Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Ceci n'est pas un obituaire

 

Nasceu no dia de hoje, há exactamente 110 anos, um dos meus pintores preferidos: René Magritte.

 

Irreverência, ironia, subtileza, clarividência, ousadia, inteligência, talento... todos estes adjectivos (e muitos outros mais) poderão ser aplicados a esta mente privilegiada, que interpretou a realidade que a rodeava de uma forma única e inspirada.

 

Quem pintou assim não morrerá nunca. Parabéns, Mr. Magritte... e muitos quadros de vida!

 

 

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publicado por Ana Vidal às 17:45
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Sábado, 8 de Novembro de 2008

A imperatriz dos Andes

 

Morreu esta semana a cantora peruana Yma Sumac, uma verdadeira lenda de que as novas gerações provavelmente nunca ouviram falar.

 

Deram-lhe muitos nomes - desde "Rouxinol Andino" a "Imperatriz de Matchu Pitchu" - não só pelo seu extraordinário aparelho vocal como pelos filmes que protogonizou, quase sempre histórias da fascinante mitologia do seu país natal que tinham como cenário a inigualável paisagem dos Andes. Mas nem precisava de ter escolhido um nome artístico (Yma Sumac ou Ymma Sumack, no princípio da carreira em Hollywood), já que nenhum poderia competir em exotismo e "peso" com aquele com que foi baptizada: Zoila Augusta Emperatriz Chavarri del Castillo.

 

Mas concentremo-nos na voz, aquilo que lhe deu um lugar único na História. Tanto quanto se sabe, nunca uma voz humana chegou tão longe em extensão e timbre como a de Yma Sumac. Era um "contralto virago", uma anomalia vocal muito rara que, no caso dela, atingiu o máximo de alcance conhecido até hoje: cinco oitavas (!),  uma proeza inimaginável para qualquer cantora (uma boa voz lírica feminina atinge em média duas oitavas e meia; Maria Callas, por exemplo, orgulhava-se das suas três oitavas limpas).

 

A voz de Yma movia-se entre o barítono e o soprano ligeiro com uma facilidade espantosa. Gastou-a quase exclusivamente em mambos e outros sons do folclore andino, género em que podia exibi-la "de A a Z" como se de um número de circo se tratasse. Mas fez também brilharetes na ópera, dos quais o episódio mais conhecido é aquele em que arrasou com a Flauta Mágica de Mozart numa tournée por Itália, nos anos 50, época de ouro da sua carreira. Porque cantou bem? Claro, mas sobretudo porque não foi Pamina que escolheu interpretar. A sua voz foi emprestada... à própria flauta! Tudo isto por ter subido ao palco furiosa, depois de uma provocação de um crítico musical que a avisou, em tom jocoso, de que ela estava "no berço da ópera" e ali cantaria para connaisseurs, não para os leigos que a adulavam lá nas Américas...

 

Yma Sumac desapareceu de cena muito antes da sua morte. O mundo engole os seus ídolos a uma velocidade estonteante, e ainda mais quando são estranhos e pouco ortodoxos. O reinado de Yma não foi longo, nem como actriz nem como cantora. Mas foi intenso e raro, e por isso merece ser recordada. Ainda não houve quem suplantasse as proezas vocais de que a Imperatriz dos Andes era capaz.

 

 

(Yma Sumac - Pachamama)

publicado por Ana Vidal às 16:12
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Lá estarei...

 

Acabei de receber este convite. Às vezes tenho pena, muita pena de que haja um oceano entre mim e a minha vontade de dar um salto ao Brasil, por tudo e por nada. Desta vez seria por tudo, sem dúvida. Quanto mais não fosse, para dar um beijo ao neto do homenageado!

 

publicado por Ana Vidal às 11:05
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Sábado, 6 de Setembro de 2008

Um ano de silêncio

Faz hoje um ano que morreu Luciano Pavarotti. Como homenagem, aqui republico hoje o que escrevi sobre ele a 5 de Setembro de 2007, na véspera da sua morte, quando a confirmação desta era já só uma questão de horas.
 
"O crepúsculo de um deus
 
Lembro-de bem da profunda impressão que me causou quando o vi (e sobretudo ouvi) cantar ao vivo, a menos de dez metros de mim, ainda em pleno esplendor da sua poderosíssima voz. Gostei sempre mais da doçura e maleabilidade da voz de Plácido Domingo, por contraponto à imensa força da natureza que era a de Pavarotti. Muito abaixo dos dois, na minha opinião, ficou sempre José Carreras (não fosse a tocante e exemplar história de vida, uma lição de preserverança e de estoicismo, e não lhe reconheceria o direito a um lugar entre "os três tenores"). Mas tenho de admitir que Pavarotti, não sendo o meu preferido, era absolutamente arrasador em palco. Abria a boca e saía - aparentemente sem o menor esforço - um vozeirão magnífico, seguro e cheio, que enchia cada recanto da sala e fazia arrepiar de espanto quem o ouvia.
 
Teve ainda um outro enorme mérito: o de ter sido o primeiro a abrir as portas do canto lírico, habitualmente reservado a um público reduzido e exigente, às chamadas "massas". Por causa das suas parcerias com variadíssimos músicos de outros géneros musicais - pop e rock, sobretudo - o universo operático deixou de ser, para muita gente, um "papão" inacessível. Ficam para a História os concertos "Pavarotti and Friends", a favor de causas humanitárias para as quais arrecadou muito dinheiro e chamou as atenções do mundo.
Por tudo isto assisto com tristeza, nestes dias, ao crepúsculo de um deus."
 
 

(Nessum dorma / Turandot - Os 3 Tenores)

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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

How fragile we are...

 

Em homenagem a Isaac Hayes, uma voz inconfundível que incendiou a minha imaginação de adolescente e mais tarde nunca me desiludiu. Foi o primeiro cantor a ganhar um Óscar da Academia de Hollywood para a melhor música original de um filme, com Shaft. Calou-se ontem para sempre, aos 65 anos. Era, afinal, muito mais fragile do que parecia.

 

(Fragile - Isaac Hayes)

 

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publicado por Ana Vidal às 23:34
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Classe

 

Se há gente que respeito é aquela que aguenta os embates da vida com classe, por mais brutais que eles sejam. Quem, confrontado com um revés pessoal, não cede à tentação de fazer dele uma bandeira lancinante, arrastando um espectáculo de vitimização que é sempre confrangedor porque deixa impotentes todos os que assistem. Não é fácil, eu sei. Não é certamente para todos manter direita e vertical uma espinha que por dentro estará mais partida do que a de Frida Khalo. Quem se mostra superior nestes momentos demonstra ter uma estrutura invejável, o melhor trunfo para a futura reconstrução de um castelo de areia que ficou em ruínas.

 

Admiro a fibra, o pudor, a subtileza. A classe, enfim. E admiro ainda mais quando à elegância se junta o sentido de humor, que quase sempre nos falha nestes momentos.

 

Tudo isto encontrei em Marie Tourvel, a quem tiro respeitosamente o meu chapéu: num único desabafo - este que aqui reproduzo - diagnostica, relata, ironiza e relativiza, cirurgicamente, uma desilusão que adivinhamos ter sido bem dura. A lição está lá toda, o recado foi dado ao destinatário com um tiro certeiro no coração. E, felizmente, não faz de nós carpideiras. Poupa-nos. Não há acusações, não há queixas, não há convite à comiseração. Pelo contrário, faz-nos sorrir da coragem, da graça e da dignidade com que enfrenta uma maré negra. Quem assim se desconstroi vai reconstruir-se depressa e bem, tenho a certeza. Vai ficar mais forte ainda. Parabéns, Marie.

 


Desconstructing Marie 


Ofensa: ato ou dito que lesa um sentimento respeitável ou legítimo; desconsideração, desacato, menosprezo.

Velhacaria: ação ou comportamento de pessoa que é velhaca ou que age como tal; patifaria.

