Sábado, 10 de Outubro de 2009

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João de Bragança

 

Começara com o Meccano dos irmãos mais velhos depois de ter sentido a magia do Lego, não para a construção de casas, mas para a concepção de espaços industriais – “fábricas para fazer coisas”, como dizia - numa idade em que a normalidade estatística recomendaria o desejo do sexo oposto.

Passara, então, para os electrodomésticos. Numa primeira fase, com a perspectiva da autópsia e, numa segunda, com uma dimensão de curandeiro. Acabaria, se é que a expressão se pode utilizar em quem está no início da vida, a esmiuçar carros, numa dissecação cientista dos vários órgãos.   

O curso de engenharia mecânica veio como corolário lógico de uma mente e de umas mãos voltadas para as máquinas e equipamentos, electrónica e circuitos afins. Quando se instalou no bairro provocou aquela estranheza que por vezes antecede o respeito ou o sorriso. De facto, não era costume ver uma mulher – ainda para mais relativamente nova – à frente de uma oficina de automóveis.

Mas Andreia, com uma cara bonita num corpo equilibrado, impôs-se num mundo quase exclusivamente masculino. Se fosse preciso gritava, descompunha um empregado, falava-lhe de igual para igual – em termos de conhecimento, é claro, porque a hierarquia nunca foi questionada. Este convívio indiferente só com homens, totalmente imune a olhares concupiscentes de clientes e mecânicos (porque a relação profissional não inviabiliza o desejo) acabou por sujeitá-la a algumas suspeitas de orientação de vida íntima menos ortodoxas… Tornara-se, acima de tudo, numa mulher dura e intransigente. 

Duas vezes por mês, no recato de sua casa, Andreia recebe Madame Odille, uma francesa que tem o privilégio de umas mãos de fada e de uma sensibilidade de artista. Durante uma hora e meia a garagista aprende tudo o que é possível sobre pintura: os estilos, a história, a aguarela, o pastel, o lápis. Tem uma única exigência: os últimos trinta minutos são dedicados em exclusivo ao retrato, mesmo sem a presença de um modelo. Nos olhos de Madame Odille há um cintilar de desconfiança sempre que olha para um esboço ou uma obra acabada. É como se houvesse uma qualquer nota dissonante, ainda que essa dissonância esteja numa constância a que alguns chamarão monotonia. A mestra pressente, mais do que evidencia. Talvez seja dos seus 70 anos, de uma visão menos boa, de uma mão mais incerta, de uma memória que já tem dias.

Na sala onde há muito só entra a professora, Andreia, já sozinha, abre a gaveta da cómoda e espalha os retratos que tem vindo a pintar ao longo do último ano. A evolução é visível: as sombras, a perspectiva, a firmeza e a agilidade, o amor ao preto e branco. Estão lá, se calhar, 20 esboços, uns mais acabados do que outros. São todos do mesmo homem, e quase todas na mesma atitude: uma boca bem desenhada ainda que não especialmente bonita, um cabelo grisalho e ondulado, uns olhos infelizes que olham no vago, uma mão que se adivinha abandonada. Andreia olha-os com nostalgia. Põe uma música triste e chora sozinha, abandonada numa ilusão de dureza que ficou à porta da oficina.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

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Sábado, 3 de Outubro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

 Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores, e das velas que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

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Sábado, 26 de Setembro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

 

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Sábado, 19 de Setembro de 2009

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João de Bragança

 

 

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente;  lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita  num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras

Il me parle tout bas

Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.  

 

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Sábado, 12 de Setembro de 2009

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João de Bragança

 

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt sem alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.  

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.  

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Sábado, 5 de Setembro de 2009

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João de Bragança

 

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica. 

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.      

