João Paulo Cardoso
Edições Revistas e Aumentadas
A histeria tomou conta dos jornais e revistas nacionais. As vendas caem a pique e há que fazer pela vida, recorrendo à oferta de brindes e aos títulos sensacionalistas. Rara é a publicação que não ofereça um filme, um livro ou uma porcelana das Caldas.
Não está longe o dia em que, na compra de uma qualquer revista cor-de-rosa ou jornal cinzentão, receberemos um cupão para levantamento de uma máquina de costura no armazém da papelaria em causa.
"Ah, vai levar o 'Correio da Manhã'? Então tem aqui o cupãozinho para levantar um canguru que está lá atrás, no nosso armazém, sim?"
Haverá também aquelas alturas em que torcerão o nariz às nossas escolhas, por inconveniência do momento ou por absoluta preguiça...
"Quer o '24 Horas'? Não quer nada, isso não dá jeito nenhum!"
"Como?!"
"Para lhe vender o '24 Horas' tenho que lhe oferecer uma mobília para quarto de criança e para isso tenho que tirar o Mercedes do concurso do 'Expresso'. E para guiar o Mercedes tenho que retirar a Enciclopédia do Mundo Animal da 'Sábado'. E está para chegar a colecção de palmeiras decorativas da 'Casa Cláudia' e os morcegos de plástico da 'Pais & Filhos'!"
Até os belos quiosques do nosso país que inspiraram, por exemplo, a pintora Maluda, vão ter que se adaptar às circunstâncias e, ao tradicional formato de cogumelo colorido, juntar-se-á, na parte de trás, um hangar repleto de uma parafernália de brindes, como se cada quiosque tivesse a sua Feira da Ladra.
O desespero de captar leitores está também na adopção de parangonas com isco no anzol. Os pronomes quantificativos estão na moda.
"Toda a verdade sobre as novas maminhas da Maya", ou então, "Tudo o que queria saber sobre fenómenos paranormais", são dois exemplos para o mesmo tema. O que conta é prometer tudo revelar, mesmo que, lá dentro, as promessas fiquem por cumprir.
Como não gosto de ver as minhas escolhas condicionadas por subterfúgios marroquinos, confesso que, chegados a este ponto, mais depressa compraria uma revista que tivesse escrito na capa "Casa Pia – Uma pequena parte da verdade" ou "O pouco que sabemos, quase nada, sobre os voos da CIA em Portugal", do que uma das que tudo sabe e tudo oferece.
Mas posso mudar de ideias, se a "Pais & Filhos" oferecer mesmo morcegos de plástico...
entre rios
nasceu
doce, manso
de ornato verbo
pressagiava-redimia
encantava-prometia
a porta que abriu
deixou em chamas
da sua passagem
restou o vento
Texto enviado por: Margarida Pereira
Pedro Silveira Botelho
O que realmente interessa
Podia comentar o próximo julgamento de Isaltino Morais (mas, afinal, o dinheiro não era do sobrinho, taxista?) por suspeita de corrupção, abuso de poder, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
Podia comentar a vontade de Ângelo Correia correr com a Manuela, pois, se dependesse dele, era já amanhã.
Podia comentar a desistência de Lech Walesa visitar a Venezuela, por causa do ‘grande democrata’ Chavéz, acabadinho de conseguir a proeza de se candidatar vitaliciamente ao poder no seu País.
Porém, prefiro partilhar a carta que recebi do meu Afilhado Hélder, de São Tomé, a primeira desde que me tornei seu Padrinho à Distância, seis meses depois de ter assumido este papel e de lhe ter escrito a apresentar-lhe esta nova Família que passaria a ter um interesse especial por ele. A carta, escrita pela irmã mais velha, reza assim:
“Senhor Pedro
Antes de mais nada te desejamos uma boa saúde e felicidade, são os nossos cumprimentos para si e para os seus familiares. E que esta cartinha te encontre bem de saúde.
Senhor Pedro foi com muita alegria que recebemos a notícia que o senhor ficou muito feliz por ser padrinho do Hélder. Ficamos também felizes pela escolha. A família do Hélder é uma família pequena como podes ver.
Vou passar a apresentá-los: a mais velha é a nossa mãe e ela chama-se Joana e ela tem 34 anos; ao lado dela é a minha irmã mais nova que se chama Edneisa e ela tem 13 anos e estuda na 5ª classe e a seguir sou eu e chamo-me Waldimira e tenho 16 anos e estudo na 8ª classe e eu tenho uma irmã gémea e ela não saiu no postal por problema de doenças. E depois vem o Kelve e ele tem 8 anos e ele é estudante da 3ª classe e por último vem o Hélder que só tem 2 aninhos. Como se vê é pouca gente.
