Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

O que sente uma geração

 

 

Eu nasci alguns anos mais tarde, mas sei muito bem do que fala Ana Belén.

É o que sente toda uma geração. E a canção é linda, além disso.

 

 

Yo también nací en el 53
y jamás le tuve miedo a vivir
me subí de un salto en el primer tren
¡hay que ver! en todo he sido aprendiz...
No me pesa lo vivido,
me mata la estupidez
de enterrar u fin de siglo
distinto del que soñé.

Yo también nací en el 53
yo también crecí con el Yesterday
como tú, sintiendo la sangre arder
me abrasé sabiendo que iba a perder...
Siempre encuentras algún listo
que sabe lo que hay que hacer
que aprendió todo en los libros
que nunca saltó sin red.

Que te puedo contar que tú no hayas vivido
que te puedo contar que tú no hayas soñado...

Yo también nací en el 53
y soñé lo mismo que sueñas tú;
como tú no quiero mirar atrás
sé muy bien que puedo volverme sal...
Siempre tuve más amigos
de los que pude contar
sé que hay varios malheridos
que esperan una señal.

Qué te puedo contar que tú no hayas vivido
qué te puedo contar que tú no hayas soñado...

No me pesa lo vivido
me mata la estupidez
de enterrar un fin de siglo
distinto del que soñé...

Qué te puedo contar que tú no hayas vivido
qué te puedo contar que tú no hayas soñado.

 

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publicado por Ana Vidal às 20:33
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Amigo é casa

 

Amigo é casa

 

Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.

 

(Para todos os meus amigos: os meus apartamentos, águas-furtadas, lofts, casas de praia, de campo, de cidade, barracas, tendas, mansões, solares, palácios, quintas... enfim, o meu maior luxo é ter-vos como abrigos!)

 

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publicado por Ana Vidal às 23:50
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Parabéns!

... ao meu amigo e excelente músico guineense Manecas Costa, que acaba de ser nomeado para os Prémios Maria Casares, na Galiza, na categoria de "Melhor Música Original".

 

Este reconhecimento público é mais do que merecido e sublinha, uma vez mais, a qualidade artística do Manecas. Aqui ficam dois exemplos, para verem que não exagero:

 

 

 

 

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Alice no país das maravilhas

 

A poeta e letrista brasileira - e minha querida amiga -  Alice Ruiz, rendeu-se finalmente ao mundo dos blogues. É este o novíssimo endereço de Alice, para "visitas, sugestões, comentários, palpites e críticas", como ela própria anuncia. Não se admirem da lentidão das entradas e comentários, Alice ainda está a "engatinhar" neste universo. Mas, se bem a conheço, bem depressa passará de caracol a gazela.

 

Bem-vinda à blogosfera, amiga.

 

Deixo aqui dois aperitivos da sua arte poética, na forma de um poema (que está na minha antologia A Poesia é para Comer) e de um delicioso haikai, modalidade em que é mestra consagrada:

 

I.

 

SEM RECEITA*

 

Primeiro, lenta e precisamente,

arranca-se a pele

esse limite com a matéria.

Mas a das asas melhor deixar

pois se agarra à carne

como se ainda fossem voar.

As coxas, soltas e firmes,

devem ser abertas

e abertas vão estar

e o peito nu

com sua carne branca

nem deve lembrar

a proximidade do coração.

Esse não.

Quem pode saber

como se tempera um coração?

 

Limpa-se as vísceras,

reserva-se os miúdos

para acompanhar.

Escolhe-se as ervas,

espalha-se o sal,

acende-se o fogo,

marca-se o tempo

e, por fim, de recheio,

a inocente maçã,

que tão doce, úmida e eleita

nos tirou do paraíso

e nos fez assim:

sem receita

 

II.

 

Lembra aquele beijo
Corpo alma e mente?
Pois eu esqueci completamente
 

 

 

* Nunca me canso de ouvir este belíssimo poema da Alice, sumptuosamente musicado por José Miguel Wisnick. Ouçam aqui.

 

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Domingo, 1 de Março de 2009

Desafios à linha

 

E com este post ficam saldadas as minhas dívidas de correntes e desafios. Também este vem da Luísa, mas tenho uma vaga ideia de que já passou por esta porta, há coisa de um ano. Seja como for, o prometido é devido. Aqui vai a sexta frase (juntei-lhe mais algumas, para dar sentido à coisa) da página 161 do livro que tenho mais à mão: A Paixão (Almeida Faria). E o meu comentário ao parágrafo transcrito.


"mas talvez que a vida seja sempre só essa luta inútil e a devamos contudo olhar como se fora outra, descobrir em cada coisa a face oculta, a face que está na sombra, nas origens, na fonte, e de súbito nos surge como se antes não fora"

 

Gosto das camadas ocultas das coisas: da parte do iceberg que não se vê e é a sua principal massa; de seguir as pegadas em sentido contrário, até ao lugar de onde partiram; do jogo de espelhos que simultaneamente multiplica, esconde e revela; da sombra chinesa, que preserva os contornos e apaga o que é acessório; dos significados menos óbvios de cada palavra, de cada gesto, de cada olhar. Gosto do que tem de ser adivinhado, intuído, interpretado. O que é palpável é muitas vezes estéril. Valha-nos a utopia, para podermos viver a realidade e encontrar-lhe encantos.

 

(Imagem: Livro-Espelho, fotografia de Chema Madoz)

 

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Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

A verdade da mentira

 

Pedem-me a Luísa e a SSV que conte nove situações insólitas da minha vida, das quais três terão de ser falsas, pelo menos parcialmente. Aqui estão elas, como prometido:

 

1. Em criança, fazia toda a espécie de acrobacias sobre cavalos e bicicletas, e o meu sonho era ir para o circo, quando crescesse.

 

Verdade. E acabei mesmo no circo, como todos os outros portugueses...

 

2. Fui pedida em casamento por um taxista, numa viagem de táxi entre o Rossio e Algés. E não era uma brincadeira. Não aceitei porque tenho uma reputação a manter: quem quiser conquistar-me tem de esforçar-se mais do que dez minutos...

 

Verdade. O taxista tinha enviuvado há pouco tempo e contou-me a sua história, choroso.  Consolei-o com algumas palavras que lhe devem ter caído bem e no fim disse-me, ainda a  fungar: "A senhora é que podia casar comigo. Não quer? Um homem não pode viver sem mulher." Não me ofendi nem me zanguei, o homem estava a ser genuíno e achava, talvez, que estava a fazer-me um elogio ao "escolher-me" para substituir uma mulher de quem ele tinha gostado muito. Achei uma ternura... mas recusei.

 

3. Ando sempre na lua. Já me aconteceu cruzar-me na rua com uma cara "vagamente conhecida" a quem não falei, e, enquanto pensava em quem seria, levei dois gritos pela minha "ausência". Era uma das minhas irmãs.

 

Verdade. Foi um dos momentos mais surreais da minha vida...

 

4. Sou fanática por telemóveis e tenho sempre de ter o último modelo. O mesmo para todos os gadgets que são novidade, sem os quais não passo.

 

Mentira. Como diz a Luísa, sou avessa a todos os fanatismos (o Bush é mais uma embirração de estimação), e muito menos por gadgets. Uso telemóvel porque não posso dispensá-lo, mas demorei a aderir até ao limite possível.

 

5. No regresso de uma viagem de carro com uma amiga, de Madrid para Lisboa, pusemo-nos à conversa e, quando demos por isso, estávamos quase a chegar a... Málaga. Acabámos por seguir em frente até Marbella, onde ficámos mais dois dias.

 

Verdade. Outro momento surreal das minhas distracções, partilhado com uma amiga que não é muito melhor do que eu.

 

6. Gosto de estar à mesa. O meu record foi um almoço (em tête-a-tête) num restaurante, que durou sete horas. Sentámo-nos à mesa à uma hora e fomos delicadamente convidados a sair quase às oito, porque era preciso preparar a mesa para o jantar.

 

Verdade. O criado veio perguntar-nos se queríamos jantar, e, como dissemos que não, pediu-nos delicadamente para sair, para arrumar a mesa.

 

7. Tive um namorado poeta que me mandou um soneto e uma rosa todos os dias, durante um mês. Quando acabámos, publicou tudo num livro notável e dedicou-o a outra.

 

Só não dedicou o livro a outra pessoa, tudo o resto é verdade. E o livro é mesmo notável.

 

8. Já conversei com o actor John Cleese, no hall de um hotel em Nova Iorque onde ambos estávamos hospedados.

 

Meia-verdade. Em vez de John Cleese, com quem eu gostaria muito de ter conversado, quem lá estava era o canastrão do Alec Baldwin. Trocámos meia dúzia de palavras sem história, porque ele se interessou pela minha mala desaparecida.

 

9. Durante meses recebi ameaças de morte pelo telefone, num casarão isolado e meio em ruínas em que vivia na altura, e aprendi a usar uma arma por causa disso. Felizmente, nunca tive de usá-la, mas andava sempre comigo.

 

A única coisa que não é verdade aqui é o facto de eu andar com uma arma. Recusei sempre fazê-lo, por achar que seria ainda mais perigoso. Era a época (pós reforma agrária) das devoluções das propriedades no Alentejo, não muito diferente do ambiente do far west. Quem passou por isso sabe do que falo. As ameaças de morte eram praticamente diárias, mas eu nunca tive medo (a inconsciência dos 20 anos...) a não ser quando nasceu o meu primeiro filho. Passei a sentir medo por ele, pela prisão de movimentos que um bebé significava, se eu precisasse de me defender ou fugir. Felizmente, nunca foi preciso nada disso.

 

E agora quero ver quem adivinha onde estão as mentiras...

Passo o desafio aos meus parceiros de blogue: Rita, Marie, Pedro, Manecas e João Paulo (a Luísa já respondeu). Se quiserem responder, claro. Se não... amigos como sempre.

 

* Adendas  em 1/03

 

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publicado por Ana Vidal às 23:39
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Bom fim-de-semana

(Clash of the Choirs: Flight of the Bumble Bee - Nick Lachey)

 

Será assim, mais ou menos, a conversa no almoço de hoje...

 

 

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Domingo, 23 de Novembro de 2008

Porta agradecida

 

A Leonor Barros, na minha opinião uma das personalidades mais marcantes e originais da escrita bloguística (e não só, que ela é uma estrela da rádio, da televisão e da cassette pirata!), teve o gesto carinhoso de eleger o Porta do Vento  "blogue convidado" do Geração Rasca, um dos óptimos blogues em que escreve. E escolheu uma imagem linda para ilustrar esta porta, que faço questão de manter aberta.

 

A amizade não se agradece? Ora essa... não vejo por que não, se as suas manifestações nos comovem. Obrigada, Leonor.

 

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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Será que sou bruxa???

 

A eleição de Barack Obama como presidente dos EUA não deixou indiferente o antigo chefe de Estado da África do Sul Nelson Mandela, que vê no primeiro presidente afro-americano um sucessor seu na luta pela igualdade de direitos. A garantia foi dada pela sua esposa, Graça Machel, esta quinta-feira em Lisboa, depois da cerimónia em que o marido e ela própria foram distinguidos como sócios da Academia de Ciências.

 

«Ele viu em Obama um jovem a quem pode entregar a tocha», explicou Graça Machel, salientando que as eleições do dia 4 de Novembro foram a manifestação de que os ideias ainda mobilizam as pessoas, tal como aconteceu com Nelson Mandela, na luta contra o apartheid, que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz, em 1993. «Estes dois homens demonstraram que todos os nossos preconceitos de raça não têm qualquer sentido, desde que alguém represente os valores da dignidade humana, seja capaz de falar para as mentes e corações das pessoas e represente aquilo que são as suas aspirações mais profundas», disse.

 

A antiga primeira-dama de Moçambique e da África do Sul descreveu o seu actual marido e Barack Obama como «cidadãos do mundo». «Em todos os cantos, independentemente da cor política que se tem, das convicções ideológicas que se tem, vêm neles o que há de belo no ser humano e um líder que pode catalisar a todos os que pensamos no futuro com esperança e confiança», frisou.

 

 

(Parece que sou bruxa, sim... Obrigada pela notícia, Manecas. Quanto à consulta, é só dar uma limpeza na bola de cristal e estou pronta...)

 

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publicado por Ana Vidal às 22:05
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Domingo, 2 de Novembro de 2008

Receita para um fim-de-semana de festa

 

 

 

Fechem-se três unidades hoteleiras em Borba, Alentejo. Ponha-se-lhes dentro uma aniversariante que festeja meio século de vida, uma numerosa e divertida família e cinquenta amigos, quase todos furiosamente urbanos, vindos de Lisboa, do Estoril e até do Rio de Janeiro.

 

Deixe-se ferver tudo no lume brando da amizade incondicional durante dois dias, e vá-se juntando ao preparado muita música, filmes caseiros, danças e cantorias várias, a melhor gastronomia do mundo e um ou dois discursos inspirados. Regue-se tudo com um bom tinto alentejano, para apurar os sabores e abrir os aromas ocultos.

 

Acompanhe-se com concertina, pandeireta e cavaquinho, desgarradas e versos improvisados, uma pitada de jogos tradicionais e alguns passeios turísticos pela região. Tempere-se à vontade com beijos, sorrisos, abraços e uma ou outra lágrima.

 

Para sobremesa, a feira de Borba ou uma sesta, a gosto.

 

Como digestivo, uma fotografia de grupo e a promessa solene de repetir a dose, mesmo sem pretexto...

 

 

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publicado por Ana Vidal às 21:50
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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Bom fim-de-semana

 

 

Vou para o Alentejo.

 

Espera-me uma espécie de casamento de ciganos:

dois dias e meio de arromba, com tudo o que há de bom na vida.

Se conseguir sobreviver, prometo que volto para contar a história.

Bom fim-de-semana a todos.

 

 

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Sábado, 25 de Outubro de 2008

The bright side of... death.

Quando eu morrer... não, não me enterrem na Lapinha.

Façam-me antes um enterro assim, combinado?

Bom fim-de-semana!

 

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publicado por Ana Vidal às 16:36
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Prémios

 

Decidi há muito tempo não atribuir ou exibir prémios entre bloggers, talvez porque na altura em que tomei essa decisão a prática ameaçava transformar-se numa paranóia generalizada, diária e incomodativa. Tudo servia de pretexto para a frase "and the winner is...", eternizada num selo (quase sempre de gosto duvidoso) a exibir, como um troféu de caça, na coluna lateral do blogue. Os critérios eram os mais disparatados: porque o blogue era "fofo", porque "não era mau", porque "tinha músculos", porque... sei lá, o que sei é que raramente fazia algum sentido ou parecia ter alguma consistência, para além de um afagar de egos entre amigos que se visitavam regularmente. Felizmente, a esquizofrenia nobelística acabou por ir desaparecendo, mas entretanto eu já tinha definido as minhas regras.

 

Nem sempre pensei assim, e no início das minhas lides bloguísticas - enquanto tudo era ainda novidade - cheguei até a criar os meus próprios prémios "Rosa dos Ventos" e a distribuí-los alegremente pelos blogues que frequentava. E não me arrependo. Eram prémios personalizados, que distinguiam a principal qualidade que eu valorizava em cada um.

 

Não tenho nada contra carinhos em forma de prémios, note-se. A amizade - mesmo a virtual - deve ser cultivada e reconhecida, e cada um de nós a exprime como entende.  No meu caso, apanhar a boleia de uma "corrente" para dizer aos amigos como gosto deles ou os admiro, com palavras e regras que não são minhas, é que não é muito o meu estilo. Só isso.

 

Tudo isto para tentar justificar uma atitude que pode parecer pedante ou mesmo arrogante, a propósito de uma saraivada de dardos que atingiu este blogue recentemente. O Prémio Dardos é muito diferente dos que refiro acima como exemplos, mais profundo e por isso mesmo mais significativo. Quero deixar aqui bem claro, a todos os que me nomearam , que fiquei realmente sensibilizada com o prémio e muito honrada por fazer parte das suas escolhas. É muito bom sabermos que somos queridos, sobretudo por aqueles a quem também queremos bem. Os vossos dardos foram direitinhos ao meu coração.

 

Aos amigos:

 

Leonor Barros (A curva da estrada)

Júlia Moura Lopes* (O Privilégio dos Caminhos) 

Adriana Freire Nogueira (A Senhora Sócrates)

Sum** (Coisas da Vida)

Marília (Ainda podia ser pior)

Pedro Cordeiro (Codornizes)

Samuel de Paiva Pires (Estado Sentido)

Carlos Barbosa de Oliveira (Crónicas do Rochedo)

 

o meu comovido e sincero OBRIGADA.

 

Espero não estar a esquecer-me de ninguém (essa é outra das perversões deste sistema de "corrente", a possibilidade de uma gaffe por desconhecimento ou por distracção...).

 

Perdoar-me-ão, mas não vou nomear 15 blogues. Os meus dardos vão para todos os blogues que me enriquecem nos meus passeios pela blogosfera, uns em que sou mais assídua do que noutros, mas todos ensinando-me alguma coisa.

 

 *   Nota 1: Só para não ficares "grilada", Júlia... ;-)

**Nota 2: À Sum agradeço em duplicado, já que fui duplamente premiada (o segundo dardo atingiu em cheio o Violinos no Telhado...)

 

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publicado por Ana Vidal às 11:09
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Lá estarei...

 

Acabei de receber este convite. Às vezes tenho pena, muita pena de que haja um oceano entre mim e a minha vontade de dar um salto ao Brasil, por tudo e por nada. Desta vez seria por tudo, sem dúvida. Quanto mais não fosse, para dar um beijo ao neto do homenageado!

 

publicado por Ana Vidal às 11:05
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Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Força maior

 

 

Interrompo hoje, pela segunda vez, uma pausa que decidira gozar por alguns dias. Não me arrependo de fazê-lo, porque ambos os motivos são de força maior e me merecem mais respeito e atenção do que o meu descanso. Ambos se prendem com questões de amizade, e a amizade é uma coisa que considero sagrada.

 

O primeiro foi o nascimento de um bebé que tem um significado muito especial para mim, filho de dois queridos amigos. Uma notícia feliz, portanto.

 

O segundo, pelo contrário, é uma notícia inesperada e triste: o "bater de porta" de um amigo que muito respeito - o Paulo Cunha Porto - num blogue que constituiu uma referência para mim desde o primeiro momento em que aterrei neste mundo - o Corta-Fitas. A razão da brusca saída, tão pouco tempo depois da entrada em cena? Não a sei claramente, mas, ao que percebo, prende-se com questões ideológicas ou diferendos de opinião. E é isso o que mais me incomoda em tudo isto: tive sempre o Corta-Fitas e os seus redactores  na conta de livres e isentos, o que me fazia admirá-los, e este episódio faz com que essa admiração fique agora seriamente comprometida. Um blogue com o perfil do Corta-Fitas é tanto mais rico quanto mais plural. E o Paulo é uma evidente mais-valia, para qualquer blogue que não tema a polémica. Ainda há bem pouco tempo me pronunciei sobre a disciplina de voto partidária, que considero uma aberração em democracia. Num blogue, por definição um espaço de liberdade, essa disciplina ainda me parece mais incompreensível.

 

O Paulo Cunha Porto nunca escondeu as suas opiniões políticas nem o seu prazer em abordar temas polémicos, clara e repetidamente expressos nos vários blogues em que escreveu. Não estou de acordo com ele em muitos assuntos (em alguns deles situamo-nos mesmo nos antípodas) e batemo-nos frequentemente por  opiniões contrárias, mas nunca o vi discutir ou defender os seus pontos de vista de uma forma que, de algum modo, fosse incómoda para mim. Pelo contrário: além de uma enorme erudição, que apoia e fundamenta solidamente as suas incomuns teorias, o Paulo é de uma elegância irrepreensível numa discussão. Admito que não "encaixa" no tal mainstream, seja lá isso o que for. Mas então, conhecendo já as suas posições diferentes, por que foi que o convidaram a integrar a equipa do Corta-Fitas? E porquê esta censura repentina?

