Domingo, 4 de Novembro de 2007

Madrid


O fim de semana alargado (de 4 dias) em Madrid, que tínhamos planeado, acabou afinal por resumir-se a dois dias bem medidos, porque uma das pessoas que ia connosco teve que voltar a Lisboa mais cedo por razões profissionais urgentes. Foi pena. Mas esses dois dias, apesar das alterações, foram muito bem aproveitados e valeram cada segundo. Madrid vale bem, sempre, cada segundo de estadia.

Na última vez que eu tinha estado em Madrid, tinham passado cerca de 15 dias do pavoroso atentado da Estação de Atocha, e ainda tenho na memória a esmagadora tristeza de uma cidade que sempre me habituei a conhecer fervilhante de vida: nesses dias havia velas acesas e ramos de flores em todas as esquinas, espalhados pelo chão, e uma estranha apatia estupefacta tinha tomado conta das pessoas. À excepção de alguns grupos de oração, não se via praticamente ninguém na rua. Vim de lá impressionada, sem vontade de voltar tão depressa àquela Madrid fantasmagórica, tão diferente do habitual. E desta vez, confesso, ia numa certa expectativa pelo ambiente em que iria encontrar a cidade, sabendo que o tema do momento, como não podia deixar de ser, era a recém-pronunciada sentença do 11-M (designação que os espanhóis adoptaram para a "sua tragédia" de terrorismo islâmico, à semelhança dos novaiorquinos, com a abreviatura 9-11). Felizmente, o meu medo dissipou-se logo à chegada. Madrid renasceu das cinzas, com aquela força anímica de que os espanhóis - calejados pela memória de uma sangrenta guerra civil e pelos imprevisíveis e igualmente sangrentos atentados da ETA - se habituaram a socorrer-se, não permitindo que o Mal os impeça de festejar a Vida. Grande povo!

É claro que, apesar de Madrid estar cheia de forasteiros nestes dias - muitos madrilenos aproveitaram as mini-férias para sair da cidade - as conversas de café e as notícias de jornal dão conta das várias indignações populares, que resultam da clareza inequívoca da sentença jurídica: a confirmação da manipulação mediática do acontecimento por parte do PP, à época no poder (desastrosa jogada política que custou ao partido as eleições que se seguiram, e sobre a qual terá que voltar a prestar contas agora); a absolvição de vários réus, nomeadamente o odiado Rabei Osman "El Egipcio", e também Hassan "El Haski" e Youssef Belhadj, por manifesta falta de provas.
Compreensivelmente, o povo quer ver feita justiça: os 191 mortos e os mais de 1.800 feridos dos atentados de Atocha, não podem nem devem ser esquecidos. Mas o tribunal provou saber julgar com isenção e distanciamento emocional: fixou em 900.000 € a indemnização que receberá cada um dos familiares das vítimas mortais, e condenou a 42.922 anos de prisão Jamal Zougam e Otman "El Ghanoui", ambos como autores materiais dos atentados. Além destes, vários outros réus foram condenados por crimes de associação criminosa e armada, cumplicidade, etc. Dez desses islamitas condenados já estão a fazer uma greve de fome, como protesto pela sentença. Nunca se pode contentar toda a gente, mas creio que a impressão geral que fica deste dificílimo julgamento, é a sua isenção.
Entretanto, Ayman Al-Zawahiri, número dois da hierarquia da Al Qaeda, já apelou à mobilização dos seus seguidores para novos ataques aos interesses dos países ocidentais - EUA, França e Espanha - nos países do Magreb: Argélia, Tunísia, Líbia e Marrocos, por considerar estes países "escravos do Ocidente". A guerra santa, infelizmente, não tem um fim à vista.

Bom, chega de política e de tristezas: Madrid tem sempre uma oferta de Arte invejável, e foi sobretudo por isso que lá fomos desta vez. Com um objectivo específico, antes de qualquer outro: ver a exposição de pintura de Paula Rego no Centro de Artes Reina Sofia. E, neste capítulo, tudo o que eu possa aqui dizer ficará a anos-luz da realidade. Integrada na V Mostra de Cultura Portuguesa, a que Madrid dedica uma série de iniciativas representativas das várias artes em Portugal - música, pintura, fotografia, azulejaria, etc. - a exposição comemorativa de toda a carreira de Paula Rego é a mais completa que foi feita até hoje e é, positivamente, de cortar a respiração. Ocupa toda uma ala do 1º andar do Rainha Sofia, e abrange desde as primeiras experiências académicas da pintora (já geniais, aliás) até aos´trabalhos executados no passado ano de 2006. Quase todos os quadros-ícones da sua obra lá estão: "a mulher-cão", "a família", "o baile", toda a série das "avestruzes-bailarinas", a série sobre o aborto clandestino, etc. São, na sua maioria, quadros de enormes dimensões, que têm um impacto completamente diferente (como é natural) daquele que exerce sobre nós uma reprodução vinte vezes menor, por muito boa que seja.

No meu caso, confesso, foi a total rendição à pintora: além da prodigiosa mestria técnica (unanimemente reconhecida pelos maiores críticos de arte mundiais), está patente, na obra desta mulher, um profundo e impressionante conhecimento da natureza humana, nas suas facetas mais sórdidas mas também nas mais redentoras. A série de pequenos desenhos denominada genericamente "misericórdia", fez-me saltar lágrimas dos olhos, de tão comovente. São cenas de entre-ajuda humana, nas situações mais difíceis da vida de todos nós: aquele conceito a que os cristãos chamam vulgarmente "caridade" e que tão desvirtuado e mal interpretado tem sido ao longo dos tempos. O que mais impressiona nelas é o próprio tema, raramente abordado em pintura. Mas, se há adjectivo que possa aplicar-se à obra de Paula Rego, é mesmo "incómoda". Não só pela violência de algumas imagens, retratadas sem fantasias nem romantismos de qualquer espécie, mas sobretudo pela coragem de abordar temas que não são considerados "estéticos". Paula Rego pinta a realidade nua e crua, pungente e grandiosa na sua complexidade: as figuras femininas são robustas e quase rudes (gente de trabalho, comum, e não modelos de perfeição), mas tão expressivas quanto um ser humano pode ser. A ténue linha de divisão entre seres racionais e irracionais está bem expressa na utilização de animais em poses e situações humanas, a mostrar-nos como estamos todos tão próximos da bestialidade e, por outro lado, como alguns animais se aproximam ou até ultrapassam as nossas so called "melhores qualidades".

Magnífica experiência, é o que tenho a dizer. E de tal maneira forte que, ao subir para ver Picasso (que está no andar logo por cima em toda a sua pujança, inclusivamente com o impressionante Guernica), ficamos perdidos, sem conseguir fazer a mudança de registo e sem conseguir, sequer, aderir ao mestre (e até a Dali, que lá está representado também e que é um pintor que eu adoro). Não nos é possível desligar logo do impacto poderoso de Paula Rego, e esse facto já diz muito sobre a qualidade da sua obra. Volto a dizer: rendi-me incondicionalmente à pintora, embora mantenha que não aguentaria olhar todos os dias para a maioria dos seus quadros e que, só por essa razão, não os queria ter na minha sala. São espelhos incómodos, que nos deixam sem pele. Mas que demonstram bem o poder da arte, quando é boa.

Enfim, a exposição não só vale a pena como é absolutamente obrigatória, na minha opinião. Se lá puderem ir, não deixem de fazê-lo. Ainda estará por lá até ao fim do ano. E se não puderem mesmo, então não percam a esperança: o Museu Paula Rego será uma realidade a curto prazo, em Cascais.

Um pormenor importante: aconselho vivamente o uso do audio-guia (embora não exista em português!!!), que explica criteriosamente as histórias que estão por detrás dos quadros principais, as mudanças de fase e de motivações, e que inclui até explicações da própria pintora. É completamente diferente ter este apoio, sobretudo nas figurações menos óbvias.

Mas nem só de arte vive o homem: embora não tenha dado tempo para o flamenco - estava programada uma visita ao famoso Café de Chinitas, decorado pelo português Duarte Pinto Coelho - a gastronomia é sempre um must em Madrid: não deixámos de cenar perdiz no antiquíssimo Sobrino de Botín (o restaurante mais antigo do mundo, segundo o Guiness), onde continua a comer-se maravilhosamente e onde os preços, curiosamente, não aumentaram muito. O ambiente é fantástico, os empregados são eternos, a comida insuperável. Está sempre completamente cheio, é uma sorte conseguir uma mesa sem reserva. Tivemos sorte.

O mesmo não se pode dizer das esplanadas da Plaza Mayor, onde almoçámos mal e por um preço astronómico. Os turistas tomaram posse dos velhos restaurantes e inflaccionaram os preços, a um ponto ridículo para a qualidade actual. Salvou-nos o Jose Luis, na Castellana, cujos solomillos e o revuelto de gambas e asparragos verdes, ao jantar, nos fizeram esquecer completamente o desaire do almoço.

Resta-me dizer que o belo sol de Madrid nos permitiu passear e andar por las tiendas (não resisto aos sapatos, em Espanha...), e por isso fizemos quilómetros a pé. Tudo está bem quando acaba bem, e só foi pena que tivesse acabado tão depressa. Mas hei-de voltar, quantas vezes possa, a Madrid. Essa é uma das poucas certezas que tenho.

(Paco de Lucia - Entre dos Aguas)

Nota 1: Aqui fica o fabuloso som de Paco de Lucia, que um dia ouvi ao vivo (precisamente no Café de Chinitas), há muitos anos.

Nota 2: Duas notícias curiosas, ouvidas na TVE: a primeira é a de que o "Toro de Osborne" - autêntico símbolo nacional - acaba de fazer 50 anos. Uma centena de exemplares está espalhada por todo o território, lembrando-nos de que estamos em Espanha; a segunda diz respeito a um crime passional, ocorrido recentemente e relatado da seguinte maneira (impensável ainda há poucos anos) - "1o años de carcere para el chico que mató a su novio".
Nota 3: Infelizmente, e embora nos tenhamos falado por telefone mais do que uma vez, não nos foi possível tomar "una copa" com os bloguistas amigos do Codornizes e d'O Meu Cais. Eles estiveram por lá mais dois dias, por isso aconselho a lê-los: são viajantes curiosos e muito mais novos (aguentam bem mais do que eu, que já não tenho o ritmo deles), conhecem Madrid a palmo e sabem aproveitar tudo o que há para ver. Por exemplo, as filas intermináveis (davam a volta ao quarteirão) para o Prado e para o Thyssen desmoralizaram-nos, além de termos tido pouco tempo. Eles, tenho a certeza, não desistiram e conseguiram lá ir.
publicado por Ana Vidal às 12:10
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6 comentários:
De ana vidal a 9 de Novembro de 2007 às 18:44
Olá Marta,
Que engraçado, todos os que por aqui passam têm alguma coisa a ver com Madrid. Sintonias...
Bjs
De marta a 9 de Novembro de 2007 às 18:03
Madrid é a minha cidade depois de Lisboa.

Fui para lá antes dos dois anos, e vim com sete para a 1ª classe. Não passo dois anos sem lá ir.

Por azar, muito azar, não consigo lá ir até ao fim do ano, para ver a exposição de Paula Rego.
De ana vidal a 5 de Novembro de 2007 às 10:57
Olá Sofia, então já chegaram os viajantes! Claro que vocês sabem os truques todos, assim é muito melhor. Mas, fora o barrete das esplanadas da Plaza Mayor - já devíamos saber, tens razão - tudo o resto foi muito bom. Curto, mas óptimo. Vai lá escrever a tua reportagem, estou morta por ver o que fizeram por lá!
Beijinhos
De Sofia a 5 de Novembro de 2007 às 10:10
Voltámos! E queria ler as tuas 'memórias' antes de escrever as minhas... LOL... Foi bem divertido e como vês, já estamos prontinhos para outra viagem. Queria ter-me 'quedado' en Madrid...
Também adoro os sapatos de lá, mas tinha cometido a loucura de comprar uns cá, antes de ir... nunca aprendo!
A nossa perdiz também estava óptima, e as 'almejas buenisimas'... Mas já devias saber que na Plaza Mayor só gelados, nada más, porque as transversais também têm sol e, no final, menos euros na conta! Depois faço inveja com a minha ementa gastronómica e nada astronómica!
Bem, vou escrever a minha reportagem!

beijinhos
De ana vidal a 4 de Novembro de 2007 às 22:05
Obrigada, caro vizinho.
De RAA a 4 de Novembro de 2007 às 19:18
Excelente reportagem, vizinha!

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