Domingo, 9 de Setembro de 2007

O desafio da Blogosfera


«Bem observado, este post de Eduardo Pitta: Da Literatura: DOMINGO .
Subscrevo o que ele defende: que os blogs, hoje em dia, cumprem a mesma função dos cafés de antigamente. E, tal como antes, cada um só convida para a sua mesa quem quiser que lá esteja.
Porque há mesas para todos os gostos: desde as elitistas dos cafés chiques, onde o grupo está formado, de pedra e cal, e ninguém mais pode perorar (são os blogs que não admitem comentários) até às mais saloias dos cafés de bairro, em que cabe sempre mais uma cadeira, por isso qualquer desbocado pode entrar na tertúlia e dizer alarvidades de sua justiça. Entre estes dois extremos, há variações possíveis e interessantes. Por exemplo, a de pôr na rua, sem contemplações, os convivas que não saibam comportar-se à mesa, sorvam o café com barulho, palitem os dentes ou agarrem na xícara de dedinho empinado, enquanto dizem baboseiras. O Porta do Vento tende para esta opção intermédia, mas, como ainda anda nesta vida de cafés há pouco tempo, por enquanto bebe uma bica aqui, um galão acolá. E assim, de mesa em mesa, há-de encontrar os seus pares e fazer um dia a sua.
Até lá, todos poderão vir dar uma espreitadela e dizer como gostam da torrada. E, porque hoje é domingo, a bica é por conta da casa.»
*******

Publiquei o post acima há pouco mais de três meses, quando dava os primeiros passos neste fantástico mundo que é, realmente, a Blogosfera. Estava ainda a tactear terreno para construir aquilo que seria o meu roteiro diário de hoje em dia, um passeio por vários blogs que me ensinam, me provocam, me fazem pensar ou, simplesmente, me divertem. Que, enfim, me enriquecem.

Desde logo me galvanizou esta comunhão gratuita e livre de Conhecimento, em que gente muito qualificada nas suas variadíssimas áreas tem a generosidade de partilhá-lo e até de discuti-lo com quem se disponha a isso. No mundo actual, em que ninguém dá nada a ninguém sem alguma contrapartida, esta atitude parece-me muitíssimo saudável. E pouco me importa que alguns blogs ditos "de culto" sejam meros exercícios de exibição de plumagens, de pirotecnia narcísica. Primeiro, porque mesmo com alguns desses narcisos bloguistas se aprende (quanto mais não seja, a não cair na tentação de imitá-los) e depois, porque o polegar que aponta para cima ou para baixo é sempre o nosso, ou seja, temos sempre a liberdade de escolher quem queremos visitar ou não.

Há blogs para todos os gostos e sensibilidades, e é isso mesmo que é fascinante. Desde as confissões pueris dos primeiros amores de adolescentes, enfeitadas a borboletas e corações trespassados, às mais sofisticadas compilações de material de pesquisa e às teses filosóficas, há de tudo. Ao longo deste tempo passeei-me por "cafés" que fui descobrindo, uns de bairro, outros nas melhores avenidas, elegendo aqueles que gostaria que fossem os meus pares mas sem no entanto aderir de vez a um determinado "grupo de pertença" (mas isso tem a ver com a minha confessa alergia a rótulos). Posso agora dizer que o meu crivo tem vindo a ficar cada vez mais apertado, embora não me escuse a novas aventuras sempre que elas convoquem em mim alguma descoberta ou alguma rebeldia.

