Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Medidas de Tempo

 

Um ano não se mede só por um certo número de meses, dias, horas, minutos e segundos. Há outras medidas que o definem e fazem dele um espaço de Tempo único e inconfundível, diferente de todos os que o precederam e de todos os que lhe sucederão: o número de sorrisos, de gestos, de palavras, de intenções, de planos, de sonhos, de esperanças, de desilusões, de derrotas, de vitórias, de gargalhadas, de lágrimas, de encontros, de beijos, de desistências, de recomeços, de gritos, de desencontros, de silêncios, de laços, de promessas, de falhas, de ilusões, de perguntas, de respostas, de...

 

Um ano é uma caixinha de preciosos e irrepetíveis ensinamentos, um presente da Vida.

 

publicado por Ana Vidal às 23:39
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Dizer o Amor

 

 

Para a minha geração o verbo amar não se conjuga em voz alta, porque as pessoas da minha geração não sabem dizer o amor. Sabem senti-lo, sabem fazê-lo e sabem sentir-lhe a falta. Sabem dá-lo e recebê-lo sem reservas, sabem viver com ele e até morrer por ele. Mas não sabem dizê-lo.

 

Não falo, evidentemente, dos poetas, prosadores e letristas. Esses tratam as palavras por tu, afagam-nas e brincam com elas como se fossem brinquedos. Refiro-me aos cidadãos comuns, reféns de um estranho atavismo geracional que aboliu, sem apelo nem agravo, a confissão expressa do mais belo sentimento que existe.

 

Quando começámos a ter idade para os primeiros namoros, o léxico de que dispúnhamos era limitadíssimo: era francamente "possidónio" ir além do tímido gosto de ti. Gosto muito de ti ainda era admissível, mas ficava reservado para os momentos mais empolgados. E tudo tinha que ficar dito assim, de uma forma acanhada e pobre, entregue à imaginação e interpretação de quem recebia a mensagem. Depois, saltava-se do gosto de ti para a enorme desproporção do adoro-te. Pelo meio, irremediavelmente proscrito, ficava o tal amo-te que era absolutamente impensável, caso mesmo para a total desclassificação social. E assim crescemos e amámos, impedidos de exprimir com inteira liberdade o que sentíamos, privados de um verbo essencial. Aprendemos a socorrer-nos de truques - a tradução para outras línguas - je t'aime ou I love you eram não só expressões permitidas como muito apreciadas. As canções românticas falavam por nós, livres do preconceito linguístico. Eram a nossa vingança. Também os cantores brasileiros eram, muitas vezes, os nossos preciosos Cyranos, acrescentando o mel da pronúncia ao proibidíssimo eu te amo.

 

Hoje em dia tudo isso mudou radicalmente, a ponto de termos caído no extremo oposto. Antes assim, apesar de tudo. Mas quando vejo os concorrentes de um qualquer reality show, de lágrima ao canto do olho, esbanjarem pungentes "amo-te muito" com total displicência, atirando-os através do ecrã aos avós, pais, namoradas e animais de estimação (praticamente em igualdade de circunstâncias), lembro-me da falta que me fizeram esses mimos quando queria pronunciá-los e não podia. Porque não me ficava bem dizê-los. Porque arranhavam o ouvido e se enrolavam na língua, não tanto por culpa de uma fonética arrevesada como de um preconceito idiota.

 

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publicado por Ana Vidal às 21:45
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Sábado, 22 de Novembro de 2008

Ternura de mãe

 

É natural que uma mãe defenda o seu filho. Mais: é natural que o defenda com unhas e dentes, cegamente, sobretudo quando todos o atacam. E que não queira saber dos argumentos dos que assim se viraram contra ele, por muitos e muito sólidos que sejam. Eu também defenderia assim os meus filhos, tenho a certeza.

 

O problema é que estas defesas emocionais e bem intencionadas podem virar o feitiço contra o feiticeiro. Foi o caso da ternurenta mãe de Dias Loureiro, entrevistada ontem na sua casa, em Aguiar da Beira. Tranquila e ingenuamente, com a simplicidade de quem nada tem a esconder, falou das qualidades de carácter do seu filho com o ardor de qualquer mãe de uma cria ameaçada. Que sempre foi muito trabalhador, muito esperto, muito ambicioso. Que sempre se comportou bem, segundo as regras da decência e da ordem, e que sempre cumpriu os mandamentos de Deus. De tal maneira os cumpriu que chegou a querer ser padre, e, nas suas brincadeiras de criança, "vestia uma saia branca da avó ou enrolava um pano branco à volta do corpo, e depois fazia homilias".

 

Comoveu-me a expressão de orgulho e a total inocência desta mãe, que não tem a mais leve noção de que está a fornecer, em primeira mão e de fonte inquestionável, material de primeira água a todos os humoristas deste país. O seu "menino de coro", que o resto do mundo vê como um tubarão voraz, terá de haver-se com mais este brinde oferecido de bandeja aos seus piores críticos,  com todo o amor e carinho, por uma mãe simples e de uma ingenuidade tocante.

 

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publicado por Ana Vidal às 14:16
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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Tragicomédia


 

A moda da stand-up comedy tomou conta deste país, decididamente. De repente, tornámo-nos um povo de cómicos, debitando piadas em qualquer palco, com qualquer público que se preste a ouvir-nos. Já não bastava as mini-estrelas da canção que todos os pais portugueses julgam ter em casa, e que promovem com a convicção inabalável de chegar a ver lançadas no estrelato internacional as suas pequenas Madonnas, agora descobrimos a nossa veia de comediantes. Sobram-nos os motivos e os temas, é certo, mas falta-nos quase sempre aquela dose mínima de sofisticação, de ironia e de subtileza que faz dos ingleses os reis da graça inteligente. Há excepções, evidentemente, mas essas são conhecidas e reconhecidas. A maioria é um desastre.

 

Na impossibilidade genética de imitar os britânicos, acabamos por cultivar um cruzamento entre a piada revisteira e ordinarota (registo em que éramos bons, pelo menos) com uma confrangedora colagem ao humor que aprendemos - mas não apreendemos - com a infindável repetição de séries americanas. Que também as há óptimas, não duvido. Mas que não nos basta passar a beber café por uma caneca, comer hamburgers com ketchup e andar em casa de meias de lã com sola de borracha, para nos transformarmos em genuínos Seinfeld's, disso também não tenho a menor dúvida. Chega a ser deprimente o desfile de mediocridade de hordas de aspirantes a "cómicos" nos concursos televisivos, absolutamente seguros do seu talento, como se a comédia não fosse a mais difícil e ingrata das artes de palco.

 

Mas o fenómeno é irreversível, e já ultrapassou há muito as fronteiras do razoável. Relato-vos um caso que presenciei esta semana, numa missa de sétimo dia. Sim, é verdade: a "piadomania" também já chegou à igreja, e manifesta-se nas alturas mais inconvenientes. Perante uma assembleia consternada por uma morte prematura, duríssima, o padre resolveu fazer-se engraçado. Disse, entre outras inacreditáveis patetices, que rezava o terço a caminho de casa, a guiar: "Uma ave-maria e uma aceleradela, uma santa-maria e um pé no travão", acompanhando esta descrição edificante com um gesto de braços e um estalar de dedos que lembrava o vira do Minho. Ainda estávamos mal refeitos da surpresa e já outra graçola vinha a caminho, no elogio fúnebre: "O ... era um artista. Fez muito do que se pede a um homem para que deixe memória na sua passagem por esta vida. A mim, por exemplo, falta-me tudo: nunca escrevi um livro, nunca plantei uma árvore e nunca tive um filho. Pelo menos até agora... ainda!" E sublinhava o "ainda!" com um sorriso malandreco, como a sugerir que tencionava tratar nessa mesma noite de colmatar essa lacuna. E toda a homilia que se seguiu foi no mesmo tom de stand-up comedy, perante uma plateia contrita pela total ausência de tacto numa ocasião daquelas.

 

Devo acrescentar que nada tenho contra o casamento e a sequente procriação dos padres católicos. Pelo contrário, penso que uma conjugalidade autorizada poderia talvez contribuir para contrariar as estatísticas da desertificação das vocações. Mas esta declaração em tom de piada fácil, completamente deslocada naquele contexto, deu-me vontade de vaiar o padre-humorista ali mesmo, como se faz aos maus actores que mais valia fossem aprender o muito honrado ofício de pedreiro.

 

publicado por Ana Vidal às 01:42
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Sussexo


 

"Sucesso não é termos muitos parceiros (sexuais), é termos aqueles que escolhemos".

 

Ou seja, exactamente aqueles que queremos ter - sejam muitos ou poucos - e não outros.

 

Esta foi a melhor frase, para mim, de um aceso e divertido debate num jantar de amigos, ontem. Não posso concordar mais com ela: é a sempiterna questão da qualidade e da quantidade, da oposição ou da intersecção entre esses conceitos, aplicados ao sexo. Se, por um lado, quanto mais alargarmos o universo exploratório maior será (diz a mais elementar lógica matemática) o conhecimento e a experiência que acumularemos, por outro lado a verdadeira e completa intimidade só se consegue com tempo, muito tempo dedicado a uma única pessoa. A intimidade é uma conquista lenta, valiosa e insuperável, que vai muito além do sexo propriamente dito. Até que um cheiro, um gesto, um hálito ou uma prega de pele se nos tornem familiares a ponto de serem já "nossos", muito tempo é preciso. O resto pode ser óptimo - e é, frequentemente - mas não passa de uma ilusão de intimidade e de sucesso.

 

Não existem (salvo as inevitáveis excepções para os dois extremos) pessoas "boas" ou "más" na cama. Há, isso sim, "boas" ou "más" conjugações. Basta fazer meia dúzia de perguntas cirúrgicas, individualmente, aos membros de um clássico triângulo amoroso casal-amante, e as respostas serão, com toda a certeza, contraditórias. Aquele(a) que um(a) descreve como uma "bomba sexual", pode ser visto pelo(a) outro(a) como um monumento à frigidez. Toda a magia está na conjugação.

 

É claro que a tão aclamada "química" é quase sempre perceptível nas primeiras impressões (ou existe ou não existe, é simples), mas ela é apenas o "abre-te sésamo" para uma caverna de Ali Babá cheia de labirintos insuspeitados, repletos de tesouros que só o tempo - e um bom mapa - revelarão.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 22:22
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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

The great american circus

 

Raramente comento política, e por duas incontornáveis razões: porque percebo pouco do assunto e porque, talvez por isso mesmo, quase sempre ele me maça e me deprime. Não me meto em altas cavalarias (embora cada vez mais sobre pilecas...) quando há muito quem o faça melhor do que eu.

