Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Tanto quanto me lembro, foi o primeiro pic-nic a que fomos sem os pais.

 

Os culturais, que aconteciam nos fins-de-semana em visitas a sítios históricos, para que aprendêssemos, vendo, o que nos tinham ensinado nas aulas teóricas da terceira e quarta classe, eram organizados pelos nossos pais e cumpriam a rigor horários já devidamente coordenados com os dos museus e monumentos.

 

Lembro-me sobretudo da visita a Évora, do frondoso sobreiro que nos acolheu para o almoço, e inevitavelmente da Capela dos Ossos, que ainda hoje guardo na memória, tal a surpresa do “ambiente”…

 

Aquele foi diferente. Tínhamos uns treze ou catorze anos, e acabáramos de ser admitidos no Grupo de Nisa, onde todos os outros eram mais velhos que nós. O Sérgio, na altura, já andava na Universidade tinha para aí uns 21 anos, e se bem me lembro a mais próxima de nós em idade era a Bebé, irmã dele, que tinha uns 15 anos.

 

Necessitávamos de fazer boa figura e julgo que terá sido por isso que a minha avó Gabriela nos ofereceu um galo para levarmos para o almoço. A questão começou exactamente nesse pormenor sem importância aparente… o galo, corpulento e bem alimentado, estava ainda vivo! Levá-lo foi fácil, porque a viagem foi de carroça até à quinta dos meus primos, e portanto lá foi ele sossegado no meio dos restantes mantimentos e por entre os pés dos viajantes.

 

O problema começa quando, lá chegados, no meio de toda a algazarra alguém se lembrou de fazer a pergunta óbvia: Bom, então quem é que sabe matar o galo, e prepará-lo para o assar no forno? A segunda parte da pergunta nem era muito difícil, porque aquela quinta acolhia-nos todos os anos para ajudarmos nas vindimas e portanto estava equipada para as refeições para todo o rancho daquelas lides. Mas… e matá-lo, quem é que sabia?

 

Lembro-me que avançámos três corajosos para tal magna tarefa. Já tínhamos visto fazer a “operação” por diversas vezes, na cozinha das casas dos nossos avós, e não deveria ser nada que alguma dificuldade tivesse.

 

Os primeiros momentos, que não vou descrever para não afectar os leitores mais sensíveis, até nem correram nada mal. Nem faltou o habitual alguidar para o aproveitamento do sangue, não fosse algum cozinheiro mais “sabedor” querer iniciar-se numa cabidela. O problema real nasceu quando o trio de intrépidos algozes, dando por findo o seu trabalho, resolveu largar o animal e ir lavar as mãos ao tanque… ainda o sabão azul passava de mão em mão, quando pela quinta ecoava o cantar do galo moribundo…

 

Não contente com isso, e para envergonhar em definitivo o trio de ignorantes ajudantes de cozinha, ensaiava alguns passos cambaleantes, de cabeça pendurada do pescoço e mantendo quase sem fôlego uns acordes do seu cantar altivo.

 

Valeu-nos a caseira que entretanto apareceu, e que pelo meio de alguns impropérios que não posso aqui reproduzir, lá finalizou o nosso trabalho e preparou o bicho para o almoço tardio daquele dia de Setembro.

 

Não me lembro de ter comido uma perna que fosse daquela ave…

 

Ainda hoje, aliás, sempre que recordamos cenas marcantes das férias de Setembro em Nisa, esta não escapa. Ficámos com a fama eterna de peritos em ajudantes de cozinha que é necessário não contratar!

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Pois hoje, não me vou fazer à estrada para vos dar mais ideias de repastos gostosos.

 

Fico-me por Lisboa e também por um almocinho, mas recatado, no mesmo local de outros encontros com os mesmos artistas, e também um pouco apressado para quem em plena sexta-feira tinha ainda de trabalhar da parte da tarde. Lá estiveram o João, a Ana e eu próprio, e uma convidada, a minha filha Catarina que tenta agora iniciar-se no mundo do trabalho, na opção profissional por ela escolhida.

 

Mas porque raio é que eu me lembro de voltar a estes almoços, mesmo que justificado com esta conviva especial? Para agradecer seguramente aos presentes, mas sobretudo para vos dar conta da sensação especial que pessoalmente guardo deste almoço, do que significa deixarmos fluir a amizade, alegre e serenamente, para a geração dos nossos filhos.

 

Estivemos ali, descobrindo caminhos para a Catarina, com e-mails e prevenções cautelosas da Ana, com troca de números de telefone e contactos imediatos do João, e obviamente com a minha estafada mania de contar mais uma história, de me lembrar de mais uma cena complicada pela única discoteca (?) que seguramente existia nos finais dos anos setenta em Ayamonte.

 

Era um mundo estranho, o que descrevíamos para a Catarina, com fronteiras com Espanha a fecharem à meia-noite (até porque não havia mais barcos a partir dessa hora), com pensões que nos davam a chave para abrirmos a porta se nos atrasássemos e chegássemos depois das 11 da noite, sem telemóveis…

 

Dali sobressaíam sobretudo as gargalhadas, os risos menos contidos, as memórias revividas de um trio de amigos, que passava para ela, um pouco incrédula, uma estranha forma de vida, mas também o viver dum simples sentimento de amizade…

 

Deixamos várias hipóteses de caminhos e de ideias. Talvez a Catarina tenha ficado mais sentida e tocada por voltar a ver aqueles amigos do pai, que depois de alguns anos passados ainda se recordam de tanta asneira!

