
Eu que sou amante de Futebol e que parto a cara a estes nossos jogadores senão formos ao Mundial , este filme poderia ter o fim por nós tão esperado , não fossem eles israelitas e palestinianos ..Não há nada a fazer nem mesmo o futebol mas , vislumbrámos naquele relato um sorriso comum universal...o chegar de um golo à baliza!!! Muito nos espantaria que o final fosse outro. Ah .....e ganhou a Itália!
Brilhante
Tua Rocha ( graças a deus cristã)
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:33
Ah-ah-ah!, Isabel, apanhei-te!
Trais-te como bairrista, não só como leonina fervorosa, mas como católica atalibanzanda!
Mas então tu não me vês que é por qualquer coisa parecida com isso - mas a outra escala - que anda tudo aos tiros neste Mundo?
E os católicos e protestantes também não se matam em nome de Deus?
Haviam os Mormons ou as Testemunhas de te disputar Salvaterra ou a Granja, dizendo «isto agora é tudo meu», e eu queria ver! Nem um Sporting-Benfica te distraía da tua kalashnikov!
De rocha a 3 de Junho de 2009 às 12:35
quer apanhar???? não sabe que sou Benfiquista????
Ai ai ai ...tau tau
Sempre Rocha
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:37
Não discuta trocos, amor :-))
De rocha a 3 de Junho de 2009 às 12:53
Pois tem razão..trocos!!! mas carinhosa amiga, convivo muito bem com protestantes , mormons , evangélicos, iurd's , e que mais venham..o problema ali é a soberba, a arrogãncia e o orgulho não a religião!!
Saudações benfiquistas
Sua rocha
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:04
Conheço-te, sei que é verdade, 'tava areinar!
Mas sabes uma coisa? Aquele conflito horrível, sangrento, alimentado a orgulho, como dizes, que nos envergonha mais do que qualquer outro por fazerem da Bíblia um álibi, lembra-me aqueles casais infelizes, miseráveis, odiosos, que eternizam os seus divórcios e se destroem um ao outro diariamente, aplicadamente, até já não terem forças e despedaçarem também os filhos, por nenhum querer largar a casa de família...
Querida Rita,
A maior parte das vezes apegamo-nos a coisas bem primárias. Um jogo, um desafio entre amigos, uma corrida, qualquer coisas serve para nos aproximar de sentimentos básicos, nada complexos. O filme mostra a nossa natureza mais impulsiva, dependente de pequenas vitorias ou derrotas. Quantas vezes sorrimos porque alguém sorriu connosco?
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:46
É isso, Fernanda! O sorriso dos soldados, reprimido pela contingência, é, para mim, o mais sublime do filme. Não sei se por ser primário se por ser transcendente, mas isso levava-nos looooooooongeeeeeeee :-))) O teu novo Mazda é a gasóleo?
O importante é sorrir, com mais ou menos velocidade, vale sempre a pena sentir o vento no rosto e o bafo da alegria, não é querida Rita.
Primário não significa necessáriamente básico, pois não?
Beijos
Fernanda
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 15:37
Objection accepted :-))
belo filme, ricos comentários
bj
Rita V.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:05
E ricos desenhos os do teu novo blogue!! Parabéns!!
De Luísa a 3 de Junho de 2009 às 12:59
Palavras para quê, minha querida Rita? O futebol, se não é - felizmente - responsável pela morte de muitos corpos, é-o pela «morte» de uma infinidade de espíritos. O que se torna particularmente patente em certos Domingos à tarde nas melhores casas de família. ;-D
P.S.: O filme é extraordinário, ao fazer o paralelo da evolução dos factos e emoções no estádio com a situação de confronto entre os soldados.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:22
Hoje em dia considero saudáveis todas as formas de evasão que nos aliviem da angústia e da pressão e do complexo de culpa que os noticiários, e a brutalidade da vida de hoje, nos incutem diariamente, fragilizando-nos ou vulnerabilizando-nos ou mesmo incapacitando-nos. Uns vêem novelas, outros filmes, outros futebol. O risco é o de as pessoas não terem outro alimento se não o das massas, correndo o risco de se tornarem clones umas das outras, por fazerem todos a mesma dieta de emoções, sejam elas boas ou más. É a isto a que se refere, Luísa? Ao perigo de «desinvidualidade»?
De Luísa a 4 de Junho de 2009 às 03:10
Esclareço desde já, Rita, que sou grande apreciadora de bom futebol e até admito alguma simpatia «leonina». Mas acho que a atitude do não-perder-um-desafio-por-nada-deste-mundo, relativamente comum, só pode significar uma de duas coisas: ou assanhado fervor clubista (perigoso!), ou desinteresse por tudo o que sobra para além das interacções de vinte e duas pernas com um esférico (triste…). Também tenho imenso medo das evasões e das alienações colectivas, que jogam nos tais fervores clubistas, bairristas e congéneres e no exacerbamento das emoções. Acabam por desencadear processos (que incluem essa «desindividualização» de que fala), que são, na essência, os que subjazem aos mais violentos conflitos humanos. (Daí o interessante «paralelo» entre os momentos do jogo que se relata no transístor e os momentos do confronto entre os quatro soldados).
De Rita F a 4 de Junho de 2009 às 08:32
E existirão obcecados que vêem a vida como uma série de intervalos indesejáveis entre desafios de futebol :-))
De Raúl Mesquita a 3 de Junho de 2009 às 15:12
Rita, acho que me vou limitar ao filme porque nele está tudo. Já alguém hoje, aqui, referiu, parece-me, o absurdo da guerra. No filme, realmente, aqueles quatro homens não têm nenhum objectivo, fazem o que lhes mandaram fazer ou talvez também acreditem no que fazem. O futebol funciona como o ruído externo e interno, o da mente numa situação de stress. É uma belíssima condenação da guerra, em paralelo com este jogo de nervosismos. A guerra e o circo romano! Absurdo, diversão, falta de respeito pela dignidade do Homem . O lucro financeiro de ambos estes "jogos", alguém o tira sem dúvida. Parabéns pela tua escolha , Rita. Bjs , Raúl.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 15:44
É isso mesmo, Raúl, um absurdo. E qual a divindade que os tutela? Ou que não os impede?
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