Domingo, 29 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É, a nosso ver, uma mulher tão mimada, quanto castigada pelo destino. A natureza fê-la elegante, exótica, atraente, mesmo se, no retoque à matéria-prima, nem sempre obteve os melhores efeitos. E a vida proporcionou-lhe fama e relativo sucesso. Ensaiou, diletantemente, umas incursões pelos campos da música ligeira e da actividade político-partidária, em que não deixou marcas de assinalável talento, mas firmou o seu nome no jornalismo televisivo, onde desenvolveu um estilo próprio, vistoso, feito de umas saliências provocatórias e de um tom agressivo, que não deixaram de dividir sentimentos e opiniões. A sorte foi-se-lhe, assim, matizando de sombras, e a sua imagem actual, entre coquete e misantropa, é, provavelmente, o produto dessas circunstâncias de amores e desamores em que vingou. Hoje, notamos-lhe mais moderação no tratamento das notícias e dos entrevistados. Mas nem por isso é menos incómoda. Para ela, fazer jornalismo é esquadrinhar as vidas públicas das pessoas públicas; é chagar a alma ao poder, enquanto se lhe notem chagas de comportamento e de carácter. E chaga-o, de facto, ao jeito do cão de fila – apoiada, de resto, numa equipa feminina que, com louvável desassombro, tem vindo a dar a cara na investigação de casos melindrosíssimos de alta corrupção no país. A nossa convidada não é, em suma, uma figura consensual. Mas tem-nos, caramba – e valentes! – onde muito macho e figurão dos media se apresenta tristemente desguarnecido.

 

É, portanto, na confessa esperança de esgaravatar nos podres da nossa realidade nacional que lhe propomos um jantarinho simples e restrito, para troca de confidências. Arrancando com uma sopa fria de legumes gratinados com «croutons» de salva (de que excluímos os tomates para evitar «overdoses»), pensamos oferecer-lhe, como prato principal, um simbólico bife à Marrare – esperando que do seu «marrar» saiam «colhidos» os grandes atrevidos! – E a acompanhá-lo, teremos o tinto alentejano Cortes de Cima Touriga Nacional 2005, cujos generosos taninos e final longo e apimentado se nos afiguram a propósito.

 

Só a sobremesa ainda está em consideração. Desconhecendo os níveis de apreço da nossa convidada por açúcares, debatemo-nos entre uma composição de frutos ácidos ou a originalidade de um gelado de queijo com compota de tomate. Ainda assim, porque os tempos são ingratos e pendem sobre ela ameaças de silenciamento, temos em reserva uns dulcíssimos papos-de-anjo, com que, neutralizando-lhe os amargos de boca, pretendemos estimular a sua irreverência noticiosa, que, para os descrentes da política, tem notas de música celestial.

 

 

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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22 comentários:
De Luísa a 30 de Março de 2009 às 14:01
Júlia, também ouvi a mesma explicação. E também ouvi falar em acidentes. Infelizmente, em matéria de plásticas, têm-se cometido muitos erros (veja-se o recentemente agraciado Mickey Rourke). Compreendo que não se conviva facilmente com certos traços visuais menos interessantes, incluindo rugas. Mas, se calhar, feito o balanço das coisas, é preferível mantê-los. Não sei. Que, às vezes, não consigo ver nas novas caras as caras que eram, não consigo. :-)
De Luísa a 30 de Março de 2009 às 14:02
E ficamos em pulgas, Júlia, com essas duas perguntas… ;-D

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