Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Dizer o Amor

 

 

Para a minha geração o verbo amar não se conjuga em voz alta, porque as pessoas da minha geração não sabem dizer o amor. Sabem senti-lo, sabem fazê-lo e sabem sentir-lhe a falta. Sabem dá-lo e recebê-lo sem reservas, sabem viver com ele e até morrer por ele. Mas não sabem dizê-lo.

 

Não falo, evidentemente, dos poetas, prosadores e letristas. Esses tratam as palavras por tu, afagam-nas e brincam com elas como se fossem brinquedos. Refiro-me aos cidadãos comuns, reféns de um estranho atavismo geracional que aboliu, sem apelo nem agravo, a confissão expressa do mais belo sentimento que existe.

 

Quando começámos a ter idade para os primeiros namoros, o léxico de que dispúnhamos era limitadíssimo: era francamente "possidónio" ir além do tímido gosto de ti. Gosto muito de ti ainda era admissível, mas ficava reservado para os momentos mais empolgados. E tudo tinha que ficar dito assim, de uma forma acanhada e pobre, entregue à imaginação e interpretação de quem recebia a mensagem. Depois, saltava-se do gosto de ti para a enorme desproporção do adoro-te. Pelo meio, irremediavelmente proscrito, ficava o tal amo-te que era absolutamente impensável, caso mesmo para a total desclassificação social. E assim crescemos e amámos, impedidos de exprimir com inteira liberdade o que sentíamos, privados de um verbo essencial. Aprendemos a socorrer-nos de truques - a tradução para outras línguas - je t'aime ou I love you eram não só expressões permitidas como muito apreciadas. As canções românticas falavam por nós, livres do preconceito linguístico. Eram a nossa vingança. Também os cantores brasileiros eram, muitas vezes, os nossos preciosos Cyranos, acrescentando o mel da pronúncia ao proibidíssimo eu te amo.

 

Hoje em dia tudo isso mudou radicalmente, a ponto de termos caído no extremo oposto. Antes assim, apesar de tudo. Mas quando vejo os concorrentes de um qualquer reality show, de lágrima ao canto do olho, esbanjarem pungentes "amo-te muito" com total displicência, atirando-os através do ecrã aos avós, pais, namoradas e animais de estimação (praticamente em igualdade de circunstâncias), lembro-me da falta que me fizeram esses mimos quando queria pronunciá-los e não podia. Porque não me ficava bem dizê-los. Porque arranhavam o ouvido e se enrolavam na língua, não tanto por culpa de uma fonética arrevesada como de um preconceito idiota.

 

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publicado por Ana Vidal às 21:45
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Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Blind dates?

 

 

Discutia-se há dias, no blogue da Cristina Ribeiro, as vantagens e desvantagens da net como veículo de conhecimento e aproximação das pessoas. Houve quem defendesse que o contacto virtual nunca poderá comparar-se ao real (e muito menos substituí-lo) porque no primeiro falta a expressão do olhar, o toque, o cheiro, etc. Tudo isso me parece inegável, e penso que todos estaremos de acordo quanto a essas lacunas. Há também as perversões e embustes de toda a ordem, que podem facilmente fazer vítimas entre os mais crédulos e indefesos utilizadores da rede. Todos os dias somos confrontados com notícias alarmantes, que nos dão conta da utilização abusiva deste meio para os mais tenebrosos fins.

 

Mas há também, como em quase tudo na vida, o outro lado da moeda: a net pode preencher solidões inapeláveis; aproximar gente com afinidades óbvias que nunca se conheceria de outro modo (até por razões geográficas); criar sólidas amizades e até fazer nascer amores, tão duráveis como quaisquer outros. Lembro-me de ter sugerido, nessa mesma discussão, que uma das vantagens deste modo de nos comunicarmos é precisamente a de anular as barreiras do físico. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, isto pode ser bom, porque não inferioriza ninguém e dá, a todos, iguais oportunidades. Disse-o de forma intuitiva, sem pensar muito no assunto. Mas ontem tive a prova cabal de que essa ausência de visualização nos contactos via net dá, aos mais desfavorecidos fisicamente, enormes benefícios. Enquanto esperava a minha vez numa fila interminável para um guichet, ouvi esta curiosa conversa à minha frente:

 

- Então… mas você casou-se??? (o espanto não disfarçado vinha de uma vamp oxigenada, “vestida para matar” às nove e meia da manhã. Os homens presentes olhavam-na de alto a baixo, agradecidos por aquela boa surpresa num sítio de tédio inescapável).

 

- Pois casei… e nunca pensei ser tão feliz! (respondeu-lhe uma gorda anormalmente baixa, quase anã, feiota e desengonçada. O contraste entre as duas era flagrante, e eu apostaria a cabeça em que nenhum homem ali tinha, sequer, dado pela presença dela).

 

- Mas onde é que conheceu o seu marido? (a tradução literal para a pergunta era óbvia: “mas como é que alguém te pegou?”).

 

- Olhe… foi na net! Namorámos durante muito tempo só por mail e no msn, depois pelo telefone. E eu nunca lhe mandei uma fotografia, tinha medo de que ele nunca mais me ligasse. Mas ele tanto insistiu que eu lá ganhei coragem e, finalmente, ao fim de três meses combinámos um encontro. E foi um sonho… ele disse que eu era a mulher da vida dele! Mas assim, quando ele me viu já sabia como eu era por dentro e já estava apaixonado por aquilo que eu sou, por isso já não ligou às aparências… veja lá que ele até acha que eu sou bonita!!

 

- E ele, é bonito? (a pergunta não tinha nada de inocente. Nos olhos da outra lia-se um misto de inveja e sarcasmo, como se tudo o que quisesse fosse confirmar que “ao menos não se estragaram duas casas”).

 

- Ele? É lindo!!! Bem… você se calhar não achava, mas… para mim, é!

 

publicado por Ana Vidal às 13:10
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Domingo, 6 de Julho de 2008

Beijo de chocolate

"Cientistas revelam que comer um pedaço de chocolate é mais estimulante para o ritmo cardíaco e para o cérebro do que dar um beijo apaixonado".

 

 

Como amante confessa de chocolate e apreciadora de ritmos cardíacos e cerebrais estimulantes, proponho então que usemos a imaginação e... juntemos ambos: um beijo de chocolate pode produzir um estado de extra-lucidez difícil de superar, e um batimento cardíaco só comparável a um solo de bateria do Omar Hakim ou do Phil Collins...

 

Parece-me um excelente exercício para o Verão.

 

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publicado por Ana Vidal às 00:15
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Sábado, 28 de Junho de 2008

Paixões

 

Por causa destas confissões colectivas sobre as primeiras paixões, lembrei-me de um provérbio francês que vem a propósito e é delicioso:

 

L'amour platonique est toujours plat... et jamais tonique!

 

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publicado por Ana Vidal às 12:17
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Love hurts...

Embirro com datas impostas pelo comércio, mas este video é irresistível.
O amor também é humor.

Se não conseguir ver o video, experimente aqui.
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publicado por Ana Vidal às 20:11
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Sábado, 5 de Janeiro de 2008

De Istambul, com amor

Entre mim e Istambul há uma paixão antiga. Começou há muitos anos, com um pianissimo e inocente flirt que prometia grandes voos, mas afinal se deixou adormecer devagarinho e acabou por ser cilindrado pela voragem da vida. Mas o limbo do tempo manteve a paixão viva, porque voltou agora, em cheio, sem sequer se fazer anunciar.
 


 

É um mundo que tem muito em comum comigo: ambos vestimos várias peles, ambos gostamos de mistério e de exotismo, ambos somos feitos de uma matéria absorvente, flexível, em permanente mutação.
Talvez por isso me sinta tão bem lá. Costumo ter facilidade em fundir-me com os sítios onde vou, e em poucos dias tenho alma de nativa. Mas em Istambul isso foi-me especialmente fácil e natural. A cidade oferece as suas muitas faces a quem a quiser descobrir, mas há que respeitá-la e entendê-la para fruí-la inteiramente.

