Terça-feira, 11 de Março de 2008

Se eu soubesse o que seria, se...

O Paulo Cunha Porto, Réprobo azul e branco que muito prezo, desafia-me a projectar-me em mil coisas, desde os números (que nunca foram o meu forte) até aos climas, imagine-se! Ainda pensei disfarçar, mas a deselegância com os amigos não é o meu pior defeito. Valha-nos isso. Com este e outros argumentos de peso, o meu narcisismo aproveitou logo a perspectiva de um jogo de espelhos para pôr-se em bicos de pés. Acabei por perceber, lendo as respostas de outros, que a pergunta não é tanto "o que seria" mas "o que gostaria de ser". De outro modo, cairia por terra a tese da auto-crítica para dar lugar a um descabelado auto-elogio. Assim é só sonho, ninguém leva a mal. E aqui estou a responder, com a certeza de ficar muito aquém do que seria, se... tivesse juízo!
Se eu fosse um dia da semana, seria... Sexta-feira, mas só se tivesse um Robinson Crusoe para brincar. Tudo menos um Domingo, a não ser que pudesse ser um Plácido.
Se eu fosse um número, seria... o 7. Eu e mais alguns biliões de pessoas, mas é preciso ser-se humilde.
Se eu fosse uma flor, seria... uma Frésia amarela, a minha flor preferida. Se já não as houvesse na florista, então uma hortênsia azul.
Se eu fosse uma direcção, seria... o Sul, definitivamente e cada vez mais. De poucas coisas tenho tanta certeza, e não me perguntem porquê.
Se eu fosse um móvel, seria... uma Chaise-longue bem confortável, estofada a veludo castanho-chocolate.
Se eu fosse um quadro, seria... de Magritte ou de Boticcelli.
Se eu fosse um líquido, seria... um Vinho velho, tinto.
Se eu fosse um pecado, seria… o catálogo completo, com excepção da Inveja e da Avareza (e excluindo também, irritada - eu não excluí a Ira - estes novos pecados modernos com que o Vaticano se lembrou de nos presentear agora, como se estivéssemos mal servidos de culpas e a vida nos fosse fácil...). Não é o Papa que calça Prada?
Se eu fosse uma pedra, seria… uma Safira, a minha pedra astral.
Se eu fosse um metal, seria… Ouro, porque é eterno, macio, e tem um mistério incomparável.
Se eu fosse uma árvore, seria… um Plátano em Outubro, para ter em mim todos os tons que há na paleta do Outono.
Se eu fosse uma fruta, seria… uma Maçã encarnada. Porque sim.
Se eu fosse um clima, seria… um clima desses que pinta às vezes e deixa a gente à toa, ora!
Se eu fosse um instrumento musical, seria… uma Guitarra, dedilhada por um virtuoso.
Se eu fosse um elemento seria… o Ar (o meu signo é de Ar), livre e adaptável a todas as formas. Uma brisa às vezes, outras uma nortada. Um ar da minha graça...
Se eu fosse uma cor, seria… Azul. Em todos os tons e matizes, mas sobretudo o azul-cobalto (a cor do mar na Gruta Azul, em Capri) e o azul-turquesa (a cor do mar na Baía de Carthago). Nem sempre se pode ser original, e recuso-me a escolher o "branco gelo" só para fazer género.
Se eu fosse um animal, seria… um Tigre de Bengala, o mais belo animal que já vi.
Se eu fosse um som, seria… o do Mar, que canta só para mim, às vezes.
Se eu fosse uma canção seria… American Tune, de Bach / Paul Simon.
Se eu fosse um perfume seria… o Eau d'Issey, de homem. Ou o Paloma Picasso, para a noite.
Se eu fosse uma comida, seria… Chocolate. (nem me atrevo a pensar em enumerar outras, porque a lista seria infindável)
Se eu fosse um cheiro, seria… o do Pão acabado de cozer.
Se eu fosse uma palavra, seria... uma Palavra escrita ou cantada.
Se eu fosse um verbo, seria… Amar. Não conheço outro mais completo.
Se eu fosse um objecto seria… uma Mala de viagem, sempre pronta.
Se eu fosse uma peça de roupa seria… uma Camisola de caxemira, directamente sobre a pele.
Se eu fosse uma parte do corpo, seria… os Olhos. Sem eles, não consigo imaginar a vida.
Se eu fosse uma expressão, seria… na Lua. É onde estou, a maior parte do tempo.
Se eu fosse um desenho animado, seria… Tintin, o meu preferido, aventureiro e curioso.
Se eu fosse um filme, seria… As Horas, uma lição para toda a vida.
Se eu fosse uma forma, seria… uma Esfera, que não se deixa apanhar nas esquinas...
Se eu fosse uma estação do ano, seria… o Outono, pela luz e pelas cores. E pelas sonatas que inspira.
Se eu fosse uma frase, seria… esta, de Cecília Meirelles: "Aprendi com a Primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira."

