Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Helena

 

BALANÇA

 

No prato da balança um verso basta

para pesar no outro a minha vida.

 

 

É para a Helena, uma minúscula "tangerina" acabada de nascer, este belíssimo poema de Eugénio de Andrade. Que a sua vida seja sempre assim, tão leve que um verso baste para equilibrar a balança dos seus dias.

 

À Sofia e ao Pedro, que neste momento estão também tão leves que os pés nem devem tocar o chão, desejo toda a felicidade do mundo. Este foi um milagre esperado, desejado, sofrido e merecido como poucos.


(Balança é também o signo da Helena, que além disso tem um nome lindo, que me diz muito)

 

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Sábado, 11 de Outubro de 2008

Poemas escolhidos - 9

 

 

CORPO


Que não seja estátua!

Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.

Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Seja ainda espuma.

(Traga o encanto de ser
impossível e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.

Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
 

 

(Fernando Tavares Rodrigues)

 

 

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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Luas

A Luísa deu o mote, com as suas belíssimas fotografias da Ericeira e uma reflexão sobre a multiplicidade da lua.

 

Lembrei-me da minha amiga Catarina (a quem devo, pelo menos, um dia inteirinho de conversa saborosa...), que me mandou esta lua cheia espantosa, fotografada da sua varanda sobre o Tejo em pleno mês de Agosto.

 

Há muitas luas, sim. Tantas quantos os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas fantasias. A lua é múltipla porque é feminina: faz-se, desfaz-se e refaz-se... como todas as mulheres. 

 

 

(Este poema é para ti, Cat.  Agradecendo esta lua linda que me mandaste.)

 


Crepúsculo de Agosto

Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em Agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, de ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Disponíveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.

(Albano Martins)

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Domingo, 31 de Agosto de 2008

Palavras de luz

 

(Soneto - Fernando Aguiar)

 

 

 

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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Poemas escolhidos - 8

 

 

 

SURF

De pé na frágil tábua
onda a onda ele escrevia
poesia sobre a água.

Era uma escrita tão una
de tão perfeita harmonia
que o que ficava na espuma

não se podia apagar:
era a própria grafia
do poema do mar.

 

(Manuel Alegre)

 

 

(Nota: Poema "roubado" aqui)

 

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Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Caminhos privilegiados

 

Querida Júlia,

 

tem sido para mim um verdadeiro Privilégio percorrer os teus Caminhos: de poesia, de brincadeira, de música escolhida. Tudo em amena cavaqueira de amigos, talvez a melhor maneira que conheço de atravessar a vida. E a vida blogosférica não é diferente.

 

O fim de um blogue não é o fim do mundo... muitas vezes não é mais do que a renovação necessária para novas experiências. Sendo assim, fico calmamente à espera da tua próxima inspiração, sabendo que vou gostar de descobri-la e sabendo também que terei lá um lugarzinho à minha espera. O teu, aqui no Porta do Vento, está sempre garantido. Espero que continues a aparecer sempre.

 

E quando regressares, que seja como no teu poema:

 

 

REGRESSO 
 

Quando se regressa
a sombra é luz
onde os barcos deslizam.

(Júlia Moura Lopes)

 

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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Há uma música do povo

Hoje é isto que me apetece ouvir: uma homenagem ao Fado e aos fadistas portugueses.

 

Eu, que nem sequer sou fã da Mariza, deixo-me comover quando ouço as belíssimas palavras de Fernando Pessoa, cantadas (e bem) por ela, com todas as vogais e consoantes da minha língua.

 

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Sábado, 19 de Julho de 2008

Poemas escolhidos - 7

 

 

IMPOSSÍVEL REGRESSO 

 

Quando no fim
aquele tema torna, não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos perante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.


(Jorge de Sena, "Bach: Variações Goldberg", ARTE DE MÚSICA)

 

(Glenn Gould - Goldberg Variations var.26-30 & Aria Da Capo)

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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Poemas escolhidos - 6


 

 

SEM RECEITA

 

Primeiro, lenta e precisamente,

arranca-se a pele,

esse limite com a matéria.

Mas a das asas melhor deixar,

pois se agarra à carne

como se ainda fossem voar.

As coxas, soltas e firmes,

devem ser abertas

e abertas vão estar.

E o peito nu

com sua carne branca,

nem lembrar

a proximidade do coração.

