Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Explicação (2)

 

Nestes dias de total ausência de inspiração para a escrita, somada a uma espécie de overdose de blogosfera, tenho-me lembrado de uma frase genial de Shoppenhauer:

 

Quando não tenho nada que me angustie,

é isso mesmo que me angustia.

 

Não leiam nestas palavras, ou na minha ausência, dramas existenciais ou tragédias de qualquer espécie. Nada disso se passa, é apenas uma preguiça estranha para este mundo que tanto me diverte habitualmente. Já me aconteceu de outras vezes, mas as pausas que anunciei não tiveram grande cumprimento, na verdade. Vou passando sempre por aqui, embora vá fazendo batotas na postagem e me apeteça mais saltitar pelas caixas de comentários alheias do que cumprir "o santo post de cada dia". Não gosto de encher chouriços quando não tenho nada para dizer.

 

Obrigada pelos vossos comentários de incentivo e pelas palavras simpáticas. Não se preocupem, está tudo bem comigo e isto é só uma fase. Afinal, eu acabo sempre por voltar, não é?

 

 

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publicado por Ana Vidal às 23:06
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Explicação

 

Querem saber porque não tenho escrito ultimamente?

Aqui está a resposta. Ainda tenho algum sentido de auto-crítica, felizmente.

Quem sabe se a inspiração volta, um dia destes? Ou a falta do tal sentido de auto-crítica, o que vai dar no mesmo...

 

(Nota: roubei a imagem à Mad)

 

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publicado por Ana Vidal às 12:08
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

De volta

 

A tudo nos habituamos, da mesma forma que tudo estranhamos se alguma coisa se altera, depois de instalado o hábito. Estive vários dias sem net e aconteceu-me o mesmo que de outras vezes em que fiquei privada de outros "bens essenciais"  da nossa era tecnológica (telefone, carro, micro-ondas, televisão, electricidade): uma sensação de desamparo e isolamento, primeiro, e depois, finalmente, a adaptação à nova situação e o consequente serenar. Com a segunda fase vem sempre um pico de imaginação, estimulada pela privação das facilidades habituais e obrigada a criar soluções alternativas. E mais: vem  também uma espécie de alívio inexplicável, paralelo à sensação de incomodidade, como se a resposta estivesse em nós e não nos acessórios. E está, sempre. Basta que não deixemos que sejam eles a controlar-nos, basta que lhes demonstremos que estávamos cá primeiro e que já soubemos viver sem eles. Que fomos nós a criá-los, e não o contrário.

 

Recém-casada (com 21 anos !), fui viver para um antigo convento lindíssimo, mesmo em cima da barragem do Maranhão. Um sítio deslumbrante, uma casa de fazer inveja a qualquer um (à beleza somava-se o mistério e a aventura, porque metade do convento estava em ruínas e apenas a outra metade era habitável) mas também um tédio difícil de engolir para uma urbana activa como eu, habituada à capital e com o firme propósito de iniciar uma carreira profissional. A vida altera-nos os planos sem cerimónias, e tudo me saíu ao contrário: não havia nada para fazer ali, a não ser admirar a paisagem, comer e beber.  Ou haveria? Claro que havia.

 

Inventei ocupações, para não entrar em depressão: primeiro, atirei-me à casa, que decorei e modifiquei até nada mais ter para alterar. Arranjei quartos e casas de banho (os duches ainda eram daqueles de balde de zinco e corrente para puxar e deixar sair a água); comprei um frigorífico a petróleo (não havia electricidade, a não ser a de um gerador que se desligava às dez da noite) e um fogão novo; do magnífico celeiro abobadado, de chão de laje e paredes de 1,5 m de espessura, fiz uma sala a perder de vista; da antiga cozinha, enorme, uma sala de jantar. Enquanto duraram as obras da nova cozinha aprendi a cozinhar na lareira, com trempes de ferro e tachos de cobre e de barro, colocados directamente sobre as brasas. Aprendi também a usar o forno de lenha, a fazer queijo fresco com cardo apanhado no campo e, mais importante do que tudo isso, a conhecer e usar as mil ervas com que os alentejanos aromatizam os seus cozinhados. Por outro lado, nunca li tanto como nesses dias em que as horas se multiplicavam e o tempo parecia suspenso. Ensinei crianças e adultos a ler, com um prazer que não me lembro de ter tido em muitas outras ocupações.

 

Foi uma época preciosa, de aprendizagem de uma vida reduzida à sua expressão mais simples, mas que me deixou a íntima e reconfortante certeza de saber sobreviver à ausência de tudo o que considero hoje elementar, caso isso venha a acontecer-me.

 

Tudo isto para dizer que estes dias sem net - logo, sem a blogosfera, que já se tornou um hábito arreigado em mim - foram penosos, é verdade, mas também funcionaram como uma espécie de férias, embora forçadas. E agora que estou de regresso, ainda às voltas com a  constatação da impossibilidade de actualização do que se passou na minha ausência (a voragem deste universo é impressionante), sinto um misto de vontade e de preguiça em retomar o ritmo que tinha. Desabituei-me depressa de postar, a verdade é essa, e soube-me bem não sentir essa "obrigação".

 

Enfim, estou de volta, mas a meio-gás. Veremos.

 

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publicado por Ana Vidal às 01:26
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Jardim encantado

Depois de dez anos em obras (!!!), abriu ontem ao público, finalmente, um dos reinos encantados da minha infância: o Jardim da Preta. Fica no Palácio Nacional de Sintra (o "Palácio da Vila") e merece uma visita. Está aberto entre as 10:00 e as 17:00 horas, todos os dias, e é gratuito para os residentes no concelho. É uma boa sugestão para uma tarde de domingo soalheira, como as que temos tido neste Outono glorioso.

 

 

 

 

(Nota: Agradeço a informação ao senhor Adriano Filipe, que, sem me conhecer, simpaticamente ma enviou por e-mail, provavelmente por ter lido o meu post antigo aqui na Porta do Vento).

 

publicado por Ana Vidal às 11:07
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Abrigo

 

A casa respira.

Aqui se pariu…

 

A casa conspira.

Aqui se sonhou…

 

A casa transpira.

Aqui se amou…

 

A casa suspira.

Aqui se morreu…

 

 

(Imagem: O Império da luz - René Magritte)

 

publicado por Ana Vidal às 00:29
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Domingo, 19 de Outubro de 2008

Lugar


 

Há uma rosa no solitário da janela, champagne nos copos, Vivaldi no ar. Eu leio-te o desejo nos olhos, tu lês-me Borges depois do amor. O lugar, que importa? Pode ser uma mansarda em Montmartre, uma villa em Scirmione, uma caverna em Matmata, uma cubata no Quénia ou um mosteiro suspenso nos Himalaias. Ou pode ser um quarto em Lisboa, com o mundo  inteiro aos pés. O lugar somos nós, onde quer que estejamos.

 

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publicado por Ana Vidal às 14:52
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

100 nada

 

Estou...

 

100 tempo.

100 imaginação.

100 graça.

 

100 promessa de volta rápida, portanto. Será que esperam por mim?

 

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publicado por Ana Vidal às 18:40
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

A brincar, a brincar...


 

 

... e mesmo sem falar de GAJAS NUAS, de FUTEBOL ou das tatuagens da ANA MALHOA, este blogue chegou às 80.000 visitas!

 

Parece-me irreal, confesso. A todos esses amigos, um por um, me sinto grata. Este ano e meio foi melhor do que alguma vez pensei.  

 

 

publicado por Ana Vidal às 01:29
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Domingo, 28 de Setembro de 2008

Percurso

 

Da Praça do Império à Praça da Alegria.

Da pompa à circunstância.

Da formalidade à surpresa.

 

O percurso da inevitabilidade?

 

 

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publicado por Ana Vidal às 10:28
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Sábado, 13 de Setembro de 2008

Pacto

 

 

 

Estabeleci, com o tempo, um pacto de não-agressão com a sociedade em que vivo: eu não a envergonho, ela não me domina. Digo “a sociedade em que vivo” e não “a sociedade a que pertenço” porque, para ser rigorosamente honesta, não tenho a certeza absoluta de pertencer-lhe. Mas tolero-a, desde que ela me tolere também nas suas fileiras. É assim como se me tivesse inscrito numa viagem organizada, que me poupa o trabalho penoso da papelada, bagagens, marcação de hotel e bilhetes de avião, ficando eu com todo o tempo para ver a paisagem porque me livraram dessas preocupações menores. O preço? Trocar uma aventura solitária, muito mais apaixonante, por uma excursão em que tenho de respeitar também as vontades e gostos dos outros. Não sei se compensa, às vezes. Mas, feito o balanço, acho que não me tenho dado mal.

 

Pode até parecer sabedoria, mas não é. Há nesta atitude mais preguiça do que estratégia, mais rendição do que exigência, mais indiferença do que brio. É apenas um truque, um cómodo subterfúgio para que o meu individualismo seja preservado, malgré tout, como se fosse o bem mais precioso do mundo. E não é, eu sei que não é, nem sequer para mim. A minha inescapável lucidez – não necessariamente feita de inteligência, mas sobretudo de intuição - diz-me que há muito pouco altruísmo nesta renúncia à luta pelos ideais em que creio, em que ainda creio.

 

A verdade é que acabei por acertar com a vida uma espécie de live and let live, ou talvez, melhor ainda, leave and let live, já que me retiro voluntária e placidamente do palco colectivo onde se passa tudo o que me incomoda, mas que não tenho já pretensões de modificar. Mas não é, definitivamente, um live and let die. Quando muito, e não me orgulho da ponta de cinismo que a máxima possa conter, será um leave and let lie. Já lutei, de espada em riste, por tudo e por nada. Agora acomodei-me. Que venham novas Joanas d’Arc para estes novos tempos em que as Causas são confusas e esparsas, que eu já fiz a minha parte. Agora, o que quero é sossego. Não sou incómoda, prometo. Mas que ninguém se atreva a pedir-me a minha liberdade interior. Essa não está - e nunca estará - na mesa de negociações.

 

publicado por Ana Vidal às 23:09
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Conto ou não conto?

 

Conto. Eu até nem sou muito vaidosa... mas se alguém compara os meus contos aos de O. Henry, o mestre dos "clever twist endings", como querem que eu fique?

 

Uma pobre contista não é de ferro, ora...

 

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publicado por Ana Vidal às 00:24
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Luxo

 

Haverá poucas coisas que dêm tanto prazer como uma boa conversa com alguém que nos entende, alguém que entendemos. Com alguém que tem coisas para nos dizer e a quem temos coisas para dizer. Mesmo que sejam nadas, mesmo que sejam ditas pelo simples prazer de trocar palavras, trocar experiências, trocar ideias.

 

E se entre nós e esse alguém se interpõe uma mesa com iguarias raras, sofisticadas, degustadas devagar como merecem, como merecemos... melhor. E se ao jantar se segue um copo de whisky e ainda mais palavras, com Lisboa e o Tejo aos nossos pés... melhor ainda.

 

Às vezes, viver é um luxo.

