Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Hermanos

 

Foi com o meu Pai que aprendi (eu e os meus irmãos) a conhecer e a amar Espanha como a conhecer e a amar Portugal. Levava-nos de viagem, à descoberta de cada pedra com história, de cada local sagrado, de cada paraíso gastronómico, de cada manifestação de arte. E fazia-o indiscriminadamente nos dois países, para que - sabendo embora a qual pertencíamos por nascimento - acabássemos por não distingui-los no coração e na pele. Explicava-nos as razões pelas quais dois povos que se dizem "hermanos" não se misturam mais do que água e azeite, as diferenças atávicas e as que as circunstâncias determinaram, e ainda as que não existem mas se inventam, para que as fronteiras criadas pelos homens não se esbatam na voragem sábia e aglutinadora da natureza. Contava-nos as histórias da História (a sua grande paixão), apreciadas e analisadas com uma notável equidistância que visava sempre diluir ódios e encorajar aproximações. O Iberismo sempre foi para nós, por todas estas razões, um conceito pacífico.

 

Tudo isto está inscrito nas minhas memórias de criança e de adolescente como um prazer sempre renovado, sempre desejado. Adorávamos viajar com o meu Pai, que tinha a enorme paciência de levar-nos mesmo sem a minha Mãe (que nem sempre podia acompanhar-nos) e se comportava connosco como um líder benevolente mas firme, divertido mas de uma autoridade inquestionável. Em Espanha ficávamos quase sempre nos Paradores (acho que os conheço todos), em Portugal nas Pousadas ou nos hotéis mais tradicionais. Gosto de passar esta herança aos meus filhos e procuro repetir com eles estas viagens de descoberta. São uma espécie de homenagem ao meu Pai. Ainda agora, nestes dias em Madrid, me lembrei dele ao saborear o cocido madrileño do La Bola, as inigualáveis alcachofras do Pimiento Verde ou a magnífica perdiz do célebre Botín. E pensei para comigo como reagiria ele às deliciosas tapas de nouvelle cuisine da Lateral, ele que era um gourmet exigente mas pouco dado a modernices culinárias.

 

Devo ao meu Pai uma paixão por Espanha que não se esgota. Vou lá, sempre que posso, encher-me de uma energia inexplicável, de uma alegria de viver que nunca vejo por cá. Reconheço nos espanhóis,  inevitavelmente, uma fibra que nos falta: a de um povo que gosta de si próprio e do que é seu. Acabei de constatá-lo uma vez mais, nestes dias: mesmo nas circunstâncias extremamente difíceis que também eles atravessam - a tremenda crise que apanhou desprevenida uma economia saudável e fez disparar a taxa do desemprego para níveis assustadores, de um momento para o outro - os espanhóis não desarmam e recusam-se a abandonar a sua fantástica celebração da vida. Continuam a sair para a rua ao fim da tarde, alegres e barulhentos, desafiando o frio cortante e as ainda mais cortantes previsões de futuro. À vista de uma ameaça nacional, vejo-os arregaçar as mangas e virar-se para dentro, protegendo-se do exterior e obrigando-se a consumir primeiro o que é produzido no seu país. Enquanto os portugueses choram a sua sorte e esperam, imóveis, que um qualquer messias os liberte de todos os males, os espanhóis enfrentam as adversidades com a determinação e a coragem de quem já sobreviveu a uma guerra civil.

 

E eu, embora me sinta muito bem na minha pele portuguesa, às vezes tenho pena de não ter nascido do outro lado da fronteira.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 22:44
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22 comentários:
De Luísa a 22 de Janeiro de 2009 às 15:39
O seu passado lembrou-me do meu, Ana. O meu Pai também tinha uma paixão pela História de Espanha. Penso que a nossa imiscibilidade já é muito folclórica (embora eu continue a não comprar laranjas espanholas). Esta sua belíssima reflexão também me trouxe à memória uma ideia, salvo erro do Eça, segundo a qual o patriotismo espanhol seria, essencialmente, um amor profundo, físico, àquele pedaço de terra, ao contrário, por exemplo, do patriotismo inglês, que seria o apego (intelectual) ao seu modelo de «civilização».
De Ana Vidal a 23 de Janeiro de 2009 às 00:54
Excelente achega, Luísa, acho que é isso mesmo: o patriotismo dos espanhóis é telúrico, o dos ingleses é intelectual. Se a ideia não é do Eça, parece.

(fez-me rir com essa das laranjas espanholas!)

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