Esse não.

Quem pode saber

como se tempera um coração?

 

Limpa-se as vísceras,

reserva-se os miúdos

para acompanhar.

Escolhe-se as ervas,

espalha-se o sal,

acende-se o fogo,

marca-se o tempo.

E por fim, de recheio,

a inocente maçã

que tão doce, úmida e eleita

nos tirou do paraíso

e nos fez assim:

sem receita.

 

(Alice Ruiz)

  

Para ouvir o poema musicado e cantado, clicar aqui.

 

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Poemas escolhidos - 5


 

A lucidez perigosa

 

 

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez  vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
Que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
Eu consisto,

Amem.
 

 

(Clarice  Lispector)

 

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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Poemas escolhidos - 4

 

 

a minha cama de solteiro é estreita
de mais para os nossos dois orgulhos.
os vizinhos escuto: estão deitados sob
a noite (janela do quarto entreaberta)

 

espalham vozes até um dos dois se
esgotar (ou espremer os passos do
dia) ou até algum discordar do que
o outro falou e presumo: se voltar

 

adormecendo a luz. na minha cama
de solteiro sou só eu e a preguiça
(um pijama mal dobrado) receio seja

 

estreita de mais para os nossos dois
orgulhos. um dia que escolha alguém
hei-de alargar a minha cama
 

 

(João Luís Barreto Guimarães)

 

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Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Memória

 

Hoje apeteceu-me tanto, tanto, voltar à infância...

Voltar a um tempo em que não me era pedido mais do que apreender tudo o que descobria, deslumbrada, a um ritmo alucinante. Sem responsabilidades, decisões a tomar, pesos, escolhas difíceis, lutos. A um tempo em que tudo estava ainda por estrear. Até a vida.

 

Talvez por isso me tenha lembrado deste poema.

 

 Um único objecto

 

  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
  as manchas da humidade nas fotografias

  da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
  a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
  a água primeiro escorrendo num fio por entre
  os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

  da aluvião; uma horta defendida pelos muros
  altos; os matos; o bosque: só depois
  o segredo de curar ou enlouquecer
  tocando com as mãos nos ombros das crianças:

  só depois da casa e dos caminhos de terra
  batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
  dos canais de rega; só depois das sementes
  espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

  e do rumor do vento nos arames das vinhas.
  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  a faca de cortar o pão.

 

  (José Carlos Barros)

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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Poemas escolhidos - 3

 

 

 

AULA DE DESENHO 

 

Estou lá onde me invento e me faço: 

De giz é meu traço. De aço, o papel. 

Esboço uma face a régua e compasso: 

É falsa. Desfaço o que fiz.   

Retraço o retrato. Evoco o abstrato 

Faço da sombra minha raiz. 

Farta de mim, afasto-me 

E constato: na arte ou na vida,   

Em carne, osso, lápis ou giz 

Onde estou não é sempre 

E o que sou é por um triz.

 

(Maria Esther Maciel)

 

(Imagem: C. Escher)

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Sábado, 31 de Maio de 2008

Poemas escolhidos - 2

  

 

Esculpo a página a lápis

e um cheiro de bosque

então me aparece.

Que a poesia é feita de romãs

daquilo que é eterno

e de tudo o que apodrece.

 

Neide Archanjo, in “Da Poesia”

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Domingo, 11 de Maio de 2008

Com dedos brandos



Passo a mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente,

e só com dedos brandos,...


Quero saber o que tu pensas.

...
Quero saber aquilo que nem sabes.
...
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?



(Jorge de Sena) 

 

(Encontrado aqui.)

 

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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Mundo de Aventuras

Uma pequena aldeia na planície arménia,

nevoeiro matinal no porto de Dieppe.

O silvar agudo nos cimos dos Cárpatos,

um castelo solitário num lago escocês.

Um junco chinês no mar do Japão,

um trilho de camelos na Rota da Seda.

Um catre vazio no mosteiro da Arrábida,

uma via romana na serra do Gerês.

Uma mesa de cozinha e odores de Outono,

um eucaliptal onde brinco com o Avô.

O último número da revista tão esperada,

despojos da infância que se me acabou.

