Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

Uma stôra especial


Ao fim de três dias de uma gripe que me deixou completamente afónica, e sem conseguir melhorar nada, rendi-me: trouxe o trabalho mais importante que tinha em mãos e fiquei em casa, "no choco". E, já que o fiz, reclamei tudo aquilo a que se tem direito nestas situações: torradas e chá com mel, um colar de algodão embebido em álcool para manter a garganta quente, xarope de cenoura (tudo isto são mezinhas da minha mãe, que por acaso até era médica...) e, last but not the least, a deprimente visão dos famigerados programas de televisão para donas de casa e reformados. Aguentei, afundada numa apatia de febre e ben-u-rons, quase duas horas de indescritíveis conversas e cantorias várias. Mas, quando já estava quase a cortar os pulsos, uma professora de português do ciclo preparatório salvou-me a vida. E o dia.
Tive a sorte e o privilégio de ter tido excelentes professores no ciclo (na altura chamava-se liceu). Vêm-me logo à memória alguns nomes, assim que penso nisso: Mariana Ginestal Machado, José Pita Soares, Manuela Geada, Luís Mourão, e tantos outros de quem retive melhor a figura do que o nome. Um desses casos foi, exactamente, uma fantástica professora de português, magra e esquálida, que de imediato foi baptizada de "Maria Ninguém" por associação com a personagem do Frei Luís de Sousa, que fazia parte do programa. Não me lembro do seu nome verdadeiro por essa razão, mas nunca mais esquecerei as suas aulas, transformadas em palcos empolgantes que ela improvisava, apaixonadamente, sempre que os textos se prestavam à representação. A essa professora devo, em grande parte, o meu gosto pelo teatro e pelos livros.
A professora que ouvi hoje na televisão - a propósito das conclusões sobre a implementação do Plano Nacional de Leitura - lembrou-me muito essa "Maria Ninguém", mas tem ainda muito mais valor, porque manifesta a mesma paixão por uma profissão que exerce em circunstâncias incomparavelmente mais adversas. Foi comovente o seu testemunho, a entrega total, o entusiasmo inquebrantável perante todas as dificuldades que encontra diariamente. E são muitas. Todos sabemos as dramáticas condições em que os professores ensinam hoje em dia, logísticas e psicológicas. É quase um milagre que consigam manter a sanidade mental, quanto mais o prazer de ensinar. Este caso - o de alguém que ensina a "língua mater dolorosa" há mais de 30 anos, e com a mesma paixão, é especialmente raro. De tal maneira ela foi eloquente que recebeu como prémio, de surpresa, o telefonema de um antigo aluno (hoje psicólogo), também ele comovido e declarando-se agradecido para sempre à sua antiga professora.
Mas talvez o que mais me impressionou nesta entrevista tenha sido o total desassombro desta mulher: ainda no activo, deu a cara e chamou "os bois pelos nomes", pondo o dedo numa eterna ferida, ao acusar de mediocridade e saloice os autores de programas pedagógicos completamente desadequados, que levam os alunos a afastar-se do prazer da leitura e os impedem de apreciar devidamente, mais tarde, as obras que são obrigados a estudar quando ainda não têm maturidade nem capacidade para entendê-las. Corajosamente, citou Pessoa ao classificar de "baba pedagógica" a infantilidade de alguns conteúdos, outro erro de que sofrem os programas. E acabou com uma frase com a qual concordo em absoluto: não há "disciplinas papões", o gosto ou o desinteresse dos alunos pelas matérias dependem sobretudo da forma como o professor as transmite, e da sua afectividade por essas matérias. Grande stôra!

publicado por Ana Vidal às 21:37
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3 comentários:
De ana vidal a 24 de Outubro de 2007 às 20:18
Foi essa mesma tese que aquela professora defendeu, com imensa coragem e sem poupar os seus "superiores". Fiquei com imensa admiração por ela, porque não deixa de fazer o seu trabalho com profissionalismo e paixão, e não cede ao cansaço e ao desânimo. Que devem ser brutais, hoje em dia. O testemunho do antigo aluno deu-lhe alento para outros 30 anos, se for preciso, e isso é espantoso.

Tenho imenso respeito pelos professores e não lhes invejo a sorte.
De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 19:54
Como professor, e visitante assíduo deste blogue, não queria deixar de enviar o meu agradecimento por encontrar alguém que, a propósito de uma professora, refere o quanto o trabalho dos professores hoje é difícil. E é difícil por muitas razões. Nem todas essas razões estão dentro das escolas, como sabemos. A escola é um cais, um porto, onde tudo chega e de onde tudo parte. É um lugar de encontros e
desencontros.
Infelizmente, quem tem o poder para tomar decisões ainda não percebeu nada disto.
De Sofia a 24 de Outubro de 2007 às 10:39
Bom texto, Ana! Os professores que nos marcam ficam para sempre! Acho que gostei sempre mais de português e de história pelas professoras que tive, menos de matemática e ciências pelas belas peças que me ensinavam! Imagina que uma, de português, até me levou a conhecer o António Ramos Rosa e o pôs a escrever poesia para mim e a fazer desenhos - como não gostar? Os professores são tantos que, durante a vida, marcam-nos os bons e os piores, os ridículos! E eu que também ando nestas artes de ensinar, ando a tentar ver se marco a vida de alguma das minhas crianças! Pode ser que sim... um dia, alguém fale de mim num desses programas de domésticas!

beijinhos

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