Sábado, 14 de Novembro de 2009

Expresso do Oriente (3)

Para além da noite de Patpong, o bas fond onde um incauto transeunte pode aceitar ingenuamente um dos permanentes convites para um “ping-pong show” julgando que vai assistir a um jogo de ténis de mesa…, há a moderna movida de Bangkok. Estive numa das discotecas de moda, o clube Spasso (na crista da onda há mais de 20 anos), e foi surpreendente encontrar jovens tailandeses celebrando alegremente o Halloween como se fosse uma tradição local. É o império da globalização, a contaminação ocidental que se traduz em muitos outros aspectos, por exemplo na proliferação de restaurantes de pizzas e hamburgers. No Spasso é comum ver homens de negócios ocidentais com belas ninfas tailandesas, muito mais novas do que eles. Mas, afinal, tudo isto é tão velho como o mundo e não existe pecado a sul do equador, como diria o Chico Buarque…

 

 

De manhã cedo, após a visita ao esmagador Grand Palace e ao Templo do Buda Esmeralda, lava-me a alma um belo passeio pelos canais do Chao Phraya num barco típico, vagamente parecido com uma gôndola veneziana. A cidade vista do rio tem outro encanto e outro mistério, com o imponente Wat Arun (ou “temple of the Dawn”) a dominar a margem, lembrando-nos o esplendor do antigo reino khmer de Ayutthaya, a mítica capital do Sião no século XIV. Depois disto, não se resiste: há que rumar à própria Ayutthaya, ou ao que dela resta após a guerra com a Birmânia, com os consequentes destruição, declínio e abandono da cidade. Fica a menos de 100 Km a norte de Bangkok e as ruínas, hoje Património Mundial da UNESCO, valem bem uma visita.

 

 

Depois, já que estamos na zona, é da praxe visitar o Palácio de Verão, uma complexa rede de construções numa mescla de estilos arquitectónicos – thai, chinês e europeu - que coabitam num belo parque em redor de um lago artificial que prolonga o Chao Phraya. Este paradisíaco lugar é o cenário real da história de amor do rei Mongkut do Sião e de Anna Leonowens, a perceptora inglesa dos seus filhos. A história verídica, baseada nos diários da inglesa, deu três filmes célebres: Anna and the King of Siam, de 1946, O rei e eu, de 1956, e Anna e o Rei, de 1999. Mas enquanto nós, ocidentais, fantasiávamos com o romantismo da situação, os tailandeses consideraram-na desde sempre uma ofensa e um desrespeito pela sua monarquia. Como resultado disto, os filmes foram banidos e nenhum deles passou nas salas de cinema do país. Mas a verdade é que ainda agora, à distância de mais de um século, se respira ali um irresistível clima romântico. De qualquer maneira, é curioso testemunhar a atracção que a estética e a cultura ocidentais exerceram sobre aquele longínquo e exótico monarca siamês (a decoração do palácio é totalmente europeia), a ponto de dar aos seus filhos uma educação mista que os preparasse para futuras alianças com o Ocidente. Uma nota: nunca entenderei a razão por que tive que descalçar-me e vestir uma saia comprida por cima da roupa (como todas as mulheres que ali cheguem de calças, calções ou saia curta) para visitar os aposentos reais, como se estes fossem um lugar sagrado ou místico que os turistas ousam profanar. Em vez de divindades, o que lá encontramos não pode ser mais terreno: pocelanas de Sévres, mobiliário vitoriano, gobelins, lustres e espelhos venezianos, cristais da Boémia… Enfim, influenciado ou não por Anna, a verdade é que o rei Mongkut deu a liberdade a um grande número de concubinas e melhorou substancialmente os direitos das mulheres no reino do Sião: com as suas reformas, acabaram os casamentos forçados e a entrega de mulheres pelos próprios maridos como pagamento de dívidas, por exemplo. Mais tarde, estas reformas foram ampliadas pelo seu filho e herdeiro do trono, modernizando e humanizando a estrutura da sociedade tailandesa.

 

E chego ao meu último dia em Bangkok, já com pena de ter de deixar a cidade. Troco as últimas compras por um programa prometido a um amigo e também muito apetecido: uma visita à embaixada portuguesa, autêntica pérola do nosso património diplomático. Atravesso as ruas num tuk-tuk veloz, que me deposita no portão verde decorado com o escudo português e se afasta, deixando-me sozinha e sem a menor garantia de um “abre-te Sésamo” que me faça ser recebida, já que não avisei previamente da minha visita. Mas tenho sorte (não a tenho sempre, afinal?): é o próprio embaixador quem me recebe, sorridente e solícito. E, nas duas horas que me separam do aeroporto, guia-me numa visita detalhada e exclusiva pela residência e pelos jardins, numa cavaqueira deliciosa e recheada de histórias sobre aquele importante baluarte da história portuguesa no Oriente, só por si digno de uma obra literária. É pelo embaixador António Faria e Maya que fico a saber que Portugal parece andar distraído (como sempre, acrescento eu…) quanto às comemorações da importantíssima efeméride que se aproxima: a passagem dos 500 anos sobre a chegada dos primeiros portugueses ao Sião, em 1511. Ao contrário da Tailândia, diga-se, que está a preparar os festejos com antecedência e orgulho e até já começou por oferecer a Portugal uma “Sala” (pavilhão tailandês cujo nome deriva da palavra portuguesa homónima), presente esse para o qual demorámos mais de um ano a encontrar local adequado, acabando por negar-lhe, ainda por cima, a localização lógica e nobre: os arredores dos Jerónimos e da Torre de Belém. Enfim…

 


 

Despeço-me de Bangkok com a certeza de que voltarei um dia. Num dos terminais do moderníssimo e descomunal Aeroporto Internacional de Don Mueang (o maior free shop que alguma vez vi) espera-me um pequeno aviãozinho da Bangkok Airways, todo pintado com figuras coloridas e hélices exteriores enormes, também pintadas. Não há duvida, estamos no reino do arco-íris. É este brinquedo que me levará ao meu próximo destino: Siem Reap, Camboja. 

 

 


Curiosidade: Bangkok (ou Banguecoque, na tradução portuguesa), é apenas uma abreviatura do nome completo da cidade, que consta no livro dos recordes (o Guinness) como o maior nome de cidade do mundo: Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit (กรุงเทพมหานคร อมรรัตนโกสินทร์ มหินทรายุธยามหาดิลกภพ นพรัตน์ราชธานี บุรีรมย์อุดมราชนิเวศน์มหาสถาน อมรพิมานอวตารสถิต สักกะทัตติยะวิษณุกรรมประสิทธิ์). Ou seja, "A cidade dos anjos, a grande cidade, a cidade que é jóia eterna, a cidade inabalável do deus Indra, a grande capital do mundo ornada com nove preciosas gemas, a cidade feliz, Palácio Real enorme em abundância que se assemelha à morada celestial onde reina o deus reencarnado, uma cidade dada por Indra e construída por Vishnukam".

 

 

(cont.)

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 16:45
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23 comentários:
De cristina a 14 de Novembro de 2009 às 20:06
Fantástica viagem...
Fico em alerta vermelho esperando o próximo post. :)
xx
De Ana Vidal a 16 de Novembro de 2009 às 18:37
Há-de chegar, Cristina...
Obrigada, mais uma vez. :-)

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