Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

Manual para Escritores Lobisomens 

 

O que é necessário para se ser escritor?

Um misto de esforço e talento?

Imaginação desenfreada ou um caldeirão de vivências?

Viver exilado numa ilha vulcânica ou encetar relações íntimas com jovens escritoras brasileiras?

Ou, mais prosaicamente, um título que inclua a palavra "sexo"?

 

Não me leve a mal quem escreve profissionalmente e que ociosamente (em insano instante) me lê, mas dou grande relevância à última hipótese.

 

Não que seja necessário escrever a palavra "sexo" em todos os títulos, de todas as capas, de todos os livros, mas porque um bom título faz toda a diferença.

 

Espreite-se a obra dos dois pesos-pesados da literatura nacional, José Saramago e António Lobo Antunes:

 

Saramago é metafísica agnóstica com os seus "Ensaio Sobre a Cegueira", ou "O Homem Duplicado", ou ainda "o Evangelho Segundo Jesus Cristo".

 

Lobo Antunes é psicologia poética com títulos como o neófito "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?"

 

Se quereis ser um Lobo da literatura, devereis atentar na necessidade de nomear uma obra com ideias aparentemente desconexas.

Cavalos no mar que fazem sombra aos peixes é, apesar de estúpido, brilhante.

 

"Que Farei Quando Tudo Arde? " resulta melhor na época de incêndios e "Eu Hei-de Amar uma Pedra" soa a toxicodependência, mas é tudo de uma imaginação prodigiosa que causa inveja nas entranhas de esforçados blogueiros como o pateta que escreveu estas linhas.

 

Há mais.

"Exortação aos Crocodilos", "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura", "Os Cus de Judas" e por aí fora, numa demonstração de genialidade ímpar ou de consumo regular de estupefacientes.

 

Tentei snifar estes inspiradores sopros de talento, sem recurso a alucinogéneos e, ainda sem sinopses, esboços, rascunhos ou sequer rabiscos, tratei já de nomear os meus primeiros livros.

 

- "Morreu-se-me o Amor Quando Chamo o teu Nome"

 

- "Aos Olhos do Céu os Homens Cegam na Terra"

 

- "As Cores da Alma Quando Canta"

 

- "Banho de Prata ou Chuva de Limalhas"

 

- "Já Se Matam Saudades Com Abraços de Urso"

 

Como se vê, não é fácil trilhar caminhos para ser um escritor Lobo.

Talvez seja mais livre de escolhos a perspectiva de ser um Lobisomem Escritor.

 

Seguir o sangue quente dos passos mundanos dos génios da literatura, quiçá namoriscar uma brasileira bem jovem, torneada sim, boas formas, mas melhor conteúdo, onde a inteligência abunda.

A bunda, sim.

Escritor é homem de grande ego, de grandes coisas.

 

O que é, então, necessário para se ser escritor?

Talvez um misto de Lobo e Lobisomem.

 

Não hei-de amar uma pedra mas escreverei, garantidamente, um livro intitulado:

"Em Terras de Verdade, Dar Abunda".

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 10:00
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6 comentários:
De Ana Vidal a 2 de Outubro de 2009 às 13:55
Clap, clap, clap! JP, se dúvidas houvesse, a tua presença no dia 17 (ou é 16, afinal?) está plenamente justificada com este fantástico post.
É por estas e por outras que sou tua fã.

(nada destes elogios têm que ver com o Moscatel e as tortas de Azeitão que nos vais trazer, claaaaaaaaaro...)

Beijos literários
;-)
De João Paulo Cardoso a 2 de Outubro de 2009 às 15:34
Margarida e Ana:

Meu Deus, elogiam-me!!
O que fazer?

Ruborizo, claro.

Neste momento há uma fila de carros à minha frente, à espera que o sinal abra.

Não me importo de ficar aqui, prenhe de vermelhidão, se os encómios continuarem a fecundar-me o ego.

Sabe bem.
Os carros que esperem.

Ah, e muito obrigado.


De Sun Iou Miou a 2 de Outubro de 2009 às 17:01
Atende ao trânsito, meu, não vais mesmo levar na bunda (do carro, dou por suposto que não vais de mota, porque então...!).

Podes rir, mas por títulos assim é que vendo eu a minha alma, uivo nem que for em noites a-luadas e fico sem depilar três anos (as unhas -das mãos no mínimo-, permita-se-me, devo recorta-las, que não consigo escrever no teclado). Já te digo, o mais complicado é sempre escolher o título: tens o noventa por cento do trabalho feito. A glória é tua.

O escritor é Lobo para o escritor.

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