 

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Sábado, 1 de Agosto de 2009

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João de Bragança

 

Ele tinha 16 e ela 30. Uma ou duas vezes por semana, quando a casa estava no silêncio de quem dormia ou na ausência das rotinas exteriores, o rapaz chegava-se à cozinha para as suas lições de doçaria. Aprendeu tudo o que havia a saber sobre o ponto de cabelo ou o ponto de espadana, o pesa-xaropes e os graus Baumé, a calda de açúcar e a importância da matéria-prima. Por ali estavam uma hora, o Francisco e a Ermelinda, de avental pendurado e olhos no tacho, sentindo a textura,  percebendo a importância da acção rápida, deitando algumas gotas de água fria para baixar a temperatura ao xarope.

No fim da sessão, arrumados os tachos, lavada a loiça e aprendida a lição, a empregada levava o rapaz pela mão, argumentando que ele tinha nódoas na roupa

- ai se a mãezinha vê…

bocados de açúcar na testa e nos olhos

- o menino não pode ir assim para o liceu

camisas desfraldadas e sapatos por engraxar.

E a Ermelinda, com o seu peito forte a querer saltar da farda, as suas coxas rijas, os seus braços habituados à labuta do sol a sol limpava-lhe as manchas de gordura, polia-lhe os mocassins, lava-lhe o rosto. E desapertava-lhe um botão, e mais outro, e ainda outro. E era um beijo curto e envergonhado, seguido de outro mais lânguido e húmido. E era uma mão que lhe tirava um torrãozinho de açúcar do canto do olho e que lhe descia pelo corpo na demanda de outras partes, de outros encantos, de outros estímulos. E eram, por fim, dois corpos nus num quarto dos fundos, enrolados, beijando-se e tocando-se num aroma de sândalo e flores secas numa cómoda de pinho.

O último período do liceu foi assim passado. As notas num crescendo de quadro de honra, as lições de doçaria numa espiral de sucesso de aprendizagem: o ponto de estrada, o ponto assoprado, o ponto de bola mole; o polegar e o indicador humedecidos com água fria para se ver formar o fio; o sulco que se abre no fundo do tacho, a calda que escorre na escumadeira, deixando-lhe uma fina camada. E o prémio caseiro pelo bom cumprimento materializado numa nudez forte, num sol que entra devagarinho a uma hora matinal e que ilumina um seio numa luz finíssima. Há ainda o sândalo que inebria e que é testemunha de um desempenho juvenil cada vez melhor. Afinal, tudo se resume a uma gestão do tempo, da temperatura e do ponto, porque o amor carnal pode ser doçaria da mais fina.

Passaram-me 20 anos, e o Francisco é dono de uma pastelaria afamada, que reclama ter os melhores jesuítas do concelho. Lá dentro, a comandar a equipa, a Ermelinda ainda é imbatível na calda de açúcar. A vida deu-lhe idade e peso, cabelos brancos e olheiras fundas. O rapaz, agora empresário, tem um sócio, o Juvenal, para quem olha de uma forma que revela ternura e cumplicidade, um entendimento que vai além dos prazos de pagamento e da visão do negócio. Por vezes tomo o pequeno-almoço com ele, encostados ambos a um balcão feito num vidro de transparência impossível. Pede sempre uma bica curta em chávena fria e um rissol de camarão.

- Enjoei o açúcar, sabe?   

Então não sei… Conheço-lhe bem a história. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

 

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Sábado, 25 de Julho de 2009

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João de Bragança

 

O gosto pela vela tinha começado a bordo de um Lusito, enfrentando as manhãs frias de sábado no rio que banha Algés. Dominada a bolina, o virar de bordo, a refrega, foi num crescendo: Vaurien, Laser, 470. Aos 25 anos já tinha um barco de 40 pés, fruto de negócios bem sucedidos.

Entregou-se por completo àquela vida e a tudo o que girava em seu redor: representação de marcas, venda de equipamento, organização de pequenos cruzeiros, regatas, etc. Constituiu a sua própria equipa e deu cartas nalgumas provas, com a sua voz potente, comando decidido, atenção fulgurante, mão firme no leme. Rondava bóias como ninguém, e o spinnaker era içado num tempo considerado impossível.

