Domingo, 25 de Maio de 2008

Feira de Velharias (10)

 
Equador

Para mal ou bem dos meus pecados, sou descendente de uma família de roceiros em São Tomé: os donos da “Boa Entrada”. Por sinal, felizmente!, os mais poupados no livro Equador, do Miguel Sousa Tavares. A roça fica na parte baixa da ilha, bem perto da capital. Nunca lá fui, mas diz quem a conheceu que era de uma beleza arrasadora. Como, aliás, toda a ilha.
A tal senhora (não identificada no livro) com quem casou Henrique Mendonça, era filha do fundador dessa e de outras roças, entretanto dispersas por outros donos - para nós, a quase lendária “tia Carolina” - e irmã do meu bisavô.
Fiquei feliz, como humanista que gosto de me considerar, por ter confirmado no Equador o que sempre ouvi lá em casa: que os trabalhadores da Boa Entrada tinham condições de vida e de trabalho bastante acima dos das outras roças, e que a roça era considerada modelar, nesse e noutros sentidos. A sombra negra da escravatura não me deixa, assim, muito envergonhada. Até porque, infelizmente (ou talvez não…) não nos chegou às mãos nem um tostão da fabulosa fortuna dessa época, que afinal acabou por ir parar à outra parte dos descendentes, acho que por uma zanga familiar. Tudo é o que tem de ser. A (apesar de tudo) ainda considerável fortuna do meu bisavô, foi gasta integralmente por ele – e com muita imaginação, segundo sabemos – e aos filhos só chegou, valha-nos isso, uma educação primorosa que lhes permitiu ganhar a vida daí para a frente. Voilá!
 
Mas herdámos desse bisavô outras coisas, muito mais valiosas: o gosto pela aventura, a curiosidade irresistível pelas coisas distantes e diferentes, a paixão das viagens.
Como memória de um passado que poderia ter-nos deixado milionários, tenho guardado religiosamente, há muitos anos, um documento precioso sobre o que era a ilha de São Tomé nesses tempos áureos: uma monografia consagrada à Sociedade de Geografia de Lisboa, organizada e prefaciada pelo próprio Henrique José Monteiro de Mendonça, na qual se dá conta de todos os acontecimentos ocorridos na roça da Boa Entrada, e em São Tomé em geral, exactamente na época em que decorre a história do Equador. Ou seja, mais ou menos entre os anos 1900 e 1905. O livrinho é delicioso e tem uma infinidade de informações precisas sobre o funcionamento de uma roça de cacau: fotografias das instalações, das diferentes fases do ciclo do cacau, dos trabalhadores, estatísticas pormenorizadas de safras, doenças, despesas, contratos e repatriamentos, etc. E mais: as opiniões e relatórios dos inúmeros técnicos estrangeiros convidados a visitar a roça, de viajantes ilustres que por lá passaram, de médicos que lá trabalharam no estudo da malária e da desinteria (a principal causa de morte entre os negros).
Há em todo o opúsculo – é nítida – a preocupação de contradizer, com dados estatísticos e testemunhos abalizados, a opinião veiculada pela imprensa estrangeira, sobretudo inglesa, sobre a existência de mão de obra escrava nas roças. E há episódios ali relatados que dariam, por si só, matéria para vários livros. Confesso, aliás, que o guardei com a intenção de escrever um dia uma história baseada nestes factos. Ficcionada, claro. Acabou por fazê-lo o Miguel Sousa Tavares, e bem melhor do que eu, com toda a certeza.
 
(Publicado pela primeira vez em 9/8/2007)
publicado por Ana Vidal às 13:16
link do post
15 comentários:
De cristina ribeiro a 25 de Maio de 2008 às 14:19
Velharia preciosa, esta!
E sobre uma terra que ambiciono conhecer, tendo dela formado já uma imagem paradisíaca.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 00:50
Eu também, Cristina. Pelas razões que aponto aqui e pelas descrições de amigos que já lá foram. Impõe-se uma visita urgente àquela terra, sem dúvida.
De luis eme a 25 de Maio de 2008 às 15:41
Gostei de ler...

quando abrimos a porta, o vento trás-nos sempre novidades...
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 00:51
Obrigada, Luís. Volte sempre, a porta está aberta.
De pedro a 25 de Maio de 2008 às 20:51
Curioso, também tenho um trisavô que nasceu lá, em circunstâncias pouco conhecidas pela família!
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 00:52
Seremos primos, Pedro?
;)
De pedro a 26 de Maio de 2008 às 09:55
:) Seria engraçado! Mas nem imagina como temos curiosidade em saber a verdade! Além disso, parece que S. Tomé é lindo e quebra a monotonia de uma ascendência puramente portuguesa!
De O Réprobo a 25 de Maio de 2008 às 21:11
E eu a mandar às cegas a hipótese de férias em S. Tomé! Ganha assim outro relevo a resposta de gostar de ver mesmo quando crê.
Quanto ao resto, lembro o que Eça respondeu a Silva Pinto, quando este lhe escreveu a pedir desculpa por ter escrito um livro sobre S. Frei Gil, sabendo-se que Queiroz tinha publicado também um texto sobre ele:
"À sombra de um tão grande santo cabem bem dois pecadores como nós".
Mutatis mutandis de santo para ilha e de pecadores para talentos...
Mãos à obra!
Beijinho, Querida Ana
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 00:54
Quem sabe um dia, Paulo... para já, estou entretida com outra história e outras terras.
Mas o santo é grande, de facto. E generoso.
Beijinho
De mike a 26 de Maio de 2008 às 00:16
Humm... esse fascínio por terras equatoriais também se explica assim. :)
Eu diria para bem dos seus pecados, Ana... :)
Escrito com mestria este post.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 00:58
Pois é, há qualquer coisa nessas latitudes que tem a ver comigo, profundamente. É um apelo a que tenho ainda que dar ouvidos. Para bem dos meus pecados, espero.
De Leonor a 26 de Maio de 2008 às 10:28
Conheço São Tomé e aquilo que parece ser uma terra abençoada pela natureza, absolutamente exuberante, parece ser também uma terra esquecida pelos homens: a pobreza é gritante.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 11:12
Uma terra de contrastes, sim, como infelizmente acontece muitas vezes nos chamados "paraísos" naturais.
De OnceinaWhile a 26 de Maio de 2008 às 11:19
.. escrito sem dúvida com alma de quem tem a alma um pouco por lá também Querida Ana .. gostei muito de ler e concordo com o "para bem .."
Beijinho
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 13:30
Acho que tenho mesmo, Once.
Um beijinho

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

favoritos

O triunfo dos porcos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds