Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Brasil 5 estrelas

Aviso: Este post é repetido (5/5/2007). Volto a publicá-lo porque se aproxima a data deste concerto fantástico, como sempre pouco divulgado por aí. Não sei se ainda haverá bilhetes, mas vale a pena tentar. Se puderem, não percam.
Para além dos "monstros sagrados" da geração de ouro da MPB, entre criadores e intérpretes - Jobim, Vinicius, Caetano, Buarque, Bethânia, Gal, Simone, Gil (para citar apenas alguns) - e dos actuais e estrondosos sucessos de bilheteiras em festivais de música e de vendas de cd's, sobejamente conhecidos e aclamados por todo o lado, existe uma outra música no Brasil que Portugal conhece ainda muito pouco.
É uma linha urbana, culta e sofisticada, que absorveu o que de melhor fizeram os seus antecessores e inovou com mestria e bom gosto, em composições que honram, sem uma beliscadura, a brilhante tradição musical a que o Brasil sempre nos habituou. Casando novas tecnologias e tendências melódicas com os mais profundos e sólidos alicerces da chamada "tropicália", continua a provar que o código genético do povo brasileiro se escreve em pautas. Soubessemos nós, portugueses, integrar assim, harmoniosamente e sem complexos, as nossas raízes...
Curiosamente (ou talvez não) uma boa parte desta nova onda de músicos chega-nos da cidade de São Paulo, contrariando a regra antiga dos talentos baianos. É urgente que estes nomes e as suas obras passem a ser familiares aos ouvidos portugueses, porque nem só de êxitos comerciais vive a actual música brasileira. E este "Brasil 5 estrelas" merece o nosso aplauso.
Aqui deixo o meu modesto contributo para a sua divulgação: José Miguel Wisnik, um desses nomes praticamente desconhecidos entre nós e cantor/compositor/pianista de qualidade ímpar, dará um concerto na Culturgest no dia 29 de Junho e far-se-á acompanhar de vários outros talentos. Não percam a oportunidade, garanto que valerá a pena.
Transcrevo o texto de apresentação do espectáculo:

"Poucas figuras realizam como José Miguel Wisnik uma certa mistura caracteristicamente brasileira de “alta” e “baixa” cultura, no campo da canção popular. Reconhecido internacionalmente como ensaísta na área da literatura, o professor da Universidade de São Paulo é também autor de canções interpretadas por artistas como Maria Bethânia, Gal Costa, Zélia Duncan ou Djavan, foi parceiro de Caetano Veloso na banda sonora do espectáculo de dança Onqotô, do Grupo Corpo, e de Chico Buarque na canção Embebedado, e escreve música para teatro e cinema. Neste concerto, o pianista e cantor vem acompanhado de duas vozes de destaque na cena brasileira actual: Ná Ozzetti, de São Paulo, e Jussara Silveira, da Baía. Os três são acompanhados pelo guitarrista e compositor Arthur Nestrovski, também professor universitário e escritor, como Wisnik, pelo baixista Swami Jr., director musical da grande cantora cubana Omara Portuondo, e pelo percussionista Sérgio Reze, que toca regularmente com muitos artistas de ponta como Mónica Salmaso e Paulinho da Viola. O repertório que vêm apresentar inclui apenas canções de Wisnik, retiradas dos seus três discos a solo e do novo disco que será gravado este ano. Entre outras: Inverno e Primavera, compostas para o Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa, Nossa Canção, parceria com Guinga, a inédita Tenho Dó das Estrelas, sobre poema de Carlos Drummond de Andrade e Mortal Loucura, sobre poema de Gregório de Matos. Cada uma traz as marcas daquela combinação singular de poesia e música – harmonias incomuns, ritmos inesperados, desenhando melodias de palavras – que define a nova canção do Brasil."