 

Ricardo António Alves (Sintra, 21 de Março de 2001)


(Nota à margem - A fotografia aérea é espantosa, e vale a pena reparar bem nela: os camelos são as pequenas manchas claras, o que se vê - a negro - são as suas sombras)

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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

O pálido ponto azul

Recebi este presente por mail, e não resisto a partilhá-lo aqui. Comentada pelo próprio Carl Sagan, uma viagem fascinante àquilo que somos realmente, no Cosmos: um pálido ponto azul, belíssimo mas insignificante.

Juntei-lhe um poema a propósito, de que gosto muito, de Paul Éluard.

E assim se faz um post com o talento de outros, quando a nossa própria imaginação tira férias e vai a banhos. A culpa é deste sol...



La terre est bleue

La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.

Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.

Oeil de sourd
Faites mon portait.
Il se modifiera pour remplir tous les vides.
Faites mon portrait sans bruit, seul le silence,
A moins que - s'il - sauf - excepté -
Je ne vous entends pas.

Il s'agit, il ne s'agit plus.
Je voudrais ressembler -
Fâcheuse coïncidence, entre autres grandes affaires.
Sans fatigue, têtes nouées
Aux mains de mon activité.

(1929 - Ce poème provient du recueil intitulé " L'amour la poésie " - Paul Eluard)
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Duplicidade

 

SABERÁS que não te amo e que te amo

posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Quem mais para dizê-lo assim tão bem, se não o grande Neruda?

(Pablo Neruda, in Cem Sonetos de Amor.
Tradução de Carlos Nejar
Imagem - Daphne, de Teresa Cálem)
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Domingo, 13 de Abril de 2008

Feira de Velharias (5)


Cada vez tenho menos paciência para a política e para os políticos. Agradeço-lhes a vocação ou a ambição, porque cada uma delas (ou ambas) os levaram a lutar por lugares que eu detestaria ter que ocupar. E alguém tem que fazer o trabalho deles, isso é inegável. A anarquia pura é uma utopia, bonita mas impensável na prática.
O que me parece é que, mesmo os mais idealistas e bem intencionados, acabam por ter que dançar conforme a música que encontram já a tocar. Os que não se adaptam e se recusam a fazer concessões, tornam-se demasiado incómodos e são convidados a sair do salão, a bem ou a mal.
Mas há os que, realmente, parecem ter nascido para essa vida. Entram a matar e cortam a direito, fazem o que acham ser preciso, a qualquer preço, e têm um (natural?) grau de distanciamento e de insensibilidade aos problemas do comum dos mortais que lhes permite nunca olhar para trás e até, quem sabe, dormir tranquilos.
É o caso do nosso primeiro ministro José Sócrates (um nome de uma enorme responsabilidade, caramba!). Tem a frieza de um cubo de gelo e a arrogância de um César. Chegou a afirmar sobre si próprio, mostrando como se tem em grande conta: «Sou um animal feroz» (Expresso, 24/07/2004). Não sei se é um animal feroz, mas é, pelo menos, ferozmente indiferente.
Eu, que não sei falar politiquês e prefiro a linguagem da poesia, dedico-lhe este magnífico poema de Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José?"* , com a romântica ilusão de que o leia algum dia e que ele o faça pensar um pouco no quick step que nos tem obrigado a dançar, quando nem para a valsa temos sapatos...
 
E AGORA, JOSÉ?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
 
 
Nota: Descobri, entretanto, que Sócrates nasceu em Vilar de Maçada. Começo a compreender os seus traumas e até entendo que tenha fugido de lá, mas, bolas!, tinha que se vingar em nós??
(* Clique aqui para ouvir o poema, dito pelo próprio CDA)
(Publicado pela primeira vez em 1/6/2007)
 
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Leva tempo


Leva tempo entender que a vida é curta.
Às vezes, leva quase toda a vida.
O vivo, quando entende, agora surta,
busca agarrar a vida já vivida

e perde o pouco tempo que lhe resta
cavando o tempo em busca de si mesmo.
Gastasse as poucas horas numa festa,
evitaria esse final a esmo.

A vida é curta além do que entendemos
porque nenhum de nós foi avisado
do tempo que anda além do que o que vemos.

Se o fôssemos, quem não teria dado
mais tempo ao "meu amor" do que ao "oremus",
mais glórias ao virá do que ao passado?