Um dia, numa regata ao largo do Bugio, só a sua vasta experiência evitou um abalroamento adversário com consequências funestas. Encheu-se de fúria, de nervos e de vocabulário, e desancou o skipper concorrente com um chorrilho de insultos – alguns retirados das suas memórias do capitão Haddock. Tomou nota mental do nome da embarcação que invadira o seu espaço e o seu direito àquela manobra para verbalizar a indignação em terra. Quando se dirigia ao Paris je t’aime, pronto a desancar o timoneiro, foi interpelado por uma senhora elegante, bonita – francamente bonita - que lhe disse num francês educado e vagamente distante:

- O barco é meu, a responsabilidade é minha, mesmo que não fosse eu ao comando. Je m’excuse.     

Voltaram a encontrar-se em várias regatas. O português que se iniciara na Mocidade Portuguesa foi num crescendo de fascínio e fixação, e moveu as suas influências para saber tudo sobre a dama: o que fazia, com quem, se havia marido, filhos, dívidas, negócios. Veio a saber que morava no Monte Estoril, num condomínio elegante com uma vista deslumbrante e uma renda obscena. Num desespero de aproximação luso-francês, montou uma tabacaria nas proximidades, e andava por ali a dinamizar o negócio, a acompanhar as obras, a explorar nichos emergentes. Mas também, e sobretudo, a tentar topar a elegância gaulesa ao virar de uma esquina, não condicionar os encontros ao calendário meteorologicamente volátil das regatas.

A dona do Paris je t’aime ignorou-o durante anos com uma sobranceria que confrange. E porque a vida pode ser um sucedâneo de desalinhamentos astrais, o negócio da tabacaria foi caindo a pique, numa versão moderna de um naufrágio sem pronto-socorro. Da menina Isabel e do senhor Alberto, funcionários a tempo inteiro, ficou a rapariga, uma jovem da zona oeste fugida à apanha da fruta. Mesmo ela sairá no final do mês com os duodécimos pagos num esforço de tesouraria. Resta, ao balcão, o velejador do Lusito, do comando firme e da exactidão na viragem de bordo.

Vende jornais, cigarros e magazines cor-de-rosa que mostram casais felizes num rejuvenescimento permanente. A cada cliente que entra disponibiliza, insistentemente, a última revista de barcos de recreio. Quando a senhora francesa assoma ao estabelecimento, o proprietário balconista revela uma cordialidade e polidez que não disfarçam uma névoa de frustração. Estende-lhe a revista, mas ela pede o Point de Vue; fala-lhe no Bugio, mas ela responde Sardenha; menciona vela grande, mas ela diz jóias. A Bastilha, mesmo que estejamos em Julho, não será ele que a tomará.

Conheço-o bem. Vou lá todos os dias comprar jornais e cigarros, e já lhe expliquei que enjoo a bordo. Mas ele insiste e eu acabo por comprar. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

 

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Sábado, 18 de Julho de 2009

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João de Bragança

 

Era atleta especializada nos 20 km marcha, fascinada pelo gingar do corpo, pela regra obrigatória do pé sempre assente no chão, pelo olhar - que alguns diriam quase esgazeado - com que se vislumbrava a meta. Do pai, militar na Legião Francesa e que se comovia, até ao limite, com o Legio Patria Nostra, herdara o gosto pela disciplina e pelo espírito de sacrifício. No fundo, ingredientes necessários - mas não bastantes - para se servir a pátria e o mundo livre com garbo e honra, ou para se atingirem lugares cimeiros no atletismo mundial.