 

Mal sabe ela… enfim…

 

Ao João e à Ana, aqui ficam os meus agradecimentos, sobretudo por aquela sensação inolvidável de podermos passar esta gostosa amizade simples para os que nos seguem. É ela que enfeitará as bordas do caminho que a Catarina seguir.

 

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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Que grande azáfama ia naquele princípio de tarde pela rua da minha avó!

 

O caso não era para menos. No meio da tarde daquele mês de Setembro tínhamo-nos lembrado de fazer uma burricada, ou seja, um passeio com piquenique, onde a deslocação até à quinta do primo Rui – o Retiro – seria feita de burro. Haveria burros para quase todos, embora alguns elementos da organização tivessem de ir de bicicleta para assegurar o habitual apoio logístico…

 

A rua da minha avó fervilhava de agitação porque era necessário fazer a distribuição dos burros, mas antes ainda aparelhá-los devidamente, prendê-los com cuidado para não haver fugas inesperadas, ir dando água aos mais sedentos porque o calor apertava… e claro, gozar com o panorama e as peripécias.

 

A Josefa e o António Tomás não estavam nada contentes, porque muitos dos animais estavam mesmo em frente da casa deles, que ficava mesmo junto da cavalariça dos meus avós. Mas os cachopos da rua estavam deliciados e batiam palmas de cada vez que conseguiam que o burrinho do Ti Camilo se empinasse, o que não era difícil porque ele estava viciado na habilidade. Hoje, até a Tá Ventura assomava à porta da sua taberna para ver o que se passava, embora, com o seu ar rabugento, fosse sol de pouca dura. Rapidamente se recolhia, afastando as ripas de plástico e resmungando com a barulheira que fazíamos com os animais e a vozearia de toda a malta.

 

Antes da partida, o meu irmão e o Joaquim António, os organizadores encartados nas artes equídeas, fizeram o solene aviso: “As burras têm sempre de ir atrás” – havia algumas delas que estavam “saídas” (com o cio) – “e portanto nada de se porem a correr ou a parar a meio do caminho porque se não vamos ter problemas…”

 

O passeio até ao Retiro do primo Rui era felizmente todo feito pelas Devesas de Trás e pela azinhaga que nos levava para a Capela da Senhora da Graça, e por isso não haveria seguramente problemas com o trânsito. As únicas pessoas que encontrámos foram as lavadeiras que tinham ficado à conversa, nos tanques, à saída de Nisa. Por isso até correu tudo bem e com bastante organização (especialmente se comparado com outras organizações do mesmo tipo…).

 

Quer dizer, correu bem à ida e até chegarmos a Nisa, ao fim da tarde…

Na volta, resolvemos passar pelo matadouro e pela fonte que fica no largo, para os burros poderem beber um pouco de água, e subir depois até à porta da vila.  Aí é que a coisa se transtornou…

 

Os burros têm um vício danado, que tem de ser sempre contrariado: quando se apercebem que estão a chegar a casa, aceleram o passo e ficam muito mais teimosos que o costume. Talvez a organização não tivesse feito este aviso a tempo. Pior ainda, quando os primeiros chegaram ao largo da vila, antes da Igreja Matriz, deram com um funeral exactamente a sair da Igreja, e tiveram a excelente e recomendada intenção de parar. O problema é que, por um lado, os burros já tinham percebido que iam para casa, e depois aquela paragem inesperada tinha gerado a desorganização nas prioridades tanto recomendadas.

 

Já estão a ver, não é? O final foi quase de filme cómico italiano.

 

O enterro completamente destroçado, o Padre a fugir para dentro da Igreja novamente, as mulheres embrulhadas nos seus xailes negros de luto pesado, rezavam agora não pelo morto mas pela sua sorte, os cachopos delirantes corriam atrás dos burros e das burras, tentado agarrar uns e outros, para as meninas não se magoarem… e somente os homens que levavam o caixão tinham mantido a calma.

 

Lá estavam, encostados à parede sem arredar pé, limpando o suor da cara e da careca com os lenços todos amarrotados, e sussurrando por entre o silêncio que o momento obrigava: “Esta rapaziada é tramada! Já nem respeitam os mortos! Se já se viu uma coisa destas!”

 

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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

A propósito da recente viagem do Presidente da Republica à Áustria, dizia a imprensa portuguesa que ela tinha sido iniciada com um “encontro de amizade” com austríacos que no pós – II Guerra Mundial, quando eram crianças, tinham sido acolhidos em Portugal.

 

Como já vos contei, estou familiarmente ligado a este facto, e vários foram na verdade os miúdos austríacos que estiveram em Nisa com os meus avós, paternos e maternos, e com várias famílias que nos são próximas. Lembrei-me obviamente da Gretl de la Varre a quem me ligam, ainda hoje, laços de profunda amizade, dos filhos, especialmente do René, que escreveu um livro contando a saga do seu avô paterno e a sua célebre ligação profissional com o Jack Warner, e veio-me ainda à memória a primeira vez que fui à Áustria nos tempos do Colégio, quando fizemos no 6º ano a viagem de finalistas.

 

Alguns “detalhes” dessa viagem ainda hoje me vêm à memória. O primeiro que me ficou gravado no coração foi realmente a gratidão que os austríacos nutrem por nós, em função da nossa disponibilidade e carinho para com as crianças austríacas durante a guerra. Naqueles tempos, a Europa não tinha um grande conceito de Portugal, e em muitos casos nem sequer sabia da nossa existência. Mas em Salzburgo (primeira paragem do nosso périplo) a sensação foi diferente.