 

publicado por Ana Vidal às 11:20
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Domingo, 31 de Agosto de 2008

Feira de Velharias (10)


 
 
É-nos possível viver sós,
desde que seja à espera de alguém

(Gilbert Cesbron)
 
 
CAFÉ AVENIDA
 
Paulo César estava finalmente reformado. Anos e anos a suspirar por dias como aquele, sem obrigações nem horários. Noites a fio a contar os meses, depois os dias e, por fim, as horas que o separavam da liberdade.

Tinha sido uma difícil vida de luta. Pouco dinheiro, muito trabalho. Mesmo assim, não podia queixar-se muito: havia colegas seus, bem mais novos do que ele, que tinham negociado o despedimento da empresa por uma indemnização e agora estavam em pior situação. O dinheiro acabara-se e não arranjavam novo emprego. Mentalmente, deu graças a Deus por ter conseguido aguentar a pressão daqueles últimos anos de loucura e esperar pela reforma natural. Era uma reforma parca, claro, mas ia dando para viver. Toda a vida tinha sido um homem frugal, habituara-se a contar os tostões desde muito novo. E depois – infelizmente! – o que ganhava era só para si… a mulher tinha-lhe morrido muito cedo e os filhos estavam emigrados na África do Sul, não os via há muitos anos já. Sabia que tinha dois netos de um deles, mas não os conhecia a não ser por fotografia.

Ainda tinha pensado, por duas vezes, arranjar mulher de novo, mas o destino não tinha querido assim. Uma delas, a primeira, era sua colega na fábrica. Uma solteirona ainda fresca e bonita, mas sacudida, de modos bruscos. Tinha engraçado com ela por lhe parecer um desafio a sua forma de responder aos piropos dos homens, com grande desenvoltura e mantendo-os à distância. Era uma mulher séria, portanto. Um bom prenúncio. Ninguém nunca ousara dizer nada dela. Ele tinha enviuvado há pouco tempo e sentia ainda muito a falta de uma mulher em casa. Aquela pareceu-lhe um bom aconchego para si e para os filhos, até porque não tinha outros que fossem dela e já não estava em idade de se aventurar em maternidades perigosas. Instigado pelos colegas começou a fazer-lhe rapa-pés, a sentar-se ao pé dela na cantina para o almoço, e até lhe ofereceu uma vez uma caixa de chocolates que trouxe de propósito de Badajoz, de uma excursão organizada pela Junta de Freguesia. A princípio, o seu interesse por ela era mera conveniência de situação mas, aos poucos, a dificuldade da conquista foi alimentando o desejo e uma intensa vontade de conhecê-la melhor. Tomou-se de amores por ela, escrevia-lhe papelinhos nas horas de trabalho, com convites para passeios de domingo que ela declinava sempre, sem excepção. Um dia decidiu-se mesmo, já desesperado. Parecera-lhe, naquele dia – ou tinha sido um dos companheiros que lhe dissera, já não se lembrava – que ela estava finalmente receptiva. Perdeu a cabeça, arriscou tudo – aproveitou a hora do café para agarrá-la pela cintura e dar-lhe um beijo testemunhado por todo o refeitório e que foi, aliás, muito aplaudido. Foi a morte do artista. Ela não percebeu nada e achou que ele estava a gozar com ela, ou que queria só farra. Desastrada e furiosa, envergonhou-o em frente dos companheiros de labuta com um sermão altivo e meia dúzia de epítetos fatais, tais como “velho baboso”. E ele que nem era velho, nessa altura. Ferido de morte, arrastou a sua desolação por alguns meses, encerrado numa tristeza vexada e sofrida à vista de todos. A ela, nunca mais dirigiu palavra. Pouco tempo depois, para seu grande alívio, ela mudara de emprego.

Mas o tempo encarregara-se de diluir o desgosto e a chacota dos amigos, e a rotina voltara a instalar-se na sua vida. É claro que várias mulheres animaram muitas das suas noites de viúvo, quase sempre mulheres da vida ou, mais raramente, encontros de solidões partilhadas, que não duravam muito nem se solidificavam a ponto de deixar adivinhar uma hipótese de futuro.

Mas, poucos anos depois daquele primeiro desaire, Paulo César voltara a apaixonar-se. Violentamente, como não pensava já ser possível. Os filhos iam-se criando com a ajuda das vizinhas, todas gostavam deles. Eram dois rapazinhos dóceis e franzinos que não davam grandes trabalhos, tinham notas razoáveis na escola e não se metiam em alhadas. Eram filhos de muitas mães, mas ele sabia que havia neles uma tristeza inconfessada por não terem uma a que chamassem legitimamente sua.

Talvez por essa consciência, ou talvez apenas pelo seu próprio desamparo, começou a interessar-se por uma dessas vizinhas, viúva como ele. Era uma mulher ainda bonita, de formas voluptuosas e cabelos negros, um pecado ambulante que perturbava todos os homens do bairro e deixava as mulheres de pé atrás. Mas ela era recatada, cumprindo a custo – adivinhava-se pelos suspiros constantes – a abstinência exigida pela sua condição de viúva séria. Tinha três filhos da idade dos seus, companheiros de escola e de brincadeiras. Estava até, na escala social do bairro, uns degraus acima das outras – a viuvez precoce atirara-a para ali, onde as rendas das casas eram mais baixas. Tudo parecia perfeito, portanto. A comunidade abençoaria esta união de viúvos. Discretamente, Paulo César começara a fazer-lhe a corte, com respeito e seguindo as regras. Ela encorajara-o logo, agradecida, e em pouco tempo já rebolavam na cama de ferro dele, a coberto da noite e longe das crianças de ambos, estrategicamente reunidas em casa dela. Foram tempos felizes, de uma fartura sensual que parecia não ter fim. Ela revelara-se surpreendente: nas noites de folia era mestra nas artes do kamasutra (confidenciou-lhe um dia, corando, que o major seu marido tinha sido o seu professor, depois de uma comissão de serviço na Índia portuguesa); e de dia era uma modista incansável e admirada – fazia vaporosos tutus de bailarina para a Companhia Nacional de Bailado, aumentando assim um pouco mais a pensão de viúva. As suas mãos de ouro faziam maravilhas, tanto de dia como de noite. Mas havia um óbice ao idílio: ela não queria casar, exactamente por causa dessa pensão, que perderia imediatamente se o fizesse. E também não aceitava tornar pública aquela relação irregular, porque isso arruinaria a sua reputação impecável. Ao contrário do que seria de esperar, foi ele quem começou a cansar-se da situação. Aquela exaltação oriental já não lhe bastava: queria uma mulher com quem pudesse passear abertamente, viver e criar os filhos, e os argumentos dela pareciam-lhe uma humilhação porque salientavam a sua inferioridade financeira. A versão alfacinha das mil e uma noites durou pouco mais de um ano e depois ele foi-se afastando. Para seu maior desgosto e vexame ela acabou mesmo por casar-se, algum tempo depois, com um antigo companheiro de armas do marido, recentemente promovido a capitão. Com esta promoção social voltou a sair do bairro e foi viver para um sítio mais condigno com a sua nova condição. Estava reposta a justiça. Ele sofreu durante uns tempos, mas acabou por conformar-se e nunca mais pensou em casamento.

Foi-se transformando, aos poucos, num homem solitário. Os filhos fizeram-se homens e acabaram por aceitar, ambos, o convite de uns parentes da mãe para trabalhar na África do Sul. Por lá havia muitas obras e falta de bons pedreiros, disseram-lhe.
- É uma vida melhor, filhos, não sou eu que vou prender-vos aqui.
A princípio ainda planeou ir vê-los, escrevia-lhes frequentemente e contava os dias até ao Natal, mas essa viagem nunca se concretizou. Por lá casaram e tiveram filhos mas, apesar das cartas em que manifestavam sempre a intenção contrária, nunca mais voltaram.

E agora estava mesmo só, com o resto da vida pela frente e sem ocupação. Valia-lhe a leitura – um prazer que descobrira com a viúva do major e que alimentava diariamente devorando, um a um, os livros desirmanados (quase todos destinados a leitores infantis ou adolescentes) oferecidos à biblioteca da Junta, agrupados sem qualquer critério por uma funcionária ainda mais ignorante do que ele. Há três meses que a sua rotina era esta: de manhã cedo dava um passeio pelo jardim do bairro, ia ao pão e voltava para casa, cozinhava qualquer coisa, almoçava e dormia uma curta sesta. As tardes eram mais problemáticas: nunca tivera outros hobbies com que pudesse entreter-se agora e não lhe apetecera ainda alinhar com os outros reformados do bairro, que lhe pareciam muito mais velhos e perdidos do que ele e lhe lembravam a sua futura condição. Jogavam a bisca e a lerpa no jardim, fumavam e deixavam correr os dias numa espera resignada. Parecia-lhe deprimente. De vez em quando saía dali e ia até à Baixa lanchar e ver as montras. E, muito mais raramente, alinhava com alguns dos vizinhos numa excursão da Junta a Badajoz, a Évora ou ao mosteiro da Batalha. Mas evitava estes convívios porque eram sempre dominados pelas beatas e ele não tinha paciência para fervores religiosos. Aos poucos, começava a dar-se conta de que a situação de reformado não era assim tão aliciante como pensara. Para passar as horas até ao jantar, ia para o Café Avenida – um nome pomposo para uma modesta localização, num beco que fazia esquina com uma rua estreita – e entretinha-se com o movimento, enquanto lia o jornal ou um livro trazido da biblioteca. Estava a ficar um filósofo, pensava ele, de tanto observar os outros. Já conhecia quase toda a gente que parava por ali, mesmo os que não eram clientes diários.

Naquela tarde, havia uma nova presa para a sua curiosidade: olhou com interesse redobrado um homem que ocupava, sozinho, uma mesa afastada da sua e que falava em voz baixa para um telefone portátil. Nunca o tinha visto por ali. Numa avaliação sumária pareceu-lhe uma figura triste, com o aspecto desabrigado e patético de uma personagem de Dickens. Chamara-lhe a atenção a voz monocórdica e estranhamente ritmada, como que recitando uma ladainha. Não conseguia ouvir o que dizia, mas parecia lamentar-se intimamente, como se, do outro lado da linha, não estivesse ninguém. Assim, a falar, era um tipo curioso: embora a expressão fosse de desalento, parecia saborear as palavras com a volúpia de um gourmet, mastigava-as lentamente, sílaba a sílaba, como se fossem ovinhos de codorniz. Não fora esse tique de diseur e nada nele, numa observação desatenta, despertaria o menor interesse: em tudo o resto era irremediavelmente vulgar. Andaria pelos cinquenta e poucos, diziam-no as rugas na testa e o cabelo, ainda farto mas já mais branco do que escuro. Os olhos eram fundos e esquivos, sem cor definida. As mãos – juraria que estavam húmidas – mostravam-se irrequietas, nervosas, como as de quem tivesse abandonado o vício do tabaco e não soubesse já o que fazer com elas. Sobre o corpo franzino trazia uma camisola de lã puída, de um tom azul acinzentado, e umas calças escuras de fazenda. Tudo muito limpo, muito vincado, a denunciar mão de mulher ciosa da dignidade da sua pobreza. Esposa? Mãe? A avaliar pelo ar desajustado e pela ausência de aliança na mão esquerda, mãe, definitivamente.