 

Um dia, ao 18º quilómetro, seguia ela num ritmo seguro e de campeã, assentou mal o pé. Soltou um grito, provocado por um ligamento que se estirava numa rotura sem retorno e por uma alma premonitória que lhe anunciava o fim da carreira. Era uma prova de beneficência nos arredores de Marselha, e a maca em que seguiu para o hospital estava coberta com um lenço enfeitado com desenhos feitos por crianças com fome. Tudo se consumou ao terceiro dia quando lhe disseram que podia guardar o equipamento, se isso não a corroesse de saudades. A medo, entre sedativos e soluços, falaram-lhe, também, de um possível coxear em permanência, resultado da gravidade da situação e da ausência de tratamentos mais modernos. O mundo dela desabava entre um sábado e uma 3ªfeira, a dois mil metros de arrastar consigo a fita de vencedora.

 

Foi então que num jantar de amigos em Montmartre, enquanto se discutiam as tendências da pintura abstracta face ao capitalismo ocidental, veio a conhecer um português, fisioterapeuta, emigrante de segunda geração com provas dadas numa agremiação de bairro. Era um fim de tarde morno e lento, e o arménio que tinha escolhido ser francês afirmava, romântico, que la bohème / ça voulait dire on est heureux. O rapaz tinha um coração de ouro e umas mãos de escolhido. Numa persistência que envergonharia qualquer atleta de alta competição, recuperou-lhe o pé, eliminou-lhe o coxear, ensinou-lhe a virtude do toque em zonas para lá do tornozelo.

 

Cruzei-me com ela hoje no paredão, como já me tinha cruzado ontem, há dois dias, na semana passada, durante o mês de Junho. Encontro-a também na minha paróquia, semanalmente, onde a vejo rezar com um fervor que é o desespero do ateu e o desvelo do clero. Posso garantir que o ritmo na marcha matinal está cada vez melhor, o terço que percorre com as mãos agita-se mais, o mexer dos lábios vai num frenesim crescente. Apostaria que as suas orações acabam ao quilómetro treze, quando na 2ª feira acabariam aos oito - sinal de que a velocidade se aproxima do que é possível, considerando a entorse de há 35 anos.

 

Quando chega a casa encontra o fisioterapeuta a esfregar as mãos - não só de contentamento, mas também para as aquecer, porque ela se queixa que um afago frio na zona baixa das costas lhe arruína o erotismo e lhe atrasa o final. Ainda ouvem Aznavour, porque cada casal tem o seu fetiche. No dia seguinte voltará ao seu passeio higiénico, optando, talvez, pelos mistérios gloriosos.

 

É a filha do tenente francês, e aposto que a vida dela é esta. Se eu me cruzo com ela todos os dias, não havia de saber?

 

 

 

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Sábado, 4 de Julho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Nas minhas rotinas diárias cruzo-me, tantas e tantas vezes, com as mesmas pessoas: no paredão, no supermercado, na pastelaria, nos correios, no prédio onde moro. Dou por mim a olhar aqueles rostos e a imaginar-lhes a vida - o que pensam, como amam, como se chamam os filhos, o que fazem quando chegam a casa, qual a sequência com que se lavam e vestem, que fetiches têm, o que os torna infelizes, de que riem perdidamente ou de que choram numa convulsão de fazer pena. Construo-lhes uma história e escrevo-a no Moleskine, que também é para isso que ele serve.

 

***

 

Como resquícios de outros tempos da fidalguia, tinha uma ementa de um jantar no iate Amélia desenhada e dedicada pelo Rei D. Carlos. Estava numa bonita mesa inglesa, emoldurada ao lado de fotografias do seu pai, da sua mãe, dos seus irmãos, lado a lado com a realeza exilada no Estoril e Cascais. Habituara-se, em nova, a jogos de ténis e lanches em clubes elitistas. As noites, dançadas ao som de orquestras com brilho e glória, eram protegidas  por um manto de estrelas que só o poder do dinheiro e do nome podiam garantir. Casara mas não tivera filhos, e  separara-se anos mais tarde, numa altura em que o divórcio, não sendo curriculum, já não era cadastro.