 

As típicas senhoras austríacas, de chapéu de veludo verde com uma peninha de ave, vinham tentar meter conversa connosco (felizmente os de letras e direito arranhavam algum alemão…) e perguntavam como estava o país, donde era o nosso Colégio, o que fazíamos ali, etc. Depois, pelas ruas da cidade havia cartazes com propostas de viagem a Portugal, especialmente a Fátima, o que foi para nós uma sensação muito agradável: Portugal falado no estrangeiro era realmente novidade!

 

Depois, lembro-me da nossa chegada a Viena. O camionista não conseguia chegar ao Hotel, e tivemos de perguntar a um carro da polícia que estava estacionado numa das ruas da cidade, para ver se com uma explicação especializada seriamos bem sucedidos. Para nós, os polícias eram aqueles seres inacessíveis, dos quais fugíamos e que sistematicamente procurávamos provocar. Culturalmente, os intelectuais rondariam pelo 1º ciclo do liceu de então, e encontrar algum que conseguisse orientar um turista… era realmente agulha em palheiro. O nosso espanto naquele caso foi, desde logo, a postura. Perfilaram-se, fizeram a continência e disponibilizaram-se desde logo a ouvir-nos. Depois ainda foi melhor, pediram para os seguirmos. Ou seja, andámos pelas ruas de Viena ao fim duma tarde cinzenta de neve, com um carro de polícia a abrir-nos caminho por entre o trânsito, para podermos chegar ao Hotel antes do jantar…  que categoria!

 

Outro episódio que guardo, e que infelizmente ainda hoje permanece nos seus contornos essenciais, tem a ver com a distância do desenvolvimento cultural de ambos os povos.

 

Naquela época, uma das coisas que não perdíamos de forma alguma na programação da televisão, em termos de acontecimento internacional de relevância, era o Festival da Eurovisão da Canção.

 

Assim, depois do jantar, um grupo de doze a quinze, foi dar uma volta e procurar um café onde a rapaziada pudesse ver o festival. Fomos a vários, mas ninguém estava sintonizado no canal certo, e quando pedíamos alguma informação sobre o assunto o desconhecimento era total, ninguém sabia do que se tratava.

 

Que estranho! Então não sabiam o que era o Festival da Eurovisão da Canção? Como era possível?

 

Bem, fomos andando e lá encontrámos um restaurante ainda aberto, e um senhor muito simpático, que nos abriu uma pequena sala só para nós, sintonizou a televisão no canal adequado e só nos pediu para não fazermos muito barulho. Ali ficámos nós, em plena Viena de Áustria, a ver sozinhos o Festival… e a consumir umas coca-colas para não deixar mal o restaurante…

 

Na manhã seguinte, quando nos acomodámos novamente na camioneta para mais uma jornada turística, as perguntas e dúvidas começaram a emergir. Da janela da camioneta, enquanto percorríamos as ruas de Viena tentando encontrar a melhor saída em direcção a Munique, podíamos observar os miúdos a irem para a escola. Sim, as pastas eram quase iguais às nossas, mas todos eles levavam também um instrumento musical às costas. Aqui um violino, ali uma viola, mais ali uma flauta, depois uma trompete…

 

Se calhar, era por isso que não viam o Festival da Eurovisão...

 

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Domingo, 12 de Julho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Obrigado por tudo, Deolinda!

 

Talvez não devesse escrever numa 2ª feira um texto assim, mas gostava muito de deixar este agradecimento a uma pessoa que sofre muito e que a doença vai levar. Visitei-a esta 5ª feira no IPO e ainda pude relembrar, com gosto, aqueles feijõezinhos…

 

Ela já não fala, mas sei o que sente.

 

No primeiro “conto” que escrevi sobre Nisa, há alguns anos, a propósito dum desejo meu dum Natal mais simples e menos materialista, ela é uma das protagonistas. Mas como o texto é um pouco maior que o costume, resolvi publicá-lo no blog da família Fragoso de Almeida e assim a Ana pode endereçar este texto para lá sem forçar a Porta do Vento.

 

É-me muito difícil vê-la sofrer, mas a amizade é também uma presença sentida… e guardo alguma serenidade quando sei que pude estar presente.

 

Aqui fica o meu Obrigado Deolinda, e que Deus a acompanhe sempre no caminho da nova vida. Sei que os feijõezinhos estão preparados para a minha chegada…

 

Até um dia!

 

 

Nota: Por avaria técnica (do meu mail) o Adivinhe quem vem jantar? passará para 3a ou 4a feira, quando a Luísa já tiver voltado de viagem e possa reenviar-me o seu post, que anda perdido na estratosfera. Para já, aqui ficam as Azinhagas do Manecas.

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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Azinhagas da memória

 

Os bailes do Clube, e as madrugadas pelas ruas de Nisa. 

 

Aquelas férias de Setembro foram bem pequenas, mas a culpa, ao fim e ao cabo, foi toda minha. Enquanto os meus primos e irmãos tinham rumado a Nisa no inicio de Setembro, eu tinha ficado por Lisboa por causa do exame de 2ª época de filosofia. Não podia reclamar!

 

Bom, mas se o tempo era pouco, os acontecimentos, esses, sucederam-se em catadupa.

 

Assim que cheguei a Nisa, havia que ir para a Vaquinha (uma quinta dos meus avós que fica a 2 Km da entrada de Nisa) porque o Augusto tinha oferecido uns quantos baldes de tordos para o pessoal se alimentar. Enquanto o repasto não começava, resolvi pegar no carro do meu pai, com ele ao lado, e mais uma vez tentar uma condução pelos caminhos da quinta. A coisa não ia mal, desta vez tinha até superado os solavancos iniciais, mas, com a pressa de recuperar dos exames de Filosofia, meti-me em brios e tentei fazer a curva da saída da quinta em “slide”, e claro… lá parámos o carro contra muro de pedra, felizmente cheiinho de silvas…

 

O ralhete não se fez esperar, tanto mais que no dia seguinte havia o casamento do primo Louro em Castelo Branco, e a família teve de se apresentar de táxi… Enfim!