Parecia desconfortável na cadeira, como se quisesse sair dali o mais depressa possível. Olhava em volta de vez em quando, tentando abranger com movimentos rápidos do pescoço todo o espaço da sala e sobretudo a porta do Café. Estaria talvez à espera de alguém, ou simplesmente temia ser ouvido. Porque as frases dirigidas ao bucal do telemóvel eram pronunciadas em voz velada, propositadamente contida. Pelo menos, assim parecia. De tempos a tempos deitava um olho rápido ao relógio antigo de madeira e vidro gravado, na parede mesmo à sua frente. Sobre a mesa quadrada, uma xícara de café vazia e um jornal aberto na página das palavras cruzadas, criteriosamente disposto de forma a acompanhar sem desvios a esquadria do tampo. Sobre o jornal, rigorosamente ao centro, uma esferográfica e um par de óculos de lentes grossas. Um metódico, portanto. No mínimo. Talvez um maníaco, um obcecado pela ordem. Um desses perfis que rondam perigosamente o descaminho sem remédio, às vezes provocado pela mínima alteração à rotina.

Para acompanhar este imperdível pitéu que os deuses do ócio lhe traziam de presente em mais uma tarde de horas longas, nada como outro cafezinho. Distraiu-se da sua presa, por momentos, para chamar o criado. Quando voltou a reparar no homem, alguma coisa tinha mudado. Olhou-o de novo, agora com acrescida curiosidade: na expressão que, há pouco, revelava apenas timidez e desconfiança, lia-se agora o pânico. O homem estava claramente perturbado, como que arrependido de um passo irreflectido, cujas consequências lhe fugissem ao controle. O telefonema acabara e agora estava imóvel, de olhar fixo e semblante carregado. Olhou uma vez mais o relógio de parede, disfarçadamente. Há pelo menos meia hora que ali estava sentado, em crescente ansiedade. Suava ostensivamente, como se um sol de Agosto tivesse invadido, de repente, aquele fresco dia de Outono. Pobre criatura, pensou. O que lhe teria acontecido agora?

Sem dar por isso, Paulo César começou a olhar também, ansiosamente, para a porta do Café. O homem deitara-lhe um olhar rápido e cúmplice, ou era imaginação sua? Estaria a pedir ajuda? O que poderia fazer por ele? Outro olhar, agora mais explícito. Ele PRECISAVA mesmo de ajuda mas, por qualquer razão, não podia ou não queria pedi-la directamente. Concentrou-se, procurando raciocinar. Não sabia no que estava a meter-se, mas tinha que agir de qualquer forma. Não era pessoa para deixar um ser humano naquela situação, sem fazer alguma coisa. Pensou em levantar-se e dirigir-se à casa de banho, sabendo que esse percurso o obrigaria a passar pela mesa do outro. Assim, estaria suficientemente perto se ele quisesse dizer-lhe alguma coisa em voz baixa, ou até passar-lhe um papel. Sorriu intimamente. Andava a ler demasiados romances policiais! O homem tinha um ar aflito, de facto, mas nada fazia prever que estivesse a ser perseguido ou impossibilitado de comunicar com as outras pessoas… bem, alguma coisa ele queria com aqueles olhares disfarçados, como que a pedir socorro.

Olhou uma vez mais na direcção do homem, encorajador, e levantou-se devagar. Caminhou lentamente, de propósito, passando como que em câmara lenta pela mesa do outro. Nada. Dirigiu-lhe mais um olhar antes de entrar na casa de banho, fazendo-lhe um sinal quase imperceptível com os olhos. O outro corou violentamente e virou a cara. Caramba, que expressão era aquela? Medo? Repulsa? E, de repente, percebeu. Ohhhh, diabo! O filho da mãe pensa que eu sou paneleiro! Ficou tão atrapalhado que se precipitou para a casa de banho, esbarrando com um rapazinho que vinha a sair. Encostou-se à parede, a suar. E agora? Desfazia o equívoco com uma explicação que podia complicar ainda mais a situação, ou fingia que não tinha acontecido nada e voltava para o seu jornal? Não sabia o que havia de fazer. A mania de te meteres onde não és chamado! Praguejou baixo e saiu com um andar estudadamente masculino. Pelo menos, pareceu-lhe. O outro continuava na mesma posição e baixou os olhos quando passou por ele. Paulo César esgueirou-se para a sua mesa e sentou-se de costas para o homem, impossibilitando-se assim de olhar para ele, a partir daí.

Algum tempo depois, entrou no Café uma mulher magra e já um pouco curvada, de cabeleira armada e loira mas onde eram bem evidentes as raízes brancas. Estava maquilhada em excesso para aquela hora, tinha um batom encarnado e sombra azul nos olhos. A roupa era berrante e justa, completamente desadequada à sua idade, e um perfume intenso e enjoativo espalhara-se pelo Café, com a sua entrada. Apesar de todo aquele espalhafato, por baixo da pintura as feições eram ainda interessantes e o corpo conservava alguma elegância. Paulo César olhou com curiosidade aquela velha gaiteira, pensando de repente, com um sorriso íntimo, que ela deveria ter mais ou menos a sua idade, pelo que estava a chamar velho a si próprio. Olá!! Dois novos numa tarde só, que sorte! Aquela também não era dali do bairro!

A mulher olhou à sua volta, hesitante, como que avaliando os presentes. Depois, avançou decidida para a mesa de Paulo César e pediu-lhe, com um sorriso:
- Posso sentar-me?
Ele estranhou a pergunta, intrigado com a atitude dela. Afinal, a maioria das mesas estava vazia! Não querendo ser indelicado, gaguejou, ao mesmo tempo que a convidava com um gesto da mão e se levantava para puxar-lhe a cadeira:
- C-claro. Faça favor.
Ela voltou a sorrir e sentou-se, enquanto lhe piscava um olho, coquete:
- Obrigada. Que cavalheiro… o senhor é mesmo um cavaleiro andante! Oferece-me um refresco? – e, praticamente sem transição - Olhe, sabe uma coisa? Confesso que estou aliviada.
- Desculpe?? – Paulo César estava abismado e começava a ficar incomodado com tudo aquilo.
- Sou a Rosa Solitária… sou EU! Está decepcionado? Bem, o senhor também é mais velho do que me disse, seu maroto!
- Perdão, a senhora deve estar a fazer confus…
Ela interrompeu-o, impaciente:
- Ora, não seja tímido. Está a fingir que não sabe quem eu sou?
De facto, há já uns momentos que Paulo César tentava lembrar-se de onde a conhecia. A cara era-lhe vagamente familiar. Talvez de uma das excursões…
- Mas eu conheço-a, minha senhora? Peço desculpa mas não me lembro de onde.
Ela riu-se, divertida. Depois disse, com uma inflexão sugestiva:
- Bem, conhecer, conhecer… só pelo telefone, não é? – e, muito devagar - Cavaleiro Andante, Rosa Solitária… então? Ainda há pouco…
Ele franziu as sobrancelhas, interrompendo-a por sua vez:
- Pelo telefone?? Mas… – Estava cada vez mais confuso. A mulher impacientou-se:
- O senhor respondeu ao anúncio… e combinou encontrar-se comigo aqui! Se não, como é que eu ia saber da existência deste Café? Não sou daqui!! Mas, se está arrependido…
Agora fazia uma espécie de beicinho. Patético, nesta idade!, pensou ele. Começava a achar a situação muito desagradável. Empertigou-se e disse-lhe, muito sério:
- Ouça, minha senhora. Eu não combinei nada consigo… de facto, a sua cara não me é estranha, mas juro-lhe que não combinei nada… - e, subitamente, fez-se luz na sua cabeça. O outro!! O encontro era com ele! Respirou fundo, aliviado:
- Espere aí, já sei! Está a fazer confusão com aquele senhor, ali ao fundo. Foi ele que lhe telefonou, com certeza! – e virou-se para trás, para indicar-lhe a mesa… vazia! O outro tinha-se esgueirado sem dar nas vistas, escapando-se ao encontro talvez mesmo antes de conhecer a sua Rosa Solitária! A timidez extrema tinha-o feito arrepender-se, e o seu pretenso assédio tinha contribuído para acabar de afugentá-lo.
Ela ficou furiosa:
- Está a brincar comigo? Qual senhor?
De facto, a única mesa ocupada, além da sua, tinha um casal de namorados completamente alheio ao resto do mundo. Começou a sentir-se mal.
- Deve ter-se ido embora… - engasgou-se. Ela ofendeu-se, começando a perder a compostura:
- Olhe lá, seu Cavaleiro Andante de meia tigela, se está arrependido diga, de uma vez por todas! Não invente desculpas… E você também não é nada de especial, o que é que julga? Se calhar acha-se algum galã, não?
- Juro que estava ali um senhor à espera de alguém… ele é que deve ser o seu Cavaleiro Andante. E não é nada do que está a pensar… eu não quis ofendê-la, acredite.
Então ela acalmou-se, caindo em si:
- Está bem, pronto, acredito. Mas a verdade é que eu não vejo ninguém aqui, além de si. Só se esse senhor não ficou satisfeito com o que viu e foi-se embora… – agora a voz era de uma tristeza confrangedora – e, se calhar, teve toda a razão. Já não tenho idade para isto… não sei o que me deu para pôr o anúncio! Não sou nada assim, é raro pintar-me e nunca me vesti desta maneira. Sabe, é a solidão que nos empurra para estas coisas… nunca casei, não tenho filhos, a única companhia que tive na vida foram os inquilinos de um quarto que alugo… acredite, foi a primeira vez que fiz isto… ah, mas juro que nunca mais caio noutra, ou não me chame Josefina Saraiva!! Estou tão envergonhada…
- Josefina Saraiva??!! – Pela segunda vez naquela tarde, fez-se luz na cabeça de Paulo César: à sua frente, quase quarenta anos depois, choramingava, acabrunhada, a mulher que o tinha ridicularizado no refeitório da fábrica, perante todos os colegas!

Mas tudo se tinha esfumado com os anos: a raiva, a humilhação, até o desconforto. Restava, apenas, um vago enternecimento por aquela figura frágil e carente, que já tivera um dia toda a arrogância da juventude. Ao mesmo tempo que chegava a esta conclusão, descobriu também como era reconfortante reencontrar alguém do seu passado, alguém com quem partilhar todas as memórias que estavam aprisionadas dentro do seu coração. Olhou-a, comovido, reflectindo em como eram ambos vítimas da mesma sorte, afinal: uma enorme e irremediável solidão. Irremediável? Paulo César deu consigo, numa fracção de segundo, a tomar a decisão mais importante da sua vida. Endireitando-se na cadeira aclarou a voz, tomou balanço e disparou, antes que se arrependesse:
- Josefina, peço-te perdão. Menti-te ainda agora, não havia aqui mais ninguém à tua espera. Mas não te menti pelas razões em que estás a pensar: é que fiquei com medo de que me escorraçasses, pela segunda vez! Não me reconheces? Assim que te vi entrar, percebi que o destino nos tinha pregado uma partida: eu sou o Paulo César, lembras-te? E, se tu quiseres, gostava muito de ser o teu Cavaleiro Andante.

Ela não disse nada, sufocada, mas uma grossa lágrima abriu caminho através da camada de base que lhe cobria a cara, arrastando consigo o rímel preto e a sombra azul dos olhos. Paulo César levantou-se, limpou delicadamente com o lenço o triste borrão colorido, ofereceu-lhe o braço com um gesto galante e disse:
- Vamos, minha Rosa Solitária? Ainda temos um resto de tarde para passear, e tu não conheces o jardim do nosso bairro. É muito bonito, sabes?
 

 

(Ana Vidal, in Gente do Sul)

 

publicado por Ana Vidal às 11:31
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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Uma tese possível

 

No dia em que decido fazer dieta a sério, depois de umas férias bastante gastronómicas, trazem-me duas coisas que eu adoro: um pão-de-ló de Alfeizerão (do verdadeiro) e uma caixa de tâmaras tunisinas deglet nour, as melhores do mundo.

 

Tenho muitos defeitos, eu sei. Mas não sou nem masoquista nem mal agradecida.

 

 

publicado por Ana Vidal às 12:24
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Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

À última (da) hora

 

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele já foram de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido disso (é egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não é o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas, e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque ele é um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder, ainda por cima. Lembro-me bem de assistir, há muitos anos, a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão de visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa "injustiça", nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor, de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remói para o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estão mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a sua vida familiar foi cruelmente atravessada por duas tragédias arrasadoras. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esses terríveis acontecimentos. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume tem vindo a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o há poucos dias, por acaso, numa livraria do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa, porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E julgas-te tu uma escritora?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado, se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Além disso, estou muito longe de considerar-me uma escritora. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tem sempre que dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, confesso. Também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo que me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Às vezes sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”... 

 

publicado por Ana Vidal às 23:20
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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Liquefeito

 

Dir-te-ia que as águas subiram hoje de novo numa maré tão festiva como inútil porque de novo o navio se fez ao mar sem ti de velas desfraldadas num despudor que ainda te celebra. Dir-te-ia que de tanto fitar o horizonte os meus olhos confundiram já todos os azuis e fundiram todas as formas e refundiram todas as sombras. Dir-te-ia que as fronteiras se diluem sem retorno esbatidas pela maresia e pelo tempo. Dir-te-ia que me adormece o suave balanço das ondas no sussurro manso deste mar eterno que me deixaste de presente talvez para compensar a tua ausência. Dir-te-ia que sou já pedra búzio alga areia estrela-do-mar e que me vou habituando a este corpo mutante e a esta nova pele tão facilmente como me vou desabituando de ti. Dir-te-ia que as brumas já não me assustam e que a ronca do velho farol me canta ao ouvido canções de embalar à noite quando me abraça o nevoeiro imitando os teus braços longos de pirata. Dir-te-ia que a nossa casa me escorre agora da memória, desabitada e nua. Dir-te-ia amor que o nosso mundo se liquefez.

 

(Imagem - René Magritte, O Sedutor) 

 

publicado por Ana Vidal às 23:50
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Domingo, 27 de Julho de 2008

Feira de Velharias (10)

Nos últimos dias tenho-me lembrado muito da minha Mãe, mais ainda do que é habitual. Por isso me apeteceu republicar este texto que escrevi no dia em que fiquei sem ela.
 
 
 
Mãe
 
É sabido que, quando morremos, todos nos transformamos em boas pessoas. Há um certo estatuto de superioridade no mistério da morte, que lança um véu dourado de temor e respeito nos que ficam e os faz mais benevolentes para com quem ascendeu a um plano desconhecido. Os defeitos são atenuados, as qualidades tendem a sobressair, quase tudo é perdoado.

Por outro lado, suponho que não será quase nunca difícil, para um filho, tecer comentários lisonjeiros acerca da sua Mãe. A emoção domina-nos o vocabulário e incita-nos à exaltação de alguém que nos faz falta desde o preciso instante em que perdemos a sua presença protectora.

No caso da minha Mãe – posso afirmá-lo sem qualquer dúvida ou hesitação – sei que não preciso de recorrer à parcialidade do amor filial nem à complacência que dá a morte para dizer, dela, que era um ser humano extraordinário. Quem a conheceu, ainda que tenha sido só superficialmente, poderá testemunhar a veracidade desta afirmação.

Foi um exemplo admirável para nós, filhos, e também para todos os que conviveram com ela. A total entrega aos outros foi sempre o seu projecto de vida, e essa escolha aproximou-a muito daquilo a que nós, cristãos, chamamos santidade. Mesmo tendo sido uma Mãe atenta, nunca foi verdadeiramente “nossa”. O seu mundo era incomparavelmente maior do que a família, e filhos eram todos os que precisassem dela, conhecidos ou não.

Era de um despojamento invulgar: não se interessava por coisas, nem elas lhe mereceram nunca grande atenção. Mas gostava de livros, sobretudo dos que descreviam expedições e viagens singulares. Também gostava de discos, principalmente de música clássica. Bach, Beethoven e Mozart foram os grandes companheiros dos seus últimos tempos. Fora isso, contentava-se com muito pouco e era tão naturalmente generosa que dava tudo o que tinha, com um encolher de ombros e uma expressão divertida que acabaram por tornar-se a sua imagem de marca. Interessava-se, isso sim, por pessoas (por todas menos uma – ela própria). Não as diferenciava, a não ser por critérios de carácter e de qualidade humana. Para os frívolos e mesquinhos não tinha a menor paciência, e mostrava-o sem disfarçar. Tinha amigos de todas as idades e de todos os estratos sociais, porque a sua alegria, sentido de humor e simplicidade, eram contagiantes e faziam com que se sentisse bem em qualquer ambiente. Será muito difícil encontrar alguém que não tenha dela uma lembrança carinhosa.

Nunca foi uma típica dona de casa, como a maioria das mulheres da sua geração: independente por natureza, sustentou-se desde muito nova e realizou-se por inteiro numa vocação que parecia feita à sua medida – a medicina. Era uma mulher inteligente e culta, embora nunca caísse na tentação de exibir esses dotes para impressionar ou medir forças com alguém. De raízes urbanas e horizontes abertos, teve afinal que adaptar-se à rígida pequenez da província, numa época em que a sua profissão era vista com desconfiança e preconceito, quando desempenhada por uma mulher. Mas soube, sem guerras nem provocações, dar a volta a tudo e a todos, acabando por transformar em defensores fiéis os seus maiores críticos.
 
Sendo um espírito pragmático, científico, tinha também uma fé inabalável. Conciliava pacificamente evidências e mistérios incorpóreos, matéria e espírito, como se soubesse que cada um desses dois mundos ficaria incompleto sem o outro. Praticava, muito mais do que pregava, os preceitos de um Deus em quem acreditava profundamente.

 

Festejou 60 anos de curso com os amigos de sempre, e 84 de vida com a família próxima. Viveu uma vida plena e feliz mas teve, infelizmente, um fim duro. E até na doença e na morte foi um exemplo: aceitou o sofrimento extremo que lhe coube sem sombra de revolta e com a filosofia dos eleitos, captando o seu significado mais profundo. Talvez essa transcendência nos possa servir de consolo, perante uma tão flagrante injustiça.

Ficaria aqui, ad eternum, a contar episódios da vida da minha Mãe. Há mil histórias, cómicas ou comoventes, que se tornaram célebres entre nós e que ficarão na nossa memória para sempre. Guardo-as com ternura e talvez arrisque contá-las um dia, mesmo sabendo que ficarei sempre aquém da verdade.

 

Hoje, dia em que partiu, fica por aqui esta homenagem. Desapareceu uma Grande Mulher, mas apenas da nossa vista. Continuará tão presente como sempre, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-la.
 
Até sempre, minha Mãe.
 
(Publicado em 20 de Maio de 2007)
publicado por Ana Vidal às 22:36
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Tempo

 

 

Tempo. Para parar. Parar é um luxo a que raramente nos permitimos, e esse é talvez o maior de todos os erros que cometemos, neste ritmo de vida apressado em que engolimos, sem verdadeiramente os digerirmos, os acontecimentos que nos marcam.

 

Tempo. Esse bem precioso mas não necessariamente escasso, se soubermos disfrutá-lo em vez de gastá-lo. Se soubermos saboreá-lo como um gourmet saboreia um petisco raro, ou como um apreciador se delicia com um bom charuto cubano.

 

Tempo. Para olhar para o longe, para o alto, para o lado. Mas também para dentro, para o fundo de nós. Não como um Narciso que vê no espelho apenas o reflexo da perfeição que julga ter, mas com toda a coragem de que formos capazes. Sem filtros coloridos. Sem batotas. Sem rede. Um mergulho livre e proveitoso, de olhos bem abertos. E depois um redentor regresso à luz, em paz.

 

Tempo. Para sacudir e deitar fora, para bem longe, tudo o que nos fere e nos faz mal. Para nos afastarmos de situações e de pessoas que convocam o que há de pior em nós, o que temos de mais defensivo, e nos fazem reagir com o instinto em vez de o fazermos com a razão. Tempo para descontrair os músculos do corpo e os da alma. Para aliviar a tensão dos mecanismos de sobrevivência que trazemos afivelados, prontos a saltar, como molas, a uma qualquer ameaça.

 

Tempo. Para perdoar. Para resistir à tentação do julgamento fácil, primário. Para avaliar com distância e com calma, tentando vestir a pele de quem dispara à toa e nos acerta com uma bala perdida, talvez sem sequer ter desejado fazê-lo, talvez apenas sob a cegueira causada por uma súbita nuvem negra. Tempo para reconstituir a trajectória dessa bala e ver, mais claramente, de onde partiu ela e porquê. Tempo para relevar, esquecer e seguir em frente.

 

Tempo. Para um olhar cúmplice. Para um beijo. Para um sorriso franco, uma gargalhada. Para voar, navegar, sonhar. Para fazer a trouxa e partir à aventura, com a alma limpa. Para tudo aquilo que a vida tem de bom.

 

Tempo. Para VIVER. 

 

(Life - Des'ree)

publicado por Ana Vidal às 19:10
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Além da Taporbana


 

 

Durante estes dias em que estive afastada aconteceu uma coisa curiosa em que só agora reparo: o número de visitantes do Porta do Vento passou a barreira dos 50.000.

 

O que "é obra" em pouco mais de um ano, dizem-me. Não sei se é obra, nem sei porque sinto esta necessidade pacóvia de assinalar uma tão supérflua e inútil "efeméride". Será talvez o tal narcisismo comum a todos os bloggers, ao qual, com toda a certeza, não escapo. Experimento uma súbita e estranha tomada de consciência, a noção da responsabilidade no que escrevo aqui. Ridículo: tudo é tão relativo! Mas a verdade é que gosto de saber que por aqui já passou um estádio de futebol inteirinho, lotado como em dia de derby, recheado de jogadores, árbitros, fiscais de linha, dirigentes, treinadores, polícias, maqueiros, claques e muitos, muitos adeptos. Lá isso gosto, não nego.

 

(E já agora, para eliminar qualquer ilusão de modéstia que pudesse enganar algum incauto, também me dá gozo ter tido, até agora, 664 posts e 5.564 comentários. Pronto, assim assumo de vez o mea culpa da saloice, com toda a propriedade...) 