 

Mas é claro que gosto de manter-me informada, pelo menos sobre os grandes temas da actualidade política, e por isso as eleições americanas não me têm passado ao lado. Seria impossível, com todo o aparato e tempo de antena que ocupam nos espaços noticiosos nacionais. E já que me obrigam a acompanhar o grande circo eleitoral americano, arrisco uma reflexão própria.

 

Como seria de esperar (já tardava), assistimos agora a um contra-ataque final poderosíssimo dos republicanos, concertado entre a administração Bush e o seu candidato McCain,  e na minha opinião magistralmente orquestrado. Paulatinamente, os conservadores deixaram o primeiro milho para os pardais, no caso um pardal atraente e mediático a quem era imperioso permitir que exibisse a plumagem até que deixasse de ser novidade. O contra-ataque começou com a contratação da "miss" Sarah Palin e daí para cá tem vindo num crescendo imparável, aproveitando (pergunto-me até que ponto não terá sido induzida...) a crise económica para a manipulação das emoções mais básicas dos básicos cidadãos americanos. Já Bush tinha feito o mesmo com a cartada da insegurança causada pelo terrorismo, e agora a instabilidade económica serve perfeitamente para o mesmo efeito. Há que encontrar um herói que salve o país e o mundo e lhes devolva a paz e a prosperidade, e depois se afaste gingando no seu cavalo em direcção ao horizonte, ao pôr-do-sol, com uma música de fundo de derreter corações. O facto de o partido ter as rédeas do governo ajuda muito a que se aproprie facilmente desse papel.

 

A suspensão da campanha de McCain parece-me um golpe de mestre: evita um debate problemático, com antecedentes perigosos - foi a juventude e o dinamismo de Kennedy que lhe deram a vitória, numa situação semelhante - e fará parecer Barak Obama, ao recusar-se a suspender a sua, um ambicioso que põe a sua eleição à frente da união por uma causa superior, em torno de uma urgência nacional. Nada foi deixado ao acaso, e a quem quiser aprender alguma coisa sobre marketing político basta estar com atenção a este curso intensivo.

 

Gosto de Barak Obama, e gosto dele de uma forma espontânea que tem pouco que ver com políticas concretas. É fácil gostar-se dele, sobretudo por contraste com uma figura que sofre o estigma da sombra negra de Bush. Não sou ingénua ao ponto de acreditar que Obama seja um herói romântico, impoluto e incorruptível, mas deixei-me arrebatar pelo sonho, pelo símbolo, pela mudança de mentalidades que a sua eleição significaria. Gosto da ideia de imaginar a alegria de Luther King com essa vitória, e gostaria de presenciar a de Nelson Mandela.

 

Cheguei a acreditar que isso seria uma realidade, até porque Obama reuniu uma corte invejável de apoiantes ilustres. E porque se tem saído muito bem nos discursos, e porque tem feito uma campanha "limpa". Mas fui ingénua. Esqueci-me da argúcia política dos corredores de fundo e do seu tremendo poder. E não estava à espera do recuo de Obama na ousadia, ao escolher como segunda figura uma personalidade mais consensual, preferindo sacrificar Hillary Clinton. Um "preto" e uma mulher de uma vez só, pela primeira vez na Casa Branca, pareceram-lhe uma arriscada dose de leão para os americanos, e terá tido provavelmente razão. Mas a cartada Palin e uma providencial crise económica foram o xeque-mate dos conservadores.

 

Talvez o mundo ocidental fique mais seguro com McCain, cuja figura não afronta grupos minoritários nem nos obriga a todos a olhar nos olhos os nossos atavismos e preconceitos. Talvez seja mais prudente assim, numa época em que tudo tem de ser tratado com pinças. Mas a mim, que sou um bocadinho lírica, custa-me sempre abrir mão do Sonho. E este parecia mesmo à mão.

 

No, Barak, you can't. Sorry. Na América haverá mais do mesmo, nada mudará para que tudo se mantenha.

 

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publicado por Ana Vidal às 11:14
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Divórcio - A culpa morre solteira?

O assunto interessa-me, como penso que interessa a todos nós. Ainda não cheguei a uma conclusão suficientemente clara sobre ele, já que é de uma extrema complexidade. Concordo com os que defendem a desculpabilização (os argumentos são muitos e parecem-me perfeitamente válidos), mas temo que ela venha a deixar ainda mais desprotegidas algumas das clássicas vítimas de uma sociedade pouco responsável, que sacode obrigações à menor oportunidade. Na proposta, aparentemente justa, impera a hipocrisia e o "politicamente correcto", como sempre. Não sei...

 

Deixo-vos três excelentes reflexões sobre este tema, na esperança de que se faça luz. E de que a culpa não morra solteira, quando existe, só porque já não está casada. Só porque passou a estar divorciada.

 

 

 

«Chegamos ao limite daquilo que o Direito pode fazer: o Direito não restitui o amor, a confiança, o tempo passado. O Direito pode tentar forçar ao sustento económico, mas mesmo com prisão por dívidas de alimentos não consegue assegurar a espontaneidade do gesto. Com muita dificuldade o Direito previne a violência, mas é comum que inadvertidamente incite à violência quando tenta demarcar com critérios de justiça as esferas de liberdade de pessoas que subitamente se tornaram estranhas (e antes disso partilhavam no registo do Amor, não dividiam no registo da Justiça).
Mas mais importante, o divórcio é um foco doloroso, é uma degeneração da vida, especificamente da demanda por felicidade que nos dá alento para aguentarmos tudo. O Direito deve contribuir para a pacificação, mesmo que isso signifique menos justiça: não deve buscar justiça à custa da degradação espectacular, do insulto, da mentira cúmplice, da intimidação, da mobilização de inocentes, do percurso retrospectivo das recriminações, num psicodrama de todas as dores e males de que é capaz a natureza humana, uma espécie de linchamento moral. Se, por isso, for possível diminuir, um pouco que seja, o litígio no divórcio, isso parece-me uma coisa boa.
Permita-se-me um paralelo: um raptor, depois de um confronto com a polícia, chega ferido ao hospital. Deve o Direito, só porque o acto é censurável, indicar aos médicos que devem remoer-lhe as feridas e recusar-lhe a anestesia, perpetrando uma espécie de linchamento no hospital? Não haverá um limite de compaixão, de humanidade, na aplicação da Justiça?»


O Jansenista

 

 

«Dizem-me – estou ainda pouco informada sobre o assunto – que, se quero divorciar-me, já posso fazê-lo unilateralmente. E que, se antes violei o meu dever conjugal de fidelidade, já não tenho que temer, porque não haverá atribuição de culpas. Numa primeira impressão, acho bem. O casamento é um encontro de vontades, que radica, essencialmente, num encontro de amor… ou de amores. Ora é da inelutável natureza das coisas que, secando a raiz, a planta morra. Por outro lado, se há dever construído sobre um pressuposto afectivo, é o da fidelidade. Ora é da inelutável natureza das coisas que, faltando o alicerce, o edifício rua. Facilitem-se, portanto, os processos e aliviem-se as culpas. De resto, não sendo ainda da inelutável natureza das coisas, a supressão da dor, seja do corpo, seja do espírito, é hoje uma prioridade nas rotas da ciência e do pensamento humano. E juntar às angústias de uma ruptura as penas do apuramento de responsabilidades e da lavagem de roupa suja é, consigo imaginá-lo, como esgaravatar numa ferida aberta, um gesto de crueldade gratuita e inominável. O objectivo da vida resume-se, afinal, à felicidade e é imperativo que sejamos felizes. Pressinto, ainda assim, nesta moderna e benfazeja liberalização do divórcio, um ligeiríssimo equívoco. É que o Estado, que, sensível às razões do amor ou da falta dele, recusa imiscuir-se e tecer considerações morais de culpa, é o mesmo Estado que, quando me caso, interfere para me impor deveres «morais» que só ao amor caberia definir; é o mesmo Estado que me força (abusivamente, digo agora) a aderir a um formulário contratual, que é todo um programa de afirmação afectiva e de morigeração de costumes privados, ao qual não posso introduzir desvios, trocando, por exemplo (porque há relações abertas…), a obrigação mútua da fidelidade pela da confiança. Estou, portanto, perante um Estado que «moraliza» quando cai bem que moralize – porque estou apaixonada, contente e tolerante – e que «desmoraliza» quando cai mal que moralize – porque perdi a paixão e a paciência. É, se calhar, um Estado incompetente, sem coerência legislativa; ou um Estado «politicamente correcto», sem coerência de valores. A mim, parece-me, sobretudo, um Estado oportunista e muito sonso!...»

 

Luísa, no Nocturno

 

«Retoques a rebate, doravante, em matéria de casamento, melhor será passar a executar a marcha fúnebre, em lugar da nupcial. Nada que me incomode demasiado, sempre achei que a República Portuguesa conferir-se o poder de dar nós era uma usurpação de funções, já que o poder contemporâneo em Portugal tem muito pouco das aptidões dos escuteiros. Por isso, decretar divórcio é-lhe próprio, uma vez que se o Homem não separará o que Deus uniu, não há nenhum contra a respeito do que outros seres humanos mandam atar. Já estender ao matrimónio religioso a liquidação judicial dele podia apenas justificar-se na modalidade celebrada por Igrejas Cristãs por Jesus apenas o ter admitido em caso de infidelidade, quer dizer, a menos que consentida, com culpabilidade de uma das partes.

O legislador vem agora limpar os cartórios dessas culpas. É a vingança de uma geração marcada pela transformação dos casórios de perpétuos em efémeros. Num primeiro momento a razão aventada para os cortes radicais era a necessidade de libertar de comportamentos reprováveis do outro. Depois, surgiram muitos casos julgados em que a parte a quem se atribuíra culpa vivia com a amargura de uma percepção diversa, murmurando para quem quisesse ouvir: "se eles soubessem como tudo se passou...". Como o progresso não pára, passou-se a encará-lo como a libertação do outro,  continuar unido depois das  primeiras erosões aparecia, geracionalmente, como comportamento reprovável. À idade das desculpas sucede-se a da erradicação das culpas, por decreto.

Sabe-se que a Moral é sempre mais exigente do que o Direito, mas nenhum bem pode advir do aumento exponencial da distância entre uma e outro. Como não será o melhor método fazê-lo ao sabor dos traumas do círculo que se frequenta. A ligação ao Mundo deve traduzir-se, mais do que consagrar a infelicidade que se constata, em tentar evitá-la. Mas claro que aqueles que descriminalizaram a droga por haver muita por aí só poderiam inclinar-se para desculpar radicalmente todos os passíveis de serem inculpados em litígios maritais. Não tive culpa, haverá f(r)ase mais infantil?»