 

Bom, mas à noite de sábado, depois do casamento, havia baile no Clube, o meu primeiro baile “à séria”…

 

Uma das minhas primas (em Nisa é tudo primo…) mais velha uns aninhos, ensinou-me como se dançava o slow, e desinibiu-me com tantos elogios que muitas vezes me encavacou… também foi Sol de pouca dura, diga-se!

 

Aqueles bailes eram sempre abrilhantados (!?) com conjuntos musicais de nomes a condizer, que percorriam as vilas e aldeias das redondezas sempre com êxitos populares portugueses, e sobretudo com o último grito dos êxitos estrangeiros, cantados com pronúncia inenarrável que passava a constituir o nosso gozo nos dias que se seguiam. As músicas mais populares proporcionavam, de qualquer modo, que o dançar fosse inventado ao momento, num misto entre o rancho folclórico e os embrionários passos de dança que a Mili se tinha esforçado por me ensinar há minutos atrás…

 

Era um sucesso! As velhinhas sentadas nos cadeirões em volta da pista de dança, ficavam sideradas, e no final não se cansavam de gabar os meus dotes… acho que de propósito se esqueciam dos óculos em casa, mas enfim…

 

O melhor de tudo era quando o arraial acabava e vínhamos a pé para casa. O céu tinha aquele misto de azul suave e laranja forte que já antecipava mais um dia de calor, e os homens e mulheres começavam a acenar às portas para mais um dia de labuta no campo. A essas horas, passávamos pelas vendedeiras que se dirigiam para o mercado, levando os legumes frescos, a fruta, os queijos, e sobretudo o pão de Nisa e os bolos dormidos ainda quentinhos…

 

Ao ver-nos naquela madrugada, a comadre Hermínia, com o seu tabuleiro de madeira à cabeça cheio de bolos dormidos, não hesitou nem um bocadinho e deu-nos, a mim e aos meus primos, um bolo ainda quentinho:

 

- Tomem lá, que ainda estão quentinhos, e os meninos devem estar cheios de fome...!!!

 

 Que delicia de madrugada!

 

PS – Não se preocupem: na 2ª feira seguinte, quando fui ver a nota, tinha dispensado da oral!

 

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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Lembrando a Gretl De la Varre

 

Depois de a Ana ter escrito, com a mestria habitual, sobre o acordo ortográfico, pensei contar uma história sobre uma miúda austríaca que ainda hoje escreve em português.

 

Em Nisa, no tempo da II Grande Guerra, várias famílias acolheram miúdos refugiados austríacos que ficaram algum tempo em Portugal, e que ainda hoje têm um carinho especial pelo nosso país.

 

A Greta (como nós lhe chamamos), que é para toda a família uma pessoa sempre presente e de quem todos gostamos do fundo do coração, foi uma dessas crianças que fugiu à guerra e que, durante o tempo em que esteve em Nisa, aprendeu o português devido à paciência da minha avó materna (a quem ela carinhosamente sempre tratou por “Fruzinha”), que diariamente a obrigava a fazer um ditado de português.

 

Hoje, com mais de setenta anos, vive nos USA (Florida) com uma filha, continua a ser uma bonita viúva e avó, e ainda escreve à minha mãe para nos enviar fotografias dos netos, para nos contar o tempo que passa com os filhos, e sobretudo para nos dizer as saudades que tem de Portugal, e quanto recorda Nisa.

 

Casou com um americano, André de la Varre, que também conheci e que era uma simpatia, e espantoso para nós miúdos, mesmo não falando português. Substituía essa dificuldade com acções teatrais inolvidáveis, que punham a minha avó perplexa, mas que nos deixavam felizes, como por exemplo imitando um macaco à mesa do almoço com uma banana na boca e aos saltos em cima da cadeira…

 

No dia 6 de Junho, quando se comemora o dia D, descobri, com a ajuda de várias dicas familiares e por pesquisa na Internet, algumas curiosidades sobre esta família que me deram um prazer enorme. Primeiro, descobri a lista de passageiros do paquete “Normandie”, do dia 23 de Setembro de 1936, que fez a travessia entre Le Havre, Southampton e Nova York, e lá vem o senhor André De La Varre e sua esposa. Estes são os pais do André, que emigraram para a América fugindo da guerra e cujo filho, com o mesmo nome, vos acabei de apresentar.

 

Depois, cheguei a uma pequena bibliografia do avô, escrita por um filho do André e da Gretl, o René, com quem brinquei várias vezes em Nisa e também em Lisboa, onde ele conta os inúmeros filmes que o avô fez, tendo trabalhado entre outros com Jack Warner. Esse mesmo, o fundador da Warner!

O André dizia muitas vezes que em miúdo andava de bicicleta pelos estúdios em Hollywood, mas cá por mim julgava que era mais uma brincadeira…

 

Deixo-vos o link para comprovarem, e não julgarem agora que sou eu que estou a inventar:

http://www.burtonholmes.org/associates/andredelavarre.html

 

Bom, e depois constatei também que o René (que é o filho mais velho da Gretl e do André) escreveu um livro a propósito desta saga dos De La Varre, e na capa lá está o André e ele próprio tal como eu o conheci em Nisa e cuja reprodução deixo convosco.