E agora eu vou vos dizer o que o Hélder gosta. Ele gosta de brincar, chorar, comer de tudo por enquanto. Ele é tão divertido, bonito e lindo e giro. Ficamos muito felizes quando lemos a carta. Nós te agradecemos muito.
Bom! Vamos acabar agora enviando-vos um grande beijinho e um abraço muito apertado.
Esperamos que escrevam sempre quando quiserem.
Do Afilhado Hélder”.
Feliz fiquei eu em saber que, apesar das dificuldades que não serão poucas, o Hélder tem uma Família que o adora e o acarinha. Feliz fico também por poder ajudá-lo na medida do que puder, se tal contribuir para lhe abrir um horizonte de esperança num futuro mais risonho.
Longe dos isaltinos e dos hugos deste mundo que tantas vezes desacreditam a raça humana.

A poeta e letrista brasileira - e minha querida amiga - Alice Ruiz, rendeu-se finalmente ao mundo dos blogues. É este o novíssimo endereço de Alice, para "visitas, sugestões, comentários, palpites e críticas", como ela própria anuncia. Não se admirem da lentidão das entradas e comentários, Alice ainda está a "engatinhar" neste universo. Mas, se bem a conheço, bem depressa passará de caracol a gazela.
Bem-vinda à blogosfera, amiga.
Deixo aqui dois aperitivos da sua arte poética, na forma de um poema (que está na minha antologia A Poesia é para Comer) e de um delicioso haikai, modalidade em que é mestra consagrada:
I.
SEM RECEITA*
Primeiro, lenta e precisamente, arranca-se a pele esse limite com a matéria. Mas a das asas melhor deixar pois se agarra à carne como se ainda fossem voar. As coxas, soltas e firmes, devem ser abertas e abertas vão estar e o peito nu com sua carne branca nem deve lembrar a proximidade do coração. Esse não. Quem pode saber como se tempera um coração? Limpa-se as vísceras, reserva-se os miúdos para acompanhar. Escolhe-se as ervas, espalha-se o sal, acende-se o fogo, marca-se o tempo e, por fim, de recheio, a inocente maçã, que tão doce, úmida e eleita nos tirou do paraíso e nos fez assim: sem receita
II.
Lembra aquele beijo
Corpo alma e mente?
Pois eu esqueci completamente
Rita Ferro
Turn off the light,
take a deep breath…
and relax
Homenagem a Gottfried Helnwein,
poeta dos meus pesadelos.
E a tempestade que não amainava.
A chuva caía que Deus a dava, que bem a ouvia cantar nas velhas telhas.De quando em quando um clarão entrava pela janela e iluminava o quarto que há muito ficara às escuras, quando um trovão mais forte desligara a electricidade. Ainda bem que, aos primeiros sinais de borrasca, trouxera fósforos e velas...
O vento a assobiar, lembrando-lhe os uivos dos lobos, por entre as negras árvores fazia-a estremecer, e puxar os cobertores até aos olhos - sentia-se mais segura...
Quando tudo parecia que ia ficar mais calmo, ouviu um estrondo que quase a fez saltar da cama; com medo, mas decidida, acendeu uma vela, lançou um xaile pelos ombros e foi ver...
Desceu as escadas e logo deparou com a porta escancarada. Esquecera-se de deitar a tranca, e uma rajada mais forte metera-a dentro. Mas, pelo menos, os uivos tinham parado. Colocada a tranca, voltou a deitar-se - agora sim, agora iria dormir...
Texto enviado por: Cristina Ribeiro
Marie Tourvel
Antes de qualquer coisa, clique no nome do autor deste crassicão: Victor Hugo.
Meu bilionário, não se choque com o título de meu Pocket de hoje. Sei que muitos de vocês vieram de baixo, não tinham grana pra nada e se deram bem -não importa de que forma. Não olhe com essa cara de nojo, vai. Pense em seus subordinados. Pensou? Então, agora esqueça. Você é um bom patrão e dane-se todo mundo. Lembrou de algum país da América Latrina? Isso! está no caminho certo. Mas não no sentido de miseráveis sem grana. Mas no sentido de velhacaria mesmo. Vamos ao resumo:
Jean Valjean é preso por roubar um pedaço de pão. Por tentar fugir diversas vezes -presidiário é tudo igual mesmo, pegou 19 anos de gancho. Sai da cadeia com a condição de se apresentar uma vez por mês por lá, uma coisa assim. É ajudado por um bispo. Sacaneia o bispo roubando-lhe as pratarias. É preso de novo. O bispo o salva dizendo que ele deu a prataria toda a ele como presentinho e ainda diz que esqueceu de dar os candelabros. Quanta bondade. Aí o Jean tem que se emendar, né? Aí começa a ver que o mundo é bom e que a felicidade até existe. Ele espera redimir-se por meio da filha Cosette, que é adotada -filha de uma prostituta. Em meio a digressões de Hugo, tinha uma pedra no caminho. No caminho tinha uma pedra: Javert, policial estranho porque cumpre a lei à risca. Estranho isso, não é? Fica só na caça do nosso herói. Resumindo: O Jean se redime de seus pecados e o Javert se mata. E alguém aí vai dizer que resumir crássicos não é de bom tom?
