Domingo, 17 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Hesitámos na escolha deste convidado. Pensámos que poderia ser pouco estimulante para a nossa habitual roda de convivas. O rapaz tem boa planta e, em todas as latitudes que subjazem ao paralelo dos maxilares, um recorte muscular notável, de excelentes proporções. Mas faltam-lhe, à expressão, a mobilidade e os vincos dos que reflectem e investem no que está para além da exterioridade das coisas. Tem o olhar demasiado liso e traços faciais demasiado grosseiros para, apesar da sua pujante juventude, poder considerar-se verdadeiramente atraente. Falta-lhe, igualmente, requinte na linguagem. E é bem possível que lhe falte tema de conversa. No entanto, estamos perante um caso de estrondoso sucesso. Mesmo se não lhe saem directamente do espírito, o rapaz tem talentos que falam ao povo e que empolgam multidões. E ainda que, pela minha parte, tenda a subestimar as artes puramente corporais e a conotá-las com pontuais défices de irrigação craniana, não cometo a injustiça de não reconhecer o mérito da sua extraordinária carreira, que arrancou dos degraus mais baixos, bem como o interesse da publicidade, senão do relativo prestígio, que o seu nome trouxe a Portugal. Depois, claro, temos na ponta da língua a pergunta a que, até hoje, nunca ninguém respondeu: por que é que o nosso indígena, o português comum, é um no seu país e outro no estrangeiro? Porque é que, lá fora, é capaz de emparelhar com as maiores referências mundiais no seu campo de actuação – seja ele um laboratório, uma folha de papel, um computador ou um relvado – e, cá dentro, não sai da cepa torta, se mostra tão sem fôlego e sem inspiração? Questão de clima, de ambiente geral, de concorrência, de liderança, de organização?...

 

Pois será para tentar compreender o fenómeno que vamos empenhar-nos em envolver o nosso convidado numa atmosfera familiar, propícia à confidência. E para tal, a ementa não vai poder ignorar as particularidades da gastronomia insular. Arrancaremos com o shot da moda, de tomate com vodka e amêijoas marinadas, mas homenagearemos a tradição com umas tranches de peixe-espada com milhos e batata-doce, perfumadas com redução de maracujá. Teremos, naturalmente, as principais especialidades turísticas, mas fecharemos com uma original sopa de papaia com queijo fresco, mel e nozes, que é também uma especialidade. Acompanharemos esta sobremesa com um generoso vinho da Madeira, e o café com um bom charuto.

 

Mas a cereja em cima do bolo não será o jantar. À cautela, não vá o nosso convidado, num assomo de soberba juvenil, achar-se melhor do que todos nós e fazer-se sobranceiro – ou, pior ainda, aborrecer-nos com as histórias da carochinha que escreve com os pés - tivemos o cuidado de providenciar um segundo convidado, já confirmado, que saberá pô-lo no seu lugar, como tem sabido pôr, com grande desassombro, muito parvenu aos meandros do poder e da fortuna. E que trará, estamos certas - além de notícias frescas da visita do outro, cheio de si, que lá foi anteontem comer-lhe à mão - emoções vivíssimas à nossa mesa. Trata-se de um conterrâneo e nem mais, nem menos do que (na minha leitura «italianizada») o melhor político português… É o tio Alberto João, claro! Animados?

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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53 comentários:
De patti a 18 de Maio de 2009 às 15:49
Que pena também ter faltado...

Mas já que falam da indumentária, posso ir de socas e mini-saia?
De Luísa a 18 de Maio de 2009 às 19:28
Patti, a mini-saia está já aprovada. A socas… (reticências)… Deixa-nos consultar primeiro o Mike? ;-)

De mike a 18 de Maio de 2009 às 22:20
Claro que pode, Luísa, ora... Venha, Patti, de socas e mini-saia. ;D

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