 

Não percebo. Fico à espera de respostas satisfatórias e de atitudes claras. Nesta casa, meu amigo Paulo, não preciso de dizer-te que és sempre bem-vindo.

 

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publicado por Ana Vidal às 23:50
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

A brincar, a brincar...


 

 

... e mesmo sem falar de GAJAS NUAS, de FUTEBOL ou das tatuagens da ANA MALHOA, este blogue chegou às 80.000 visitas!

 

Parece-me irreal, confesso. A todos esses amigos, um por um, me sinto grata. Este ano e meio foi melhor do que alguma vez pensei.  

 

 

publicado por Ana Vidal às 01:29
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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Minúsculas distâncias

 

Faço o maior gosto nos meus amigos do outro lado do Atlântico. Não tenho tido o tempo que gostaria para visitá-los mas estão no meu coração, todos eles. Recebo desses amigos longínquos um carinho  que sempre me comove, e gostava de poder retribuir-lhes como merecem.  Um dia, estou certa, "aquele abraço" será bem real. Até lá continuaremos a  trocar livros, mails, ideias, e a fortalecer a nossa amizade, mesmo que à "minúscula" distância de um oceano.

 

Hoje o correio trouxe-me mais uma prova desse carinho, uma prova de luxo, aliás: o último livro da querida Fal Azevedo, com uma dedicatória da autora, cheia de ternura.

 

O título é inteligente e sugestivo - "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite", a capa é linda e, o que é mais importante, a escrita é fluida e de grande qualidade. Estou viciada nesta narrativa a dois tempos, em dois registos, cheia de emoções contraditórias e de uma intensidade dramática que não esconde um subtil sentido de humor. Tudo o que eu gosto numa história e na maneira de contá-la. Resumindo, estou a adorar o seu livro, Fal. Parabéns!

 

Agradeço este presente à autora, naturalmente, mas também à incansável abelhinha mestra que faz a ponte entre todos estes amigos dispersos: a queridíssima Meg (foi ela quem me deu a conhecer muitos deles, e a Fal está incluída neste número). A tua vocação de matriarca blogosférica é inestimável, minha amiga!

 

Beijos para ambas, e o meu obrigada comovido.

 

(Nota: A imagem acima é do convite para o lançamento do livro da Fal, onde eu gostaria muito de ter estado para dar-lhe um beijo de parabéns. Fica para a próxima...)

 

publicado por Ana Vidal às 21:34
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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Um almoço especial

 

São várias e facilmente perceptíveis as vantagens de ser-se convidada para um almoço em que se é a única mulher entre sete garbosos cavalheiros. Se isso acontecer consigo, amiga leitora, não se amedronte e não ceda nunca à tentação de declinar tão simpático (embora insólito) convite.

 

Para começar, certifique-se de que eles são, de facto, cavalheiros. Nada mais desagradável do que surpresas nesse capítulo, e partilhar uma mesa com trogloditas deve ser uma experiência traumática que não se aconselha a ninguém.  Deixar que isso lhe aconteça só pode ser fruto de muita imaturidade ou de uma estratégia suicida. Não caia nessa. Garantida essa precaução básica, pode avançar para o covil deles com absoluta confiança. Convém, no entanto, que conheça pelo menos um dos convivas. As razões são meramente sociais: assim não terá de chegar sozinha (pode chegar ligeiramente atrasada, para maximizar o efeito) e terá quem faça as apresentações da praxe.

 

Depois, perca o medo ou as inseguranças que semearam nessa cabecinha aqueles anos de apocalíptica catequese, geralmente ministrada por freiras vagamente suspirantes por razões de que talvez nem suspeitassem. Eles não mordem. E, mesmo que mordam, das duas uma: ou as dentadas lhe sabem bem e não há por que se queixar, ou você pode devolvê-las, uma por uma. Também tem dentes, não tem?

 

Se você for minimamente agradável será, garantidamente, a rainha da mesa (quanto mais não seja, por manifesta falta de concorrência). Não precisa de fazer-se engraçada. Pelo contrário, deixe-os brilhar e não constitua um impedimento ao à vontade que eles teriam se você não estivesse ali. Você é que é a intrusa, lembre-se disso. Faça por integrar-se no grupo, o que não significa necessariamente que se dilua nele e desapareça.

 

Discretamente, olhe à sua volta: todas as mulheres presentes nas outras mesas do restaurante a invejarão. Verá essa inveja de forma explícita ou menos óbvia, conforme os olhares forem, respectivamente, de admiração ou de reprovação. Não se incomode, é inveja de qualquer forma. Aproveite esse momento de glória porque talvez nunca mais venha a ter outro, nem por quinze minutos, na sua vida.

 

Aprecie a ocasião rara de estudar o género masculino no seu habitat natural, e num grupo suficientemente representativo para avaliar todo o universo da espécie. É sempre útil. Porque eles são uma outra espécie, sim. Um outro povo, muito diferente do seu. Não se iluda com as modernices da pseudo-psicologia televisiva. Mais: agradeça ao deus em que acredita (ou ao Darwin, ao Big Bang ou a quem lhe parecer melhor) que assim seja. Um mundo em que os seres inteligentes fossem todos iguais seria de uma monotonia insuportável. Brinde em segredo a essa diferença e sorria intimamente. Depois, deixe que eles a mimem e mime-os também.

 

Se tiver em atenção os pontos chave desta receita, garanto-lhe que o momento será um sucesso. Pelo menos para si.

 


 

Nota: Hoje tive um almoço assim, no Bairro Alto, com seis encantadores corta-fiteiros. Gostei muito de conhecê-los. Com mais um amigo que apareceu para o café, eram verdadeiramente os sete magníficos... e eu. Espero que eles me perdoem a brincadeira acima (sei que o farão, todos eles têm um notável sentido de humor) e que este momento se repita mais vezes, a bem do meu ego...

 

Ficou a faltar-me conhecer as meninas corta-fiteiras, e espero que essa lacuna seja ultrapassada brevemente. Gostava muito de conhecê-las também.

 

A todos - Pedro Correia, João Távora, Francisco Almeida Leite, Luís Naves, Paulo Cunha Porto e João Villalobos - agradeço o mais que simpático almoço em que me senti uma rainha entre verdadeiros reis. Da blogosfera e não só.

 

publicado por Ana Vidal às 17:37
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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

Luas

A Luísa deu o mote, com as suas belíssimas fotografias da Ericeira e uma reflexão sobre a multiplicidade da lua.

 

Lembrei-me da minha amiga Catarina (a quem devo, pelo menos, um dia inteirinho de conversa saborosa...), que me mandou esta lua cheia espantosa, fotografada da sua varanda sobre o Tejo em pleno mês de Agosto.

 

Há muitas luas, sim. Tantas quantos os nossos desejos, os nossos sonhos, as nossas fantasias. A lua é múltipla porque é feminina: faz-se, desfaz-se e refaz-se... como todas as mulheres. 

 

 

(Este poema é para ti, Cat.  Agradecendo esta lua linda que me mandaste.)

 


Crepúsculo de Agosto

Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em Agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, de ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Disponíveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.

(Albano Martins)

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publicado por Ana Vidal às 23:20
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Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Private joke

 

Cheguei de viagem há pouco, cansada e cheia de fome. Um dia no Porto, sem um segundo para nada a não ser o trabalho (desculpa, Júlia, fica para a próxima...), com duas únicas excepções: um rápido mas óptimo almoço no D'Oliva e uma passagem, meteórica mas muito proveitosa, pelos sapatos da Haity, na Foz.

 

Mas não posso deixar de saudar o regresso à bloguice de um desaparecido que me é muito querido: o Paulo Cunha Porto, agora fisgado pelos corta-fiteiros para as suas hostes de luxo. Fico contente, amigo. Por voltar a vê-lo por cá e por sabê-lo muito bem acompanhado. Mas não se esqueça dos amigos, ok? É que há afinidades que são efectivas. E afectivas.

 

Aqui tem, caro Diácono, um presente útil para as lides corta-fiteiras: novas vestes, decoradas com os tons da nova casa e com a sua inicial bordada (e santificada). E para não ser tudo "sem sombra de pecado", uma alusão a Baco no bordado das uvas...

 

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publicado por Ana Vidal às 23:08
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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Presente

Recebi este presente da Margarida, uma comentadora do Porta do Vento (desde o seu início) que tem sempre um bom gosto imbatível a escolher música. Prezo muito os meus amigos melómanos, como já disse por aí. Obrigada, Margarida.

 

Vejam lá se não é óptimo:

 

(John Mayer - Daughters (Acoustic))

 

 

 

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publicado por Ana Vidal às 23:58
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Onde só chega quem não tem medo de naufragar...

 

 

PARABÉNS, Miguel !!!!!!!

 

publicado por Ana Vidal às 15:40
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Parabéns a você

 

Quem me conhece bem sabe que nunca me lembro do dia de anos de ninguém. Ou seja, lembro-me quase sempre antes da data e muitas vezes uns dias depois, mas muito raramente no próprio dia. A distracção é um mal de família (a minha Mãe era igual, ou pior ainda), nada a fazer. Mas os meus amigos perdoam-me, sabem que que penso neles todos dias e não só quando fazem anos.

 

Isto para dizer que faz hoje anos um querido amigo e que fui "lembrada" do facto por vários outros amigos, que assim não me deixam fazer más figuras. Entre eles, um que está em África!! E ainda dizem mal da net...

 

Parabéns, MB!! Um óptimo dia de anos, aí no reino de aquém e de além-mar.