(Em primeiro lugar, pelamordedeus, pronuncie Hugô. Sabe fazer isso, não é?)
Por que este título para o livro? Nem dê bola. Hugo faz digressões até com estrume neste livrão pesado. Olha só, tentarei explicar. Sabe aquele seu amigo que tem tanto ou até mais dinheiro que você, e por mais que ele se cubra de luxos, jamais terá classe? Calma, não estou falando de você, querido. Pois é, aquele seu amigo é um miserável. Entendeu? Não? Ah! deixa pra lá. Mesmo que você tenha visto o musical -sim foi feito um musical deste livro, obviamente, não cite isso. Diga nas rodinhas sabidas que leu o original -não, não diga que leu em francês. Nós, e somente nós, sabemos que você não faz biquinho nem quando está bravo, não é? Pensa que todos da rodinha leram as mais de 1300 páginas do livro? Não mesmo. Muitos de lá só leram as inúmeras versões abreviadas que sairam do livro, que fique bem claro.
Diga uma frase que muitos intelequituais de esquerda (eu sei que isso não existe, bilionário. É que eles autointitulam-se. Coisa de gente louca mesmo), amam: "Miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes". É de uma música de um grupo de roque (Titãs) do Bananão, do Brasil-il-il, grande pátria desimportante, onde proteger ditaduras de esquerda é absolutamente normal. O Bananão é excêntrico e exótico por natureza. Mas que beleza!
Nunca confie que os intelequituais, porque estão impressionados com sua desenvoltura para falar dos crássicos da literatura, já viraram seus amigos de infância. Nunca caia nesta asneira. Eles são gente como a gente. Têm inveja. A mesma inveja que você sente daquele seu "amigão" bilionário que mesmo nesta crise xarope comprou aquela Lamborghini pra dar um rolé pelo bairro. Então, eles vão dissecá-lo sempre com perguntas marotas. Nunca baixe a guarda. Você pode se trair ao falar sobre o aspecto social do livro, então procure falar do período histórico sem medo. Diga que se trata de uma obra que narra a situação política e social francesa no período da Insurreição Democrática através da história do tal do Valjean. Diga que Victor Hugo dissecou a condição humana em todas as suas qualidades e defeitos. E olha que bunitu: este romance refere a forma como cada indivíduo desempenha um papel no contexto -palavra amada por esquerdistas, da época histórica. Depois dessa dê uma profunda respirada.
Beba um gole de seu uísque e vá procurar uma rodinha em que estejam falando de Flaubert. Quem sabe na próxima semana eu resolva agraciá-los com esse francês da pesada.

Os meus actores favoritos:
Philip Seymour Hoffman
Sentado no banco de madeira olha sem ver o velho oleado pregado na mesa com pregos enferrujados. Os pensamentos perdidos não se conseguem ordenar. Não entende.
Pousa a mão esquerda na direita e sente a pele velha e áspera enquanto o indicador direito brinca com um prego enferrujado que, teimosamente, segura o velho oleado desmaiado e roto.
Passa assim o tempo, dia após dia, semana após semana, ano após ano.
Todos os dias entra na velha sala uma senhora forte, com um grande sorriso, sorriso triste de quem guarda memórias doces. Vê as mãos que brincam com o prego e o oleado e recorda momentos em que essas mãos, menos velhas e mais macias, seguravam a sua mão pequena enquanto passeavam pelo terreiro.
São agora as mãos dela que lhe dão de comer, que lhe afagam os poucos cabelos brancos, que lhe limpam o nariz e lhe dão banho.
Ele ali sentado sorri-lhe. Não sabe quem ela é mas sorri-lhe. Ouve, como está paizinho?, e não responde porque não entende.
Fica o sorriso quente e meigo daquela mulher estranha que vem vê-lo todos os dias. E ele sorri àquela estranha que entra todos os dias como se cada dia fosse o primeiro.
