Faz hoje um ano que morreu Luciano Pavarotti. Como homenagem, aqui republico hoje o que escrevi sobre ele a 5 de Setembro de 2007, na véspera da sua morte, quando a confirmação desta era já só uma questão de horas.
"O crepúsculo de um deus
Lembro-de bem da profunda impressão que me causou quando o vi (e sobretudo ouvi) cantar ao vivo, a menos de dez metros de mim, ainda em pleno esplendor da sua poderosíssima voz. Gostei sempre mais da doçura e maleabilidade da voz de Plácido Domingo, por contraponto à imensa força da natureza que era a de Pavarotti. Muito abaixo dos dois, na minha opinião, ficou sempre José Carreras (não fosse a tocante e exemplar história de vida, uma lição de preserverança e de estoicismo, e não lhe reconheceria o direito a um lugar entre "os três tenores"). Mas tenho de admitir que Pavarotti, não sendo o meu preferido, era absolutamente arrasador em palco. Abria a boca e saía - aparentemente sem o menor esforço - um vozeirão magnífico, seguro e cheio, que enchia cada recanto da sala e fazia arrepiar de espanto quem o ouvia.
Teve ainda um outro enorme mérito: o de ter sido o primeiro a abrir as portas do canto lírico, habitualmente reservado a um público reduzido e exigente, às chamadas "massas". Por causa das suas parcerias com variadíssimos músicos de outros géneros musicais - pop e rock, sobretudo - o universo operático deixou de ser, para muita gente, um "papão" inacessível. Ficam para a História os concertos "Pavarotti and Friends", a favor de causas humanitárias para as quais arrecadou muito dinheiro e chamou as atenções do mundo.
Por tudo isto assisto com tristeza, nestes dias, ao crepúsculo de um deus."
Acabo de publicar o meu post e descubro que também escreveste sobre ele, o nosso Luciano.
Quase coincidimos nas opiniões sobre os Três Tenores. Placido passará à história, provavelmente, como o mais gigantesco de todos os cantores do século XX. O repertório é impressionante. Até Wagner! Carreras, antes da doença, tinha uma voz abençoada, mas mais pequena.
Pavarotti... era a tal força da Natureza. Voz deslumbrante e tonitruante, isto para não mencionar o silabar sem igual - conta-se que passou o primeiro ano de estudo de canto a entoar vogais, apenas vogais. O resultadfo foi o canto cristalino, cada sílaba perfeitamente perceptível.
Este nosso tempo, Ana, tem sobre os outros a vantagem de poder deixar muito testemunho (designadamente em som e imagem) dos seus valores e referências e de os manter vivos e próximos na memória de todos nós.