Surpresa: fato ou coisa que surpreende, que causa admiração ou espanto.

Decepção: sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração pela ocorrência de fato inesperado, que representa um mal; desilusão, desapontamento.

Vergonha: desonra que ultraja, humilha; opróbio.

Arrependimento: pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição.

Choro: ação de verter lágrimas; pranto, lágrimas.

Mágoa: desgosto recolhido cujas marcas transparecem no semblante, nas palavras; tristeza, amargura, pesar. Sensação desagradável causada por agravo ou indelicadeza; ressentimento.

Tristeza: falta de alento; desânimo, desalento, esmorecimento.

Melancolia: estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral; depressão.

Raiva: sentimento de irritação, agressividade, rancor e/ou frustração, motivados por aborrecimento, injustiça ou rejeição sofridas etc.

Desprezo: falta de estima, apreço ou consideração; desdém.

Asco: aversão natural por tudo o que seja considerado hediondo ou repugnante; nojo, enjôo, náusea.

Nada: a negação da existência, a não-existência; o que não existe; o vazio. Mais filosoficamente, aquilo que se opõe, contradiz, transcende ou se afasta do ser, em sentido absoluto, relativo, ou como mera construção lingüística; não ser.

É a ordem da desconstrução. Tudo isso numa única madrugada. Coisas da engenharia que só os engenheiros entendem, ninguém mais.

 

Nota: A cereja no topo deste bolo de suprema ironia é a "banda sonora" que Marie escolheu para acompanhar o seu post: The Kinks - Death of a Clown

 

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publicado por Ana Vidal às 09:48
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Domingo, 27 de Julho de 2008

Feira de Velharias (10)

Nos últimos dias tenho-me lembrado muito da minha Mãe, mais ainda do que é habitual. Por isso me apeteceu republicar este texto que escrevi no dia em que fiquei sem ela.
 
 
 
Mãe
 
É sabido que, quando morremos, todos nos transformamos em boas pessoas. Há um certo estatuto de superioridade no mistério da morte, que lança um véu dourado de temor e respeito nos que ficam e os faz mais benevolentes para com quem ascendeu a um plano desconhecido. Os defeitos são atenuados, as qualidades tendem a sobressair, quase tudo é perdoado.

Por outro lado, suponho que não será quase nunca difícil, para um filho, tecer comentários lisonjeiros acerca da sua Mãe. A emoção domina-nos o vocabulário e incita-nos à exaltação de alguém que nos faz falta desde o preciso instante em que perdemos a sua presença protectora.

No caso da minha Mãe – posso afirmá-lo sem qualquer dúvida ou hesitação – sei que não preciso de recorrer à parcialidade do amor filial nem à complacência que dá a morte para dizer, dela, que era um ser humano extraordinário. Quem a conheceu, ainda que tenha sido só superficialmente, poderá testemunhar a veracidade desta afirmação.

Foi um exemplo admirável para nós, filhos, e também para todos os que conviveram com ela. A total entrega aos outros foi sempre o seu projecto de vida, e essa escolha aproximou-a muito daquilo a que nós, cristãos, chamamos santidade. Mesmo tendo sido uma Mãe atenta, nunca foi verdadeiramente “nossa”. O seu mundo era incomparavelmente maior do que a família, e filhos eram todos os que precisassem dela, conhecidos ou não.

Era de um despojamento invulgar: não se interessava por coisas, nem elas lhe mereceram nunca grande atenção. Mas gostava de livros, sobretudo dos que descreviam expedições e viagens singulares. Também gostava de discos, principalmente de música clássica. Bach, Beethoven e Mozart foram os grandes companheiros dos seus últimos tempos. Fora isso, contentava-se com muito pouco e era tão naturalmente generosa que dava tudo o que tinha, com um encolher de ombros e uma expressão divertida que acabaram por tornar-se a sua imagem de marca. Interessava-se, isso sim, por pessoas (por todas menos uma – ela própria). Não as diferenciava, a não ser por critérios de carácter e de qualidade humana. Para os frívolos e mesquinhos não tinha a menor paciência, e mostrava-o sem disfarçar. Tinha amigos de todas as idades e de todos os estratos sociais, porque a sua alegria, sentido de humor e simplicidade, eram contagiantes e faziam com que se sentisse bem em qualquer ambiente. Será muito difícil encontrar alguém que não tenha dela uma lembrança carinhosa.

Nunca foi uma típica dona de casa, como a maioria das mulheres da sua geração: independente por natureza, sustentou-se desde muito nova e realizou-se por inteiro numa vocação que parecia feita à sua medida – a medicina. Era uma mulher inteligente e culta, embora nunca caísse na tentação de exibir esses dotes para impressionar ou medir forças com alguém. De raízes urbanas e horizontes abertos, teve afinal que adaptar-se à rígida pequenez da província, numa época em que a sua profissão era vista com desconfiança e preconceito, quando desempenhada por uma mulher. Mas soube, sem guerras nem provocações, dar a volta a tudo e a todos, acabando por transformar em defensores fiéis os seus maiores críticos.
 
Sendo um espírito pragmático, científico, tinha também uma fé inabalável. Conciliava pacificamente evidências e mistérios incorpóreos, matéria e espírito, como se soubesse que cada um desses dois mundos ficaria incompleto sem o outro. Praticava, muito mais do que pregava, os preceitos de um Deus em quem acreditava profundamente.

 

Festejou 60 anos de curso com os amigos de sempre, e 84 de vida com a família próxima. Viveu uma vida plena e feliz mas teve, infelizmente, um fim duro. E até na doença e na morte foi um exemplo: aceitou o sofrimento extremo que lhe coube sem sombra de revolta e com a filosofia dos eleitos, captando o seu significado mais profundo. Talvez essa transcendência nos possa servir de consolo, perante uma tão flagrante injustiça.

Ficaria aqui, ad eternum, a contar episódios da vida da minha Mãe. Há mil histórias, cómicas ou comoventes, que se tornaram célebres entre nós e que ficarão na nossa memória para sempre. Guardo-as com ternura e talvez arrisque contá-las um dia, mesmo sabendo que ficarei sempre aquém da verdade.

 

Hoje, dia em que partiu, fica por aqui esta homenagem. Desapareceu uma Grande Mulher, mas apenas da nossa vista. Continuará tão presente como sempre, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-la.
 
Até sempre, minha Mãe.
 
(Publicado em 20 de Maio de 2007)
publicado por Ana Vidal às 22:36
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Sábado, 26 de Julho de 2008

Lobo Antunes - um discurso

 

Muito bom, o discurso de ontem de António Lobo Antunes ao agradecer a atribuição do Prémio Camões, nos claustros dos Jerónimos. Gostei muito de ouvi-lo. De improviso e perante uma plateia recheada de Chefes de Estado, falou de uma forma fluida e totalmente à vontade sobre a Língua Portuguesa e a importância que esta tem no mundo, sobre a sua experiência de escritor e de cidadão português, sobre as suas preferências literárias e sobre as suas emoções e memórias. Citou inúmeros nomes das letras lusófonas, mas sem aquele academismo que torna os discursos chatos, e conteve-se no auto-elogio e no pedantismo fácil.

 

Ao contrário do que seria de esperar (eu, pelo menos, confesso que não me admiraria muito se assim fosse) não houve no seu tom o mais leve laivo de amargura ou de cinismo. Enfim, mostrou ser um um homem com uma cultura vasta, sólida e integrada, como se espera de quem já conquistou quase todos os prémios literários que lhe interessariam. Para a glória total, faltou o Nobel. Será que ainda o sente como uma pedra no sapato? Se sim, não pareceu.

 

publicado por Ana Vidal às 12:25
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Contamíname

Quem me conhece sabe da minha paixão pelas músicas e letras do Pedro Guerra. Sobretudo pelos primeiros discos, que continuo a considerar os melhores deste cantautor das Canarias, que já conquistou o mundo e compôs para grandes nomes da música internacional.

