Domingo, 29 de Junho de 2008

Feira de Velharias (11)


 

A Banda

 

Acordou estremunhada, um caos de sons estridentes a fritar-lhe os neurónios depois de uma noite de absoluta paz e silêncio, como há muito tempo não se lembrava de ter tido. Não percebeu a princípio onde estava, nem porque tinham os seus sonhos de infância sido assim invadidos por clarinetes e tambores em fúria ciclópica, atacando uma música vagamente familiar que nada tinha a ver com os seus tempos de menina.

A música… sim, era a “Grândola, vila morena”, e o dia… claro, o 25 de Abril.
Aos poucos voltou à realidade, à vida, ao presente doloroso. Estava na aldeia, naquela terra onde não pusera os pés durante tantos anos. Voltava agora, mais de 30 anos passados, e só por uma razão “de peso”. Franziu a cara num esgar de dor, enquanto os quase 120 quilos desafiavam a gravidade e tentavam erguer-se, sem consequências dramáticas, da periclitante cama de solteira. Depois de várias tentativas goradas, lá conseguiu e foi à janela, ainda a tempo de ver dobrar a esquina os últimos músicos festivos e domingueiros da banda filarmónica, num espalhafato que lhe pareceu quase grotesco.
Esquecera por completo, depois de tantos anos a viver na fleumática capital, aquele hábito ingénuo e provinciano de festejar tudo com fanfarras. Mas a verdade é que a banda da terra precisava de pretextos para sair à rua e exibir fardas e talentos, ou não valeria a pena o sacrifício das noites de ensaio, depois da dureza do dia de trabalho nos campos. E a efeméride da revolução de Abril era razão mais do que suficiente para festejar.
Ela é que não tinha nada para celebrar: voltara à terra para se isolar (os médicos tinham-lhe chamado descansar, recuperar e outras palavras animadoras, mas ela sabia bem que era para conseguir vencer-se a si própria, longe das testemunhas habituais). Enquanto se olhava no espelho gasto da casa de banho, reviu mentalmente o último ano da sua vida e as razões que a tinham levado até ali: o colapso inevitável do casamento, a profunda depressão em que caíra, o internamento por tentativa de suicídio, a longa e penosa terapia e, finalmente, aquela luz ao fundo do túnel, ainda ténue, ainda difícil de alcançar, mas a única a que podia agarrar-se. “Vamos avançar, Florinda. Acho que agora já está pronta para o próximo passo, a banda gástrica. Verá como 40 quilos a menos farão milagres pela sua auto-estima! Mas tem que colaborar, ter muita força de vontade e fazer desse objectivo uma obrigação sagrada. A banda vai ajudá-la, claro, mas sem a sua determinação, nada feito… Posso contar consigo?” O Dr. Freitas tinha mais fé em si do que ela própria, ou então disfarçava bem. Parecia muito confiante e sorria sempre como se o mundo fosse uma festa interminável, o que chegava a ser irritante. Respondera que sim, claro. Que podia contar com ela. Que faria tudo para voltar a ser a mulher segura que fora um dia, milénios atrás.
E aqui estava agora, também por sugestão dele: “Mude de ares. Aproveite a baixa e vá até um sítio onde se sinta bem. Afaste-se de todas as suas rotinas, concentre-se em si. Uma vez na vida, mulher, pense SÓ em si!” Pensou, durante alguns dias. Mas não tinha dinheiro para viagens e a baixa psiquiátrica retirava-lhe uma fatia substancial do ordenado, já de si diminuto. O médico ganhava muito bem, com certeza, e não percebia que os doentes não eram milionários…
Mas sabia que ele tinha razão. Tinha que sair dali, do cenário da sua tragédia, para poder respirar fundo e reerguer-se. Os colegas de escritório, os vizinhos, até as meninas do supermercado tinham testemunhado cada lágrima perdida, cada quilo ganho. O marido abandonara-a com alarde, trocara-a por uma mulher mais nova e do bairro também, conhecida de todos. E os dois falavam… se falavam! Justificavam o adultério com motivos que ela nem sequer podia negar: o seu desinteresse crescente pela casa, o sexo impossível com um “monstro” que já nem podia mexer-se, a incapacidade de dar-lhe filhos, a fixação obstinada na comida como tábua de salvação. Sim, ela sabia que tinha ajudado a tornar sustentáveis aqueles argumentos.
