Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

"Soltem a Parede!" 

 

Se houvesse um top para o outdoor mais espatafúrdio da propaganda para as Autárquicas, aquele seria o número 1.

 

Em frente à Praia da Parede, e também num outro meio escondido atrás de um majestoso ulmeiro no Parque Morais, aparecia a patética figura de Ambrósio Teodoro, esgueirando-se por um buraco recortado no esferovite e ao lado, num estilo gráfico a fazer lembrar o "Star Wars", a frase "Soltem a Parede!" apelidada pela oposição de "slogan sem pés nem cabeça inspirado num concurso apresentado por um sem-pescoço".

 

Pondo-se a jeito dos seus inúmeros detractores, Ambrósio aparecia no cartaz como que vestido à Noddy, de camisinha Hugo Chavez vermelha, calções Pinto da Costa azuis e gorro Malan Bacai Sanhá na cabeça, um gorro que usava tanto na fila do Minipreço como numa ida à ópera, porque havia que desviar a atenção de uma calvície de aparência bizarra, que ganhava terreno acima das orelhas e junto à nuca.

 

Ambrósio Teodoro, 65 anos, paredense de gema, tinha fundado o MISPA - Movimento Independente Soltem a Parede três meses antes, numa casa de banho do MacDonald's a meio de uma convulsão intestinal após ter amarfanhado três Big Mac's.

 

A família foi a sua base de apoio.

Tal como dizia a matriarca dos Cadaval y Teodoro, Benedita, 126 anos de vida, "enquanto o Ambrósio estiver entretido a chatear os paredenses, não nos chateia a nós".

E o seu avô, nascido em 1834, batia-lhe nas costas e concordava com a sua menina, antes de sair para o seu jogging matinal.

 

A imbecilidade dos Cadaval y Teodoro tinha origem desconhecida.

A longevidade poderia se alicerçar na inquestionável virtude dos ventos marítimos que embalavam a Parede ou, quiçá, numa alimentação equilibrada onde os iogurtes e as saladinhas de pinhão davam o mote.

 

Ambrósio Teodoro era a excepção à regra.

Devorava pizzas, massas, hamburguers, pataniscas de bacalhau, pipis e moelas, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte.

 

Agora andava na fase das sandes mistas, só para se ufanar com um gutural "quero uma sandes mista! Mista não! MISPA!" diante dos empregados, metamorfoseando-se entre freguês e caçador de fregueses para a sua freguesia.

 

Na Parede, em Cascais, no Estoril até, todos conheciam, desprezavam e apedrejavam Ambrósio Teodoro, figura de repulsiva imagem, abominável carácter e flagrante inconstância política.

 

Tinha vestido e despido todas as cores.

A camisola do PSD.

Do PS.

Da CDU.

Defendera os Khmers Vermelhos, o Black Power, a Squadra Azzurra, o Greenpeace, e até o cabelo do Herman.

 

Valha a verdade, Ambrósio nunca desistiu.

E aí está ele a concorrer à Junta de Freguesia da Parede com o seu MISPA.

 

Não estranhe se encontrar na Parede cartazes com uma bizarra figura com os seus 210 quilos, apertados numa parede recortada de esferovite, parecendo grávido de uma ninhada de São Bernardos.

 

Mais que o "Soltem a Parede!", parece um "Soltaram o Godzilla!", uma espécie de alerta da Protecção Civil para todos os paredenses.

Salve-se quem puder.

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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1 comentário:
De Luísa a 10 de Outubro de 2009 às 13:39
João Paulo, como não tenho acompanhado esta campanha – a das legislativas esgotou-me a resistência para alguns anos – não consigo perceber se o Ambrósio Teodoro é uma figura real. Mas que o Portugal autárquico parece muito povoado de Ambrósios Teodoros , lá isso parece. E que a sua conclusão é a que, nas circunstâncias, se impõe, lá isso é! :-)

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