 

 

Não sei se estou a abusar da bondade da Ana em me deixar vir aqui “botar escritura” de vez em quando, mas penso que reuni várias lembranças que me sensibilizam ou que me tocam de uma só vez:

 

- Dizer à Ana que ainda há pessoas que, lá longe, escrevem português (cheio de erros agora, mas fazem esse esforço em nosso nome!) e nos agradecem o acolhimento dos tempos difíceis.

- Homenagear humildemente a Greta, com este post, para que se saiba que muitos portugueses também lhe agradecem, pelo exemplo duma vida, e especialmente a minha família lhe agradecerá sempre pela sua doçura e simpatia.

- Agradecer ao René e aos irmãos – o Byron e a Trilauny – a lembrança que nos deixaram do avô e do pai.

- Lembrar para sempre o André, que todos guardamos na memória, e que um acidente tão estúpido nos levou dum sempre alegre convívio.

 

São azinhagas da memória bem internacionais, mas a emoção se calhar é maior, porque a estrela principal – a Greta – deixou seguramente muitas lágrimas em Nisa…  felizmente, as mais recentes, de saudade e de emoção do reencontro.

 

 

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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

O calor era abrasador!

 

As poucas árvores que bordejavam o caminho, discutindo as nesgas dos muros de pedra com as silvas secas, pareciam não ter forças sequer para dar aos caminhantes uma simples sombra, quanto mais conseguir dar-nos um arzinho fresco.

 

Descemos para descansar um pouco o pobre burro que tínhamos pedido emprestado ao meu avô… andámos um pouco a pé, mas o receio de cada passo era arrepiante. Parecia que o restolho seco, de tão agreste, haveria de pegar fogo às tapadas em volta…

Mas o que é que estávamos ali a fazer?

 

Bom, isso era meio complicado de explicar… tinha havido, obviamente, uma zanga! Os mais velhos tinham conseguido pedir emprestados dois cavalos e, sem nos dizer nada, prepararam um passeio pelo campo com piquenique e tudo.

 

Nós, para não nos ficarmos, respondemos na mesma moeda. A charrette, fomos buscar ao primo António Carmona, o burro que pedimos ao avô Jaime era velhote mas ainda tinha vigor suficiente para nos transportar aos três, e os arreios estavam garantidos pelo armário que o meu irmão e o Joaquim António tinham arranjado a rigor na cavalariça do nosso bisavô, sempre pronto para nos apoiar, e sobretudo para autorizar o que a minha avó Gabriela não nos deixava fazer.

 

Escolhemos, para o nosso passeio de retaliação, ir visitar o Zé Baptista à Asseiceira, que nos esperava à porta da queijeira, apoiado no cajado, e limpando o suor da careca com o lenço, que usava previdentemente entre a cabeça e o chapéu, meio roto pelos inúmeros estios e invernias acumuladas…

Tudo tinha corrido bem até ali.

 

Mas na volta, a caminho de Nisa, com o cansaço do burro, a areia do caminho, as covas endurecidas pela falta de água, e sobretudo a sonolência que a gordura exagerada do meu primo imprimia à moleza das rédeas, deu-se o inevitável… o burro tropeçou, caiu no meio da azinhaga, ficando todo ferido nos joelhos, os varais da charrette partiram-se, e nós fomos projectados um para cima do burro, que ainda esperneava, e os outros dois aterrámos, todos esfolados, por entre as pedras e a areia daquele maldito caminho.

 

Por sorte, passou por nós de bicicleta o João da Burra, que lá nos ajudou nos arranjos possíveis. O pastor daquela tapada ficou mais exposto a algum vento nocturno, com a redução dos arames que lhe tirámos da cabana improvisada com serapilheira e palha, ainda antes bem seguros… mas era preciso voltar a prender os varais da charrette,  para seguirmos viagem…

 

Com umas folhas de figueira limpámos como pudemos os joelhos do burro, e a coisa lá se compôs. Precisávamos somente de começar a planear uma historiazinha para que o meu avô, o meu primo, etc., não nos aplicassem um correctivo demasiadamente duro.

Cada um dava a sua ideia, enquanto caminhávamos ao lado da charrette e do sinistrado burro. Primeiro, iríamos directo ao ferrador que devia arranjar os varais, depois o burro ficava na cavalariça do meu bisavô, porque tínhamos chegado tarde e não convinha. A coisa já estava praticamente alinhavada e melhor planeada, quando chegámos à estrada alcatroada. Já só faltavam 5 Km, e agora o caminho era bem melhor…

 

O pior foi o arrepio que todos sentimos, mesmo debaixo do calor tórrido, quando passou por nós uma mulherzinha com um cântaro à cabeça e que voltava da vila. “Então os meninos estão bem? Lá em Nisa, já se sabe que os meninos tiveram um desastre de carroça e o que o burro ficou todo desgraçado! Olhe que o seu primo António já vos está a preparar o sermão, e ele não costuma ser nada de brincadeiras!”

 

Até hoje ainda não encontrei um canal de informação tão perfeito, rápido e fluente… que coisa! Ainda nós íamos e já a notícia vinha ao nosso encontro…

 

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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

E logo hoje, que não fizemos nada de errado!

 

A Madre Superiora do Hospital de Nisa nem queria acreditar, enquanto fazia os tratamentos para extrair o ferrão daquele enorme besouro, e aliviava como podia as dores da mão direita do João Maria:

 

“Mas como é que o João levou uma ferroada destas? O que é que andavam a fazer logo de manhã?

