Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Tempo de cerejas

 

Este delicioso texto da Leonor Barros levou-me a este outro, de António Lobo Antunes, que por sua vez me levou pela mão, directamente à minha infância. Conheço tudo aquilo, igualzinho, sem tirar nem pôr.

 

Nem só as conversas são como as cerejas.  As leituras também podem abrir essa fonte inesgotável, essa encantatória reacção em cadeia que nos leva, numa viagem inesperada e vertiginosa, até aos mais remotos locais da memória.

 

Obrigada, Leonor.

 

publicado por Ana Vidal às 15:47
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Domingo, 18 de Maio de 2008

Feira de Velharias (9)

A minha Ericeira 

 

A tua Ericeira , Leonor, teve o condão de lembrar-me a minha (não muito diferente): a casa encostada ao Parque de Sta Marta, onde assisti embasbacada ao primeiro passo do Homem na Lua; o Café do Xico, onde se cozinhavam os namoros de cada Verão; o ringue de patinagem do Parque, onde exibíamos equilíbrios e piruetas para impressionar os possíveis candidatos, ao som do Calhambeque de Roberto Carlos; o Cinema do meu primeiro filme, "Sete noivas para sete irmãos" (!); os bolinhos de coco da Pinta, comidos quentes e em quantidades tais que enjoei o coco até hoje; o Ouriço, onde dei o meu primeiro beijo, de dentes ferozmente cerrados; a travessia a nado da praia grande para a praia do sul, que o meu pai fazia e nos arrepiava (os banheiros deixavam-no fazer a proeza, só a ele, porque o sabiam um nadador prodigioso); o Jogo da Bola depois da praia, onde combinávamos programas tão inocentes como nós; os passeios com os amigos até às Furnas, antes de jantar, com um frio de quase Inverno e um cheirinho a maresia incomparável... e tantas, tantas outras coisas mais, todas elas lembranças de tempos felizes.

 

Obrigada por me teres trazido à memória essa Ericeira perdida, onde só voltei há 2 ou 3 anos por insondáveis razões. Apesar de tudo, a essência da "nossa" Ericeira ainda lá está. Betão à parte, ainda encontrei a sua magia quase intacta.

 

Nota 1: Resposta à pergunta de Leonor Barros (Geração Rasca, 21 de Junho) - "E a tua Ericeira, como é?"

 

Nota 2:  A "minha praia" de sempre não é a Ericeira, mas o Baleal. Já falei nele aqui também. Acontece que, por circunstâncias que agora não interessa referir, passei na Ericeira alguns Verões fulcrais da minha adolescência, como se pode perceber pelas recordações que tenho dessa praia maravilhosa. E no meu coração cabem muitos lugares, como cabem muitas pessoas.

 

(Publicado pela primeira vez em 25/06/2007)

 

publicado por Ana Vidal às 01:44
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Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

My Sweet Lord

 
 
Recebi  esta música de presente por mail, que me emocionou porque, de repente, me fez voltar muitos anos atrás. E soube-me bem. 

Aqui, numa versão de luxo: Eric Clapton, Billy Preston, Dhani Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr, Phill Collins, Tom Petty, Gary Brooker, Jeff Lynne, Peter Frampton e Carlos Santana. Melhor do que isto, só se estivesse presente também o próprio George, o homenageado.
publicado por Ana Vidal às 23:33
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Jardim da Preta

Domingo passado, depois do almoço. Subi as escadas do largo do Palácio da Vila, invadido de turistas e famílias portuguesas em passeio. Diriji-me ao guarda de serviço, que olhava o quadro à sua volta com um enfado evidente.

- Boa tarde. O Jardim da Preta está aberto? Posso lá ir?
- Fazer o quê? (O enfado anterior pareceu-me ter passado a ódio. Por mim.)
- Passear, claro. Não posso?
- Não, não pode. O Jardim está fechado há muito tempo, para restauro. (Fantasia minha, ou esta frase de proibição causou-lhe verdadeiro prazer?)
- E quando volta a abrir ao público?
- Não sei. Mas não vai ser tão depressa, está tudo parado.
- Oh, que pena! Não pode abrir-me a porta, só para matar saudades e tirar uma fotografia?
- Não. Não tenho autorização.
Assunto arrumado, portanto. Comecei a afastar-me, triste pela decepção e irritada com tanta antipatia explícita. Fiquei a olhar a porta fechada e o muro branco, tentando divisar alguma coisa do outro lado. Como se tivesse visão raio-x, sei lá. Quando era criança e brincava ali dentro, acreditava nisso e em muito mais. E foi então que alguém me tocou no braço.
- A senhora quer entrar no Jardim da Preta, porquê? (A rapariga fardada tinha um sorriso franco, parecia realmente interessada em dar-me uma alegria. Que diferença do outro!)
- Porque tenho saudades e já não vou lá há muitos anos. E gostava de tirar uma fotografia ao tanque da Preta, só isso. Pode abrir-me a porta, só por um bocadinho? Juro que não demoro. (A esperança renascia em mim, naquele momento, com a força da notícia de uma vitória no euromilhões.)
- Eu não posso, mas acho que está com sorte. Aquele senhor ali (apontava-me um homem de bigode, a um canto) é o encarregado da obra do Jardim. Hoje apareceu por cá e é ele que tem a chave. Peça-lhe, talvez ele deixe. (O tom cúmplice comoveu-me).
Agradeci-lhe e voei para o homem do bigode, com o meu melhor sorriso. Demorei um bocadinho a convencê-lo de que não era uma jornalista a espiolhar incúrias camarárias. Por fim, depois de fazer-me um curto mas cirúrgico inquérito, destinado a confirmar se eu conhecia, como dizia, cada recanto do Jardim (passei com distinção: conheço-o a palmo e de olhos fechados) deu-me a maior alegria que podia dar-me - abriu a porta, trancada com uma velha chave de ferro (Abre-te, Sésamo!) e deu-me passagem para o mundo encantado, mágico e imutável, que é sempre o mundo da nossa infância.
Entrei com lágrimas nos olhos e passos tímidos, como se fosse violar um sacrário. Fiquei por ali um bocado, invadida por uma comoção tão forte que me fazia passar a mão pelos canteiros, pelo tanque, pelas figuras de estuque, esboroado pelo tempo e pelo desleixo de quem devia cuidá-las. Tudo aquilo a precisar de restauro urgente, de facto. "Mas não há verba, minha senhora, é um dó. Isto vai tudo desaparecer". O homem do bigode percebera que eu estava em transe e deixava-me vaguear por ali. Mal o ouvia, nas suas queixas mais do que justificadas contra um poder que nega a recuperação de um património mundial. Ou de um património emocional, como eu o sentia naquele momento. O imponente castelo reflectido na água esverdeada, o grande leão de pedra, a criada preta debruçada no tanque da roupa, o galante fidalgo que a olha, embevecido e apaixonado... e, enfim, todas as infindáveis histórias que a minha imaginação fértil de criança inventou um dia para aquelas figuras, tudo me puxava para uma dimensão mítica, difusa, uma espécie de paraíso perdido.
- Agora tenho mesmo que fechar a porta, minha senhora. Vamos?
Obedeci-lhe, claro. Nem sei há quanto tempo estava ali, obrigando o pobre homem a esperar por mim. Ainda fiz, à pressa, estas fotografias, que não fazem justiça à magia daquele lugar. Agradeci-lhe mais uma vez, ainda comovida. E fui dar um beijo repenicado à rapariga sorridente que me proporcionara todo este luxo (o Jardim da Preta, só para mim!), que ficou a sorrir ainda mais. Se não tivesse vergonha de fazer essas coisas, teria metido uma nota no bolso da farda azul escura, discretamente. Mas não consigo fazê-lo em nenhuma circunstância, tenho sempre medo de ofender o destinatário. Sei que eu me ofenderia, se alguém me fizesse isso. Portanto, disse-lhe só um "obrigada", em voz trémula. E fui passear, feliz.
publicado por Ana Vidal às 00:23
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Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Sintra revisited - 1

