Domingo, 4 de Outubro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O nosso convidado de hoje é um homem simples, mediano e apagado, sem nenhuma particularidade que atraia a atenção. Tanto que, em décadas de coincidência na mesma pastelaria do bairro em que ambos morávamos, e onde toda a discrição sucumbia às afáveis extroversões do senhor Silva* que tirava os cafés, nunca me deu nas vistas. O nosso convidado era um homem votado, na opinião local, a um destino sem história, linear e ortodoxo – salvo talvez no casamento, em que não é atípico que os homens mais triviais estabeleçam as associações mais sui generis. Assim aconteceu, de facto: tomou por mulher uma criatura ambiciosa, de aparência determinada e viril, que, segundo a vizinhança, não lhe fez a folha, mas certamente lhe compôs a agenda. Falatórios de vizinhança valem o que valem. Mas é verdade que, de repente, este homem que soubera, antes de Abril, fazer uma oposição judiciosa e, depois de Abril, conduzir pela esquerda de forma prudente e reflectida, se viu alçado às posições de maior relevo nacional, assumindo, em sequência ininterrupta, lideranças várias, do partido e da câmara ao próprio Estado. Adianta a vizinhança – sempre maledicente – que, no turbilhão dos pesados compromissos e responsabilidades, terá descoberto a competência de uma boa garrafeira de maltes. Mas não foi por isso que se tornou o Truman português. Se soltou a «bomba atómica», não foi por inspiração de um Cardhu, nem pelas razões que aduziu e que os anos já desmistificaram. Foi, sim, porque tinha uma dívida a saldar. Nem se pense que os lugares cimeiros da hierarquia do poder se alcançam, em Portugal, por mérito próprio; e que não há preços elevados a pagar.

 

«Reformou-se», entretanto, e usufruía, até há pouco, do sossego que é apanágio das lutas subtis. Mas eis que o diabo lhe reaparece a tentá-lo com o domínio, senão do planeta, do nosso jardinzito à beira mar plantado. Pressente-se nele alguma resistência, mais por preguiça do que por virtude. Nós é que não resistimos a saber o que lhe vai na alma e a tentar antever o que pode esperar-se da próxima corrida presidencial.

 

Recebemo-lo, pois, aqui na Porta, com o aconchego de um creme de coentros, aromatizado com azeite de noz-moscada. Tentamos, de seguida, emocioná-lo com umas almôndegas de mil sabores portugueses, acompanhadas com arroz de alho e regadas com um vigoroso tinto alentejano. E adoçamos-lhe, finalmente, a boca com uma sobremesa de peras cozidas em Porto seco, perfumadas com calda de chocolate negro. Se até essa altura não apurarmos as suas intenções, entram os digestivos. Temos pronto um pelotão de experimentados whiskies, capazes de arrancar confissões a um mudo… e, se nos diz que se candidata, de afogar a nossa profunda mágoa.

 

*Nome deliberadamente ficcionado, para que não haja rasto que ameace o anonimato das nossas fontes.

  

publicado por Ana Vidal às 10:00
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7 comentários:
De Ana Vidal a 4 de Outubro de 2009 às 13:55
Luísa, tenho um especial carinho pelo nosso convidado de hoje, como já lhe contei. O nome de "cenourinha" que a Fugi refere (na verdade, era "carotte") foi a minha mãe que lho pôs quando ele era miúdo. Os pais dele eram muito amigos dos meus avós e também vizinhos, em Sintra. É um homem que admiro por várias razões, entre elas por ter tido uma vida pública que encarou como missão ou serviço, tenho a certeza, porque nunca me parece que a tenha desejado.
Logo à noite vou pedir-lhe que confirme algumas das histórias que sempre ouvi sobre ele e o igualmente famoso irmão ...
;-)
De fugidia a 4 de Outubro de 2009 às 23:33
O irmão é um excelente profissional: será que dá para o convidar também? :-)

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