 

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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Plural

 

 

Às vezes sou um coro de vozes dissonantes

sem maestro que as harmonize

e todas com a secreta ambição

de uma carreira a solo. 

 

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Pausa

 

Este blog vai estar fechado durante uns dias, para descanso do pessoal.

Voltamos em breve, que a vida é mais do que blogar mas isto já se tornou um hábito. Dos bons.

Até lá.

 

publicado por Ana Vidal às 13:36
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Coisas que gostava de fazer?

Ver o mundo de um planador. Mais uma forma de voar.

 

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Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Metades


 

Sou como tu, Sophia: metade de mim é maresia. E até na outra, a que devia contrapôr ao sal e à espuma a terra firme, há rastos de algas e um canto de sereia. Há pedras roladas por infindáveis marés. Fazem sentir-me, em vez de terra, areia. Essa metade minha é ao revés. Metade de mim voa, é ventania. A outra, só ecoa. Procura a luz, talvez, essa metade inquieta. A outra... vegeta. Mas é a mais rasteira, essa metade que me prende ao chão, a que me faz matéria verdadeira. A que me liga ao mundo, a que tem sombra e fundo. A outra não. A outra, só me assombra. Sou como tu, Sophia: metade de mim é pura fantasia. A outra? A outra é alquimia.

 

(Imagem: René Magritte, Black Magic)

 

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Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Coisas que gostava de fazer?

Um salto de paraquedas, um dia destes. Outra forma de voar. 

 

 

 

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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Coisas que gostava de fazer?

Um passeio de balão, um dia destes. Uma forma de voar.

 

 

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Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Argumentos coloridos

Para o meticuloso anónimo que se deu ao trabalho de escrever-me a dizer - em termos pouco simpáticos - que a cor de fundo do meu blog não existe na Natureza, aqui ficam alguns veementes argumentos em contrário:

 

 

 

 

 

 

 

Chegam?

 

Mas há mais uma coisa que quero dizer-lhe, meu caro: mesmo que não existisse na Natureza, existiria ainda assim na "minha natureza". E na minha estética. E se todos gostassem do mesmo, o que seria do amarelo... não é?

 

Masoquismo é que não vale a pena: fuja daqui, se a cor o incomoda...

 

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Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Memória

 

Hoje apeteceu-me tanto, tanto, voltar à infância...

Voltar a um tempo em que não me era pedido mais do que apreender tudo o que descobria, deslumbrada, a um ritmo alucinante. Sem responsabilidades, decisões a tomar, pesos, escolhas difíceis, lutos. A um tempo em que tudo estava ainda por estrear. Até a vida.

 

Talvez por isso me tenha lembrado deste poema.

 

 Um único objecto

 

  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
  as manchas da humidade nas fotografias

  da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
  a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
  a água primeiro escorrendo num fio por entre
  os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

  da aluvião; uma horta defendida pelos muros
  altos; os matos; o bosque: só depois
  o segredo de curar ou enlouquecer
  tocando com as mãos nos ombros das crianças:

  só depois da casa e dos caminhos de terra
  batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
  dos canais de rega; só depois das sementes
  espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

  e do rumor do vento nos arames das vinhas.
  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  a faca de cortar o pão.

 

  (José Carlos Barros)

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Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Palavras

 

às vezes há uma palavra que leva a outra palavra e esta a uma terceira e por aí fora até que a primeira já não faça nenhum sentido e não tenha qualquer relação com todas as outras que gerou.  as palavras levam ideias e vontades e desejos de um lado para o outro ao sabor de ventos e marés porque as palavras são como o mar que não tem princípio nem fim apenas um vai vem cadenciado que nos embala nas suas sete ondas peregrinas em romaria até à praia.  as palavras nascem como os cogumelos uns inofensivos e outros letais mas todos com o mesmo aspecto apetitoso que apetece trincar.  as palavras têm vida própria juntam-se e separam-se como e quando lhes dá na gana sem autorização de quem lhes abriu a porta sem saber que nunca mais teria uma palavra a dizer sobre o assunto.  as palavras são caprichosas sim leves e divertidas umas vezes outras tristes e melancólicas outras graves e solenes outras de um peso tão grande que faz dobrar a espinha.  as palavras são responsáveis por muitos equívocos e por muitos dramas mas também por muitos sorrisos e boas surpresas casaram e foram felizes para sempre e tiveram muitos meninos com os olhos da mãe e o sorriso do pai the end. 

 

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publicado por Ana Vidal às 01:08
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Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Mistério

 

 

São inegavelmente bonitas.

 

Simbolizam a leveza, a candura, a graciosidade, a simetria, a fragilidade.

 

Então... porque raio é que eu nunca gostei de borboletas???

 

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publicado por Ana Vidal às 21:20
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Domingo, 18 de Maio de 2008

Feira de Velharias (9)

A minha Ericeira 

 

A tua Ericeira , Leonor, teve o condão de lembrar-me a minha (não muito diferente): a casa encostada ao Parque de Sta Marta, onde assisti embasbacada ao primeiro passo do Homem na Lua; o Café do Xico, onde se cozinhavam os namoros de cada Verão; o ringue de patinagem do Parque, onde exibíamos equilíbrios e piruetas para impressionar os possíveis candidatos, ao som do Calhambeque de Roberto Carlos; o Cinema do meu primeiro filme, "Sete noivas para sete irmãos" (!); os bolinhos de coco da Pinta, comidos quentes e em quantidades tais que enjoei o coco até hoje; o Ouriço, onde dei o meu primeiro beijo, de dentes ferozmente cerrados; a travessia a nado da praia grande para a praia do sul, que o meu pai fazia e nos arrepiava (os banheiros deixavam-no fazer a proeza, só a ele, porque o sabiam um nadador prodigioso); o Jogo da Bola depois da praia, onde combinávamos programas tão inocentes como nós; os passeios com os amigos até às Furnas, antes de jantar, com um frio de quase Inverno e um cheirinho a maresia incomparável... e tantas, tantas outras coisas mais, todas elas lembranças de tempos felizes.

 

Obrigada por me teres trazido à memória essa Ericeira perdida, onde só voltei há 2 ou 3 anos por insondáveis razões. Apesar de tudo, a essência da "nossa" Ericeira ainda lá está. Betão à parte, ainda encontrei a sua magia quase intacta.

 

Nota 1: Resposta à pergunta de Leonor Barros (Geração Rasca, 21 de Junho) - "E a tua Ericeira, como é?"

 

Nota 2:  A "minha praia" de sempre não é a Ericeira, mas o Baleal. Já falei nele aqui também. Acontece que, por circunstâncias que agora não interessa referir, passei na Ericeira alguns Verões fulcrais da minha adolescência, como se pode perceber pelas recordações que tenho dessa praia maravilhosa. E no meu coração cabem muitos lugares, como cabem muitas pessoas.

 

(Publicado pela primeira vez em 25/06/2007)

 

publicado por Ana Vidal às 01:44
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Diário do paraíso (4)

 

Último dia no paraíso, e a revelação do meu paradeiro: algures entre Troia e a Comporta (ganhaste tu, Huck, podes reivindicar o almocinho...). As fotografias que tirei (excepto esta, de cima) são todas do lado da foz do Sado, ou seja, são mais de rio que de mar. Por isso a água está sempre tão calminha. Mas bastava-me atravessar a estrada para abrir os braços ao oceano, ao poderoso Atlântico que aqui é azul e frio. Estive quatro dias entre o rio e o mar, entre o azul líquido e o verde da serra da Arrábida, entre os pinheiros e as dunas, entre a civilização (ali mesmo ao lado) e a natureza selvagem de uma ilha deserta, entre uma leve brisa ribeirinha e uma ventania de mar aberto, com cheiro de maresia. Uma delícia. A todos os que me imaginaram em paragens longínquas, digo que temos verdadeiros paraísos aqui mesmo, debaixo do nariz. Troia é um deles, mas não sei por quanto tempo ainda. O princípio da península está transformado num gigantesco estaleiro. Todos os dias o barco que faz a travessia traz nas entranhas hordas de operários das obras, como outrora um cavalo levou, para outra Troia, guerreiros armados até aos dentes. É o mesmo presente envenenado, repete-se a História: não tardará muito e tudo isto estará cheio de condomínios de luxo e de prédios de apartamentos, de supermercados e clubes de video, de cafés e de lojas de chineses. Será então outro género de paraíso, para outro género de gente. Mas não para mim. Tenho a sensação de ter gozado os últimos dias de um paraíso perdido, já com morte anunciada. É, dizem eles, o progresso...

 

 

Tudo o que é bom acaba, e isto era bom de mais para durar muito. Foram quatro dias para reflectir, alinhar ideias, escrever algumas delas e respirar outro ar. Sobretudo isso: mudar de ares, uma coisa de que preciso, de vez em quando, como de pão para a boca. Foi uma experiência única: não me lembro de ter estado tanto tempo a sós comigo, sem qualquer interferência exterior. Não era só a praia que era minha, em exclusivo: a casa, a piscina, o jardim, tudo estava à minha inteira disposição e de mais ninguém, porque não havia mais ninguém (a não ser uma empregada ultra-discreta, que só aparecia quando eu a chamava e que me fazia a cama e algumas refeições, a pedido).

 

 

(A Rum Tale - Procol Harum)

I will buy an island somewere in the sun...

 

She's fuddled my fancy, she's muddled me good
I've taken to drinking, and given up food
I'm buying an island, somewhere in the sun
I'll hide from the natives, live only on rum

I'm selling my memoirs, I'm writing it down
If no one will pay me I'll burn down the town
I'll rent out an aircraft and print on the sky
If God likes my story then maybe he'll buy

I'm buying a ticket for places unknown
It's only a one-way: I'm not coming home
She's swallowed my secret, and taken my name
To follow my footsteps and knobble me lame
 

 (We shall overcome - Bruce Springsteen)

À laia de despedida...

 

We shall overcome, we shall overcome
We shall overcome someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We'll walk hand in hand, we'll walk hand in hand
We'll walk hand in hand someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We shall live in peace, we shall live in peace
We shall live in peace someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We shall brothers be, we shall brothers be
We shall brothers be someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

The truth shall make us free, truth shall make us free
The truth shall make us free someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We are not afraid, we are not afraid
We are not afraid today
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

 

publicado por Ana Vidal às 23:35
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Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Sou eu?

 

Pedem-me a Júlia e a Sofia que me defina em seis palavras. Assim, trigo limpo, como se fosse fácil. Junto-lhes mais algumas, porque sou indisciplinada por natureza (outra definição possível). E uso o truque de desdobrá-las em outras tantas, aumentando assim as probabilidades de engano...

  • secreta, ainda que exposta
  • curiosa, ainda que distraída
  • optimista, ainda que (razoavelmente) realista
  • individualista, ainda que solidária
  • apaixonada, ainda que independente
  • entusiasta, ainda que preguiçosa
  • cumpridora, ainda que desorganizada
  • pacífica, ainda que irredutível *
  • sonhadora, ainda que lúcida
  • orgulhosa, ainda que capaz de reconhecer um erro e pedir desculpa

* (em questões que envolvam valores essenciais)

 

Constato que acabei de definir duas personalidades e não uma. E não serão as únicas que tenho, com toda a certeza. Descubro-me contraditória, e por isso me resumo afinal numa única palavra: mutante

 

Das regras faz parte escolher uma imagem que eu ache que me define, ou pelo menos com que me identifique. Escolhi esta (roubada, comme d'habitude, ao fantástico Zoo), que me pareceu adequada. 

 

E das regras faz parte, também, passar o desafio a outros 5 bloggers. Uma vez mais vou subvertê-las e fazer uma coisa diferente: passo-o a 5 bloggers - MariaV, Alf, Miguel, Espumante e TCL- e a 3 dos meus comentadores, que (ainda?) não têm blog próprio: PSB, Manecas e Rita Ferro. Podem deixar as vossas respostas na caixa de comentários, que eu depois publico-as em post.

 

E pronto, esta lebre já está corrida...

 

publicado por Ana Vidal às 19:13
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Terça-feira, 13 de Maio de 2008

A leste do paraíso...

Volto só para deixar um desafio a todos os que têm tentado adivinhar a localização do meu paraíso. Aceitam-se palpites, e no último dia aqui prometo desvendar o mistério. A quem acertar, ofereço... hummm... um almoço! Em Lisboa ou arredores, claro.

 

Aqui ficam mais duas musiquinhas, para baralhar a geografia da adivinha:

East of the Sun, West of the Moon (Diana Krall) e O Extremo Sul (José Miguel Wisnik). Depois não digam que eu não ajudei...

 

  

publicado por Ana Vidal às 22:50
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Diário do paraíso (2)

 

Esta manhã a praia não era só minha. Um pescador solitário chegou, pousou a trouxa, sorriu-me com ar cúmplice e disse-me qualquer coisa que me pareceu um bom-dia. Depois armou duas longas canas, que espetou à beira de água, e ficou imóvel, de pé, olhos pregados no horizonte. Os pescadores são filósofos, precisam de espaço e de silêncio. Era exactamente o que eu queria também, e por isso me afastei passado algum tempo. Não trocámos mais palavras, mas houve qualquer coisa que gerou um entendimento mútuo imediato. Os muitos quilómetros de praia ensolarada albergaram, hoje, duas solidões voluntárias e felizes.

 

 

Trouxe livros, muitos livros. Mais exactamente, cinco (!) livros. Não porque vá lê-los todos, mas porque não sei quando um deles me apetece e gosto de ir lendo vários ao mesmo tempo. Hoje levei para a praia O sol dos Scorta (Laurent Gaudé). Foi prémio Goncourt em 2004 e estou a lê-lo por recomendação de um amigo. O primeiro capítulo deixou-me logo rendida, a escrita é arrebatadora:

 

"O calor do sol parecia fender a terra. Nem um sopro de vento fazia estremecer as oliveiras. Tudo permanecia imóvel. O perfume das colinas esvanecera-se. A rocha gemia de calor.  O mês de Agosto imperava no maciço de Gargano com a segurança de um senhor. Era impossível acreditar que, nestas terras, algum dia pudesse ter chovido."

 

Trouxe também, para acabá-lo, A mulher certa (Sandor Marai), que já me tinha conquistado antes com o maravilhoso As velas ardem até ao fim. Depois de um diálogo vertiginoso, este implacável monólogo, igualmente primoroso:

 

"Dizes que não é necessário, nem possível, «compreender» como se ama? Enganas-te, minha cara. Eu também julgava isso e, durante muito tempo, gritei-o, a modo de acusação contra o céu. O amor existe ou não existe. Que mais há para «compreender» aí?"

 

Ainda um livro de poesia: a Antologia pessoal de Astrid Cabral, acabadinho de sair no Brasil, que a autora me enviou pelo correio com uma dedicatória que me comoveu. Astrid é, além de uma grande e respeitada Poeta, uma querida amiga, e deu-me a honra de aceitar prefaciar a edição brasileira da minha antologia gastronómica "A Poesia é para comer":

 

"Conhecer-se

 

A gente se despe em frente

a espelhos e ousa enfrentar-se.

Porém não há mesmo como

ver-se, blindada a alma

e as costas inalcançáveis.

Somos opacos, translúcidos

apenas a radiografias.

Contudo resta a ânsia

de bem nítido nos vermos

na dimensão do real.

Mas, por mais que nos olhemos,

o eclipse é sempre total."

 

Igualmente recebido pelo correio, de uma amiga brasileira que assina dois blogs de que sou visita regular - Adelaide Amorim - o livro Como se livrar de Glória. Estou a descobri-lo ainda, com um imenso prazer:

 

"Ambos sabiam o que se desejavam dizer. Sabiam também que tipo de informação e consolo poderiam trocar, mas não valia a pena acelerar as palavras e as intenções, que iriam chegando naturalmente, sem quebrar o clima de acolhimento mútuo."

 

Finalmente, um livro que trouxe por razões de trabalho: O meu país inventado, de Isabel Allende. Preciso de ler sobre o Chile e aceito sugestões de quem souber de outras fontes de informação interessantes.

 

"Nos bairros de lata havia consciência de classe, orgulho de pertencer ao proletariado, o que foi para mim surpreendente numa sociedade tão arrivista como a chilena. Descobri então que o arrivismo era próprio da classe média; os pobres estavam demasiado ocupados na difícil arte da sobrevivência."

 

Como se pode ver por todas estas companhias, a minha solidão é muito relativa...

 

E pronto. Para hoje, uma das canções de Elton John de que mais gosto. E que vem muito a propósito, nestes lazy days de pensar, ler e escrever: Writing.

 

 

Is there anything left
Maybe steak and eggs
Waking up to washing up
Making up your bed
Lazy days my razor blade
Could use a better edge

It's enough to make you laugh
Relax in a nice cool bath
Inspiration for navigation
Of our new found craft
I know you and you know me
It's always half and half

And we were oh oh, so you know
Not the kind to dawdle
Will the things we wrote today
Sound as good tomorrow
Will we still be writing
In approaching years
Stifling yawns on Sundays
As the weekends disappear

We could stretch our legs if we'd half a mind
But don't disturb us if you hear us trying
To instigate the structure of another line or two
Cause writing's lighting up
And I like life enough to see it through

 

(Nota: Porque sou muito indisciplinada, impus algumas regras a mim própria. Uma delas é só vir aos blogs à noite, e por pouco tempo. Por isso não farei muitas visitas nestes dias, mas é claro que gosto muito de saber que vêm visitar-me aqui e prometo ir respondendo às vossas mensagens.)

 

publicado por Ana Vidal às 21:10
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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Diário do paraíso (1)

 

 

Mal cheguei, atirei para longe tudo o que me lembrava as rotinas diárias: roupas justas, sapatos, maquilhagem, enfeites, carteira e afins. Instalei-me, enfiei uma jellabah, única roupa admitida nos próximos dias (excepto um fato de banho, se o tempo permitir), e saí, descalça, a explorar o paraíso. Caminhei durante duas horas, os pés dentro de água, sem outra companhia que a das ondas mansas e da areia morna. Não pensem que exagero, isto é mesmo um oásis perdido. Há um único rasto de passos humanos na praia, depois do meu primeiro passeio: o meu. Há solidões que são um luxo.

 

Sinto-me em casa, acolhida por toda esta beleza. Mas acontece-me isto em qualquer lugar do mundo onde vá: depressa dispo, sem oferecer resistência, todas as peles que me separam do que me rodeia, e em pouco tempo me torno uma nativa, diluindo-me na paisagem. Aqui, foi muito fácil: passaram poucas horas e sou uma concha.

 

Deixo-vos com Oasis, uma canção linda do meu querido Pedro Guerra, que não ouvia há muito tempo. Até amanhã!

 


 

Los oasis son siempre espejismos
hay pasiones que niegan el cielo
cuando me quisieron
yo no quise tanto
y cuando he querido
no siempre quisieron


Las palabras no solo definen
hay canciones que guardan misterios
cuando me llamaron
no escuché el mensaje
cuando yo lo quise
no me respondieron


Poco, mucho
algo, casi, casi nada
no siempre se cruzan
todas las miradas


Hay distancias que guardan caricias
y lugares de pocos senderos
mis señales de humo
no encontraron ojos
y llegaron cartas
cuando estaba lejos


En el mar hay tesoros y peces
en el río hay arena y secretos
cuando lo quisiste
no salió la luna
cuando no esperabas
te llovieron besos

 

(Nota: Tirei esta fotografia à chegada, da janela do meu quarto. Os dois barcos de recreio que se vêm nela pertencem a alguém que só vem ao fim de semana. Até lá, são só uma nota decorativa no azul e verde que vejo daqui.)

 

publicado por Ana Vidal às 23:15
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Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Paraíso




Uma praia deserta, a perder de vista. Pinheiros e flores de todas as cores. Mar. Rio. Ninguém por perto. Uma piscina para uns mergulhos e uma espreguiçadeira à espera, depois, com a bênção do sol. Petiscos requintados mas simples. Uma cama enorme, confortável e acolhedora. Uma secretária à janela, com uma vista de cortar a respiração. Saltar da cama de manhã bem cedo, atravessar a passadeira de madeira e afundar os pés na areia quente, ou na água fresca. A aurora e o poente, à minha inteira disposição. Muita música para acompanhar cada hora, todas as horas.

Uma história para arquitectar e arrumar, primeiro na cabeça, e depois, num primeiro esboço, no computador. Meia dúzia de personagens que se vão definindo sozinhas, ganhando personalidade própria e independência, a ponto de deixarem de dar-me satisfações sobre os seus destinos. A surpresa, o prazer e a angústia de todas essas metamorfoses.

Tudo isto será meu por alguns dias, e mal posso esperar. Corro o sério risco de não querer voltar nunca mais...