Encontrou aquele que viria a ser o seu segundo marido numa missa de 7º dia onde, para além do falecido, se perfilava uma fatia grande do PIB nacional, e 80% dos sócios dos clubes lisboetas mais selectos. Antigo empresário, homem do seu nível social, com ele já tinha partilhado boleros e valsas inglesas, taças de champanhe e partidas de ténis, na variante pares mistos, onde ele evidenciara um jogo quase imbatível ao fundo do court. Agora, alquebrado e com problemas nas costas, mantém a sanidade física possível num gingar de desacerto esquelético.

Criaram ambos a rotina do paredão matinal: ela de carteira a tiracolo, como se transportasse as jóias que lhe restam numa louis vuitton bem imitada, porque a ladroagem na vila está por demais. Ele no seu desacerto constante, ombro para cá e para lá, braço descompassado da perna oposta, uma coluna desesperada a aguentar partes que parecem querer debandar.

O filme está, infelizmente, embotado - se não de miséria, pelo menos de desilusão. Ele joga todas as noites, tentando simular ao poker o bluff que não conseguiu nas negociações com os sindicatos. Perde mais do que ganha, porque a trinca não entra, a sequência máxima é muito difícil, o full hand está no domínio das hipóteses irreais. Vai buscá-la todos os dias de carro a Atibá, onde o elemento final de uma família que privou com condes e marqueses  é dama de companhia de uma idosa, com momentos cada vez mais improváveis de lucidez.

As noites agitadas arruínam os desejos de descanso nocturno e, por volta das quatro da manhã, com uma pontualidade que enerva, há um encontro, combativo e inesperado, na mente da anciã acamada: o fulgor e a confusão, a memória e o olvido. Nunca se saberá quem vence a contenda materializada num monólogo a quatro frases:

- Conheci muito bem a sua avozinha, devia eu ter uns doze ou treze anos. Cabia-me lavar as casas de banho todas - e olhe que eram muitas. Acho que a minha fralda está suja. Importa-se de a mudar?

Cruzo-me com eles todos os dias, conheço-lhes a história como ninguém. Ele traz no olhar o encavanço das cinco da manhã que o atirou, falido, para um sofá e uma água fresca sem gás. Ela traz a carteira a tiracolo, bem junta ao peito, porque a malandrice está como nunca se viu.

 

 

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Sábado, 27 de Junho de 2009

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João de Bragança

 

2ªfeira

Privilégios e necessidades levam-me a retomar os passeios matinais no paredão do Estoril. O sol ainda está relativamente baixo, o mar é um espelho, os mastros dos barcos no Clube Naval recortam-se na linha do horizonte. Ao longe, meia dúzia de cargueiros parecem vigiar a nossa baía, aguardando hora ou maré adequadas para seguirem o seu caminho. 

 Circunstâncias próprias conduziram-me a um modelo de vida profissional claramente mais incerto, mas seguramente mais confortável. Há quem encontre nos carros, barcos, roupas, jóias, férias, neve, restaurantes, os seus luxos e momentos de prazer. O meu luxo é o tempo, a não obrigatoriedade do horário, do patrão, do trânsito, dos colaboradores. Poder trabalhar ao Domingo e folgar à 5ªfeira; trabalhar um sábado de manhã, mas ir ao cinema a meio da tarde de 4ªfeira. Ter responsabilidades, mas geri-las à minha maneira.

A vida levou-me por este caminho. Sei que há um preço a pagar – a tal insegurança e incerteza – mas gostaria de poder continuar a pagá-lo, em nome de um equilíbrio interior que me é fundamental. O nosso tempo e a nossa qualidade de vida têm um custo. Quantos de nós queremos ou conseguimos pagá-lo?

