Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Assunto encerrado

 

 

Muita tinta tem corrido sobre o caso Polanski e os intelectuais europeus estão chocados com a prisão do cineasta. Tratava-se de uma miúda, mas, mesmo assim, os mais relutantes em condená-lo à fogueira especulam: «How young is too young?». Com tanta conversa ainda não percebi: houve violação e sodomia, ou o crime foi seduzir a menor? Cokie Roberts, escritora e jornalista laureada, dava-lhe um tiro e pronto. Aqui 

 

Quer comentar a atitude da senhora?

 

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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Aroma a ruína 

 


 

O perfume Clive Christian's honrou-se este ano com uma edição limitada a cinco frascos - cinco -  feitos de cristal Baccarat e de gargalos cravejados de diamantes. 

Tão superlativamente chique que até baptizaram a edição: Imperial Majesty. Custa a ninharia de 35 MIL CONTOS. Fizeram-se cinco, venderam-se três. A marca é discreta e não revelou o nome dos compradores. Pudera! Eram executados no dia seguinte pelo Sindicato do Terceiro Mundo. Cheira-me é que o cheiro desta fragância - desculpem, deu jeito o pleonasmo - deve ser uma questão preety irrelevant, mesmo for those who can afford it. Para pindéricos como nós, então, é para nem cheirar.     

 

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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Até à Eternidade! 

 

O espantoso desta era é sabermos que diariamente, algures no Mundo,  

surge um carola capaz de nos surpreender. É o caso. 

O vídeo que trago hoje é de Marco Brambilla e é projectado DENTRO DOS ELEVADORES de uma cadeia de hotéis norte-americana, com uma intenção simbólica: mostra a quem sobe uma ascensão aos céus, e, a quem desce, uma descida aos infernos.

 

É uma visão perturbadora – embora kitsch, para meu gosto -  não apenas pela escolha de Stravinsky para o fundo musical como pelo épico de imagens apocalípticas  que nos cruzam os olhos e a mente como um pesadelo,

um aviso divino ou a versão futurista de uma parábola de Bosch.

 

Lástima que não seja possível vê-lo em HD e 3D,

pois a experiência seria ainda mais inquietante.

 

Com atenção, talvez reconheça algumas das imagens que vai ver, certamente extraídas de filmes, pelo que a negociação dos direitos autorais não terá sido fácil.

Ignora-se se a projecção se suspende quando o elevador chega ao destino, ou se, lá em baixo, os empregados da Recepção já se permitem brincar com os hóspedes recém-chegados, no momento de lhes estender a chave:  «Your room number is the 2016, at the 15th floor, right next to the purgatory. Have a nice journey, sir!»

 

 

Ah, fundamental: clique sobre o ecrã

para apreciá-lo em tamanho grande (full screen mode)

 

 

 Goste-se ou não,

é uma fantasia inspirada e engenhosa.

 

Que sensações lhe trouxe?

 

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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

A serpente foi uma má ideia

 

Uns, dizem que derivamos dos macacos;

outros, de um rasgo divino;

num caso ou noutro houve evolução:

gerou exemplares generosos como São Francisco,

geniais como da Vinci,

belos como Nicole Kidman

e divertidos como Ricky Gervais

que, descobrindo o criacionismo,

prova que pode troçar de Deus e mesmo assim fazer-nos rir.

 

 

 Perante isto, arrisque a sua teoria:  

 

Quem criou o Homem?

 

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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro


 O meu neto levou-me ao Zoo!

 

 (Mara: roedor oriundo das pampas, residente no zoo de Lisboa desde 2001)

 

Fui mãe aos 21 anos, pelo que me considero uma avó nova – sei que é patético, mas deixem-me acreditar. Talvez por isso, tive a coragem de levar o meu neto Pedro, de 5 anos, ao Jardim Zoológico de Lisboa. Tenho outro chamado Vasco, de dois anos – obeso, estroina e sedutor mas tão intensamente feliz que rebenta comigo. Quando me ofereço para tomar conta desse com a intenção insofismável de lhe apertar os braços rechonchudos, com ganas antropófagas, ou afundar centenas de beijos ávidos naquelas bochechas suculentas, do meu sangue, à revelia dos seus protestos, chego a casa tão cansada como se tivesse esfregado, de joelhos, um piso inteiro do Hospital de Santa Maria. Quer tudo: roer-me o comando do carro, lamber o meu telemóvel de ecrã táctil, arrancar-me os colares, puxar-me os brincos até à mutilação medieval, enfiar os dedos gordos nas tomadas, depois de os chupar, abrir o caixote à cata de lixo orgânico, descolar com aplicação o sofisticado papel de parede da casa de jantar da minha filha. Como se não bastasse, está na fase de largar as fraldas, remetendo-me para essas humilhantes sessões de penico, com distracções catastróficas nos estofos dos sofás brancos ou, sadicamente, na roupa que acabei de vestir-lhe. Resultado: por uma questão de saúde mental, minha, ficou em casa.    

 

O Pedro é outra coisa: além de assustadoramente responsável, tem um léxico e uma gramática surpreendentes, uma auto-suficiência invejável e um sentido de justiça que tomara muitos magistrados. Se eu digo «Vês só mais este Ruca e depois giras para a cama», é principesco a honrar a negociação. É uma delícia estar com ele, a sós, apesar de ser um anti-fumador primário e de me perseguir com o civismo: «A avó deitou o cigarro pela janela», «A avó está a comer pastilha elástica de boca aberta», «Não grite com o mano, avó. Ele não é surdo.», deixando-me invariavelmente a balbuciar justificações idiotas e a sentir-me um cafre. 