Jayme Serva, no seu melhor.
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Primavera Poética

Deixei passar em branco o Dia da Poesia (deste até gosto, apesar de achar que todos o são igualmente) e o dia da chegada da Primavera. Tudo é recuperável, sobretudo as comemorações, seja lá do que for. Aqui se recordam ambos, hoje, porque tudo é quando um homem quiser. Ou uma mulher, neste caso.


FLORES

Era preciso agradecer às flores
terem guardado em si,
límpida e pura,
aquela promessa antiga
duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner

(Nota: Um dos meus pintores preferidos e uma poeta que adoro, escolhas de sempre. A repetição de Sophia em dois posts seguidos diz bem da minha preferência).

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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Momento ainda mais narcísico


Nariz, nariz e nariz,
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra,
Faria eclipse total!

(Bocage)

Prometo que não falo mais no assunto, mas não resisti.

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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

DEUS

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

(Fernando Pessoa)


(Imagem - Salvador Dali)



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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

A eterna inocência


Quem ama nunca sabe o que ama,
nem sabe porque ama,
nem o que é amar.
Amar é a eterna inocência,
e a única inocência é não pensar.
Alberto Caeiro
(Imagem: "Os Amantes" de René Magritte)
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Pudesse eu


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

(Sophia de Mello Breyner)

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Saudades de Lisboa


ALFAMA
Alfama de cacos pintados de tintas e trocas e ventos no rio de pontos picantes e pontas de faca e alpaca de Alfama com alma de alfafa e gente de fama que cai na galhofa do pátio da esquina da feira da ladra de cacos picantes e contas correntes de tretas e pintas de gente com laca nas pontas da fama e ventos de faca que cortam Alfama de portas pintadas com a fama do fado.

(Nuno Rebelo - in Mler If Dada, Coisas que Fascinam)
Nota: Roubado ao RAA, no Abencerragem.
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Cais das Colunas


Em época de efemérides, o Torquato da Luz lembrou-me, com este belo poema, uma questão que também me inquieta e sobre a qual já falei aqui: as novas "obras de Santa Ingrácia" do Terreiro do Paço, que nos levaram da vista o saudoso Cais das Colunas:


Sobre ser belo, tinha
uma aparência de eternidade
que lhe advinha,
não da idade,
mas da quase-irrealidade
com que marcava a linha
de rosto da cidade.
Hoje é apenas um monturo,
um lugar triste e abandonado,
ao qual roubaram o passado
e recusam o futuro.
E é de temer que o novelo
do tempo que tenho pela frente
não seja suficiente
para voltar a vê-lo.
Como lembrou, e muito oportunamente, um comentador do Ofício Diário , quem disse que a poesia não pode ser útil?
(Fotografia de Annie Assouline)

publicado por Ana Vidal às 22:20
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Alice no país dos hai-kais



Alice Ruiz: querida amiga, poeta, letrista e mestra de hai-kai, essa subtilíssima arte da palavra fotográfica. Chamo-lhe assim porque um hai-kai é o registo de um momento, imobilizado e fixado para sempre, como numa fotografia (não sei se a definição será muito ortodoxa, mas é assim que eu vejo esta forma de poesia).
O disco Paralelas é o belo resultado de uma parceria bem sucedida: Alice e Alzira Espíndola, letra e música, respectivamente. Além das vozes de ambas (falada a primeira, cantada a segunda), também as de Zelia Duncan e Arnaldo Antunes, a fazer deste trabalho um registo memorável.
Aqui ficam alguns exemplos do talento de Alice (escolhi-os do livro Desorientais, uma recolha exaustiva dos hai-kais da poeta) :







lembra aquele beijo
corpo alma e mente?
pois eu esqueci completamente
*
dançamos em pensamento
a dança dos anos
que nos devemos
*
roubaram a casa
as moscas ficaram
às moscas
*
o menino me ensina
como um velho sábio
o quanto sou menina
*
à beira do insuportável
essa qualidade rara
ser insubordinável
(Alice Ruiz, in Desorientais)


(Alzira Espíndola e Zelia Duncan, cantando uma letra de Alice - É só começar - do Paralelas)

É só começar
ninguém precisa
ter talento
p'ra transformar
caso em descaso
já o contrário
é que é o caso
se você não tem, lamento
é preciso ser forte
é preciso ser fraco
é preciso ganhar
e perder o juízo
sai dessa pose
pára de pensar no prejuízo
e segue em frente
tem hora p'ra chegar
tem hora p'ra se afastar
não sabe como?
é só começar
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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Dia do Senhor, dia dos senhores

Domingo, dia do Senhor. E também dia deste senhor - Serge Reggiani, que cantava assim. E que escolhia, como ninguém, as canções que interpretava. Aqui em Sarah, de Georges Moustaki. Outro senhor.

E mais outro: Joaquin Sabina, un señor irreverente e "maldito", que escreve, compõe e canta como muito poucos. (Este, dedico-o à minha homónima Ana L. da Costa, que eu sei que também gosta dele. Aqui está, Ana, com um beijinho especial.)

A pedido, aqui ficam também as letras das duas canções. Ambas são belíssimos poemas.

Sarah (Georges Moustaki)

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Les yeux cernés par les années, par les amours, au jour le jour.

La bouche usée par les baisers, trop souvent mais trop mal donnés.

Le teint blafard, malgré le fard, plus pâle qu'une tache de lune.

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Les seins trop lourds, de trop d'amours, ne portent pas le nom d'appâts.

Le corps lassé, trop caressé, trop souvent mais trop mal aimé.

Le dos voûté, semble porter les souvenirs qu'elle a dû fuir.

La femme qui est dans mon lit n'a plus vingt ans depuis longtemps.

Ne riez pas. N'y touchez pas. Gardez vos larmes et vos sarcasmes.

Lorsque la nuit nous réunit, son corps, ses mains, s'offrent aux miens.

Et c'est son cœur, couvert de pleurs et de blessures, qui me rassure.

Y sin embargo (Joaquin Sabina)

De sobra sabes que eres la primera,

que no miento si juro que daría, por ti, la vida entera.

Y, sin embargo, un rato cada día, ya ves,

te engañaría con cualquiera, te cambiaría por cualquiera.

Ni tan arrependido ni encantado de haberme conocido, lo confieso.

Tú que tanto has besado, tú que me has enseñado,

sabes mejor que yo que, hasta los huesos,

sólo calan los besos que no has dado, los labios del pecado.

Porque una caza sin ti es una emboscada, el pasillo de un tren de madrugada,

un laberinto sin luz ni vino tinto, un velo de alquitrán en la mirada.

Y me envenenan los besos que voy dando,

y, sin embargo, cuando duermo sin ti, contigo sueño.

Y con todas, si duermes a mi lado,

y si te vas, me voy por los tejados como un gato sin dueño,

perdido en el pañuelo de amargura, que empaña, sin mancharla, tu hermosura.

No debería contarlo y, sin embargo, cuando pido la llave de un hotel,

y a media noche encargo un buen champán francés y cena con velitas para dos,

siempre es con otra, amor, nunca contigo, bien sabes lo que digo.

Porque una casa sin ti es una oficina, un teléfono ardiendo en la cabina,

una palmera en el museo de cera, un éxodo de oscuras golondrinas.

Y cuando vuelves, hay fiesta en la cocina

y bailes sin orquesta y ramos de rosas con espinas,

pero dos no es igual que uno más uno,

y el lunes, al café del desayuno, vuelve la guerra fría

y al cielo de tu boca el purgatorio, y al dormitorio el pan de cada día.

E já agora, acabadinha de receber de um amigo que está longe, via mail, esta magnífica versão do Somewere, over the rainbow, de um outro senhor - Eric Clapton .

E assim, este domingo fala várias línguas.

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publicado por Ana Vidal às 11:30
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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Vitórias e derrotas

Tropecei hoje, por acaso, neste pequeno poema de Daniel Jonas:

PECADO CAPITAL
A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.