Passo o desafio a quem quiser pegar-lhe, que isto dá muito trabalho...

publicado por Ana Vidal às 23:27
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12 comentários:
De av a 13 de Março de 2008 às 13:15
Teresa: Caxemira sempre, ou seda. Emendei a palavra por sugestão tua, mas acho que se pode dizer das duas maneiras. Já lá fui espreitar, e não me espantam as semelhanças.

Miguel: fico à espera de ver isso.

Paulo: Espero ter passado no teste... Obrigada pelo aviso, mas acho que a Branca de Neve era mais totó do que eu... e mesmo assim não se deu mal, no fim! Quanto aos pontos em comum, claro que os temos. Não me surpreendem nada também.

Sofia: Já li o teu também, e reconheci-te muito bem ali.

Fugidia: Também nós duas temos pontos em comum. É natural, ou não estaríamos todos aqui em amena cavaqueira, não é?

Anónimo: Acho que acaba por ser um misto do que gostamos, do que somos e do que gostaríamos de ser. De qualquer forma, é sempre revelador.

Lord Caco: Que bom ver você por cá outra vez, meu amigo! Essa frase do Pessoa diz tudo, mesmo. Mais universal e sábio do que ele, é difícil.

Zabal: Também essa é sábia, sem dúvida. E muito bonita.

Beijos a todos, e obrigada pelas visitas.
De Zabal a 12 de Março de 2008 às 19:37
Mas que trabalheira, Aninhas!!
... da Cecília Meireles prefiro a seguinte:
"Se, no teu centro, um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar."
De Lord Broken Pottery a 12 de Março de 2008 às 19:32
Ana, caríssima amiga,
Realmente trabalhoso demais, não teria coragem de encarar o desafio. Apenas para dizer que minha frase, em retribuição, seria de Pessoa:
"Tudo vale à pena,
Se a alma não é pequena."
Grande beijo
De Anónimo a 12 de Março de 2008 às 19:31
Curioso exercício. Sempre achei que com este jogo revelavamos, mais do que o nosso gosto, aquilo que nos definiria.
De fugidia a 12 de Março de 2008 às 14:06
Gosto muito da árvore e da flor (eu sabia qual é...)
Beijinho.
:-)
De Sofia a 12 de Março de 2008 às 12:44
(segunda tentativa de comentar esta entrada, já que o blogue apagou a primeira! Raios!)

Retrato fiel da miúda, sim senhora. Não sei em que pecado enquadrarias a falta de juízo, ou em que 'se', mas tirando isso, está lá tudo. Não te sabia dedicada às questões astrais, confesso que é uma novidade... Como sabes qual é a tua pedra astral? Eu sei o signo e 'mai nada'!

Beijinhos miúda
O desafio é interessante, mas comprido... num dia em que tenha mais paciência e tempo! LOL

p.s. Já viste a minha surpresa?
De O Réprobo a 12 de Março de 2008 às 11:12
PS: ignorante impenitente que sou, nem tenho ideia do que uma Frésia seja. Mas protesto oferecer-Lhe algumas Hortênsias auis, que costumo ter, bem lindas, no jardim.
De O Réprobo a 12 de Março de 2008 às 11:10
Querida Ana, brilhante!
Temos pontos comuns, a Sexta-Feira (com justificaçoes diferentes), o Azul, os Olhos, o Ar, o Ouro...
Com que então uma maçã, ó Herdeira de Eva? Cuidado, não seja enfeitiçada por alguma Bruxa Má, como a Branca de Neve...
Também sou fanático do Tintim, embora enviesado para o culto do meu Mestre, o Capitão Haddock.
Achei geniais o número, o clima e a forma. E a resistência da frase é admirável e cativante.
Beijinho, muito agradecido por tanto ter revelado, em lúdico tom.
Ah, atenção que estes pecados sociais não são da categoria dos Capitais, segundo esclarecimento que acompanhou a publicação do rol.
De miguel a 12 de Março de 2008 às 09:35
Muito difícil este desafio. Estimulante também. Vamos lá a ver se pego nele.
De Teresa a 12 de Março de 2008 às 08:08
lol!

Nem preciso de pegar nele, já fiz esse exercício há quase um ano.
Está aqui:

http://gotaderantanplan.blogspot.com/2007/05/mas-que-mal-fiz-eu-deus.html

Achei curiosa a da peça de roupa...

Beijo.

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