 

Mas, voltando ao zoo, paguei cinquenta euros entre entradas, gelados, ice-tea e Mac-nuggets, mas vimos tudo: os camelos, os leões, os gorilas, as anacondas, os flamingos, os leões-marinhos, os rinocerontes, os hipopótamos, os crocodilos, as girafas e a tartaruga gigante - a qual, aviso já, é neurasténica, e até descobri uma espécie que não conhecia, os Mara, umas lebres da Patagónia com cara de burro e corpo de canguru, medonhas, que correm a 45 km à hora e são do tamanho de cães médios. Por fim, já com os pés a explodirem dos sapatos e a coluna a facturar-me juros, andámos de teleférico que, para grande surpresa minha, é de graça! À saída, moribunda mas recompensada por ter adubado o imaginário do meu neto, ouvi-o confirmar, enternecido com o meu contentamento: «Então, avó? Gostou?»

 

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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Se este filme não mudar o seu marido,

mude de marido.

 

 


Steve,  promovido na companhia em que trabalha precisamente no seu dia de anos, descobre que a mulher lhe preparou uma festa-surpresa. Tem todas as razões para estar feliz. Ao abrir a porta de casa, no entanto, apesar das grinaldas de acolhimento e das mensagens de parabéns desenhadas pelos filhos, estranha o silêncio, a escuridão e, mais tarde, o fio cortado do telefone. Se é uma surpresa, desta vez a mulher conseguiu-a! Misteriosamente, só a TV funciona. Ao lado do aparelho está um vídeo, com uma nova mensagem manuscrita pelas crianças: «read me». Começa a vê-lo já esfriado por um pressentimento e não se engana: a imaginada surpresa transforma-se numa armadilha de terror psicológico, que o mantém preso e sozinho numa casa deserta, agora trancada por fora. Ninguém o ajudará. Ressentida pela negligência do marido em tantos anos de vida conjugal,  Alexandra faz-lhe um xeque-mate. Sitiado e raivoso, ele ouvirá pela primeira vez todas as queixas da mulher. E pela última. 

 

Um filme que nenhuma mulher deverá perder, pois espelha magistralmente todo o contencioso feminino, apesar da evolução dos homens.

 

Um conselho: se tem o azar de ter um companheiro destes, ao lado de quem se sente invisível – poor you - eis uma oportunidade para lhe fazer também xeque-mate. Instale-o comodamente na  sala sem jornais nem distracções, e obrigue-o a ver este filme. E, já agora: se um dia me encontrar na rua, agradeça-me. A sua vida vai melhorar.

 

Num clube de vídeo perto de si,

com o título traduzido «A vingança de Alexandra»

 

 


 

Ficam as perguntas de hoje, para ambos os sexos:

 

Já se sentiu invisível, no amor?
Que sentimentos vê nascer em si, perante a desconsideração da sua verdadeira identidade?

 

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Quarta-feira, 22 de Julho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Como se resiste a uma «mulher-mulher»?

 

Bell, numa cedência ao consumo

 

 Ainda sem papéis de relevo, Lake Bell é, na minha opinião,

uma das actrizes mais giras da actualidade.

Porquê? Talvez por ser de carne e osso e não de celulóide,

ser graficamente dotada, ter charme – que não se compra nem se opera - 

e uma voz irresistível.

Além disso, é feliz, espontânea e luminosa como uma miúda

e diabolicamente tentadora como toda a fêmea. 

A beleza corrompe?

A leveza pode ser um afrodisíaco?

O desejo ensina o que o homem ainda é?

Não, não vamos discutir isso,

mas responder com a isenção possível

a esta pergunta tão ociosa quanto gasta, irritante, pequeno-burguesa:

 

Haverá hipótese de alguma mulher,

 mesmo de qualidade,

estar sossegada com um exemplar destes

 rondando o seu homem?

 

1. Bell, entrando no Letterman

 

2. Bell, naturalmente em entrevista


 

 

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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

"Eu tenho dois amores"

 

 

 

Pode amar-se duas pessoas ao mesmo tempo? Há quem diga que o amor é um sentimento tão exclusivo e confinado a uma única pessoa que quem pensa que isto pode estar a suceder-lhe não ama, na realidade, ninguém. Mas pode ser um mito. A verdade é que o nosso coração tem mais capacidade para amar do que lhe damos crédito, ele próprio receando conflitos, injúrias e ambiguidades. Mais: temendo a nossa própria censura, que é a mais inclemente de todas. Mas a vida é tão difícil, as nossas falhas básicas tão profundas e o nosso défice de amor tão avultado que todo o amor disponível à nossa volta não basta para suprir essa cratera. E se somos capazes de amar vários filhos, um pai e uma mãe, não existe razão lógica para que o amor romântico seja diferente. Moralidades à parte, quanto mais nos amarem, quanto mais nós próprios amarmos, melhor nos sentiremos – não será assim? 

No lugar-comum da infidelidade conjugal, as pessoas tendem invariavelmente a desvalorizar o sentimento que as prende aos legítimos para se justificarem terem encontrado alguém novo e finalmente compensador, ou novos propulsores como o sexo, como se não admitissem poderem estar a amar activamente duas individualidades, rompendo por vezes com pedras angulares da sua estrutura afectiva.

Mas nada há que proíba uma pessoa de amar mais do que um objecto, concomitantemente, com igual intensidade ou dependência.

 

Impraticável? Sim

Impossível? Não.

 

Concorda?