 

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publicado por Ana Vidal às 10:06
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Sábado, 2 de Agosto de 2008

Respirar

Encontrei este belíssimo texto no Miniscente, do Luís Carmelo. A qualidade é a de sempre, no que diz respeito ao que por ali se lê. Mas estas palavras tocaram-me especialmente, por tê-las descoberto hoje. Ofereço-as a dois amigos que estão de partida para África, ficando a torcer (com uma pontinha de inveja, confesso) para que se sintam exactamente assim enquanto estiverem por lá.

 

 

"Primeira Respiração"

 

"Estou em África.
 
O ar é maior, enche-me o peito com uma força que me ultrapassa. Há uns dias, quando menos esperava, senti-me a descalçar. E andei. Andei com os pés dentro da terra, num passo arrastado, demorado, sem forma conhecida. Não sabia que podia entrar assim no mundo. O céu é maior…mas não nos esmaga. Preenche todos os espaços. É mais do que cor, mais do que uma ilusão. Há uns dias, quando menos esperava, deitei-me sem tecto. E ouvi. Cada estrela, cada cheiro. Descobri. Que aqui o céu tem… som.
 
Se eu fosse uma árvore era África. Ou um animal. Ou uma pedra. Era África. Seria o meu próprio início. Acho que é verdade."
 

 

 

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Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

A minha gente

 

Almocei ontem com três amigos que não via já há algum tempo. Um deles, há longos anos. Mas as amizades sólidas têm isto de bom: não há tempo de ausência, por muito longo que seja, que consiga anular a naturalidade e o à vontade que voltam a ligar-nos em meia dúzia de minutos.

 

Três cérebros de eleição, habilitações académicas de luxo e carreiras profissionais bem sucedidas até onde isso foi o mais importante. Isto porque dois deles, afastados prematuramente do mortífero stress de uma mega-empresa que lhes sugou a alma durante anos, têm agora uma vida mais calma (o terceiro é empresário, não pode ainda dar-se ao luxo de abrandar). Merecidíssima calma, diga-se. E o que fizeram? Entregaram-se ao tédio, às pantufas, à depressão e à lamúria dos injustiçados? Nada disso: reavaliaram prioridades, puxaram pelos (muitos) neurónios para encontrar um equilíbrio possível e satisfatório entre uma actividade que os mantenha produtivos, a família, os amigos, e... o voluntariado em causas humanitárias! Assim mesmo, porque sabem como isso é importante, não só para a comunidade a que pertencem como para si próprios, para o seu bem-estar interior.

 

Sobre tudo isso conversámos, entre divertidos e comovidos. Houve gargalhadas, histórias antigas e novos projectos. Houve Amizade, sobretudo. E gostei muito de constatar, mais uma vez, que continua a haver gente que esta voragem de egoismo e mera sobrevivência em que vivemos ainda não conseguiu desumanizar e engolir. Esta é, e será sempre, a "minha gente".

 

Queridos Teresa, Manecas e João, para vocês um beijo especial. Para o próximo almoço espero que "venham mais cinco", como cantava o outro. Falta-me rever tantos, ainda!

 

(Como se o reencontro não fosse presente suficiente, ainda ganhei um CD, que adoro: "Bebo & Cigala - Lágrimas negras". Em cheio. Encontrei no You Tube uma faixa deste outro encontro de amigos - uma interpretação fantástica de uma canção de sempre - que deixo aqui como homenagem à Amizade) 

 

 

(Eu sei que vou te amar - Bebo & Cigala)

 

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Terça-feira, 29 de Julho de 2008

Caminhos privilegiados

 

Querida Júlia,

 

tem sido para mim um verdadeiro Privilégio percorrer os teus Caminhos: de poesia, de brincadeira, de música escolhida. Tudo em amena cavaqueira de amigos, talvez a melhor maneira que conheço de atravessar a vida. E a vida blogosférica não é diferente.

 

O fim de um blogue não é o fim do mundo... muitas vezes não é mais do que a renovação necessária para novas experiências. Sendo assim, fico calmamente à espera da tua próxima inspiração, sabendo que vou gostar de descobri-la e sabendo também que terei lá um lugarzinho à minha espera. O teu, aqui no Porta do Vento, está sempre garantido. Espero que continues a aparecer sempre.

 

E quando regressares, que seja como no teu poema:

 

 

REGRESSO 
 

Quando se regressa
a sombra é luz
onde os barcos deslizam.

(Júlia Moura Lopes)

 

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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

Bem-vindo, JB!

 

E porque na vida, na verdade, "nada se perde, tudo se transforma", aproveito este regresso antecipado para saudar o novíssimo blog de outro querido Amigo - o Adeus, até ao meu regresso.

 

Recomendo que o sigam com atenção, porque promete: o JB escreve sumptuosamente, e decidiu presentear-nos com a sua especialíssima experiência africana, num país de que muitos fugiriam a sete pés, se pudessem - o Zimbabwe.

 

Para ele, e também para mais um querido Amigo - o nosso (bravo...) embaixador em Harare,  João da Câmara - os meus votos de que tudo corra pelo melhor. Aqui estarei, fiel e ansiosa pelas vossas notícias...

 

Bem-vindo à blogosfera, JB! 

 

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publicado por Ana Vidal às 13:17
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Até sempre, Paulo!

 

Volto mais cedo que o que me tinha imposto, e só por uma razão de peso: a despedida bloguística de um querido Amigo, que decidiu fechar a sua fantástica casa virtual durante as minhas férias...

 

O Paulo Cunha Porto vai fazer-me muita falta. O Afinidades Efectivas é um dos melhores e mais inteligentes blogs que conheço, e o nosso convívio foi diário durante muito tempo. Com ele diverti-me, reflecti e aprendi muito. Mas não dramatizo. Como diz o seu autor, um blog tem como principal função o entretenimento e só nessa qualidade se justifica prolongá.lo.

 

A vida é feita de ciclos e o do Réprobo chegou ao fim. Outros virão para o Paulo, espero que muito bons, e cá estarei para acompanhá-lo com o mesmo prazer e a mesma amizade de sempre. Um beijo e até sempre, meu Amigo. Termino com uma expressão que lhe é particularmente cara: O Rei morreu, viva o Rei!

 

Ou seja: O Réprobo morreu, viva o Paulo!

 

(Na imagem: S. Lourenço, "o diácono do bom humor". Uma private joke que o Réprobo entenderá...)

 

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publicado por Ana Vidal às 12:42
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Beleza pura - 2

Em honra de todas as minhas amigas bloguistas, aqui fica um Vuelvo al Sur em grande estilo. Porque hoje é segunda-feira, e todos os dias são bons para regressar ao Sul...

 

Mas não me esqueci dos amigos: para eles, a excelente música de Astor Piazzola nesta  interpretação dos Gotan Project, quase tão boa como... o resto.

 

Adenda: Tive que substituir o video porque o anterior deixou de estar disponível. Uma pena, como poderão comprovar todas as mulheres que ainda conseguiram vê-lo... Fica a música.

 

(Vuelvo al Sur - Gotan Project/Piazzola)

publicado por Ana Vidal às 18:01
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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Amigos de talento - III

 

O talento do meu amigo Luís Leal não se explica nem se descreve: mostra-se. É o que tento fazer aqui, com alguns exemplos (tão poucos, para o que eu gostaria!) do seu fantástico trabalho. O Luís é pintor, ilustrador e caricaturista, e ainda domina com mestria a tecnologia de ponta das artes gráficas. Já fizemos dois livros juntos e foi um prazer trabalhar com ele.

 


  

 

Como artista plástico está a ganhar relevo a um ritmo imparável, o que não pode deixar-me mais feliz, já que sempre o incentivei a mostrar ao mundo a sua arte. O traço é fluido, cheio de força e personalidade, e nunca monótono. Como experimentalista que é, tem obras que vão das grandes telas pintadas a acrílico até às miniaturas em tinta da china sobre papel. Todos eles - mas todos, mesmo - de qualidade superior.

 

 


Tenho dois quadros dele em casa e não me canso de olhá-los, porque lhes descubro sempre alguma coisa de novo. Uma visita ao atelier do Luís é uma garantida viagem ao prazer dos sentidos e à descoberta de novas emoções. E ele recebe toda a gente com simpatia e afabilidade, além do genuíno prazer de conduzir-nos através dos labirintos da sua fecunda imaginação. Já expôs em galerias nacionais e estrangeiras, e esteve este ano representado na prestigiada ARCO, em Madrid. Se se deixarem apaixonar por um dos seus desenhos ou telas, tratem de adquiri-lo já. Daqui a pouco tempo, tenho a certeza, já não será para todas as bolsas...

 

 

 

(Clicar nas imagens para aumentá-las. Na última estão os contactos para uma visita ao atelier do Luís Leal, em Lisboa.  Verão que vale bem a pena. )

 

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Domingo, 25 de Maio de 2008

Dia de visitas

Hoje estou aqui ao lado. Fui tomar um chá com os amigos Corta-fiteiros.

 

E depois vou também ali agradecer à minha querida Meg as lentes de aumentar com que me vê, embora as amizades não se agradeçam.

 

Até logo.

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Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Post de desagravo

O prometido é devido. Espero que se sintam condignamente representados, meus amigos. Pessoalmente prefiro morenos, mas parece-me que a escolha do loirinho não foi má de todo. Pois não, meninas?

 

E, já agora, uma banda sonora personalizada para cada um.

Tudo está bem quando acaba bem. E acaba MUITO bem...

 

(Ce Georges - Salvatore Adamo et Olivia Ruiz)

 

 (George Clooney)

 

 (Hey Jude (Live) - Paul McCartney, Elton John & Sting)

 

 (Jude Law)

 

E aqui está uma adenda, a pedido de uma amiga. Uma bela adenda, diga-se. Assim que lhe arranjar uma banda sonora à altura do nome, acrescento-a à imagem.

 

(Reynaldo Sanchez - Los Canelos de Durango)

 

(Reynaldo Gianechini)

 

Adenda 2 - Cá está a banda sonora. A sugestão de parecença com Che Guevara (obrigada, R.!) deu o mote para encontrar a música certa. Ora vejam lá.

 

 

publicado por Ana Vidal às 23:51
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Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Botero no masculino

(clicar para aumentar)

 

Com dois dias de atraso, aqui se comemora o dia internacional dos Museus. Assim, com esta fotografia do Museu de Arte Moderna de Sintra, em cuja entrada exterior impera um monumental torso de Botero. É flagrante o contraste com a delicada figurinha belle-époque, também em bronze, que dança graciosamente no alto da fachada deste belíssimo edifício dos anos 20, concebido para ser um Casino.

 

(Private joke a que não resisto: a minha escolha destina-se a tentar equilibrar (em género) uma overdose de boterianas nutridas que o meu amigo M. tem analisado à lupa. Neste caso, só uma coisa me inquieta na magnífica exibição de musculatura masculina - a preocupante desproporção que a minúscula parrinha oculta...)

 

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publicado por Ana Vidal às 15:29
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Amigos ao espelho

 

O prometido é devido. Aqui estão as respostas que recebi dos meus três amigos sem blog próprio, confessando o que pensam de si próprios. Ou melhor, em boa verdade só um deles não tem blog: o Manecas. Para quando essa aventura, amigo? Sei que gostarias, tens tanto para dizer...


Amigo, para sempre.
Optimista, mas tem dias...
Organizado/Estruturado, mas às vezes dá para ser chato!
Ouvinte obstinado pelo que me atrai e distraído tacticamente pelo trivial.
Doação, como modo de estar na vida
Pai, com extensão para avô...

 

A Rita Ferro acaba de deixar-se contagiar pela blogosfera (mea culpa...) e criou um blog: Pronome Possessivo.  Prevejo grande agitação futura por aquelas paragens, se bem conheço a Rita, por isso vos recomendo que fiquem atentos. Mesmo assim, aqui está a resposta ao desafio que lhe pus, sintética e disciplinada:

 

Impetuosa
Volúvel
Escarninha
Imponderada
Exuberante
Melancólica

 

E o Pedro S. Botelho já é da casa, desta casa. Por isso faz todo o sentido que se "apresente" aqui num tom mais intimista do que aquele com que assina os seus Observatórios:

 

Meticuloso, porque sim!
Cauteloso, porque não?
Optimista, porque não sou pessimista
Bonacheirão, porque só sei ser assim
Organizado, que tento, se não perdia-me

Pro-activo, porque detesto a inércia

 

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publicado por Ana Vidal às 16:45
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Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Sou eu?

 

Pedem-me a Júlia e a Sofia que me defina em seis palavras. Assim, trigo limpo, como se fosse fácil. Junto-lhes mais algumas, porque sou indisciplinada por natureza (outra definição possível). E uso o truque de desdobrá-las em outras tantas, aumentando assim as probabilidades de engano...

  • secreta, ainda que exposta
  • curiosa, ainda que distraída
  • optimista, ainda que (razoavelmente) realista
  • individualista, ainda que solidária
  • apaixonada, ainda que independente
  • entusiasta, ainda que preguiçosa
  • cumpridora, ainda que desorganizada
  • pacífica, ainda que irredutível *
  • sonhadora, ainda que lúcida
  • orgulhosa, ainda que capaz de reconhecer um erro e pedir desculpa

* (em questões que envolvam valores essenciais)

 

Constato que acabei de definir duas personalidades e não uma. E não serão as únicas que tenho, com toda a certeza. Descubro-me contraditória, e por isso me resumo afinal numa única palavra: mutante

 

Das regras faz parte escolher uma imagem que eu ache que me define, ou pelo menos com que me identifique. Escolhi esta (roubada, comme d'habitude, ao fantástico Zoo), que me pareceu adequada. 

 

E das regras faz parte, também, passar o desafio a outros 5 bloggers. Uma vez mais vou subvertê-las e fazer uma coisa diferente: passo-o a 5 bloggers - MariaV, Alf, Miguel, Espumante e TCL- e a 3 dos meus comentadores, que (ainda?) não têm blog próprio: PSB, Manecas e Rita Ferro. Podem deixar as vossas respostas na caixa de comentários, que eu depois publico-as em post.

 

E pronto, esta lebre já está corrida...

 

publicado por Ana Vidal às 19:13
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Domingo, 11 de Maio de 2008

Porta do Vento fora de portas

 

Parece que o jornal Público achou graça ao meu post sobre a inauguração do Museu do Oriente, porque o publicou ontem no P2, na rubrica "Blogs em papel". Agradeço ao Público a distinção, que muito me honra. E agradeço também ao Miguel L., que me avisou do sucedido.

 

E também o Corta-Fitas, na pessoa do Pedro Correia, me estendeu a passadeira vermelha dos bloggers convidados a escrever um texto lá. Mais ainda do que a distinção que esse convite significa, evidentemente muito gratificante, sublinho o saudável convívio bloguístico que representa esta iniciativa. Não é muito vulgar em blogs de referência, como é o caso. Por tudo isto, muito obrigada aos simpáticos corta-fiteiros. Já tinham a minha fidelidade garantida, mas é sempre bom ser assim mimada pelos amigos. 

 

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publicado por Ana Vidal às 16:27
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Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Um ano de blogosfera



À mesa de um blog

 

«Bem observado, o post de Eduardo Pitta no "Da Literatura", que estabelece o paralelismo entre as tertúlias que havia nos Cafés e a actividade bloguística. Concordo: os blogs, hoje em dia, cumprem a mesma função dos Cafés de antigamente. E, tal como antes, cada um só convida para a sua mesa quem quiser que lá esteja.


Porque há mesas para todos os gostos: desde as elitistas dos cafés "chiques", onde o grupo está formado, de pedra e cal, e ninguém mais pode perorar (são os blogs que não admitem comentários) até às mais saloias dos cafés de bairro, em que cabe sempre mais uma cadeira, por isso qualquer desbocado pode entrar na tertúlia e dizer alarvidades de sua justiça. Entre estes dois extremos, há variações possíveis e interessantes. Por exemplo, a de pôr na rua, sem contemplações, os convivas que não saibam comportar-se à mesa, sorvam o café com ruído, palitem os dentes ou agarrem na xícara de dedinho empinado, enquanto dizem baboseiras. O Porta do Vento tende para esta opção, mas, como começou agora a andar nesta vida de cafés, por enquanto bebe uma bica aqui, um galão acolá. E assim, de mesa em mesa, há-de encontrar os seus pares e fazer um dia a sua.


Até lá, todos poderão vir dar uma espreitadela e dizer como gostam da torrada. E, porque hoje é Domingo, a bica é por conta da casa.»


 



Escrevi isto há um ano, pouco depois da Declaração de Princípios. Felizmente, os meus vaticínios cumpriram-se: o Porta do Vento fez a sua própria mesa, e hoje tenho o maior gosto em enchê-la de cadeiras, com muitos lugares cativos e outros que se mantêm disponíveis para novos convivas. Felizmente, também, nunca tive que expulsar da mesa nenhum deles. Por outro lado, orgulho-me de dizer que, durante este primeiro ano, muitas outras mesas me aceitaram no seu convívio. Primeiro timidamente, depois com mais confiança e, por fim, como quem se sente já em casa, fui-me tornando visita habitual e hoje conto com a minha cadeira nessas mesas, onde sou sempre bem recebida. A blogosfera é um meio extraordinário, não há como negá-lo. É um precioso instrumento de auto-análise, uma terapia, uma distracção, uma prodigiosa fonte de aquisição de conhecimentos, tão extensos e aprofundados quanto o queiramos, um estimulante ginásio para os neurónios e, last but not the least, uma curiosa forma de descobrir e explorar afinidades várias.

Há que não perder de vista algumas regras de ouro, se quisermos ter um convívio agradável e civilizado: respeitar o anonimato de quem não quer expôr-se (a não ser que o use para fins menos nobres, e nesse caso o desprezo é a única resposta); não abusar da confiança de quem mostra a cara, nem deduzir dessa atitude um convite a uma intimidade maior do que a que nos é proposta; não interferir com grupos ou indivíduos que não querem ser invadidos, impondo a nossa presença quando ela não é desejada; não ultrapassar barreiras de convivência, a não ser de comum acordo e em casos especiais. Mas todas estas regras são, afinal de contas, aplicáveis ao universo do convívio, dentro e fora da blogosfera. Regras básicas de educação, simplesmente.

Durante este primeiro ano, reencontrei velhos amigos (com quem, de outra forma, talvez não tivesse voltado a cruzar-me), e fiz novos amigos, indubitavelmente. Alguns deles já conheci pessoalmente, entretanto, confirmando assim as afinidades que nos fizeram dar esse passo. Outros, provavelmente, nunca conhecerei ao vivo, por razões várias, o que não faz com que deixe de considerá-los Amigos de pleno direito. E a percepção dessa nova dimensão de amizade, devo-a a este fascinante meio de comunicação.

Por tudo isto e muito mais, este ano foi iniciático. Não me arrependo das horas que o blog me roubou a outras actividades, porque aprendi muito com esta experiência. Falando por números (e tendo em conta que não são mais do que isso mesmo) o Porta do Vento registou quase 30.000 visitantes, 550 posts e 3724 comentários. Muitos mais, todos eles, do que alguma vez me passou pela cabeça. Acho que posso dizer, com algum orgulho, que "a mesa do fundo" está bem recheada e que a bica não é de má qualidade...

A todos os que me dão a honra de sentar-se a esta mesa, muito obrigada. Tem sido uma tertúlia de valor incalculável.