 

 

4ªfeira

 Deambulo pelos livros da FNAC sem destino certo. Gosto de ver que o Treze gotas ao deitar, do qual a Rita Ferro é co-autora, se mantém num lugar de destaque. O Vitorino Nemésio, confesso, não me povoa o espírito, excepto quando me deparo com um livro cujo título é Mau Tempo no Anal, tendo como subtítulo Diário de um Paciente. Na capa, um saco de soro fisiológico (ou líquido semelhante) retira da minha mente pensamentos mais alternativos. Folheando o livro percebo do que se trata, e para o autor, um homem que venceu uma doença grave, vai todo o meu respeito e consideração. Mas o título… Mau Tempo no Anal? Alguém quer falar sobre isto?

 

 

5ªfeira

Represento a Acreditar numa fundação que actuará no campo da oncologia pediátrica, principal causa de morte não acidental das crianças. Dois dias antes recebera informação sobre o estado destas coisas no mundo: 250.000 crianças afectadas anualmente; 80% de taxa de sobrevivência nos países desenvolvidos, menos de 20% nos países mais pobres. Passei parte do Verão passado no Zimbabwe, tendo sido convidado a visitar a ala das crianças com cancro num dos maiores hospitais de Harare. Para aqueles que estiverem interessados em ler um relato tristemente real, aqui fica o link para o que escrevi no meu blogue:

 

http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.com/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html

 

Há alguns anos cruzei-me com o Pedro Bello, um pai que lutava um combate difícil que veio a perder. Homem incansável, decidiu fazer um livro aberto à colaboração de todos, sem excepção: textos, fotografias, desenhos, etc. Cedo-lhe parte da palavra:

E agora o que vai ser de mim? será o título do livro que talvez agora tenha pernas para andar.

 E agora o que vai ser de mim? foi uma das últimas frases que a minha filha disse ao entrar nas urgências,  pouco antes de entrar em coma.

 E agora o que vai ser de mim? é o desafio que vos deixo, um texto (real/inventado) com base nesta frase, para incluir no livro.

 A receita do livro, "alimentado" com o conteúdo do site

 

http://oncologiapediatrica.org/

 

reverte integralmente para a Acreditar.

Há por aqui, nesta Porta do Vento, gente que escreve muito bem, desenha muito bem, fotografa muito bem, tem mil e um misteres que executa magistralmente. Fica o desafio e a caixa dos comentários para dúvidas e sugestões.

 

 

6ªfeira

Frase lúcida e verdadeira para terminar a semana, aplicável a tantas realidades no domínio não suíno:

 

- Nunca tente ensinar um porco a cantar. Você perde o seu tempo e ainda chateia o porco.

 

 

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Sábado, 20 de Junho de 2009

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João de Bragança

 

Domingo

Regresso à rotina depois de dias longos em gozo de férias. Fui um viajante incansável numa determinada fase da minha existência, mas foi preciso chegar à idade que tenho para conhecer Porto Covo. No blogue onde escrevo habitualmente, um companheiro de crónicas deambulava esta semana sobre os sítios da sua infância que foram sendo destruídos pela evolução dos tempos, fazendo desaparecer hábitos, pessoas e espaços que eram parte do seu imaginário. Visito a costa vicentina pela primeira vez, pelo que olho para um retrato, não vejo um filme. Ainda é o que era há 30 anos? Ou a tribo que lá veraneou deu lugar a uma horda desconhecida e demasiado heterogénea?

Daqueles dias de calor fica a memória de experiências gastronómicas leves (variando entre o faisão e a meia-desfeita), conversas de amigos à volta de temas diversos. Retenho uma: azares exagerados na vida de alguns mortais e que suscitam dúvidas sobre a existência de maus-olhados, assim como a utilização de pêndulos e outras artes para o equilíbrio das energias. Questiono-me: conheço alguém com tantos infortúnios acumulados e sobre quem possa dizer que está com mau-olhado? Ou alguém que seja tão pérfido que consiga derramar sentimentos negativos ao ponto de influenciar a vida de outrem? Ou será que o inferno somos, sobretudo, nós? 