É gratificante seguir raciocínios inteligentes dos jornalistas, académicos, analistas e escritores que dão a cara na blogosfera, sabendo-os livres de baias, pressões e linhas (e sobretudo entrelinhas) editoriais. Mesmo os que usam pseudónimos acabam por revelar-se, de uma maneira ou de outra. Nos blogs discutem-se temas fundamentais ou apenas se trocam brincadeiras, que dão colorido e tornam mais suportável o cinzento aparentemente irremediável que tomou de assalto os dias que correm.
Disseram-me que me saturaria em pouco tempo, mas, pelo contrário (e apesar de estar numa fase de trabalho intenso e muito absorvente), o prazer e o interesse não diminuiram. Pior: de um blog inicial (o Porta do Vento foi o primeiro), já estou envolvida em mais três! E em todos eles fiz alguns amigos, com quem, de outra forma, teria remotas hipóteses de trocar ideias (alguns deles estão do outro lado do oceano). É discutível este conceito de amizade? Tudo é discutível, mas não vejo porque não se possa chamar amizade a esta proximidade diária, muitas vezes quase íntima, em que se descobrem afinidades com pessoas reais (e não com um qualquer nick de personagem imaginária, como nos chats). Se o conceito de família se alterou com a evolução dos tempos, e hoje se aceitam como tal núcleos familiares inimagináveis ainda há poucos anos, porque não o de amizade? Claro que só acontece com alguns, de entre os que nos lêm e que nós lemos, mas, às vezes, a troca de ideias passa da esfera pública (o blog) para a privada (o e-mail), e mesmo para o conhecimento "em carne e osso" dos novos amigos. Não vejo nisso nenhum mal. Comigo aconteceu uma coisa ainda mais curiosa: reencontrar velhos amigos no éter, amigos de quem não sabia nada há anos.

Mas não são só os amigos. É também o insondável mistério dos desconhecidos. Espantosamente, este blog teve 5.000 leitores em menos de 4 meses, e mais 1.000, ultimamente, numa só semana! As preciosas e sofisticadas maquinetas que hoje existem à disposição dos bloguistas, permitem-me saber que esta gente está um pouco por todo o mundo, o que é ainda mais aliciante.

A frase que postei numa das minhas últimas "curtas": Um blog sem comentários é como um jardim sem flores, foi uma espécie de provocação aos blogs mais elitistas, que não permitem a interacção que torna a blogosfera neste interessante mundo de partilha de ideias. O eco que provoca aquilo que escrevemos é, para mim, o mais compensador prémio deste meio de comunicação. Não me imagino num interminável monólogo, imune a críticas e opiniões imediatas. Para isso, prefiro escrever um livro.
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publicado por Ana Vidal às 02:20
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4 comentários:
De ana vidal a 10 de Setembro de 2007 às 12:00
Pois é, Flora.
Não é nada disso que me interessa aqui, e sei que também não é o teu caso, mas até para isso serve este mundo virtual! Acontece...

beijinhos
De FL a 10 de Setembro de 2007 às 11:51
Ana,

Concordo plenamente. Fiz amigos que nunca vi, conheci pontos de vista diferentes e o feed-back que os comentários (bons ou maus) permitem é qualquer coisa que se acrescenta à mensagem inicial.

Blogs... sei de uma que conheceu o Homem da vida dela à custa disso:)

Beijo grande
De ana vidal a 10 de Setembro de 2007 às 10:48
É verdade, Leonor. Dou-lhe toda a razão quanto aos elitismos e às fraudes que muitas vezes lhes estão associadas. Mas a blogosfera retrata a vida real, mesmo. Cabe à nossa inteligência distinguir o trigo do joio e não cair em deslumbramentos infantis. Mas nem todos os "eleitos" são assim. Tenho aprendido muito com alguns bloguistas (consigo, por exemplo), e sei que posso também fazer-lhes chegar a minha mensagem. Passaram a ser "a minha praia", e a evolução para a amizade acaba por ser inevitável. Materializada ou não. E ainda bem que é assim.
De Leonor Barros a 9 de Setembro de 2007 às 17:45
Gostei muito deste post. Às vezes acho que a blogosfera é exactamente como o mundo lá fora: um nome abre portas, mesmo que o conteúdo seja zero e também acho que há alguns reis que vão nus.
Admito que não tenho paciência para elitismos e, como não sou muito insistente, raramente passo por alguns desses. Existem obviamente honrosas excepções.
Em relação à amizade, acho que ela existe mesmo. O meu blogue inicial, não o GR, nasceu quando o meu pai morreu, foi essencialmente uma forma de o homenagear, e no blogue encontrei mais manifestações de amizade do que de muita gente no meu dia-a-dia.
Beijinho

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