Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Adivinhe quem foi jantar?

 

Acta de um jantar

 

Aos dezassete dias do mês de Outubro do ano de dois mil e nove, reuniram, na casa do Walter - situada algures entre Lisboa e a ponta mais ocidental da Europa – alguns sócios «de indústria» e alguns sócios «de capital»* da «companhia» Porta do Vento, com a seguinte ordem de trabalhos: 

 

Ponto 1: tomarem conhecimento mútuo, por acareação;

Ponto 2: forrarem os estômagos com um banquete elaborado a várias mãos, no melhor espírito de colaboração empresarial;

Ponto 3: reestruturarem a «companhia», redefinindo os moldes da distribuição de funções e da intervenção pública.

 

1. Cumprido, com grande emoção, o ponto 1 da agenda, passou-se, sem mais delongas, à análise e discussão do ponto seguinte.

 

2. No âmbito do ponto 2, foram lançadas para a mesa várias propostas dos sócios, incluindo a salada à Walter da Rita V., o «risotto» da Ana, o pudim de peixe elaborado pela sócia «de capital» Isabel e apresentado pelo Manecas, o lombo assado da Luísa, a bomba gelada da Fugi, as tortas de Azeitão do João Paulo, os queijos e as «loiras» do Mike e o pelotão de garrafas de tinto mobilizado pela Rita F. e pelo João B. Estas várias propostas foram submetidas à apreciação da assembleia, tendo sido aprovadas por unanimidade e aclamação.

 

Por razões de sobrecarga da agenda, ficou esquecida no forno a proposta de «quiche» da Ana, tendo a assembleia decidido apreciá-la mais tarde.

 

3. Por sugestão da sócia Rita F., o terceiro ponto da agenda foi brilhantemente antecedido por um pequeno (demasiado pequeno!) interlúdio ao piano pela sócia Rita V, que prendou a assembleia com melodias da sua lavra. Foi um momento único, que encantou, mas não saciou.

 

4. Reentrando na ordem dos trabalhos, o ponto 3 da agenda foi rapidamente abandonado em prol da discussão de alguns «faits-divers» e vários temas de actualidade, devendo enfatizar-se, pelo calor do respectivo debate, as seguintes questões:

 

- o homem do lar: vantagens e inconvenientes; 

- a blogosfera: grandezas e misérias;

- estado social versus economia do mercado, ou os riscos da conceptualização das praxis;

- escolhos da Justiça em Portugal.

 

5. A reunião foi encerrada por volta da uma hora e trinta minutos da madrugada - com profunda mágoa da assembleia, porque muito ficou por discutir – não sem que antes fosse aprovado um voto de louvor à sócia Rita V. e à presidente da mesa, Ana, pela eficiente condução dos trabalhos.

6. A próxima reunião será convocada, oportunamente, pela presidente da mesa, tendo já como primeiro ponto da ordem de trabalhos a apreciação da proposta de «quiche» referida em 2. – proposta que se espera poder analisar dentro do respectivo prazo de validade…

 

Esta acta foi elaborada em Lisboa, aos dezoito dias do mês de Outubro do ano de dois mil e nove, e será aprovada pelos sócios na próxima reunião.

 

*(comentadores e frequentadores)

 

 

 

Presenças:

 

Rita V. e  Walter

Ana V. e Manel

Luísa e Paulo

Rita F.

João Paulo e Teresa

Manecas e Isabel

João e Ana L. A.

Fuji e Mike

 

(Acta elaborada por: Luísa)

publicado por Ana Vidal às 23:40
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Domingo, 11 de Outubro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

 

Luísa

 

Abrimos os salões da Porta às sete, à hora do fecho das urnas – fazendo, desde já, votos para que as mesmas entrem em sono letárgico por muitos e santos Outonos, que de votações estamos de papo tão cheio, quanto de nervos franjados. É, aliás, para aliviar os efeitos desta deplorável «season» eleitoral, que vamos apostar num jantar ousado, inspirado na obra de alguns dos melhores «chefs de cuisine» da actualidade, um jantar que nos prenda os braços e a atenção a tachos e panelas, e sobressalte os cinco ou seis sentidos aos nossos convivas, permitindo desvalorizar as derrotas políticas que ainda houver que engolir. Estejam, de resto, descansados, que a nossa experimentação no domínio das correntes culinárias de vanguarda e das suas referências essenciais, a leveza, os sabores naturais e os produtos de qualidade, resistirá à tentação da caricatura do prato gigante com a ervilha biológica ao centro. Como portuguesas, sabemos como é importante forrar adequada e abundantemente os estômagos.

 

Entraremos, portanto, «a matar» com um «shot» de melão e pêssego com amêijoas marinadas, perfumado com coentros em grão. «Divertidos» os palatos com este promissor «amuse-bouche», propomos o conforto apaziguador de uma sopa quente de castanhas com aipo e natas batidas, guarnecida com o luxo discreto de umas trufas brancas de Alba, e ainda uma entrada de «carpaccio» de pato, enfeitado com gomos de citrinos e temperado com flor de sal e hortelã.

 

O tom está dado para um «conduto» que combine requinte e alimento: não resistimos, por isso, a testar-nos no desafio da confecção de um pregado suado em Porto seco, com xérem de arroz e cadelinhas, não obstante sentirmos dificuldade em decifrar umas quantas instruções da receita. Sugerimos, para o pregado, o acompanhamento de um branco do Douro Dona Berta, Vinha Centenária, Reserva 2008. Outro desafio será a preparação do «velho Ápis» em lascas de lombo, chambão e pivete («vulgo» rabo) emaranhadas no que o livro qualifica de «ilustre reunião». Parece-nos uma iguaria forte, que faremos acompanhar com feijão verde e batatinhas novas, colorir com ovos de codorniz e regar generosamente com o tinto ribatejano Quinta da Alorna, Reserva 2007, um vinho de aromas intensos e corpo redondo e equilibrado, que casa bem com carnes já «ilustremente» casadas.

 

Para sobremesa, reservamos a solução fresca e consensual de uma trouxa de maçã verde, mel, canela e nozes com gelado de baunilha, que não nos complique com o «sistema», por esta altura decerto sobrecarregado de afazeres digestivos nas duas frentes de batalha da mesa e do pequeno ecrã. Rematamos com o café e a nossa panóplia de maltes e licores, não esquecendo o bom havano para os apreciadores e o sortido fino de chocolates belgas.

 

Quanto ao nosso convidado-surpresa…

(Ai, Ana, que me esqueceu de o convidar!)

 

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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Domingo, 4 de Outubro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O nosso convidado de hoje é um homem simples, mediano e apagado, sem nenhuma particularidade que atraia a atenção. Tanto que, em décadas de coincidência na mesma pastelaria do bairro em que ambos morávamos, e onde toda a discrição sucumbia às afáveis extroversões do senhor Silva* que tirava os cafés, nunca me deu nas vistas. O nosso convidado era um homem votado, na opinião local, a um destino sem história, linear e ortodoxo – salvo talvez no casamento, em que não é atípico que os homens mais triviais estabeleçam as associações mais sui generis. Assim aconteceu, de facto: tomou por mulher uma criatura ambiciosa, de aparência determinada e viril, que, segundo a vizinhança, não lhe fez a folha, mas certamente lhe compôs a agenda. Falatórios de vizinhança valem o que valem. Mas é verdade que, de repente, este homem que soubera, antes de Abril, fazer uma oposição judiciosa e, depois de Abril, conduzir pela esquerda de forma prudente e reflectida, se viu alçado às posições de maior relevo nacional, assumindo, em sequência ininterrupta, lideranças várias, do partido e da câmara ao próprio Estado. Adianta a vizinhança – sempre maledicente – que, no turbilhão dos pesados compromissos e responsabilidades, terá descoberto a competência de uma boa garrafeira de maltes. Mas não foi por isso que se tornou o Truman português. Se soltou a «bomba atómica», não foi por inspiração de um Cardhu, nem pelas razões que aduziu e que os anos já desmistificaram. Foi, sim, porque tinha uma dívida a saldar. Nem se pense que os lugares cimeiros da hierarquia do poder se alcançam, em Portugal, por mérito próprio; e que não há preços elevados a pagar.

 

«Reformou-se», entretanto, e usufruía, até há pouco, do sossego que é apanágio das lutas subtis. Mas eis que o diabo lhe reaparece a tentá-lo com o domínio, senão do planeta, do nosso jardinzito à beira mar plantado. Pressente-se nele alguma resistência, mais por preguiça do que por virtude. Nós é que não resistimos a saber o que lhe vai na alma e a tentar antever o que pode esperar-se da próxima corrida presidencial.

 

Recebemo-lo, pois, aqui na Porta, com o aconchego de um creme de coentros, aromatizado com azeite de noz-moscada. Tentamos, de seguida, emocioná-lo com umas almôndegas de mil sabores portugueses, acompanhadas com arroz de alho e regadas com um vigoroso tinto alentejano. E adoçamos-lhe, finalmente, a boca com uma sobremesa de peras cozidas em Porto seco, perfumadas com calda de chocolate negro. Se até essa altura não apurarmos as suas intenções, entram os digestivos. Temos pronto um pelotão de experimentados whiskies, capazes de arrancar confissões a um mudo… e, se nos diz que se candidata, de afogar a nossa profunda mágoa.

 

*Nome deliberadamente ficcionado, para que não haja rasto que ameace o anonimato das nossas fontes.

  

publicado por Ana Vidal às 10:00
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Domingo, 27 de Setembro de 2009

Adivinhe quem NÃO vem jantar?

Luísa

 

 

Era o senhor que se seguia na lista, porque há mistérios no seu historial que gostaríamos de desvendar. Nomeadamente, certos mistérios que dizem submersos no lodo da política e talvez mesmo nas nossas águas territoriais. Mas interessava-nos, sobretudo, estudar a sua hiperactividade e compreender o mistério – outro! - da extraordinária energia de que dá provas em condições de campanha; o voluntarismo com que defronta os excessos entusiásticos ou críticos do pequeno comércio ambulante e da pequena lavoura, doutrinando, com incansável espírito de missão, sobre um ideário que parece ter na classe profissional dos taxistas a sua primeira base de inspiração e apoio. Tentámos contactá-lo pelo telemóvel. Mas, infelizmente, a algazarra, do outro lado, pontuada de regateios e pregões num fundo de «muás», inviabilizou qualquer troca de palavras e desistimos do convite.

 

Passámos, portanto, ao segundo candidato: um homem cujo olhar vagamente alucinado, o discurso cuidadosamente soletrado, a altivez intelectual e a pose de grande pregador de altar, convocando o fogo purificador contra os satânicos agentes do capital, interpela a nossa viva curiosidade antropológica. É desta massa, sabemo-lo, que se fazem os fundamentalistas; e é nestes crânios que, em contradição com as suas costumeiras concepções igualitárias, germinam umas incompatibilidades «manientas», umas fobias sociais. No caso do nosso candidato, o objecto delas sendo, surpreendentemente, não a já mencionada classe dos taxistas, pelo motivo aceitável do seu vernáculo realmente hostil, mas a classe das técnicas de vendas de pescado fresco, pelo motivo inexplicável do seu vernáculo inofensivo, mas pitoresco, tido por pouco «sério». Infelizmente, vimo-nos forçadas a abandonar a hipótese do convite, porque a nossa cozinheira, solidária com as amigas da peixaria, jurou greve.