 

Paulo Cunha Porto, no Corta-Fitas

 

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publicado por Ana Vidal às 19:00
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Luxo

 

Haverá poucas coisas que dêm tanto prazer como uma boa conversa com alguém que nos entende, alguém que entendemos. Com alguém que tem coisas para nos dizer e a quem temos coisas para dizer. Mesmo que sejam nadas, mesmo que sejam ditas pelo simples prazer de trocar palavras, trocar experiências, trocar ideias.

 

E se entre nós e esse alguém se interpõe uma mesa com iguarias raras, sofisticadas, degustadas devagar como merecem, como merecemos... melhor. E se ao jantar se segue um copo de whisky e ainda mais palavras, com Lisboa e o Tejo aos nossos pés... melhor ainda.

 

Às vezes, viver é um luxo.

 

publicado por Ana Vidal às 11:20
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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Fugas

De tanto ouvir Bach,

acabou por especializar-se na arte da fuga.

A última fuga será de si próprio.

 

(Bach - Art of fugue  - Contrapunctus 01 / The last fugue - Glenn Gould)

 

 

 

 

publicado por Ana Vidal às 13:00
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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Classe

 

Se há gente que respeito é aquela que aguenta os embates da vida com classe, por mais brutais que eles sejam. Quem, confrontado com um revés pessoal, não cede à tentação de fazer dele uma bandeira lancinante, arrastando um espectáculo de vitimização que é sempre confrangedor porque deixa impotentes todos os que assistem. Não é fácil, eu sei. Não é certamente para todos manter direita e vertical uma espinha que por dentro estará mais partida do que a de Frida Khalo. Quem se mostra superior nestes momentos demonstra ter uma estrutura invejável, o melhor trunfo para a futura reconstrução de um castelo de areia que ficou em ruínas.

 

Admiro a fibra, o pudor, a subtileza. A classe, enfim. E admiro ainda mais quando à elegância se junta o sentido de humor, que quase sempre nos falha nestes momentos.

 

Tudo isto encontrei em Marie Tourvel, a quem tiro respeitosamente o meu chapéu: num único desabafo - este que aqui reproduzo - diagnostica, relata, ironiza e relativiza, cirurgicamente, uma desilusão que adivinhamos ter sido bem dura. A lição está lá toda, o recado foi dado ao destinatário com um tiro certeiro no coração. E, felizmente, não faz de nós carpideiras. Poupa-nos. Não há acusações, não há queixas, não há convite à comiseração. Pelo contrário, faz-nos sorrir da coragem, da graça e da dignidade com que enfrenta uma maré negra. Quem assim se desconstroi vai reconstruir-se depressa e bem, tenho a certeza. Vai ficar mais forte ainda. Parabéns, Marie.

 


Desconstructing Marie 


Ofensa: ato ou dito que lesa um sentimento respeitável ou legítimo; desconsideração, desacato, menosprezo.

Velhacaria: ação ou comportamento de pessoa que é velhaca ou que age como tal; patifaria.

Surpresa: fato ou coisa que surpreende, que causa admiração ou espanto.

Decepção: sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração pela ocorrência de fato inesperado, que representa um mal; desilusão, desapontamento.

Vergonha: desonra que ultraja, humilha; opróbio.

Arrependimento: pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição.

Choro: ação de verter lágrimas; pranto, lágrimas.

Mágoa: desgosto recolhido cujas marcas transparecem no semblante, nas palavras; tristeza, amargura, pesar. Sensação desagradável causada por agravo ou indelicadeza; ressentimento.

Tristeza: falta de alento; desânimo, desalento, esmorecimento.

Melancolia: estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral; depressão.

Raiva: sentimento de irritação, agressividade, rancor e/ou frustração, motivados por aborrecimento, injustiça ou rejeição sofridas etc.

Desprezo: falta de estima, apreço ou consideração; desdém.

Asco: aversão natural por tudo o que seja considerado hediondo ou repugnante; nojo, enjôo, náusea.

Nada: a negação da existência, a não-existência; o que não existe; o vazio. Mais filosoficamente, aquilo que se opõe, contradiz, transcende ou se afasta do ser, em sentido absoluto, relativo, ou como mera construção lingüística; não ser.

É a ordem da desconstrução. Tudo isso numa única madrugada. Coisas da engenharia que só os engenheiros entendem, ninguém mais.

 

Nota: A cereja no topo deste bolo de suprema ironia é a "banda sonora" que Marie escolheu para acompanhar o seu post: The Kinks - Death of a Clown

 

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publicado por Ana Vidal às 09:48
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Sábado, 9 de Agosto de 2008

Despertar

 

 

"Quando a China despertar, o mundo tremerá". Quem o disse foi Napoleão Bonaparte, em 1816. E ninguém poderá negar-lhe o direito ao epíteto de visionário, por muitos defeitos que tivesse.

 

Lembro-me bem de um livro que o meu avô nos recomendava ler, há muitos anos: Quando a China Despertar, de Alain Peyreffite (*), que nos dava conta dessa mesma... realidade. Ia escrever "ameaça", mas detive-me a tempo. "Só será ameaça se o Ocidente ignorar essa força emergente e não se preparar para ela", dizia o meu avô. E tinha razão no vaticínio, porque me parece que foi exactamente o que aconteceu. A velha Europa, sobretudo - arrogante e narcisista por natureza - deu-se ao luxo de subestimar o gigante que se espreguiçava lentamente, abandonando o sono de séculos a que fora obrigado. A China sofreu e aprendeu, sofreu mais e aprendeu mais. E despertou, afinal.

 

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos não foi mais do que uma (belíssima) demonstração dessa pujança, dessa força imbatível que alia orgulho na tradição, disciplina férrea e total ausência de individualismo.  Todas estas características nos abandonaram há muito, a nós que adoramos o protagonismo e que reagimos mal ao sacrifício em prol do colectivo. A nós, ocidentais, que nos deixámos dormir no pedestal em que nós próprios nos colocámos, julgando o lugar eternamente garantido. E agora, de repente, queixamo-nos de uma invasão em massa e de uma batalha perdida antes mesmo de ter começado.

 

A China despertou, mas o problema não foi esse. O problema, o grande problema, foi termos nós adormecido, entretanto.

 

(*) O mesmo autor escreveu há poucos anos, antes de morrer, "A China despertou"

publicado por Ana Vidal às 18:45
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Mundos

 

Pelo número de vezes que entrei em capelas mortuárias, só neste último ano, dou-me conta de que há um mundo conhecido que está a desaparecer a uma velocidade impressionante. Mas a Vida renova-se, e outros mundos vão nascendo. Chegarei a conhecê-los bem? Não sei.

 

publicado por Ana Vidal às 14:46
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Bater no fundo

 

Uma típica middle class teenager americana: bonitinha, loira, filha única, mimada, indolente, insolente, a caminho da obesidade a passos largos.

Em suma - uma criaturinha insuportável.

 

Um típico middle class teenager americano, namorado da dita: ar razoavelmente saudável mas apatetado, convencido, feiote, indolente, insolente, magro e borbulhento.

Em suma - uma criaturinha insignificante.

 

Uma típica middle class housewife americana: diligente, puritana, dependente, preconceituosa, opinativa, ignorante, resignada, lamechas, numa batalha perdida com a obesidade.

Em suma - uma criatura frustrada.

 

Um típico middle class male americano: alarve, machão, preconceituoso, ignorante mas convencido da sua superioridade, obeso assumido, todo-poderoso, cruel, ditador.

Em suma - uma criatura perigosa. 

 

***

 

Os pais não gostam do namorado da filha, acham que ela merece muito melhor. O namorado não gosta dos pais dela, e acha que ela tem muita sorte em tê-lo fisgado. A filha defende o namorado (sem grande convicção, diga-se) mas acha que não perde nada em dar o benefício da dúvida a mais alguns candidatos a um lugar no seu coração.

 

E começa o espectáculo: os pais entrevistam vários jovens, à vez - as perguntas de selecção são simplesmente inenarráveis - e cada um deles escolhe o que lhe parece o melhor para a filha. O pai escolhe um troglodita parecido consigo, mas numa versão teen e musculada, porque acredita que ele  "tomará conta da filha" e que não deixará que lhe falte nada, no futuro. A mãe escolhe um invertebrado meloso e supostamente romântico, porque acredita que assim a filha terá sempre ramos de rosas e joelhos em terra, coisa que ela própria jamais soube o que seria.

 

A filha presta-se ao papel de passar algumas horas com cada um dos dois eleitos, que tentará seduzi-la e conquistá-la com as armas que tiver e com as preciosas dicas que os pais lhe facultaram. Os pais ficam no sofá da sala, com o namorado entre eles, assistindo na televisão (e comentando a três...) a evolução desses encontros, filmados em directo. Ouvem-se frases tão extraordinárias como "O filho da puta está apalpá-la toda!" (uma indignação manifestada pelo namorado e logo secundada pelo pai, pela primeira vez concordantes e irmanados no ciúme mais primário), ou "Vêm como ele é romântico? Até a deixou repetir o gelado!", uma frase da mãe, embevecida, que lhe vale dois olhares de absoluto desprezo.

 

Por fim, a princesa tem que escolher o seu príncipe. O namorado, um duque de paus que acredita firmemente no seu trunfo - um conhecimento mais aprofundado -  volta ao baralho, em igualdade de circunstâncias com os dois ases finalistas: o Rei dos Músculos e o Rei das Frases Feitas. A menina, melíflua, aponta os defeitos e qualidades de cada um, reflectindo interiormente na contabilidade mais satisfatória. Por fim, baixa o polegar a dois deles, sem contemplações, e ergue-o ao terceiro, sorridente. Qual deles escolhe? Pasmem: não o namorado, que dizia amar e defendia da injustiça dos pais, não a inflamada lêndea que lhe ofereceu rosas e gelados batendo as pestanas, mas... o egótico brutamontes que era a aposta do pai e que virá a dar-lhe, seguramente, um tratamento parecido com aquele que a mãe recebe desde sempre. Dá que pensar...

 

Esta aberração chama-se "Parental Control" e é um programa de televisão nos EUA. Mais um produto do voyeurismo televisivo, de infindável capacidade imaginativa. Quando eu penso que o modelo está esgotado e que já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes que me surpreende. É por estas e por outras que praticamente já não vejo televisão. Tenho plena consciência de que a maior perversão destes reality shows é o facto de serem tão hipnóticos que, sob os mais diversos pretextos, ficamos invariavelmente a vê-los até ao fim.

 

publicado por Ana Vidal às 17:13
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Sábado, 19 de Julho de 2008

Vergonha



"Venho aqui dar uma palavra de confiança a Angola no trabalho que o Governo angolano tem feito que é, a todos os títulos, notável. (...) Quero que o Governo de Angola saiba que temos confiança no povo angolano, que temos confiança em Angola, temos confiança no Governo angolano e no trabalho que tem desenvolvido"  -  José Sócrates, recentemente, em Luanda.