A única solução que encontrara era esta, o regresso à aldeia. Os pais tinham morrido há muitos anos, não tinha irmãos. Aquela velha casa pertencia-lhe por direito, embora nunca tivesse vindo reclamá-la. A chave tinha estado, desde que ficara vazia, nas mãos de uma vizinha que a vira nascer. O marido detestara sempre a vida da província, nem de férias lá quisera ir nunca. E ela, por inércia e desgosto da falta dos pais, deixara-se também afastar, sem resistência.
Mas tudo isso era passado, agora tinha que concentrar-se em si. O médico prevenira-a contra pensamentos mórbidos e recorrentes, que o seu próprio ego maltratado construiria para impedir a cura e justificar recaídas. Tinha que derrotar a compulsão pela comida, a tentação do precipício. Talvez as recordações alegres da sua infância lhe devolvessem a auto-confiança de que precisava para vencer aquela batalha. Chegara na véspera, à noitinha já, e só a vizinha sabia da sua presença ali porque lhe deixara a chave no vaso de sardinheiras da porta.
A noite tinha sido estranha, sem os sons da cidade a que estava habituada. A casa cheirava a mofo mas estava limpa, e qualquer coisa no ar despertara em si uma comoção e uma alegria que há muito tempo não conhecia.
Passou a mão pelo abdómen, dorido dos cortes e pontos recentes. A banda lá estava, ainda por insuflar, por enquanto só a marcar presença. Haveria de ter o seu papel na nova Florinda, lá mais para a frente, segundo lhe explicara o médico. Para já, e até as suas entranhas se adaptarem ao corpo estranho que se lhes colara, a função da banda era meramente psicológica e só com a sua própria força de vontade podia contar. Mas, caramba – concluiu com estranheza – como podiam os médicos confiar na força de vontade de doentes compulsivos, que se sujeitavam àquela provação exactamente porque a não tinham? Não era pedir de mais? Para que servia então a banda, se, quando se pudesse contar com ela, o principal trabalho já estava feito? Começava a achar tudo aquilo muito falível, mas tinha que colaborar. Prometera ao médico e a si própria. A mudança já anunciava alguma coisa, pelo menos. Sentia-se renovada e quase feliz, com o ar do campo e a distância que interpusera entre si e as suas mágoas. Como dizia a canção, este era o primeiro dia do resto da sua vida. Respirou fundo e resolveu sair á rua.
Por todo o lado ressoava a música da filarmónica, que percorria as ruas e haveria de parar no coreto da praça, com toda a pompa e circunstância. Dirigiu-se para lá, curiosa. Alguns ainda a conheciam, quase toda a população tinha a idade dos seus pais e avós. Percebeu que a olhavam com comiseração, o corpo disforme a suscitar comentários e suposições para mais tarde, quando ela virasse costas. Um bando de crianças passou a correr e empurrou-a com violência, apontando-a entre gargalhadas. Começou a sentir-se mal, a velha insegurança a voltar aos seus domínios de sempre. Sentou-se num dos bancos da praça, cada vez mais enervada.
O dia era de festa. Em volta do coreto tinham acampado os feirantes, num estardalhaço de sapatos, roupas, cestos, galinhas, alfaias agrícolas e cassetes piratas. Um frenesim de gente, que comprava e vendia tudo. Os altifalantes anunciavam, aos berros, um circo com feras verdadeiras e artistas de todo o mundo, “como nunca se viu por cá”. Começou a ficar tonta com a poeirada e o barulho crescente da banda que se aproximava, ameaçadora. Todo aquele espectáculo a atordoava e repelia, mais do que lhe devolvia recordações de infância. Tinham sido muitos meses de total fragilidade, sabendo-se vigiada e protegida por médicos e terapeutas, e agora estava entregue àquela voragem medieval. Sozinha e longe do seu ambiente. O abismo estava em todo o lado, afinal, porque estava dentro de si.