 

Considerámos, ainda, o terceiro elemento da lista. Movia-nos, na sua escolha, a simpatia que votamos aos homens esforçados, coerentes, espontâneos, alegadamente bons maridos, pais e avós. E o exotismo do contacto com um «último dos moicanos», ou com o sobrevivente de um tempo de fronteiras ideológicas claras e duros mas apaixonados combates, que se apagou com o século XX. Infelizmente, sondado para o convite, declarou-nos que a sua perene luta em prol das classes que detêm empregos - conceito equívoco, que não sabemos se inclui taxistas e peixeiras - conhecia, esta noite, mais um momento de clímax, que não lhe permitia abandonar a legião da Soeiro Pereira Gomes.

 

Assim sendo, porque o dia é o dia que é, resolvemos não fazer quarta tentativa. Demos folga ao pessoal e aqui estamos, fixas no pequeno ecrã, esperando poder discernir, na noite escura que se avizinha, a luz da velha estrela que aponta o Norte. Mas deixamos a Porta aberta para quem queira juntar-se a nós no comentário e no bem ou maldizer; e se contente com os nossos, por sinal saborosíssimos, ovos estrelados. 

 

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Domingo, 20 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Há muito que «atravessou a raia equatorial». O cabelo encaneceu e a bochecha roliça descaiu, mas, fazendo fé no que diz, não descaiu mais nada. É, aliás, um jovem de espírito, activo e vigoroso na crítica, ainda que não impressione pela penetração ou pela objectividade com que avalia o que vai pelo mundo, confundindo, frequentemente, o trigo com o joio, nutrindo afeições caprichosas por umas figurinhas que só não se estranham no poder, onde o exercício do poder tem contornos circenses, e revelando pontos de vista eivados de um marialvismo - que é, confessamos, onde as nossas divergências se radicalizam. Mas já tudo se lhe perdoa, e não só pelo respeito devido aos da sua geração. É sabido como se bateu e sacrificou em defesa das suas convicções, amargando um «exílio» parisiense nos idos de sessenta. E como, regressando depois ao país «libertado», ainda terçou armas contra certas forças inimigas do progresso; o que fez para soltar do jugo comunista esta nossa humilde quintinha; e o que arengou para soltar do jugo colonialista as quintinhas ultramarinas, para regozijo de quantos viram, na reviravolta, a oportunidade de, com uma mão à frente e outra atrás, retornar ao solo pátrio. É, enfim, um homem culto e de boas famílias, que escreve livros e gere fundações. É o político paradigmático, capaz de, com imperturbável serenidade facial, afirmar hoje o que negava ontem. E é, pela autoridade que lhe confere uma vida de intervenção aos mais altos níveis, o «intocável» – ou, pelo menos, o mais vistoso «senador» - do regime. Aqui, na Porta do Vento, estamos nervosíssimas na expectativa de o receber.

 

Subsistem incertezas quanto ao «menu». O convidado parece ser um bom e popular garfo, amigo do cozido, da açorda, do rancho e da caldeirada. Mas o seu estatuto faz-nos pensar noutros requintes ou «cosmopolitismos» gastronómicos: numa canjinha de perdiz com cebola e hortelã, nuns salmonetes no forno com tomate e alecrim, num bifinho do pojadouro com manteiga de coentros, num pudim de castanhas com creme de amoras, num Barca Velha tinto ou num precioso Colares… Nada, contudo, que possa classificar-se sob a etiqueta minimalista de «nouvelle cuisine» ou de «cozinha de autor». O nosso convidado quer uma refeição; não uma prova. E nós queremos tê-lo de boca cheia desde o princípio até ao fim do serão. É que, nesta altura do campeonato, julgamos dever defendê-lo da tentação de nos vender as suas soluções ideológicas, que cada dia se nos afiguram mais utópicas, mais equivocadas e mais distantes da realidade de uma esquerda nacional e europeia – senão planetária! - vincadamente conservadora. E defender-nos a nós de lhe dar a luta verbal que merece, de receber em troca, embrulhada no sorriso mole e condescendente que lhe conhecemos, uma alusão amesquinhante à nossa condição de donas-de-casa e de ter de lha fazer «engolir» imediatamente, com as espinhas dos salmonetes ou os nervos do bife. 


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Domingo, 13 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não vou esconder que há uma razão muito particular para a organização deste jantar. Não, não se trata de nenhum motivo fútil, como debater, com o convidado, assuntos da sua experiência política ou, sequer, do estado da nação. Para ser franca, julgo que já todos sabemos o que há a saber e até demais sobre semelhantes matérias. O exercício do poder em Portugal, posto ao serviço das abstracções e das intrigas que se tecem nos corredores dos ministérios e da administração pública (para além de alguns grandes interesses económicos), tornou-se um exercício oportunista e leviano, que vive de aparências, está desfasado da realidade e não é digno de merecer a nossa atenção. E se o tema é a cultura, um tema em si mesmo especialmente propenso a abstracções, a situação agrava-se. É sobejamente conhecido o apreço de que goza junto do actual executivo. E logo se adivinha a dimensão e a espessura do seu projecto no que toca ao desenvolvimento do nosso teatro, do nosso cinema, das nossas artes, dos nossos museus, do nosso património histórico e da nossa língua. Não, não vamos perder-nos em conversas ocas sobre temas vácuos. Vamos, sim, apurar a verdade sobre uma outra questão, também de aparência, mas bem mais palpável e de importância capital.

 

Passo a explicar: o nosso convidado foi meu professor de faculdade. Era, há trinta anos, um homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Era, na altura, um belíssimo exemplar da espécie humana, no género viril, e o absentismo feminino às suas aulas batia recordes de insignificância. Pois trinta anos passaram e eis que o reencontro no pequeno ecrã. Ele ali está, agora sexagenário… mas das três décadas passadas, nem rasto. Vejo apenas o mesmo homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Estreito os olhos, procuro, em vão, uma ruga naquela pele esticada, julgo entrever um triste cabelo branco perdido nas loiras madeixas das têmporas… Mas não estou certa de nada! Tudo me custa a crer!

 

Assumo então a absoluta prioridade de desvendar o mistério da extraordinária resistência da criatura à implacável devastação do tempo. Porque as hipóteses que imediatamente me ocorrem, de conservação pelo frio do seu desapaixonado calculismo ou pelo calor da sua vaidade, não me convencem. O mundo prodigaliza-nos exemplos de calculistas chocantemente encanecidos e vaidosos duramente «pergaminhados».

 

Proponho, portanto, que, neste serão de Domingo, nos empenhemos todos em extorquir ao nosso convidado o segredo da sua eterna juventude. E porque nenhuma ementa da minha humilde lavra pode pagar o preço de um tal segredo, proponho ainda que, se conseguirmos extorqui-lo, organizemos uma «quête» e partamos daqui rumo ao «elBulli», a celebrar, com os melhores petiscos e vinhos do planeta, o risonho futuro que, de repente, nos escancara os braços. Vamos a isso? 

 

publicado por Ana Vidal às 11:00
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Domingo, 6 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Parece que a «silly season» se prolongou, este ano, para além do período habitual. E que o mês de Setembro, apesar do retorno ao trabalho e às aulas, promete ser particularmente «silly». Quanto a nós, que reconhecemos a utilidade das «silly seasons», da sua retemperante leveza e futilidade, não é com total desagrado que encaramos um tal prolongamento. E por isso, não hesitámos em conceber um programa de jantares «silly», incluindo um naipe de convidados de honra que, em condições normais, colocaríamos na cauda da lista, mas que, na circunstância, talvez esclareçam as nossas opções iminentes. Chegámos a considerar reuni-los a uma única mesa e espicaçá-los com umas ferroadas ideológicas e uns vinhos fortes. O debate mais «silly» é sempre, de algum modo, instrutivo. Mas podendo ser também destrutivo, decidimos enfrentá-los um a um; melhor dizendo, deixar que, um a um, nos enfrentem a nós.

 

E, para começar, teremos alguém capaz de, com raro talento, marcar o tom. A nossa convidada merece, aliás, que a apresentemos sob duas perspectivas: a de fora e a de dentro. No que toca à imagem exterior, diríamos que a matéria-prima, em estado bruto, não arrancaria um segundo olhar a ninguém. Mas porque a personagem tem como objectivo confesso e prioritário dar nas vistas, soube burilar a matéria com inegável mestria, desenvolvendo um estilo alegre e «soignée» que, admitimos, não é desprovido de um certo encanto. O que explica parte do seu sucesso mediático – sendo que, para a outra parte, não discernimos explicação. No que toca à imagem interior, diríamos que a matéria-prima, em estado bruto, se revelou de molde a concentrar os olhares de todo o mundo: olhares pasmados, olhares irónicos, olhares críticos e olhares consternados. Presumo que destes últimos terá partido a sugestão «buriladora» de que selasse definitivamente os lábios. Quanto a nós, pertencentes à categoria dos olhares pasmados, avançaremos, naturalmente, com a sugestão contrária. Não desistimos de tentar, a todo o transe, compreender a juventude dos nossos dias, e quem melhor do que uma mandatária para nos esclarecer?

 

Não deixaremos, evidentemente, de ter preparado um questionário discreto. O menu, de resto, não vai ocupar-nos o espírito. Apostamos nuns modernos e dietéticos «hamburgers», garantindo carne bem moída e sem nervos, porque nos palpita que a «dentuça» da nossa convidada compagina a brancura irreal com uma realíssima preguiça. E a sobremesa, uma dietética «corbeille» de frutas, só nos ocupará as mãos, ainda que numa eternidade de árduo descaroçamento. Enfim, acedemos, como boas anfitriãs, a satisfazer-lhe o capricho. Mas não deixaremos de, do alto da nossa maturidade, lhe servir, com a «corbeille», este «silly» naco de sabedoria: de que a polpa da fruta está para o corpinho humano, como o negro caroço está para a massa cinzenta. Os sentidos comprazem-se com os primeiros. Mas são os segundos que perduram… e fazem a diferença.

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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Domingo, 26 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O nosso convidado não está magro. É, visivelmente, um «gourmet» que não despreza o factor quantidade. A idade já desaconselha, porém, certos excessos, pelo que vamos propor-lhe, para começar, uma canja ligeira de ostras e cherne, perfumada com sumo de limão, cebolinho e um fio de azeite. E saboreando a canja, falaremos do seu passado, da sua fulgurante entrada no «showbiz» e da revolução que protagonizou nas nossas tradições de espectáculo humorístico, até então dirigido, com todo o respeito e uma levíssima pitada de pimenta, à alma sossegada, familiar e inocente do português formado na escola dos brandos costumes. Recordaremos, nostalgicamente, as suas experiências de imenso sucesso no pequeno ecrã, o seu estilo popular, brejeiro, sarcástico e implacável na recriação e ridicularização de tipos sociais e de personalidades políticas, e as gargalhadas que nos proporcionou (omitindo, sensatamente, referências ao «crescendo» de ousadia que, a páginas tantas, cerrou as taxas em muitas bocas, nalguns casos chocadas com o nível de heterodoxia, noutros, críticas de certos pecadilhos de mau gosto).

 

Ao som do inesquecível sucesso musical «Saca o Saca-Rolhas», sacaremos, entretanto, a rolha de um tinto Quinta da Garrida, reserva 2005, de «aroma vibrante e em permanente alvoroço», com que regaremos um peito de peru preto afiambrado com trufas, a sua conhecida fraqueza gastronómica. E discutiremos então o presente, os motivos porque parece ter perdido a simpatia dos vários canais televisivos, mesmo se a sua presença ainda consegue mobilizar notáveis audiências. Talvez reflictamos nos efeitos que a associação do seu nome a uns casos controversos, que emocionaram negativamente a opinião pública, pode ter tido num discreto afastamento, implicando agora que comece de novo e quase do zero. Ou talvez meditemos apenas sobre o nosso sentido de humor, tão volátil, tão contingente, tão susceptível, tão atreito a cansaços, tão exigente de inovação e de imprevisto.