Daniel Jonas


Já fui muitas vezes acusada de ser feminista (como se fosse uma ofensa...) e assumo o título - embora sem fundamentalismos, a que sou completamente avessa - por achar que as mulheres ainda têm muito que lutar pelos seus direitos em quase todo o mundo. Digo "sem fundamentalismos" com a plena consciência de que gozo do privilégio de não ter que expôr-me ao ridículo de queimar soutiens para ser ouvida, mas SÓ porque outras mulheres já o fizeram, um dia, por mim.
Direitos que nos parecem hoje absolutamente básicos foram conquistados, a duras penas, por mulheres corajosas que aguentaram firmemente a chacota dos homens que provocavam e o desprezo de outras mulheres que as desclassificavam ferozmente, no fundo tão aterrorizadas quanto eles com a mudança que se avizinhava. E de que também beneficiaram, afinal.
Enfim: tudo isto é sabido, estudado e reconhecido.
Vem a propósito o poema de Daniel Jonas - aliás delicioso, na graça e no ritmo - mas em que poderíamos facilmente descobrir resíduos de um atavismo ancestral, não fora o poeta referir-se apenas às mulheres que lhe couberam na vida, à sua história.
Sendo assim, só posso dizer-lhe: teve azar, meu caro Daniel Jonas. Lamento que não se tenha cruzado com uma das muitas mulheres de qualidade que conheço. Algumas delas, por sinal, tiveram azar também: os homens que lhes sairam na rifa eram pouco alados e... até tinham cabeça, mas no sítio errado.
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Domingo, 14 de Outubro de 2007

Paulo Autran

Só hoje soube da morte de Paulo Autran (07.09.1922 - 12.10.2007). O desaparecimento de um grande actor deixa sempre o mundo mais pequeno. Aqui, como diseur de excelência, que era também.



Poema de Carlos Drummond de Andrade, recitado por Paulo Autran na rádio Band News FM, no dia 29/11/2006 (encontrado no Sem-se-Ver).

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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

O nada



Mínimo sou.
Mas quando ao nada empresto
a minha elementar realidade
o nada
é só o resto.

(Reinaldo Ferreira)
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Ilha das Pombas


Ilha das Pombas

São livros.
Velhos tomos abandonados
na estante do tempo,
guardando no silêncio das páginas
mil histórias, mil mistérios
que a memória já esqueceu.

O pescador que não voltou
de um dia de má sorte,
bote e alma vazios, eterno espanto.
A noiva que em vão picou os dedos
naquele vestido branco
que era um sonho bordado,
e nos pontos cruzados se perdeu.
O poeta que ouviu um dia um não mais duro
e se lançou voando,
asas presas para sempre no azul sem fim.
O menino que falava com as gaivotas
e com elas se ria do futuro.
Os amantes que tanto prometeram
e tão pouco cumpriram, afinal.
Os amigos que fizeram um pacto de sangue,
um por todos, todos por um…

São livros.
Orgulhosos e belos,
encostados ao tempo,
amparando-se no tempo
e com ele resistindo, resistindo
ao sopro gélido das nortadas,
ao impiedoso abraço das ondas,
até que todos os mistérios se desvendem.

(Baleal, 9/9/2007)
Fotografia: Mário Cordeiro
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Domingo, 2 de Setembro de 2007

O que der e vier


O QUE DER E VIER

Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.

(Torquato da Luz, no Ofício Diário)

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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Lohengrin


LOHENGRIN
(Prelúdio, I acto)

Melodia infinita
Haikai mais-que-perfeito
Lírico anil de violinos, flautas
e auroras boreais

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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Memória


Um único objecto


São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas da humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos nos ombros das crianças

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

(José Carlos Barros)

Imagem - Exploding Raphaelesque Head, de Salvador Dali - in O Século Prodigioso
publicado por Ana Vidal às 09:52
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Domingo, 12 de Agosto de 2007

Há dias assim


Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida, toda ela, para que não nos esqueçamos de nenhuma das suas etapas. Que começam com uma aurora magnífica, uma verdadeira explosão de vida, e acabam num suicídio colectivo de estrelas desesperadas, como anjos caídos em desgraça. Pelo meio, uma tarde em que a morte nos reclama, lembrando-nos de que até os nossos sonhos lhe pertencem. Que só os temos de empréstimo. A prazo. Há dias assim. Em que até a terra treme e se revolta sob os nossos pés. Em que nada, nem ninguém, pode preencher os interstícios da nossa solidão. Em que um allegro matinal sucumbe sem remédio a um adagio vespertino, que antecipa já, por sua vez, um inevitável requiem nocturno. Há dias assim. Feitos de espanto e de torpor. De glória e de derrota. De risos e de lágrimas. Da luz mais alta e das mais fundas sombras. De caminhos inesperados, improváveis. Impossíveis de percorrer. De um céu aberto por um sol resplandecente e fechado por uma lua nova, embuçada em brumas. Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida.
"Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha."
(Miguel Torga - Ode ao Mar)
publicado por Ana Vidal às 20:23
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Hoje de Manhã


Hoje de manhã saí muito cedo,
por ter acordado ainda mais cedo
e não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
mas o vento soprava forte,
varria para um lado,
e segui o caminho para onde o vento
me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida,
e assim quero que possa ser sempre.
Vou onde o vento me leva e não me sinto pensar.