Sai um champanhe, que hoje é dia de festa!

publicado por Ana Vidal às 02:51
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Old friends


"As old wood is best to burn, old horse to ride, old books to read, and old wine to drink, so are old friends always most trusty to use"
(D´Arcy W. Thompson)


Poucas coisas
são tão interessantes nesta vida como reencontrar velhos amigos após um longo tempo de separação. Várias situações podem acontecer, desde a profunda decepção à reconfortante certeza de que aquele(a) amigo(a) não o era por acaso. No primeiro caso, nada a lamentar. O próprio tempo que passou se encarrega de manter o afastamento, e tudo fica esquecido. No segundo, é muito bom saber que não nos enganámos àcerca de alguém.
O primeiro embate - mais divertido do que constrangedor - em que comparamos mentalmente a nova imagem com a recordação que tínhamos da pessoa, congelada no tempo, leva-nos quase sempre a concluir que a quantidade de cabelo perdido é inversamente proporcional à dos quilos e rugas ganhos, e que tudo isso é infinitamente menos importante do que alguma vez julgámos possível.
Depois vem o melhor: um invariável rol de boas lembranças, desfiadas da meada da memória (o tempo encarrega-se quase sempre, generosamente, de apagar as más) que nos fazem rir e sustentar uma conversa que poderia durar horas, se tivéssemos tempo para isso num simples almoço. As histórias partilhadas, as situações dramáticas ou cómicas, os êxitos alcançados, o destino de outros amigos (um bocadinho de má língua dá sempre alguma graça a estes reencontros), a orgulhosa exibição de fotografias da família que entretanto se criou, tudo isto com uma naturalidade e à vontade espantosos, como se tivessemos estado juntos na véspera.
Aconteceu-me ontem, com uma amigo de sempre que deixei pelo caminho há quase trinta anos. Era um estudante idealista, hoje é um homem maduro... ainda idealista. Que bom constatar que nem toda a gente fica amarga com as desilusões da vida! Que bom saber que ainda há gente de carácter, que não inverteu as prioridades nem cedeu ao cinismo! Foram duas horas bem passadas, e no fim a promessa de não mais deixarmos passar tanto tempo sem nos vermos. Seremos capazes de cumpri-la? Não sei, a vida é muitas vezes caprichosa. Mas espero que sim. De qualquer maneira, o reencontro valeu a pena.
(Nota: Um beijinho ao M., que passa por aqui de vez em quando. Gostei de rever-te, meu amigo).
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publicado por Ana Vidal às 16:44
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Amigos de talento - II


Sempre inventei histórias para os meus filhos, quando eram pequenos. Deixava correr a imaginação e as personagens iam mudando, ao sabor das perguntas que eles me faziam e dos seus desejos. Muitas vezes eram eles mesmos quem sugeria aventuras e peripécias, consoante o interesse do momento ou alguma coisa que tinham visto ou ouvido. Com uma infância vivida no campo, o imaginário infantil dilata-se substancialmente e ganha cores, cheiros e formas impensáveis para uma criança da cidade. Talvez por isso eles respondessem tão bem ao estímulo da participação na composição da história, acrescentando sempre pormenores mais ricos e dando vida a personagens engraçadíssimas. Frequentemente, eram eles que construiam toda a trama, sem se aperceberem disso.
Tenho as melhores recordações dessa época de partilha de sonhos e de loucuras imaginativas, em que me sentia muito próxima daquele universo mágico e me deixava conduzir, sem resistência, por entre seres fantásticos e mundos delirantes. Era com estes pensamentos que os meus filhos adormeciam, e muitas vezes também eu. Além das histórias, cantava-lhes canções de embalar com letras inventadas por mim, muitas vezes na hora, sobre músicas conhecidas. A única que sobreviveu ao tempo e às sucessivas mudanças de casa, escrita num papel amarrotado, foi uma letra que fiz para o meu filho mais velho. Lembro-me muito bem dessa noite de Verão em que a cantei pela primeira vez, de uma lua cheia e magnífica que entrava pelo quarto e abria as portas a todos os sonhos. Aos meus e aos dele...
Curiosamente, encontrei esse papelinho há uns anos. Sem fazer a menor ideia de qual era a música em que a encaixei nessa época (mais de vinte anos antes), gostei ainda do que tinha escrito e apeteceu-me que alguém a musicasse. Falei nisso à minha amiga Rita Vasconcellos, sabendo que ela se entusiasmaria com o projecto. A Rita é arquitecta de profissão, mas é também uma inspirada compositora, para além de outros múltiplos talentos. É, sobretudo, um espírito curioso e sensível, muito próximo ainda da inocência das crianças, como acho que todos gostaríamos de ser. Como eu calculava, achou graça ao desafio. Pedi-lhe que fizesse uma coisa simples, já que era uma "Cantiguinha de embalar", título que dei, logo ali, à canção que surgiria da nossa parceria. Sentou-se ao piano e começou a alinhavar uma melodia suave e delicada, como aquelas das caixinhas de música. Era exactamente isso que eu tinha imaginado para aquela letra. Deixei-a, nessa noite, enredada na sua criação, sabendo de antemão que iria gostar do resultado. Poucos dias depois, ligou-me. "Está pronta, vem ouvir." Lá fui, comovida e curiosa. E amei desde logo o casamento entre as minhas palavras simples e a música da Rita, que tão bem as tinha apreendido.
Por sugestão de amigos, concorremos com esta canção ao Festival da Canção da RTP (há 3 anos). Para isso, demos-lhe o título de Branca Lua e gravou-se uma maqueta em estúdio, com a própria Rita ao piano e a bela voz da Mafalda Sachetti "emprestada" para o efeito. Não ganhou, claro, nem nós esperávamos que isso acontecesse. É uma música/letra que está muito longe do perfil das canções que habitualmente ganham festivais. Mas todo este processo nos deu um enorme gozo e nos aproximou como amigas. Depois disso, decidimos fazer outras parcerias musicais. Estão em fase de acabamento várias canções, e algumas delas farão parte de um interessante projecto musical em que a Rita está agora a trabalhar (não posso adiantar mais sobre o assunto porque ainda está no segredo dos deuses, mas acredito que vai ser um êxito).
Aqui fica a Branca Lua, em maqueta, porque ainda não encontrou uma voz que lhe desse vida definitivamente. Gostaríamos muito que isso acontecesse, um dia.
BRANCA LUA

Branca lua traz um sonho
risonho
ao meu filho adormecido
Deixa-o partir num veleiro
ligeiro
pelo azul desconhecido
Deixa-o tocar as estrelas
prendê-las
entre os dedos pequeninos
como se fossem brinquedos
segredos
que só sabem os meninos

Dá-lhe asas ao pensamento
fermento
duma vida por escrever
que enquanto tudo se espera
quimera
tudo pode acontecer
Ó Lua, quando ele partir
a sorrir
no seu corcel de magia
pede ao sol que se detenha
e não venha
trazer cedo a luz do dia


(Como tenho estado com problemas no Imeem, aqui fica o link se não conseguirem ouvir: http://anavidal.imeem.com/music/MKNuQSuG/mafalda_sachetti_branca_lua/)

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publicado por Ana Vidal às 17:00
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008

Baptizados


Como prometido - tenho que explicar aos leitores incautos que esta é uma private joke entre mim e os amigos Fugidia e Réprobo - aqui está uma fotografia do meu baptizado. Foi em Março e em Sintra (na Igreja de Sta Maria), o que, além do facto de eu ter só um mês de vida, justifica a toilette enchouriçada...
Estou ao colo da minha madrinha, que respondeu ao convite dos meus pais com um longo arrazoado em verso, que acabava assim:
E se não vier chuvinha
(no que temos muita esperança)
irá bonita a madrinha
com um chapéu que veio de França!
Não choveu, pelos vistos.
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publicado por Ana Vidal às 11:38
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Amigos de talento - I

A inaugurar esta galeria de "Amigos de talento" que hoje começa aqui, um amigo recente mas muito especial: Manecas Costa, um músico com talento para dar e vender. É natural da Guiné-Bissau mas vive em Portugal há nove ou dez anos. Diz-se integrado e feliz por cá, coisa que sabe sempre bem ouvir a alguém que teve que ultrapassar barreiras raciais e adaptar-se a um novo mundo. Mas a música, que lhe está no sangue desde criança, abriu-lhe portas insuspeitadas. Depois de alguns anos de relativo anonimato e de uma primeira gravação, teve um convite da World Music para gravar o seu segundo cd em Londres, com a prestigiada chancela da BBC. Por lá ficou uns meses, actuando em salas históricas e fazendo um sucesso tremendo. Até em casa de Peter Gabriel tocou. Mas nem o facto de ter estado nos tops ingleses, deixando para trás nomes famosos, fez com que perdesse a simplicidade e o sorriso tímido e franco. Maior que a qualidade da sua música, só a sua qualidade humana.
Conheci-o num concerto em prol da Lusofonia (eu fazia parte da organização e era letrista de um dos outros artistas convidados), há cerca de um ano, com músicos de vários países tocando e cantando repertórios trocados entre si. Uma festa bonita, daqueles momentos especiais que só às vezes acontecem em palco. A palavra certa para descrever a sensação que me provocou a actuação do Manecas, nessa noite mágica, é esta: electrizante. Destacava-se entre os consagrados, voz e guitarra sobrepondo-se naturalmente, sem "atropelar" ninguém. Era, simplesmente, o melhor dos melhores. No fim do espectáculo conversámos imenso e alinhavámos, logo ali, parcerias futuras. Mas, como acontece tantas vezes, perdemo-nos de vista logo a seguir e tudo ficou em suspenso. Voltámos a encontrar-nos agora, porque é ele o inspirado guitarrista da canção "O inventor de abraços", uma das que tem letra minha no novo cd do Luís Represas. Tem estado na Galiza a fazer teatro mas vem cá sempre que pode, para estar com a família. Gostei de revê-lo e de saber dos êxitos que tem tido. Porque ele os merece, sem sombra de dúvida.
Aqui fica a canção que lhe ouvi nessa noite da Lusofonia, "Pertu di Bo", e também "O inventor de abraços", uma parceria que afinal fizemos sem saber. Mas outras virão.




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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

É Natal, é Natal, lá lá lá...