 

Fecharemos o repasto com uns charutos de ananás com «mousse» de chocolate, acompanhados de uma tisana de champanhe gelado. E faremos brindes a um futuro que arranque das sombras de um panorama humorístico bastante empalidecido por receitas menos originais ou mais gastas e actores menos humildes ou mais pretensiosos, o criador do imortal Tony Silva, grande impulsionador, no hemisfério «latino-romântico», de «toda a música ró». É verdade que o nosso convidado tem defeitos como todos nós. E pinta ostensivamente a cabeleira de um amarelo que bordeja o escândalo. Mas julgamo-lo honesto e livre; um bom estratega, em suma, para o restrito mas bravíssimo exército dos que marcham ao som da exortação queiroziana: «Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.»

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 19 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não é uma mulher bonita, nem pretende impressionar pela presença física, mantida, quase diria deliberadamente, em planos de extrema discrição ou apagamento. O seu investimento é intelectual, e já o era, tenho ideia, nos tempos do liceu. Seguiu, curiosamente, uma formação superior num ramo que emana das artes visuais, mas a sua carreira enveredou pela política. E acredito que em resposta a um apelo de serviço público genuíno e desinteressado, porque tem conseguido impor uma imagem de objectividade e independência num quadro inequivocamente adverso a semelhantes atributos. Confesso, ainda assim, que, da minha cozinha, talvez toldada pelos vapores que se escapam das panelas, tenho dificuldade em compreender o seu percurso, ou, particularmente, as motivações dele: as razões por que se transferiu de uns quadrantes para outros, ou por que se aliou a estas ou aquelas personagens. Incomoda-me uma vaga sensação de inconsistência; pressinto a intromissão de alguns despeitos. Mas explicam-me os experientes da vida que, em ninhos de víboras, não sobrevivem senão víboras; e que a inocente cobra de água que se lance no ninho, terá, para escapar, de recorrer a mimetismos e contorções, ao jeito das donas da casa. Por outro lado, não sou insensível aos que defendem que a luta mais eficaz é a que se trava dentro do bastião inimigo, e admito que essa luta implique comportamentos que um observador comodamente distanciado não entenda. Sacudo, portanto, as dúvidas do meu espírito e disponho-me a acolher a nossa convidada com o entusiasmo com que sempre reajo à inteligência.

 

Tenho a propor, para o jantar, um menu revolucionário, que não pode senão agradar a quem tomo por defensora incondicional de uma alma sã em corpo são. Na linha das novas teses nutricionistas, far-nos-ei recuar à pureza alimentar do paleolítico recolector, iniciando com um caldo de carne de vaca (bravia), perfumado com hortelã, continuando com umas tranches de pescada escalfada, acompanhadas de um tachinho de nabos confitados com amêndoas - muitas amêndoas! - e concluindo com uma «corbeille» de figos maduros, entremeada numa oferta generosa de frutos secos, nem salgados, nem torrados. Quanto a bebes, aguardo orientações de um especialista. Mas haverá água em abundância e a garrafeira estará pronta para satisfazer as reivindicações dos convivas que não façam fé nas virtudes da nossa opção despojada.

 

Naturalmente que não deixarei de servir, também, uma miríade de recomendações. Ou de lembrar à convidada que, num meio em que as palavras (e em especial as que se articulam em formidáveis declarações de princípios) valem mais do que as obras - em que tudo, na verdade, vale mais do que o trabalho e os resultados dele - o sucesso e a reputação de cada um vivem no fio da navalha, e pelos mesmos actos se sobe hoje aos céus e se desce amanhã aos infernos. E que é muito mais fácil ao cidadão comum perdoar o grande roubo ao corrupto que desconsidera, do que o pequeno erro de perspectiva à figura sensata e íntegra em que depositou confiança.     

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

A razão por que fizemos o convite relaciona-se com esse movimento de opinião que, de repente, ganhou protagonismo entre nós, na sequência, presumimos, da análise dos recentes resultados eleitorais e da qualidade da nossa democracia. O movimento, tendo, como julgamos, percepcionado um ou outro pequeno desvio na praxis do regime, terá avançado, não com as estafadas propostas de uma maior participação dos cidadãos, ou de uma maior transparência de procedimentos, ou de uma maior eficiência do Estado, mas com a sugestão imaginativa de uma «postura» política mais atraente -  conceito que supomos gizado no rasto do que foi, há três ou quatro anos, a interessante especulação sobre as vantagens da formação de partidos «sexys». Do nosso ponto de vista, a solução tem o mérito de apontar para um caminho ainda não testado em Portugal, «jardim à beira mar plantado» tão desfolhado, que recomenda, sem dúvida, o teste de caminhos novos. E sobre este caminho da atracção, cremos que o nosso convidado pode acender umas luzes, porque já o trilhou. Não temos, é verdade, condições para avaliar a sua acção no país que governa. Remetemos tal tarefa para os seus autóctones. Mas podemos, isso sim, confirmar que se trata do político do nosso conhecimento que mais fortemente apostou nas virtualidades do magnetismo corporal, delegando competências num esquadrão de amazonas de primeiríssima água, que têm rendida a bota aos seus delicados botins. E podemos também confirmar que, no seu país, há muito se não via exemplo de tamanha «longevidade» política. A coisa parece, portanto, funcionar. Um Portugal «sexy» talvez ganhe pés para andar.

 

Explicada a razão do convite, passemos ao programa. Quanto ao menu, vamos explorar, não as massas, de que o convidado está certamente enfastiado, mas as sensualidades gustativas e olfactivas da nossa cozinha alentejana, que o convidado não deixará de apreciar como nós. Entraremos com o tradicional gaspacho; seguiremos com um cação de coentrada, guarnecido com pão caseiro, finamente fatiado; teremos as imprescindíveis «migas» de broa de milho e couve portuguesa; e soltaremos, por fim, as típicas e únicas sobremesas do pão-de-rala, da sericaia com ameixas de Elvas, da encharcada e do toucinho-do-céu com amêndoas caramelizadas e alecrim. Haverá, ainda, tábua de queijos e abundante branco Pêra Manca 2007, cujos «nariz, rico em impressões», «boca de grande potencial» e «comprimento apreciável, crescendo vagarosamente em equilíbrio», não deixarão de contribuir para o clima solto, vivo e atraente que pretendemos, coerentemente, criar.

 

É bem provável que, no transporte desta opulência de paladares e perfumes, o convidado, reconhecidamente sensível aos atractivos femininos, não resista a oferecer, às nossas convivas, todas as pastas do seu governo e todos os assentos do seu parlamento. Sei que a tentação de aceitar será grande, só porque somos, também nós, reconhecidamente sensíveis aos atractivos da sua terra. Mas sugiro, apesar de tudo, uma negociação ponderada e renhida de condições e contrapartidas… que incluam os nossos homens, as nossas famílias e doze meses de férias na doce Toscânia. Se, finalmente, decidirem fazer as malas, importam-se de esperar por mim?

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 5 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não era - muito longe disso! - pessoa das nossas simpatias. Os seus traços de bebé sem tempo - esses, sim, pedindo papas Maizena - a expressão mimada ou «queque», o narizito empinado, a figura alinhada a fio-de-prumo e o gesto ostensivamente «snob» são, todos eles, elementos pouco atractivos, que em regra indiciam manias de superioridade. Acrescia-lhes, até há pouco, a condição de governante, e de governante mediocremente sucedido, não apenas na gestão da imagem, como na gestão da pasta. Multiplicava «gaffes», reduzia o português ao trabalhador em saldos do hemisfério ocidental, era dado, suspeitamos, a práticas de «amiguismo» e reagia à crítica com invariável impaciência, confirmando os indícios de que se acharia no direito de desconsiderar meio mundo e o outro meio. E quanto a resultados, citamos a verdade inequívoca, declarada e reafirmada na nossa blogosfera, de que o país está pior hoje do que estava há quatro anos, sem estrutura económica para sobreviver, quanto mais resistir a crises!

 

Subitamente, porém, tudo mudou. Um gesto simples, e identificámos imediatamente, no conjunto das solenes carrancas que povoam e deprimem a nossa vida democrática, o «enfant terrible» que fazia falta. Um gesto simples, e reconhecemos o homem capaz de trazer nova animação àquela vida, introduzindo uma nota folclórica, mas aguerrida, de festa brava. Um gesto simples, e descobrimos a acuidade analítica de uma personagem que, como nós, entrevê nas testas dos políticos (e, pelos vistos, na própria) o adereço representativo, ou de um mole entendimento bovino, ou de uma subtil perversidade satânica. Um gesto simples e encontramos, enfim, perante a desproporção do castigo, o mártir, frito e cozido no altar dos grandes princípios, que as nossas instâncias do poder tão bem honram, «envernizando» os seus constantes ataques e insultos mútuos.

 

Assim sendo, tínhamos de o convidar para jantar. De lhe proporcionar a oportunidade de desabafar contra a injustiça das coisas, de esbugalhar o olho inocente e esboçar o beicinho trémulo do incompreendido. Aqui, na Porta, se não encontrar compreensão, encontrará indulgência. E o tratamento VIP habitual. É certo que, na precipitação dos acontecimentos, não houve tempo para atestar a despensa. Mas saberemos remediar-nos com a solução dos petiscos portugueses, apresentados – o convidado, recorde-se, é um «snob» - como «menu de degustação»: as beringelas, as bolotas e os tomatinhos fritos, a morcela frita, as enguias fritas, a fritada de toucinho e febras de porco, os camarões fritos e o queijinho curado - para aliviar a sentença da fritura - desfilarão a par de umas quantas jarras de sangria (com que simbolizaremos a nossa aposta noutras «sangrias»).

 

Contamos, também, que os nossos convivas disponibilizem generosamente o seu ombro ao consolo desta cabeça que rolou e ameaça lamúria. O meu ombro vai estar às ordens… E alegremente! Sempre o vou afeiçoando ao que – palpita-me – ainda está para vir…

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não vou esconder que há uma razão muito particular para a organização deste jantar. Não, não se trata de nenhum motivo fútil, como debater, com o convidado, assuntos da sua experiência política ou, sequer, do estado da nação. Para ser franca, julgo que já todos sabemos o que há a saber e até demais sobre semelhantes matérias. O exercício do poder em Portugal, posto ao serviço das abstracções e das intrigas que se tecem nos corredores dos ministérios e da administração pública (para além de alguns grandes interesses económicos), tornou-se um exercício oportunista e leviano, que vive de aparências, está desfasado da realidade e não é digno de merecer a nossa atenção. E se o tema é a cultura, um tema em si mesmo especialmente propenso a abstracções, a situação agrava-se. É sobejamente conhecido o apreço de que goza junto do actual executivo. E logo se adivinha a dimensão e a espessura do seu projecto no que toca ao desenvolvimento do nosso teatro, do nosso cinema, das nossas artes, dos nossos museus, do nosso património histórico e da nossa língua. Não, não vamos perder-nos em conversas ocas sobre temas vácuos. Vamos, sim, apurar a verdade sobre uma outra questão, também de aparência, mas bem mais palpável e de importância capital.

 

Passo a explicar: o nosso convidado foi meu professor de faculdade. Era, há trinta anos, um homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Era, na altura, um belíssimo exemplar da espécie humana, no género viril, e o absentismo feminino às suas aulas batia recordes de insignificância. Pois trinta anos passaram e eis que o reencontro no pequeno ecrã. Ele ali está, agora sexagenário… mas das três décadas passadas, nem rasto. Vejo apenas o mesmo homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Estreito os olhos, procuro, em vão, uma ruga naquela pele esticada, julgo entrever um triste cabelo branco perdido nas loiras madeixas das têmporas… Mas não estou certa de nada! Tudo me custa a crer!

