Segunda-feira, 9 de Março de 2009
Este é um ano de bons filmes. Entre ontem e hoje, vi dois deles: Dúvida e O leitor. Duas histórias servidas por actores de eleição, premiados por razões evidentes. O primeiro é uma lição de representação, ou não fosse uma adaptação de uma peça de teatro. O segundo, não menos bem representado, é também adaptado de boa literatura (o livro de Bernhard Schlink já me tinha deixado rendida). Mas deixemos a forma, e vamos ao conteúdo. Em ambos, um mesmo tema, premente e eterno: o julgamento humano, a intolerância, a incapacidade de sentirmos compaixão por quem erra e a pressa de condenarmos impiedosamente quem nos lembra as nossas próprias fragilidades, não vão elas tomar conta de nós...

Em Dúvida, esse julgamento é provocado por uma mistura - perigosa como poucas - de preconceito, frustração e despeito, três ingredientes letais que se potenciam entre si e se transformam, juntos, numa arrasadora arma de destruição. O moralismo apoia-se sempre em certezas inabaláveis, que escondem invariavelmente o medo da cedência, da concessão à barreira ténue que nos separa dos nossos nebulosos limites. Espelhos que nos devolvem imagens pouco edificantes das nossas piores facetas.

Em O leitor o medo vai mais fundo, muito mais fundo. Quando há razões palpáveis e universais que nos autorizam a odiar sem remorso e nos absolvem de toda a culpa, o perigo da intolerância é ainda maior. É sempre mais fácil condenar, como se esse acto nos garantisse um lugar seguro do lado certo da barricada. Como se ele aplacasse a besta que há em nós, em todos nós, e a mantivesse adormecida, mansa. Como se suspeitássemos de que essa fera se pode tornar incontrolável a qualquer momento, bastando, para isso, sentir-se acossada. Por medo, preferimos não pensar. Não tem de haver compaixão por quem não teve compaixão, a equação é simples. E tão perigosa! A história de O leitor explora os insondáveis abismos e mistérios da natureza humana. Obriga-nos a olhar para um espelho feito de incongruências, nos olhos de uma mulher capaz de suportar todos os julgamentos menos o da única pessoa que amou, que prefere a condenação implacável à vergonha e humilhação de ser descoberta numa falha de que não tem culpa. Ou nos de um homem que se vê encurralado entre o amor e a repulsa, entre a compaixão e a rejeição.
Espelhos, uma vez mais.
Foram dois dias de emoções fortes e perturbadoras, de abanões de consciência que fazem bem porque nos põem a pensar: "e se fosse comigo?". É este um dos grandes sortilégios do cinema.
publicado por Ana Vidal às 23:45
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Assiti ao "O Leitor" e me identifiquei com tantas situações de lá.
Seus textos sobre os dois filmes estão primoros. como sempre, Ana, querida.
Beijos!
É um daqueles filmes que nos marca, Marie. Porque nos obriga a pensar.
Beijinho
De Manecas a 10 de Março de 2009
Dos dois somente vi o segundo, embora te recomende o "Quem quer ser Bilionário", que quanto a mim merece inteiramente o destaque dado pelos Óscares .
Do "O Leitor" acrescentava (se me é permitida a ousadia depois da tão eloquente prosa...) um dado que confronta a justiça e as nossos medos escondidos.
Como é que se condena uma ré com pena acrescida pela autoria de um relatório que ela não podia ter escrito por ser analfabeta?
E por outro lado, como é que este facto é tão interiormente assumido como vergonha, que leva uma pessoa a mesmo perante as co-arguidas de dedo apontado, a esconder um dado que as desmentiria publicamente.
Beijos G
Já vi o Bilionário, Manecas, e gostei muito. É um filme notável, daqueles em que apetece bater palmas no fim. Mas é cinema-entertenimento, não tem nada que ver com estes dois.
Quanto à tua pergunta, são os tais mistérios da natureza humana: a vergonha de não saber ler é superior ao medo da condenação exemplar, ainda que injusta, por comparação com as outras rés. Mais uma vez, o julgamento social...
beijos
De Luísa a 10 de Março de 2009
Ando sempre um pouco atrasada nestas coisas, Ana, e quase sempre perco a oportunidade de ver esses bons filmes no grande ecrã e só recupero com os DVD. Mas estou com imensa curiosidade em ver ambos. No que respeita a julgamentos precipitados estamos, infelizmente, a reincidir a todo o momento. E nunca vamos deixar de os fazer, sobretudo porque também de nós próprios precisamos de bodes expiatórios.
Pois, Luísa, é isso mesmo. Queremos tudo menos confrontarmo-nos com os nossos próprios demónios...
De mike a 10 de Março de 2009
Ainda não vi O Leitor mas quero vê-lo. Quanto à Dúvida... fiquei com dúvidas. ;)
Acho que vou postar sobre essa dúvida com que fiquei.
verei concerteza, ainda esta semana, depois de te ler!
De sofia k. a 10 de Março de 2009
Olás!
Tinha saudades de ler coisas tuas por aqui.
Já vi os dois e adorei. Sabes que 'O leitor' é um dos livros da minha vida, li-o há muito tempo e há muito que esperava pelo filme... O Stephen Daldry consegue aproximar-se muito dos livros, recria-os maravilhosamente. Já o tinha feito com 'As Horas.'
Gostei do que disseste sobre o julgamento humano. Sim, é tão mais fácil julgar e condenar do que abrir os braços e aceitar. Fiquei a pensar nisso.
beijos
Olá, querida!! Eu também tinha saudades de ver-te por aqui, espero que não desapareças outra vez por tanto tempo...
As Horas é também um dos filmes da minha vida.
Dos que nos deixam a pensar, como dizes.
beijos
Dos dois vi só o primeiro, e encontrei lá tudo aquilo de que a Ana fala. Fica-se a pensar...
são incontestavelmente os dois melhores filmes em exibição e, ambos, constarão dos melhores estreados em 09, e ambos, constarão da galeria dos melhores interpretados de todos os tempos e, ambos, constarão na categoria de filmes mais perturbadores de todos os tempos.
tenho andado por aí - e por aqui - feita tola a fazer-lhes elogios em caixas de comentários e a exortar outros a ir vê-los, e ainda não postei uma linha sobre eles.
nem eu mesma me compreendo, às vezes. :-)
(a minha leitura de 'a dúvida' não é semelhante à sua)
A minha leitura de Dúvida também me parece incompleta, SSV. Falta, para ser inteiramente justa, a esmagadora noção responsabilidade daquela freira que tem de agir, mesmo em caso de dúvida, para proteger as crianças. Era isto? E falta analisar a atitude daquela mãe - só isso daria um post-lençol... - uma das cenas mais impressionantes do filme.
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