 

Mas talvez não saibam que esta canção "Contamíname" deu origem (e deu o nome) a uma fundação criada pelo próprio Pedro Guerra, cujo principal objectivo é a partilha de culturas e a luta contra o racismo e a xenofobia. A Fundación Contamíname nasceu, assim, de uma canção cheia de alegria e "boa onda". A música é contagiante, a letra é preciosa. Escolhi a versão de Ana Belén (para mim, uma das melhores vozes de nuestros hermanos) e Victor Manuel por ser, exactamente, uma homenagem à Fundação.

 

Espero que se deixem contaminar, meus amigos.

 

 


Contamíname

Cuéntame el cuento del árbol dáctil de los desiertos
de las mezquitas de tus abuelos
dame los ritmos de las darbucas y los secretos
que hay en los libros que yo no leo

Contamíname
pero no con el humo que asfixia el aire
ven
pero sí con tus ojos y con tus bailes
ven
pero no con la rabia y los malos sueños
ven
pero sí con los labios que anuncian besos

contamíname,
mézclate conmigo
que bajo mi rama
tendrás abrigo

cuéntame el cuento de las cadenas que te trajeron
de los tratados y los viajeros
dame los ritmos de los tambores y los voceros
del barrio antiguo y del barrio nuevo

contamíname,
mézclate conmigo
que bajo mi rama
tendrás abrigo

cuéntame el cuento de los que nunca se descubrieron
del río verde y de los boleros
dame los ritmos de los buzukis los ojos negros
la danza inquieta del hechicero

contamíname,
mézclate conmigo
que bajo mi rama
tendrás abrigo

publicado por Ana Vidal às 23:52
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Boa nova

Impossível ficar indiferente a esta notícia: a libertação de Ingrid Betancourt liberta-nos também a todos um pouco do sufoco de sabê-la a definhar, doente, num cativeiro que parecia eternizar-se. Um final feliz. Uma mãe notável e uma ainda mais notável filha, em quem parece haver muito mais alegria do que ressentimento, muito mais felicidade do que ódio. Muitos políticos irão agora querer sacar louros deste desfecho inesperado, mas não é isso o que mais interessa: uma mulher resistiu seis anos aos seus algozes e conservou o sorriso. Com toda a certeza, porque não perdeu a esperança. Bem-vinda ao mundo, Ingrid.

 

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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

50º Aniversário

Mais um ainda, neste dia realmente especial: o do cinquentenário da morte de Vasco Santana.

 

 

(e tinha logo de morrer no dia de Santo António?)

 


(Obrigada a Blogotinha, que me avisou de mais esta efeméride de hoje)

 

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100º Aniversário

Além do 120º aniversário de Pessoa, hoje é também o 100º aniversário da pintora Vieira da Silva. Dia Grande, hoje.

 

 

 

 

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120º Aniversário

 

 

Aniversário 

 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,  
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . 
  
Pára, meu coração! 
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!   
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

 

(Álvaro de Campos)

 

 

(Nota minha: ... Ainda festejam, amigo!)

 

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Adeus, Mr. Pollack

Ando preguiçosa para escrever. E quando encontro quem diga, melhor do que eu, o que eu tinha para dizer... aproveito a boleia e instalo-me.

 

É o caso desta homenagem a Sydney Pollack, feita pela Teresa . Está lá tudo, está tudo dito. E depois... acaba com aquela cena do Out of Africa que é um autêntico KO para mim. Fico a olhar e a ouvir aquilo com lágrimas nos olhos, sem fala. É difícil fazer melhor em cinema. Trago-a para aqui para vê-la mais vezes, sempre que me apetecer: 

 

 



PS: Acrescento só à lista da Teresa um dos meus filmes de culto, produzidos por Pollack: O talentoso Mr. Ripley).

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Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Um adeus português

 

Alfredo Saramago era um homem muito especial: cultíssimo, dono de um espírito invulgarmente vivo e fino, amante e profundo conhecedor dos prazeres requintados da vida. A sua morte faz-me pensar no muito que tinha ainda por fazer e dizer, e na aparente injustiça que significa este desaparecimento precoce. Claro que esse sentimento nos assalta sempre que perdemos alguém de quem gostamos, mas neste caso as razões são mais abrangentes: além da família e dos amigos, é um país que perde um dos seus valores culturais.

 

A sua prosa era deliciosa e bem reveladora de uma personalidade única. Não resisto a reproduzir aqui parte de um mail que dele recebi, na sequência da combinação de um almoço que tínhamos agendado para falar de livros e de gastronomias. Acho que ele não se importará que eu cometa esta inconfidência:

 

"A poeira ainda anda pelo ar !! Levantou-se antes do Natal e os camelos dos reis magos tornaram-na mais densa...é evidente que tenho estado em Espanha.
Regressado hoje, com horizonte limpo e nítido, dou com o seu mail que me alvoroçou. Não o entusiasmo entendiante das «festas» mas o contentamento de um possivel almoço ao alcance da minha marcação...
Vou estar ausente até domingo e na próxima semana estarei livre à espera que me diga quando e onde.
Parabéns pelo prémio, bom ano e boa vida.
Como se dizia no boémio século XVIII:  «beijo as suas mãos e a fímbria da sua saia, Minha Senhora».
 
Alfredo" 

 

 

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Domingo, 18 de Maio de 2008

Zélia Gattai

 

Acabei de ler a notícia: morreu Zélia Gattai. Não tenho muito para dizer, ainda estou abananada. Não que não fosse um desfecho previsível, mas a eterna "namorada" de Jorge Amado merecia viver outros 91 anos, para contar as muitas histórias que ainda guardava nas gavetas da memória. Ainda há pouco tempo lhe mandei um mail... e ainda esperava uma resposta dela, mesmo sabendo que já estava muito doente e que era pouco provável recebê-la. Agora, só se vier por sinais de fumo, em nuvens que ela me sopre lá de cima.

 

Hoje sou baiana também. Como esta paulista, que virou baiana por amor.

 

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Domingo, 11 de Maio de 2008

Ouro Musical

 

«A pianista Maria João Pires foi esta sexta-feira agraciada pelo governo espanhol com a Medalha de Ouro de Belas Artes 2007, pelos seus serviços em prol do «fomento e difusão da arte, da cultura e do património artístico», informa a Lusa. «A decisão foi tomada no Conselho de Ministros com base numa proposta do ministro da Cultura, César Antonio Molina. Maria João Pires faz parte de um elenco de personalidades do mundo da arte e da cultura, reconhecidos com os galardões, que se destacaram no campo da criação artística e cultural. Entre os galardoados contam-se ainda o português Manoel de Oliveira, o maestro Daniel Barenboim, a cantora de ópera Cecilia Bartoli, o actor Antonio Banderas, o escritor Jorge Semprún, a restauradora Carme Ruscalleda e a artista de circo Paulina Andreu.»

 

Gostei de saber deste prémio. Gostei muito, mesmo. A nossa virtuosa pianista anda muito desaparecida do panorama artístico nacional, infelizmente, após o colapso financeiro de um projecto que era a "menina dos seus olhos": Belgais.

 

Não sei o que aconteceu para que Belgais se afundasse, não me interessam muito as causas. Sejam elas quais forem, lamento profundamente que tenha acabado. Belgais era um projecto pioneiro e quase utópico (digo "quase" porque chegou a realizar-se e a funcionar plenamente, e digo "utópico" porque estava condenado desde o início, tal era a sua ousadia), de um alcance social e cultural invulgar, sobretudo aqui em Portugal.  Eu tive a felicidade de ter estado lá, de ter conhecido aquele mundo encantado por dentro, em todo o seu esplendor. Passei lá um dia inteiro e assisti, deliciada, à rotina de uma verdadeira maravilha.