Já em desespero, olhou em volta, à procura de um porto de abrigo. Encontrou-o, finalmente, na barraca das farturas e do pão quente com chouriço. Ao terceiro naco já sorria, totalmente descontraída, com a mão sobre o estômago onde repousava a banda oculta. E assim ficou, feliz de novo, a ver a banda passar.

 

(Publicada pela primeira vez em 11/05/2007)

publicado por Ana Vidal às 23:02
link do post
14 comentários:
De fugidia a 29 de Junho de 2008 às 23:37
Muito bonito, Ana.
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 01:10
Obrigada, Fugi.
De mike a 30 de Junho de 2008 às 00:30
Feira de Velharias, diz o título. A Banda, diz o sub-título...ainda bem que combati a tempo o cepticismo porque o texto é magistral. Sem ser em desepero cheguei ao fim com pena de não haver um quarto naco do pão quente com chouriço. As farturas para mim, estão ao nível das feiras e das bandas. :)
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 01:09
Então ainda bem que não lhe soube a farturas, Mike... coisa de que eu gosto muito, por sinal.
:)
De cristina ribeiro a 30 de Junho de 2008 às 12:19
Por vezes cai-se assim num poço sem fundo, sem nada à vista, a que se agarrar para dele sair...
De Once a 30 de Junho de 2008 às 14:28
um abraço apertado .. :)
De O Réprobo a 30 de Junho de 2008 às 14:28
Querida Ana,
são estes períodos em que se está vulnerável, com tudo parecendo fugir debaixo dos pés que podem aumentar a sensibilidade e permitir ver que há músicas fúnegres, como no caso, em que não convém embarcar.
A alternativa acaba sempre por ser o vício, como a comida a fazer dee droga, em vez de alimento.
Beijinho
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 15:13
Amigos, agradeço as vossas palavras simpáticas mas sinto-me na obrigação de esclarecer que esta história é totalmente ficcionada: felizmente nunca tive 120 quilos, nunca pus uma banda gástrica nem fui trocada por outra mulher! E mais: detesto bandas filarmónicas! De feiras gosto, e de farturas também! :)
Mas sei que há pessoas reais a passar por estes problemas, e não me são indiferentes.
Beijo a todos
De Luísa a 30 de Junho de 2008 às 16:12
Querida Ana, aí está – tão bem «contado»! – um dos dramas femininos, que é afogar o desgosto no prato e, como disse um dia Elisabeth Taylor (salvo erro), passar metade da vida a comer e metade a tentar eliminar o que se comeu. :-)
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 17:02
É verdade, e pode ser mesmo um verdadeiro drama. Na vida da Liz Taylor, por exemplo, o peso excessivo foi um fantasma sempre presente. Eu só comecei a saber o que isso era há pouco tempo (numa escala razoável, apesar de tudo), quando deixei de fumar. Mas recuso-me a fazer disso uma tragédia...
De O Réprobo a 30 de Junho de 2008 às 21:24
Sim, Ana, parti do princípio de que era ficção, o que não impede consideração da problemática universal que espelha. Nem por um minuto pensei que fosse autobiografia.
Beijinho
De Ana Vidal a 1 de Julho de 2008 às 01:21
Mas quem não me conhece podia pensar que era autobiográfico, Paulo. Por isso esclareci que era ficção.
De psb a 30 de Junho de 2008 às 23:13
Aninhas
Mais um conto à tua imagem de escritora. Lindo. Quase que nos pões a cheirar as farturas e o pãozinho com chouriço, e a ouvir as berrarias das feirase e das filarmónicas.
Não seria altura de começares a alinhavar outro livro de contos?
Beijinhos
De Ana Vidal a 1 de Julho de 2008 às 01:17
Um dia destes, Pedro, quando juntar mais alguns, talvez...
Beijo

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds