Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Vitórias e derrotas

Tropecei hoje, por acaso, neste pequeno poema de Daniel Jonas:

PECADO CAPITAL
A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.

Daniel Jonas


Já fui muitas vezes acusada de ser feminista (como se fosse uma ofensa...) e assumo o título - embora sem fundamentalismos, a que sou completamente avessa - por achar que as mulheres ainda têm muito que lutar pelos seus direitos em quase todo o mundo. Digo "sem fundamentalismos" com a plena consciência de que gozo do privilégio de não ter que expôr-me ao ridículo de queimar soutiens para ser ouvida, mas SÓ porque outras mulheres já o fizeram, um dia, por mim.
Direitos que nos parecem hoje absolutamente básicos foram conquistados, a duras penas, por mulheres corajosas que aguentaram firmemente a chacota dos homens que provocavam e o desprezo de outras mulheres que as desclassificavam ferozmente, no fundo tão aterrorizadas quanto eles com a mudança que se avizinhava. E de que também beneficiaram, afinal.
Enfim: tudo isto é sabido, estudado e reconhecido.
Vem a propósito o poema de Daniel Jonas - aliás delicioso, na graça e no ritmo - mas em que poderíamos facilmente descobrir resíduos de um atavismo ancestral, não fora o poeta referir-se apenas às mulheres que lhe couberam na vida, à sua história.
Sendo assim, só posso dizer-lhe: teve azar, meu caro Daniel Jonas. Lamento que não se tenha cruzado com uma das muitas mulheres de qualidade que conheço. Algumas delas, por sinal, tiveram azar também: os homens que lhes sairam na rifa eram pouco alados e... até tinham cabeça, mas no sítio errado.
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publicado por Ana Vidal às 00:27
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8 comentários:
De ana vidal a 24 de Outubro de 2007 às 13:27
Então estamos de acordo.
De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 13:08
O meu "merecimento" pode não ser a palavra exacta.
Quero exactamente dizer o que diz no seu segundo parágrafo.
De ana vidal a 24 de Outubro de 2007 às 12:33
Não tenho grandes certezas sobre isso dos merecimentos, o assunto não é tão simples asim.
Mas concordo que é fácil culpar sempre os outros de tudo o que nos acontece. Também acho que atraímos situações e pessoas com um determinado perfil, e é mais útil averiguarmos dentro de nós próprios porque é que isso acontece, em vez de atribuir culpas aos outros.
Parece que estamos de acordo, anónimo.
De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 10:47
Atraímos quem merecemos.
Atraímos o que procuramos e espelhamos.
Porquê queixarmo-mos?
O nosso Daniel Jonas que não tenho o prazer de conhecer nem de nome, é no mínimo redutor.
Como homem acho que em cada burra que encontramos há sempre uns quilos de burrice nossa.
Para quê pois, fugir com o rabo à seringa?
Será que a culpa é sempre dos outros? ou das outras?
A vida assim é fácil e costuma chamar-se irresponsável.
De ana vidal a 20 de Outubro de 2007 às 00:05
Rosarinho,

Claro, sem golpe de asa é que nunca!!

Não sei do PP, anda tímido... que tal apareceres, PP? Não ouves a menina a pedir a tua presença?

Bjs aos dois
ana
De rv a 19 de Outubro de 2007 às 23:57
Na mouche, prima!
Já conhecia a anedota, mas não conhecia o poema - fantástico. E adorei também o teu texto. É mesmo isso!
E já agora... os corpos são importantes, as cabeças claro que não são menos, mas as asas então... Sem golpe de asa é que não...
Bjs
Rosarinho

Outra coisa: o que é feito do pp que anda tão calado?
De ana vidal a 19 de Outubro de 2007 às 17:42
Caro anónimo,

acho que a matéria de que são feitos os encontros e os desencontros é a mesma, ou muito parecida. Às vezes, é só uma questão de sinal. Os extremos tocam-se, muitas vezes.
De Anónimo a 19 de Outubro de 2007 às 16:04
Pois é. Certos encontros são mais desencontros do que outra coisa. E que é que se pode fazer? Mesmo com cabeça é o que se sabe...quanto mais sem ela.

Também gostei do poema.

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