 

Às vezes tenho vergonha de ser portuguesa.

 

(Adenda: E ainda não sabia disto...)

 

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publicado por Ana Vidal às 12:05
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Tempo

 

 

Tempo. Para parar. Parar é um luxo a que raramente nos permitimos, e esse é talvez o maior de todos os erros que cometemos, neste ritmo de vida apressado em que engolimos, sem verdadeiramente os digerirmos, os acontecimentos que nos marcam.

 

Tempo. Esse bem precioso mas não necessariamente escasso, se soubermos disfrutá-lo em vez de gastá-lo. Se soubermos saboreá-lo como um gourmet saboreia um petisco raro, ou como um apreciador se delicia com um bom charuto cubano.

 

Tempo. Para olhar para o longe, para o alto, para o lado. Mas também para dentro, para o fundo de nós. Não como um Narciso que vê no espelho apenas o reflexo da perfeição que julga ter, mas com toda a coragem de que formos capazes. Sem filtros coloridos. Sem batotas. Sem rede. Um mergulho livre e proveitoso, de olhos bem abertos. E depois um redentor regresso à luz, em paz.

 

Tempo. Para sacudir e deitar fora, para bem longe, tudo o que nos fere e nos faz mal. Para nos afastarmos de situações e de pessoas que convocam o que há de pior em nós, o que temos de mais defensivo, e nos fazem reagir com o instinto em vez de o fazermos com a razão. Tempo para descontrair os músculos do corpo e os da alma. Para aliviar a tensão dos mecanismos de sobrevivência que trazemos afivelados, prontos a saltar, como molas, a uma qualquer ameaça.

 

Tempo. Para perdoar. Para resistir à tentação do julgamento fácil, primário. Para avaliar com distância e com calma, tentando vestir a pele de quem dispara à toa e nos acerta com uma bala perdida, talvez sem sequer ter desejado fazê-lo, talvez apenas sob a cegueira causada por uma súbita nuvem negra. Tempo para reconstituir a trajectória dessa bala e ver, mais claramente, de onde partiu ela e porquê. Tempo para relevar, esquecer e seguir em frente.

 

Tempo. Para um olhar cúmplice. Para um beijo. Para um sorriso franco, uma gargalhada. Para voar, navegar, sonhar. Para fazer a trouxa e partir à aventura, com a alma limpa. Para tudo aquilo que a vida tem de bom.

 

Tempo. Para VIVER. 

 

(Life - Des'ree)

publicado por Ana Vidal às 19:10
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Dez linhas que fossem boas

Ofereci à Júlia ML este contributo para uma tese que lhe é cara. Mas depois apeteceu-me trazê-lo para aqui, porque é dos textos mais belos e sábios que já li sobre o acto de escrever.

 

 

“...Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas.


Pois os versos não são sentimentos (esses têm-se cedo que baste), - são experiências. Por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã. Tem de se poder voltar com o pensamento a caminhos de regiões desconhecidas, a encontros inesperados e a despedidas (...)

(...) E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las se forem muitas e tem de se ter a grande paciência de esperar que elas regressem.

Porque as próprias recordações ainda não são nada. Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda.”

(Rainer Maria Rilke, in Cartas a um Jovem Poeta)

 

publicado por Ana Vidal às 01:58
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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Na praia

 

Volto do banho de mar revigorada e de bem com o mundo. Poucos momentos me proporcionam um prazer tão intenso como estes em que o meu corpo, ainda frio e a escorrer água salgada, recebe em cheio o beijo quente do sol. É um prazer solitário e íntimo, de perfeita comunhão com a natureza. Em tempos idos, todo este luxo era ainda potenciado por um cigarro, talvez o melhor de todos os que me lembro. Agora já não. Mas mantém-se a sensação de Vida, palpitante e intensa como nunca.

 

Deito-me ao sol e fecho os olhos, para ver tudo o que vejo sem eles. Em fundo, o rumor manso das ondas, cadenciado e hipnótico. À minha volta há gente, demasiada gente. Tento abstrair-me das conversas mas é impossível, estão demasiado próximas. Demasiado presentes. São demasiado invasivas. Resigno-me e ouço-as. É o que acontece a quem não tem uma ilha privada para celebrar o casamento entre o sol e o mar. Infelizmente, não posso fechar também os ouvidos. Esqueci-me do bendito Ipod.

 

Atrás de mim, duas vozes femininas cujas donas não vejo. Parecem-me maduras e tensas. Amargas. De uma dessas vozes escorre claramente outra água salgada, aquela que nasce nos olhos e desagua sabe Deus onde, sabe Deus quando. Diz: "E agora, o que é que eu faço?". A outra voz, mais solta, responde-lhe: "Nada. Não fazes nada. Esperas que isso lhe passe". De novo a primeira voz, onde agora crescem pedregulhos de sal na água que jorrava: "Era o que faltava! Eles dizem que são só amigos, mas eu sei que é mentira. Uma mulher sabe sempre essas coisas...". "Não faças nada", repete a segunda voz, onde os muros de sal são mais antigos: "Tudo o que fizeres só vai servir para juntá-los ainda mais. Olha que eu sei do que falo".

 

Levanto-me outra vez, incomodada, e desço até ao mar. Já me estragaram a tarde. Mas não posso queixar-me muito, afinal. A elas, já lhes estragaram a vida. 

 

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publicado por Ana Vidal às 12:53
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Encontro

"As pessoas caem umas nos braços das outras sem delinear a aventura. Quando muito, avançam num ziguezague. Mas, uma vez no rumo certo, corrigem o desvio e se juntam. Amor tão repentino representa um choque, e aqueles que assim se defrontaram são devolvidos ao ponto de partida como por efeito de um disparo. Projetados violentamente, sua trajectória de retorno os incrusta novamente, canhão adentro, num cartucho sem pólvora.


Uma vez por outra, um par se afasta desta regra invariáveI. Seu propósito é francamente linear, não carece de rectidão prévia. Misteriosamente, escolhem o labirinto. Não podem viver separados. Esta é a única certeza que os possui, e terminam perdendo-a ao se procurarem. Quando um deles erra e marca o encontro, o outro finge não perceber e passa sem cumprimentar."

 

Juan José Arreola

 

Nota: mais uma pérola de Arreola, roubada à Meg.

 

(Imagem: Fernando Aguiar - Contratexto ou anti-romance com personagens)


 

publicado por Ana Vidal às 09:46
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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Códigos

 "Saltou da cama e entrou no quarto de banho, para se arranjar. O esposo já estava pronto, na cozinha, à espera dela. Tomou um duche rápido, penteou-se, passou um batom vermelho nos lábios. Depois vestiu uma calça justa, sapatos e mala a condizer e desceu finalmente. Usava a pulseira que ele lhe tinha oferecido como prenda de aniversário, linda e nada pirosa. Os meninos vieram despedir-se da mamã e do papá, que sairam então para trabalhar, no automóvel novo que estava estacionado à porta da vivenda. Ainda disseram tchau à moça que vivia em frente."

 

 

Todos os grupos sociais têm os seus códigos de reconhecimento, de demarcação de território, exactamente como o jacto de urina deixado pelo leão nas árvores que circundam aquele que determina como seu. São códigos lineares, por razões de sobrevivência e de identificação de "espécie", tanto mais rígidos quanto maior é a fragilidade desta e a sua ameaça de extinção. 

 

Em Portugal, a velha aristocracia e a alta burguesia (refiro-me à que está enraizada no eixo Lisboa-Cascais, já que em outras regiões os códigos podem ser diferentes) regem-se por um conjunto de palavras - chamemos-lhe uma Cartilha - que define esse grupo específico, geralmente considerado como o dos eleitos entre os eleitos. Não falo daquilo a que as revistas cor-de-rosa chamam o jet set, isso é outra coisa. Aliás, uma "coisa" a que este grupo se orgulha de NÃO pertencer, com quem NÃO se dá e com quem NÃO quer misturas. O dito jet set é, praticamente, a sua antítese. Porque este grupo não se distingue pela conta bancária ou pelos sinais exteriores de riqueza, muito pelo contrário: tanto pode ter (e tem, frequentemente) uma situação financeira extremamente precária, como uma fortuna sólida, mas sempre discreta e gozada longe dos olhares públicos. E a exibição do estatuto é tão condenatória como o uso das palavras que determinam a exclusão social dos incautos.

 

Mas é só sobre esta ditadura de palavras que reflicto hoje. As autorizadas e as impronunciáveis, as que podem conferir aos forasteiros um passaporte para "o meio" (ainda que sempre sob reserva) e as que podem levar à liminar expulsão, sem apelo nem agravo. As palavras proibidas são como nódoas de vinho tinto numa toalha de linho alvíssima, mesmo que já rasgada e sem rendas à vista. Uma espécie de acordo ortográfico privado - embora se aplique praticamente só à expressão oral - de um Olimpo urbano e sofisticado que sempre reclamou para si um léxico especial. Um léxico sine qua non...

 

A Cartilha ainda vigora (hoje menos do que ontem, amanhã seguramente menos do que hoje) num território restrito, uma coutada onde se move uma espécie rara. Há quem dedique uma vida inteira a aprender a pisar esse campo minado, e chegue até a atravessá-lo com a destreza suficiente para pensar que, escapando às minas, enganou as sentinelas. Pura ilusão. Mesmo que nenhuma palavra o traia, há sempre um qualquer pormenor que revela o esforço, a falta de naturalidade, o medo de ser apanhado. Teve-se berço na coutada ou fora dela, é simples. O poder da Cartilha é o do irrefutável polegar de um imperador de Roma.

 

Vivo rodeada destes códigos há demasiado tempo para poder dar-me ao luxo de ignorá-los. Mais: por mimetismo ou bom ouvido, vou-os cumprindo, de forma automática, alinhando paulatinamente nesse exército que sei vigilante e sempre atento ao que dizem os seus soldados. Atento à menor tentativa de deserção de um deles, e, mais ainda, atento às tentativas de infiltração de estranhos. Não combato militantemente os códigos, é certo, mas acho ridícula a ditadura que eles impõem. A sua importância diz respeito a uma área geográfica de tal maneira limitada, que chega a ser risível: meia centena de quilómetros para além do perímetro, e perdem a validade. Dois passos fora do país e da língua portuguesa, e já não classificam ou desclassificam ninguém. Mas a verdade é que foram demasiados os anos em que estivemos fechados em nós próprios, olhando só o nosso precioso umbigo e desconhecendo a vastidão dos mundos que há para além dele. 