Natal é quando um homem quiser, não é? Pois hoje foi Natal, para mim: recebi presentes de duas amigas muito queridas, completamente inesperados (e talvez imerecidos). Ainda estou comovida com eles, e tenho muito para deleitar-me com esta sorte que hoje me tocou à porta. Querem ver? Roam-se de inveja...
Da Mãe Natal Sofia - Uma longa carta muito bem escrita, numa caligrafia legível mas cheia de personalidade, em papel escolhido com capricho, rico de textura e bom gosto. Aqueceu-me a alma e trouxe-me de volta o prazer longínquo de trocar cartas verdadeiras, daquelas que chegam pelo correio, à moda antiga. Não revelo o conteúdo, porque é privado, mas digo-vos só que ainda estou com um sorriso depois de lê-la.
De Mamãe Noel Meggy - Uma caixa cheia de surpresas, desvendadas com o vagar e a volúpia que merece tudo o que é escolhido para nós, com amor e exclusividade. Cada uma delas, uma delícia. Ora vejam: Um livro de crónicas de Fabia Vitiello (Oba! Obrigada também a você, Fal, pela dedicatória cheia de sensibilidade. "Crônicas de Quase Amor" será a minha próxima leitura); um quadro feito com folhas e frutos vermelhos, artesanal, que já está pendurado na minha cozinha e ficou liiiiiindo!; um colar feito de sementes coloridas, outra peça do rico artesanato do Pará, de um gosto incrível (um must para o Verão!); um íman para o meu frigorífico, lembrando tesouros gastronómicos e cheirinhos do Brasil; e, last but not least, um cd da minha amada Maria Bethânia, ao vivo - Diamante Verdadeiro (alguém duvida?). Tudo isto para mim, Meg? Amiga, como vou eu retribuir tanto carinho atravessando o Atlântico?
Eu não digo que tenho os melhores amigos do mundo?
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publicado por Ana Vidal às 19:17
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Terça-feira, 11 de Março de 2008

Se eu soubesse o que seria, se...

O Paulo Cunha Porto, Réprobo azul e branco que muito prezo, desafia-me a projectar-me em mil coisas, desde os números (que nunca foram o meu forte) até aos climas, imagine-se! Ainda pensei disfarçar, mas a deselegância com os amigos não é o meu pior defeito. Valha-nos isso. Com este e outros argumentos de peso, o meu narcisismo aproveitou logo a perspectiva de um jogo de espelhos para pôr-se em bicos de pés. Acabei por perceber, lendo as respostas de outros, que a pergunta não é tanto "o que seria" mas "o que gostaria de ser". De outro modo, cairia por terra a tese da auto-crítica para dar lugar a um descabelado auto-elogio. Assim é só sonho, ninguém leva a mal. E aqui estou a responder, com a certeza de ficar muito aquém do que seria, se... tivesse juízo!
Se eu fosse um dia da semana, seria... Sexta-feira, mas só se tivesse um Robinson Crusoe para brincar. Tudo menos um Domingo, a não ser que pudesse ser um Plácido.
Se eu fosse um número, seria... o 7. Eu e mais alguns biliões de pessoas, mas é preciso ser-se humilde.
Se eu fosse uma flor, seria... uma Frésia amarela, a minha flor preferida. Se já não as houvesse na florista, então uma hortênsia azul.
Se eu fosse uma direcção, seria... o Sul, definitivamente e cada vez mais. De poucas coisas tenho tanta certeza, e não me perguntem porquê.
Se eu fosse um móvel, seria... uma Chaise-longue bem confortável, estofada a veludo castanho-chocolate.
Se eu fosse um quadro, seria... de Magritte ou de Boticcelli.
Se eu fosse um líquido, seria... um Vinho velho, tinto.
Se eu fosse um pecado, seria… o catálogo completo, com excepção da Inveja e da Avareza (e excluindo também, irritada - eu não excluí a Ira - estes novos pecados modernos com que o Vaticano se lembrou de nos presentear agora, como se estivéssemos mal servidos de culpas e a vida nos fosse fácil...). Não é o Papa que calça Prada?
Se eu fosse uma pedra, seria… uma Safira, a minha pedra astral.
Se eu fosse um metal, seria… Ouro, porque é eterno, macio, e tem um mistério incomparável.
Se eu fosse uma árvore, seria… um Plátano em Outubro, para ter em mim todos os tons que há na paleta do Outono.
Se eu fosse uma fruta, seria… uma Maçã encarnada. Porque sim.
Se eu fosse um clima, seria… um clima desses que pinta às vezes e deixa a gente à toa, ora!
Se eu fosse um instrumento musical, seria… uma Guitarra, dedilhada por um virtuoso.
Se eu fosse um elemento seria… o Ar (o meu signo é de Ar), livre e adaptável a todas as formas. Uma brisa às vezes, outras uma nortada. Um ar da minha graça...
Se eu fosse uma cor, seria… Azul. Em todos os tons e matizes, mas sobretudo o azul-cobalto (a cor do mar na Gruta Azul, em Capri) e o azul-turquesa (a cor do mar na Baía de Carthago). Nem sempre se pode ser original, e recuso-me a escolher o "branco gelo" só para fazer género.
Se eu fosse um animal, seria… um Tigre de Bengala, o mais belo animal que já vi.
Se eu fosse um som, seria… o do Mar, que canta só para mim, às vezes.
Se eu fosse uma canção seria… American Tune, de Bach / Paul Simon.
Se eu fosse um perfume seria… o Eau d'Issey, de homem. Ou o Paloma Picasso, para a noite.
Se eu fosse uma comida, seria… Chocolate. (nem me atrevo a pensar em enumerar outras, porque a lista seria infindável)
Se eu fosse um cheiro, seria… o do Pão acabado de cozer.
Se eu fosse uma palavra, seria... uma Palavra escrita ou cantada.
Se eu fosse um verbo, seria… Amar. Não conheço outro mais completo.
Se eu fosse um objecto seria… uma Mala de viagem, sempre pronta.
Se eu fosse uma peça de roupa seria… uma Camisola de caxemira, directamente sobre a pele.
Se eu fosse uma parte do corpo, seria… os Olhos. Sem eles, não consigo imaginar a vida.
Se eu fosse uma expressão, seria… na Lua. É onde estou, a maior parte do tempo.
Se eu fosse um desenho animado, seria… Tintin, o meu preferido, aventureiro e curioso.
Se eu fosse um filme, seria… As Horas, uma lição para toda a vida.
Se eu fosse uma forma, seria… uma Esfera, que não se deixa apanhar nas esquinas...
Se eu fosse uma estação do ano, seria… o Outono, pela luz e pelas cores. E pelas sonatas que inspira.
Se eu fosse uma frase, seria… esta, de Cecília Meirelles: "Aprendi com a Primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."

Passo o desafio a quem quiser pegar-lhe, que isto dá muito trabalho...

publicado por Ana Vidal às 23:27
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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

A marquesa saiu às 5 horas


A minha amiga Meg, incansável e excelente blogueira, propõe um desafio irresistível a todos os comentadores do seu badaladíssimo Sub Rosa (com novo visual, a propósito): o de glosar, à semelhança do que fez o escritor Paulo Mendes Campos (brilhantemente, como poderão ler no post da Meg) esta frase: A marquesa saiu às cinco horas. A frase surgiu de uma ideia do poeta Paul Valéry:
“Valéry, com seu horror à vulgaridade literária, dizia-se incapaz de escrever um romance por não possuir a coragem de redigir uma frase como esta: A marquesa saiu às cinco horas."
Pois bem, Paulo Mendes Campos inventou novas versões para descrever um episódio tão banal como esta saída da marquesa, com hora marcada. Algumas delas são hilariantes. O que vos peço - a vós, ilustres e bem humorados comentadores desta Porta do Vento - é que alinhem na brincadeira e sugiram as vossas próprias versões, contribuindo para o disparate colectivo. Podem fazê-lo na caixa de comentários da Meg, que ela depois fará um apanhado dos melhores (ou de todos, não sei) e com eles fará um novo post.
Eu já contribuí. Vá lá, juntem-se ao desafio. É divertido e ginastica os neurónios...

(Nota: Não resisti a ilustrar este post com um retrato da nossa Marquesa de Alorna)
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publicado por Ana Vidal às 15:48
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Meia dúzia de nadas

Lá me apanharam em mais uma corrente. Mas, vinda da Leonor, não posso recusar. Assim, deixo aqui as tais "6 insignificâncias" sobre a minha pessoa, que não interessam a ninguém mas que tiveram o mérito de me fazer olhar para dentro. São estas:
    1. Demoro muito a "sair" de um filme de que gostei. Quando se acendem as luzes da sala de cinema e olho à minha volta, tudo me parece estranho: as pessoas, as conversas, o ambiente. Às vezes, um dia inteiro não chega para voltar à realidade. Acontece-me o mesmo com alguns livros.
    2. Adoro flores amarelas: rosas, frésias, narcisos, túlipas.
    3. O mar faz-me uma falta física: se estou muito tempo afastada, começo a entristecer perigosamente.
    4. Perco-me por tapetes orientais. E por chocolates.
    5. Nada tem a capacidade de me comover como a música. E pode ser qualquer uma a ter este efeito, desde a erudita ao fado.
    6. Sou a pessoa mais distraída do mundo, mas sou boa fisionomista. Raramente esqueço uma cara e tenho a mania de encontrar semelhanças entre as pessoas.
    7. Em Itália, sinto-me em casa. Mas é a Índia o meu grande desafio.

E pronto. Eu sei que são 7 e não 6, mas eu gosto mais do número 7 (outra mania minha, também). Passo o desafio ao Pedro Viegas, à Rosarinho, ao Paulo, à Musqueteira, à Meg, à Sofia e ao Pedro SB, que é da casa e por isso responderá aqui mesmo. Se lhe apetecer, claro, como aliás todos os outros.

publicado por Ana Vidal às 14:54
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Baleal, um amor antigo

Todos nós temos uma praia. A "nossa praia". Uma espécie de mundo encantado, perdido no tempo, onde estão guardadas, intocáveis, as nossas mais doces lembranças da infância e da adolescência. A minha é, sem dúvida, o Baleal. Estive afastada dela, fisicamente, durante anos. Mas o espaço que este lugar especial teve sempre no meu coração nunca foi ocupado por nenhum outro. Por qualquer razão que desconheço - há forças subterrâneas que não têm explicação simples, e são mais importantes do que pensamos - o Baleal voltou a tornar-se um apelo fortíssimo na minha vida. Sinto-lhe, mesmo de longe, o eterno cheiro a maresia, o vento cortante das madrugadas, a extrema brancura da areia finíssima. Cinco sentidos alerta, à espreita das memórias. Porque todas as velhas memórias se corporizam neste lugar mágico, onde o tempo teima em não passar.