 

Assumo então a absoluta prioridade de desvendar o mistério da extraordinária resistência da criatura à implacável devastação do tempo. Porque as hipóteses que imediatamente me ocorrem, de conservação pelo frio do seu desapaixonado calculismo ou pelo calor da sua vaidade, não me convencem. O mundo prodigaliza-nos exemplos de calculistas chocantemente encanecidos e vaidosos duramente «pergaminhados».

 

Proponho, portanto, que, neste serão de Domingo, nos empenhemos todos em extorquir ao nosso convidado o segredo da sua eterna juventude. E porque nenhuma ementa da minha humilde lavra pode pagar o preço de um tal segredo, proponho ainda que, se conseguirmos extorqui-lo, organizemos uma «quête» e partamos daqui rumo ao «elBulli», a celebrar, com os melhores petiscos e vinhos do planeta, o risonho futuro que, de repente, nos escancara os braços. Vamos a isso? 

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 28 de Junho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

A convidada constava, desde sempre, da nossa lista. Esta jovem almadense é uma mulher bonita e informada, com uma carreira jornalística que, em passo seguro, a conduziu dos microfones das rádios-pirata às câmaras de televisão, e a sua presença já nos garantia, por si só, uma refeição animada pela especulação sobre o que sabemos, o que suspeitamos e o que desconhecemos, mas devíamos conhecer, da política e dos políticos… (incluindo, naturalmente, os detalhes particulares que permitem compreender personalidades e avaliar caracteres, dados tão essenciais à formação da vontade do voto, quanto à análise dos programas eleitorais). Faltava-nos apenas o pretexto que a alçasse ao lugar cimeiro da nossa lista e forçasse o agendamento do jantar. E o pretexto surgiu há dias, quando nos surpreendeu com um extraordinário número de domadora de um «animal feroz». Ninguém ignora que é praticante do desporto equestre. Mas um cavalo, espécie que temos domesticada há cinco milénios, é um cavalo. E um animal feroz é um animal feroz, deambule ele pelas vastas estepes do planeta, habite ele as suas sofisticadas metrópoles. Acresce que a convidada, confrontada com a «fera», não vibrou um látego, não brandiu um varapau, não espetou uma espora, não aliciou, sequer, com um mal-disfarçado torrão de açúcar. Foi um espectáculo de pura magia. E esta magia que, derrubando as barreiras da ferocidade e da desconfiança, amansa e «vulnerabiliza» a fera, emociona-nos muitíssimo! O espectáculo está a pedir um debate profundo.

 

Na verdade, queremos ir além do debate… porque, afinal, todos temos na vida as nossas pequenas feras, que gostaríamos de amansar também. Na verdade, queremos chegar à revelação. Desvende-nos a convidada o seu truque mágico e compensá-la-emos com o desfile de um conjunto de iguarias culinárias, concebidas e preparadas em atenção às suas confessas preferências: a cozinha e as massas italianas. Ele haverá portobellos recheados, sopa de abóbora com pesto de rúcula, tagliatelle com gambas al-ajillo e espargos trigueiros, saladinha caprese com croutons, pêssegos grelhados com molho de balsâmico e pimenta preta e gelados Santini de framboesa e natas. E haverá ainda, apoiando o conjunto, os taninos firmes e os aromas florais de um Chianti clássico, servido com parcimónia, porque a conversa é séria.

 

Pela minha parte, desconfio de que a elegância e a gentileza não são alheias aos talentos da domadora. E quase me apetecia lançar um repto às nossas habituais convivas, para a constituição de uma equipa de elegantes e gentis domadoras que, no melhor espírito de missão, avançassem por essa Terra fora a amaciar os animais ferozes que a povoam e desgraçam. Mas, infelizmente, não tenho fé na glória duradoura de semelhante empreitada. Veja-se como a magia da nossa convidada já perdeu efeito. Infelizmente, desconfio de que os animais ferozes - os selvagens mas, sobretudo, os polidos - só vão ao sítio à força de chicote.

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 21 de Junho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

 

Luísa

 

Não espero grande afluência a este jantar. Na verdade, conto que sejamos dois, ele e eu. Desde logo, porque a canícula promete convocar aos areais e às esplanadas um povo sedento do seu esquivo Sol, e retê-lo em «outdoors» até horas tardias. Depois, porque julgo que a nossa anfitriã tem outros compromissos inadiáveis, e delega em mim a empreitada. Finalmente, porque o convidado, não desprovido de competência profissional, exerce a actividade numa área que é pouco popular e pouco concorrida, e – sabemo-lo agora - pouquíssimo interessante para quem gere os destinos do país. Refiro-me à negligenciada «Cultura» e ao pobre teatro nacionais. O convidado, um discreto trintão de origem angolana, barba rija e olho cândido, tem revelado, ao que consta, potencialidades em palco. Mas é sabido que os palcos sérios não transportam a alma revisteira do português contemporâneo. Parece que tem tido, igualmente, boa participação no cinema. Mas sobre cinema, não haverá conversa que não seque na aridez ou na transcendência dos enredos, na pobreza dos meios técnicos ou na proverbial falta de ritmo. Pessoalmente, posso testemunhar uma prestação positiva no pequeno ecrã, quer nuns apontamentos publicitários, quer numa série apresentada como o maior empreendimento de sempre da nossa televisão. Mas também aqui, há notas de ridículo que tendem a obnubilar a qualidade do seu desempenho no papel de herói. Assim sendo, falamos de quê? De mexerico? O convidado tem todo o ar de lhe ser alérgico… Este jantar - confesso-o tristemente aos nossos habituais convivas - será um mero cumprir de agenda. Não alterem, por isso, os vossos planos, nem se apressem a abandonar as praias. Eu me encarregarei de levar o barco a bom porto.

 

E uma vez que vou estar sozinha, em «tête-à-tête», tentarei que a ementa e o arranjo da mesa permitam superar os vazios que antevejo. Tenho orçamentada uma refeição simples, sem luxos e à luz do par de velas que a poupança de energia recomenda. A entrada será de camarão (do congelado) salteado sobre puré de mandioca e guarnecido com uma humilde folhinha de hortelã da ribeira. O prato principal, um trivial bacalhau fresco, corado sobre batata-doce, com vinagreta de frutos secos. A sobremesa, uns sonhos de abóbora sem pretensões, perfumados com infusão de laranja e anis. E a acompanhar o conjunto, um vinho branco qualquer, talvez o alentejano Conventual Reserva 2007, que parece cumprir os requisitos: serve-se fresco, muito fresco, aquecendo, não obstante, o corpo; é terno, sedoso e alegre na boca (não opondo obstáculos de acidez ao consumo abundante que a atmosfera impõe); tem um final brioso e em claro ascendente; e apresenta boa estrutura e melhor persistência. Tudo indica que consiga aliviar as tensões do serão, aqui na Porta, e me aliene docemente dos problemas do mundo… Embora espere conseguir lembrar-me amanhã do que fizer hoje!...

 

 

publicado por Ana Vidal às 10:30
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Domingo, 14 de Junho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

No rescaldo do passado fim-de-semana, que veio abalar tantas certezas, não resisti a sugerir à nossa anfitriã este convite. Pouco conhecemos da personagem, mas a figura não impressiona, míope, rechonchuda, atarracada, de um porte «flinstoniano» maciço e sem graça. Além disso, emerge do relativo anonimato de uma carreira em leis, promissora mas embrionária, cavalgando a onda da política, que não costuma depositar nos areais senão lixos e sargaço viscoso e repulsivo. No entanto, se lhe associarmos à figura o riso alegre e bonacheirão e a atitude franca, igualitária e modesta q.b., somos capazes de identificar, no nosso convidado, um estranho carisma, do mesmo tipo do que - alguém lembrava há dias - nos permite reconhecer, no saudoso mas picaresco Vasco Santana, condições para personificar o herói e o galã do melhor cinema português. À simplicidade é difícil regatear simpatia. E ao humor, negar encanto. No caso, as companhias parecem ainda avalizar-lhe alguma seriedade e capacidade de resistência às corrupções do poder. Sinais que aliviam o peso da atmosfera de sombras e miasmas em que temos vivido. Haja esperança!

 

Não adivinhamos o que se seguirá ao seu inesperado sucesso. Sabemos, do cinema, que a ascensão do «Vasquinho da Anatomia» ao «Doutor Vasco Leitão», passando pela decifração do enigma do «mastóideo» (ou pelo convencimento de renitentíssimos examinadores), implicou uma pontinha de euforia e de vaidade. E também sabemos que há sempre aqueles que, por inveja, despeito ou pura malvadez, não deixam de espiar e denunciar todas as incongruências do passado, do presente ou do futuro às «velhas tias desnaturadas», que, no exercício do seu peculiar sentido de justiça, estão geralmente mais abertas a perdoar os grandes erros dos poderosos do que as pequenas fraquezas da gente normal.

 

Mas o momento é de festa, os Santos Populares estão na rua, e não vamos torturar-nos com extemporâneas preocupações. Propomo-nos antes acolher o nosso convidado com um jantar ao ar livre, no espírito brejeiro do arraial, com fitinhas, arcos, balões, marchas e cantigas, muito caldo verde, muita sardinha assada, pingada na fatia de pão saloio… e especial abundância de sangrias e bons tintos, pois não queremos que a criatura se nos exima à discursata da praxe com desculpas de que não tem dotes oratórios, não tem palavras… e não tem vinho!

 

Acrescentamos uma nota para as nossas comensais femininas. O convidado é solteiro. E em conformidade com a imagem, que vende, de português clássico, afectivo, de forte pendor familiar, já esclareceu que está no mercado à procura da sua «fada do lar». Recomendamos, portanto, às interessadas que tratem de cultivar os dotes seguros da agulha e do dedal – não esquecendo os da colher de pau que, pelos caminhos dos estômagos, também aquecem corações. Sabemos, no entanto, do cinema, que verdadeiramente sedutoras são as «traidoras de franja». Aos cabeleireiros, pois!

 

publicado por Ana Vidal às 11:49
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Domingo, 7 de Junho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É alto, bem proporcionado e já houve, em tempos, quem, na velha Albion, o achasse bonito. Mas a sua expressão é demasiado rígida, amarrada a não sei que conceito ou preconceito de dignidade, que lhe retira movimento, animação e brilho. Ainda assim, dignidade, parece tê-la. Ou, pelo menos, honestidade. Uma honestidade entendida - cumpre especificar - naquele sentido formal e timorato dos que se mantêm nos quadros da Lei por imperativos de disciplina pessoal, mais do que por chamamentos de honra. E é, aliás, por essa razão que, quando a sujeira das campanhas eleitorais lhe salpica o fato, não resiste a dramatizar a operação de limpeza com um choradinho menos nobre sobre rendimentos transviados. Convenhamos, no entanto, que é um homem cheio de valor. A sua carreira foi feita com esforço e com muito sacrifício pessoal, privando-o – há quem diga – de uma infância e arrancando-o às brisas tépidas da sua região de origem para uma escalada aos cumes frios das hierarquias académicas e políticas nacionais. Continua, porém, a ser, na essência, um homem do povo, sóbrio, conservador, desconfiado, cauteloso, dado a tabus e instintivamente adverso às leviandades e aos improvisos que caracterizam as franjas de «chicos-espertos» que vêm cercando a nossa vida pública e abocanhando o poder. E um homem simples, sem particulares elaborações, nem vernizes. Por isso, pedimos aos nossos caros convivas que fechem os olhos a qualquer coisinha no manejo do talher ou na mastigação das carnes.

 

Elaboração, tê-la-á o menu: «noblesse oblige». Depois dos aperitivos e «amuse-bouches» da praxe, haverá uma sopa, uma canja fina de conquilhas; uma entrada - tenta-nos a «mousse» de sardinha com figos frescos caramelizados em mel; meia dúzia de pratos principais - a personagem requer-nos estas larguezas, que incluirão os bons sabores do mar, o típico arroz de langueirão, um atum panado com compota de tomate, uma raia confitada com azeitonas…; outra meia dúzia de sobremesas, entre as quais pontuarão os incontornáveis dom-rodrigos; e o acompanhamento insólito, mas personalizado, dos melhores brancos e tintos Monte da Casteleja, cuja linha tensa promete levantar o conjunto do peso das solenidades circunstanciais.

 

Não estamos certas de que venha sozinho. Julgamos que não. Já entrámos, portanto, na leitura de quanto guia turístico aborda as maravilhas turcas, porque queremos estar à altura do que não deixará, nesse caso, de ser o tema central, senão único, de conversa. É que, por detrás de todo o homem, grande ou pequeno, há sempre uma mulher… geralmente maior do que ele. E esta, em que reconhecemos, para além de ambição e voluntarismo, uma visão ampla ou «transmediterrânica» do mundo, acaba de nos dar provas da qualidade imensa (de que pretendemos aprofundar as vantagens) que é saber como levar a carta a Garcia, melhor dizendo, o corpo à Capadócia.

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 31 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Adivinhe quem vem jantar?

 

Tencionamos arrancar com uma sopa que lhe mate as saudades dos bons velhos tempos no Novo Mundo, uma «corn chowder» de milho verde e bacon, que colocaremos na mesa com o primeiro tema de discussão: o que é o bom jornalismo? A nossa dúvida é saber se há um conceito único - a prestação serena e factual comummente associada a uma BBC - ou se, pelo contrário, há conceitos diversos, ajustáveis às circunstâncias, que não desprezam a modalidade opinativa e acusatória, tida por impertinente, quando o clima político é ou tem tiques autoritários, desrespeita as independências institucionais e menospreza as oposições. Quase adivinhamos a resposta do nosso convidado. Trata-se de um profissional batido, com um currículo que inclui vivências internacionais e contactos - alguns complexos e traumatizantes - com vários tipos de censura, e que tem dado voz aos seus pontos de vista, num tom delicado, mas desassombrado, e não raro contundente no registo escrito. O seu estilo pessoal não é anglo-saxónico, mesmo se a sua formação deve muito a uns anos de trabalho nos States. 

 

Com o prato principal, um típico «yankee meat loaf», acompanhado de «fried green tomatoes» e regado com um bom «rosé» californiano, entramos na conspiração. E pensamos propor a debate as nossas suspeitas de que, neste momento de cizânia nacional – casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão – o poder procura confundir-nos ainda mais, lançando as culpas da desgraça (entre as quais disfarça as suas próprias incompetências e pecadilhos privados) no saco sem fundo da «crise» e nos já carregados alforges da Justiça e da Comunicação Social. Quase adivinhamos a posição do nosso convidado. Trata-se de um homem sensato e sensível, os óculos de lentes grossas asseguram-lhe uma boa visão das coisas, e se certas provações do passado o «vulnerabilizam» a pressões, tem feito um esforço notável para reagir e manter a dignidade do distanciamento. Enxofrou, com isso, a governação, que passou a exigir-lhe um tratamento cerimonioso ridículo e limites ao interrogatório, antes de se furtar, definitivamente, ao seu espaço noticioso. Acreditamos que, actualmente, partilha as nossas suspeitas.

 

Contamos, portanto, ter, na altura da sobremesa - um «brownie» em calda de frutos vermelhos - razoavelmente aprofundados os mistérios que assolam o nosso presente político, incluindo os casos policiais das corrupções e das chantagens. E não deixaremos, naturalmente, de retribuir a confiança do nosso convidado com a surpresa de um desses momentos poéticos, emotivos, sublimes, tão da sua predilecção. Entre nós, programamos a declamação, pela nossa anfitriã, destas dramáticas rimas de autor anónimo:

 

Jornalistas portugueses:

Sabeis bem como é verdade

Qu’ este país adiado

Preza pouco a liberdade.

 

Pois, ó bravos jornalistas,

Defendei-nos do grilhão,

E rasgai, em altos brados,

As teias do vil «centrão».

 

……

 

Espero que as lágrimas não me salguem o café.

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 24 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É um dos enigmas da vida compreender por que é que a natureza nunca é incondicionalmente generosa; por que é que dá com uma mão e tira com a outra; por que é que, seja com homens, seja com mulheres, regateia ao esplendor físico o brilho intelectual e vice-versa. Há, certamente, excepções à regra, mas os casos conhecidos no domínio público tendem a confirmá-la. A nossa convidada é um exemplo dela. Visualmente acarinhada pela fortuna, alta, jeitosa, sensual, «pulpeuse», numa palavra grata aos aficionados, tem sido, por isso, solicitada a emprestar a sua imagem a quanto evento social, fortemente mediatizado, aposta - ao jeito imitativo que caracteriza a produção nacional - num «glamour» à Hollywood. No entanto, é evidente o seu drama íntimo. Sente-se que conhece e repudia o estigma da mulher bonita e que vive em ânsias de provar que há mais nela do que aquilo que os olhos vêem. O casamento, que pôs termo a uma fase curricularmente descuidada, poderá ter representado, no plano das intenções subliminares, uma primeira demão de «patine» cultural. Seguiram-se-lhe uns programas televisivos sobre «letras», nos quais o seu empenho e as demonstrações meio erotizadas de apego aos livros quase fizeram esquecer o desinteresse das intervenções, pontuadas de lugares-comuns… Note-se que não somos críticas e antes apoiamos e nos emocionamos com os esforços genuínos de desenvolvimento pessoal. São os nossos, de resto. Mas pensamos dever aconselhar alguma moderação verbal numa etapa do percurso que, a julgar pelas aparências, não está longe do ponto de partida.   


Pois é para lhe manifestar isso mesmo, a par do nosso incentivo - mas também, já agora, para clarificar um conceito que tem obviamente mal apreendido - que aqui a teremos entre nós. Tencionamos «aclimatar» a conversa com uma ementa que faça justiça às nossas «intemporais» tradições gastronómicas: «o caldo verde, verdinho, a fumegar na tigela», a pingue sardinha assada, as iscas com elas e o arrozinho doce, para além do «pão e vinho sobre a mesa», que «fica bem numa casa portuguesa»… E não deixaremos de ter, em fundo musical, uma selecção evocativa dos melhores fados da nossa «intemporalíssima» Amália.
 

O conceito, já perceberam, é a «intemporalidade». E o nosso fito, fazê-la entender que a intemporalidade se ganha com o génio, apenas e só com o génio, esteja ele presente numa cozinha de inspiração e sabores simples, mas únicos, que se apuraram ao longo de séculos, esteja ele contido na arte inimitável de uma voz de raras força e expressão. E explicar-lhe, ainda, que a intemporalidade não joga com reproduções ou reaproveitamentos musicais feitos em linha com as tendências do momento, por arrojados e sofisticados que sejam. Nem vai com grandiloquências publicitárias, lançadas do palco de um Coliseu sobre uma plateia menos comovida do que consternada. Nem vai sequer com o corpinho bem feito, escultural e «pulpeux» que as lançou, porque a intemporalidade, muito injustamente, não tem sagrado corpinhos, nem partes deles… Reteve, é certo, para a História, o nariz da Cleópatra, mas porque era comprido, adunco e sinal de um «génio» dos diabos. 

 

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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Domingo, 17 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Hesitámos na escolha deste convidado. Pensámos que poderia ser pouco estimulante para a nossa habitual roda de convivas. O rapaz tem boa planta e, em todas as latitudes que subjazem ao paralelo dos maxilares, um recorte muscular notável, de excelentes proporções. Mas faltam-lhe, à expressão, a mobilidade e os vincos dos que reflectem e investem no que está para além da exterioridade das coisas. Tem o olhar demasiado liso e traços faciais demasiado grosseiros para, apesar da sua pujante juventude, poder considerar-se verdadeiramente atraente. Falta-lhe, igualmente, requinte na linguagem. E é bem possível que lhe falte tema de conversa. No entanto, estamos perante um caso de estrondoso sucesso. Mesmo se não lhe saem directamente do espírito, o rapaz tem talentos que falam ao povo e que empolgam multidões. E ainda que, pela minha parte, tenda a subestimar as artes puramente corporais e a conotá-las com pontuais défices de irrigação craniana, não cometo a injustiça de não reconhecer o mérito da sua extraordinária carreira, que arrancou dos degraus mais baixos, bem como o interesse da publicidade, senão do relativo prestígio, que o seu nome trouxe a Portugal. Depois, claro, temos na ponta da língua a pergunta a que, até hoje, nunca ninguém respondeu: por que é que o nosso indígena, o português comum, é um no seu país e outro no estrangeiro? Porque é que, lá fora, é capaz de emparelhar com as maiores referências mundiais no seu campo de actuação – seja ele um laboratório, uma folha de papel, um computador ou um relvado – e, cá dentro, não sai da cepa torta, se mostra tão sem fôlego e sem inspiração? Questão de clima, de ambiente geral, de concorrência, de liderança, de organização?...

 

Pois será para tentar compreender o fenómeno que vamos empenhar-nos em envolver o nosso convidado numa atmosfera familiar, propícia à confidência. E para tal, a ementa não vai poder ignorar as particularidades da gastronomia insular. Arrancaremos com o shot da moda, de tomate com vodka e amêijoas marinadas, mas homenagearemos a tradição com umas tranches de peixe-espada com milhos e batata-doce, perfumadas com redução de maracujá. Teremos, naturalmente, as principais especialidades turísticas, mas fecharemos com uma original sopa de papaia com queijo fresco, mel e nozes, que é também uma especialidade. Acompanharemos esta sobremesa com um generoso vinho da Madeira, e o café com um bom charuto.

 

Mas a cereja em cima do bolo não será o jantar. À cautela, não vá o nosso convidado, num assomo de soberba juvenil, achar-se melhor do que todos nós e fazer-se sobranceiro – ou, pior ainda, aborrecer-nos com as histórias da carochinha que escreve com os pés - tivemos o cuidado de providenciar um segundo convidado, já confirmado, que saberá pô-lo no seu lugar, como tem sabido pôr, com grande desassombro, muito parvenu aos meandros do poder e da fortuna. E que trará, estamos certas - além de notícias frescas da visita do outro, cheio de si, que lá foi anteontem comer-lhe à mão - emoções vivíssimas à nossa mesa. Trata-se de um conterrâneo e nem mais, nem menos do que (na minha leitura «italianizada») o melhor político português… É o tio Alberto João, claro! Animados?

