Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Expresso do Oriente (1)

 

Faço a mala com a expectativa e a excitação que em mim sempre antecedem as grandes viagens, despindo do espírito todos os pesos e amarras para que fique a condizer com a roupa que levo: só algodões e linhos, tudo muito leve, fresco e cómodo. Vou para o longínquo Oriente - Tailândia e Camboja -  onde o calor não dá tréguas, apesar da estação seca que começa agora. Levo uma mala grande mas meio vazia, sabendo de antemão que voltará bem cheia, dessas paragens onde as tentações consumistas são tão fortes como quase inconsequentes no orçamento. Um perigo, portanto. Junto-lhe, depois de uma última verificação, o imprescindível repelente de insectos (sou uma vítima habitual), o meu Ipod (para além de companhia no avião, tenho a secreta vontade de entrar em Angkor Wat a ouvir Beethoven), alguns medicamentos SOS e um livro que me faça esquecer as longas horas das viagens aéreas, já que não vou ter tempo para grandes leituras quando lá chegar. A escolha não é difícil e parece-me adequada: os Contos Orientais de Marguerite Yourcenar, pérolas clássicas que constituirão uma perfeita e suave antecâmara ao desafio que me aguarda do outro lado do mundo. Resolvo alguns assuntos de última hora e almoço com um querido amigo, embaixador em Bangkok por muitos anos e agora reformado, que me dá preciosas dicas e me enche de recomendações importantes. Tudo a postos, respiro fundo e estou pronta a começar a aventura. Primeira escala: Paris. A morrinha cinzenta do costume, a lembrar-me de que o charme também pode ser um suspiro e um arrepio de frio. Mas adiante. É tudo isso que deixo para trás, em troca de uma luz dourada e de um calor abrasador. Mas, sobretudo, em troca do desafio da eterna pergunta: o que será que me espera por lá? Pergunta que, aliás, engloba sempre o seu reverso: o que espero eu do que me espera? Se é verdade que todas as viagens são interiores, em busca de nós próprios (Pessoa dixit), desconfio de que esta me vai dar algumas respostas importantes. É com tudo isto fervilhando na cabeça que entro no enorme airbus da Air France, com a sensação de entrar numa espécie de máquina do tempo: começo a viagem em 2009, mas, quando chegar ao meu destino, o calendário dir-me-á que estou no ano de 2552.

 

(cont.)

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publicado por Ana Vidal às 09:02
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12 comentários:
De meunikaki a 11 de Novembro de 2009 às 08:33
Não me estranha que Pessoa disse-se que todas as viagens são interiores, em busca de nós próprios... ainda bem que se condiciona essa afirmação com um "Se é verdade...". Fico aliviado; as únicas viagens em que, julgo, estaremos em busca de nós próprios serão aquelas que repetimos, na esperança de encontrar o que lá, eventualmente, deixámos (um bocado de nós próprios, como diz a Ana).
Belo começo de diário, fica-se à espera de mais, naturalmente, que, de momento, ainda só se está a sair de Paris :-)
De meunikaki a 11 de Novembro de 2009 às 08:47
dissesse e não disse-se, natrualmente :-)
De meunikaki a 11 de Novembro de 2009 às 08:49
e naturalmente e não natrualmente. Isto hoje anda mal.... (ainda pensei escrever ainda mal...)
De Ana Vidal a 11 de Novembro de 2009 às 08:59
Meunikaki, é capaz de me dizer o que foi o seu pequeno-almoço? É que talvez tenha trocado a garrafa do leite pela do whisky... LOL

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