Agora que o tempo melhorou um bocadinho (aqui está frio, mas, desde que haja sol, não me importo) retomei o meu velho hábito de andar a pé. Fazia-o diariamente, bem cedo ou ao fim da tarde, no paredão Estoril-Cascais - quase 6 Km, mas sempre planos. Agora, ao mudar-me para Sintra, tenho que encher-me de coragem para as contínuas subidas e descidas que me esperam por todo o lado, o que torna o exercício mais difícil e cansativo. Mas também mais estimulante. E aproveito para revisitar muitos dos locais da minha infância, onde há muito tempo não passava a pé (de carro é completamente diferente).
Nesse aspecto, Sintra é, toda ela, um verdadeiro paraíso perdido. Há locais que se mantêm secretos e quase desconhecidos dos turistas, outros perderam-se irremediavelmente na voragem do progresso e estão irreconhecíveis. A verdade é que descobri neste jogo de redescobertas um prazer enorme, feito de emoções e de surpresas. Vou fotografando recantos e pormenores, com a sensação renovada de viver uma aventura, como quando era miúda e as muitas lendas da serra, do castelo dos mouros e do palácio da Vila me levavam ao rubro a imaginação, já de si atreita a fugas.
Proponho-me desvendar aqui alguns desses pequenos prazeres, sempre que puder. Do meu passeio de ontem, aqui ficam as primeiras imagens que recolhi, ao calcorrear a Volta do Duche, desde a Correnteza ao Parque Valenças.

A Correnteza, com a estátua do Soldado Desconhecido ao fundo, onde esfolei os joelhos a aprender a andar de bicicleta. Muitas e boas recordações deste espaço, que continua igual.

A nova Biblioteca Municipal de Sintra, uma vizinha simpática mas que acabou com o estacionamento fácil por aqui.

A SAPA, com as suas míticas queijadas (os musts gastronómicos de Sintra, em versão doce, obedecem a esta tradição inalterável: queques no Preto, queijadas na Sapa, travesseiros na Piriquita e pasteis de nata no Gregório).

O Palácio da Vila, omnipresente e majestoso.

A Casa de Chá da Raposa, mágico e irresistível bric-a-brac onde tudo está à venda, até as cadeiras e as mesas onde nos sentamos, e além disso um refúgio romântico ideal para um chá com scones e bolo de chocolate, para qualquer paixão (clandestina ou não) que se preze.

O portão do Parque Valenças, hoje chamado Parque da Liberdade (embora lhe chamássemos simplesmente O Parque e ali gozássemos de toda a liberdade do mundo, muitos anos antes de ter mudado de nome).

A fonte da Volta do Duche, de inspiração mourisca, quase a chegar à Vila.

O Café Elite, onde o meu avô tinha uma mesa cativa para uma tertúlia diária com amigos, ao fim da tarde. Hoje é também uma espécie de supermercado e perdeu toda a mística desses tempos. No lugar da tal mesa, à janela, está uma arca de gelados...

E, finalmente, a vista da janela onde escrevo estas palavras. A fotografia não lhe faz inteira justiça, mas foi o que saíu.

Por hoje é tudo, com as desculpas pela má qualidade das imagens (a fotografia não é, definitivamente, uma arte que eu domine...).

publicado por Ana Vidal às 11:01
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