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 10 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Aí temos mais uma queda de um anjo. O nosso convidado, cujas origens beirãs e primeira vocação sacerdotal são conhecidas, é bem o homem rústico, que desceu do interior à cidade munido das armas da boa cepa popular: a afabilidade e a sabedoria. Mas veio encontrar uma cidade armada até aos dentes com os seus próprios trunfos e não resistiu à contaminação por essa estirpe peculiar de filoxera que se chama «deslumbramento». Assim contaminado, roído pela ambição, só Deus sabe o que não terá sacrificado à sua ascensão política e social. E se a doença não lhe afectou a afabilidade, afectou decididamente a sabedoria: a sensatez encheu-se-lhe de presunção e descambou naquilo que é comummente designado por «esperteza saloia». Envolveu-se no meio dos negócios, jogou algumas temerárias cartadas de «poker», trabalhou influências em «greens» e «coutos de caça», e alcançou, em poucos anos, uma notável condição financeira, que não deixa, apesar da sua relativa transparência, de compreender pequenas opacidades. Adivinham-se nelas outros tantos erros e provavelmente graves. Mas o mesmo «deslumbramento», que lhe corrompeu a sabedoria, alterou-lhe, muito a propósito, a expressão, fazendo descair as pálpebras, por detrás dos óculos, naquele jeito da vaga confusão «blasée» de quem nunca viu nada, nunca ouviu nada, nem sabe de nada do que são as maldades do mundo ou do clube de «gentis homens» a que aderiu. A sua «inimputabilidade» tem a prova provada na sua falta de memória. Agarra-se também ao estatuto político e faz bem, porque, se o perder, poderá ter de trocar os salões, os «greens» e os «coutos» dos ricos e famosos pelas celas e pelos pátios cinzentos de uns pobres e desgraçados anónimos, para quem o Sol nasce diariamente aos quadradinhos.

 

Pois apesar das dúvidas sobre a honorabilidade do nosso convidado, não hesitamos em manter o convite. Mais ainda, vamos esmerar-nos na cozinha e alimentar-lhe os deslumbramentos com o jantar mais requintado que encontrarmos descrito no vasto receituário que compõe a nossa biblioteca gastronómica. Lemos aqui, para «amuse-bouche», sobre uma terrina de faisão com redução de Porto e groselha, que parece apetecível; ali, sobre uma sopa de castanhas com salada de camarão; além, sobre um cherne no forno com toucinho de porco preto, em cama de batata-doce e mandioca; acolá, sobre um peito de pato corado com espargos e vinagreta de chocolate; e já nem sei onde, sobre uns mexidos de ovos com tâmaras, damascos e avelãs torradas… Quanto a vinhos, vamos consultar o «top 100» e escolher o número um. Para os brindes, reservamos toda uma caixa de Veuve Clicquot.

 

 

 

Teremos do bom e do melhor. Afinal, só não caímos dos cumes celestiais da candura provinciana porque, na nossa condição alfacinha, nunca lá chegámos a estar. Produto que somos da infernal atmosfera urbana, acompanhamos com interesse - se calhar, com admiração, senão inveja - estes casos mais ou menos lineares de sucesso… Já agora, também contamos que o nosso convidado, aliciado pelo acolhimento, nos abra umas portas na sua «alta-roda». Nunca enjeitaríamos, como se imagina, a possibilidade de «dourar» os nossos jantares de Domingo com Clintons e Bourbons. 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 3 de Maio de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Este é o convite número 13 da Porta do Vento. Número que contém em si um mundo de incertezas… ou ameaças? Pois seja para o melhor ou para o pior, escolhemos hoje um convidado que divide, como nenhum outro, opiniões. Mas na Porta, mais do que interpelarmos os nossos convivas para que identifiquem o feliz ou infeliz contemplado, queremos partilhar dúvidas, desalentos, desconfianças, pequenos amores e pequenos ódios. E clarificar ideias, por que não? Quanto a mim, porque estou muitas horas a reflectir, entre tachos e panelas, sobre a personalidade dos políticos, os seus comportamentos passados e presentes, as suas caras e os seus «corações», hão-de desculpar que, em me apanhando entre gente amiga, solte a língua e especule desenfreadamente.

 

Especulo, portanto. O nosso décimo terceiro convidado é um rapaz do meu tempo. Recordo-me dele da faculdade e de algumas viagens no 38, em que trocávamos palavras semi-pendurados nos varões que – sei-o agora – viriam a sustentar as aulas de dança feminina aqui reveladas num «post» recente. Achei-o, desde logo, um rapaz bem-falante, correcto e delicado, mas um tanto superficial, atributo que costuma denunciar uma vocação política. Bonito, como há quem o considere, não achei. Nem acho. Mas a beleza é um conceito eminentemente subjectivo… e também eu cedo perdi, com as minhas lentes de contacto, a benevolente inocência da miopia. Os anos foram entretanto passando e a carreira política foi-se fazendo com altos e baixos e previsíveis inconstâncias. Era a tal superficialidade em acção. No entanto, foi esta mesma superficialidade que, na minha perspectiva de analista de copa, lhe garantiu e tem mantido um lugar marginal relativamente aos interesses oligárquicos que controlam o país (e aos media que os servem). Porque esses «interesses» tendem, compreensivelmente, a preferir os «pesos pesados» do realismo tecnocrático, do comprometimento, da perseverança e do perfil trabalhador, mesmo que cinzentões e baços (e frequentemente improdutivos), aos «pesos pluma» da intuição, da ligeireza, do saudosismo ideológico e das generalidades, mesmo que coloridos e brilhantes (e até, por vezes, com obra). O escrúpulo ético – porque falamos de políticos e de oligarquias económicas – não entra nesta equação.

 

É, pois, para entender o que fez daquele jovem da minha faculdade, galante e namoradeiro, o «saco de boxe» da política portuguesa do último lustro – e conhecer, já agora, a sua posição sobre os escândalos dos contentores de Alcântara e do Museu dos Coches e o projecto, ventilado na Porta, de uns bailes na Estação do Rossio e no Cais das Colunas - que organizamos este jantar. Confesso que estou com sérias dificuldades de imaginação quanto à ementa. O esforço de análise na copa deixou-me arrasada. Por outro lado, não sei bem se, no contexto, devo investir em pão-de-ló, se em papo-seco; se num rosbife com salada de pepino e rúcula, se num bitoque com ovo a cavalo; se num mundano Esporão Trincadeira, se num triste Alísios, 2006. Uma decisão, contudo, está tomada, que a nossa anfitriã me perdoará. Vou encomendar, na pastelaria da esquina, um grande bolo verde, salpicado de pequenos esféricos e enfeitado com esta frase de grande alcance desportivo – que também faço, em ano eleitoral, a minha declaração de intenções: «Só eu sei por que não fico em casa!»

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 26 de Abril de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Em quadra de festejo político, mas em tempos que refutam toda e qualquer razão para festejo, apetece-nos desopilar. No entanto, porque os nossos jantares visam, essencialmente, aproximar-nos da realidade politica, fazer-nos compreender as suas subtilezas e idiossincrasias, é uma criatura política que vamos convidar, embora com o cuidado de escolher a que, de entre as opções, temos por menos política, ou seja, mais genuína, cândida, gentil e de boa-fé. O nosso convidado, que é de «excelentes famílias» - os seus pergaminhos remontando ao império romano e incluindo ascendência directamente envolvida na gloriosa empresa dos Descobrimentos – é filho de emigrantes que, na luta por uma vida melhor, rumaram ao Novo Mundo. Aí radicado, o nosso convidado alcançou uma posição de enorme proeminência, convivendo com altas instâncias do poder, despertando simpatias, criando afinidades e colocando o pequeno Portugal nas bocas da grande política e da comunicação internacionais, com referências muito benevolentes. O consenso que reúne não é, aliás, comparável ao de nenhum outro português em funções no estrangeiro. Que mais podemos acrescentar sobre ele, para além desse papel em prol do seu torrão de origem? Que é amável, leal, bem-disposto e dotado de uma inesgotável energia. E que partilha connosco – de uma forma particularmente visível - a mesma soberana indiferença pelas afirmações ocas e pelos discursos vazios. Para ele – como para nós - o carácter define-se pelos actos que se praticam. E ele dá o exemplo, poupando em verborreia o que prodigaliza em actividade.

 

É, aliás, por conhecermos o seu temperamento inquieto que decidimos organizar este jantar no jardim, sobre o relvado, em espaço aberto que lhe permita as naturais expansões. Quanto à ementa, e porque os dias já estão longos, equacionamos a hipótese de uma boa churrascada, com grande variedade de carnes e abundância de costeletas. E generosamente regada por um convincente tinto alentejano … - É verdade que o nosso convidado é assumidamente teetotaller, mas nós não somos e temos umas mágoas a afogar. - Não deixaremos, ainda assim, de consultar o gestor dos fogões da Casa Branca, que deve estar ao corrente das preferências de tudo quanto a visita, a passo lento, estugado ou de fugida.

 

Pedimos que o convidado viesse só, sem nenhuma tutela. Estamos, portanto, em condições de garantir que, no rescaldo do fartote de ontem, as palavras «política», «democracia» e «vinte e cinco de Abril, agora e sempre» não serão – pelo menos por ele – pronunciadas. E que neste serão de Domingo vamos conseguir esquecer, momentaneamente, as ameaças da crise, as incertezas do futuro e os enganos e atropelos dos nossos governantes, ora entorpecendo os nervos no tinto, ora animando os neurónios com as graças e as brincadeiras do nosso «fiel amigo».

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 19 de Abril de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O «Porta do Vento» reafirma, com os dois convidados que hoje recebe, a sua vocação cosmopolita. Ele é um portento de exuberância, um pequeno garanhão, com uma forma de estar na política que nos traz à memória o saudoso primeiro líder da nossa social-democracia: nervoso, dinâmico, pragmático, impaciente e passional, move-se por impulsos patrióticos num mundo em que a «real politik» não costuma coibir-se de vender os interesses nacionais aos desígnios dos capitais transfronteiriços. E se as suas dimensões concretas não fazem «jus» à estatura pública que adquiriu, a indústria do calçado aí está, toda afoita, subsidiando discretamente os centímetros em falta. Ela é uma referência estética - «bella, bellissima»! - e a sua forma de estar na vida muito aberta a ligeiras heterodoxias e artes - sendo certo que, nas incursões «baladeiras» que se lhe conhecem, a arte é ela. E se as suas dimensões concretas excedem os requisitos das funções oficiais que desempenha, a indústria do calçado aí está, de novo, compensando no «anti-salto» das «sabrinas», os subsídios concedidos ao parceiro. Ambos fazem um casal curioso, suficientemente desigual na forma, nas vocações, nas origens, no percurso, para manter em alerta as línguas que animam os mentideiros sociais, e suficientemente vistoso para recolocar a sua cidade das luzes no centro do planeta Terra.

 

Pela nossa parte, vamos procurar que, transposta a passadeira encarnada e a «Porta» dos nossos singelos domínios, o ambiente se liberte das formalidades protocolares e haja descontracção. Para tal, teremos a postos um Porto Vintage Quinta do Vesúvio e um tinto alentejano Scala Coeli de 2006, cuja excepcional qualidade talvez não previna as costumeiras «boutades» do convidado, mas iniba as suas tentações «proteccionistas». Já quanto à ementa, seguiremos escrupulosamente as orientações do seu conterrâneo, o minúsculo mas mais afamado «Chef de cuisine» da actualidade, que nos propôs, para entrada, umas «huîtres chaudes gratinées aux endives», irresistíveis; para prato principal, a sua «ratatouille provinçale», que se sabe capaz de aquietar qualquer resquício de desconfiança ou tensão; e, para sobremesa, uma «charlotte aux fruits brunis»… - ou serão «rouges»? – que, além de aquietar, adoça.

 

Fluirão os «licores» e fluirá a conversa, assim esperamos. Como esperamos também, senão desvendar os planos secretíssimos de «recuperação» da crise, pelo menos articular planos de «compensação» da crise… E nesse sentido, vamos animar a roda do café e dos «petits fours» com uns acordes de guitarra e a voz da nossa anfitriã neste sugestivo «pontapé de saída»:

 

Vous vous sentez bien servis?

Vous voulez remercier?

Mais de rien, mes bons amis!