 

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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

A violência doméstica

que não chega aos hospitais

 

 


 

Quem não conhece o diabolismo que o amor, incompreendido, pode gerar?

O desgaste da coabitação?

A verrina que a amargura destila?

Quem não lhe aconteceu já,

na vida a dois,

opor a humilhação ao cinismo

ou desvairar em nome da razão?

Quem não reconhece, em matéria de danos psicológicos, uma violência doméstica

que independe da superioridade muscular?

 

 

Quem tem medo de Virgínia Woolf, de Mike Nichols, a partir da peça homónima de Edward Albee, com Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal e Sandy Dennis. (Nota feminina: Sandy D., que aceitou o papel apesar de grávida, sofreu um aborto espontâneo durante a rodagem do filme.)  Vencedor de 5 Óscares. (USA, 1966) 

 

Quantas vezes já perdeu este jogo?

 

 

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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

 

O Mundo a saque da aldrabice civilizada

 

 


Legenda 1: Bernard Madoff. Bem vestido, próspero, com charme e classe: a receita infalível de um bom impostor. Valor da fraude: 50 biliões de dólares.

 

 

 

Legenda 2: O banqueiro espanhol Mário conde, presidente do Banesto, preso em 1994 por envolvimento em fraude à Bolsa de Londres, juntamente com cinco cúmplices.  «Actuando de forma coordenada e calculada,  aproveitaram-se da boa fé dos compradores e investidores, a quem causaram danos no valor de 450 milhões de euros». Luto por uma época em que o porte e o aprumo correspondiam a certos valores de honradez e carácter. Hoje, o ar fiável está à venda nas lojas como o ar inteligente ou de vanguarda.


  

 

Legenda 3: «It's impossible to violate rules and go undetected» disse Bernard Madoff em Outubro de 2007,  na TV, quando já urdia a maior fraude financeira de sempre executada por uma só pessoa. «Yeah! That's why you’ll be in jail for the rest of your life, you bastard», escreveu um telespectador raivoso na caixa de comentários deste vídeo. 

 

 

Legenda 4: «Why didn’t you find him?» A humilhação infligida à comissão de investigação de fraudes durante o caso Madoff, em audiência pública, e a resposta trémula de um dos membros: «I understand your question and I can’t answer as the specifics (…)»


Num mundo em que o nosso

banco pode roubar-nos

as economias de uma vida

 

(e não só: em que as igrejas podem ser extorsionárias, os padres pervertidos, os cirurgiões talhantes gananciosos, ou, noutro plano, os filhos podem vir a abandonar-nos em lares desumanos e os próprios cônjuges podem manter-se ao nosso lado mais por interesse do que por amor, ou seja, em que parece ter havido um retrocesso dos valores que as sociedades ditas cultas ou civilizadas já representavam como modelo, é delas, desgraçadamente, que nos chegam os mais vergonhosos exemplos.)


 Em quem confia você?

 

 

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

A volta ao estádio

 

Wangari Maathai (Quénia), Prémio Nobel da Paz, 2004

 

 

Hoje trago-vos a incansável Isabel Allende

 

- romancista e activista, sobrinha do presidente chileno, a quem Neruda aconselha

 

a trocar o jornalismo pela escrita,  

 

mãe de Paula, que morre vítima de uma doença sinistra em 1990

 

e a quem dedica  um dos livros –

 

num filme de 18 minutos,

 

falando sobre paixão a um público sofisticado.

 

 

Sim, é extenso, mas tão arrebatador que o tempo passa a voar.

 

E a questão é esta:

 

No mundo que ainda temos,

quem pode

não ser feminista?


                               Clique e oiça AQUI


 

 

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Marilyn Minter

 

 

 

Nasceu em 49 na Luisiana e cresceu na Florida.

Começou por fotografar a mãe, adicta de drogas.

Passou pela docência numa universidade católica e acabou por fixar-se num género de fotografia para publicidade de alta-costura e alimentação sofisticada,

que alguns consideraram pornográfica e indispôs as feministas,

acusando-a de exaltar a «objectificação» da mulher.

Não se ralou grande coisa e é hoje uma artista plástica consagrada em todo o mundo. Hipnotiza, pois descreve o sexo, a sensualidade e o prazer sem recurso ao explícito e  com uma notável economia de meios.

Para um minuto de filme, neste caso, bastou-lhe uma boca,

uma lamela e umas quantas lambarices.

 

Prove e diga se gostou. 

 

 

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Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

 

(Pietá, de Paula Rêgo)

 

Partilho hoje o texto mais verdadeiro que li sobre o amor. Não será o mais belo do ponto de vista formal nem o mais depurado poeticamente. Mas é sem dúvida aquele que mais me disse ao coração e à experiência. É de Pedro Paixão e acompanha-me há muitos anos. Costumo oferecê-lo a quem encara o amor como coisa cor-de-rosa e se assusta com as suas dificuldades. Lembra-nos que o amor não é um homem ou uma mulher, mas um trabalho que se vai corrigindo ao longo da vida. E que, mais do que um sentimento, é uma habilitação ao maior dos sentimentos. Nasce-se sabendo-o, ou aprende-se.

Mas não é para todos e envolve

trabalho, dor, risco e coragem.

 

Concorda?

 

 

Amador

 

Começar por amar a impressão de um só corpo. Mais tarde buscar em vários, muitos, um só corpo já das mãos e dos lábios conhecido. Depois amar por partes, escolhendo, as mais das vezes, a pequena imperfeição onde o prazer se acende. Tudo isto longe, muito longe do amor.