 

Para quem eventualmente não saiba, Belgais era uma escola de música para crianças desfavorecidas, vindas da paupérrima região serrana que rodeia a cidade de Castelo Branco. E era, também, ponto de encontro e abrigo temporário de músicos, nacionais e estrangeiros, de altíssimo nível (alguns tornavam-se residentes, como professores). Esses músicos, convidados por Maria João Pires, "batiam" a região em busca de aptidões musicais em estado puro, entre as crianças em idade pré-escolar da zona, que não teriam, de outro modo, acesso às mínimas condições que lhes permitissem instruir-se, descobrir e explorar os seus talentos. A escola comprometia-se a alimentá-las durante o dia, a dar-lhes a escolaridade normal, e ainda a proporcionar-lhes uma edução musical de primeira água. Eu assisti a uma dessas aulas, absolutamente fascinante: cerca de 30 crianças de idades várias cantavam em coro afinadíssimo e experimentavam instrumentos, luxuosamente acompanhadas por uma das pianistas mais aclamadas do mundo. Maria João Pires transfigurava-se, literalmente, e via-se que adorava aquela experiência. Semanalmente, havia um concerto (gratuito, claro) para a população da região, em que se incluiam as famílias daquelas crianças privilegiadas. Enfim, um sonho musical sofisticado e gratificante, impensável naquela região extremamente carenciada que aspirava, quando muito, à satisfação das necessidades mais básicas.

 

Esse dia inesquecível incluiu ainda um memorável almoço com os residentes de Belgais e alguns amigos vindos de fora como eu, e todos nos deliciámos com a forma apaixonada como Maria João falava do seu projecto. A quinta era muito bonita e auto-suficiente em alguns aspectos, porque tinha hortas de agricultura biológica, pomares e alguns animais. Foi uma pena a longa agonia de Belgais, a sua morte anunciada e, finalmente, o fechar de portas.

 

Resta-nos a consolação de ouvir Maria João Pires nas gravações que vai editando, e também nos raros concertos que vão fazendo parte do calendário cultural português.

 

Muitos parabéns, Maria João. Este prémio (mais um) é merecidíssimo.

 

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Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Palavras sábias

 
Clarice Lispector  (encontrado aqui)
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Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Dia do Livro

No dia mundial do Livro e do Direito de Autor, a minha homenagem a um Homem, escritor, filósofo e pedagogo muito especial que, de mais que uma maneira, tocou a minha vida.

 



«(...) Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos de que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou contemporâneos, mas sempre a mesma pergunta, contundente e inevitável: O que se encontra, meu Deus?»


António Quadros, "Uma Frescura de Asas".


(Imagem: Livro - Fotografia de Chema Madoz)

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Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Uma homenagem


Pelo Paulo Cunha Porto, que lhe dedicou um post há poucos dias no seu
Afinidades Efectivas, soube do centenário de uma figura carismática deste país, que conheci pessoalmente e de quem guardo as melhores lembranças: António Lopes Ribeiro.


Era um homem notável, e um conversador sem paralelo. Conheci-o há muitos anos, em circunstâncias curiosas: ele era uma espécie de "sócio honorário" da agência de publicidade em que eu trabalhava como copywriter, à época.  Já afastado, pela idade, das múltiplas actividades que tinham feito da sua vida uma experiência única, tinha no entanto ainda bastante energia e vontade de comunicar - a sua paixão, afinal - e por isso aparecia de vez em quando por lá.


Ora, quem conhece por dentro uma agência de publicidade, sabe que o ritmo de trabalho é frenético e não se compadece com pausas para conversas, por muito interessantes que sejam. Por isso, todos "fugiam" daquelas visitas inesperadas, que atrapalhavam o corre-corre dos trabalhos "para ontem" de que se fazia a nossa rotina diária. Eu era a mais novata (e, consequentemente, a que tinha menos capacidade de recusar fosse o que fosse) e por isso fui destacada para entreter o ilustre visitante, que queria companhia e  não entendia porque não se havia de parar um bocadinho para conviver, simplesmente. 


Foram precisos uns bons anos mais para eu perceber como ele tinha razão, e como era mais sábio do que todos nós juntos! Na altura, pareceu-me injusto que só o meu trabalho fosse interrompido. Mas isso foi só na primeira vez... daí em diante, era já com enorme prazer que o recebia e que o ouvia desfiar memórias de uma vida absolutamente extraordinária, passada sobretudo nessa galáxia da sétima arte, que dá a tudo uma patina de pura magia. Tinha convivido de perto com grandes estrelas internacionais e conhecia inúmeras histórias, umas picantes e outras comoventes, que contava com uma vivacidade impressionante. Eu ficava a ouvi-lo, encantada, interrompendo de vez em quando para fazer perguntas a que ele respondia com paciência e visível satisfação.


Foi uma aprendizagem preciosa, a que recebi daquele homem encantador. Era um espírito vivo e aventureiro, ágil e cheio de sentido de humor. Hoje, agradeço aos meus stressados colegas de profissão a distinção de me terem escolhido para tal tarefa, porque tive assim a oportunidade de conviver com uma personalidade admirável. Mas o que eu não sabia - estamos sempre a aprender! - é que ele era igualmente um poeta inspirado. Isso só descobri agora, ao ler a homenagem do Paulo.

Roubei-lhe este soneto, que mostra bem quem era António Lopes Ribeiro, para além daquele homem a preto e branco que dizia, na televisão: "António, diz boa noite a estes senhores!"


Aqui fica o Poeta, com merecida maiúscula:


EMPENHO


Tenho a certeza de morrer vestido.
Tarde ou cêdo, não sei - nem me interessa.
Se fôr dum tiro - morro mais depressa.
Se fôr na guerra - morro mais vencido.

Se tiver tempo de reler o Eça
(pelo menos o livro preferido),
já me valeu a pena ter vivido
e ter sabido como se começa.

É fácil acabar. Os dias vãos
correm velozes pela vida fora,
desafiando a morte que me espera.

Quando chegar a inevitável hora,
gostaria que fôsse primavera
e que não fôsse pelas minhas mãos.

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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Uma VOZ

Hoje, 16 de Abril, é o dia mundial da VOZ. Vou-me rendendo a assinalar estes "dias de", sobretudo aqueles que não têm implicações dúbias ou não me irritam especialmente. Por isso aqui fica uma das mais bonitas canções de amor alguma vez escritas, numa das mais bonitas vozes que já ouvi. E não só bonita: é uma voz de tal maneira expressiva e rica de inflexões que, mesmo para quem não perceba a língua em que as palavras são ditas, é fácil entender o que elas pretendem transmitir e deixar-se levar pelas emoções. É uma "voz-actriz", e de primeira água. Recostem-se e ouçam-na, de preferência sem outros ruídos de fundo. E digam-me lá se não ficamos todos com vontade de ter um amor "soft as an easy chair"...

(Evergreen - Barbra Streisand)

Love soft as an easy chair
Love fresh as the morning air
One love that is shared by two
I have found with you

Like a rose under the april snow
I was always certain love would grow
Love ageless and evergreen
Seldom seen by two

You and I will make each night a first
Every day a beginning
Spirits rise and their dance is unrehearsed
They warm and excite us, cause we have the brightest love

Two lives that shine as one
Morning glory and midnight sun
Time weve learned to sail above
Time wont change the meaning of one love
Ageless and ever evergreen

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Sábado, 12 de Abril de 2008

Parabéns

Montserrat Caballé faz hoje 75 anos. Ao longo da sua carreira cantou quase todo o repertório operático clássico, com uma delicadeza e uma doçura que contrastavam com o seu volume físico e faziam com que ele se eclipsasse totalmente. Em palco ficava apenas uma cara linda e expressiva, de medalhão italiano, e uma voz simultaneamente poderosa e suave. A sua Casta Diva (Norma) ficou famosa.
Aqui, num impressionante dueto com outra fantástica voz - Freddy Mercury - a mostrar toda a elasticidade do seu talento e a sua enorme simplicidade. Uma mulher maravilhosa, uma cantora inesquecível. Parabéns, guapa!