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publicado por Ana Vidal às 11:33
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Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Porto Sentido



Encontrei o milhafre grave e sério, como diz a canção. Todo o dia tiritou à chuva, abandonado pela primavera. Todo o dia entristeceu num cinzento de chumbo, quem sabe o mesmo chumbo que lhe feriu a asa. Mas o rosto de cantaria recebe-me sempre tão bem, mesmo que seja pardacento o timbre e fechado o jeito, que me apetece, em cada regresso a casa, aliviar-lhe o luto e oferecer-lhe um bocadinho da luz da minha gaivota moura.

publicado por Ana Vidal às 01:31
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Sábado, 12 de Abril de 2008

Dia de abrir envelopes

Há sempre aquele momento. Aquele terrífico e intimidante momento de abrir os envelopes. Olho-os a medo, tentando estabelecer com o exterior, civilizado e inócuo, um pacto de não agressão. É inútil. A desproporção de forças é total, nada a fazer. De que forma poderia eu vingar-me? A ideia absurda deixa-me, pelo menos, um sorriso. Volto a olhá-los, tentando agora outra abordagem: a do optimismo que sempre me salvou, em todas as situações difíceis por que passei na vida. Mas não é fácil, como o foi em tempos, antes daquela vez. Daquela vez em que tudo mudou, em que nem o meu mais delirante optimismo podia iludir o que o Abre-te Sésamo revelava. Nada de tesouros, nada de pérolas e ânforas de ouro. Só uma desolada frase, composta de cinco palavras letais. Todas elas, uma por uma. As palavras também podem ser letais, mesmo sendo feitas com as mesmas letras com que se escreve uma declaração de amor. Nem o pobre "de" parecia inofensivo, no meio delas. Palavras compridas, complicadas, ameaçadoras, fúnebres. Um Requiem em cinco andamentos. Conhecia-as, não me enganaram. Sou filha de médicos, a terminologia arrevezada e áspera não tem grandes segredos para mim. Palavras bastardas de um latim que gerou outras tão bonitas, tão doces. Mas também pariu estas, afinal. Há os bons e os maus em todas as famílias. Aquelas palavras eram as ovelhas negras do latim. Abro sempre os envelopes, eu mesma. Se é de mim que falam, é a mim que têm que dar explicações primeiro. E faço-o sem testemunhas. Não quero que me vejam nos olhos o medo ou a euforia, ambos demasiado íntimos para subirem ao palco. Daquela vez, os envelopes apanharam-me desprevenida. O que traziam dentro era um violento murro no estômago, no meu estômago que não esperava murros. Foi desde aí que nunca mais abri os envelopes com a mesma souplesse, essa alegre certeza de que estava tudo bem. Ficaram-me na memória, gravadas a ferro e fogo, as cinco palavras que eram uma condenação explícita. Sem enfeites, sem disfarces, sem bálsamos. Só a sentença de morte, nua e crua. Mas afinal ganhei eu. Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter que abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.
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publicado por Ana Vidal às 00:05
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Baptizados


Como prometido - tenho que explicar aos leitores incautos que esta é uma private joke entre mim e os amigos Fugidia e Réprobo - aqui está uma fotografia do meu baptizado. Foi em Março e em Sintra (na Igreja de Sta Maria), o que, além do facto de eu ter só um mês de vida, justifica a toilette enchouriçada...
Estou ao colo da minha madrinha, que respondeu ao convite dos meus pais com um longo arrazoado em verso, que acabava assim:
E se não vier chuvinha
(no que temos muita esperança)
irá bonita a madrinha
com um chapéu que veio de França!
Não choveu, pelos vistos.
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publicado por Ana Vidal às 11:38
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Jardim da Preta

Domingo passado, depois do almoço. Subi as escadas do largo do Palácio da Vila, invadido de turistas e famílias portuguesas em passeio. Diriji-me ao guarda de serviço, que olhava o quadro à sua volta com um enfado evidente.

- Boa tarde. O Jardim da Preta está aberto? Posso lá ir?
- Fazer o quê? (O enfado anterior pareceu-me ter passado a ódio. Por mim.)
- Passear, claro. Não posso?
- Não, não pode. O Jardim está fechado há muito tempo, para restauro. (Fantasia minha, ou esta frase de proibição causou-lhe verdadeiro prazer?)
- E quando volta a abrir ao público?
- Não sei. Mas não vai ser tão depressa, está tudo parado.
- Oh, que pena! Não pode abrir-me a porta, só para matar saudades e tirar uma fotografia?
- Não. Não tenho autorização.
Assunto arrumado, portanto. Comecei a afastar-me, triste pela decepção e irritada com tanta antipatia explícita. Fiquei a olhar a porta fechada e o muro branco, tentando divisar alguma coisa do outro lado. Como se tivesse visão raio-x, sei lá. Quando era criança e brincava ali dentro, acreditava nisso e em muito mais. E foi então que alguém me tocou no braço.
- A senhora quer entrar no Jardim da Preta, porquê? (A rapariga fardada tinha um sorriso franco, parecia realmente interessada em dar-me uma alegria. Que diferença do outro!)
- Porque tenho saudades e já não vou lá há muitos anos. E gostava de tirar uma fotografia ao tanque da Preta, só isso. Pode abrir-me a porta, só por um bocadinho? Juro que não demoro. (A esperança renascia em mim, naquele momento, com a força da notícia de uma vitória no euromilhões.)
- Eu não posso, mas acho que está com sorte. Aquele senhor ali (apontava-me um homem de bigode, a um canto) é o encarregado da obra do Jardim. Hoje apareceu por cá e é ele que tem a chave. Peça-lhe, talvez ele deixe. (O tom cúmplice comoveu-me).
Agradeci-lhe e voei para o homem do bigode, com o meu melhor sorriso. Demorei um bocadinho a convencê-lo de que não era uma jornalista a espiolhar incúrias camarárias. Por fim, depois de fazer-me um curto mas cirúrgico inquérito, destinado a confirmar se eu conhecia, como dizia, cada recanto do Jardim (passei com distinção: conheço-o a palmo e de olhos fechados) deu-me a maior alegria que podia dar-me - abriu a porta, trancada com uma velha chave de ferro (Abre-te, Sésamo!) e deu-me passagem para o mundo encantado, mágico e imutável, que é sempre o mundo da nossa infância.
Entrei com lágrimas nos olhos e passos tímidos, como se fosse violar um sacrário. Fiquei por ali um bocado, invadida por uma comoção tão forte que me fazia passar a mão pelos canteiros, pelo tanque, pelas figuras de estuque, esboroado pelo tempo e pelo desleixo de quem devia cuidá-las. Tudo aquilo a precisar de restauro urgente, de facto. "Mas não há verba, minha senhora, é um dó. Isto vai tudo desaparecer". O homem do bigode percebera que eu estava em transe e deixava-me vaguear por ali. Mal o ouvia, nas suas queixas mais do que justificadas contra um poder que nega a recuperação de um património mundial. Ou de um património emocional, como eu o sentia naquele momento. O imponente castelo reflectido na água esverdeada, o grande leão de pedra, a criada preta debruçada no tanque da roupa, o galante fidalgo que a olha, embevecido e apaixonado... e, enfim, todas as infindáveis histórias que a minha imaginação fértil de criança inventou um dia para aquelas figuras, tudo me puxava para uma dimensão mítica, difusa, uma espécie de paraíso perdido.
- Agora tenho mesmo que fechar a porta, minha senhora. Vamos?
Obedeci-lhe, claro. Nem sei há quanto tempo estava ali, obrigando o pobre homem a esperar por mim. Ainda fiz, à pressa, estas fotografias, que não fazem justiça à magia daquele lugar. Agradeci-lhe mais uma vez, ainda comovida. E fui dar um beijo repenicado à rapariga sorridente que me proporcionara todo este luxo (o Jardim da Preta, só para mim!), que ficou a sorrir ainda mais. Se não tivesse vergonha de fazer essas coisas, teria metido uma nota no bolso da farda azul escura, discretamente. Mas não consigo fazê-lo em nenhuma circunstância, tenho sempre medo de ofender o destinatário. Sei que eu me ofenderia, se alguém me fizesse isso. Portanto, disse-lhe só um "obrigada", em voz trémula. E fui passear, feliz.
publicado por Ana Vidal às 00:23
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Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Por mão própria

Hoje à tarde, tocaram à porta aqui em casa. A minha empregada foi abrir e ficou estática, sem conseguir articular palavra. Um sorriso franco abriu-se, do lado de fora da porta:
- Boa tarde. A Ana está em casa?
- N-n-n-não, senhor... - gaguejou ela a custo, corada.
- Então, por favor, entregue-lhe isto quando chegar.
- S-s-s-sim, senhor... - gaguejou ela outra vez. E nem se lembrou de mandar entrar o dono da voz grave e sedutora, de tão embasbacada que estava.
- Obrigado.
A porta fechou-se, e com ela, finalmente, a boca da Maria das Dores.
Quando cheguei, esperava-me o novo CD do Luís Represas "Olhos nos Olhos", que tem duas letras minhas (Por mão própria e O inventor de Abraços), além de um relato literal do diálogo da tarde, contado com todos os pontos e vírgulas e ainda emocionado.
Obrigada, Luís. Já o ouvi e é todo óptimo. E as minhas palavras estão muito bem vestidas, com duas músicas lindas. Foram dois abraços muito bem inventados. E obrigada também por mos ter trazido assim, por mão própria, olhos nos olhos.
publicado por Ana Vidal às 20:26
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Terça-feira, 11 de Março de 2008

Se eu soubesse o que seria, se...

O Paulo Cunha Porto, Réprobo azul e branco que muito prezo, desafia-me a projectar-me em mil coisas, desde os números (que nunca foram o meu forte) até aos climas, imagine-se! Ainda pensei disfarçar, mas a deselegância com os amigos não é o meu pior defeito. Valha-nos isso. Com este e outros argumentos de peso, o meu narcisismo aproveitou logo a perspectiva de um jogo de espelhos para pôr-se em bicos de pés. Acabei por perceber, lendo as respostas de outros, que a pergunta não é tanto "o que seria" mas "o que gostaria de ser". De outro modo, cairia por terra a tese da auto-crítica para dar lugar a um descabelado auto-elogio. Assim é só sonho, ninguém leva a mal. E aqui estou a responder, com a certeza de ficar muito aquém do que seria, se... tivesse juízo!
Se eu fosse um dia da semana, seria... Sexta-feira, mas só se tivesse um Robinson Crusoe para brincar. Tudo menos um Domingo, a não ser que pudesse ser um Plácido.
Se eu fosse um número, seria... o 7. Eu e mais alguns biliões de pessoas, mas é preciso ser-se humilde.
Se eu fosse uma flor, seria... uma Frésia amarela, a minha flor preferida. Se já não as houvesse na florista, então uma hortênsia azul.
Se eu fosse uma direcção, seria... o Sul, definitivamente e cada vez mais. De poucas coisas tenho tanta certeza, e não me perguntem porquê.
Se eu fosse um móvel, seria... uma Chaise-longue bem confortável, estofada a veludo castanho-chocolate.
Se eu fosse um quadro, seria... de Magritte ou de Boticcelli.
Se eu fosse um líquido, seria... um Vinho velho, tinto.
Se eu fosse um pecado, seria… o catálogo completo, com excepção da Inveja e da Avareza (e excluindo também, irritada - eu não excluí a Ira - estes novos pecados modernos com que o Vaticano se lembrou de nos presentear agora, como se estivéssemos mal servidos de culpas e a vida nos fosse fácil...). Não é o Papa que calça Prada?
Se eu fosse uma pedra, seria… uma Safira, a minha pedra astral.
Se eu fosse um metal, seria… Ouro, porque é eterno, macio, e tem um mistério incomparável.
Se eu fosse uma árvore, seria… um Plátano em Outubro, para ter em mim todos os tons que há na paleta do Outono.
Se eu fosse uma fruta, seria… uma Maçã encarnada. Porque sim.
Se eu fosse um clima, seria… um clima desses que pinta às vezes e deixa a gente à toa, ora!
Se eu fosse um instrumento musical, seria… uma Guitarra, dedilhada por um virtuoso.
Se eu fosse um elemento seria… o Ar (o meu signo é de Ar), livre e adaptável a todas as formas. Uma brisa às vezes, outras uma nortada. Um ar da minha graça...
Se eu fosse uma cor, seria… Azul. Em todos os tons e matizes, mas sobretudo o azul-cobalto (a cor do mar na Gruta Azul, em Capri) e o azul-turquesa (a cor do mar na Baía de Carthago). Nem sempre se pode ser original, e recuso-me a escolher o "branco gelo" só para fazer género.
Se eu fosse um animal, seria… um Tigre de Bengala, o mais belo animal que já vi.
Se eu fosse um som, seria… o do Mar, que canta só para mim, às vezes.
Se eu fosse uma canção seria… American Tune, de Bach / Paul Simon.
Se eu fosse um perfume seria… o Eau d'Issey, de homem. Ou o Paloma Picasso, para a noite.
Se eu fosse uma comida, seria… Chocolate. (nem me atrevo a pensar em enumerar outras, porque a lista seria infindável)
Se eu fosse um cheiro, seria… o do Pão acabado de cozer.
Se eu fosse uma palavra, seria... uma Palavra escrita ou cantada.
Se eu fosse um verbo, seria… Amar. Não conheço outro mais completo.
Se eu fosse um objecto seria… uma Mala de viagem, sempre pronta.
Se eu fosse uma peça de roupa seria… uma Camisola de caxemira, directamente sobre a pele.
Se eu fosse uma parte do corpo, seria… os Olhos. Sem eles, não consigo imaginar a vida.
Se eu fosse uma expressão, seria… na Lua. É onde estou, a maior parte do tempo.
Se eu fosse um desenho animado, seria… Tintin, o meu preferido, aventureiro e curioso.
Se eu fosse um filme, seria… As Horas, uma lição para toda a vida.
Se eu fosse uma forma, seria… uma Esfera, que não se deixa apanhar nas esquinas...
Se eu fosse uma estação do ano, seria… o Outono, pela luz e pelas cores. E pelas sonatas que inspira.
Se eu fosse uma frase, seria… esta, de Cecília Meirelles: "Aprendi com a Primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."

