Pedro Teixeira Botelho
Felicidade… bruta!
Achei ‘poético’ o conceito de ‘felicidade interna bruta’ trazido a público em mais um debate televisivo sobre a crise. A definição, que pretendia colar como nome de família ao insuficiente ‘produto interno bruto’, ficou por explicar e não mais afirmou que o óbvio: qualquer ser humano produz mais e melhor se for feliz, dando largas à sua criatividade e arregaçando mangas ao trabalho com um sorriso nos lábios, ultrapassando assim, cantando e rindo, feliz, a crise.
Obrigado pela dica. Faltou só explicar como se consegue o grau de felicidade necessário, às vezes contra ventos e marés, para obter este nirvana e, assim, pairarmos sobre o que seja que nos está a atingir sem sofrermos as suas inevitáveis consequências. Que são reais e quotidianas.
Que o diga o dono do restaurante meu vizinho, que, sempre que nos cruzamos, independentemente do sorriso que nunca me nega, não está nada feliz com a casa às moscas, os clientes a rarear e os empregados e fornecedores a teimarem em receber ao fim do mês.
Que o diga o dono do talho da esquina, acompanhado dos mesmos frangos, cabritos e outras bestas, única companhia diária com quem divide as agruras de um negócio que está difícil, pois os clientes limitam-se a dar-lhe os bons dias de longe.
Que o diga eu, que me vi obrigado a baixar o preço do serviço prestado pela minha empresa, forçado por clientes que iriam procurar mais barato ao mercado, se não cedesse. Mesmo sabendo que os custos de produção levaram um rombo durante o último ano, estiveram-se nas tintas e aconselharam-me a cortar nas despesas.
Pois, senhor professor universitário. Eu bem tento ser feliz e deixar todas as minhas capacidades criativas fluírem ao serviço do meu trabalho, mas esta sua teoria esbarra sempre num sacana de um obstáculo qualquer que me ultrapassa e que… me tira o sorriso da cara!
Será da crise?