(How can I go on - M. Caballé e F. Mercury)

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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Ainda um sonho


Passam hoje 4o anos sobre a morte de Martin Luther King.
Que bom seria que o seu sonho fosse já uma realidade...
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Domingo, 30 de Março de 2008

Clap, Clap, Clapton

O grande Eric Clapton faz hoje 63 anos. Aqui o têm, numa canção de James Taylor de que eu gosto muito, a assinalar o dia. Escolhi esta versão "karaoke" para poderem cantar com ele. Parabéns, Eric, e obrigada por tantos e tão fantásticos momentos que me tens dado. No teu caso acho que se pode aplicar, sem favor, a máxima do vinho do Porto: quanto mais velho...

(Don't let me be lonely tonight- Eric Clapton)

(Nota: Esta homenagem foi uma sugestão de um amigo, igualmente fã de Eric Clapton e sempre atento a estas efemérides da boa música. A escolha da música é minha.)

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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Homenagem


Acabam de desaparecer dois homens difíceis de ignorar, ligados ao mágico mundo do cinema:
Arthur C. Clarke, o visionário escritor de ficção científica e criador do eterno 2001 - Odisseia no Espaço, aos 90 anos;
e Anthony Minghella, o realizador de filmes tão importantes como, por exemplo, O Paciente Inglês e O Talentoso Mr. Ripley (gosto mais ainda do segundo, que considero um dos grandes filmes que já vi), aos 54 anos apenas.
De Clarke, ficou-nos uma herança promissora: 3001, The Final Odissey. I just can't wait...
Dizer que o cinema ficará mais pobre sem eles, é puro eufemismo.
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Vergonha

Que país é este, que ao fim de sete anos ainda não fez um público e inequívoco mea culpa quanto às vítimas de Entre-os-Rios?
Que ao fim de sete anos ainda não indemnizou (e seria sempre apenas simbólico) as famílias, como se estas estivessem a pedir alguma coisa a que não têm direito, depois de uma tragédia de que não tiveram a menor culpa e lhes alterou a vida para sempre?
Que ao fim de sete anos se sujeita, sem vergonha à vista, a esta bofetada de luva branca, dada com toda a categoria por essa gente desiludida por tanta injustiça e tanta falta de dignidade?
Parece que só Camões os entende e justifica:
...
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!
Nota: Junto-me, assim, ao protesto do RAA, no Abencerragem.
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Maria Gabriela Llansol 1931-2008


De mim, direi que fui uma vez enviado, trouxeste a frase que nunca antes leras, o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita.


(Maria Gabriela Llansol - Lisboaleipzig 2)

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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Uma Utopia possível

Passam hoje 60 anos sobre a morte de uma das mais fascinantes e ímpares personagens da história da Humanidade. A última urna conhecida contendo as cinzas de Gandhi foi hoje lançada ao mar, simbolicamente, em frente a Bombaim.
Fazem falta, cada vez mais, homens como ele. Mas estou a pedir muito: se aparecesse só um, e só levemente parecido com o Mahatma, já estaríamos com muita sorte.
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Yesterday


Em homenagem a um tempo em que tudo era tão saboroso como uma maçã acabada de colher.


(Eva Cassidy - Yesterday)


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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Saudades de Lisboa


ALFAMA
Alfama de cacos pintados de tintas e trocas e ventos no rio de pontos picantes e pontas de faca e alpaca de Alfama com alma de alfafa e gente de fama que cai na galhofa do pátio da esquina da feira da ladra de cacos picantes e contas correntes de tretas e pintas de gente com laca nas pontas da fama e ventos de faca que cortam Alfama de portas pintadas com a fama do fado.

(Nuno Rebelo - in Mler If Dada, Coisas que Fascinam)
Nota: Roubado ao RAA, no Abencerragem.
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Cinema no Estoril


O realizador Pedro Almodôvar foi muito justamente homenageado no novíssimo festival de cinema do Estoril.
Sei que estou a repetir-me, mas acho que quem inventa e dá vida a uma história como Hable con ella merece todas as honrarias. Não estou a esquecer os seus outros filmes: foram muitos e bons, num conjunto invulgar de qualidade e densidade dramática. Mas este, em particular, é uma obra prima. Não só de Almodôvar, não só do cinema espanhol, mas da História do Cinema.
Digo eu, e tenho a certeza de que não sou a única.
Nota: A beijoca na bochecha do Pedrito é minha. Pus baton encarnado de propósito para o efeito...
Adenda: Cito aqui uma notícia do Nuno Lopes, da Lusa, relativa a este tema. Diz ele:
"Lisboa, 09 Nov (Lusa) - Pedro Almodóvar afirmou hoje, no Estoril, que se alguma vez filmar fora de Espanha, será em Portugal, pois sente-se fascinado pela língua e cultura portuguesas. O realizador falava num encontro com público no Teatro-Auditório do Casino Estoril no âmbito do European Film Festival, inaugurado quinta-feira. O cineasta afirmou que se sente "estimulado" a criar em Madrid, até porque nos seus arredores estão os seus amigos artistas, mas confessou que tem vontade de rodar em Portugal.
"Gosto da música portuguesa, da sonoridade da língua, da cultura e da vossa maneira de estar", declarou. "Sinto que somos próximos, mas não irmãos gémeos", acrescentou. O realizador usou de sentido de humor para quebrar a timidez da audiência que hoje, ao final da tarde, se reuniu no Estoril para o questionar sobre a sua filmografia. Estudantes de cinema, público que se tornou fã incondicional dos seus filmes e alguns curiosos encheram o auditório do Casino Estoril para perguntar qual o filme de que mais gostava, a personagem favorita ou onde encontrava inspiração. Quanto à inspiração "é tudo", respondeu o realizador sem hesitar, e prosseguiu: "ela não surge como uma revelação, estou a tomar café e as notícias do 'Telediario' despertam-me histórias, assim aconteceu com o filme 'Saltos altos'".
Quanto aos filmes favoritos afirmou sentir-se "mais próximo" dos que rodou de 2000 até hoje. "A postura é a mesma, escrevo e faço-o com paixão, desfruto e sofro muito, mas a paleta de cores muda", disse. "Mas identifico-me com todos, os primeiros em que era mais jovem e os mais recentes, em que estou na meia-idade", disse Almodôvar suscitando um gargalhada na sala. Quanto a personagens, referiu o enfermeiro Benigno de "Fale com ela", que vive num mundo paralelo ao mundo real. Outra questão colocada pela sala foi a importância da música nos seus filmes. O cineasta afirmou que ela "é orgânica, pois faz parte do guião. Um elemento essencial, não truculento na medida em que não provoca sentimentos, mas explica as personagens. É um elemento activo no guião", disse. Quanto à música confessou-se um admirador de Rodrigo Leão e, em tom humorístico, afirmou que se os portugueses contratassem um comando para matar o seu director musical, Alberto Iglesias, escolheria o músico português. O realizador afirmou-se "fascinado" pela música portuguesa, realçando não só Rodrigo Leão como Bernardo Sassetti e "a descoberta" que foi Camané. Estes músicos integraram quinta-feira à noite o programa da gala de abertura do European Film Festival, a decorrer até 17 de Novembro no Estoril, e no âmbito do qual se realizou este encontro com o público. Camané foi a "descoberta do fado no masculino", disse o realizador, um fã confesso de Amália Rodrigues. "O fado muda cantado por um homem", sublinhou.
A sala questionou ainda o cineasta sobre o seu universo feminino e projectos futuros. A explicação para a forma como aborda o universo feminino foi buscá-la à sua infância "rodeado de mulheres". Ouvia-lhes as histórias, os comentários, estava rodeado delas: mãe, tias, primas, irmãs e vizinhas. "Quem nunca ficou à guarda de uma vizinha? - questionou o cineasta - na minha terra os homens iam trabalhar e nós ficávamos com as mulheres". Um universo de "mulheres fortes, do pós-guerra e a quem muito devemos", rematou.
Quanto a projectos futuros há "La piel que habito" que deverá começar a rodar dentro de um ano e um outro de que não quis revelar o título. Almodóvar explicou que "hoje em dia, num mundo complicado de direitos de autor, não vou adiantar o nome". O realizador explicou esta sua posição "pois assim que revelámos o título de 'Volver' [o seu mais recente filme] alguém se registou na Internet e ainda hoje se anda em demandas". A conversa foi pautada por gargalhadas, muitos elogios da assistência ao realizador e pedidos de desculpa por "falar em portuñol". Um dos elogios foi do ex-primeiro-ministro e ex-ministro dos Negócios Estarngeiros da França, Dominique de Villepin, que participa também neste primeiro Festival, no âmbito do qual profere no domingo uma conferência sobre "A política, a Cultura e os Artistas".
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publicado por Ana Vidal às 00:39
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Sempre Amado


A Jorge Amado

Na biblioteca do meu pai
em lugar de destaque, bem à mão
estão os mágicos livros
(num eterno entra e sai)
de um Jorge sempre Amado, sempre lido
em cada geração
e estranhamente nunca proibido,
nem nos tempos da grande agitação
de quatro menininhas a crescer...
(e como então gostávamos de os ler!)