Passo o desafio a quem quiser pegar-lhe, que isto dá muito trabalho...

publicado por Ana Vidal às 23:27
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Meia dúzia de nadas

Lá me apanharam em mais uma corrente. Mas, vinda da Leonor, não posso recusar. Assim, deixo aqui as tais "6 insignificâncias" sobre a minha pessoa, que não interessam a ninguém mas que tiveram o mérito de me fazer olhar para dentro. São estas:
    1. Demoro muito a "sair" de um filme de que gostei. Quando se acendem as luzes da sala de cinema e olho à minha volta, tudo me parece estranho: as pessoas, as conversas, o ambiente. Às vezes, um dia inteiro não chega para voltar à realidade. Acontece-me o mesmo com alguns livros.
    2. Adoro flores amarelas: rosas, frésias, narcisos, túlipas.
    3. O mar faz-me uma falta física: se estou muito tempo afastada, começo a entristecer perigosamente.
    4. Perco-me por tapetes orientais. E por chocolates.
    5. Nada tem a capacidade de me comover como a música. E pode ser qualquer uma a ter este efeito, desde a erudita ao fado.
    6. Sou a pessoa mais distraída do mundo, mas sou boa fisionomista. Raramente esqueço uma cara e tenho a mania de encontrar semelhanças entre as pessoas.
    7. Em Itália, sinto-me em casa. Mas é a Índia o meu grande desafio.

E pronto. Eu sei que são 7 e não 6, mas eu gosto mais do número 7 (outra mania minha, também). Passo o desafio ao Pedro Viegas, à Rosarinho, ao Paulo, à Musqueteira, à Meg, à Sofia e ao Pedro SB, que é da casa e por isso responderá aqui mesmo. Se lhe apetecer, claro, como aliás todos os outros.

publicado por Ana Vidal às 14:54
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Momento narcísico


















1. Tenho imensa curiosidade de ouvir isto!

2. Para todos os que me têm perguntado, o meu livro Gente do Sul já está nas livrarias. Aqui ficam algumas sugestões:

  • Livraria Buchholz (à Alexandre Herculano)
  • Livraria Barata (Av. Roma)
  • Livraria Salesiana (C. Ourique)
  • Livraria Obras Completas (Carnaxide/Linda-a-Velha)
  • Livraria Galileu (Cascais)
    Pronto. Já passou.

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publicado por Ana Vidal às 01:55
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Palavras minhas

Pede-me a Leonor Barros que nomeie as 12 palavras de que mais gosto. Difícil tarefa, escolher só 12. Adoro palavras e tenho a veleidade de achar que sou correspondida. Gosto de dizê-las, de escrevê-las, de repeti-las mentalmente, soltas ou em combinações caprichosas que elas próprias tratam de compôr. Dói-me quando as maltratam, como se fossem gente, e alegro-me quando as glorificam. As palavras são um brinquedo eterno e universal, além de absolutamente democrático: todos temos acesso a elas, ao seu mistério, à sua beleza, ao seu peso específico. Com palavras se pode dar vida e com palavras se pode matar. Mesmo os silêncios são feitos de palavras imaginadas, sonhadas, desejadas ou temidas. As palavras dançam à nossa volta durante uma vida inteira, a convidar-nos para o seu baile alucinante. Dancemos com elas.
Vamos às minhas preferidas, então. Não me detive no significado mas talvez na fonética, ou apenas no misterioso eco interior que cada uma delas provoca em mim, sem razão aparente. Aqui estão:
Maresia
Areia
Madrugada
Baía
Luz
Delícia
Cambraia

Ventania
Pele

Silêncio
Voragem
Ilha

Parabéns pela ideia, Leonor. O exercício é estimulante, ao contrário de algumas correntes que andam por aí na blogosfera. E passo o desafio a 12 amigos blogueiros (um por cada palavra preferida): Teresa, Mariav, Capitão-Mor, JuliaML, Pedro Viegas, Jayme Serva, African Queen, RAA, Lord Broken-Pottery, Adelaide Amorim, Sofia e Feitixeira, porque todos eles são gente da palavra. E de palavra.
publicado por Ana Vidal às 19:06
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Gostei


A revista literária brasileira Nós - Fora dos Eixos noticia hoje o prémio recebido pelo meu livro "A Poesia é para Comer".
Desculpem a imodéstia, mas... gostei de ver, claro.
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publicado por Ana Vidal às 22:20
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Obrigada

Obrigada a todos os meus amigos que tiveram a paciência e a coragem de ter ido ontem à Azambuja para o lançamento do meu livro, nesta época em que todo o tempo está ocupado.
E obrigada também a todos os que não puderam estar presentes, e, literalmente, me entupiram o telefone e o computador com mensagens e mails tão queridos que me aqueceram a alma.
A todos agradeço, comovida, porque sei que os amigos são o mais precioso dos bens. E os meus são os melhores do mundo!

publicado por Ana Vidal às 12:36
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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

Receita de Natal

Free Clipart

Pegue num punhado de lembranças de conserva e leve a lume brando em água de memórias, deixando ferver lentamente até que todas venham à superfície. Aromatize com humor e ternura em partes iguais, junte imaginação qb para dar colorido e deixe que ganhem volume. Reserve por algum tempo, mas não demasiado.

Deve ficar uma massa delicada mas consistente, branda e sensível ao tacto. Não deixe esfriar, e vá moldando pequenos instantes (ou grandes, conforme a preferência e o apetite) de formas variadas, recheando-os a gosto com surpresas e inspirações de momento.

Tudo fica bem como recheio: picante, doce e agri-doce, dependendo dos comensais. Sirva quentes, polvilhados de fantasia para decorar (os enfeites são essenciais para o êxito desta receita).

(Nota: Esta é uma receita diferente. Não é para cozinheiros preguiçosos e exige muita dedicação e conhecimentos profundos de arte culinária. Mas compensa tudo. Experimente. Faça uma surpresa a alguém, este Natal.)

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publicado por Ana Vidal às 13:13
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Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Matilde



Em "arrumações e limpeza" de ficheiros de música no computador, encontrei hoje esta canção do meu velho amigo Pedro Guerra (há muito tempo que não o punha aqui, não se podem queixar...) "Matilde (el marido de la peluquera)" e lembrei-me de uma encomenda que tive para traduzi-la, o que me divertiu imenso.
Acabei por não fazer uma tradução nem sequer uma adaptação - achei que o absurdo e as ironias castelhanas perderiam todo o sentido em português - e propus fazer, em vez disso, uma letra completamente nova, mantendo só o tema e o título. Aceitaram, felizmente. Não tenho a versão portuguesa digitalizada mas aqui deixo a letra que fiz e a versão original, uma delícia do surrealismo saída do desconcertante talento do Pedro Guerra.

Matilde (o marido da cabeleireira)

Acordo ensonado
(sete da manhã),
já ela se enfeita,
se pinta, se ajeita,
rói uma maçã.
Atira-me um beijo
e sai apressada,
deixando o feitiço
do corpo roliço
na licra apertada.

Entra no transporte,
empurra e refila.
Como uma guerreira
conquista a cadeira
da primeira fila.
Tão longe a cidade,
tão grande a ambição…
Sai cara a demora,
está quase na hora
de abrir o salão.

Matilde, pequena
princesa de folhetim,
que tortura, que poema,
esses gestos de cinema
à Marylin!

Dá cor e beleza
ao mundo real:
Ninguém, como ela,
faz da Cinderela
uma história banal.
Domina, com graça,
conversas ligeiras,
segredos de alcova
que enrola na escova,
com as cabeleiras.

Regressa à noitinha,
provocante e bela,
e diz-me, ao ouvido,
coisas sem sentido
que ouviu na novela.
Fico atordoado
de orgulho e ciúme,
com medo que, um dia,
tanta fantasia
leve o seu perfume…

Matilde, pequena
princesa de folhetim,
que tortura, que poema,
esses gestos de cinema
à Marylin!
(Nota: A canção tem 2 títulos: "Matilde (...)" e "Nunca Mas". O imeem escolheu o segundo)

publicado por Ana Vidal às 23:08
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Convite

Entretanto, duas boas notícias:

1. Gostava muito de contar com todos no lançamento do meu livro Gente do Sul, que será na Azambuja (eu sei, eu sei, não é exactamente o sítio mais prático. Mas aviso que há comes e bebes, talvez convença assim os mais relutantes...), no próximo dia 15 de Dezembro (sábado) às 18h, no Auditório Municipal de Azambuja. O livro será apresentado pelo Dr. Joaquim Ramos, Presidente da Câmara de Azambuja. Apareçam por lá!


2. Soube agora mesmo que outro livro meu, A Poesia é para Comer, acaba de ganhar um prémio internacional: o Gourmand World Cookbook Award 2007, para o melhor livro português na categoria de Best Food Literature Book. Com este prémio, o livro fica automaticamente candidato ao prémio máximo, o Gourmand Best in the World, cujo vencedor será anunciado em Maio de 2008. Para quem não conhece, os Gourmand World CookBook Awards são uma espécie de Óscares para os livros de Cozinha, atribuídos por um júri internacional e muito concorridos. Só por curiosidade, o criador e presidente destes Prémios (belga ou suiço, não sei bem) chama-se, bem a propósito, Mr. Edouard Cointreau.
publicado por Ana Vidal às 17:24
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