Na memória, nada, como se uma porta se tivesse aberto com uma forte rajada de vento que lhe levou as recordações.
Texto enviado por: Melões Melodia
E com este post ficam saldadas as minhas dívidas de correntes e desafios. Também este vem da Luísa, mas tenho uma vaga ideia de que já passou por esta porta, há coisa de um ano. Seja como for, o prometido é devido. Aqui vai a sexta frase (juntei-lhe mais algumas, para dar sentido à coisa) da página 161 do livro que tenho mais à mão: A Paixão (Almeida Faria). E o meu comentário ao parágrafo transcrito.
"mas talvez que a vida seja sempre só essa luta inútil e a devamos contudo olhar como se fora outra, descobrir em cada coisa a face oculta, a face que está na sombra, nas origens, na fonte, e de súbito nos surge como se antes não fora"
Gosto das camadas ocultas das coisas: da parte do iceberg que não se vê e é a sua principal massa; de seguir as pegadas em sentido contrário, até ao lugar de onde partiram; do jogo de espelhos que simultaneamente multiplica, esconde e revela; da sombra chinesa, que preserva os contornos e apaga o que é acessório; dos significados menos óbvios de cada palavra, de cada gesto, de cada olhar. Gosto do que tem de ser adivinhado, intuído, interpretado. O que é palpável é muitas vezes estéril. Valha-nos a utopia, para podermos viver a realidade e encontrar-lhe encantos.
(Imagem: Livro-Espelho, fotografia de Chema Madoz)
Aos destaques do dia de hoje, salientados pelo notável Eternas Saudades do Futuro, do João Marchante, acrescento mais dois aniversários das minhas preferências:
. Sandro Botticelli - um pintor da minha paixão - em 1510.
. Javier Bardem - um actor de mão cheia - em 1969.
Luísa
O convite está feito. E embora conste que não aceitou o outro, aguardamos, a todo o momento, confirmação de que acedeu ao nosso e já se encontra neste jardinzinho à beira-mar plantado para vir jantar connosco. É certo que, a nós, não nos move a política. Não partilhamos, com o convidado, nem a visão do mundo, nem os interesses comerciais sobre esse pequeno milagre da tecnologia informática que, não tendo ainda circum-navegado o planeta, promete restituir a Portugal a glória dos tempos de inovação e descoberta de quinhentos. Não, o que nos move são razões mais comezinhas… Mas não resistimos a conhecer a personagem, sensíveis ao charme peculiar do contraste da cara abolachada, de vincados traços indígenas, ressumando a candura popular, com o tónus vigoroso, o vernáculo imperativo e irreverente - que alguns qualificam, com soberba complacência, de exótico -, a fidelidade a um ideário e a um programa datados, mas não menos actuais no quadro das modernas causas fracturantes, e o simbolismo romântico da camisa encarnada, desfraldada aos ventos do progresso. E porque um homem é ainda e sempre a sua circunstância – e porque somos mulheres! – não negamos, também, alguma permeabilidade à sedução de um poder meio absoluto e agora meio eterno, que, se não está bem legitimado, está, pelo menos, bem financiado.
O nosso receio é que, nos transportes da sua costela latina, a criatura irrompa na habitual verborreia. Ou, pior ainda, que algum impaciente o mande, de novo, calar. Optámos, portanto, por uma ementa de tipo «rolha», que lhe não dê descanso aos dentes; uma espécie de «menu-degustacion», de sabores genuinamente portugueses, que não deixará, decerto, de apreciar. Faremos assim desfilar na mesa, sob os vapores do portento de complexidade e persistência que é o Dupla, tinto Bacalhôa, colheita de 2006, uma série de variações em torno do nosso tradicional porco preto. Arrancamos com uma salada de orelha de porco fumado, com redução de balsâmico. Seguimos com uma terrina de porco com tártaro de maçã, umas bochechas de porco confitadas, umas burras de porco de forno em vinagreta, um joelho de porco glazeado em mel e uma perna de porco em crosta de especiarias, não esquecendo as incontornáveis alheiras transmontanas e os imprescindíveis rojões à minhota. E para sobremesa - e ainda com a presença suína discretamente corporizada no gordo do bom presunto de Chaves - propomos o celebérrimo pudim de toucinho Abade de Priscos. A empreitada é de vulto, sabemo-lo. Mas garantimos um jantar rico, substancial e trabalhado com todo o esmero… não duvidando, embora, de que o melhor «prato» será esse que vai sentar-se à direita da nossa anfitriã…