 

É que doem tanto as primeiras paixões que se enfurece justamente. O que se encontra é outra coisa, talvez melhor, talvez, mas não o que se tinha mais que tudo preferido. Os dedos a perderem-se nos cabelos, por exemplo. Só isso? A paixão tem de doer, é isso que quer dizer. Tudo isto muito tempo, porque mesmo assim não se desiste facilmente.

 

E depois, ao perder a âncora, a paixão faz volteio dentro da cabeça. Então vem a saudade que lhe enche o peito e vive só de sombras e fantasmas com insónia. É de uma fidelidade triste porque sem motivo. Dorme-se de menos por se sonhar demais e é tudo.

 

Por isso se desespera e se procura sem perder mais tempo, porque já se vai atrasado, aquilo que se perdeu naquilo que em volta há. Pode demorar muito tempo e nunca se ir encontrar. Pode apegar, pegar, apanhar, mas não mais apaixonar. Apaixonar é verbo passado, primitivo. Vai-se de corpo em corpo à procura do mesmo e é sempre outro e diferente e dá tonturas e dá trabalho e causa dor, não nele, imune, mas nos outros, que se deixam embaraçar, abrasar, enganar, porque talvez também se queiram enganar.

 

E chega o tempo de preferir a cara deste, e as mãos desta, e o corpo-tronco daquele ou tudo junto de repente. É o tempo de analisar tudo minuciosamente, partir, despedaçar, ver por dentro, dar a volta sem pretender sequer voltar a reparar. E pode-se ficar por aqui e pode-se até voltar atrás, mas já não da mesma maneira, porque para voltar só vale a pena por uma pior. É o vício a descobrir-se na repetição atraente, irrecusável mesmo, com cenas de ódio pelo meio a intervalar. Tudo isto mais longe do amor, se for possível. O amor sempre mete muito medo.

 

Mais vale aquela pequena imperfeição onde o desejo se acende e arde e leva consigo o tempo em frente. Amanhã o abismo, mas só amanhã. Como recusar, o que vem assim sem se saber porquê? Como cansar o que prefere morrer a sossegar? Para quê afastar o que se dá no presente e o enche nem que seja no bastante momento em que se está? Não há resposta e é de propósito que a não há. É preciso ficar doente para se curar e quanto mais doente melhor e pior ao mesmo tempo. E pode-se ficar assim ou querer voltar ao começo, só que já não o há, é só pequena superstição a aliviar a alma brevemente de tanta ilusão que só serve para atrapalhar.

 

Pode-se ficar frio no corpo e quente na cabeça. Ou frio no corpo e trazer o corpo a escaldar. Pode-se querer mais do que tudo perder a cabeça ou deitar o corpo pela janela do sétimo andar. Pode-se demais, é esse o problema. E se todos se portam mal já não vale a pena portarmo-nos mal, não será assim? Pode ser. E depois há a idade a trazer cabelos sem qualquer cor com a cara frente ao espelho sem se querer acreditar. E o medo cresce sempre. E o prazer precisa de crescer ainda mais para o abafar. E o corpo começa a doer e a adoecer e a recusar servir o que quer que seja, a não prestar nem para comer, quanto mais.

 

E pode-se ficar por aqui, ou recuar. Mas não é possível recuar, ou simplesmente então acabar de livre vontade ou imperiosa necessidade por já não se aguentar. É sempre demasiado tarde para acabar. Não vale a pena acabar.

 

E depois dá-se o milagre. O que pressupõe que tudo o resto fica tal como está, e como é perfeito, insuficiente, as mais das vezes repelente. O milagre acontece ou não e é tudo. Nem é natural que aconteça. É por isso que é milagre. O amor pode chegar. Mas donde vem? Para onde vai? Quando chega vem para quê, o amor? Grande e inútil milagre este sem resposta e é de propósito que não tem resposta.

 

Há quem não acredite e está bem assim. E há quem só acredite e ainda é melhor assim. Como em tudo é preciso crer para ver. Mas não é preciso, menos ainda obrigatório, é uma graça que só vem se quiser, quando quiser e pelo tempo que quiser e é o melhor de tudo o que possa acontecer. E o prazer é a recompensa que acompanha o bom trabalho, entre todos o mais difícil, agora perto, muito perto, o trabalho do amor.

 

 

 

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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

O transístor fanhoso

 

O filme de hoje

tem como cenário uma zona de alta segurança

que separa as autoridades israelitas das palestinianas,

e, como música de fundo,

o relato de um Brasil-Itália particularmente emotivo,

em que os futebolistas Ronaldinho e Roberto Carlos,

longe de imaginarem o verdadeiro alcance dos seus golos,   

traçam um desfecho no Médio Oriente.   

 

Que aconteceria  

se o dedo deste rapaz

não tivesse tremido com a comoção?

 

Haveria uma saída?   

Oiça bem.

 

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Autópsia de um sorriso

 

Natascha aos 10 anos 

 

 Natascha aos 18 anos  

  

Natascha Kampusch era uma miúda austríaca de 10 anos, filha única de um casal separado. Um dia (1998), apeou-se  da carrinha do colégio mas não chegou a casa. Foi roubada e o raptor soterrou-a numa cave escavada na sua própria residência, durante 8 anos. Tal como os McCann, os pais procuraram-na incessantemente por todos os meios e as suspeitas chegaram a recair sobre a mãe, com quem se dava mal. Um belo dia, ajudando o raptor a lavar o carro, aproveitando um momento em que este se ausentou para atender o telefone, numa brecha de liberdade excepcional, Natascha enxergou a sua única oportunidade de fuga e, por instinto, aproveitou-a:  lançou-se a correr como uma lebre e introduziu-se em casa de uma velhota, uns quarteirões adiante, identificando-se imediatamente. O seu nome era por demais conhecido na Áustria e a senhora mandou chamar a polícia que confirmou a identidade da rapariga através de uma cicatriz no corpo.