 

Por mim, prefiro outras formas de avaliação menos fúteis e, sobretudo, mais fiáveis. Aquelas que agregam pessoas pela partilha de valores e princípios, de interesses e de gostos, enfim, por qualquer outro critério que não o da mera pirotecnia da expressão oral. E vejo, com satisfação, que a miscigenação das classes sociais tem vindo a ganhar terreno, de forma saudável e natural. Tudo se vai ajustando. Não são alheias a este facto a diluição de fronteiras e a diversidade de culturas que hoje em dia convivem com a nossa. Os tiques de classe vão, aos poucos, perdendo o seu peso. E ainda bem.

 

(Nota: O texto a azul claro, em cima, foi escrito propositadamente com as tais palavras proibidas. Para quem estiver interessado e ainda ache que vale a pena o esforço, apesar de tudo o que eu disse, aqui ficam as palavras aprovadas, que devem substituir as que estão a itálico (pela mesma ordem): casa de banho; marido; encarnado; boca/beiços; calças; carteira; presente; anos; possidónia; os miúdos/as crianças; mãe; pai; carro; casa; adeus; rapariga.)

 

publicado por Ana Vidal às 00:03
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Alecrim e Manjerona

 

Esta notícia do DN dá-nos conta de uma guerra de Alecrim e Manjerona travada nos corredores do MNE, que daria uma boa opereta, com libretto escrito pelo Eça. Ficamos a saber que há movimentações subterrâneas e revoltas surdas entre os punhos de renda e as luvas de pelica,  entre as casacas e os sapatos de verniz, entre os papillons e os botões dourados.

 

Não posso deixar de sorrir com o que leio: perante as imensas e graves dificuldades que o país atravessa, estas insólitas batalhas no Olimpo passam totalmente ao lado de uma população que tenta sobreviver às crises económicas sucessivas que lhe põem à frente. De uma população que, se inquirida, diria sem hesitar que esta opera buffa não serve, sequer, para divertir o pagode, e que os actores estão todos a mais no palco do quadro de miséria em que vivemos.

 

Não subscrevo esta opinião, mas entendo-a. Sei que a diplomacia faz falta e que tem um papel importante na imagem de qualquer país civilizado. Sei que não poderíamos abrir mão de representações que nos dignificam perante o mundo, e que os veleiros palacianos são, muitas vezes, a única opção para chegar a portos difíceis. Mas não posso deixar de reflectir sobre a profunda clivagem que se agrava todos os dias entre governantes e governados, que faz parecer supérfluo, e até irreal, tudo o que não se trate do simples pão para a boca.

 

(Texto escrito para o Corta-Fitas e publicado hoje porque não o tinha ainda posto aqui, no Porta do Vento, e só agora dei por isso...)

 

 

publicado por Ana Vidal às 18:52
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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Futuro


A melhor maneira de prever o futuro é inventá-lo.

 

(autor desconhecido)

 

 

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publicado por Ana Vidal às 02:21
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Feira de Velharias (11)

 
Calma
 
A calma é daquelas coisas que só a vida e o tempo nos ensinam. E, mesmo assim, podemos viver uma vida inteira sem aprendê-la: não adianta lê-la nos olhos dos outros, ouvi-la da boca dos outros, percebê-la nos gestos e atitudes dos outros. A calma é muito mais fácil de aconselhar do que de praticar, mesmo para quem já passou por muitas tempestades e lhes sobreviveu.
E no entanto é um conceito linear, talvez o mais simples dos segredos: saber esperar. Esperar o tempo exacto para colher os frutos no momento certo, ganhando o prémio de não saboreá-los verdes e, por isso mesmo, ainda insípidos; respirar fundo e deixar passar a onda, para poder vir à superfície em seguida, não só ainda vivo como capaz de mais umas braçadas até à praia; deixar que alguma distância se interponha entre nós e a nossa voracidade espontânea, para que aquilo que queremos muito nos seja dado com prazer e não entregue por assalto à mão armada. Porque tudo o que se conquista lentamente tem o dobro do sabor e da duração.
A calma é um bem precioso, mas escasso. Nele radicam, tão só, a justiça e a sabedoria. E ao contrário da fama que tem, completamente injusta, não impede ninguém de viver plenamente e com arrebatamento. Muito pelo contrário, aliás. Que o digam as milenares sabedorias orientais, que o digam os tântricos. Difícil, mesmo, é entendermos isto. Somos viciados em emoções fortes, em adrenalinas fáceis e momentâneas. Temos pressa, e por isso atropelamos sensações e queimamos etapas, tudo para chegar mais cedo. E com isso perdemos, quase sempre, o prazer indizível da viagem.
 
(Tocando em frente - Maria Bethânia)

Nota: esta canção de Almir Sater (a prova de que até dos "bregas" podem sair criações magníficas), muito valorizada também pela voz inconfundível de Maria Bethânia, diz-nos tudo o que é preciso saber:

Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe, só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei...
 

(Publicada pela primeira vez em Dez/2007)

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publicado por Ana Vidal às 11:37
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Terça-feira, 3 de Junho de 2008

De mão estendida

 

Se o estado da economia de um país se pode aferir pela quantidade de pedintes nas ruas da sua capital, então a nossa está, literalmente, de rastos. As ruas de Lisboa estão pejadas de gente que pede esmola em cada esquina, em cada vão de escada, em cada entrada do metropolitano. O espectáculo é tão aflitivo como inevitável, e embora com as mais diversas origens e razões, todas estas misérias têm um denominador comum:  mais do que uma mão estendida, há um dedo apontado a nós, passantes apressados e tantas vezes indiferentes, por termos criado uma sociedade que não olha pelos seus desvalidos como devia.

 

A necessidade e o desespero podem ser os mesmos, mas os pedintes não são todos iguais. A atitude e a abordagem variam bastante. Há os que exibem as suas desgraças (ou as de outros, geralmente crianças), arregaçando mangas e pernas de calças para mostrar os cotos tristes num desamparo mudo e sem pudor, feito de pura rendição. Há os que nos recitam uma ladainha decorada e já inexpressiva, raramente ouvida mesmo por aqueles que lhes deixam cair uma moeda nas mãos. Há os ciganos, que destaco apenas porque conservam uma natural arrogância no olhar, que apesar de tudo os redime, mesmo quando se desdobram em lamúrias ininteligíveis (é como se nos dissessem: "mesmo que não dês nada, eu não deixo de ser quem sou!"). Há uma infinidade de estrangeiros de todas as proveniências que, não sabendo ainda comunicar em português, nos fazem ler um papel plastificado com uma história de vida arrepiante. Há os que nos impingem um serviço que não pedimos, para justificar a esmola, como um vidro lavado à velocidade da luz enquanto o sinal não muda de vermelho a verde, ou a indicação de um lugar de estacionamento que já tínhamos visto. E há os que mais me enternecem: aqueles que nos oferecem, não alguma coisa de útil ou tangível em troca da moedinha, mas o seu pingo de sonho ou de eternidade, cantado ou tocado num instrumento qualquer, quase sempre mal.

 

Finalmente, há os criativos. Por duas vezes me aconteceu já cruzar-me com esta estirpe especial. A primeira foi no CCB, há uns anos, quando eu tentava estacionar o carro, já em contra-relógio, para ir assistir a um espectáculo (não tenho a certeza, mas acho que era a Flauta Mágica). Um dos "arrumadores" que andam sempre por ali percebeu a minha pressa, correu a cravar-me a moeda da praxe e disse-me, com ar cúmplice, esta frase que nunca mais esqueci:  "Vai gostar. Eu vi em Paris e adorei".

 

Hoje voltei a encontrar um criativo perto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde estou a fazer um cursinho de História da Arte e Coleccionismo: um tanto afastado da porta principal para não ser apanhado pelos seguranças do museu, um maltrapilho de porte imperial e sorriso rasgado estendia a mão, pedindo "uma moeda para a cultura" (!!), ao mesmo tempo que entregava um folheto do museu a quem lha dava. Muito gostava de saber como entrou ele lá dentro, para roubar a pilha de folhetos que lhe saía do bolso...

 

publicado por Ana Vidal às 23:05
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Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Topo de Gama


Na mesa de café ao lado da minha, duas adolescentes típicas: muitos risinhos abafados, muitos olhares de esguelha, muitos sinais em código. E uma conversa cifrada, em tom velado, entrecortada por suspiros e gargalhadinhas nervosas.

Fico curiosa e sigo-lhes as olhadelas disfarçadas, para ver a causa de tanta agitação: lá está ele, um patético don juan de quinze anos, de calças a escorregar pelo rabo inexistente, borbulhas indisfarçáveis e uma melena oleosa. Sozinho, ao balcão, parece "da casa" pelo à vontade da pose. Olha de vez em quando as miúdas, ostensivamente, com um ar distante e castigador (o mais aproximado que consegue do martini boy da fantasia delas) e a coisa parece estar a correr-lhe bem. O crescendo de excitação que provoca é evidente para qualquer um. Às tantas, uma delas não se contem e comenta, de modo a que ele a oiça:
- Ó pá, Tânia, o gajo é mesmo topo de gama!
Volto a olhar o Casanova de pacotilha em versão imberbe - deliciado, é claro, com o efeito dramático do seu infinito charme - depois as miúdas, e pergunto-me muito seriamente se também eu terei já feito, um dia, estas figuras. Claro que fiz. Talvez não tão explícitas, que os tempos eram outros, mas nesta idade as hormonas mandam em nós como gente grande. Saio a sorrir e a pensar com os meus botões:
Topo de gama??? Topo de Gama era o Vasco!


publicado por Ana Vidal às 23:07
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Horror



Já comecei - e abandonei - vários posts sobre a notícia de Elizabeth Fritzl e a sua horripilante história de vida. Este assunto tem-me arrepiado de tal maneira que ainda não consegui escrever nada sobre ele. Preciso de digerir primeiro todo o horror, toda a repulsa, toda a alienação que envolve esta monstruosidade, para depois ser capaz de reflectir sobre ela. Até lá, faço minhas as palavras da Cristina Ferreira de Almeida, nesta análise que espelha tão bem a fragilidade destas situações limite e a sua dependência daquilo a que chamamos "sorte". Ou "azar", dependendo do prisma. Em qualquer dos casos, haverá uma insondável moral a tirar desta aparente ironia?

publicado por Ana Vidal às 23:22
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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

O pálido ponto azul

Recebi este presente por mail, e não resisto a partilhá-lo aqui. Comentada pelo próprio Carl Sagan, uma viagem fascinante àquilo que somos realmente, no Cosmos: um pálido ponto azul, belíssimo mas insignificante.

Juntei-lhe um poema a propósito, de que gosto muito, de Paul Éluard.

E assim se faz um post com o talento de outros, quando a nossa própria imaginação tira férias e vai a banhos. A culpa é deste sol...



La terre est bleue

La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.

Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.

Oeil de sourd
Faites mon portait.
Il se modifiera pour remplir tous les vides.
Faites mon portrait sans bruit, seul le silence,
A moins que - s'il - sauf - excepté -
Je ne vous entends pas.