Quoique l’on serait ravi

D’un p’tit séjour à l’Elysée… 

 

 

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Domingo, 12 de Abril de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É Domingo de Páscoa, tempo de festa e, para alguns também, de férias ou de evasão. Nós, por aqui, sentimo-nos tão optimistas, com essa Primavera que desponta nas copas floridas das árvores, na roda-viva dos pardais e na luz quente que inunda a cidade, e tão cheias de ânimo inovador, que decidimos fazer hoje uma mudança.

 

Assim, não teremos o nosso habitual jantar de cerimónia, mas antes um «lanche-ajantarado», que arrancará pelas cinco da tarde e poderá, se o quiserem os presentes, alongar-se até às cinco da manhã, numa conversa «de cerejas», amistosa e devidamente «assaisonnée» com as tradicionais especialidades da época. Não faltarão, naturalmente, o imprescindível folar de Chaves (não confundir com «Chávez»), bem recheado de carnes, os salgadinhos do costume, o pão-de-ló e as amêndoas, a incontornável «mousse» de chocolate da nossa anfitriã, um mundo de doces conventuais e, com o andar da noite, um caldo quente de legumes, um «carpaccio» de borrego, um «tagliatelle», uma salada e outros pequenos confortos de estômago, produzidos numa cozinha que manteremos em laboração contínua.

 

Quanto ao convidado, esperamos alguém muito especial. Quem é? Compete-lhe a si adivinhar. Informamos que é pessoa de grande simpatia e charme, inteligente, interventiva e dotada de um sentido de humor que nos encanta, ora subtil, ora brejeiro e malicioso, se as circunstâncias o recomendam; que é pessoa cujo bom senso admiramos e com cujas diferenças de opinião convivemos bem, porque sabe defendê-las sem no-las impor; que é pessoa que temos por responsável, vibrante, sensível aos males do país e do mundo, ávida de justiça e de poesia. Não estamos certas da idade; não conseguimos detalhar os traços visuais; talvez nem pudéssemos identificá-la na rua… ou talvez sim, porque os «beaux esprits» confundem a Lei de Newton, introduzindo um factor empático que redobra a atracção da matéria. Já adivinhou? Exactamente! É consigo mesmo que contamos para abrilhantar o nosso dia. O convite é virtual, é certo, mas feito com todo o gosto... apostando na imaginação sem limites!

 

 

Resta-nos, enfim, enquanto aguardamos as cinco horas e a gloriosa ordem de ataque ao folar, adiantar votos de que tenha um excelente Domingo de Páscoa!

 

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 5 de Abril de 2009

Adivinhe quem vem jantar?


Luísa

 

Estamos sem palavras. A Porta do Vento acaba de ser notificada de que, tendo cometido a infracção de não respeitar hierarquias, foi condenada a receber para jantar, hoje mesmo, um certo auto-convidado. A nossa consternação é imensa, agravada pela dupla dificuldade com que nos confrontamos. A primeira é saber quem é, realmente, este «penetra». Temos indicação do nome, é certo, e do costureiro, o Ermenegildo. Mas tudo o resto são interrogações. Não sabemos se é ou não é engenheiro. Não sabemos se tem ou não tem experiência efectiva na área do projecto imobiliário de gama muito baixa. Não sabemos se fala ou não fala mais do que um Português elementar, nem se domina ou não domina a língua de Shakespeare na sua versão técnica. Não sabemos se fuma ou não fuma. Não sabemos se é ou não é um desportista, nem se pratica ou não pratica «jogging» com regularidade superior à das suas deslocações oficiais ao estrangeiro. Não sabemos se é ou não é honesto, nem se é ou não é um homem de família, embora pareça – mas talvez não… – capaz de vender o tio, o primo e a própria mãe. Não sabemos se perfilha ou não perfilha o espírito do «Robim dos Bosques» – mesmo não duvidando de que perfilha o do «Chico esperto». Não sabemos se fez ou não fez mil e uma reformas; se cumpriu ou não cumpriu mil e uma promessas; se governa, se não governa, ou se simplesmente desgoverna… Não sabemos, em suma, nada de nada! Para sermos francas, não sabemos sequer se é uma pessoa de corpo e alma, ou se apenas a personagem de uma ficção de marketing político, promovida por umas forças indefiníveis – evitemos os estafados adjectivos de «negras» e «ocultas» – ao serviço de interesses inomináveis. Tantas incertezas matam-nos, naturalmente, porque ninguém, no seu perfeito juízo, mete em sua casa quem não conhece. E depois, como vamos escolher um menu adequado e uma roda de convivas que não se deixe tolher pelo receio de abordar temas inconvenientes ou melindrosos? A animação deste jantar vai ser uma dor de cabeça. Se não aparecer ninguém, a nossa anfitriã já disse que lhe dá música, a excelente «Ópera do Malandro»…

 

A segunda dificuldade é a falta de tempo para grandes rasgos de criatividade culinária. Mas porque a lata do auto-convite pede um jantar com lata, pensamos explorar alguma da que temos em despensa e abreviar trabalho. Assim, para a entrada, atacamos umas latinhas de cogumelos, que gratinamos com queijo sobre lasca de presunto de «Chávez». Para o prato principal, investimos numas latas de atum, e confeccionamo-lo em «quiche», com o frugal acompanhamento de um tachinho de nabos confitados. E para sobremesa, avançam as sempre providenciais latas de «melocotones», o debate sendo se os perfumamos com uns polvilhos de arsénico, se os guarnecemos com umas hastes de cicuta. O vinho – lembrando a crise… – servimo-lo a copo, aproveitando o apaladado Casal da Eira, colheita especial Tetra Pak, que nos sobra dos assados. E depois do café – e, concedemos, de um «Português Suave» saboreado atrás da cortina – ala que se faz tarde!

 

Claro que não deixaremos de avisar que o jantar começa rigorosamente às nove e que os atrasos, nesta Porta, se assinalam com vaias monumentais.

 

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Domingo, 29 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É, a nosso ver, uma mulher tão mimada, quanto castigada pelo destino. A natureza fê-la elegante, exótica, atraente, mesmo se, no retoque à matéria-prima, nem sempre obteve os melhores efeitos. E a vida proporcionou-lhe fama e relativo sucesso. Ensaiou, diletantemente, umas incursões pelos campos da música ligeira e da actividade político-partidária, em que não deixou marcas de assinalável talento, mas firmou o seu nome no jornalismo televisivo, onde desenvolveu um estilo próprio, vistoso, feito de umas saliências provocatórias e de um tom agressivo, que não deixaram de dividir sentimentos e opiniões. A sorte foi-se-lhe, assim, matizando de sombras, e a sua imagem actual, entre coquete e misantropa, é, provavelmente, o produto dessas circunstâncias de amores e desamores em que vingou. Hoje, notamos-lhe mais moderação no tratamento das notícias e dos entrevistados. Mas nem por isso é menos incómoda. Para ela, fazer jornalismo é esquadrinhar as vidas públicas das pessoas públicas; é chagar a alma ao poder, enquanto se lhe notem chagas de comportamento e de carácter. E chaga-o, de facto, ao jeito do cão de fila – apoiada, de resto, numa equipa feminina que, com louvável desassombro, tem vindo a dar a cara na investigação de casos melindrosíssimos de alta corrupção no país. A nossa convidada não é, em suma, uma figura consensual. Mas tem-nos, caramba – e valentes! – onde muito macho e figurão dos media se apresenta tristemente desguarnecido.

 

É, portanto, na confessa esperança de esgaravatar nos podres da nossa realidade nacional que lhe propomos um jantarinho simples e restrito, para troca de confidências. Arrancando com uma sopa fria de legumes gratinados com «croutons» de salva (de que excluímos os tomates para evitar «overdoses»), pensamos oferecer-lhe, como prato principal, um simbólico bife à Marrare – esperando que do seu «marrar» saiam «colhidos» os grandes atrevidos! – E a acompanhá-lo, teremos o tinto alentejano Cortes de Cima Touriga Nacional 2005, cujos generosos taninos e final longo e apimentado se nos afiguram a propósito.

 

Só a sobremesa ainda está em consideração. Desconhecendo os níveis de apreço da nossa convidada por açúcares, debatemo-nos entre uma composição de frutos ácidos ou a originalidade de um gelado de queijo com compota de tomate. Ainda assim, porque os tempos são ingratos e pendem sobre ela ameaças de silenciamento, temos em reserva uns dulcíssimos papos-de-anjo, com que, neutralizando-lhe os amargos de boca, pretendemos estimular a sua irreverência noticiosa, que, para os descrentes da política, tem notas de música celestial.

 

 

 

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Domingo, 22 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

 

Luísa

 

 

O combate está prestes a começar, pelo que decidimos convidá-lo enquanto ainda é possível escapar à dose «comicieira» que nos espera. E que não poderemos digerir passivamente, cientes que estamos de que já nada é como era, e de que até a formiguinha da fábula terá cedido à vertigem do ganho fácil e decidido explorar os louros da sua boa imagem, trocando o labor e a obra pelo discurso moralista da propaganda. (Está naturalmente condenada, porque palavras, e demais ocas, não enchem barrigas). Pois o nosso convidado, que se diz formiga – na versão pós-moderna dos atributos da espécie, é de presumir – atrai-nos a nós pelo mistério do sorriso «Gioconda», persistente, sereno, inefável, com que entra em nossas casas nas noites da «Quadratura», dando lastro a mil especulações de politólogos, jornalistas e bloguistas. E é desvendar as razões desse sorriso que nos motiva à organização deste jantar. Será porque se orgulha da única mas portentosa empresa do seu mandato, que foi armar de baldes e esfregões a população do Bairro Alto e declarar guerra aos «graffitti»? Será porque conseguiu afirmar-se no rebanho partidário, protestando contra as orientações governamentais de policiamento das ruas e exigindo o rebaixamento do tabuleiro da terceira ponte sobre o Tejo? Ou será porque se perfila como primeiro candidato à sucessão do grande líder e pretende contrapor à arrogância deste uma expressão pacífica e consensual? Seja pelo que for, o sorriso não sairá daqui misterioso como vai entrar.

 

Mas sairá certamente mais rasgado e genuíno, depois de um repasto em que – porque um homem se vence pelo estômago – nos vamos esmerar. Pensamos, assim, começar por lhe despertar os sentidos com um «amuse bouche» de damasco seco, recheado com queijo «chèvre» e coentros, fazendo avançar depois um caldo de garoupa com tomate e pimentos, perfumado com azeite de noz-moscada. Para prato principal – e em homenagem às suas raízes orientais – temos em mente um caril verde de galinha com pão «chapati», picante de ir às lágrimas, que faremos acompanhar de um branco do Douro, Duas Quintas 2007, que é vivo no aroma e no sabor, mas fresquíssimo na boca, como convém. E porque lhe detectamos no olhar um brilhozinho guloso, apostamos, para sobremesa, na formidável dupla de uns «formigos» (passamos a ironia) com pinhões e canela, e – sugestão da nossa anfitriã – uma «bebinca» de sete folhas, sucessivamente cozinhadas no forno com a mesma hábil paciência com que se cozinham carreiras políticas.