O triunfo dos Gatos


Se George Orwell fosse um blogger, mudaria o título do seu famosíssimo livro para "O triunfo dos Gatos". Perito como era em analogias com o reino animal, teria provavelmente sucumbido à avassaladora invasão da blogosfera pelos gatos.
Esta constatação reflecte um fenómeno que alguém, algum dia, se dará ao trabalho de estudar. Tenho-me dado conta de que há uma imensidão de blogs que glorificam os pequenos felinos, e o mais engraçado é que são, muitos deles, os blogs e os bloggers com quem eu descubro mais afinidades. Se quisesse dar-me ao trabalho de extrair da minha lista os links para os amantes de gatos, tenho a certeza de que a percentagem me deixaria de boca aberta. Para citar só alguns exemplos de entre os que visito regularmente, este, este, este, este, este e este. E isto tem que querer dizer alguma coisa.
Ora, eu fui educada a não gostar de gatos. Em casa dos meus pais a primazia sempre foi para os cães e, durante muitos anos, esses cães eram galgos. O meu pai era um exímio cavaleiro e um apaixonado por caçadas às lebres, prazer que só abandonou depois de uma fractura grave numa perna, devida à queda de um cavalo. Mas os galgos ficaram por lá, correndo no pátio de casa atrás dos (muitos) gatos da vizinhança. Lembro-me bem do Aquiles, do Falcão, da Torrinha, do Tango, do Raiado, da extrema elegância dos corpos longilíneos e musculados num quase voo rasante, perseguindo, a uma velocidade alucinante, os pobres gatos que se atreviam a entrar por entre as grades do portão e só paravam, salvos de morte certa, no galho mais alto de uma das árvores. Depois dos galgos vieram os labradores, os pastores alemães, os grand danois.
Eu adorava animais: tive em casa toda a espécie de bicharada, desde o impossíveil Pirueta, um coelho que se escondia na prateleira mais alta da estante e que corria loucamente pela casa toda (milagrosamente, nunca foi comido por nenhum dos cães), ao incómodo Xico, um cabrito bebé que trepava a sofás e mesas e que os meus pais condenaram rapidamente ao prato, sem eu saber. Pelo meio, rãs, lagartixas, mochos e até ratos, todos criei com desvelo, em caixas de sapatos ou gaiolas, até se transformarem em insuportáveis adultos que todos odiavam, menos eu. Mas esse afã de maternidade precoce nunca incluiu gatos.
Não nego que acho os gatos, como todos os felinos, animais lindos. Que admiro neles a natureza livre e indomável, a orgulhosa recusa em bajular os donos, a independência emocional. E até penso que, por definição, os gatos teriam mais a ver comigo do que os cães. Mas a verdade é que isso não acontece, e a explicação para esse mistério só poderá estar numa infância despovoada de gatos (ou povoada de gatos que não eram mais do que negaças para treino dos galgos), em que os cães eram os reis absolutos da casa.
(Fotografia encontrada aqui)
publicado por Ana Vidal às 18:29
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

publicado por Ana Vidal às 23:33
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Sábado, 5 de Janeiro de 2008

De Istambul, com amor

Entre mim e Istambul há uma paixão antiga. Começou há muitos anos, com um pianissimo e inocente flirt que prometia grandes voos, mas afinal se deixou adormecer devagarinho e acabou por ser cilindrado pela voragem da vida. Mas o limbo do tempo manteve a paixão viva, porque voltou agora, em cheio, sem sequer se fazer anunciar.
 


 

É um mundo que tem muito em comum comigo: ambos vestimos várias peles, ambos gostamos de mistério e de exotismo, ambos somos feitos de uma matéria absorvente, flexível, em permanente mutação.
Talvez por isso me sinta tão bem lá. Costumo ter facilidade em fundir-me com os sítios onde vou, e em poucos dias tenho alma de nativa. Mas em Istambul isso foi-me especialmente fácil e natural. A cidade oferece as suas muitas faces a quem a quiser descobrir, mas há que respeitá-la e entendê-la para fruí-la inteiramente.