Il s'agit, il ne s'agit plus.
Je voudrais ressembler -
Fâcheuse coïncidence, entre autres grandes affaires.
Sans fatigue, têtes nouées
Aux mains de mon activité.

(1929 - Ce poème provient du recueil intitulé " L'amour la poésie " - Paul Eluard)
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publicado por Ana Vidal às 22:38
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Domingo, 27 de Abril de 2008

Feira de Velharias (7)

Nostalgia

Hoje acordei nostálgica. De quê, nem sei bem.

Talvez de um tempo em que tudo era mais fácil, mais previsível. Em que o futuro era ainda uma carta fechada, mas daquelas que ansiamos muito por abrir. Como um presente. Sim, é isso. Um futuro que me era oferecido, com um embrulho deslumbrante e um laçarote encarnado.

Não que tivesse sido um presente envenenado. Não. Transformou-se num presente bonito, esse futuro prometido. Mas as expectativas dessas idades, sempre desmesuradas, fazem-nos afinal suspirar quando as coisas acontecem. Quando a Vida acontece. Não de frustração, nem sequer de pena, mas de nostalgia por um tempo em que acreditámos que tudo, mesmo tudo, era possível.

Enquanto tudo se espera, tudo pode acontecer...

(Publicado pela primeira vez em 26/05/2007. Escolhi este post porque hoje também acordei assim.)
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publicado por Ana Vidal às 11:40
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Até que enfim

Miguel Vieira (um conceituado estilista português, para quem não conhece o nome) afirmou há tempos, numa entrevista, que "na moda portuguesa não existe anorexia". Eu já tinha ouvido dizer o mesmo a Fátima Lopes (a estilista, não a apresentadora). E a afirmação que ambos sustentam, obviamente falsa, é ainda mais grave porque vem de pessoas que são co-responsáveis por uma realidade dramática que só elas parecem não ver.
Revolta-me a indiferença, ou, o que é pior, a lúcida cumplicidade no crime. Os distúrbios alimentares são um dos grandes flagelos com que se debatem as sociedades ocidentais, hoje em dia. A nossa também, como é evidente. Talvez menos do que outras, comparativamente, mas não é por isso menos preocupante. Não existe anorexia??? Por favor! E, mesmo que não existisse "no interior" do mundo da moda (o que é falso), o que dizer do mundo "cá fora", a quem a moda se destina? Ou será que a influência daquelas figurinhas cadavéricas (que dão pelo nome de manequins) nos adolescentes, também é inexistente? É só ter a coragem de ir até ao Hospital de Santa Maria, por exemplo, e ver... com olhos de quem quer ver. Mais: não é apenas um problema feminino. Cada vez mais está a afectar os rapazes também.

Se pensarmos que é exactamente do mundo da moda que pode vir a solução para resolver uma boa parte deste terrível problema, não me parece exagerado falar em atitude criminosa. A Organização Mundial de Saúde anda, há anos, a apelar repetidamente aos grandes costureiros e opinion leaders da moda internacional - que ditam como devemos ser por fora - que promovam uma imagem feminina mais saudável, o que passa naturalmente por um peso equilibrado. Só Espanha, inteligentemente, lhe deu ouvidos (A Moda Madrid, com a exigência de um peso mínimo para as manequins, conseguiu a atenção do mundo inteiro e muita publicidade de borla para os desfiles, além da simpatia geral). É incompreensível que todos os países não lhe tenham seguido o exemplo. Seria tão fácil! Os gurus da moda têm um poder tal, que bastaria a sugestão de uma mulher mais "cheia" como ideal de beleza, para que todas as mulheres do ocidente quisessem parecer-se com ela.
Isto para não falar de outra aberração: a de utilizar esquálidas rapariguinhas de 13 e 14 anos (autênticas Lolitas autorizadas), produzidas como se fossem adultas, desfilando roupas que se destinam a gente muito mais madura, que é a que tem poder de compra. Esse é outro escândalo, que deveria também ser visto com atenção. Até porque ambos estão intimamente ligados: numa idade em que os corpos não estão ainda completamente formados, as carências alimentares - e também as drogas e o álcool que elas usam para iludir a fome - impedem o normal desenvolvimento e causam outras doenças graves. É irónico, sobretudo se pensarmos na ilusória duração destas carreiras, mesmo as (poucas) bem sucedidas.

É por isso que é inadmissível que se continue a tapar o sol com a peneira, fingindo que está tudo bem. Em Portugal ou em qualquer lado, ainda por cima em nome de inutilidades. E é por isso também que me alegrou agora esta boa notícia. Finalmente, parece que algum bom senso iluminou os grandes do mundo da Moda. França, a capital desse mundo, a dar o exemplo, depois de Espanha ter aberto o caminho. O meu aplauso. Até que enfim.
publicado por Ana Vidal às 11:40
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Old friends


"As old wood is best to burn, old horse to ride, old books to read, and old wine to drink, so are old friends always most trusty to use"
(D´Arcy W. Thompson)


Poucas coisas
são tão interessantes nesta vida como reencontrar velhos amigos após um longo tempo de separação. Várias situações podem acontecer, desde a profunda decepção à reconfortante certeza de que aquele(a) amigo(a) não o era por acaso. No primeiro caso, nada a lamentar. O próprio tempo que passou se encarrega de manter o afastamento, e tudo fica esquecido. No segundo, é muito bom saber que não nos enganámos àcerca de alguém.
O primeiro embate - mais divertido do que constrangedor - em que comparamos mentalmente a nova imagem com a recordação que tínhamos da pessoa, congelada no tempo, leva-nos quase sempre a concluir que a quantidade de cabelo perdido é inversamente proporcional à dos quilos e rugas ganhos, e que tudo isso é infinitamente menos importante do que alguma vez julgámos possível.
Depois vem o melhor: um invariável rol de boas lembranças, desfiadas da meada da memória (o tempo encarrega-se quase sempre, generosamente, de apagar as más) que nos fazem rir e sustentar uma conversa que poderia durar horas, se tivéssemos tempo para isso num simples almoço. As histórias partilhadas, as situações dramáticas ou cómicas, os êxitos alcançados, o destino de outros amigos (um bocadinho de má língua dá sempre alguma graça a estes reencontros), a orgulhosa exibição de fotografias da família que entretanto se criou, tudo isto com uma naturalidade e à vontade espantosos, como se tivessemos estado juntos na véspera.
Aconteceu-me ontem, com uma amigo de sempre que deixei pelo caminho há quase trinta anos. Era um estudante idealista, hoje é um homem maduro... ainda idealista. Que bom constatar que nem toda a gente fica amarga com as desilusões da vida! Que bom saber que ainda há gente de carácter, que não inverteu as prioridades nem cedeu ao cinismo! Foram duas horas bem passadas, e no fim a promessa de não mais deixarmos passar tanto tempo sem nos vermos. Seremos capazes de cumpri-la? Não sei, a vida é muitas vezes caprichosa. Mas espero que sim. De qualquer maneira, o reencontro valeu a pena.
(Nota: Um beijinho ao M., que passa por aqui de vez em quando. Gostei de rever-te, meu amigo).
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publicado por Ana Vidal às 16:44
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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Que las hay, las hay...

Não vou comentar a história em si, já que tem tido nos media cobertura mais do que suficiente e até excessiva, quanto a mim. É um caso triste de espalhafato mediático sobre um homicídio doméstico, alegadamente cometido por uma figura do jet set nacional (se é que isso existe por cá...), como lhe têm chamado as "revistas do coração". Erradamente, ainda por cima, porque esta pessoa era absolutamente desconhecida nesses meios não fosse o envolvimento, mais ou menos escandaloso, com outra figura dos mentideros portugueses: o inenarrável José Castelo Branco.
Apenas chamo a atenção para uma espantosa coincidência (ou será gralha do jornal?) que encontrei ao ler a notícia do Sol: o advogado de acusação - Paulo Cruz - tem exactamente o mesmo nome que a vítima, marido da acusada!! A ser verdade, é um caso invulgar daquilo a que costumamos chamar "ironia do destino"...
Adenda: Parece que era mesmo gralha, afinal.
publicado por Ana Vidal às 14:34
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Domingo, 6 de Abril de 2008

Feira de Velharias (4)


أسامة بن محمد بن عود بن لادن

É assim o nome de Ossama Bin Laden em Árabe, na minha opinião a mais bonita escrita do mundo. O que prova a sabedoria de um velho ditado popular: "Nem tudo o que luz é ouro".
(Nota: Publicado pela primeira vez em 19-07-2007)
 
publicado por Ana Vidal às 16:37
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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Ainda um sonho


Passam hoje 4o anos sobre a morte de Martin Luther King.
Que bom seria que o seu sonho fosse já uma realidade...
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publicado por Ana Vidal às 15:47
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Sábado, 29 de Março de 2008

Fasquias

A vida está cheia de estranhas coincidências. Que nos dão, se quisermos estar atentos, preciosas lições.
No mesmo dia aconteceu-me ouvir, de pessoas e em circunstâncias completamente diferentes, a mesma expressão para classificar-me: uma fasquia alta. Mas as reacções que este indubitável elogio produziu em mim foram, também, totalmente diferentes das duas vezes: numa delas senti-me recompensada pelo grau de exigência que procuro impor a mim própria, e estimulada para continuar a mantê-lo; na outra, pelo contrário, tudo o que desejei foi ser o oposto - uma fasquia bem mais baixa, dessas que qualquer atleta vence, sem medo do insucesso.
E assim constatei, uma vez mais, como tudo é relativo nesta vida.
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publicado por Ana Vidal às 02:42
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

De volta ao mundo real

Mais de 30 advogados começam, esta terça-feira, a colaborar com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para evitar a prescrição de milhares de multas de trânsito. Por cada proposta de decisão, cada advogado vai receber 1,67 euros.

(ler o resto da notícia aqui)

O estado de graça da minha primavera poética não durou muito. As notícias que nos entram pela casa dentro constantemente, triste realidade de um país à beira de um ataque de nervos (muito aguentamos nós, brandos cidadãos!) são de um absurdo pernicioso e inquietante. Estamos a viver num estado policial, muitos o sentem e todos os dias esta sensação aumenta. A pressão impõe-se, sem apelo nem agravo, e só muito raramente há uma compensação que alivie o garrote das medidas titânicas deste governo.
Sobre Justiça, acho que todos concordamos: temos, desde sempre, uma "justiça injusta" e demasiadamente lenta, em que casos de gritante e elementar reparação prescrevem por carência de efectivos e excesso de processos sobre as secretárias dos advogados que o Estado paga (leia-se: que nós, todos nós, pagamos com as nossas contribuições e impostos). Direitos básicos são ignorados, reclamações mais do que justificadas são liminarmente eliminadas pelo implacável cilindro do Tempo, sem que ninguém faça nada para alterar este estado de coisas.
A medida agora anunciada - as multas de trânsito prestes a prescrever, "salvas" do esquecimento por advogados privados pagos "à peça" pelo Estado (leia-se de novo: por todos nós) - prova bem, uma vez mais, o que é prioritário para os nossos governantes: arrecadar receitas, a todo o preço. A criatividade das medidas é toda canalizada para este objectivo único, que se sobrepõe a todas as outras necessidades nacionais. Uma solução deste tipo - a contratação pontual de advogados desempregados ou mal pagos - pagando-lhes da mesma forma, poderia acelerar a resolução de muitos desses casos que se eternizam nos tribunais. Mas não: ganhou a caça à multa e aos trocos dos portugueses. Isso, sim, é importante. Estamos entendidos.

publicado por Ana Vidal às 11:11
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Domingo, 23 de Março de 2008

Saudade

«A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.

Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

- Mas o que é a saudade? - perguntou a Menina do Mar.

- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.»
(A Menina do Mar - Sophia de Mello Breyner Andresen)
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publicado por Ana Vidal às 23:43
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Uma reflexão para a Páscoa

Germany: The Melander family of Bargteheide
Food expenditure for one week: 375.39 Euros or $500.07
United States: The Revis family of North Carolina
Food expenditure for one week $341.98
Italy: The Manzo family of Sicily
Food expenditure for one week: 214.36 Euros or $260.11

Mexico: The Casales family of Cuernavaca
Food expenditure for one week: 1,862.78 Mexican Pesos or $189.09
Poland: The Sobczynscy family of Konstancin-Jeziorna
Food expenditure for one week: 582.48 Zlotys or $151.27
Egypt: The Ahmed family of Cairo
Food expenditure for one week: 387.85 Egyptian Pounds or $68.53
Ecuador: The Ayme family of Tingo
Food expenditure for one week: $31.55

Bhutan: The Namgay family of ShingkheyVillage
Food expenditure for one week: 224.93 ngultrum or $5.03
Chad: The Aboubakar family of Breidjing Camp
Food expenditure for one week: 685 CFA Francs or $1.23

(Nota: recebido por mail)
publicado por Ana Vidal às 22:40
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Sábado, 8 de Março de 2008

Educar é preciso

100.000 pessoas é MUITA gente.
Alguma coisa quererá dizer, não?

(Encontrado aqui.)


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publicado por Ana Vidal às 20:55
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Vergonha

Que país é este, que ao fim de sete anos ainda não fez um público e inequívoco mea culpa quanto às vítimas de Entre-os-Rios?
Que ao fim de sete anos ainda não indemnizou (e seria sempre apenas simbólico) as famílias, como se estas estivessem a pedir alguma coisa a que não têm direito, depois de uma tragédia de que não tiveram a menor culpa e lhes alterou a vida para sempre?
Que ao fim de sete anos se sujeita, sem vergonha à vista, a esta bofetada de luva branca, dada com toda a categoria por essa gente desiludida por tanta injustiça e tanta falta de dignidade?
Parece que só Camões os entende e justifica:
...
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!
Nota: Junto-me, assim, ao protesto do RAA, no Abencerragem.
publicado por Ana Vidal às 19:32
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Quarta-feira, 5 de Março de 2008

A cor das palavras

«Mínimo

Você acena para mim do alto de sua torre e em meu corpo se instala um sentimento sinuoso que se espalha e me entorpece. Fico ali, sob o sol amornado pelo vento que farfalha nas folhas secas dos velhos oitis, acenando de volta, discreto e comovido como se me despedisse de alguém prestes a partir num improvável zepelim. Falamos pelo celular, mas os celulares de modo algum substituem a telepatia. Talvez os gestos, que na distância mais adivinhamos do que vemos, sejam o que restou dessa forma esquecida de intimidade. As palavras, tão triviais, vão com o vento, mas o que importa é a indisfarçavel emoção que as colore. As minhas são azuis. Quisera poder pintá-las de laranja, mas lido tão mal com essas tintas que é melhor nem tentar. Azuis... E meus dedos dedilham no ar mais um aceno como se estupidamente quisessem tocar no vento uma melodia doce e triste como eu parado ali, sem querer ir embora, sem saber ficar.

Sim, se fosse tudo isso um sonho, seria um zepelim e não o prédio a abrigar sua varanda no último andar. E eu ficaria ali, no cais imaginário onde ancorei talvez para sempre minha alma, a acenar as infinitas despedidas a que me sinto condenado. Feliz por você, porque serão sempre mais felizes os que partem - e essa é a felicidade dos que ficam, saber que são mais felizes os que partem. Aceno para você e ficaria ali acenando até você sumir no horizonte, diminuindo lentamente até ser engolida pelo céu e restar em mim como algo tão incerto como um sonho. E ainda assim ficaria ali depois, imóvel cais que sou, à espera e hesitante.

Mas, as palavras, sempre elas, me despertam de volta para a vida, incessante e breve: há que seguir em frente rumo a desimportância inadiável das tarefas que me aguardam. "Que nos aguardam", eu gostaria de dizer, mas como posso falar por você? E alguma vez terei podido? Aceno de novo, timidamente, como quem tenta agarrar-se ao vento e deixo-me ir, levado pelas minhas próprias pernas.
Você entrará de volta para a aconchegante penumbra de sua casa e eu retomarei meu passo apressado avenida adentro. E o quadro (você no alto, magnífica, e eu, lá embaixo, tão pequeno, tão minínimo) se desfará no ar como um zepelim tragado pelo céu. Circulos, perfeitas espirais, vida que segue... E esta crônica, devo confessar, é só a tentativa ingênua e torpe de comover você e parar o vento.»

Nota: Isto escreveu o Antônio, no seu fantástico Café Impresso. Gostava de ter sido eu a escrever estas palavras azuis, porque me tocaram fundo. Porque senti, como minhas, todas e cada uma delas.
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publicado por Ana Vidal às 23:10
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

A kiss is just a kiss?

(Casablanca)

Aqui discute-se se um beijo é apenas um beijo, ou não. Não resisti a trazer para aqui o assunto, porque sobre isto não tenho a menor dúvida: um beijo, consentido e com sentido, nunca é "só" um beijo. É um vocábulo explícito, de uma linguagem planetária e inequívoca. Encerra sempre, num molde indestrutível, o desejo que o forjou. Traz em si memórias de beijos sonhados e expectativas de beijos futuros. E mesmo que não tenha passado nem futuro, cada beijo é, por si só, um universo.

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publicado por Ana Vidal às 02:41
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

O poder das circunstâncias


Fui ver o filme "Expiação", uma história que confirma uma vez mais como a vida se faz mais de circunstâncias do que de vontades.
Que bom seria se fosse ao contrário!
Fez-me lembrar uma frase lapidar que o meu avô dizia muitas vezes: "Não interessa nada o que as pessoas são lá no fundo... O que convive com os outros é sempre a superfície".
(Imagem: Júlio Resende)

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publicado por Ana Vidal às 00:20
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

O triunfo dos Gatos


Se George Orwell fosse um blogger, mudaria o título do seu famosíssimo livro para "O triunfo dos Gatos". Perito como era em analogias com o reino animal, teria provavelmente sucumbido à avassaladora invasão da blogosfera pelos gatos.
Esta constatação reflecte um fenómeno que alguém, algum dia, se dará ao trabalho de estudar. Tenho-me dado conta de que há uma imensidão de blogs que glorificam os pequenos felinos, e o mais engraçado é que são, muitos deles, os blogs e os bloggers com quem eu descubro mais afinidades. Se quisesse dar-me ao trabalho de extrair da minha lista os links para os amantes de gatos, tenho a certeza de que a percentagem me deixaria de boca aberta. Para citar só alguns exemplos de entre os que visito regularmente, este, este, este, este, este e este. E isto tem que querer dizer alguma coisa.
Ora, eu fui educada a não gostar de gatos. Em casa dos meus pais a primazia sempre foi para os cães e, durante muitos anos, esses cães eram galgos. O meu pai era um exímio cavaleiro e um apaixonado por caçadas às lebres, prazer que só abandonou depois de uma fractura grave numa perna, devida à queda de um cavalo. Mas os galgos ficaram por lá, correndo no pátio de casa atrás dos (muitos) gatos da vizinhança. Lembro-me bem do Aquiles, do Falcão, da Torrinha, do Tango, do Raiado, da extrema elegância dos corpos longilíneos e musculados num quase voo rasante, perseguindo, a uma velocidade alucinante, os pobres gatos que se atreviam a entrar por entre as grades do portão e só paravam, salvos de morte certa, no galho mais alto de uma das árvores. Depois dos galgos vieram os labradores, os pastores alemães, os grand danois.
Eu adorava animais: tive em casa toda a espécie de bicharada, desde o impossíveil Pirueta, um coelho que se escondia na prateleira mais alta da estante e que corria loucamente pela casa toda (milagrosamente, nunca foi comido por nenhum dos cães), ao incómodo Xico, um cabrito bebé que trepava a sofás e mesas e que os meus pais condenaram rapidamente ao prato, sem eu saber. Pelo meio, rãs, lagartixas, mochos e até ratos, todos criei com desvelo, em caixas de sapatos ou gaiolas, até se transformarem em insuportáveis adultos que todos odiavam, menos eu. Mas esse afã de maternidade precoce nunca incluiu gatos.
Não nego que acho os gatos, como todos os felinos, animais lindos. Que admiro neles a natureza livre e indomável, a orgulhosa recusa em bajular os donos, a independência emocional. E até penso que, por definição, os gatos teriam mais a ver comigo do que os cães. Mas a verdade é que isso não acontece, e a explicação para esse mistério só poderá estar numa infância despovoada de gatos (ou povoada de gatos que não eram mais do que negaças para treino dos galgos), em que os cães eram os reis absolutos da casa.
(Fotografia encontrada aqui)
publicado por Ana Vidal às 18:29
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Criação

"Vivemos adormecidos num mundo sonolento. Mas se um tu murmurar ao nosso ouvido, é isso o que sacode as pessoas: o eu desperta graças ao tu. A eficácia espiritual de duas consciências simultâneas, reunidas na consciência do seu encontro, escapa à causalidade viscosa e contínua das coisas. O encontro cria-nos: não éramos nada - ou nada mais que coisas - antes de estarmos juntos."