Ando há muito tempo para escrever sobre o Baleal. Mas a minha irmã Madalena descreveu-o assim, e eu nunca o faria melhor. Convido-vos a ler esta declaração de amor à minha praia, à nossa praia de infância:

A Ilha do Baleal é um daqueles sítios alcançados por bafo divino em dia de suprema inspiração, dona de uma beleza natural que, além de absolutamente estonteante, é originalíssima na costa portuguesa (digo eu, que não a conheço toda), e isto só do ponto de vista geográfico e não do resto (ao dito resto iremos, a seu tempo). A Ilha, que não o é, sê-lo-ia quase se não estivesse ligada ao “continente” por uma língua de areia com duas praias – e aqui começa a originalidade, mas nem por sombras se esgota – que se enfrentam, mais que se admiram, mesmo em frente uma da outra.

Nós, os nativos, insistimos em chamar-lhe Ilha, talvez porque há muitos anos quem a frequentava lembra-se bem de chegar ao Redondo e ter que esperar que a maré baixasse para poder atravessar, pois a maré cheia juntava as águas até quase se perder o pé, ou pelo menos até tornar perigosa a travessia, por causa das correntes fortíssimas formadas pela junção das duas águas. O que, aliás, acontece ciclicamente, e é só mais uma das suas originalidades: a Ilha comporta-se como se tivesse vontade própria, transforma-se quando lhe dá na gana, renova a sua imagem, redefine os seus caminhos, o tamanho das suas praias, a quantidade da sua areia, a altura das suas rochas até quase à véspera familiares,provavelmente para nos confundir, nos encantar ou simplesmente nos fazer reapaixonar pelas suas formas renovadas.


Nega sistematicamente – ou não fosse ela um espírito livre – todas as transformações feitas por mão humana, imperfeitas por definição e desígnio divino, como o famigerado pontão para passagem de carros, espécie de cicatriz de uma operação mal conseguida, quase todos os anos reparado porque o mar o enche de areia ou porque lhe tira tanta que lhe faz perigar os alicerces, como se a própria Ilha o rejeitasse como corpo estranho, coisa de tal maneira óbvia que nós, míseros mortais e pouco sabedores dos mistérios da natureza, não alcançamos à primeira vista. Ou talvez porque, no fundo, desejamos que ela realmente venha ser uma ilha perdida nas brumas, inacessível aos milhares de veraneantes atraídos como mariposas pelo seu brilho.


De um lado, a ilha oferece-se ao continente, generosa na fartura das suas praias gémeas – falsas – uma de águas calmas mas perigosas, a outra de águas revoltas e correntes fortes mas previsíveis. Como a mente humana, aliás: toda a Ilha é uma analogia. E ainda nos oferece mais duas praias, uma escondida do primeiro olhar, por ser reduto antigo de barcos de pesca e por definição segura, protectora, aconchegante: a dos Barcos; e outra tão pequena que torna admirável o facto de ter sido baptizada: a das Cebolas, ainda que o seu nome não seja nem remotamente poético.


Do outro lado, aberta ao azul-cobalto, a Ilha mostra a sua face rebelde, gigantesca e sempre agreste, menos moldada às vontades humanas e imune a invasões. É o lado oceânico, com vista para as Berlengas, sua congénere longínqua e ao mesmo tempo ali tão perto, e para os Farilhões, ilhotas desertas e heliporto exclusivo de pássaros marinhos, a eterna inveja da nossa Ilha de alma eternamente selvagem. Ela aponta-lhes a sua proa cortante e abrupta, como se quisesse levantar âncora, imitando penínsulas saramaguianas na desesperada tentativa de se lhes juntar. A prová-lo, a Ilha das Pombas, esta com I maiúsculo por direito próprio, rochedo virgem e rebelde que fugiu das saias da mãe, conseguiu desertar da cobiça humana e buscar uma vizinhança composta exclusivamente por seres marinhos, ou quando muito alados, e fez-se ao mar há já uns bons milhares de anos.


Ainda que de rocha pura, a Ilha tem essência marinha, feminina. É mais feita de mar que de terra – a prová-lo o facto de não haver uma única árvore em todo o seu território, nem mesmo um pessegueiro, ainda que de outros tempos, só tojos raquíticos que sobrevivem à custa de pura teimosia – quase como se criar raízes não calcárias fosse motivo de vergonha para uma ilha que se preze...



É orgulhosa, a nossa Ilha. Não nos quer lá – ou não nos brindasse com tempestades quase de granizo em pleno estio, e só aos parcos mas persistentes visitantes invernais concede raras manhãs ensolaradas, gloriosas, ainda que gélidas. Parece até que considera esta adoração de que é objecto um contratempo, uma contrariedade temporária de que se verá livre rapidamente – para ela o tempo é efémero e o seu não se mede pela mesma medida que o nosso. Uma vida humana é um décimo de segundo. A memória da geração anterior somada a uma vida de agora não é mais que um suspiro.Talvez nos deixe construir casas porque as pintamos de branco, quem sabe as confunde com velas desfraldadas ao vento e conta com elas para sair mar afora, rumo ao pôr-do-sol...



(Fotografias: Mário Cordeiro)

publicado por Ana Vidal às 23:33
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Palavras minhas

Pede-me a Leonor Barros que nomeie as 12 palavras de que mais gosto. Difícil tarefa, escolher só 12. Adoro palavras e tenho a veleidade de achar que sou correspondida. Gosto de dizê-las, de escrevê-las, de repeti-las mentalmente, soltas ou em combinações caprichosas que elas próprias tratam de compôr. Dói-me quando as maltratam, como se fossem gente, e alegro-me quando as glorificam. As palavras são um brinquedo eterno e universal, além de absolutamente democrático: todos temos acesso a elas, ao seu mistério, à sua beleza, ao seu peso específico. Com palavras se pode dar vida e com palavras se pode matar. Mesmo os silêncios são feitos de palavras imaginadas, sonhadas, desejadas ou temidas. As palavras dançam à nossa volta durante uma vida inteira, a convidar-nos para o seu baile alucinante. Dancemos com elas.
Vamos às minhas preferidas, então. Não me detive no significado mas talvez na fonética, ou apenas no misterioso eco interior que cada uma delas provoca em mim, sem razão aparente. Aqui estão:
Maresia
Areia
Madrugada
Baía
Luz
Delícia
Cambraia

Ventania
Pele

Silêncio
Voragem
Ilha

Parabéns pela ideia, Leonor. O exercício é estimulante, ao contrário de algumas correntes que andam por aí na blogosfera. E passo o desafio a 12 amigos blogueiros (um por cada palavra preferida): Teresa, Mariav, Capitão-Mor, JuliaML, Pedro Viegas, Jayme Serva, African Queen, RAA, Lord Broken-Pottery, Adelaide Amorim, Sofia e Feitixeira, porque todos eles são gente da palavra. E de palavra.
publicado por Ana Vidal às 19:06
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

UM BOM NATAL

Amigos de sempre, amigos recentes, amigos de um dia que ainda há-de vir:

Para todos os que passam por esta Porta, um Feliz Natal, com mais Alegria e Paz do que embrulhos e laçarotes.
Nota: Ninguém me levará a mal que deseje, especialmente, um óptimo Natal à Ana LC, que tive a alegria inesperada de ouvir ao telefone, ainda há pouco. A vida não nos derrota, Ana. Muitos e felizes Natais!

publicado por Ana Vidal às 22:48
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Obrigada

Obrigada a todos os meus amigos que tiveram a paciência e a coragem de ter ido ontem à Azambuja para o lançamento do meu livro, nesta época em que todo o tempo está ocupado.
E obrigada também a todos os que não puderam estar presentes, e, literalmente, me entupiram o telefone e o computador com mensagens e mails tão queridos que me aqueceram a alma.
A todos agradeço, comovida, porque sei que os amigos são o mais precioso dos bens. E os meus são os melhores do mundo!

publicado por Ana Vidal às 12:36
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Convite

Entretanto, duas boas notícias:

1. Gostava muito de contar com todos no lançamento do meu livro Gente do Sul, que será na Azambuja (eu sei, eu sei, não é exactamente o sítio mais prático. Mas aviso que há comes e bebes, talvez convença assim os mais relutantes...), no próximo dia 15 de Dezembro (sábado) às 18h, no Auditório Municipal de Azambuja. O livro será apresentado pelo Dr. Joaquim Ramos, Presidente da Câmara de Azambuja. Apareçam por lá!


2. Soube agora mesmo que outro livro meu, A Poesia é para Comer, acaba de ganhar um prémio internacional: o Gourmand World Cookbook Award 2007, para o melhor livro português na categoria de Best Food Literature Book. Com este prémio, o livro fica automaticamente candidato ao prémio máximo, o Gourmand Best in the World, cujo vencedor será anunciado em Maio de 2008. Para quem não conhece, os Gourmand World CookBook Awards são uma espécie de Óscares para os livros de Cozinha, atribuídos por um júri internacional e muito concorridos. Só por curiosidade, o criador e presidente destes Prémios (belga ou suiço, não sei bem) chama-se, bem a propósito, Mr. Edouard Cointreau.
publicado por Ana Vidal às 17:24
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brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

O que sente uma geração

Amigo é casa

Parabéns!

Alice no país das maravil...

Desafios à linha

A verdade da mentira

Bom fim-de-semana

Porta agradecida

Será que sou bruxa???

Receita para um fim-de-se...

Bom fim-de-semana

The bright side of... dea...

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Lá estarei...

Força maior

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

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