(Alberto Caeiro)
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Enzima da amizade

Este post é uma gracinha especial para a minha amiga Regine Limaverde, cientista e poeta do Brasil, que me escreveu agora mesmo da Suécia. E que vem a Portugal de passagem, por um dia só, antes de voltar para casa.
Cá te espero, querida. Tudo a postos para te receber: até uma passadeira vermelha já encomendei, de Lisboa ao Estoril...
Enzima

Existe uma enzima
dentro de mim.
Sendo enzima
quebra e constrói
e sua ausência
em meu peito dói.

A baixo pH
poderá se desnaturar
não quero que isto
aconteça.
Nesse sentido
hei de trabalhar.

Minha enzima
me enche de poesia.
Tece laços energéticos,
ataca pontos estratégicos,
me ilumina, me fermenta.
Com ela eu rio,
de tristezas esqueço.
Sinto que vôo, cresço.

Ela não requer
energia de ativação,
o meu coração basta
para iniciar a reação.

Não tem porção metálica.
Não precisa de cofator.
Ela foi feita sob medida
à base de muito amor.

É eterna, não se acaba,
é única
e é rara.
E me é muito cara.

É. Existe uma enzima
dentro de mim
e eu amo
essa enzima.

(Regine Limaverde)

PS: Gostou da surpresa, amiga?
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Terça-feira, 31 de Julho de 2007

A lucidez perigosa


De novo Clarice Lispector, que estou a ler e com quem ando muito sintonizada. Este texto é belíssimo e de uma enorme profundidade. Não é bem um poema (antes uma prosa poética), embora a sua estética o remeta definitivamente para a Poesia.
Há fases assim, de uma visão extra-lúcida das coisas. De pura clarividência. Suponho que todos passamos por elas alguma vez, são aquelas que antecedem uma criação ou um acontecimento muito especial. Um encontro com o que somos por dentro, um olhar mais atento no espelho de todos os dias.
Mas atenção: para quem não sabe, não pode ou não quer enfrentar-se, fica o aviso - a lucidez pode matar.
A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: Que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.

Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.
Eu consisto,
Eu consisto,
Amén.
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

La terre est bleue comme une orange


La terre est bleue

La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.
Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.
Oeil de sourd
Faites mon portait.
Il se modifiera pour remplir tous les vides.
Faites mon portrait sans bruit, seul le silence,
A moins que - s'il - sauf - excepté -
Je ne vous entends pas.
Il s'agit, il ne s'agit plus.
Je voudrais ressembler
- Fâcheuse coïncidence, entre autres grandes affaires.
Sans fatigue, têtes nouées
Aux mains de mon activité.

Paul Eluard, L'amour la poésie (1929)
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Sábado, 28 de Julho de 2007

Perigo iminente


São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher...
(Vinicius de Moraes)
Nota: A lua cheia de hoje está mesmo um perigo. Iminente e eminente.
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Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Paraíso


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
(David Mourão-Ferreira)


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(Pedro Guerra - Deseo)
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Domingo, 22 de Julho de 2007

Passa. Entra.

Por mais voltas que dê, por mais música que ouça, acabo sempre por voltar a Pedro Guerra porque nunca me canso de ouvi-lo.

Hoje estou num desses dias em que só ele me enche as medidas.

Passa. Entra. Alguma forma encontrarás para passar por esta porta.

Lindo.

Ouçam bem alto até à exaustão, ou até saber de cor. Vão dar-me razão, tenho a certeza.

 

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Imagem - "Rooms by the sea", de Edward Hopper

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Saravá, Poetinha!

O prometido é devido, milord. Dia de homenagear o Poetinha é sagrado.
Faz hoje anos que ele... ah, mentira, não morreu nada!