Desde que fora raptada,

tinha crescido apenas 15 centímetros e aumentado 3 quilos. 

 

Natascha conquistou a liberdade (2006) e o seu raptor, perfeitamente consciente do que o esperava, atirou-se nesse mesmo dia para debaixo de um comboio, fugindo assim a uma punição porventura bem mais dura do que a morte.

 

Chamava-se  Wolfgang Priklopil, tinha 36 anos, e era um vulgaríssimo empregado de telecomunicações da Siemens.

 

Durante oito anos, levou livros e discos à miúda, instruindo-a, e ocupou-a com pequenos negócios em que lhe permitia ganhar dinheiro, embora ela não tivesse onde gastá-lo. Nos interrogatórios que sofreu, a rapariga recusou-se sempre a relatar pormenores sobre a intimidade que viveu com o raptor, deixando o público mórbido e voyeur a ver navios. Mais: sofrendo da síndrome de Estocolmo, na qual a vítima se deixa empatizar pelo algoz – apesar de ter vivido sob ameaças de morte durante todos aqueles anos -  Natascha chorou inconsolavelmente ao saber do suicídio, tendo acendido uma vela na morgue ao reconhecer o corpo do seu carcereiro.

 

(O resto é circo: Natascha foi aliciada por uma estação de TV austríaca e é hoje uma conhecida entrevistadora televisiva.)

 

Perante isto, o pesadelo não será  tanto o lugar-comum de se estranhar que a Áustria tenha sido berço de «monstros» como Adolf Hitler, Josef  Fritzl ou, antes dele,  este rapaz banalíssimo - porque o diabo será apátrida -  mas, sobretudo, que o desequilíbrio tenha um rosto tão comum e insuspeito  

como o de qualquer de nós.

  

O silêncio da cave

 

 

O raptor: horas antes de se matar

 

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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Sou sincera

 

Rita Ferro

 

 

Querido mudei a casa

 

 

 

Já pensou por que razão as suspeitas de adultério,

horrorosas nos dois sexos,

se manifestam nos homens de uma forma

tão violenta e irrevogável?

 

Abreviando bibliotecas sobre o assunto,

sabemos que esta desigualdade não só se deve aos costumes

– concedendo aos homens, durante séculos, a liberdade de poderem cometê-lo sem grandes punições –

nem tampouco à sua maior agressividade, mas também à

incerteza de paternidade,

condição que desde sempre os vulnerabiliza.

 

O post da última quarta-feira, sobre atitudes contra-corrente, inspirou-me estoutro: o perdão masculino relativamente à prevaricação feminina, na esfera íntima de um casal que se ama, e o silêncio envergonhado que o envolve, como se cada homem se acreditasse herói na sua capacidade de contrariar o estereotipo e de se arriscar à  boçalidade da chacota dos seus pares, chegando a sentir-se a mais desgraçada das criaturas vivas por aceitar o retorno da mulher maculada por outro homem, quando muitas vezes nem se questiona quando sujeita a sua ao mesmo, repetidas vezes,

ou até a que, por sua causa,

esta possa contrair moléstias fatais ou desonrosas.

 

E por que razão os próprios homens perdoam,

apesar do flanco de fraqueza?

Arriscamos: quem ama precisa do outro

e preferirá sempre fazer das tripas coração

a ver-se privado desse oxigénio vital.

 

Talvez por isso trouxe hoje uma carta, eivada de contradições,

de outro interlocutor conhecido: Napoleão, a quem as infidelidades da mulher causavam uma dor lacerante.

 

Talvez para nos lembrarmos que o poder absoluto é uma anedota

até para imperadores ou que não existe batalha mais difícil

do que a travada em nossas casas. 

 

 

 

Para Josephine, 1796

 

 

Não passei um dia em que não te amasse. Não passei uma noite sem te abraçar. Nem sequer bebi uma chávena de chá sem amaldiçoar o orgulho e a ambição que me forçam a estar longe do espírito que anima a minha vida.

 

No meio dos meus deveres, quer esteja à frente dos exércitos ou em visitas de inspecção, só a minha amada Josephine se ergue no meu coração, ocupa a minha mente, preenche os meus pensamentos.  Se me afasto de ti com a velocidade da torrente do Rhône, é para mais depressa te voltar a ver. Se me levanto a meio da noite para trabalhar, é para apressar em poucos dias a chegada do doce amor. Contudo, nas cartas de 23 e 26 tratas por «vous». «Vous» para ti! Ah, desgraçada, como é que pudeste escrever tal carta? Como é possível! E depois há aqueles quatro dias entre 23 e 26; o que andavas a fazer para não poderes escrever ao teu marido?

 

Ah, meu amor, esse «vous», esses quatro dias acrescentaram algo mais à minha indiferença. Maldito seja o responsável! Possa ele, como pena e castigo, sofrer o que a minha convicção e testemunho (o que só abona em favor dos vossos amigos) me fez padecer! O inferno não tem tormentos tão grandes! Nem as Fúrias serpentes que cheguem!