Além disso, uma viagem a Istambul é para nós, portugueses, uma alucinante e surpreendente descoberta de muitas das nossas origens e tradições: de repente, entramos na belíssima Mesquita Azul (nesta viagem, eu acordava e adormecia com a mágica imagem da mesquita em grande plano, emoldurada pela janela do meu quarto... como não sonhar com garbosos Aladinos, sobrevoando os minaretes nos seus tapetes ondulantes?) e descobrimos, fascinados, o catálogo completo de padrões das nossas chitas de Alcobaça estampado em azulejos e frescos, decorando paredes, arcos e abobadilhas; dobramos uma esquina e o inconfundível cheirinho de castanhas assadas invade-nos as narinas, vindo de um carrinho igual aos nossos (pré-ASAE, claro), com um vendedor que as arruma uma a uma, criteriosamente; no deslumbrante Harém do palácio Topkapi encontramos ruas inteiras de pequenos seixos rolados, pretos e brancos, em desenhos caprichosos que nos revelam, sem enganos, a genealogia da calçada portuguesa; um eléctrico (rigorosamente igual aos nossos à excepção da cor, que é encarnada) desce uma rampa íngreme e traz-nos de volta a casa, a Lisboa, num lance de magia; sobre a ponte Gálata comemos uma espécie de sardinha assada sobre o pão, como se estivéssemos na Madragoa ou em Alfama.
E há muitos mais paralelismos: a luz de Istambul é a mesma luz gloriosa de Lisboa, de um branco azulado que não há em mais sítio nenhum, que eu saiba; o Bósforo tem quase a largura do Tejo, com uma Cacilhas asiática em frente, na outra banda, e uma ponte de ferro que apenas difere da nossa no tamanho; a cozinha, mediterrânica como a portuguesa, tem sabores que reconhecemos facilmente e outros que deixámos que se perdessem, com a globalização que já nos engoliu; a simpatia feita de manha, o improviso, a marosca, o fatalismo e outros atributos que nos caracterizam, também a nós, fazem dos turcos uma espécie de portugueses exóticos, mais sensuais e ainda mais aldrabões. Em todas as lojas nos oferecem um delicioso chá fervente de maçã, um ritual sagrado e irrecusável que acompanha o despique da negociação obrigatória de cada compra até à redução do preço a um terço do inicial. O Grande Bazar, com as suas quase 5.000 lojas, é um abismo de tentações. E o Bazar Egípcio (também chamado Bazar das Especiarias) um festim para os sentidos, sobretudo para os gastrónomos como eu.

Istambul é um verdadeiro caleidoscópio: ora nos sai Bizâncio, no seu esplendor de mosaicos de ouro e cores deslumbrantes (o exemplo mais impressionante é a igreja de São Salvador de Chora, um comovente bastião da fé cristã em terras islâmicas, com paredes e tectos cobertos de cenas da Bíblia, de uma beleza rara e em óptimo estado de conservação); ora nos sai Constantinopla, imponente como o império que a baptizou e que por lá deixou vestígios inigualáveis (como a maravilhosa Cisterna da Basílica ou Hagia Sophia, a irmã cristã da Mesquita Azul e uma majestosa manta de retalhos de cultos religiosos); ora nos sai um poderoso marco otomano, com incontáveis mesquitas cujos altifalantes nos minaretes, que propagam arrepiantes litanias de apelo à oração, 5 vezes por dia, e que transformam a cidade (sobretudo ao entardecer, quando começam a iluminar-se) num cenário das mil e uma noites; ora nos sai, finalmente, uma metrópole moderna e fervilhante do lado de lá das pontes, piscando o olho ao ocidente e aspirando por um lugar ao sol da Europa.
 


 

 
 
 
 
 
 
Não fosse a Ásia e os seus conflitos, sempre tão omnipresentes, e o sonho estaria mais perto. Mas não é possível ignorarmos, por exemplo, um grupo de mulheres embiocadas em trapos pretos, escondidas atrás de uma grade e separadas dos todo-poderosos homens, no simples acto de rezar, numa mesquita, ao mesmo Deus. Ao mesmo? Não, não pode ser o mesmo. As mulheres muçulmanas são, com toda a certeza, filhas de um deus menor. E é nesse ponto, de uma enormidade inultrapassável, que eu e Istambul nos zangamos e acabamos o romance.
Mas recomeçamos logo a seguir. Porque, afinal de contas, todos os amantes têm defeitos e qualidades.
Nota: A desarrumação do texto deve-se ao facto de eu estar destreinada e de não ter paciência para refazer tudo, até estar tudo em ordem. Como ainda não tenho comigo as fotografias da viagem, socorri-me de outras, encontradas na net. Eventualmente serão substituídas, mais tarde.

 
publicado por Ana Vidal às 16:55
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Yesterday


Em homenagem a um tempo em que tudo era tão saboroso como uma maçã acabada de colher.


(Eva Cassidy - Yesterday)


publicado por Ana Vidal às 00:47
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