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Sophia


Passaram anteontem, dia 2 de Julho, 3 anos sobre a morte de SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN.
Perpetuando a efeméride, o O P.E.N Clube Português - em colaboração com a Editora Caminho - decidiu homenagear a grande poeta e sua sócia fundadora, com a edição de um livro de poemas a ela dedicados. Foram muitos e de todas as idades os sócios do P.E.N que aderiram à iniciativa, entre amigos, colegas e simples admiradores de Sophia.
O livro foi lançado na Caminho e teve a presença de muitos desses autores, que leram pessoalmente os seus textos. Foi uma homenagem bonita e sem espavento social, como penso que Sophia teria gostado.
Também eu fiz um poema em seu louvor, mas, com grande pena minha, já não foi a tempo de integrar esta colectânea. Está no meu livro Seda e Aço e aqui fica, em jeito de despedida àquela que será sempre, para mim, o Nobel português.

ADEUS, SOPHIA

Por fim, Sophia
desatados os laços
vencidos os limites
estende-te o mar o seu tapete de ondas
como quem estende os braços
Respondes ao convite?

Guardou, só para ti
na tua metade maresia
prodígios, espantos, maravilhas
estranhos como Giocondas…
Esperam-te as ilhas
que sonhaste
E esses corcéis que nunca cavalgaste
sacodem já as crinas
em desafio

Segue o teu fio
de praias extasiadas
de manhãs cristalinas
até que se te acabem as areias
e te venham buscar
breves, aladas
as vagas por que anseias

Vai, ruma ao Norte
desprende-te do Sul
que a tua sorte
não é daqui, é de outro azul

Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia

Adeus, Sophia.
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Sábado, 30 de Junho de 2007

Heróis


Receita para fazer um herói


Tome-se um homem,
feito de nada, como nós,
e em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
lentamente,
duma certeza aguda, irracional,
intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
agite-se um pendão
e toque-se um clarim.

Serve-se morto.



Passam hoje 48 anos sobre a morte de Reinaldo Ferreira, um nome tão injustamente esquecido no nosso panorama literário.

Um único livro, póstumo (de título Poemas, cuja primeira edição foi lançada 1 ano após a sua morte), condensa toda a obra conhecida do poeta. Nas 3 edições que dele se fizeram estão incluídos textos analíticos de Eugénio Lisboa, José Régio e Guilherme de Melo, que lhe prestam a devida homenagem. Aqui fica o poema Receita para fazer um Herói, um dos meus preferidos.

Para lembrar um grande poeta.
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Sábado, 23 de Junho de 2007

Marly de Oliveira


De novo a poesia brasileira no feminino, desta vez para uma triste notícia: a da morte de Marly de Oliveira, poeta talentosa e injustamente pouco divulgada, mesmo no seu país (pelo menos junto do grande público). Em Portugal, nem se fala.
Talvez tenha ficado mais conhecida por ter sido casada com João Cabral de Melo Neto, poeta maior do Brasil. Mas ela foi muito mais do que isso: tinha voz própria, publicou vários livros de poesia e recebeu mesmo o conceituado prémio Jabuti, com "O mar de permeio" (1998).
Morreu a 1 de Junho, aos 72 anos.
Aqui deixo uma matéria da crítica literária Maria Elisa Guimarães sobre a poeta, no seu blog Sub Rosa.
Para que conste.
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Jaula para ingleses


Não, não é uma jaula para ingleses pedófilos e o assunto nada tem a ver com a pequena Maddy.
É que acabei de saber que o livro JAULA, de Astrid Cabral, está a ser passado para inglês pelo qualificadíssimo Alexis Levitin (que já traduziu para a língua inglesa alguns dos melhores poetas portugueses, como por exemplo Sophia de Mello Breyner e toda a obra de Eugénio de Andrade).
Boa escolha, e merecidíssima. Toda a força da natureza que é o Brasil explode neste delicioso bestiário poético, que figura há muito nos "Louros do Vento" (em baixo e à esquerda, neste blog).
Os meus parabéns à querida Astrid, pelo talento, e a Levitin, pelo faro.
O livro vende-se por cá? Humm, acho que não. Mas devia.
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Terça-feira, 19 de Junho de 2007

Vincent Meireles


ENCOMENDA


Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Cecília Meireles
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brisas, nortadas e furacões, por


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Pedro Silveira Botelho
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aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

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