Voz, Piano e Composição José Miguel Wisnik; Voz Ná Ozzetti; Voz Jussara Silveira; Violão Arthur Nestrovski; Violão de 7 cordas e Baixo Swami Júnior; Percussão Sérgio Reze
Aqui fica um aperitivo, a canção "Sem receita", em que Wisnik musica um poema da excelente poeta e letrista Alice Ruiz, minha amiga do peito. A propósito, incluí este poema de Alice no meu último livro, "A Poesia é para Comer" (uma antologia de poemas lusófonos com o tema da gastronomia, de que junto a capa neste post).
Eis o delicioso poema:
SEM RECEITA

Primeiro, lenta e precisamente,
arranca-se a pele
esse limite com a matéria.
Mas a das asas melhor deixar
pois se agarra à carne
como se ainda fossem voar.
As coxas, soltas e firmes,
devem ser abertas
e abertas vão estar
e o peito nu
com sua carne branca
nem deve lembrar
a proximidade do coração.
Esse não.
Quem pode saber
como se tempera um coração?

Limpa-se as vísceras,
reserva-se os miúdos
para acompanhar.
Escolhe-se as ervas,
espalha-se o sal,
acende-se o fogo,
marca-se o tempo
e, por fim, de recheio,
a inocente maçã,
que tão doce, úmida e eleita
nos tirou do paraíso
e nos fez assim:
sem receita

(Alice Ruiz)

Cliquem aqui para ouvir a música, e deliciem-se!

publicado por Ana Vidal às 12:24
link do post
3 comentários:
De av a 25 de Junho de 2007 às 01:16
Querida Meg,
Só agora respondo porque não tinha ainda visto o seu comentário aqui. Conheço e tenho essa gravação em casa de Amália (como não?) e posso até mandar-lhe o cd se me der o seu endereço por mail. Quanto ao meu livro, estou a tratar de editá-lo aí no Brasil também, espero que ainda este ano. Depois lhe direi. "A poesia é para comer" é uma frase da grande Natália Correia, sim. Do poema "A defesa do poeta", que é lindo. Deu o nome ao meu livro por ser uma antologia gastronómica, a citação do original está logo na primeira página.
Falarei aqui no blog sobre o concerto do Zé Miguel Wisnik, Ná Ozzetti, etc. Adoro boa música brasileira e, como sou também letrista, interessa-me sempre conhecer músicos e intérpretes. Claro que conheço os irmãos Tatit, fantásticos compositores também.
Beijo grande, volte sempre
Ana
Obrigada
De Meg a 25 de Junho de 2007 às 00:08
Ana!
Você devia ser presa e condenada.
Ainda bem que quando respondi seu comentário, não sabia que a Ana era poeta e Poeta assim com maiúsclas.

Olhe, tenho cá um disco, primeiro e vinil e depois em queria conseguir em CD, o Encontro na casa de Amália , com José Carlos Ary dos Santos, e o nosso querido Poeta, que ao contrário do que pensam, não é só o Poetinha que bebia e casava todos os meses, pois bem o Nosso Vinicius de Moraes . (Que devia ser mais de um, pois olhe os nomes dele no plural)
Pois bem. (ai estou arepiada, não pelo Ary dos Santos, mas pelo que estou a escrever impensadamente.
Lembro então de Natália Correa, seria ela, a autora de A poesia é para comer , magnífica sentença e statement que dá nome ao seu livro?

On boy!
Isso não se fez
Ah! acabei de lembrar tinha tambpem um poema ; A formosinha de Elvas..
E Amália cantando, e cantando e só isso já valeria pela Poesia e pela Beleza inteiras.
Ah! Ana, quando me emociono, não tenho modos e fico assim desatinada.
Bem, volto aqui com mais calma
Wisnick , que bom, que maravilha
Mas Luiz Tati que com ele dfromava os Coro dos Grandes Cantores (os professores que cantavam)
Enfim, estou em choque.
Belamente doída.
Até mais ver.
Um beijo
--
Claro que o que escrevi terá sido ininteligível , mas acha mesmo que poderia ser diferente?
Biejos. Bom sonhos
E veja como posso ter o seu livro, por aqui ou por aí? Seria oouro sobre o azul.
Meg
De Anónimo a 9 de Maio de 2007 às 17:04
Boa sugestão! Vou ficar fã deste blog, definitivamente... sabe bem ler textos bem escritos e com conteúdos interessantes, para variar.

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