Com um mar,
com um mundo de permeio
entre a pacata vila à beira Tejo
e esse imenso Brasil agreste e doce
viveu connosco sempre Jorge Amado
comeu, dormiu connosco, passeou-se
por mesas de madeira e azulejo
e camas vestidas de bordados
como se um de nós fosse...
Fez-nos chorar e rir, em devaneio
sonhar, pisar areias sem idade
sentir os cheiros da sua cidade
embriagar de cores, de sensações
entre coronéis e "negas" dos sertões
e navegar a bordo de paixões
sem sombra de pecado.
Por tudo isto, querido e velho amigo
é com toda a ternura que te digo:
Em nome de nós todos, obrigado!
publicado por Ana Vidal às 19:19
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Grande Hermínia


Também Hermínia Silva faria hoje 100 anos, se fosse viva. Dizer que Hermínia era única é cair num lugar comum. Mas a verdade é que nunca ninguém tentou imitá-la, ou sequer aproximar-se do seu estilo.
Tinha uma capacidade inultrapassável de improviso. Os seus grandes êxitos “Marinheiro”, “Reza-te a sina”, “Rosa enjeitada”, “Fado das iscas” e “Tendinha”, eram cantados sempre de maneira diferente.
Mas Hermínia Silva não foi só uma fadista ímpar: também fez teatro e cinema, onde contracenou com grandes nomes da sua época. Ficou célebre a sua frase "Anda, Pacheco!"
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publicado por Ana Vidal às 21:18
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90 anos de cor



Mestre Júlio Resende faz hoje 90 anos. A comemorar a data, uma exposição antológica da sua obra, na cidade onde nasceu e aprendeu primeiro o seu métier: o Porto. No antigo edifício da Alfândega do Porto, um bonito espaço recuperado e muito bem aproveitado hoje em dia, 200 obras representativas da arte do pintor poderão ser visitadas e apreciadas por todos.
Nota: Aqui, um dos painéis de azulejos da estação de Metropolitano do Jardim Zoológico e um pastel de Júlio Resende.
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Domingo, 14 de Outubro de 2007

Paulo Autran

Só hoje soube da morte de Paulo Autran (07.09.1922 - 12.10.2007). O desaparecimento de um grande actor deixa sempre o mundo mais pequeno. Aqui, como diseur de excelência, que era também.



Poema de Carlos Drummond de Andrade, recitado por Paulo Autran na rádio Band News FM, no dia 29/11/2006 (encontrado no Sem-se-Ver).

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Sábado, 13 de Outubro de 2007

Parabéns, dos sinceros


Faz hoje 66 anos. Chama-se Paul Simon e não precisa de apresentações.
Tem-nos dado, ao longo de quase toda a sua vida, muitos e inestimáveis presentes: as suas composições, transformadas em maravilhosas canções interpretadas a solo ou em dueto com Art Garfunkle, de quem foi inseparável durante uma boa parte da carreira.
Aqui fica uma das minhas preferidas - Bridge over troubled water - que fala de amigos, e de como eles são fundamentais na nossa vida. Sobretudo quando os tempos são de águas turbulentas. Ofereço-a aos meus, amigos e abrigos preciosos. Com um muito obrigada por fazerem da minha vida uma travessia tão mais fácil e empolgante. Tal como a música, aliás.

Nota: E um obrigada especial a um desses amigos, o CM, pelo lembrete desta data.
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Descubra as diferenças II


Doris Lessing, a octogenária que acabou de ser agraciada com o Nobel da Literatura, foi apanhada de surpresa por jornalistas ao sair do supermercado, no bairro londrino onde vive. De sacos na mão, afogueada e com o carrapito meio desmanchado, disse a um deles, divertida: "Eu achei estranho, realmente, tantos repórteres por aqui... mas, como neste bairro se filmam muitas novelas (soap operas), pensei que estavam cá por causa disso. O que não me passou pela cabeça é que era por mim!"
Comoveu-me a total ausência de vaidade, a bonomia, a sábia relativização das coisas deste mundo. E lembrei-me, inevitavelmente, de outro laureado a quem os louros subiram, literalmente, à cabeça. Adivinhem quem.
publicado por Ana Vidal às 15:13
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

As feridas de Frida


As feridas de Frida Khalo foram muitas, e quase todas tiveram nome de mulher.

Diego Rivera, o homem a quem ela chamava carinhosamente de "panzón" por causa do volume da sua barriga, tinha, além disso, idade para ser seu pai e era "feo como un cerdo", nas palavras de uma amiga de Frida.
Pelo seu lado, Frida era uma mulher-menina, fisicamente frágil (quanto a força interior, a conversa é outra) e doente, um vidrinho colorido e exótico que Diego gostava de exibir.

Porém, nada disso impediu que se tivessem amado loucamente e que esse amor, aparentemente tão desequilibrado, se tenha já tornado lendário. É claro que, visto à distância e a frio, tudo parece mais romântico. A verdade é que Frida sofreu muito, também, por causa desse amor. E, se acabou por transformar-se numa excêntrica para a sociedade mexicana ao liberalizar, também ela, as suas relações amorosas, foi porque nunca conseguiu que Diego correspondesse ao modelo que ela queria para a sua vida afectiva. Foi ele o seu mentor no mundo da arte, mas foi também ele que moldou nela a provocação e a révanche, que a perverteu e obrigou a reagir assim, como uma fera ferida que mostra as garras para se defender e acaba atacando também.
Diego Rivera era um homem torturado e conflituoso, dado a excessos e, sobretudo, muitíssimo mulherengo. Como artista plástico era um ícone já na sua época, aclamado e respeitado internacionalmente, o que acrescentava uma aura de mito ao charme rude que o caracterizava. Essa combinação produzia um efeito mágico no universo feminino e anulava totalmente o seu desastrado aspecto exterior. Dizia-se dele, não com certeza sem um certo exagero, que era magnético. O rol de mulheres que lhe caíu aos pés - antes, durante e depois do casamento com Frida - foi quase infindável, e essa fama era um rastilho poderoso que incendiava as novas candidatas.
Para além das insuportáveis dores físicas que a fatalidade lhe causou* (provocando-lhe ainda a impossibilidade de ser mãe, como dano colateral), Ferida sofreu incontáveis humilhações com as infidelidades de Diego, as quais, aliás, culminaram na mais dolorosa de todas: um caso com a sua própria irmã, dentro de portas. Esse drama quase a levou ao suicídio, e fez com que cortasse o cabelo (uma das suas imagens de marca, em penteados elaborados), se desfizesse de todos os enfeites e até que se vestisse de homem, matando impiedosamente toda a sua feminilidade e exuberância transbordantes.
Mas Frida era também uma artista: exorcizou todas as dores na pintura, deixando para a posteridade, nos seus quadros, um retrato arrepiante do seu sofrimento. E também da sua coragem.
Aqui fica a minha homenagem a essa grande mulher, que morreu mais ou menos com a idade que eu tenho agora. Admiro, nela, a obra e a vida, ambas de uma originalidade espantosa. Aqui, também, alguns dos seus quadros, testemunhos bem mais elucidativos do que quaisquer palavras.
Acrescento, à minha, outra homenagem: a de Pedro Guerra (cantautor pouco conhecido aqui no burgo), que escreveu em honra de Frida Khalo a canção "El Elefante y la Paloma" - letra e música de sua autoria - cuja letra, baseada num texto da própria Frida, aqui transcrevo:
EL ELEFANTE Y LA PALOMA

A Frida le duelen los huesos
y mirándose al espejo
pinta todo su dolor
A Frida le duele la vida
y apriendendo de su herida
llena todo de color

Diego mi Diego, Diego mi amor
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...