 

Era melhor não explicar.

 

Estávamos logo cedinho no quintal da casa da Alameda, a vasculhar a casa da lenha, quando o João Maria viu um enorme besouro a esvoaçar junto das flores do jardim… a atracção foi tão grande que, sem eu ter tempo de o parar, resolveu apanhar o besouro como a mão e fechá-la, não fosse ele fugir…

A ferroada e o berro foram tão grandes que até a minha irmã, que dormia no último andar, apareceu toda ensonada à janela do quarto para ver o que se passava…

 

Lá montei o João Maria no porta-bagagem da minha bicicleta, e aparecemos todos sujos e suados a correr pelos corredores do Hospital. A Madre Superiora conteve-se no ralhete, quando viu que tamanha algazarra devia ter alguma justificação… mas nunca na vida acreditaria que o João Maria tinha agarrado aquele enorme besouro…

 

Se o dia já não tinha começado bem, também o almoço não foi bom conselheiro e a asneirada continuou. Do hospital fomos a correr para a Quinta do Parreirão, onde tínhamos combinado com os restantes cachopos estar antes do almoço, para as combinações do costume. No caminho, encontrámos um cachorrinho abandonado, muito engraçado, e passámos a ter uma ocupação para aquela manhã acidentada: alimentá-lo a preceito, porque estava tão magrinho que mal se tinha em pé.

 

Dito e feito, até porque o “Ti Paules”, assim que me viu aparecer com o cãozinho ao colo, já sabia o pedido que se seguia. Deixámo-lo a comer, com recomendações de especial atenção aos caseiros da quinta enquanto debandámos para o almoço. As sonoras badaladas da uma no relógio da torre eram o sinal de que todos em casa já deviam estar sentados, e lá tive de justificar o atraso e o motivo de força maior.

 

O princípio da tarde não foi bom conselheiro… assim que voltámos à quinta já estava o Manuel da Graça com um balde e sabão azul, tirando agilmente a água do poço para um alguidar de plástico, e foi no meio dum alarido enorme que aquele bando de cachopos da rua se lembrou de alindar o cãozinho com um banho frio e demoradas esfregadelas para tirarmos a sujidade, enquanto os mais conhecedores lhe catavam as pulgas e se divertiam a rebentar as carraças que conseguiam retirar das orelhas do pobre animal.

 

O destino do cachorrinho ficou logo ali traçado… uma lauta refeição seguida dum demorado banho frio não lembraria a ninguém. Naquele dia, improvisámos a preceito a campa do nosso cachorrinho, que ficou lembrada com a necessária cruz feita duns pauzinhos todos tortos e dumas flores roubadas dos canteiros da minha avó…

 

Porque é que o cachorrinho teria morrido tão de repente, perguntávamos todos de lágrima no olho…

 

- Hoje não era o meu dia, rematava o João Maria, ainda com a mão entrapada.

 

Efectivamente, e logo hoje que nem tínhamos feito nada de errado…

 

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Sábado, 18 de Abril de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Meu Deus, como estava frio naquela manhã!

 

Enrosquei-me todo nos lençóis, puxando os três cobertores para cima, e deixando que o relógio da torre me voltasse a acordar um bocadinho depois… eu bem sabia que tinha combinado com o João Maria estar lá em casa cedo, para darmos a comida aos porquinhos-da-índia, mas estava mesmo um gelo, e ali no quarto, pelo menos, estava tão quentinho…

 

Acabou a preguiça, já bateram as nove e agora é que tem mesmo de ser! Convém vestir-me rapidamente para ver se a minha mãe não me obriga a tomar banho, e descer as escadas a correr, já vestido e com a nova samarra ,comprada no mercado na última 5ª feira. Assim, já não há argumentos para me moerem a cabeça com essa questão do banho da manhã…

 

- Bom dia Comadre Nazaré! O João Maria já acordou, ou ainda está a dormir? 

- Oh menino, claro que já acordou, com este frio, nós acordamos lá para as cinco da manhã e já não conseguimos dormir. Ele disse-me que o menino ia lá ter a casa. 

 

O João Maria era um dos filhos da comadre Nazaré, uma das criadas da minha Avó, e um dos meus melhores amigos das brincadeiras de rua, e das aventuras pelo campo… aquela resposta da Comadre Nazaré chamava-me à razão sobre a distância dos nossos mundos, mas os pensamentos já estavam mais na comida que havíamos de dar à criação…

 

A entrada em casa da Comadre Nazaré fez-me, no entanto, voltar a pensar nos outros viveres… que susto apanhei! A porta estava no trinco e entrei por ali dentro direito ao quarto do João Maria. O corredor estava escuro, só iluminado pela luz do dia que entrava pelo postigo entreaberto da porta da cozinha, que dava para o quintal. A laje do chão, mal alinhada e com falhas de pedras, brilhava com a humidade e mais fazia ressaltar o frio, que ali era praticamente igual ao da rua.

 

De repente vejo aparecer o vulto enorme e cambaleante do Compadre Escarumba. Foi difícil passar por ele naquele corredor quase sem luz. A bebedeira da véspera ainda o fazia amparar na estreita parede do corredor, alternando a direita e a esquerda, e muitas vezes dando passos atrás, querendo seguir em frente. Depois, aquela voz, consumida pelos maços sucessivos de “mata-ratos”, era ainda mais aterradora quando misturada com os restos da garrafa do carrascão da noite, que ainda balouçava na mão, e que tive de evitar quando me afoitei a esgueirar-me por baixo daqueles enormes braços e evitando ser apanhado pela manápula livre…

 

O João Maria, afinal, estava deitado na cama mas estava vestido, as calças sebosas que se aguentavam com uns suspensórios já de uma só alça, e também com aquelas botas todas rotas.  Nem fiz perguntas. A cara encarnada do lado direito e o sangue que ele tentava estancar do nariz, diziam-me que tinha sido ele a pagar pelo mau vinho da última noite.  Limpámos o nariz com o trapo que tínhamos mais à mão, apanhado à pressa do chão, e fugimos para o quintal.