 

«Vous»! «Vous»! Ah! Como é que as coisas vão estar daqui a duas semanas?... O meu espírito está sombrio, o meu coração agrilhoado e aterrorizado com as minhas fantasias… Já não me amas, mas vais ultrapassar a perda. Um dia deixarás de me amar de todo, pelo menos diz-me; então saberei porque mereci tal infelicidade…

 

Até breve, minha esposa, meu tormento, alegria, esperança e ânimo da minha vida, a quem eu amo, a quem eu temo, que me enche de ternos sentimentos, com que a Natureza me atrai, com os violentos impulsos, tão tumultuosos como o trovão.

 

Não te peço nem amor eterno, nem fidelidade, apenas… Verdade, honestidade sem limites. O dia em que disseres que não me amas, marcará o fim do meu amor, e o último dia da minha vida. Se o meu coração fosse tão vil que amasse sem ser amado, despedaçava-o.

 

Josephine! Josephine!

 

Lembra-te do que te disse:  a Natureza presenteou-me com um carácter resoluto e viril. E fez o teu de renda e gaze. Deixaste de me amar? Desculpa-me, amor da minha vida, a minha alma está exaurida por forças antagónicas. O meu coração, obcecado por ti, está cheio de medos que me prostram na tristeza… Sinto-me capaz de dizer o teu nome. Vou esperar que escrevas.

 

Até breve! Ah! Se me amas menos é porque nunca me amaste. Nesse caso, serei mesmo digno de pena.

 

                                                                                     Bonaparte.

 

 

P.S. – Neste ano a guerra mudou muito. Distribuí a carne, o pão e forragem; a minha cavalaria em breve estará em marcha. Os meus soldados mostram uma confiança ilimitada em mim; só tu és fonte de sofrimento, só tu és a alegria e o tormento da minha vida. Envio um beijo para os teus filhos, de quem não falas. Por Deus! Se o fizesses, as tuas cartas seriam maiores. E os visitantes das dez da manhã não teriam o prazer de te ver! Mulher!!!!

 

 

Nota:  Napoleão casou em 1796 com Josephine de Beauharnais,  uma aristocrata pobre de origem crioula, da colónia francesa da Martinica, com dois filhos de um casamento anterior; catorze anos depois, divorciou-se desta para se casar com a arquiduquesa Marie-Louise da Áustria, para ter um herdeiro que lhe assegurasse a sucessão. Cinco anos depois do segundo casamento seria exilado em Santa Helena. Napoleão e Josephine foram amigos até esta morrer, em 1814.

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

 

É uma fotografia histórica.

Foi tirada em 1996,

no enterro de François Mitterrand,

tendo merecido à viúva do Presidente

(na foto de cachecol branco, ao lado do filho do casal, Jean-Christophe)

duríssimas críticas por parte do povo francês,

ao ter permitido a seu lado a presença da amante do marido,

Anne Pingeot (na foto com um pequeno chapéu preto),  

e da filha ilegítima, Mazzarine

(de cachecol preto na foto).

 

Como resposta, Danielle Mitterrand

escreveu uma carta dirigida aos franceses

que aqui se reproduz

em português do Brasil 

e que, na altura, dividiu a França.

 

"Antes de mais nada devo deixar claro que não é um pedido de desculpas. Muito menos um enunciado de justificativas vãs, comum aos covardes ou àqueles que vivem preocupados, em excesso, com a opinião dos outros.


Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso e nem devo correr atrás de possíveis enganos. Vivo o momento em que as sombras já esclarecem, e que as ausências são lindas expressões de perenidade e criação. Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças confundem os mais precipitados e os mais jovens.


Vivi com François 51 anos; estive com ele em muito desse tempo e me coloquei sempre. Há mulheres que não se colocam, embora estejam; que não se situam, embora componham o cenário da situação presumível.

 

Uma vida de altos e baixos. Na época da Resistência, nunca sabíamos onde passaríamos a noite -- se na cama, na prisão, nos bosques, ou estendidos por toda a eternidade. Quando se vive assim em comum cria-se uma solda, e a consciência de que é preciso viver depressa.

Concentrar talvez seja a palavra. Por isso tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter. Quem entende, ou pelo menos luta para compreender as variações do outro, ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada, ou que jamais enganou. Não nos enganamos, nos confundimos quando nos perdemos da identidade vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, o que também não é um engano. Quem não conhece não tem enganos!


Nas variações do outro, não cabe o apaziguador que destrói tudo antes do tempo, em forma de tranquilidade. Uma relação a dois não deve ser apaziguada, mas vibrante, apaixonada, e não enfastiada. Nessa complexidade, vi que meu marido era tão meu amante quanto da política.

 

Vi também que, como um homem sensível, poderia se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.


Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que o ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém, e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro. É preciso aceitar também outros amores, que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.

 

Simone de Beauvoir dizia bem que temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida.


Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro de filhos angustiados que me dizem

 

'Obrigado por ter aberto um caminho.

Meu pai vai morrer,

mas eu não poderia ir ao enterro

porque a mulher dele não aceitava'.

 

É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores e aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo. Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões.

 

Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo.

 

Danielle " 

 

 

 

E a pergunta fica, como convite à reflexão:

 

Qual de nós, apesar da mágoa ou da humilhação,

seria capaz de protagonizar uma tal excelência?

 

 

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Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Sinal da cruz

 


O filme que trago hoje é um murro no estômago.

 

E ainda que manipulado não perde a verosimilhança.

 

Pode destruir um sorriso, estragar um dia,

deixar uma pessoa indisposta – é verdade.

 

E mesmo assim não servir de nada.

 

Apesar de tudo, arrisco.

 

Nunca medimos o efeito que as coisas têm em nós.

 

Tenho esperanças de que esta me tenha modificado.

 

Um bocadinho – peço a Deus – apenas um bocadinho e já não era mau.

 

Sou daquelas que, como tantos, já quase deixou de ajudar. 

Às vezes por desconfiança, às vezes por preguiça ou egoísmo.

 

Às vezes por medo de que estes irmãos que vivem ignorados, esfaimados e desesperados, vendo-nos tão indiferentes à sua sorte, nos espetem uma faca bem espetada para nos sacar uns trocos

para um pão ou uma dose de esquecimento.

 

Se isso acontecer, temos que saber responder:

 

- Quem é, nesse caso, o verdadeiro assassino?

 

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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

A L E G R I A

 

Voto no candidato à presidência da Câmara

que me faça surpresas destas

em Santa Apolónia ou no Rossio.

 

Ou no Partido. Ou no Primeiro-ministro.

Ou no ministro da Cultura.

Ou da Educação.

 

Voto em qualquer coisa em Portugal

que ultrapasse as minhas expectativas. 

 

E isto foi na Bélgica, meninos.

Na Bélgica!

O país mais soda do Mundo e,

apesar disso,

de vez em quando

transcende-se!

 

Quando foi a última vez que nos expandimos

desde os Descobrimentos?

 

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Dinheiro, para que te quero?

 

 

Maquiavel, n’ O Príncipe, escreveu que os homens esqueciam mais rapidamente

a morte do pai do que a perda de património.

 

Napoleão dizia que os homens eram porcos que se alimentavam de ouro.

 

Quando era miúdo, Óscar Wilde pensava 

que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo;

anos depois, teve a certeza.

 

É violento, admitir que somos só isto.

 

Diderot ia mais longe: achava que qualquer país onde o talento e a virtude

não produzissem progresso o dinheiro seria a divindade nacional.

 

Pois muito bem, chegámos a esse ponto:

haverá lugar do Mundo onde o dinheiro se não tenha ainda tornado

a divindade nacional?

Ou que, sendo excepção à regra, não corra o risco de desaparecer do mapa?

 

 E agora aparece-nos este caramelo a dizer que a nossa riqueza ficará ainda mais ameaçada se não entendermos as razões da crise.

 

Mas qual riqueza?

Para muitos, riqueza ainda é ser-se amado.

Ou isto é patético

porque já nem o amor resiste à penúria? 


 

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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

De entre a assombrosa colecção de fotos de

Aleksey Petrosian

sobre a Rússia actual

- que podem e devem espreitar aqui -

elegi esta!

 

 

É o lado sobrenatural do humano

a que tantos se mostram

cegos, surdos, ou já mortos

e que só certas sensibilidades sobreviventes

resgatam da banalidade.

 

Vivam os Artistas!

 

Sem Eles, seríamos só o que

parecemos aos olhos das multidões

ou, pior,

aos nossos próprios olhos

descrentes de transcendência.

 

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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Por quem os sinos dobram

 

 

 

                                     O que me impressiona na assunção gay,

 naquele lugar de nós onde se espraiam as dúvidas mais ingénuas,

é a dispensa do outro sexo declarada como definitiva.

 

Nos homossexuais-homens, claro, despeita-me e desafia-me, por coquetterie feminil, o repúdio das mulheres como ponto assente para o resto da vida.

 

Tal como aos heterossexuais deve ferir, perante as sáficas, a sua negação nauseada.

 

Confesso que tenho dificuldade em imaginar as pessoas,

em qualquer cenário,

escravas do sentido único por hipoteca pública.

 

«Eu sou gay» - quase como:

«Se me virem um dia com alguém do outro sexo

estarei sendo incoerente ou fraudulento.»

 

E a pergunta fica:

não inibirá esta aparente bravura

uma incursão livre e facultativa

a qualquer dos outros pontos cardeais?

 

Não representará uma restrição à sua liberdade?

Ao seu direito à variedade, ao ecletismo?

 

Sou cada vez mais

pela irrelevância da diferenciação!

 

Não que não seja preciso banalizar primeiro

para fazer vingar a liberdade de cada um,

futuramente.

 

Mas como meta a atingir.

 

 

 

ADENDA:

 

Rita:

Recebi este desenho da nossa amiga Rita Vasconcellos, por e-mail, como contributo para esta discussão. Como não sei por desenhos na caixa de comentários, fica aqui mesmo:

 

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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Como é que ninguém

tinha pensado nisto?

 

Além de tudo o que me diverte na promoção deste electrodoméstico espertíssimo – por exemplo: ver os homens sujeitos às mesmas sevícias das senhoras, para disfarçar complexos, ou sabê-los penitentes dos seus caracteres sexuais primários, imaginando-nos repugnadas por eles e a trocá-los por corpos macios, lustrosos e imberbes -  gosto do recurso ao figurino latino para afastar a ideia de que a natureza do serviço pode não ser digna de um macho exuberantemente heterossexual.

 

Não acham amoroso?

 

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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Momento brando

 

A nostalgia dos apresentadores, o luxo dos nomeados, o nome vencedor,

a surpresa da substituição, a doce plangência do discurso,

os apupos que provoca e a adesão unânime final.

 

E, para além disso, as interrogações que sempre nos desperta

o gesto de recusar um prémio:

 

É uma indelicadeza?

Um acto de coragem?

Uma sobranceria?

Uma demagogia?

Uma cartada mediática?

Uma generosidade?

 

E, no caso de se tratar de genuíno altruísmo,

não corre o risco de se desmentir

                                                 no meio de tanta exibição?