 

3ª feira

A interacção de certas pessoas com certas pessoas, e as conversas inerentes, fazem-me recordar um passado ainda recente, no qual me arrogava tristemente a capacidade de avaliar as pessoas com base em critérios próprios. Não promovi, na minha escala de valores íntima, ninguém que o não merecesse, mas sei que despromovi, entre outros, aqueles que me pareceram os maus. Hoje vejo cometerem-se os mesmos erros. Como não paramos para perceber as atitudes dos outros, a pedra que lançamos do alto da nossa perfeição já vai, muitas vezes, a caminho. Tudo se resolveria se nos quedássemos um momento a avaliar as fragilidades de que cada um é (também) composto. A insegurança em sociedade pode gerar uma aparência de superioridade, o medo da solidão transformar-se em furor noctívago, uma vida de críticas pedir uma necessidade de afirmação. Somos demasiado complexos para nos ficarmos no primeiro olhar – normalmente crítico. Quando damos por nós a pedra já bateu, e alguém se contorce num sofrimento de dor e injustiça.

 

4ªfeira

Histórias sem nexo aparente:

Numa ponta da cidade, num gabinete com vista sobre o rio, um senhor X dá a seguinte instrução à secretária:

- Não se importa manda-me comprar duas dúzias de rosas e diz ao motorista para as entregar lá em casa? Faço anos de casado e a minha mulher gosta de rosas.

Na outra ponta da cidade, um outro senhor X, sentado num banco com vista para o rio, faz um soneto e chama-lhe rosas, porque a sua mulher gosta muito dessa flor. Também fazem anos de casados, e será o seu presente.

 

5ªfeira

Carta registada com aviso de recepção, proveniente da Polícia Municipal. Todo eu me agito numa preocupação – não só pela multazinha, que adivinho, mas pelas cicatrizes que podem vir a inscrever-se no meu cadastro automobilístico, desfeando-o sem retorno. Suspiro de alívio quando me apercebo do valor e do tipo: 30€, estacionamento em cima do passeio na Rua do Jardim do Tabaco. Data: 4 de Fevereiro de 2008. Será engano? 16 meses depois? Alguém tem sugestões?

 

6ªfeira

Leio no Google uma citação de Bertrand Russel, que reproduzo com tradução minha: se houvesse no mundo de hoje um número significativo de pessoas que desejasse a sua própria felicidade, mais do que a infelicidade dos outros, poderíamos ter o paraíso dentro de poucos anos.

Olho para os parágrafos anteriores e, na sua generalidade, reconheço-lhes um pensamento singelo, palavras escritas sem grandes preocupações de profundidade. Atento na minha vida dos últimos anos. Na sua esmagadora maioria, as profundezas a que desci ou as alturas a que me alcandorei foram, tantas vezes, um somatório de pequenos nadas: uma palavra que se diz a desoras, algo que se ouve de forma própria, pequenas quezílias que não se esclarecem atempadamente. Mas, também, uma frase milagrosa, um livro revelador, uma oportunidade agarrada, um olhar diferente. O encanto das pequenas coisas, porque a vida pode ser muito simples.

 

Sábado

Por sugestão do agora colega de blogue, João Paulo Cardoso (ver crónica de 6ªfeira), rumo à Amareleja, onde se esperam temperaturas amenas. Levo alguns pares de cuecas e um prato para comer ovos à alcatrão.

 

 

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Sábado, 13 de Junho de 2009

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João de Bragança

 

 

5ªfeira

A Ana V, que me apresentou e me mostrou os meandros da blogosfera, convidou-me para participar no Porta do Vento. Alguns clamores interiores – a vaidade, a satisfação, a simpatia – empurraram-me de mansinho para o cadafalso, como quem envia um inocente para a degola. Uma voz dentro de mim (também há a da Petula Clark, mas isso ficará para outra altura) que se chama prudência, alertava sem cessar: vais escrever sobre o quê? Avancei para a auto-imolação com a alegria dos mártires.

