I. Renitente
Passa severo, ereto, renitente.
Resiste há uma vida ao que o exorta.
Traz às costas sinais do que não sente,
um couro enrijecido, pele morta.
Procura ter desprezo a toda gente.
Não que os desgoste. Não. Tudo o que importa
é evitar que um descontrole o tente.
Todo imprevisto ele prevê e corta.
Se é o uso que faz a boca torta,
risos, sussurros, sopros são tormento
para a alma, a espinha e a aorta.
No entanto, distrai-se por um momento.
Parece que vê abrir-se uma porta.
Por sorte, passa ali somente vento.
II. Chuva criadeira
Entrei e, mal fechei a janelinha,
assomou da soleira a tempestade.
Invadiu-me a sala, o pouco que tinha,
uns poemas (do Pessoa, o “Liberdade”)
Voou tudo. Foi papel, foi Martinha,
foi memória, foi giz, foi Tito Madi.
Danado, o vira-o-tempo, e eu na linha,
que vendaval é esse que me invade?
Choveu, fazer o quê? Buscar abrigo,
se é nele e n’água que agora me sento?
Posar de seco e fingir que nem ligo?
Ora, é melhor manter o olhar atento
e ao ouvido chamar o verso amigo.