Frida miró al Elefante
y empezó a desdibujarse
pero nada le importó
Diego miró a la Paloma
y la amó entre tantas cosas
entre el lienzo y la pasión


Diego mi niño, Diego pintor
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...


Frida descansa en el lecho
y se pinta hasta en el pecho
con tal de sobrevivir

Diego mi amigo, Diego = Yo
por qué pienso que eres mio
si eres solo tuyo, Diego
si eres solo tuyo, Diego...

*Vítima de poliomielite infantil, aos 6 anos, ficou com a perna direita defeituosa, mais delgada e curta que a perna esquerda; aliás, essa perna acabaria por ser amputada. Aos 18 anos, foi vítima de um acidente brutal: o autocarro onde viajava foi abalroado por um eléctrico. Frida foi trespassada por um varão metálico, sofrendo danos irreversíveis na coluna vertebral. Em inúmeros dos seus quadros se podem ver os rígidos aparelhos ortopédicos que usou para sustentar a coluna partida, que eram autênticos instrumentos de tortura.

Adendas:
1. Uma bela sugestão da Ana L. Costa, este video de Chavela Vargas, cantando Llorona, com imagens do filme Frida (com Salma Hayek):

2. E também uma entrevista com Lila Downs (cuja semelhança física com Frida é impressionante), que canta várias canções populares no filme. Entre elas, o picante tango que ajudou a torná-lo famoso.

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publicado por Ana Vidal às 21:56
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Domingo, 23 de Setembro de 2007

Silêncio eterno


Morreu Marcel Marceau, o grande mimo francês.
O seu ídolo era Charlot, de quem bebeu os silêncios que diziam tudo.
Palavras, para quê?
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publicado por Ana Vidal às 20:26
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Sábado, 22 de Setembro de 2007

Bem vindo, Outono


Com um dia de atraso, uma homenagem à minha estação do ano preferida: o Outono. Aqui, entregue nas mãos virtuosas de Nigel Kennedy.
Vi-o (e ouvi-o!) há cerca de 1o anos, no auditório da Gulbenkian, tocando igualmente Vivaldi e também Brahms, se não me falha a memória. Achei-o genial. Nessa altura era um violinista rebelde e fora do baralho clássico, na maneira de vestir em palco: uns jeans coçados e uma t-shirt desportiva, cultivando um ar blasé que contrastava com o aprumo impecável dos outros músicos. Mas não só: nos seus concertos era colocado um quadrado de feltro grosso e felpudo, para abafar o som dos pés que batiam com força no chão enquanto tocava, às vezes até dando saltos. Era um espectáculo invulgar, mas o som que lhe saía das mãos fazia esquecer completamente o insólito da cavalgada. Nigel estava muito ligado à chamada música ligeira, e já tinha gravado com os grandes nomes da Pop inglesa.
Não sei de quando é esta gravação, mas vejo-o aqui muito compostinho. Da imagem que eu tinha dele já só resta o penteado. E o enorme talento, claro.
Adenda: Parece que afinal não me atrasei. Um atento guardião das datas diz-me que o Outono começa oficialmente no dia 23 de Setembro. Sendo assim, adiantei-me 3 horas. Difícil, mesmo, é acertar no dia certo!
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publicado por Ana Vidal às 21:09
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

The bright side of death

Hoje é um dia triste: despediu-se da blogosfera um dos mais inteligentes, certeiros e divertidos blogs que por cá andavam. O BLOG DA SABEDORIA, do meu amigo JG. Com muita pena minha, mesmo muita pena, presto-lhe aqui a minha última e sentida homenagem. Mas tenho a obrigação de fazê-lo em grande estilo, porque ele não merece menos do que este epitáfio:

Cá fico à espera da reencarnação, JG. A falta que me vais fazer, até lá!...

Nota: O JG continua a brindar-nos com os fantásticos "O século Prodigioso" (o veterano) e "Light my life" (o neófito), blogs de consulta obrigatória para quem aprecia o bom gosto e as artes plásticas. E há mais: "O rosto da cidade" (fotografias de Lisboa) e "Horas dispersas" (publicidade), igualmente bons mas parcos em actualizações. O que se compreende...

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publicado por Ana Vidal às 23:04
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Quero lá saber!


Porque será que temos sempre que ser mesquinhos quando se trata de reconhecer os nossos talentos, apoucando-os com ninharias "ao lado", que não têm nada a ver com o que está em causa?
Falo de Aquilino Ribeiro, claro. E da sua mudança para o Panteão Nacional, aonde pertence por mérito próprio e incontestável. Aquilino foi um escritor e um pensador de importância inquestionável para a nossa cultura, e a sua obra tem um valor que transcende absolutamente as questões ideológicas.
Quero lá saber se conspirou ou não contra o regime, se era de esquerda ou de direita, se vestia fatos azuis ou pretos, se gostava de ovos quentes ou de torradas ao pequeno-almoço! É um nome Grande das LETRAS portuguesas, caramba! Quem é que se atreve a negar esta afirmação? Mal "acomparado", é como dizer que a voz do Frank Sinatra não valia nada só porque ele pertencia à Máfia...
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publicado por Ana Vidal às 19:03
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Memória


Foi há 6 anos. O mundo mudou nesse dia, e nunca mais o Ocidente se julgou a salvo. É bom que não esqueçamos. É bom que não pensemos nunca mais que estas coisas só acontecem aos outros, lá onde estes cenários nos pareciam tão naturais como se assistíssemos a um filme.
Pinturas de Helga-Krakolinig, sob o título "Nine Eleven"
publicado por Ana Vidal às 22:48
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Sábado, 8 de Setembro de 2007

E.un.genio Salvador Dali

Dali se desdibuja

tirita su burbuja al descontar latidos

Dali se decolora

porque esta lavadora no distingue tejidos

el se da cuenta y asustado se lamenta

los genios no deben morir

son mas de ochenta los que curvan tu osamenta

"Eungenio" Salvador Dali.

Bigote rocococo

de donde acaba el genio a donde empieza el loco

mirada deslumbrada

de donde acaba el loco a donde empieza el nada

en tu cabeza se comprime la belleza

como si fuese una olla expres

y es el vapor que va saliendo por la testa

magica luz en Cadaqués.

Si te reencarnas en cosa

hazlo en lapiz o en pincel

y Gala de piel sedosa

que lo haga en lienzo o en papel

si te reencarnas en carne

vuelve a reencarnarte en ti

que andamos justos de genios

"Eungenio" Salvador Dali.

Realista y surrealista

con luz de impresionista y trazo impresionante

delirio colorista

colirio y oculista de ojos delirantes

en tu paleta mezclas misticos ascetas

con baionetas y con tetas

y en tu cerebro Gala Dios y las pesetas

buen catalan anacoreta.

Si te reencarnas en cosa

hazlo en lapiz o en pincel

Y Gala de piel sedosa

que lo haga en lienzo o en papel

si te reencarnas en carne

vuelve a reencarnarte en ti

que andamos justos de genios

queremos que estes aqui

"Eungenio" Salvador Dali.