 

- Deixa lá, vamos mas é tratar dos bichos! Corre que ele já está no fim do corredor e não consegue voltar para trás.

 

Até a água dos bebedouros tinha congelado! Tivemos de andar a partir a camada de gelo para os coelhos, os porquinhos-da-índia, os patos, as galinhas poderem beber alguma água.  Foi um gozo! A maneira do João Maria esquecer os sopapos matinais, e de desatarmos a rir com gosto, do susto que eu tinha apanhado quando enfrentei o monstro do corredor…!

 

Agora já podíamos ir para a rua! Íamos ter com os restantes cachopos da rua para as traseiras do cinema, onde estava combinado reunirmo-nos para combinar a caçada da tarde. Cada grupo de três ou quatro tinha de apanhar um cão vadio nas ruas, ou pelos campos ao pé da vila, e depois de lhes darmos alguma comida - normalmente apanhávamos pão duro na cozinha dos meus avós, mais uns ossos que pedíamos no talho do Canhoto – ficavam nossos. Depois, era só atar-lhes uma corda em volta do pescoço, passeá-los um pouco, para se habituarem aos donos, e dar-lhes umas vozes de comando, o que constituía o módulo de ensino que conhecíamos, e eles haviam de fazer boa figura na caçada da tarde, na tapada que ficava ao pé da horta da avó Cristina.

 

Claro que a caçada era mais uma correria desgraçada atrás dos cães, que, assim que se viam à solta, fugiam daquele bando de doidos que por desdita lhes tinham aparecido na vida… mas não todos, que o Victor naquele dia fez batota e tinha ido a casa buscar o cão do pai que era mesmo de caça, um perdigueiro todo bem tratado, e que realmente era um gosto ver caçar.

 

Um gosto para todos, menos para o Victor... quando à tardinha nos sentámos todos no muro da escola, o Victor já não apareceu. Tinha apanhado uma sova e ficado de castigo, por andar a estragar todo o treino que o pai tinha dado ao perdigueiro…

 

Também, pensávamos nós todos, na galhofa, tanto treino e só conseguiu levantar uma cobra debaixo dum pedregulho… que rico treino!!!

 

 

publicado por Ana Vidal às 11:12
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Sábado, 14 de Março de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Bácoros debaixo de fogo


As azinhagas com memória são normalmente emanadas dos trilhos das minhas escapadelas por terras de Nisa. A imagem lá de cima é desse lugar, de onde normalmente parto para me embrenhar nas recordações de azinhagas, rebanhos e pastores, chuvadas, e estios abrasadores, passeios de bicicleta, burricadas, passeios de charrete e a cavalo – a rua dos meus avós…

 

Mas hoje resolvi contar-vos uma passagem de ano que tivemos numa quinta da Ana, por terras da Azambuja. Éramos um grupo grande e divertido. Nós não éramos muito bons da cabeça, isoladamente. Em conjunto, a concorrência era tremenda e a coisa, nitidamente, piorava… 

 

A organização foi praticamente nula. Para quê? Reunia-se uns croquetes trazidos dum lado, com a sopa da casa das manas e primas, juntava-se o vinho de Estremoz ao da região, uns bolinhos de um qualquer café inadvertidamente aberto no caminho entre Lisboa e a Azambuja, e não havia de ser preciso mais nada.

 

Os festejos, as gargalhadas, as asneiras, as partidas espontâneas, as conversas intermináveis, as confidências dos mais chegados, a descrição pormenorizada dos últimos “copianços” na Universidade, a conversa mais íntima inacabada e o inevitável corte na casaca de algum ausente, ou o gozo sussurrado com algum atadinho ou matrona presentes à última da hora… e, como é bom de ver, sobretudo o gozo tremendo de estarmos todos juntos, isso sim, isso estava seguramente garantido! Ninguém estranhou, portanto, que a chegada antes da meia-noite à dita quinta fosse um pouco atribulada. As anfitriãs lá estavam… mas, e nós, que vínhamos de Lisboa? A partida foi retardada pelos últimos conselhos do pai da T., ainda tivemos de ir buscar o M., que até à última sempre duvidava se devia ir ou se era melhor não ir…  

 

Enfiim, quando chegámos, dava na rádio do carro do J. o sinal horário da meia-noite! Passámos, portanto, o ano na saída apressada dos carros para o tardio mas estridente rebentar da garrafa do espumante, e… surpresa total: a P. tinha desencantado, ninguém sabe ainda hoje onde, três foguetes. Isso mesmo, foguetes das romarias e festas de aldeia, e lembrou-se de perguntar alto e bom som: Quem é que sabe lançar foguetes?  

 

A resposta pronta do Z. – “Eu tenho experiência perfeita na matéria!” – só convenceu quem não o conhecesse… mas, claro, os foguetes tinham agora o destino marcado!  Apontámos, eu, o J. e o Z., os ditos ao Céu, chegámos-lhes o necessário lume e, seguindo as sapientes indicações do Z., deixámos os foguetes seguir o seu caminho, que no rasto devem ter deixado as marcas da nossa ignorância e inconsciência…  

 

Resultado? Bem, em vez de se apaixonarem pelas estrelas brilhantes daquela noite, os foguetes enveredaram por um movimento de balística rasante ao terreiro onde estávamos, e desceram estridentemente a encosta…!  

