Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Da Atlândida

 

Chega-se e nem por um segundo se duvida: abriram-se para nós as portas de um paraíso perdido, de um mundo de brumas e de lendas suspensas no tempo. Somos os atónitos visitantes a quem foi dado o supremo privilégio de conhecer - pelo menos uma vez na vida - um dos últimos redutos mágicos do planeta. Sim, estamos na Atlântida.

 

Numa ilusão de realidade temporal, bebemos um gin tonic no Peter, mergulhamos nas mornas mas tormentosas águas das piscinas naturais, petiscamos um peixe fresquíssimo ou passeamos pelas estradas debruadas a hortenses. Para não perdermos o pé, agarramo-nos desesperadamente às tábuas de salvação daquilo que dominamos, dizendo que o que nos amolece é o inacreditável grau de humidade, o que nos confunde é o ócio, o que nos deixa mudos é o estranho silêncio. Mas não nos iludamos: o que verdadeiramente nos subjuga, reduzindo-nos à condição de deslumbradas formigas, é a força esmagadora da Natureza, em todo o seu esplendor. É sermos tocados por uma espécie de benevolente sorriso de uma entidade infinitamente maior do que nós, que nos permite, magnânima, levantar a ponta do véu dos seus mistérios insondáveis e penetrar na antecâmara - não mais do que na antecâmara - do seu reino de glória.

 

 

 

Vir aos Açores é aprender uma lição sobre o assombroso poder da Terra-Mãe: disfruta-me, admira-me, maravilha-te, mas nunca te esqueças de que amanhã tudo isto que vês poderá desaparecer para sempre, tal como surgiu aos teus olhos.

 

Vir aos Açores é entender a nossa verdadeira dimensão. O negrume recortado da lava basáltica, o luminoso verde que cobre cada centímetro de terra, o azul profundo do atlântico, não são mais do que engodos. Esta espantosa beleza não é gratuita: o preço é vermo-nos ao espelho da nossa insignificância.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 01:12
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28 comentários:
De Sofia K. a 18 de Agosto de 2008 às 11:22
Ainda bem que já te deste conta de tudo isso. Muito bonito o teu texto!

Os Açores têm a perfeição do paraíso que quase sempre julgamos perdido, mas têm a magia do que nos é próximo... os verdes e os azuis, as hortenses (tal como na casa da minha avó!), as águas... estamos quase sempre na fronteira, entre o sonho e a realidade... que saudades!

beijinhos e boas férias
De Ana Vidal a 19 de Agosto de 2008 às 00:36
Sim, é verdade que estamos sempre na fronteira por aqui. Tudo parece mesmo um sonho, comparando com a destruição que se vê por todo o lado.

O postal já seguiu, miúda.
Beijos para a família de citrinos!

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