Sábado, 3 de Outubro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

 Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores, e das velas que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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6 comentários:
De Luísa a 4 de Outubro de 2009 às 01:23
João, custa-me imaginar um empregado de um «rent-a-car» com tamanha indiferença pela farpela. Mas já imagino um advogado – porque o conheço – que é, ou era assim. A primeira vez que o vi, tinha associadas umas calças «brique» com um blusão grená. Não era uma combinação chocante, mas também não era ortodoxa e patenteava – o que depois confirmei - um completo desinteresse pela harmonia das cores no vestuário (só aí). Com o tempo e alguma suave pressão, o desinteresse evoluiu para um interesse moderado, suficiente, em todo o caso, para revelar um inesperado bom-gosto. Somos todos do mesmo bairro, é verdade. :-)
De Ana Vidal a 4 de Outubro de 2009 às 14:00
Também conheço um assim, Luísa. E... coincidência: também é advogado. Será da classe? ;-)
Confio nos bons resultados que uma "suave pressão" venha a ter, com o tempo. A coisa parece estar razoavelmente encaminhada. O seu exemplo de sucesso deu-me alguma esperança... lol
De agenor a 4 de Outubro de 2009 às 03:05
Boa noite, JdB .
Tenho pena desta Cristina. São só limitações: não conhece a totalidade do guarda roupa do namorado, encontra-o vestido sempre com o mesmo fato, repetindo os mesmos lugares comuns, na última quinta feira de cada mês. Coitada!...

Quanto ao Carlos, não sei bem o que pensar dele... Interrogo-me: será indiferença pela farpela ou manifestação de uma natureza inconsistente?



Aproveito para lhe dizer que tenho lido as suas crónicas todas as semanas, com crescente interesse e muito gosto. Gostei, particularmente, do Sr. Josué da semana passada, desajeitado e agreste. Esse, pelo contrário, não me suscita quaisquer dúvidas. É de um bairro que conheço...
De Ana Vidal a 4 de Outubro de 2009 às 14:10
João, estou com a Luísa: o daltonismo não escolhe profissões (podia ser esse o caso), mas o desinteresse pelo vestuário não parece muito provável num vendedor.
De qualquer forma, é comovente a preocupação da indumentária com a única pessoa que não pode apreciá-la devidamente. Mas isso prova que o nosso Carlos é um homem cuidadoso e atento em questões de cenografia, até pelo cuidado que põe na criação de uma penumbra que só a ele poderá inebriar os sentidos e convidar ao erotismo... ;-)
De Sun Iou Miou a 4 de Outubro de 2009 às 21:09
Acho que a Cristina devera conhecer nas pontas dos dedos, na palma das mãos inteira, na pele toda do corpo a loucura ou erro da vestimenta do Carlos. A rotina esmaga.
De JdB a 5 de Outubro de 2009 às 12:00
"Violando" um hábito saudável e educado deste blogue, responderei a todos os comentadores em simultaneo. Espero que não me levem a mal, mas estou em São Paulo com acesso limitado à net.
Obrigado por todas as visitas. Algumas notas:
- o Carlos é funcionário administrativo e tem um uniforme que usa todos os dias;
- a rotina mata, não há gente assim, coitada da Cristina, e etc. é tudo verdade, mas não no meu bairro, porque aí há de tudo, é capaz até de haver floristas que recitam Shakespeare e electricistas que com cursos de história da arte. A dificuldade é que nem sempre me lembro deles...
Adeus, ate a meu regresso...

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