Nota: Esta canção - E.un.genio Salvador Dali - do grupo espanhol Mecano, é uma bonita homenagem a um pintor que é uma das minhas paixões. Reparem na letra, um poema belo e certeiro. Os Mecano têm outras músicas dedicadas a pintores célebres, que hei-de trazer também a este espaço.

publicado por Ana Vidal às 16:28
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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Nobre linhagem


A Folha Online (Brasil) tem uma interessante colecção que consiste numa série de pequenos livros que abrangem as mais diversas áreas do conhecimento, distribuídas por 73 temas que vão da filosofia à música, da literatura à gastronomia, da moda às novas tecnologias, e por aí fora. Cada um aborda, de forma resumida e em linguagem acessível, o que de mais importante se sabe hoje sobre cada um desses assuntos. A colecção tem o nome de "Folha Explica" e é um útil instrumento de consulta e de pesquisa.
Saliento, a título de exemplo e na secção de Literatura, o volume dedicado ao escritor Graciliano Ramos, sob a responsabilidade de Wander Melo Miranda (professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais e supervisor do projecto de reedição da obra completa do autor). O primeiro capítulo pode ser lido na página de apresentação do livro, aqui.
Dono de um estilo contundente e directo, Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores da literatura brasileira. O escritor reafirma de modo inconfundível em toda a sua obra, cujo interesse estético é inseparável do comprometimento ético, o vínculo entre a literatura e a vida. A leitura dos seus livros recomenda-se a todos os que têm interesse em entender o Brasil e a sua história.
Nota: Para além do seu inquestionável valor, a minha escolha de Graciliano Ramos como exemplo desta colecção não foi completamente inocente. É que o seu neto Ricardo Ramos Filho, o mais recente herdeiro de uma linhagem não interrompida de escritores, é o bloguista Lord Broken-Pottery, meu amigo e habitual comentador da Porta do Vento. Aqui fica a homenagem merecida, milord!
publicado por Ana Vidal às 16:17
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O crepúsculo de um deus


Luciano Pavarotti está entre a vida e a morte.
Lembro-de bem da profunda impressão que me causou quando o vi (e sobretudo ouvi) cantar ao vivo, a menos de dez metros de mim, ainda em pleno esplendor da sua poderosíssima voz.
Gostei sempre mais da doçura e maleabilidade da voz de Plácido Domingo, por contraponto à imensa força da natureza que era a de Pavarotti. Muito abaixo dos dois, na minha opinião, ficou sempre José Carreras (não fosse a tocante e exemplar história de saúde, uma lição de preserverança e de estoicismo, e não lhe reconheceria o direito a um lugar entre "os três tenores"). Mas tenho que admitir que Pavarotti, não sendo o meu preferido, era absolutamente arrasador em palco. Abria a boca e saía - aparentemente sem o menor esforço - um vozeirão magnífico, seguro e cheio, que enchia cada recanto da sala e fazia arrepiar de espanto quem o ouvia.
Teve ainda um outro enorme mérito: o de ter sido o primeiro a abrir as portas do canto lírico, habitualmente reservado a um público reduzido e exigente, às chamadas "massas". Por causa das suas parcerias com variadíssimos músicos de outros géneros musicais - pop e rock, sobretudo - o universo operático deixou de ser um "papão" inacessível para muita gente. Ficam para a história os concertos Pavarotti and Friends, a favor de causas humanitárias para as quais arrecadou muito dinheiro e chamou as atenções do mundo.
Por tudo isto assisto com tristeza, nestes dias, ao crepúsculo de um deus.

Adenda: O desfecho era previsível. Pavarotti morreu hoje de manhã (6 de Setembro), aos 71 anos. A música perde uma das suas grandes figuras, em todos os sentidos.

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publicado por Ana Vidal às 02:15
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Domingo, 2 de Setembro de 2007

Dúvida


"As revelações sobre a longa e profunda crise de fé que, contra todas as aparências, viveu Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá, não podem deixar-nos indiferentes.
A partir da correspondência mantida ao longo de 66 anos com os seus confessores e superiores, que o livro Mother Teresa: Come Be My Light põe agora à nossa disposição, é todo um percurso de dúvida que o acto de entrega ao tormento dos outros e às missões que lhe foram destinadas pela sua Igreja jamais foram capazes de resolver por inteiro. São ali recorrentes as referências a sentimentos de «secura», de «escuridão», de «solidão» e de «tortura», que, no constante convívio com o Inferno que foi quase sempre a sua vida, a levaram a duvidar da existência do Céu e até do próprio Deus. «O sorriso», o seu sorriso, escreveu Agnes, o sorriso que sempre lhe associamos, «é uma máscara» ou mesmo «um manto que cobre tudo». E este não parece tratar-se de um trajecto de ascensão espiritual rumo ao absoluto da fé, como o de Santo Agostinho (dizia ele, sabemos lá nós), mas exactamente o seu inverso: um olhar permanente, e inevitavelmente amargurado, sobre uma dúvida que não cessa e colide com o próprio sentimento de dever. O que não pode deixar de nos oferecer um olhar bem mais humano sobre a vida difícil desta albanesa pequenina, missionária, e, sabemo-lo agora, sempre sofrida e inquieta. Santidade é isto, é duvidar, é crer e descrer, não a entrega cega, segura e néscia seja a que fé ou a que causa for."
E eu acrescento: Santidade é, sobretudo, não ceder às dúvidas nem usá-las como alibi para a desistência. Seguir sempre em frente, mesmo não crendo sempre. A santidade lúcida deve ser o mais difícil de todos os caminhos. E também o mais admirável.
Foi Madre Teresa quem disse esta frase desarmante: "Não posso dar-me ao luxo da política. Numa ocasião, fiquei cinco minutos a escutar um político e morreu-me um velhinho em Calcutá".
Texto (em cima, a itálico) encontrado n' A Terceira Noite, de Rui Bebiano. As citações são retiradas de um artigo da Time que a revista Visão traduziu e publicou.
publicado por Ana Vidal às 19:21
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Sábado, 25 de Agosto de 2007

Prado Coelho


Eduardo Prado Coelho partiu hoje para o seu Reino Flutuante.
Cedo de mais, porque é sempre cedo de mais quando se tem 63 anos.
Vai fazer-nos falta Tudo o que não escreveu.
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publicado por Ana Vidal às 16:13
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Domingo, 12 de Agosto de 2007

Há dias assim


Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida, toda ela, para que não nos esqueçamos de nenhuma das suas etapas. Que começam com uma aurora magnífica, uma verdadeira explosão de vida, e acabam num suicídio colectivo de estrelas desesperadas, como anjos caídos em desgraça. Pelo meio, uma tarde em que a morte nos reclama, lembrando-nos de que até os nossos sonhos lhe pertencem. Que só os temos de empréstimo. A prazo. Há dias assim. Em que até a terra treme e se revolta sob os nossos pés. Em que nada, nem ninguém, pode preencher os interstícios da nossa solidão. Em que um allegro matinal sucumbe sem remédio a um adagio vespertino, que antecipa já, por sua vez, um inevitável requiem nocturno. Há dias assim. Feitos de espanto e de torpor. De glória e de derrota. De risos e de lágrimas. Da luz mais alta e das mais fundas sombras. De caminhos inesperados, improváveis. Impossíveis de percorrer. De um céu aberto por um sol resplandecente e fechado por uma lua nova, embuçada em brumas. Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida.
"Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha."
(Miguel Torga - Ode ao Mar)
publicado por Ana Vidal às 20:23
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Não se medem aos palmos

Dustin Hoffman, um dos meus actores de culto (infelizmente muito desaparecido dos ecrans, ultimamente), faz hoje 70 anos. Aqui ficam dois bons momentos, à laia de parabéns: no filme The Graduate, que o lançou e acabou por transformar-se também num "filme de culto"; e numa entrevista recente.
Este homem baixote e não muito bonito tem ainda uma classe e um charme de arrasar. Digo eu.



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publicado por Ana Vidal às 15:17
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