Sábado, 10 de Outubro de 2009

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João de Bragança

 

Começara com o Meccano dos irmãos mais velhos depois de ter sentido a magia do Lego, não para a construção de casas, mas para a concepção de espaços industriais – “fábricas para fazer coisas”, como dizia - numa idade em que a normalidade estatística recomendaria o desejo do sexo oposto.

Passara, então, para os electrodomésticos. Numa primeira fase, com a perspectiva da autópsia e, numa segunda, com uma dimensão de curandeiro. Acabaria, se é que a expressão se pode utilizar em quem está no início da vida, a esmiuçar carros, numa dissecação cientista dos vários órgãos.   

O curso de engenharia mecânica veio como corolário lógico de uma mente e de umas mãos voltadas para as máquinas e equipamentos, electrónica e circuitos afins. Quando se instalou no bairro provocou aquela estranheza que por vezes antecede o respeito ou o sorriso. De facto, não era costume ver uma mulher – ainda para mais relativamente nova – à frente de uma oficina de automóveis.

Mas Andreia, com uma cara bonita num corpo equilibrado, impôs-se num mundo quase exclusivamente masculino. Se fosse preciso gritava, descompunha um empregado, falava-lhe de igual para igual – em termos de conhecimento, é claro, porque a hierarquia nunca foi questionada. Este convívio indiferente só com homens, totalmente imune a olhares concupiscentes de clientes e mecânicos (porque a relação profissional não inviabiliza o desejo) acabou por sujeitá-la a algumas suspeitas de orientação de vida íntima menos ortodoxas… Tornara-se, acima de tudo, numa mulher dura e intransigente. 

Duas vezes por mês, no recato de sua casa, Andreia recebe Madame Odille, uma francesa que tem o privilégio de umas mãos de fada e de uma sensibilidade de artista. Durante uma hora e meia a garagista aprende tudo o que é possível sobre pintura: os estilos, a história, a aguarela, o pastel, o lápis. Tem uma única exigência: os últimos trinta minutos são dedicados em exclusivo ao retrato, mesmo sem a presença de um modelo. Nos olhos de Madame Odille há um cintilar de desconfiança sempre que olha para um esboço ou uma obra acabada. É como se houvesse uma qualquer nota dissonante, ainda que essa dissonância esteja numa constância a que alguns chamarão monotonia. A mestra pressente, mais do que evidencia. Talvez seja dos seus 70 anos, de uma visão menos boa, de uma mão mais incerta, de uma memória que já tem dias.

Na sala onde há muito só entra a professora, Andreia, já sozinha, abre a gaveta da cómoda e espalha os retratos que tem vindo a pintar ao longo do último ano. A evolução é visível: as sombras, a perspectiva, a firmeza e a agilidade, o amor ao preto e branco. Estão lá, se calhar, 20 esboços, uns mais acabados do que outros. São todos do mesmo homem, e quase todas na mesma atitude: uma boca bem desenhada ainda que não especialmente bonita, um cabelo grisalho e ondulado, uns olhos infelizes que olham no vago, uma mão que se adivinha abandonada. Andreia olha-os com nostalgia. Põe uma música triste e chora sozinha, abandonada numa ilusão de dureza que ficou à porta da oficina.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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4 comentários:
De Ana Vidal a 10 de Outubro de 2009 às 15:43
Passamos do erotismo à nostalgia misteriosa! Gostei, João.
Fiquei a pensar em quem será esta Andreia do nosso bairro, que não estou a ver...
:-)
De JdB a 11 de Outubro de 2009 às 18:59
O erotismo voltará, Chefe. Mas agora fica esta nostalgia misteriosa, como lhe chamou. Porque o bairro também se compõe disso. Obrigado.

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