Além disso, uma viagem a Istambul é para nós, portugueses, uma alucinante e surpreendente descoberta de muitas das nossas origens e tradições: de repente, entramos na belíssima Mesquita Azul (nesta viagem, eu acordava e adormecia com a mágica imagem da mesquita em grande plano, emoldurada pela janela do meu quarto... como não sonhar com garbosos Aladinos, sobrevoando os minaretes nos seus tapetes ondulantes?) e descobrimos, fascinados, o catálogo completo de padrões das nossas chitas de Alcobaça estampado em azulejos e frescos, decorando paredes, arcos e abobadilhas; dobramos uma esquina e o inconfundível cheirinho de castanhas assadas invade-nos as narinas, vindo de um carrinho igual aos nossos (pré-ASAE, claro), com um vendedor que as arruma uma a uma, criteriosamente; no deslumbrante Harém do palácio Topkapi encontramos ruas inteiras de pequenos seixos rolados, pretos e brancos, em desenhos caprichosos que nos revelam, sem enganos, a genealogia da calçada portuguesa; um eléctrico (rigorosamente igual aos nossos à excepção da cor, que é encarnada) desce uma rampa íngreme e traz-nos de volta a casa, a Lisboa, num lance de magia; sobre a ponte Gálata comemos uma espécie de sardinha assada sobre o pão, como se estivéssemos na Madragoa ou em Alfama.
E há muitos mais paralelismos: a luz de Istambul é a mesma luz gloriosa de Lisboa, de um branco azulado que não há em mais sítio nenhum, que eu saiba; o Bósforo tem quase a largura do Tejo, com uma Cacilhas asiática em frente, na outra banda, e uma ponte de ferro que apenas difere da nossa no tamanho; a cozinha, mediterrânica como a portuguesa, tem sabores que reconhecemos facilmente e outros que deixámos que se perdessem, com a globalização que já nos engoliu; a simpatia feita de manha, o improviso, a marosca, o fatalismo e outros atributos que nos caracterizam, também a nós, fazem dos turcos uma espécie de portugueses exóticos, mais sensuais e ainda mais aldrabões. Em todas as lojas nos oferecem um delicioso chá fervente de maçã, um ritual sagrado e irrecusável que acompanha o despique da negociação obrigatória de cada compra até à redução do preço a um terço do inicial. O Grande Bazar, com as suas quase 5.000 lojas, é um abismo de tentações. E o Bazar Egípcio (também chamado Bazar das Especiarias) um festim para os sentidos, sobretudo para os gastrónomos como eu.

Istambul é um verdadeiro caleidoscópio: ora nos sai Bizâncio, no seu esplendor de mosaicos de ouro e cores deslumbrantes (o exemplo mais impressionante é a igreja de São Salvador de Chora, um comovente bastião da fé cristã em terras islâmicas, com paredes e tectos cobertos de cenas da Bíblia, de uma beleza rara e em óptimo estado de conservação); ora nos sai Constantinopla, imponente como o império que a baptizou e que por lá deixou vestígios inigualáveis (como a maravilhosa Cisterna da Basílica ou Hagia Sophia, a irmã cristã da Mesquita Azul e uma majestosa manta de retalhos de cultos religiosos); ora nos sai um poderoso marco otomano, com incontáveis mesquitas cujos altifalantes nos minaretes, que propagam arrepiantes litanias de apelo à oração, 5 vezes por dia, e que transformam a cidade (sobretudo ao entardecer, quando começam a iluminar-se) num cenário das mil e uma noites; ora nos sai, finalmente, uma metrópole moderna e fervilhante do lado de lá das pontes, piscando o olho ao ocidente e aspirando por um lugar ao sol da Europa.
 


 

 
 
 
 
 
 
Não fosse a Ásia e os seus conflitos, sempre tão omnipresentes, e o sonho estaria mais perto. Mas não é possível ignorarmos, por exemplo, um grupo de mulheres embiocadas em trapos pretos, escondidas atrás de uma grade e separadas dos todo-poderosos homens, no simples acto de rezar, numa mesquita, ao mesmo Deus. Ao mesmo? Não, não pode ser o mesmo. As mulheres muçulmanas são, com toda a certeza, filhas de um deus menor. E é nesse ponto, de uma enormidade inultrapassável, que eu e Istambul nos zangamos e acabamos o romance.
Mas recomeçamos logo a seguir. Porque, afinal de contas, todos os amantes têm defeitos e qualidades.
Nota: A desarrumação do texto deve-se ao facto de eu estar destreinada e de não ter paciência para refazer tudo, até estar tudo em ordem. Como ainda não tenho comigo as fotografias da viagem, socorri-me de outras, encontradas na net. Eventualmente serão substituídas, mais tarde.

 
publicado por Ana Vidal às 16:55
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