(Gaston Bachelard)
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Violência paga

"O Hospital de Braga cobra 152 euros às vítimas de violência doméstica, apesar de a Lei isentar estes utentes do pagamento de consultas e taxas moderadoras. De acordo com o jornal «Público», o decreto-lei é de Maio de 2007, mas ainda não está regulamentado. Por isso, cada hospital aplica o preceito de maneira diferente.
No São João no Porto, as vítimas entram e não pagam. Já em São Marcos, em Braga, recebem a factura da taxa moderadora e uma nota de débito da consulta num total de 152 euros. Isto acontece porque o hospital considera que a vítima de violência doméstica só o é se houver uma sentença judicial.
A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género defende que, para estar isento, o utente só tem de apresentar queixa e que a nota de débito deve ser enviada ao agressor."
A notícia escapou-me, só dei por ela na blogosfera (aqui). E não queria acreditar no que lia: as vítimas de violência doméstica têm que pagar os tratamentos em alguns hospitais do país, ainda por cima num valor que não é indiferente à maioria das bolsas portuguesas. Pelos vistos, a cobrança ou não deste atendimento fica ao critério de cada unidade hospitalar. E a vítima, para estar isenta, "só" tem que provar em tribunal que o seu caso é de inequívoca violência e ainda identificar o agressor para que seja enviada a factura a este e não a si! Como se o facto de ter-se dirigido a um hospital, exibindo maus tratos óbvios (que os médicos identificam imediatamente) e tendo que admiti-lo perante estranhos, não fosse já um passo de gigante para muitas vítimas, quantas vezes dado só quando o desespero chega ao extremo. Como se tudo isto fosse fácil, líquido e sem consequências para quem vive sob um regime de terror!!!!
Será que a vítima, já agora, também vai ter de levar de casa uma declaraçãozinha de culpa do agressor, para facilitar a vida aos serviços hospitalares e ter direito à borla? "Olha, desculpa lá: se não te importas, assina aí este papel que diz que és uma besta e que me ias matando, para eu não ter que pagar o tratamento"...
A hipocrisia que envolve toda esta aberração é uma vergonha para todos nós: os legisladores, que fizeram uma lei que permite interpretações deste teor; os deputados, que a aprovaram; os médicos, que põem a contabilidade à frente do juramento que fizeram; e, finalmente, toda a sociedade civil, que se demite e fecha os olhos a todos os assuntos que a constrangem. E assim, uma lei estúpida e irresponsável, aplicada ao acaso e não denunciada com a indignação que nos devia merecer, contribuirá para fazer engrossar outra vez uma estatística que tem diminuído a muito custo e a passo de caracol.
É revoltante, tão revoltante como a própria violência doméstica.
(Imagem: Fotografia de Chema Madoz)

publicado por Ana Vidal às 19:56
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Parabéns, miúdo


Com um sorriso tímido de miúdo apanhado a roubar bolachas, Cristiano Ronaldo diz isto a uma jornalista que lhe pergunta o que vê quando se olha no espelho: "Eu sei que não sou o Brad Pitt... mas sou engraçado, sou alto... sei lá, a minha mãe diz que eu sou um borracho!" (risos).
23 anos, o mundo aos pés (e nos pés). Mas dá gosto ver que a fama, o dinheiro e a excessiva exposição pública, neste caso, ainda não mataram a inocência e a simplicidade.
Parabéns, miúdo.
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publicado por Ana Vidal às 21:32
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Diz-me quem te reforma, dir-te-ei quem és

"Paulo Teixeira Pinto, ex-CEO do Millennium BCP, afirma não ter recebido uma «indemnização de 10 milhões de euros» pela renúncia ao referido cargo, nem sequer pela rescisão do contrato de trabalho enquanto quadro do banco, apenas lhe tendo sido paga «a remuneração total referente ao exercício de 2007». Mais informa que passou à situação de reforma «em função de relatório de junta médica»."
Pouco mais há a dizer sobre este assunto. Todos os comentários já foram feitos, todas as indignações já foram gritadas aos sete ventos. E todos eles sem qualquer efeito, como se sabia que iria ser, desde o princípio.
Não venho aqui acrescentar protestos, clamar por justiça social nem invocar vergonhas que não existem onde deviam existir. Apenas me lembrei de uma amiga minha que espera, há mais de dois anos, a caridade de uma sentença favorável de junta médica para o seu pedido de reforma por doença. E está doente, sim. MUITO doente: tem uma doença rara, incurável, incapacitante e de evolução rápida, que lhe dá dores permanentes e uma deformação progressiva das articulações. A profissão, que exerce com paixão há mais de 20 anos? Educadora de infância...
Já juntou infindáveis relatórios de especialistas, todos eles absolutamente conclusivos, e já se apresentou com eles em, pelo menos, 3 juntas médicas. Perde e recorre, perde e volta a recorrer. E não, não lhe dão a reforma. Porquê? Não faço ideia. Talvez porque é viúva e não tem dinheiro para pagar a um bom advogado, que a defenda desta gritante injustiça. Talvez porque é discreta e tem pudor de levar o seu caso para as televisões, onde se resolveria em três tempos para calá-la depressa. Talvez só por não se chamar Paulo Teixeira Pinto, e não ter sido CEO do Millennium BCP.

publicado por Ana Vidal às 00:38
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Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Ironias


"Passamos uma vida inteira à procura de um tesouro. Sabemos que ele existe, sabemos que espera por nós algures, na sombra, só não sabemos onde está. E aquilo que mais tememos não é morrer sem o ter encontrado, mas sim descobrir um dia onde se esconde e não poder chegar-lhe porque, por alguma razão, nos é inacessível. Essa é a grande frustração e a grande ironia."

Peter G. Smith, egiptólogo

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publicado por Ana Vidal às 19:51
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Só para dizer

Na minha geração o verbo amar não se conjuga em voz alta, porque as pessoas da minha geração não sabem dizer o amor. Sabem senti-lo, sabem fazê-lo e sabem sentir-lhe a falta. Sabem dá-lo e recebê-lo sem reservas, sabem viver com ele e até morrer por ele. Mas não sabem dizê-lo.

Não falo, evidentemente, dos poetas, prosadores e letristas. Esses tratam as palavras por tu, afagam-nas e brincam com elas como se fossem brinquedos. Refiro-me aos cidadãos comuns, reféns de um estranho atavismo geracional que aboliu, sem apelo nem agravo, a confissão expressa do mais belo sentimento que existe.

Quando começámos a ter idade para os primeiros namoros, o léxico de que dispúnhamos era limitadíssimo: era francamente "piroso" ir além do tímido gosto de ti. Gosto muito de ti ainda era admissível, mas ficava reservado para os momentos mais empolgados. E tudo tinha que ficar dito assim, de uma forma acanhada e pobre, entregue à imaginação e interpretação de quem recebia a mensagem. Depois, saltava-se do gosto de ti para a enorme desproporção do adoro-te. Pelo meio, irremediavelmente proscrito, ficava o tal amo-te que era absolutamente impensável, caso mesmo para a total desclassificação social.

E assim crescemos e amámos, impedidos de exprimir com inteira liberdade o que sentíamos, privados de um verbo essencial. Aprendemos a socorrer-nos de truques - a tradução para outras línguas - je t'aime ou I love you eram não só expressões permitidas como muito apreciadas. As canções românticas falavam por nós, livres do preconceito linguístico. Eram a nossa vingança. Também os cantores brasileiros eram, muitas vezes, os nossos preciosos Cyranos, acrescentando o mel da pronúncia ao proibidíssimo eu te amo.

Hoje em dia tudo isso mudou radicalmente, a ponto de termos caído no extremo oposto. Antes assim, apesar de tudo. Mas, quando vejo os concorrentes de um qualquer reality show, de lágrima ao canto do olho, esbanjarem pungentes "amo-te muito" com total displicência, atirando-os através do ecrã aos avós, pais, namoradas e animais de estimação (praticamente em igualdade de circunstâncias), lembro-me da falta que me fizeram esses mimos quando queria pronunciá-los e não podia. Porque não me ficava bem dizê-los. Porque arranhavam o ouvido e se enrolavam na língua, não tanto por culpa de uma fonética arrevesada como de um preconceito idiota.

(Clã - Problema de expressão)

publicado por Ana Vidal às 23:54
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Música

Continuo com música. Sempre que tenho que me concentrar, pensar seriamente em alguma coisa ou tomar decisões importantes, é a música que me proporciona o pano de fundo ideal para tudo isso. É uma aliada indispensável, que nunca me falhou.
Não tenho um género específico: a escolha depende do momento, da minha intuição, do assunto que pede reflexão. Toda a música me pode inspirar ou ajudar a encontrar-me. Hoje, não sei porquê, é Puccini que me apetece ouvir. Aqui está o mestre em todo o seu esplendor, ampliado pela belíssima voz de Angela Gheorghiu.

(O mio babbino caro - Madama Butterfly / G. Puccini)

O mio babbino caro, mi piace è bello, bello;

vo'andare in Porta Rossa a comperar l'anello!

Sì, sì, ci voglio andare! E se l'amassi indarno,

andrei sul Ponte Vecchio, ma per buttarmi in Arno!

Adenda: E pronto, cá está ela: a maravilhosa Dame Kiri Te Kanawa, em honra de um novo comentador deste blog. E, assim, já são duas as senhoras que ameaçam atirar-se ao Arno do alto da Ponte Vecchio, se o seu amor não for correspondido. Em Florença, até um suicídio tem outro estilo.

Adenda 2: E vão três. A bela Anna Netrebko junta-se à festa, e de repente descobrimos que Puccini também pode ser muito sensual. Eu não digo que trato muito bem os meus comentadores? Melhor é impossível!

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publicado por Ana Vidal às 12:42
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Nada de novo a oeste


Onde anda a formosura dos gordos? E a sua mítica, e apreciada, bonomia? Sumiram para parte incerta, junto com os próprios gordos. O que há agora são obesos, um eufemismo que, em vez de atenuar, curiosamente acentua a ofensa. Os obesos são uma espécie doente, repugnante e indigna do convívio social. Pelo modo como são tratados, parecem, também, idiotas.


É bom afastarmo-nos algum tempo dos can-cans caseiros, para mudar de cenário e arejar as ideias. Mas, quando chegamos de viagem, temos a sensação de ter estado noutro planeta e de já nada saber do que se passa por cá.
Li hoje a longa crónica do Alberto Gonçalves, no DN, um óptimo resumo dos últimos acontecimentos que têm agitado o burgo. E fiquei mais ou menos esclarecida. Afinal, não há nada de dramaticamente diferente por cá (dramático é quase tudo o que toca à nossa economia, mas não é novidade). Tudo previsível: um primeiro ministro que continua a rir-se na nossa cara, à descarada; o costumeiro inchaço de certos egos nacionais; a pirotecnia inconsequente dos políticos, a disfarçar misérias; algumas intrigas e escândalos sociais em versão miniatural, a apimentar conversas de cabeleireiro.
Enfim, nada de novo a oeste. O meu país do costume, a ver a banda passar.

publicado por Ana Vidal às 15:46
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Ana Vidal
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Manuel Fragoso de Almeida
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“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

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