 

Sábado

Circunstâncias próprias da vida levam a que seja o número impar na casa de alguns amigos. Neste jantar de sábado somos onze. Apercebo-me, com um sentimento misto de injustiça e espanto, de que até aí somos judaico-cristãos. De facto, Noé convidou um par de cada espécie para fugir ao dilúvio. É gratificante pensar que há quem tenha uma visão teimosa da amizade, como se um qualquer Noé acenasse a um peru ou a uma égua que, vítimas de uma vida impiedosa, se quedassem sozinhos no cais de embarque sem bilhete, sem destino – e sem par.

 

Domingo

Dia da Solenidade da Santíssima Trindade. Conta-se que Santo Agostinho, molhando os pés nas praias de Hipona e meditando sobre esta estranheza de um mais um mais um ser igual a um, encontrou um rapaz que, paciente, baldeava água do mar para dentro de uma cova.

- O que fazes, rapaz?

- Tiro toda a água do mar e ponho dentro deste buraco.

- És mesmo tolo. Achas que algumas vezes conseguirás fazer isso?

- Tolo és tu. Mais cedo mudarei toda a água, do que tu conseguirás entender o mistério da Santíssima Trindade.

Assim acabou o diálogo curto entre o doutor da Igreja e um rapaz, que a lenda diz ser o Menino.

Na realidade, estes e outros mistérios são para se acolher, não para se entender.

 

3ªfeira

Na qualidade de Presidente da Acreditar sou convidado – juntamente com uma colega - para uma reunião com o responsável máximo de um grupo português da área da construção civil. Subo o elevador com uma secretária que, sorridente e simpática, diz conhecer-me da missa de Santo António do Estoril (gosto deste sentimento de comunidade não envergonhada) quando me lembro de uma história, supostamente com o cavalheiro com quem nos vamos encontrar.

- Então vocês vão apoiar a Acreditar?

- Sim, vamos.

- Mas quem é o Presidente?

- Não faço ideia. Mas é isso que eu gosto naquela associação. Nunca ninguém sabe quem ele é.

Quando, há pouco mais de um ano, recebi o testemunho de quem me precedeu na presidência, segurei nas mãos a imagem de todas as crianças que sofrem e sofreram de cancro, que passaram por nós e que se despediram para destinos nem sempre terrenos. O Presidente não é, na realidade ninguém, apenas o fiel depositário de uma luta injusta, porque protagonizada por gente que devia estar a brincar. Daqui a dois anos, outro continuará esta guerra. Anonimamente, porque o rosto que apresentamos ao mundo é, apenas e sempre, o de um Pai que abraça um Filho – um abraço de esperança, de certeza ou de dor.

 

5ªfeira

Não foi hoje, mas o Dia do Corpo de Deus, sabe-se lá porquê, provocou o pensamento fugidio, a lembrança de uma refeição que podia ter sido apenas eficaz, mas que se arrastou por horas perdidas e mansas. Há conceitos que se devem proferir com uma periodicidade teimosa: nada é mais importante do que o amor e o perdão. Estou tão certo disso como o estou da esfericidade imperfeita da Terra. Só isto é que permite uma caminhada confiante no lado luminoso da vida, derramando um olhar sereno e em paz sobre os transeuntes da nossa vida, não obstante todas as curvas da estrada. Há, no indulto, uma sensação de libertação e de pacificação interiores que deveriam viciar. Perdoar os que nos ofendem, desculpar os que nos magoam, relevar as agressões de que somos vítimas deveriam fazer parte do código de boas práticas de qualquer ser humano. Amor e perdão.

 

6ªfeira

Almas caridosas sugerem-me temas para o post de amanhã. E que tal um jantar com um convidado surpresa? Ou as memórias da tua infância? Resumos divertidos sobre os clássicos? Um espaço de humor, talvez? Temas polémicos, quem sabe... A todos respondo, com o desalento na voz: já existe, já há quem faça, já está.  A voz prudente dentro de mim (para além da Petula Clark, obviamente) continua a perguntar: sim, escrever sobre o quê?

 

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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