 

Ou os fins justificam os meios?

  

http://www.youtube.com/watch?v=2QUacU0I4yU&feature=channel

 

Hollywood, 1973

 

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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Onde está o Wally?

 

 

 

Quer participar neste jogo?

Descubra o erro.

Não o erro ortográfico ou gramatical,

semântico ou ontológico,

pois esquadrinhá-lo seria calisto e desprezível

num dia de festa como o de hoje,

mas o erro de casting.

Existem palavras neste texto

de tão apaixonado tributo à mulher que,

por questões de probidade e modéstia,

não se esperaria que pudessem ter sido escritas pelo próprio. Quais serão?

 

 

 (Esclarecimento: a foto foi escolhida por mim, por me parecer indicada RF)

 
Presidenta

Março 16, 2009 by José Saramago

Este texto cerra meio ano de trabalho. Outros trabalhos e anos sucederão a estes se os fados assim quiserem. Hoje, por coincidência dia do seu aniversário, o meu tema é Pilar. Nada de surpreendente para quem quiser recordar o que sobre ela tenho dito e um quarto de século que levamos juntos. Desta vez, porém, quero deixar constância, e supremamente o quero, do que ela significa para mim, não tanto por ser a mulher a quem amo (porque isso são contas do nosso rosário privado), mas porque graças à sua inteligência, à sua capacidade criativa, à sua sensibilidade, e também à sua tenacidade, a vida deste escritor pôde ter sido, mais do que a de um autor de razoável êxito, a de uma contínua ascensão humana. Faltava, mas isso não podia imaginá-lo eu, a idealização e a concretização de algo que ultrapassasse a esfera da actividade profissional ou que dela pudesse apresentar-se como seu prolongamento natural. Foi assim que nasceu a Fundação, obra em tudo e por tudo obra de Pilar e cujo futuro não é concebível, aos meus olhos, sem a sua presença, sem a sua acção, sem o seu génio particular. Deixo nas suas mãos o destino da obra que criou, o seu progresso, o seu desenvolvimento. Ninguém o mereceria mais, nem sequer de longe. A Fundação é um espelho em que nos contemplamos os dois, mas a mão que o sustém, a mão firme que o sustém, é a de Pilar. A ela me confio como a qualquer outra pessoa não seria capaz. Quase me apetece dizer: este é o meu testamento. Não nos assustemos, porém, não vou morrer, a Presidenta não mo permitiria. Já lhe devi a vida uma vez, agora é a vida da Fundação que ela deverá proteger e defender. Contra tudo e contra todos. Sem piedade, se necessário for.

 

 

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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Gabriel Byrne

 

Sim, simpatizo com ele.

Talvez pela discrição, sobriedade e subtileza do desempenho,

talvez pela categoria física e pessoal.

Até há pouco tempo, dei-me ao trabalho de seguir pacientemente a série

«In Treatment», em simultâneo com a emissão americana, em fragmentos de dez minutos, através do Youtube, até que me trocaram as voltas e começaram a publicar sínteses de capítulos mais reduzidas, de menos de três minutos cada.

Isto acabou por me fazer desinteressar, claro, porque o cinema, para mim, tem que oferecer o mínimo de condições e já estava a ceder demasiado.

 

Mas a série, não sendo nada de extraordinário, tem todos os condimentos para agradar a uma mortal como eu, corruptível pelas maiores menoridades:

Byrne faz de psiquiatra, oferecendo-nos uma sessão por semana e a possibilidade de irmos seguindo uns tantos enredos intrigantes, todos eles cruzando-se, de alguma forma, com a sua vida privada, que é, em certos lugares-comuns, um pouco a de todos nós.

 

O excerto do episódio que aqui vos trago é um exemplo.

 

Entre portas e ventos, deixo um abraço a todos.

 

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

  

 

Turn off the light,

take a deep breath…

and relax




Homenagem a Gottfried Helnwein
,

poeta dos meus pesadelos.

 

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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Não oiças!

 


 Apartamento em Amesterdão, Holanda

 

 

Quando tens uma ideia gira,

há sempre um estúpido a chamar-te estúpido!

 

 

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

Estudante norte-americana

de 22 anos

leiloa virgindade na Net

para pagar os estudos

 


 

Nathalie Dylan (um nome falso por questões de segurança),

natural de San Diego, Califórnia,  

diz que não tem problemas de consciência por ter feito o que fez

até porque a irmã, na sua opinião, foi mais longe

(ou mais perto?):

bastaram-lhe três semanas  trabalhando como prostituta

para se financiar os estudos completos.

 

Dylan só se oferece por uma noite e poderá, ela também, deixar de trabalhar:

parece que 10.000 homens já fizeram lances e o mais alto, até agora,

ascendeu a 3,7 milhões de dólares.

 

Interessante:

depois de, finalmente,

se romperem todos os tabus

e corromperem todos os valores

no sentido de a vulgarizarem ou até escarnecerem, 

a virgindade tornou-se um fetiche,

uma fantasia sexual exótica

como os pés, os sapatos ou a roupa íntima. 

 

Ou estaremos perante um caso

– este sim –

de hímen complacente?

 

 

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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Sou sincera

Rita Ferro 

 

 

Alguém me explica por que motivo

gente inteligente

e aparentemente evoluída

continua a insistir no argumento

de que algumas sexualidades

são contra natura?

 

 

 Não chegarão

os exemplos que a vida animal

diariamente

nos fornece,

com toda a sua espontaneidade,

sem necessidade

de sairmos

do chiqueiro

dos nossos quintais? 

 

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brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


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aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

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