 

Porque se trata de um convidado que respeitamos, apesar das divergências, não gostaríamos de terminar sem com ele partilhar as nossas profundas apreensões. Mas já que o poder assanha sensibilidades – e não querendo nós ferir as suas – tencionamos oferecer-lhe, com o café, um «fortune cookie», que propõe este subtil, mas não indecifrável, enigma: «Descamba nos solilóquios quem se encanta com Pinóquios». Acham que dá para entender?…

 

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 15 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É, mais ano, menos ano, um rapaz para a nossa idade. E jeitoso, por sinal! Tem uma boa figura, uma expressão «blasée», de traços másculos e duros, sob a guedelha aloirada, uma voz grave e profunda e uma aura de «enfant terrible», que, para além de pequenas teimosias e insignificantes rudezas, é inegavelmente sedutora. As suas indisciplinas manifestam-se, de resto, em campos de razoável consenso, em prol das causas do equilíbrio da natureza, da preservação do património e da liberdade pessoal, que correm graves riscos num tempo em que o poder parece apostado em padronizar os nossos costumes e em subjugar à voracidade dos «parvenus» das finanças e dos negócios os interesses simples e honestos das pessoas comuns. Pela nossa parte, aderimos, com gosto, à cor das bandeiras que empunha. E aderimos, porque o temos por descomprometido com a política, com toda a independência que lhe asseguram a enxada de um curso em leis, uma larga experiência jornalística e o confirmado sucesso literário com um romance, sobre que, confesso, a recente adaptação televisiva, pontuada de diversões de um caricato ridículo e de uma graça sequíssima, me está toldando a memória e o juízo.

 

O nosso convite pretende espicaçar a sua rebeldia. E já que ao inconformismo tripeiro veio juntar-se o instinto primordial do caçador, desperto na descoberta das savanas de além Tejo, sugerimos um jantar de inspiração venatória, carregado de fragrâncias campestres. Iniciaremos, portanto, com o aconchego de uma canja de pombo, aromatizada com hortelã. Propomos, em seguida, uma galinhola assada com farofa de trigo e frutos secos, perfumada com cebolinho em hastes. E, a acompanhá-la, um tinto Scala Coeli 2006, adequadamente encorpado, com notável persistência e muita garra na boca. Para rematar, compensando o tradicional e apaladado Serpa, a doce acidez de um creme «brullé» de limão.

 

Com um café expresso intenso e um digestivo forte (um malte Talisker ou Lagavulin), esperamos tê-lo no ponto de arrancar daqui para a noite… talvez ao assalto do sinistro «castelo de contentores» de Alcântara, onde se acantona uma tropa de infiéis, pronta a abocanhar – assim lho permitam as nossas indiferenças, distracções ou braços caídos – toda a frente ribeirinha do Cais do Sodré até Belém.

 

 

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Domingo, 8 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa


 

Anunciamos, finalmente, a nossa primeira convidada. Escolhemo-la porque pretendemos intervalar a corrente de jantares polémicos, especulativos e um pouco indigestos - para estômagos sensíveis! - com um jantar sereno e familiar de homenagem a uma avozinha. Não falamos, é claro, de uma avozinha doce de capuchinho vermelho. A nossa convidada não tem a cara rechonchuda, o sorriso ingénuo e a imagem simplória de carrapito e xaile das avós dos velhos contos infantis. Mas ainda bem! Queremos acreditar que é sofisticada quanto baste para escapar aos lobos maus que pululam nesta floresta. Esperamos, de resto, poder insinuar-lhe, durante o jantar, umas dicas sobre matéria de sobrevivência. Porque, se apreciamos muitíssimo a sua presença sóbria e distinta, adequada à idade e à figura, também sabemos que a elegância de hoje não é a elegância de ontem e não se impõe sem a exposição de etiquetas e a publicitação de costureiros e marcas. E se valorizamos os seus silêncios, que são de ouro em tempo de prolixidades e discursatas balofas, também entendemos que a conjuntura requer alguma contemporização mediática e que uma ou outra declaração descomprometida, altissonante e perpassada de frémitos visionários lhe facilitaria a tarefa de desbravar o mato. E se compreendemos o largo e salutar alcance da sua proposta de suspensão da nossa sui-generis variante autocrática da «democracia», também reconhecemos que o bom-senso é, por estes dias, tido como subversivo e que as verdades devem ser protegidas sob o sorriso diplomático e dúplice do bom-humor. E se subscrevemos, enfim, a sua honesta e frontal mensagem de austeridade, também nos apercebemos de que o auditório preferiria aliviar os seus terrores com promessas de muito pão… tal como já prefere o grande circo da bola.

 

Mas passemos às coisas prementes, que o tempo escasseia: o menu. Pois desta vez, o orçamento será contido, como convém, recomendando a simplicidade apaladada da cozinha caseira. Arrancaremos, assim, com um creme de abóbora grosso e aveludado, perfumado com coentros. Para prato principal - e sob os bons auspícios de um vinho branco do Douro, um Dona Matilde 2007, que é polido, leve e sincero - teremos o luxo ainda em conta de uns carapauzinhos de gato, vulgo jaquinzinhos fritos, acompanhados com umas migas soltas de pão de trigo, tomate e azeitonas. E para sobremesa, laranja confitada em Moscatel de Favaios.

 

Quanto a conversas, adivinhamos que tentará furtar-se ao tema da política. Mas não podemos aceitar tabus. Por isso, se se refugiar no habitual laconismo, prometemos, na roda das tisanas e dos descafeinados, lançar à dedicada avozinha o infalível mote-ratoeira: e os nossos netos, que futuro?...

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 1 de Março de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O convite está feito. E embora conste que não aceitou o outro, aguardamos, a todo o momento, confirmação de que acedeu ao nosso e já se encontra neste jardinzinho à beira-mar plantado para vir jantar connosco. É certo que, a nós, não nos move a política. Não partilhamos, com o convidado, nem a visão do mundo, nem os interesses comerciais sobre esse pequeno milagre da tecnologia informática que, não tendo ainda circum-navegado o planeta, promete restituir a Portugal a glória dos tempos de inovação e descoberta de quinhentos. Não, o que nos move são razões mais comezinhas… Mas não resistimos a conhecer a personagem, sensíveis ao charme peculiar do contraste da cara abolachada, de vincados traços indígenas, ressumando a candura popular, com o tónus vigoroso, o vernáculo imperativo e irreverente - que alguns qualificam, com soberba complacência, de exótico -, a fidelidade a um ideário e a um programa datados, mas não menos actuais no quadro das modernas causas fracturantes, e o simbolismo romântico da camisa encarnada, desfraldada aos ventos do progresso. E porque um homem é ainda e sempre a sua circunstância – e porque somos mulheres! – não negamos, também, alguma permeabilidade à sedução de um poder meio absoluto e agora meio eterno, que, se não está bem legitimado, está, pelo menos, bem financiado.

 

O nosso receio é que, nos transportes da sua costela latina, a criatura irrompa na habitual verborreia. Ou, pior ainda, que algum impaciente o mande, de novo, calar. Optámos, portanto, por uma ementa de tipo «rolha», que lhe não dê descanso aos dentes; uma espécie de «menu-degustacion», de sabores genuinamente portugueses, que não deixará, decerto, de apreciar. Faremos assim desfilar na mesa, sob os vapores do portento de complexidade e persistência que é o Dupla, tinto Bacalhôa, colheita de 2006, uma série de variações em torno do nosso tradicional porco preto. Arrancamos com uma salada de orelha de porco fumado, com redução de balsâmico. Seguimos com uma terrina de porco com tártaro de maçã, umas bochechas de porco confitadas, umas burras de porco de forno em vinagreta, um joelho de porco glazeado em mel e uma perna de porco em crosta de especiarias, não esquecendo as incontornáveis alheiras transmontanas e os imprescindíveis rojões à minhota. E para sobremesa - e ainda com a presença suína discretamente corporizada no gordo do bom presunto de Chaves - propomos o celebérrimo pudim de toucinho Abade de Priscos. A empreitada é de vulto, sabemo-lo. Mas garantimos um jantar rico, substancial e trabalhado com todo o esmero… não duvidando, embora, de que o melhor «prato» será esse que vai sentar-se à direita da nossa anfitriã…

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Tem o olho da serpente. Não o olho que se alonga e fixa e magnetiza o passarinho, mas o olho claro, analítico, móvel, que revela uma inteligência fulgurante, apenas superada em rapidez pela própria língua com que discorre sobre as forças e as fraquezas do nosso mundo político, explora enredos e acrescenta ficções, frequentemente mais verosímeis do que a própria verosimilhança. Infelizmente, nestes tempos tristes, sem vocação nem apreço pelos jogos palacianos da especulação e da suave intriga, o seu crédito vai sendo relativo. Hoje, os tempos são pelos exercícios primários da propaganda mirabolante e da mentira grosseira. Nós, por aqui, continuamos a preferir a elegância das velhas artes. Mas não é só por isso que o nosso convidado nos merece a atenção. É também porque encarna, para nós, o expoente máximo da hiperactividade produtiva, roubando ao sono muitas horas de um trabalho insano no ensino, no estudo, na política (onde alguns lhe vaticinam o renascer das cinzas) e na televisão (em comentários da actualidade que têm, na sua elaboração mas, sobretudo, no elevado índice de falibilidade, toda a sua graça).

 

Sabemo-lo preocupado em manter, num tão alucinante ritmo de vida, a alma sã em corpo são. Sabemos que pratica desporto, nadando regularmente em águas salgadas – depois de um contacto com as doces Tágides, que não deixou saudades. E sabemos que é escrupuloso com dietas. Razão por que decidimos oferecer-lhe um jantar requintado, mas muito frugal e cozinhado com matérias-primas rigorosamente biológicas. Assim, para entrada, teremos um «consommé» perfumado com um toque de Madeira e uma folha de hortelã. Para prato principal, uma dourada fresquíssima, cozinhada em crosta de sal, acompanhada por uma batata nova e estreme, salteada em fio de azeite. O vinho, em homenagem às suas origens nortenhas, será um alvarinho monovarietal, fresco, de sabor complexo e macio, mas vagamente picante. Finalmente - cedendo à tentação das terminações em «oise» - concluímos com uma leve e arejada «bavaroise» de limão, polvilhado com raspas de chocolate. E pronto! Para uma cabeça sobrecarregada, um estômago leve!...

 

(Mas já agora, ainda que não seja nada bonito dizê-lo, informamos os nossos comensais menos «piscos» que podem servir-se sem acanhamentos, porque haverá mais na cozinha.)

 

publicado por Ana Vidal às 09:30
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

 

Luísa

 

 

A fronte é lisa, pálida, de testa alta e forma oval. O cabelo claro, esparso, e os olhos cândidos, sob óculos modernos e sem aros. Tem uma expressão atenta, delicada e quase tímida, com ares daquela profunda compreensão sociológica que deveria pacificar em nós os nervosismos próprios destes tempos de crise. Mas não pacifica. O ditado manda, de resto, que em caras não vejamos corações. A personalidade de cada um só parcialmente nasce feita, vai-se burilando ao sabor das circunstâncias e acaba, frequentemente, por divergir das impressões colhidas na contemplação da fachada. O nosso convidado tem essa curiosa duplicidade. A onda do poder, que tão bem soube cavalgar, arrancou-o à dimensão, que a si próprio modestamente atribui, de pigmeu, e fê-lo crescer desmesuradamente, acabando por moldar, na figura sóbria e franzina, um temperamento aguerrido, vigilante, zelosíssimo da ordem imposta, muito sanguíneo e dominador nos seus zelos, um tanto desbocado e particularmente entusiástico dos desportos viris do malho e do cacete.

 

Pois para celebrar a feliz expansão desta insuspeitada «força da natureza», (esperando, não obstante – porque não somos aficionadas dos desportos viris - que o malho não acerte no alvo) decidimos apostar num jantar de substância, bem proteico. E assim teremos, como prato principal, uma posta grossa e mal passada de escolhida vaca barrosã, acompanhada com batatas a murro. O vinho será tinto, de um vermelhão carregado, taninoso, com um fundo de boca agressivo e persistente. Para sobremesa, propomos uma especialidade nossa, doce exuberantemente calórico, tão denso em açúcares e manteigas, como em castanhas. Hesitamos numa entrada de sopa de pedra… Começamos a temer, confesso, pelos «estômagos» (ou pelas cabeças?) dos restantes convivas.

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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