Domingo, 2 de Setembro de 2007

Dúvida


"As revelações sobre a longa e profunda crise de fé que, contra todas as aparências, viveu Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá, não podem deixar-nos indiferentes.
A partir da correspondência mantida ao longo de 66 anos com os seus confessores e superiores, que o livro Mother Teresa: Come Be My Light põe agora à nossa disposição, é todo um percurso de dúvida que o acto de entrega ao tormento dos outros e às missões que lhe foram destinadas pela sua Igreja jamais foram capazes de resolver por inteiro. São ali recorrentes as referências a sentimentos de «secura», de «escuridão», de «solidão» e de «tortura», que, no constante convívio com o Inferno que foi quase sempre a sua vida, a levaram a duvidar da existência do Céu e até do próprio Deus. «O sorriso», o seu sorriso, escreveu Agnes, o sorriso que sempre lhe associamos, «é uma máscara» ou mesmo «um manto que cobre tudo». E este não parece tratar-se de um trajecto de ascensão espiritual rumo ao absoluto da fé, como o de Santo Agostinho (dizia ele, sabemos lá nós), mas exactamente o seu inverso: um olhar permanente, e inevitavelmente amargurado, sobre uma dúvida que não cessa e colide com o próprio sentimento de dever. O que não pode deixar de nos oferecer um olhar bem mais humano sobre a vida difícil desta albanesa pequenina, missionária, e, sabemo-lo agora, sempre sofrida e inquieta. Santidade é isto, é duvidar, é crer e descrer, não a entrega cega, segura e néscia seja a que fé ou a que causa for."
E eu acrescento: Santidade é, sobretudo, não ceder às dúvidas nem usá-las como alibi para a desistência. Seguir sempre em frente, mesmo não crendo sempre. A santidade lúcida deve ser o mais difícil de todos os caminhos. E também o mais admirável.
Foi Madre Teresa quem disse esta frase desarmante: "Não posso dar-me ao luxo da política. Numa ocasião, fiquei cinco minutos a escutar um político e morreu-me um velhinho em Calcutá".
Texto (em cima, a itálico) encontrado n' A Terceira Noite, de Rui Bebiano. As citações são retiradas de um artigo da Time que a revista Visão traduziu e publicou.
publicado por Ana Vidal às 19:21
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2 comentários:
De ana vidal a 4 de Setembro de 2007 às 00:14
Concordo que ela tinha uma causa e que tudo é política. Mas acho que a escolha de uma vida de sofrimento inimaginável como foi a dela, de total entrega aos mais pobres dos pobres, não pode ter com certeza a política como primeiro objectivo. O preço é muito alto para isso.
Beijo!
De jayme a 3 de Setembro de 2007 às 23:58
Eu tenho uma visão um pouco diferente em relação a isso. Madre Teresa fez política intensíssimamante. Não há como colocar a atuação social como algo descolado da política, até porque o pensamento que leva alguém a militar no mundo da caridade é muito semelhante ao que leva alguém a ser Abraham Lincoln ou Ghandi -- ambos tidos como poço de bondade no mundo político, mas políticos até a raiz do cabelo. Como Madre Teresa, que disseminou não apenas os valores voltados à caridade, mas a visão de mundo de um certo segmento da Igreja Católica. Política, enfim. Beijo!

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