 

A pergunta seguinte do trio lançador foi quase em coro: “P., aquelas casas lá em baixo, o que são…?” Eram as pocilgas da quinta. A risada e as gargalhadas foram generalizadas… e ainda hoje nos perguntamos se, naquele ano, o habitual fenómeno do Entroncamento não se terá mudado para a Azambuja, com alguns bacorozinhos deformados ou marrãs com depressão profunda…  

 

Lembras-te, Ana?

 

 

publicado por Ana Vidal às 15:30
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Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Azinhagas da memória


Manuel Fragoso de Almeida

 

 

Ao guardião das minhas azinhagas

 

 

Aquela boleia desde Lisboa, tinha sabido mesmo bem…

 

O almocinho feito pelas mãos já trémulas mas sabedoras da srª Hermínia, já estava pronto de certeza, depois era só mudar de roupa – aquela que ficava sempre no guarda-vestidos do quarto do fundo e que já só servia mesmo para me sujar pelo campo… – calçar as botas – deviam estar ainda no primeiro degrau das escadas de madeira que iam para o sótão, e ir buscar a bicicleta à garagem - a do meu irmão, claro, que sempre era de marca francesa e o pneu 26 era mesmo à minha medida. 

 

Tudo bateu certo, excepto os pneus da bicicleta! Estavam vazios, e como o António Tomás não havia meio de aparecer, lá tive de ir a pé até ao posto de gasolina da Sacor para o sr. Luís me encher os pneus. Já me estava a atrasar, e o tempo ameaçava mesmo. Aquele céu negro por detrás do relógio da vila, não enganava… E a comadre Nazaré que já me lia os pensamentos: “Onde é que o menino vai? Não está mesmo a ver que vem aí chuva da grossa? Olhe que a sua avozinha fica ralada!” 

 

Eu bem sabia que tinha de me safar rapidamente! Mas a azáfama da minha avó era grande. Na Páscoa havia essa vantagem, as senhoras andavam todas entretidas com as toalhas, os paramentos, as imagens…Tudo tinha de estar preparado para as procissões e para as cerimónias da Semana Santa, e isso para mim era uma oportunidade…escapava-me com mais facilidade… 

 

“Oh Nazaré, não se preocupe, eu vou visitar o Zé Batista à Asseiceira. Diga à minha avó que eu chego a tempo de tomar banho, jantar, e ainda vou à procissão”. Era uma fartura! A primeira parte era certa, as outras, logo se via… 

 

O caminho estava uma delícia. Agora já chovia que Deus a mandava e aquela subida do lagar de azeite do avô Jaime, era mesmo só para os melhores, mas ainda estávamos na estrada de alcatrão. Seguiam-se as azinhagas. Que maravilha, estava tudo cheio de água, as barrocas pareciam autênticas ribeiras, mas ninguém me detinha naqueles quase 10Km, até começar a ouvir as ovelhas do Zé Batista, já todas guardadas nas cabanas ao pé da casa da tapada da Asseiceira. 

 

“Oh, menino Manel, atão vossemecê meteu-se ao caminho com um tempo destes?” Só mesmo o menino para me fazer uma visita com o tempo assim… Ai valha-me Deus!” 

 

Realmente ele tinha razão. Já foi debaixo duma forte chuvada que tivemos de ir atar melhor o oleado que cobria as ovelhas, ainda à espera de serem ordenhadas, e mesmo os rafeiros foram meter-se por entre as pernas do Zé Batista para ver se conseguiam um lugarzinho à beira do lume… 

 

Agora estávamos abrigados. O vento lá fora uivava e passava forte por entre as paredes da casa. A porta batia nos trincos, toda carcomida pelos anos, ao calor tórrido do verão, à chuva e frio gélido dos invernos rigorosos. De que servia fechá-la…? 

 

Eu não podia estar melhor! Ao lume do chão, ia-me secando da molha, sentado numa cadeira já velha em que me tentava equilibrar. Aos meus pés ronronava o sortudo dum gatinho que nem eu percebi donde tinha aparecido, e os próprios rafeiros o contemplavam sem rosnar, não fosse o Zé mandá-los lá para fora… 

 

Melhor que tudo, saboreava aquela broa com o queijo acompanhado dum tinto com o qual não havia possibilidade de sentir frio. O Zé Baptista, cuidava, com as mãos frias, de pressionar metodicamente o leite gordo de fazer o maravilhoso queijo, que ia pondo a curar nas prateleiras com toalhas de palha. E enquanto isso, contava-me as histórias infindáveis da sua vida de pastor, da sua Maria, que já estava no asilo, do Sr. Zé da Graça que não dava em aparecer na carroça, do sr. Vigário que se tinha recusado a ir ao Cacheiro, do menino Joaquim António que já só queria era estar em Lisboa, e do Ti Camilo que tinha morrido sem os doutores saberem bem de quê… 

 

O vento continuava forte, mas agora a chuva tinha parado. Era a altura de fechar o postigo da porta e desatar a toda velocidade pelas mesmas azinhagas não fossem as sete horas bater no relógio da vila e eu ainda estar no caminho. Olhei para trás, já depois de passar as ovelhas, e ainda ouvi o Zé Batista: “Ai este menino Manel, este menino Manel, do que ele se havia de lembrar, num dia destes…!” 

 

E cheguei a horas do jantar… com o banho tomado, claro !!! 

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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