Sábado, 26 de Setembro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

- Dá-me 1 kg de bifes, Sr. Josué? Mas importa-se de os cortar fininhos? E de me tirar a gordura antes de pesar?

- E quer que eu lhes faça uma massagem também? Ou uma lipoaspiração? Se quer fininho fale com o Rui Veloso, que essa música era dele.

Ou então:

- A carne é boa, Sr. Josué? Queria uma peça macia mas barata, que o tempo não está para mais.

- Ah sim? E mais alguma coisa? Um bilhete premiado, talvez? Mas que eu lhe oferecesse, é claro, que o tempo não está para mais…

Os diálogos como o dono do talho não variam muito. Pedidos simples respondidos com frases agrestes, simpatias matinais retorquidas com azedumes permanentes. Ao Sr. Josué vale-lhe a qualidade da carne, além de não haver alternativa num raio de quilómetros. A freguesia no talho não diminui, só diminui a esperança de que o feitio do talhante melhore. Os dias passam e nada acontece, para além da carestia da vida, das pensões de miséria, do preço dos medicamentos, do desrespeito das gerações mais novas. No Sr. Josué, tal como na Nação, já muitos descrêem uma mudança.

Duas vezes por mês, às 4ªs feiras, o talhante despede-se da mulher com dois beijos rotineiros e um até logo indiferente. D. Lucília, sentada num sofá a descascar favas e a ver a novela do fim de tarde, repete-lhe a pergunta quinzenal com o interesse das coisas vagas:

- Vais jogar sueca?

- Sim, vou.

Por volta das onze da noite o Sr. Josué, comerciante agreste que tem do serviço ao cliente uma visão muito própria, entra em casa e saúda a mulher com outros dois beijos curtos, com uma intensidade e afecto só muito ligeiramente diferentes. As favas estão descascadas mas a saga da novela continua – outros personagens, outros cenários, outro enredo.

- Ganhaste?

O talhante não devolve o olhar porque D. Lucília não olha para ele, que o seu interesse está em saber se a outra do conde ascenderá a esposa legítima. O olhar do talhante atravessa paredes e pessoas e pára num ponto no infinito que só ele vê. Há uma hora, um local, um personagem e uma actividade que definem as coisas da vida de cada um, mesmo se resguardadas de olhares terceiros: entre as seis da tarde e as dez da noite, às 4ªs feiras e duas vezes por mês, o industrial das carnes cortadas a jeito, um lar de idosos perdido nos arrabaldes da sua freguesia. Ali, na miséria da terceira idade abandonada à sua sorte, há velhos a precisarem de banho, de uma muda de fraldas, de casas de banho lavadas, de camas mudadas, de sopas ralas dadas em bocas sem dentes.

- Ganhaste?, repete a esposa do Senhor Josué, esperançada na ascensão da amante a condessa com palácio e gelo permanente no balde.

Dos olhos do homem que retira a gordura antes de pesar os bifes rolam duas lágrimas grossas, pesadas, cheias de sentimentos contraditórios.

- Talvez mais do que mereça…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

 

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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12 comentários:
De rita ferro a 26 de Setembro de 2009 às 15:25
Caramba, arrepiaste-me! Já dominas a técnica do Conto, com esses finais embargantes. Parabéns, vizinho amigo, português, escritor e tradutor, pai de família, cristão.
De JdB a 26 de Setembro de 2009 às 21:28
Serei isso tudo, com melhor ou pior desemepnho. Gostaria mais de dominar a técnico do Euro, passe a piada fácil.
Obrigado pela visita e pelo elogio, escritora de renome.
De Ana Vidal a 26 de Setembro de 2009 às 15:43
Fantástico texto, João. O Moleskine vai de vento em popa, parabéns!
E quanto ao Sr. Josué, além de boa pessoa (é uma lição para não julgarmos ninguém apressadamente) pode até ser antipático, mas tem imenso sentido de humor nas respostas aos pedinchas dos bifes limpos...
bjs
De JdB a 26 de Setembro de 2009 às 21:30
Obrigado Chefe. Dos pecados da carne não se sabe, mas que os bocados de carne são bons parece já não haver dúvidas. E o sentido de humor cativa sempre a clientela.
De Luísa a 26 de Setembro de 2009 às 19:33
Gostei muito, João. E como somos todos do mesmo bairro, vasculhei na minha rua e descobri que o seu senhor Josué do talho é o meu senhor Zé da leitaria da esquina. Um homem bronco, áspero, intimidativo, mas sincero e capaz de comoventes delicadezas. Julgo, no entanto, que ambos são uma espécie em extinção; que cada vez há menos gente assim, com esses vícios temperamentais e essas qualidades da alma portuguesa em estado bruto. No perímetro urbano, pelo menos, parece-me que estão a ceder rapidamente lugar àqueles que proclamam grandes causas altruístas, mas não praticam, nem as pequenas. ;-)
De JdB a 26 de Setembro de 2009 às 21:35
Obrigado, Luísa. Estou certo de que o meu bairro vista à lupa do moleskine, como o seu, pelo diafragma (ainda existem?) de uma máquina privilegiada, ainda fogem da mediania nacional. Porque o encanto não está no talhante, no leiteiro, no homem que vende revistas. O encanto está nos nossos olhos e na forma como os vemos e nas vidas que lhes inventamos. Olha que sortudos... Quanto à "extinção", hélas! terei de concordar consigo. Uma corja!, gritaria o Eça.
De rita ferro a 26 de Setembro de 2009 às 20:56
João, estás em casa?
De JdB a 26 de Setembro de 2009 às 21:35
Sim, estou. queres um ramo de salsa?
De rita ferro a 26 de Setembro de 2009 às 21:13
Olá, boa noite a todos, estou cansada.
De JdB a 26 de Setembro de 2009 às 21:36
Deite-se e repouse. Medite e beba uma tisana.
De DaLheGas a 26 de Setembro de 2009 às 22:30
Um bife... do lombo meu amigo! Obrigada :)
De Ana Paula Motta a 28 de Setembro de 2009 às 17:59
O texto fez-me lembrar de um tio, meio rude e bronco, mas com um coração imenso.

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